Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Diário de viagem: Capítulo 10

De novo no Cairo e a despedida com a cereja no topo do bolo

Maria Dulce Fernandes, 24.04.25

IMG_1835.JPG

Chegámos ao Cairo no final do dia, cansados mas encantados também. Tinham sido quase duas semanas maravilhosas, esgotantes, mal dormidas, mas a aventura esteve presente em cada passo, em cada esquina, em cada hieróglifo, em cada sombra, em todos os cartuxos e nos sorrisos lindos de gente que tinha tudo para ser  triste, mas sorria sempre à vida.

IMG_2529.JPG

IMG_2536.JPG

20250327_105445.jpg

O hotel foi um bálsamo. De pouca dura, mas sim, recuperámos as energias e iniciámos os preparativos para o regresso.

IMG_2539.JPG

20250327_095835.jpg

Com todos os pormenores sob controle, deixámos os aparelhos a carregar e fomos dar uma volta pelas imediações do hotel, a título de despedida. A noite do Cairo continuava transbordante de magia.

20250327_095807.jpg

Na manhã seguinte, acordaram-nos às 6:30h, o que foi um luxo, e lá seguimos nós com armas e bagagens rumo à “cereja no topo do bolo", para depois regressarmos ao ponto de partida da Grande Aventura Egípcia": a nossa casa.

IMG_2729.JPG

Chegámos ao Grande Museu Egípcio cerca das 8:30h.

20250327_101109.jpg

20250327_102045.jpg

IMG_2610.JPG

O Grande Museu Egípcio, também conhecido como o Grande Museu Egípcio de Gizé, ou GEM, é um dos maiores e mais impressionantes museus dedicados à história e cultura do Egipto Antigo. Localizado próximo às pirâmides de Gizé, o museu abriga uma vasta colecção de artefactos, que incluirão (em Julho deste ano) toda a colecção de tesouros de Tut Ankh Amon, estátuas, múmias e muitos outros elementos que oferecem uma visão única sobre a civilização egípcia. Com a sua arquitectura moderna e exposições interactivas, o museu visa não apenas preservar a rica herança do Egipto, mas também educar e inspirar visitantes de todo o mundo.

IMG_2671.JPG

IMG_2600.JPG

IMG_2636.JPG

IMG_2686.JPG

20250327_111150.jpg

IMG_2667.JPG

O Museu está parcialmente aberto e exibe 12 fantásticas salas. Vai ser totalmente inaugurado em Julho, altura em que será considerado o maior museu do mundo com exibição permanente.

IMG_2727.JPG

IMG_2733.JPG

IMG_2730.JPG

IMG_2726.JPG

IMG_2574.JPG

O Grande Museu Egípcio é todo ele uma imensa pirâmide dentro de um jogo infinito de formas piramidais e é espectacular.

20250327_113702.jpg

20250327_121936(0).jpg

Saídos do Museu, que não é apenas a nossa cereja no topo do bolo, é também um diamante reluzente, uma GEMa preciosa no tempo e no espaço, que espero poder vir a visitar quando estiver a funcionar em pleno.

Depois de um bom almoço no restaurante do GEM, rumámos ao aeroporto já um tanto nostálgicos, e regressámos à nossa querida Lisboa.

IMG_2752.JPG

Não será seguramente a última viagem, mas tenho a certeza que nenhuma outra conseguirá superar a nossa Grande Aventura pelas terras dos Faraós. 

Até à próxima! Obrigada pela companhia.

Diário de viagem: Capítulo 9

Até à magnificência de Abu Simbel e de volta à Capital

Maria Dulce Fernandes, 22.04.25

IMG_2484.JPG

Como se tornou habitual, o telefone tocou para nos acordar, desta feita às 3 horas. Com as bagagens prontas para a saída às 4h, dirigimo-nos ao autocarro que nos aguardava. Foi carregar tudo e sair antes das 5 horas em direcção a Abu Simbel. O melhor a fazer seria tentar dormir no autocarro, pois a viagem seria de 3 horas de ida e outras 3 horas de regresso. A paisagem não ajudou em nada. O caminho foi quase todo uma grande travessia de deserto.

IMG_2492.JPG

IMG_2500.JPG

IMG_2508.JPG

20250326_091505.jpg

E valeu a pena? Nem é preciso perguntar, caramba, valeu todas as penas que as minhas mazelas residentes conseguiram aguentar.

Abu Simbel é um complexo arqueológico majestoso composto por dois impressionantes templos construídos durante o reinado do faraó Ramsés II. Os templos são famosos pelas suas estátuas monumentais e relevos elaborados que retratam cenas religiosas e representações do faraó e da sua estrondosa vitória  sobre os hititas na batalha de Kadesh.

20250326_090745.jpg

20250326_090827.jpg

20250326_090844.jpg

20250326_091234.jpg

O maior dos dois templos, dedicado ao deus Amon, tem na fachada quatro enormes estátuas de Ramsés II, cada uma com cerca de 20 metros de altura. O templo mais pequeno é o templo de Nefertari, esposa favorita do faraó, é dedicado à deusa Hathor e apresenta estátuas de Ramsés II juntamente com estátuas da sua esposa dilecta.

IMG_2523.JPG

Um dos aspectos mais cativantes desses templos é o chamado "fenómeno da luz solar". Este acontecimento tem lugar duas vezes por ano, em 22 de Fevereiro e em 22 de Outubro, datas do aniversário do faraó e da sua ascensão ao trono. Nesses dias, a luz do sol ilumina apenas a estátua de Ramsés II no interior do templo principal, enquanto as outras estátuas permanecem na sombra. O alinhamento solar foi projectado intencionalmente pelos antigos egípcios e é um testemunho da habilidade arquitectónica e do conhecimento astronómico da época.

20250326_093424 (1).jpg

20250326_093434.jpg

Os templos foram parcialmente transferidos na década de 1960 devido à construção da Barragem de Aswan e ao aumento associado do nível das águas do Nilo para os proteger das inundações. Esta impressionante operação de resgate foi apoiada pela UNESCO e é considerada um dos maiores projectos arqueológicos do século XX.

20250326_090933.jpg

É lenda local que um rapaz que  pastoreava cabras encontrou uma das cabeças gigantes, fugiu apavorado e só muito a custo conseguiu revelar à família o que tinha visto. O nome do pequeno era Abu Simbel.

Os templos são grandiosos, eloquentes, belos, esmagadores. As cenas de batalha parecem acabadas de gravar, tanto na parede, como na nossa imaginação, como uma imensa banda desenhada a encantar os corações jovens que nunca deixámos de ter, nem de sentir a pular dentro do peito.

20250326_090707.jpg

Não perderia esta viagem por nada. Nada mesmo.

Horas depois voltámos a Aswan para, do aeroporto, iniciarmos o regresso ao Cairo. Lá chegados teremos de ultimar os preparativos para o regresso, não antes do último presente, a cereja no topo do bolo.

Até lá.

Diário de viagem: Capítulo 8

Pelo Nilo de felucca e até à “Nuba” , depois de andar pela prancha

Maria Dulce Fernandes, 20.04.25

20250325_141453.jpg

Depois de um par de horas para refeição e refrescar a mente e o corpo com um mergulho na piscina, voltámos ao programa e embarcámos numa felucca, pequeno barco à vela típico do rio Nilo. Elegantes e leves dada a sua construção em madeira, as feluccas deslizam pelo rio ao sabor do vento e da maré. As pequenas viagens são fantásticas e ajudam a relaxar, embaladas também pelo canto doce dos barqueiros e dos "surfistas cantores", que ziguezagueiam pelo meio dos barquinhos, sem temer o rio ou a sua fauna.

IMG_2384.JPG

Próxima paragem: a "Nuba". Mas porque a viagem não se pode fazer em felucca por o rio ser, naquela zona, forte em redemoinhos e pequenos rápidos, foi necessário mudar da embarcação  à vela para outra com motor. Não foi pera doce. Os barcos tinham de ficar lado a lado no meio do rio, “ligados” por uma estreita prancha de madeira e nós tivemos literalmente de “andar pela prancha” para fazer o transbordo. Não foi uma experiência mesmo nada agradável na altura, mas depois de acalmar o nervoso miudinho, admito que foi excitante e muito engraçado. Pena que ninguém filmou, preocupados que estávamos a tentar manter o equilíbrio.

IMG_2387.JPG

IMG_2388.JPG

IMG_2391.JPG

Em navegação ronceira, passámos pelo Old Cataract Hotel, pela Ilha Elefantina e o Mausoléu de Aga Kahn, sempre rodeados pela deliciosa e envolvente paisagem em ambas as margens.

20250325_144925.jpg

IMG_2409.JPG

IMG_2417.JPG

IMG_2420.JPG

Alcançámos finalmente a “Nuba” de Gharb Soheil. Após 15 minutos de triciclo motorizado, chegámos ao “pé” do Sahara, onde o verde acaba e a imensidão do deserto começa, e onde as paisagens deslumbram pela marcante transição.

20250325_154510.jpg

IMG_2438.JPG

IMG_2444.JPG

 

20250325_154259.jpg

A cultura núbia na aldeia, apesar da modernização, conseguiu preservar uma identidade única e as tradições ancestrais. O povo núbio é conhecido pela sua hospitalidade calorosa e pelo amor pela arte e pela música. Criam os próprios artigos de artesanato ao mesmo tempo que criam crocodilos e nos presenteiam com bebidas de tamarindo extraordinariamente refrescantes.

IMG_2456.JPG

IMG_2458.JPG

20250325_162246.jpg

 

IMG_2470.JPG

IMG_2474.JPG

IMG_2477.JPG

Com o dia a fugir e a dar lugar àquela  hora mágica do entardecer, regressámos ao navio com os sorrisos mais satisfeitos de toda a viagem até então.

Esperava-nos mais um amanhã cheio de actividade e também longas viagens de autocarro, pelo que o recolher foi a opção em detrimento de mais uma louca “Noite Árabe”, a bailar pela noite fora.

Diário de viagem: Capítulo 7

Aswan, a Grande Barragem, o Lago Nasser e a pérola que é Philae

Maria Dulce Fernandes, 17.04.25

AswanIMG_2224.JPG

Em Aswan, de manhã bem cedinho, antes mesmo de os Martinetes praticarem a sua famosa "imobilidade" de aves de presa, deixámos o navio para a nossa primeira visita do dia, a “pedreira” do obelisco. O Obelisco Inacabado, trabalhado em granito rosa, é o maior exemplar esculpido que existe, e que apesar de nunca ter sido concluído, traz alguma luz sobre as técnicas de construção e estatuária no Antigo Egipto, um conjunto bem montado de cunhas, declives, canais e barcaças. Foi encomendado no reinado da faraó Hatshepsut e teria cerca de 45 metros de altura se tivesse sido terminado.

IMG_2231.JPG

Da pedreira seguimos para a Barragem Alta e o Lago Nasser, um dos maiores lagos artificiais do mundo, que se estende por cerca de 500km. Rico em biodiversidade, alberga também cerca de 65000 crocodilos do Nilo, espécie que já esteve em vias de extinção e é essencial ao bom equilíbrio do ecossistema.

20250325_084910.jpg

A Grande Barragem de Aswan, uma das maiores do mundo, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do país. Inaugurada em 1970, a barragem, além de controlar as inundações do Nilo, gerar energia hidroelétrica e fornecer água para irrigações agrícolas, teve também impactos socio-ambientais significativos, incluindo a relocação de comunidades e mudanças nos ecossistemas locais.

20250325_084450.jpg

20250325_084736.jpg

20250325_084729.jpg

De volta à cidade, dirigimo-nos ao embarcadouro dos pequenos barcos a motor, que transportam passageiros, principalmente turistas, de Aswan até à Ilha Angilika, local para onde foi transladado o templo originalmente erigido na ilha de Philae e que ficou submerso após a construção da Grande Barragem.

20250325_091847.jpg

20250325_092624.jpg

O Templo de Philae é uma preciosidade. É hoje Património Mundial da UNESCO e foi dedicado à Deusa Ísis. É famoso pela sua fantástica arquitectura e por ter sido um importante centro de culto durante os períodos helenístico e romano, rodeado pelo misticismo dos rituais lá praticados.

20250325_100430.jpg

20250325_100734.jpg

20250325_101230.jpg

20250325_102951.jpg

Voltámos a Aswan e aos 40⁰ C à sombra daquele Março que antecipava um Verão escaldante para uma incursão ao reino das essências perfumistas que estão na base de todos os perfumes de todas as marcas até hoje fabricadas. De regresso ao navio e com algumas horas livres para almoçar e tentar amenizar todas as emoções numa "fresquinha", preguiçámos na sombra quente do convés superior. 

20250409_165900.jpg

A manhã foi muito bem aproveitada e os passeios nos barquinhos anteciparam a vontade para a próxima saída pelo rio, desta vez em felucca, marcada para essa tarde.

Até já.

Diário de viagem: Capítulo 6

Edfu, Kom Ombo e de novo pelo Nilo

Maria Dulce Fernandes, 15.04.25

Diz-se que embarcar num cruzeiro é para apreciar a viagem e descansar. Não sei quem inventou tal coisa, mas provavelmente fui eu, mal habituada ao descanso e ao sono tranquilo da noite anterior. Tínhamos aportado em Edfu e havia visitas para fazer durante a manhã, antes de voltarmos à navegação para Kom Ombo.

20250324_083122.jpg

O Templo de Edfu, dedicado ao deus Hórus, é conhecido por sua arquitectura bem preservada e por ser um dos maiores templos do Egipto.

20250324_082535.jpg

20250324_082953.jpg

20250324_091930.jpg

O templo é famoso pelas suas inscrições que descrevem a mitologia de Hórus e sua luta contra Seth, o deus do caos. Essas histórias eram centrais para a religião egípcia e eram celebradas em rituais realizados no templo.

20250324_092849.jpg

Depois de Edfu regressámos ao barco e continuámos em navegação até Kom Ombo, para visitar o famoso templo.

20250324_172627.jpg

20250324_172208.jpg

O Templo de Kom Ombo é único, na margen do rio Nilo, construído durante o período ptolomaico. Dedicado a dois deuses: Sobek, o deus crocodilo, associado à fertilidade e à criação, e a Hórus, o deus falcão, que simboliza a realeza e a protecção. Uma das características mais notáveis deste templo é a sua simetria. Divide-se em duas partes, cada uma dedicada a um dos deuses, com santuários, colunas e salas. Possui relevos e inscrições que retratam várias cenas, incluindo os rituais religiosos, a medicina e a agricultura, além de representações de crocodilos, que eram sagrados para Sobek.

20250324_171934.jpg

Um dos relevos mais notáveis representa instrumentos médicos. Isto sugere que o templo também tinha a função importante de ser local de tratamentos e outras práticas medicinais. 

IMG_2124.JPG

À saída, podemos visitar o Museu do Crocodilo, que apresenta diversos exemplares mumificados, encontrados em túmulos de nobres e sacerdotes.

20250324_174403.jpg

20250324_173842.jpg

20250324_174040.jpg

20250324_174716.jpg

Regressámos ao barco e preparámo-nos para apreciar a passagem pela eclusa de Esna, mas o sono acabou por vencer. Acordámos mais tarde com uma série de fortes estrondos metálicos, que passado o susto inicial, verificámos serem “toques” de quando o barco encostava ao passar pelos portões, para bem se posicionar dentro da eclusa. Aí, já nada havia para ver. Voltámos ao quarto para despertar de novo bem cedinho, mas já em Aswan.

Diário de viagem: Capítulo 5

Subindo o Nilo mansarrão. Doce, fermoso e seguro. Sinónimo de vida e de riqueza. Iteru

Maria Dulce Fernandes, 13.04.25

Adeus Luxor

22749462_2fl5J.jpg

Pelo Nilo

22749463_wbaUn.jpg

O Rio Nilo é conhecido por ser o mais longo do planeta, com cerca de 6.650 quilômetros de extensão. Flui através de vários países da África, incluindo o Uganda, o Sudão e o Egipto, antes de desaguar no Mar Mediterrâneo.

22749464_35EPc.jpg

O Nilo é tradicionalmente dividido em Nilo Branco e Nilo Azul. O Nilo Branco, a principal nascente, está localizada no Lago Vitória iniciando o seu percurso através do Sudão do Sul, onde se junta ao Nilo Azul em Cartum, capital do Sudão. O Nilo Azul nasce na região mais montanhosa da Etiópia, no Lago Tana, e é responsável por grande parte do caudal do Nilo, especialmente durante a estação das chuvas.

22749465_KNBCy.jpg

22749467_kLzz9.jpg

Os navios que sobem e descem o Nilo são verdadeiros hotéis flutuantes que nos proporcionam todo o conforto com vistas de paisagens encantadoras durante todo o seu percurso, em ambas as margens e em qualquer direcção em que pousem os nossos olhos.

22750381_ziC6J.jpg

22749480_jtQv0.jpg

22749481_eDYIr.jpg

As nascentes do Nilo são de grande importância não apenas para a geografia, mas também para a história e a cultura das civilizações que se desenvolveram ao longo das suas margens.

22749482_NvyBZ.jpg

22749483_UDSCo.jpg

22749484_6h0ro.jpg

22749485_gnZrY.jpg

22749487_utR4e.jpg

22749488_sZhbC.jpg

22749489_jSF90.jpg

São cerca de trezentos os navios que cruzam ininterruptamente o rio de Luxor a Aswan, de Aswan a Luxor, de ambos os destinos até Abu Simbel, até ao Cairo e também para outras paragens mais a sul, até onde o Nilo é navegável.

22749493_Uu5tw.jpg

22749494_YArzI.jpg

22749495_bdnA2.jpg

O rio tem sido uma fonte vital de água, transporte e fertilidade para milhões de pessoas ao longo dos séculos.

22749496_EJS5d.jpg

22749497_c52zz.jpg

22749498_jZea8.jpg

22749499_35Ihv.jpg

A viagem de Luxor a Aswan, com paragem em Edfu e Kom Ombo, é espectacular, calma e agradável. Deixou muitas saudades.

Desde o remanso da vida nas margens, passando durante a noite pela eclusa de Esna, até às “boleias” de barcos a remos, que vendem de tudo aos turistas e se tornaram por si só uma atracção durante os cruzeiros fluviais.

22749500_pWSYZ.jpg

Desde um mergulho na piscina a uma garrafinha de água fresca a acompanhar um livro preguiçoso. Desde relaxar no fresco da cabine, com a varanda aberta para o rio, a ver-se em palpos de aranha na balbúrdia da noite árabe, nas noites temáticas em todos os percursos. Foi fantástico.

Adorámos cada minuto.

Se pudesse, regressava ao rio já amanhã.

Diário de viagem: Capítulo 4

Luxor, al-quṣūr, que anteriormente foi Tebas, a capital. Vale dos Reis e Templo de Hatshepsut

Maria Dulce Fernandes, 10.04.25

20250322_070833.jpg

 

20250322_081440.jpg

Com a experiência das cidades anteriormente visitadas bem viva na nossa ideia, chegar a Luxor foi uma fantástica surpresa. Maravilhosa, limpa, colorida e com gente bonita e menos ataviada de roupagens. Talvez o calor de Ra, por se fazer sentir com mais intensidade, dê aos habitante uma perspectiva de vida mais brilhante e mais sã.

IMG_1858.JPG

Mal chegámos, fomos conduzidos ao barco que seria a nossa morada fluvial nos próximos quatro dias e onde pensámos poder preguiçar e relaxar das andanças dos primeiros dias. Mas não foi assim. Segundo o Yousif, no Egipto só se descansa  depois de morrer.

20250322_090136.jpg

Fomos separados do grupo inicial por termos programas diferentes, e juntámo-nos a um simpático casal nortenho, que tinha como único defeito o de sofrer de lampeonite aguda. Passámos a ser um grupo de cinco, contando com o omnipresente Dino, possuidor de  um conhecimento enciclopédico, nosso guia e companheiro até Aswan.

IMG_1878.JPG

IMG_1910.JPG

IMG_1894.JPG

No mesmo dia da chegada a seguir ao almoço, tinhamos visita marcada aos templos de Karnak e Luxor. Karnak, em particular, é um fabuloso complexo de templos que homenagiava Amon e outros deuses, famoso pelo seu Grande Salão Hipostilo. O Templo de Luxor também foi dedicado à adoração a Amon, além de ter sido um local de muitos rituais. Presentemente acolhe diversos festivais lúdicos e culturais. 

IMG_1907.JPG

Caiu a noite e saímos para um passeio de charrete pela cidade que vibrava de alegria. As pessoas que ficavam em casa e encerravam os seus pequenos negócios durante o dia para melhor poderem fazer o jejum, trabalhavam à noite e contribuíam para o colorido do Ramadão. Por todo o lado se ouvia “Ramadan Kareem” acompanhado de beijos e abraços.

20250322_213210.jpg

20250322_213118.jpg

No regresso recebemos instruções para o dia seguinte. A manhã acorda cedo e nós também, com partida para o Vale dos Reis, Templo de Hatshepsut,  Colossos de Memnon e visita a uma fábrica artesanal de peças em alabastro. Saída às 7 horas.

IMG_1913.JPG

Pelas sete, frescos que nem uma alface pelo mimo de seis horas de bom dormir, seguimos para o Vale dos Reis, que por muito incrível que possa parecer, já fervilhava de turistas. Alguns faziam ouvir bem alto  o seu descontentamento por a tumba de Tut Ankh Amon se encontrar encerrada. Uma idosa alemã chorava copiosamente, manifestando o seu desalento. Foi um revés? Foi. Mas há por ali muito mais  para visitar. Entrámos em três tumbas muito bonitas de três Faraós de nome Ramsés, o III, o IV e o IX. Bem preservadas e com pouquíssimas zonas restauradas, foi um autêntico deleite imergir na história que era contada nas paredes e tectos dos túneis e câmaras e antecâmaras  funerárias.

IMG_1921.JPG

IMG_1927.JPG

IMG_1945.JPG

20250323_082815.jpg

Partimos para o Templo de Hatshepsut, mulher, Rainha, Faraó e dirigente extraordinária durante mais de 20 anos, com um reinado grandioso em paz e grande prosperidade. Hatshepsut, uma das poucas mulheres a governar como faraó, focou-se em projectos de construção, comércio e desenvolvimento económico, o que contribuiu para a estabilidade do país. Esse período é frequentemente visto como um dos mais prósperos da história do Egipto antigo. O Templo localizado em Deir el-Bahari é completamente escavado na rocha, é belo ao longe e ainda mais belo à chegada.

IMG_1969.JPG

20250323_100759.jpg

IMG_1991.JPG

Dali, seguimos para Memnon, para ver os colossos, duas enormes estátuas de pedra que representam o faraó Amenhotep III. Seguimos para o artesanato em pedra e de lá para o navio que iria zarpar pelas 14 horas, rumo a Edfu e Kom Ombo.

20250323_105510.jpg

20250323_105612.jpg

Screenshot_20250406_114535_M365 Copilot.jpg

Tivemos uma tarde em cheio.

Diário de viagem: Capítulo 3

História de Duas Cidades: o Cairo e a Capital Turística

Maria Dulce Fernandes, 08.04.25

IMG_1788.JPG

Por aquelas paragens, madrugar esteve na ordem do dia… todos os dias. Se o que se quer é uma visita com qualidade, chegar cedo é fundamental. Isto implica acordar às 6:30h, tomar pequeno-almoço e estar no lobby pronto para o autocarro entre as 7:30h e as 8 horas. Éramos quase sempre os primeiros e assim tínhamos tempo para conversar com o guia sobre as visitas. Se existe coisa de que não nos poderemos nunca queixar, é da organização e da pontualidade dos muitos representantes da agência egípcia que nos transportaram e guiaram aos mais variados destinos, alguns num português-do-Brasil quase perfeito, outros num excelente espanhol. Foram todos, sem excepção, óptimos profissionais.

IMG_1912.JPG

Com o grupo completo, rumámos à mesquita de Muhammad Ali, também conhecida como Mesquita de Alabastro, um importante local de culto e também um símbolo da era de modernização do Egipto sob o governo de Muhammad Ali Pasha. Visitámos também a mesquita mameluca de na-Nasr Mohammed, que é um exemplo impressionante da arquitectura mameluca, com grandes cúpulas, minaretes altos e belos detalhes decorativos. Ambas as mesquitas estão situadas dentro da Cidadela de Saladino, o famoso Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub, fundador da dinastia aiúbida. A cidadela foi projectada para proteger a cidade de invasões, especialmente durante as Cruzadas.

Foi a primeira vez que entrámos em mesquitas calçados (era opção por 10EGP) e apenas com protectores de sapatos.

IMG_1785.JPG

20250321_093005.jpg

Dos muros da Cidadela, a vista panorâmica sobre a cidade é de tirar o fôlego, de tão fantástica quanto deprimente. Pelo caminho avistámos a Cidade dos Mortos, que não conseguimos visitar por estar a decorrer um funeral. 

IMG_1803.JPG

Depois do almoço em restaurante típico, visitámos o bairro copta. Este bairro é o centro da comunidade cristã copta do país, uma das mais antigas tradições cristãs do mundo. O pequeno tesouro que é a Igreja de S. Sérgio e S. Baco, erigida sobre a casa na qual a Virgem Maria, o Menino Jesus e S. José viveram quando da sua fuga para o Egipto, merece destaque. Visitámos também a antiga igreja de Santa Bárbara convertida em sinagoga. Paredes meias com uma mesquita construída sem minaretes nem altifalantes para não perturbar as orações na sinagoga, funcionam cada uma no seu culto e ambas em perfeita e pacífica coabitação. Visitámos também o grande bazar de Khan el Khalili e o Museu Egípcio. 

Como dois lugares distintos, um pardacento e sombrio, o outro arrumado e alegre, Cairo-a-Capital e o Cairo Turístico, vivem lado a lado, dissonantes, como duas metades em que as disparidades são por demais flagrantes debaixo da mesma luz, duas faces da mesma moeda cuja cara que cai voltada para o sol é a renda que alimenta o país.

IMG_1814.JPG

IMG_1812.JPG

IMG_1807.JPG

O Museu Egípcio, apesar de desfalcado de grande parte do seu acervo, é ainda muito interessante. Apresenta  a exposição por categorias e sem ordem cronológica, mas está muito bem organizado.

IMG_1820.JPG

A sua maior atracção é (e será até Julho) parte do tesouro de Tut Ankh Amon. Está exposta a máscara funerária, o sarcófago de ouro e um sem número de gargantilhas, coroas e outros objectos pessoais confeccionados nesse metal precioso, imprescindíveis ao percurso da alma após o  Tribunal de Osíris e todos os processos de vida, morte e regresso da alma ao corpo. Por ser sagrado ou profano, não percebi bem o porquê, não é permitido fazer fotografias ou vídeos da sala deste faraó... mas se se pagar com antecedência pela sessão fotográfica depois do horário de encerramento podemos fotografar, algo que à data desconhecia completamente.

 20250321_143623.jpg

20250321_151327.jpg

Hatshepsut

20250321_145236.jpg

Já entardecia quando regressámos ao hotel para preparar tudo para a aventura seguinte. Nas ruas recomeçava a azáfama para mais um iftar, e a letargia do jejum dava lugar à antecipação do banquete que, onde quer que fosse, era sempre farto e bastante variado e cujos aromas esvoaçavam por toda a cidade, carregados pelos ventos de final de tarde. Pelas estradas, voluntários ofereciam água e tâmaras àqueles que demoravam no regresso a casa, para que pudessem quebrar o jejum depois das 6 da tarde, hora em que o sol, apesar de ainda iluminar, deixava de se ver no horizonte e em que, do alto dos minaretes de todas as mesquitas, por todo o país, os muezim cantam o adhan para as primeiras orações da noite.

IMG_1772 (1).JPG

Também nós tínhamos algumas tarefas a ultimar. Acordar às 2 horas da madrugada, sair às 3 horas, chegar ao aeroporto às 4 horas, passar pelas diversas revistas de segurança e às 6 horas voar rumo a Luxor.

Assim foi e mal o avião descolou já começava a preparar a aterragem.

Diário de viagem: Capítulo 2

De um paraíso mediterrânico, a “noiva” é agora uma lixeira em céu aberto

Maria Dulce Fernandes, 06.04.25

20250320_120256.jpg

O programa de viagem tinha como destino a visita à cidade mediterrânea de Alexandria no dia seguinte. Madrugámos com grande expectativa e encetámos alegremente os cerca de 220km que separam esta cidade da capital.

20250320_110916.jpg

Nada nos faria pensar que Alexandria seria também uma ruína, mas efectivamente assim é. Andrajosa, suja e superpovoada, a cidade mais cosmopolita de todas as cidades egípcias é um caco e um perfeito caos.

20250320_105944.jpg

Salvou-se a visita a Kom el Shoqafa, um complexo funerário subterrâneo greco-romano-egípcio, a biblioteca que é uma pérola rara no meio de tantos escombros de construções habitadas e do lixo que é uma constante por todo o lado, a Fortaleza de Quaitbay, o Pilar de Pompeu, o demasiado ventoso Parque Montazah e a Corniche que se estende por quilómetros e que apesar do vento e do frio (11⁰C) consegue ser bonita.

22748812_siscg.jpg

22748813_Dn6Qv.jpg

22748814_rSnsv.jpg

22748815_OHoU7.jpg

Quando Alexandre fundou a cidade e lhe deu o seu nome não lhe passou pela cabeça que se tornaria num Nó Górdio, sem lâmina que o consiga desatar.

22748817_fvyBI.jpg

22748818_4Zf6d.jpg

22748819_neiH8.jpg

22748820_raZsz.jpg

22748821_uGBsN.jpg

O passeio em si foi conseguido e o truque é não ser optimista. Se nunca se esperar demasiado, nunca ficaremos desapontados.

Voltámos à estrada, para mais 220 quilómetros rumo à cor, à música e aos inebriantes aromas do iftar que conferem ao pardacento Cairo a alegria que debaixo do sol é difícil de encontrar.

 

Diário de viagem: Capítulo 1

Um sonho dentro de um pesadelo

Maria Dulce Fernandes, 03.04.25

20250319_054357.jpg

Quando somos pequenos, todas as histórias de países distantes e misteriosos, cujos usos e costumes são tão diferentes dos nossos que avivam a imaginação e se tornam mágicos, aguçam o bichinho da aventura que,  dormente durante anos, ressurge desperto e renovado  e pede que o sonho se realize.

Pensada e repensada, a decisão foi tomada e partimos para o Cairo, numa fria tarde de Março, para fugir às altas temperaturas de um Verão prematuro. As seis horas de viagem passaram lentas mas correram bem. Depois de todas as peripécias de vistorias de segurança, chegámos ao hotel quase ao nascer do sol para nos refrescarmos, pois a primeira visita tinha saída às 8:30h. Havia pequeno-almoço  apesar de ser tempo de Ramadão e o autocarro apresentou-se à hora marcada para o tour a Memphis e Saqqara, e depois do almoço as famosas pirâmides e a esfinge.

20250319_103846.jpg

20250319_151308.jpg

20250319_153355.jpg

Atravessar o Cairo é um susto, mesmo da perspectiva do alto de um autocarro de turismo. Primeiro, porque toda a cidade é já ela um susto, suja na cor e no lixo que enche as ruas por todo o lado em que se passe. Os edifícios pareciam saídos de um filme de guerra prestes a desmoronar-se, não se avistavam semáforos, passadeiras para peões ou rotundas, nem sei se existe código da estrada, pelo que era um “Insha’Allah” e tudo ao molho. É uma questão de cultura, tenta explicar o guia, mas é tirada que não convence. Ter uma cidade com cerca de 20 milhões de almas e a aumentar de dia para dia, sem condições para nela se viver, as casas meio destruídas, com pessoas a dormirem debaixo dos viadutos e arcadas de prédios e na interminável Cidade dos Mortos, um enorme cemitério onde mortos e vivos coabitam, no meio de casas térreas clandestinas e de túmulos, onde há arte, comércio e vida e morte, numa existência tão plácida como tétrica.

 

20250321_093323.jpg

O Cairo é triste e assustador, mas as pessoas são alegres e bem dispostas e à noite as luzes artificiais das fanous, as lanternas do Ramadão, a música e o colorido, com grandes mesas ruas afora onde todos se juntam para o Iftar,  mascaram a premente necessidade com festa e luz, onde os mais ricos alimentam os pobres e todos os que vierem por bem. A noite, essa sim, é mágica.

Retratos da minha viagem ao Egipto

João André, 28.01.17

Depois de todos estes apontamentos da viagem do Luís, decidi ir ao meu baú e ir procurar as minhas fotografias preferidas das que tirei quando estive no Egipto, em 2011. Nessa viagem comecei em Luxor, desci até Ashwan e depois fui de comboio para o Cairo. Não deixo notas sobre os locais, que o Luís já deixou bastantes e melhores que as minhas (aproveito e deixo links apenas para os posts dele). Apenas as ditas fotografias e os locais onde foram tiradas (esperando não fazer asneiras). Quem tenha curiosidade, pode sempre perguntar alguma coisa mais sobre elas.

 

Egypt_01_retouch.jpg

Vista a partir da entrada do templo de Edfu (creio).

Egypt_42_retouch.jpg

Voltando do templo de Hatchepsut (estaria nas costas).

Egypt_06_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_09_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_27_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_29_retouch.jpg

Nilo.

Egypt_50_retouch.jpg

Crianças a brincar num ramo do Nilo.

Egypt_46.jpg

A caminho da ilha de Philae.

Egypt_48_retouch.jpg

No templo de Ísis, ilha de Philae.

Egypt_12.jpg

Templo de Karnak.

Egypt_15_retouch.jpg

Cairo, visto da mesquita de Mohammed Ali.

Egypt_18_retouch.jpg

 Pirâmides de Gizé, Cairo.

Egypt_31_retouch.jpg

Templo de Kom Ombo.

 

Há alguém muito baralhado no Reino de Lisboa

Diogo Noivo, 21.11.16

FMedinaAlSissi.jpg

 

Durante a Web Summit, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu criticar Donald Trump. Fê-lo usando fundos e recursos públicos, de forma presunçosa e com erros ortográficos, mas enfim, a crítica é legítima e a Trump não lhe faltam características merecedoras de censura.
O que já é difícil compreender é que se critique Trump e, acto contínuo, se atribuam as chaves da cidade a Abdel Fattah al-Sissi, o presidente do Egipto. Critica-se o presidente eleito de um Estado de Direito Democrático, um Chefe de Estado e de Governo cujo poder está limitado por um sistema de freios e contrapesos. Mas dão-se as chaves da cidade a um ditador que chegou ao poder por via da força, interrompendo um processo de transição democrática que, apesar das vicissitudes normais, avançava.
Temo que no município de Lisboa alguém ande a limpar os pés às cortinas e a tapar as janelas com os tapetes de entrada.

Leituras ao domingo

Diogo Noivo, 20.03.16

dreams&shadows.jpg

 

«The Judges Club in Alexandria ended up calling for broad new legislation to ensure judicial independence – and for a gathering of all 8,000 Egyptian judges to take a joint national stand. Their summit convened in Cairo on May 13, 2005 […]. The session was stormy. But Egypt’s judges agreed to issue a direct challenge to Mubarak’s regime. They called to major reforms to foster the rule of law. They demanded full independence from the executive branch. And they voted to put the government on notice that they would no longer provide cover for its behavior […]. To avoid scandals or constitutional crisis in the past, judges had usually taken their concerns to the Ministry of Justice. “But now the majority of judges have changed their basic philosophy”, he said. “They have come to the conclusion that they are part of this society – and that they must act rather than defer to other authorities.”» (Os sublinhados são meus).

 

Robin Wright (2008), Dreams and Shadows: The Future of the Middle East, Londres: Penguin Books, p. 92.

Tempo de incertezas

Pedro Correia, 05.07.13

 

Alguns nostálgicos do Egipto de Mubarak garantem em blogues que os problemas actuais naquele país se devem à deposição do ditador, em Fevereiro de 2011. É tão absurdo afirmar isto como sustentar que o PREC foi consequência da cadeira mal armada onde Salazar se sentou numa manhã de Agosto de 1968, no forte de Santo António. Não explica nada, não justifica nada, não projecta a menor luz sobre o problema, mas alivia algumas consciências que sentem a irresistível tentação de prever sempre o pior para depois poderem proclamar que tinham razão. Seria mais fácil seguirem a velha fórmula de Vasco Pulido Valente: "O mundo está perigoso." De alguma forma acertavam sempre.

Estas Cassandras sentem a nostalgia de um mundo arrumadinho e cheio de etiquetas, onde era fácil traçar diagnósticos e fazer previsões. Um mundo sem redes sociais, sem internet, sem globalização, sem a "voz da rua" a propagar-se de continente em continente. Um mundo de fronteiras esbatidas, onde o indignado de Teerão pode ser cúmplice do indignado de São Paulo, a multidão tronitruante em Alexandria provoca ecos em Barcelona e os protestos em Istambul se escutam em tempo real em todas as latitudes.

A única certeza que temos é a de vivermos num tempo de incertezas. Gostaria de vaticinar que destes anos tumultuosos que vamos testemunhando sairá um mundo mais livre. A isso me induz a comparação entre 2013 e 1913: o ser humano aumentou em décadas a esperança de vida, foram debeladas doenças epidémicas, a maioria dos habitantes do planeta vive hoje em países democráticos, as generalizadas sombras da guerra deram lugar a inúmeras peregrinações pela paz.

Mas sei bem que a história é feita de linhas sinuosas, não de rectas. Os amanhãs não cantam - talvez até chorem. Devemos estar sempre preparados para o pior.

Depois não digam que não avisei.

 

Imagem: multidão em protesto na praça Tahrir, no Cairo (Foto Reuters, 29 de Junho)

 

Eppur si muove

Pedro Correia, 02.07.12

 

Pela primeira vez o Egipto tem um presidente eleito, escolhido pelo povo e não por uma oligarquia reunida nas casernas. Goste-se ou não deste engenheiro de 60 anos, doutorado nos Estados Unidos, as urnas falaram. Não existe outra forma lícita de escolher dirigentes políticos. Pela primeira vez em quase 60 anos de regime republicano há no Egipto um Chefe do Estado civil, Mohammed Mursi, que no discurso de investidura prometeu "servir o povo" e respeitar os compromissos internacionais estabelecidos pelo seu país, nomeadamente com Israel. Pela primeira vez o Egipto tem um sistema que salvaguarda algumas das normas elementares da democracia, a começar pelo sufrágio universal.
A actual situação é de longe preferível ao longo sistema ditatorial anterior (que começou com Naguibe e Nasser, prolongou-se com Sadat e culminou no consulado de Mubarak), pensem alguns altos funcionários da administração norte-americana o que pensarem. E por que motivo haveriam de preferir a ditadura à democracia se Barack Obama e Hillary Clinton estiveram na primeira linha do reconhecimento das 'Primaveras árabes', incentivando e aplaudindo as revoltas populares contra as tiranias de Mubarak, Ben Ali, Kadhafi e Assad?
Supor o contrário, como pretendem os cínicos de serviço, lá e cá, seria sonhar com o regresso a um mundo onde Salazar e Franco apascentavam a Península Ibérica e Moscovo lançava uma cortina de ferro sobre toda a Europa de Leste, com os opositores apodrecendo no Gulag. O mundo "tranquilo" da Guerra Fria, do equilíbrio do terror e do Inverno nuclear à mercê de um dedo capaz de premir um qualquer botão.

Um ano depois

Pedro Correia, 12.02.12

 

Não tenho, naturalmente, uma palavra a retirar ao que escrevi faz agora um ano sobre a revolução egípcia.

Ficam alguns excertos, para avivar memórias:

 

Contra as Cassandras. «No Irão, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.»

 

Contra as bempensâncias. «Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes "carismáticos", sem partidos ou igrejas a "organizar" as multidões.

Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo.»

 

Contra os saudosistas. «Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos.»

 

Contra as ditaduras. «Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão - e a que acaba de ser derrubada no Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da bacia do Mediterrâneo e 'compreender' a ditadura na outra metade.

 

Contra a demagogia. «Extraordinário Mubarak, tão amigo do Ocidente em geral e tão digno da admiração de Alberto Gonçalves em particular. E extraordinários "estudos de opinião" - não especificados pelo crédulo sociólogo - que "parecem" conjugar liberdade e lapidação no Egipto.

Não conheço nenhum outro pensador mundial capaz de associar um movimento pró-democracia à excisão feminina.»

Coitado do Egipto

João Carvalho, 02.02.12

Acabo de ouvir na televisão uma explicação da tragédia em Port Said que só por ser dita em egípcio sem sotaque é que percebi que não tinha saído da perspicácia de um português. À frente da câmara de reportagem, dizia o homem que «as forças de segurança foram impedidas de actuar».

Fiquei a pensar naquilo. Não seria mesmo o Rui Santos a falar egípcio? Então as forças de segurança foram impedidas de actuar?!? Será que as forças de segurança foram cercadas por algum desordeiro?

Coitado do Egipto. Primeiro, tiram-lhe o P. Depois, barram-lhe as forças de segurança. Agora, impingem-lhe o Rui Santos. O que mais poderá seguir-se? A extinção das percas do Nilo?

Os valores acima dos interesses

Pedro Correia, 07.05.11

 

A Líbia constitui "o pior pesadelo" dos dias que correm. A opinião, sem rodeios de qualquer espécie, foi ontem expressa por Mohamed ElBaradei nas Conferências do Estoril, que encerraram esta segunda edição com chave de ouro ao darem o palco ao ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Prémio Nobel da Paz de 2005. Durante cerca de hora e meia, que pareceu pouco a quem assistia no Centro de Congressos do Estoril, o candidato à próxima eleição presidencial no Egipto defendeu uma intervenção mais activa da comunidade internacional para impedir a continuação dos massacres da população civil às ordens dos esbirros de Muammar Kadhafi, o ditador que permanece no poder desde Setembro de 1969, cego e surdo às aspirações de liberdade dos líbios.

Voz autorizada na defesa dos direitos humanos, participante activo na revolução de Fevereiro que levou à queda do regime despótico de Hosni Mubarak no Cairo, ElBaradei foi claro: "Não podemos aceitar que os ditadores massacrem os seus povos. Gostaria de ver uma intervenção internacional mais robusta, mais activa na Líbia." Na sua perspectiva, as relações internacionais contemporâneas são indissociáveis do respeito permanente da dignidade humana. "Temos de agir como mebros da mesma família global. A Líbia é um grande teste. Temos de espalhar esta mensagem: não continuaremos quedos e mudos, não assistiremos impávidos ao massacre de civis."

'A natureza das revoluções no Magrebe e no Médio Oriente' foi o tema abordado nesta excelente conferência, acompanhada com atenção por uma vasta plateia, em que se integravam muitos jovens. Baradei afirmou que o mundo "pode e deve ajudar" as populações do mundo islâmico que lutam pela liberdade - contribuindo para o "desenvolvimento económico, a coesão social e a promoção dos direitos humanos" em países como o Egipto, onde os militares estão com "demasiada pressa" em devolver o poder aos civis. Na sua perspectiva, a elaboração de uma nova Constituição devia ser o primeiro passo para fundar um regime democrático no Cairo - de preferência com um artigo basilar inspirado na primeira norma da lei fundamental da Alemanha: "A dignidade humana é inviolável."

Esta foi a grande mensagem que deixou no Estoril: "Não podemos pôr os interesses antes dos valores." Uma mensagem que contraria os cultores da realpolitik, sempre prontos a estabelecer relações cordiais com os piores tiranos contemporâneos. "Os EUA e a Europa apoiavam as ditaduras [na Tunísia e no Egipto] recorrendo ao argumento da estabilidade. No segundo dia das revoltas populares, Hillary Clinton chegou a dizer que o governo de Mubarak era estável. Como pode um regime que governa durante 30 anos com lei marcial ser um modelo de estabilidade? Nunca há estabilidade quando os governos não são livremente eleitos pelo povo."

Estive entre a assistência que o aplaudiu com entusiasmo ao fim da tarde de ontem. Gosto de ouvir um Nobel da Paz falar assim.