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Leitura sectorial das legislativas

por João Pedro Pimenta, em 11.10.19

Por razões infelizmente mais relevantes não pude dar no momento a atenção que as eleições mereciam. Mas não deixei de olhar bem para os resultados, e logo à partida, antes das previsões da Geringonça, da resistência do PSD, do desastre do CDS e da multiplicação dos PANs, reparei na entrada dos três novos partidos no parlamento, das diferenças entre eles e das semelhanças.


Um é liberal clássico/libertário, outro de direita musculada e populista e outro de esquerda europeísta (e um pouco africanista) e semi-radical. São por isso muito diferentes ideologicamente falando. Mas têm em comum não terem grandes figuras mediáticas, mesmo se o Chega tinha um comentador da bola; e se repararmos bem, o Livre, há quatro anos, tinha carradas de gente conhecida e falhou com estrondo. Desta vez o Aliança, comandado por um dos políticos mais conhecidos deste país (e que ainda há dois anos era o mais desejado pelo PSD para a disputa da câmara de Lisboa), teve um resultado patético para as expectativas a que se propôs.


A outra grande semelhança é que quase não têm sigla nem a palavra "partido" no nome. Nenhum deles. É significativo quanto ao prestígio dos partidos tradicionais e das designações mais simples que os substituem.

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Então e o PAN?

por jpt, em 08.10.19

Na azáfama dos resultados eleitorais o PAN, apesar de crescer bastante, perdeu alguma visibilidade. As pessoas discutem o comentador Ventura do CHEGA (João Pedro George mostrou impressivos trechos do seu romance), a não-única nem primeira deputada negra do LIVRE (Alexandre Pomar é proto-lapidado por se incomodar com a sua gaguez, Paulo Pedroso saúda a sua proposta de uma nova lei de nacionalidade - o desvelo do PS com o PEV, perdão, com o LIVRE é notório) e há vários encomiásticos perfis biográficos do deputado Cotrim de Figueiredo, do IL, para além de inúmeras notas sobre as minudências dos partidos maiores.

Nisso esquece-se o PAN. E só agora percebo que em Setúbal os eleitores elegeram esta Cristina Figueiredo. No passado 30.9 partilhei no meu mural de Facebook este trecho de entrevista, espantado com a impreparação, o vácuo e a arrogância desta candidata, denotativos do pobre partido em que havia surgido. Mas nunca me passou pela cabeça que viesse a ser eleita. E foi! Os eleitores de Setúbal puseram esta mulher no parlamento. E ela não vem das "juventudes" nem é familiar de algum poderoso dos aparelhos dos grandes partidos que a houvesse colocado num qualquer lugar laboral, como tão costume vem sendo. É um rosto de um novo partido.

Que catastróficos plantéis, pessoais e intelectuais, dos partidos tradicionais para que a "novidade" atractiva seja esta. Patética.

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O meu rescaldo das eleições

por jpt, em 07.10.19

costa.jpg

1. Antes de tudo os dois vencedores: o PS; António Costa. A ordem é arbitrária. Os que, como eu, não gostam bem que podem botar o rol de coisas que consideram criticáveis: o controlo da justiça; e o da comunicação social, a estatal e a privada; a rede familiar no aparelho político; a (indi)gestão dos fogos rurais; a continuidade da austeridade; a perene inexistência de um verdadeiro desenvolvimento nacional; as constantes diatribes governamentais, a errática política africana, etc. Mas o que é certo é que a população votante aprecia. São as pessoas alienadas e ignorantes, ou vice-versa? Essa explicação pulidovalentesca, por mais que atractiva em dias de irritação, é vácua. A força sociológica do PS não é conjuntural e é fortíssima. E um "partido" não é uma "frente" ou um "movimento", é um "partido" mesmo que tenha uma retórica "nacional". O PS, tal como os outros, é um partido, portanto ligado a interesses preferenciais, e está imensamente ancorado no país. Lapaliçada? Talvez, mas há muitos que o esquecem. E Costa é muito hábil. Competente. Reproduz e engrandece essa base sociológica. Está para durar, excepto se houver um "arrefecimento global" económico-financeiro.

2. Foi um straight flush: PSD atarantado - já o estava e Rio sublinhou-o no penoso discurso final, exactamente igual ao de Jerónimo de Sousa, feito antes: disse ele que o PSD foi alvo de campanha da imprensa, de difamação até; que o PSD apresentou propostas detalhadas em todas as áreas temáticas (como se isso não fosse o trivial num partido daquela dimensão); que o PSD divulgou essas propostas em campanha; e que as profecias da hecatombe do PSD foram exageradas. A efectiva similitude com o discurso do secretário-geral do PCP foi mais que patética, pareceu mesmo plágio. CDS esmagado. PCP amarfanhado. BE reduzido - por mais que anunciem vitória os resultados não foram os que esperavam, e perderam 60 mil eleitores, uma boa quantidade desses para o rival mais próximo, agora neo-parlamentar. E nenhum dos pequenos partidos ficou imprescindível para futuras negociações.

Melhor para o PS/Costa seria mesmo muito difícil. E o óptimo é inimigo da ... maioria absoluta.

3.  A comunicação social trata o BE com cuidados inexcedíveis. Até quando? Vi a noite eleitoral na estatal RTP.  Ali José Rodrigues dos Santos, que tanta esquerda apoda de reaccionário (ou mesmo "fascista") várias vezes falou do resultado daquele partido, afirmando que não tinha crescido. Mas não foi capaz de dizer que o Bloco de Esquerda perdeu cerca de 60 mil votos. E na intervenção final do painel de comentadores Marisa Matias conseguiu dizer que "não há crescimento", sendo que o jornalista (do Estado) não a fez enfrentar os resultados. 

Mas isso são as coisas que todos viram. Deixo também os meus apontamentos pessoais, para quem tenha paciência/interesse:

4. Fui votar bem cedo, aqui na vizinhança onde cresci e agora vivo, na escola onde votavam os meus pais e eu sempre votei. Faltava gente nas mesas de voto - isto no centro de Lisboa, freguesia Olivais -, e vizinhos conhecidos convocaram-me para ajudar. Não tive "lata" para dizer que não - ainda para mais já tendo feito várias eleições no estrangeiro. E assim passei o dia numa mesa de voto, integrando uma simpática e funcional equipa de verdadeiros veteranos desta actividade - gente com 30 anos ou mais disto, entenda-se. Por eles vim a saber que este trabalho, afinal, é remunerado. Ou seja, ganh(ar)ei cerca de 50 euros pela missão cívica. E nisso percebi porque faltavam pessoas na alvorada eleitoral: pois a junta de freguesia pagara o trabalho feito nas eleições europeias apenas na sexta-feira anterior ... Cá se fazem, cá se pagam, diz o povo na sua infinita sageza.

Fiquei como escrutinador na mesa dos "Manuel" e das "Maria" - e saí impressionado com a dimensão do voto geronte. A freguesia é muito envelhecida, e isso nota-se à vista desarmada (Há quase uma década, quando vivia em Moçambique, cá viemos de férias e a minha filha, com cerca de 7/8 anos, perguntou-me, impressionada, "pai, porque é que há tantos velhos em Portugal?"). Entenda-se, saí do dia naquela mesa de "Manuel" e "Maria" (mas também de "Marco" abstencionistas) impressionado com a dignidade de tanta gente já tão frágil que não se dobra, e vai botar a sua opção. Numa taxa de abstenção bem abaixo da nacional, menos de 35% numa mesa de 940 eleitores. Impressionado também com a minha extrapolação, a do conservadorismo óbvio que um eleitorado assim composto transportará em termos nacionais, mas isso é outra conversa.

5. Eu anunciara em quem iria votar. Fi--lo no meu blog, sem o reproduzir aqui pois não me parece curial usar um blog colectivo para algo que poderia ser considerado como campanha política. No fim do dia eleitoral pude perguntar-me sobre se vale a pena que aqueles que não têm actividade política explícita escrevam sobre política. E confirmei que vale, mesmo: eu havia blogado que votaria no Aliança, pela chã razão de que tenho apreço pelo "panache" do Santana Lopes, na sua óbvia crónica de uma morte política. Fui assim até à mesa de voto, boletim já na mão. Hesitei. E mudei. Por influência do João Caetano Dias, o enorme bloguista do saudoso "Jaquinzinhos", em particular deste seu texto. Não sou grande fã dos hiper-liberais, nem nunca li com apreço os grandes blogs liberais, tamanho o desvario de muitos dos seus escribas - de facto reaccionários nada liberais. E a divertida campanha do Iniciativa Liberal fez-me desconfiar, pareceu-me uma espécie de Bloco de Direita, se nos lembrarmos dos tempos iniciais do BE.

Mas o país precisa de mudanças. Redução do estatismo, económico e cultural. Combate ao clientelismo. E à verdadeira criminalização do Estado, que o PS praticou neste XXI e procura apagar (e talvez reproduzir). A chegada de uma geração mais nova, apesar de tiques nada liberais ("aumento das penas de prisão" para quê, num país com a tipologia e a incidência de criminalidade que Portugal tem?), com ideias que afrontam o Bloco Central, herdeiro do corporativismo do Estado Novo, é salutar.

Ou seja, já com a sebenta Bic na mão desviei o voto. E no ínfimo do meu voto colaborei nesta inovação. Obrigado, grande jcd, desde sempre um dos meus dois bloguistas preferidos, pela provocação intelectual. Agora é ver o que esta nova via pode influenciar.

6. Chegado a casa, algo cansado, comi uma febra reaquecida (que viera na antevéspera num doggy bag). E vi o que todos já sabem: que os partidos racistas CHEGA e LIVRE elegeram cada um o seu deputado. O que anuncia que as suas pérfidas agendas virão a ser agregadas por outros partidos competidores: em particular o BE que já viu parte do eleitorado deslocar-se para esta eleição - algo decerto maquinado pelo PS, tal era a ironia de Costa saudando o novo partido parlamentar -, e o CDS, que procurará disputar a direita conservadora. A ascensão destes racismos à assembleia é a grande derrota da democracia portuguesa. E que cada um de nós, democratas, escreva o que puder, resmungue o que entender, contra essas excrecências. Pois, como digo acima, nem que seja apenas para "convencer" um compatriota justifica-se tomar posições.

 

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