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Venho hoje falar de um documento um pouco polémico, pois paira sobre ele o espectro da falsificação, embora actualmente se considere poder ser verdadeiro. De qualquer maneira, trata-se de um assunto em aberto e que, na minha opinião, tem a sua relevância. Estou a falar de um Pacto Sucessório secreto, que terá sido firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, à revelia do sogro Afonso VI, decidindo como dividiriam a herança depois da morte deste e por mim já aqui referido. Não se sabe a data exacta em que terá sido firmado, o historiador Charles Bishko situa-o entre 14 de Maio e 22 de Setembro de 1105, ou seja, durante o Verão. Nada melhor do que o mês de Agosto para o relembrar.

Nos arquivos portugueses, não existe cópia do documento, mas a versão que terá sido enviada ao abade de Cluny encontra-se na Bibliothèque Nationale de France. O Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, publicou dois estudos sobre o assunto, na Medievalista online. No primeiro, O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, em 2011, duvida da sua autenticidade. Porém, no segundo, Proposta de aclaração do “pacto sucessório” à luz de novos dados, três anos depois, admite que possa ser verdadeiro.

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY, Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470.

Atentemos às palavras com que o Professor Abel Estefânio abre o segundo estudo:

«Quando o estudei pela primeira vez, pareceu-me que se tratava de um falso histórico e apresentei essa hipótese num artigo publicado em 2011 na revista Medievalista (…) Todavia, como não o pude afirmar categoricamente, não dei o assunto por encerrado. Havia, desde logo, que considerar a nota que o Professor José Mattoso elaborou sobre o meu estudo, com o contributo do Professor Arnaldo do Espírito Santo relativamente ao argumento linguístico. Perante a ausência de sinais evidentes do uso de um latim clássico que denuncie um falsário da época moderna, o Dire(c)tor da Medievalista considerou que se impunha um exame mais aprofundado».

Na minha opinião, é verosímil que os condes D. Raimundo e D. Henrique tenham firmado este pacto. Recordemos a situação! D. Afonso VI, sentindo a morte a aproximar-se e angustiado por não ter herdeiro varão, nomeia seu sucessor o filho que teve da moura Zaida, baptizando-o de infante Sancho. Podemos imaginar a revolta que sentiu a sua única filha legítima, D. Urraca, e também o genro D. Raimundo, sobretudo por, neste mesmo ano de 1105, a 1 de Março, ter nascido o filho do casal.

Raimundo terá recorrido ao abade Hugo de Cluny. A fim de conseguir guerreiros para a Reconquista, Afonso VI seguira, durante anos, uma política pró-francesa, ligada à Ordem Cluniacense, nomeando muitos prelados estrangeiros para as dioceses hispânicas, fazendo-lhes riquíssimas doações e dotando-os de privilégios, assim como aos nobres que os acompanhavam. Foi neste contexto que surgiram Raimundo e Henrique na Hispânia. O conde portucalense era inclusive sobrinho-neto do abade Hugo. Os cluniacenses introduziram, na Península, o culto romano, ditado pela reforma gregoriana, em detrimento do velho rito hispânico, ou moçárabe.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant

Miniatura representando Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza (1047-1109). Tumbo A da catedral de Santiago de Compostela.

A fim de poder nomear Sancho seu sucessor, porém, o imperador Afonso VI executou um verdadeiro volte-face, pois o velho clero hispânico prontificou-se a baptizar a moura Zaida e a legitimar o filho desta. Alarmado por Raimundo, o abade Hugo de Cluny enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret, na presença do qual Raimundo e Henrique terão firmado o pacto sucessório.

O documento não costuma ser mencionado na nossa historiografia. A hipótese de falsificação não é o único motivo, já que, mesmo sendo verdadeiro, há quem o considere irrelevante. Tanto Raimundo, como o infante Sancho, viriam a falecer antes de Afonso VI, o primeiro dois anos depois de ter assinado o pacto e o segundo no ano seguinte, em 1108, na batalha de Uclés.

Na minha opinião, porém, que vejo boas razões para que seja autêntico, ele foi fundamental na política tão criticada de D. Teresa. Mas comecemos pelo princípio!

Ao casar com D. Urraca, D. Raimundo tornou-se conde da Galiza e, nas suas posses, incluía-se o condado Portucalense que, nessa altura, ia até ao Tejo, pois Afonso VI tinha recebido Santarém e Lisboa do rei mouro de Badajoz, que se pôs sob a protecção do imperador. Raimundo, porém, não conseguiu segurar Lisboa, provocando a ira do sogro. Ao casar a filha Teresa com Henrique, Afonso VI pôs nas mãos deste o condado Portucalense, confinando Raimundo à Galiza. Henrique, porém, permaneceu vassalo do cunhado, situação que o pacto confirma. A carta endereçada ao abade de Cluny começa assim:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, seu vassalo, desejam saúde e amor em Cristo (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p. 13).

A nossa historiografia tende a divulgar a versão de que o interesse de D. Teresa pela Galiza se deveu ao seu envolvimento com a família de Trava. Ora, este pacto secreto, assinado pelo marido, sete anos antes de morrer, mostra que a Galiza fazia parte das ambições do conde portucalense. D. Teresa deu-lhe seguimento. Nas suas lutas com a irmã Urraca, ela reclamou sempre a Galiza para si. E o próprio Afonso Henriques passou os cinco anos a seguir à Batalha de São Mamede a tentar conquistar território galego. Foi essa a sua primeira medida, depois de se tornar no líder incontestado do condado Portucalense. Só depois de sucessivas derrotas, perdendo os territórios galegos conquistados, ele se virou para o Sul.

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p.22).

Esta passagem, do texto do pacto, é um pouco enigmática, pois dá a ideia de que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e que o cunhado não estava disposto a concedê-lo, substituindo-o pela Galiza. Ou seria o contrário? Inclino-me para a segunda hipótese. Não vejo que interesse D. Henrique pudesse ter por Toledo, tão longe das suas posses, apesar de se tratar de uma cidade de grande prestígio, antiga capital do reino visigótico. Contudo, depois da morte do imperador, Toledo nunca foi motivo de conflito com a rainha D. Urraca. Já a Galiza sim! Além disso, à data do pacto, D. Raimundo era conde da Galiza há cerca de quinze anos, não penso que facilmente abrisse mão desse território. E relembremos ainda que, dar, a um vassalo, o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano, era prática habitual na Idade Média. Podemos, por isso, admitir que a ideia de Toledo terá sido de Raimundo, como recompensa pela ajuda do cunhado. Henrique, porém, estaria mais interessado no reino da Galiza, criando um impasse. Com a moderação de Dalmácio Geret, ter-se-á tentado uma solução provisória, do estilo: «Toledo ou a Galiza».

Defendo, portanto, a importância do pacto, ao mostrar que a luta pela Galiza não se baseou num capricho de D. Teresa, por ter um amante galego. Fazia parte de uma estratégia política iniciada pelo conde D. Henrique, seguida pela sua viúva e também pelo filho de ambos, num primeiro momento: formar um reino na faixa oeste da Península, que iria desde a costa norte galega até onde as conquistas a Sul o permitissem.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

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Há 50 anos...

por João André, em 20.07.19

... menos 12 horas.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

 

Calcula-se que foi em Julho de 1122 que D. Teresa deu a sua filha mais velha, Urraca Henriques, em casamento a Bermudo Peres de Trava. Este consórcio gerou um verdadeiro vendaval no condado Portucalense.

Nesta altura, D. Teresa já tinha perdido muitos apoios, pois os nobres de Entre-Douro-e-Minho nunca aceitaram a influência da família de Trava. Convém, no entanto, fazer aqui um parênteses para explicar que o condado Portucalense, recebido por D. Teresa à altura do seu casamento com D. Henrique, era a junção de dois antigos condados: o Portucalense propriamente dito, que ia sensivelmente até à região do Douro, e o condado de Coimbra, que englobava o restante território, de fronteira sul indefinida, mas pertencendo-lhe ainda o castelo e a localidade de Soure. As terras de Viseu, Seia e Coimbra mantiveram-se fiéis a D. Teresa, pelo que, nos anos que antecederam São Mamede, poderia ter-se verificado a divisão. Para isso, contribuía igualmente o facto de os senhores do Norte, com mais posses e maior poderio militar, desdenharem dos cavaleiros vilãos de Viseu e de Coimbra, alguns deles estrangeiros, antigos companheiros de armas de D. Henrique.

A relação de D. Teresa com Fernando Peres de Trava terá começado à volta de 1120 e, à altura do casamento de Urraca Henriques, os dois tinham já, ou estavam prestes a ter, uma filha. Orientados pelo arcebispo de Braga, os nobres portucalenses acusaram D. Teresa de incesto, já que dava a mão da sua filha ao irmão do seu amante. Acusavam-na aliás de incesto duplo, pois alegavam a própria D. Teresa haver tido um caso com Bermudo Peres de Trava, casando assim a filha com o antigo amante. É, no entanto, provável que esta relação tenha sido inventada, no intuito de danificar ao máximo a reputação de D. Teresa, a fim de a substituir pelo filho, o mais depressa possível.

A pergunta que se põe é: porque patrocinou D. Teresa este casamento? Não previa ela as terríveis consequências? Uma das razões poderá ser precisamente o facto de ela não ter tido relação íntima com Bermudo Peres de Trava. De resto, há que compreender a estratégia de D. Teresa, que aspirava ao reino da Galiza, a fim de ser coroada rainha, título que já vinha usando, com o beneplácito dos nobres portucalenses, e usado igualmente por um papa, numa bula, como tratamento à filha de Afonso VI. D. Teresa planeva englobar nesse reino o condado que lhe pertencia, não admirando, por isso, que visse vantagens na sua aproximação à mais poderosa família galega.

Há indícios de que ela tenha tentado casar com Fernando Peres, anulando o casamento deste; há mesmo quem considere que eles realmente casaram secretamente, numa cerimónia em que o nobre galego terá repudiado a sua primeira esposa. À luz das leis medievais, tal atitude podia ser motivo suficiente para a Igreja anular o consórcio. Ora, tudo isto, aliado ao matrimónio de Urraca com Bermudo, reforçaria a ligação das duas famílias, dando-lhe legitimidade e aumentando a pressão sobre os barões de Entre-Douro-e-Minho.

Como sabemos, o contrário aconteceu, o que não admira muito, tendo D. Teresa dois arcebispos como contraentes: o de Braga e o de Santiago de Compostela. O braço-de-ferro entre a “rainha” e os nobres portucalenses duraria ainda seis penosos anos, até 1128, quando se deu a Batalha de São Mamede.

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Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques, morreu a 1 de Julho de 1109. Sabemos que se intitulava “imperador” por reger sobre três reinos, apesar de ter utilizado meios mais do que duvidosos para se apoderar das heranças dos irmãos. À morte do pai, D. Afonso VI teve apenas direito ao reino de Leão, pois D. Fernando I o Magno dividiu as suas posses pelos três filhos. Enquanto a rainha-mãe foi viva, os irmãos mantiveram-se sossegados. Mal ela fechou os olhos, porém, entraram em conflito. Sancho, o mais velho, seria assassinado, pensa-se que a mando do irmão Afonso, que assim se apoderou do reino de Castela. E acabaria por encarcerar o mais novo, Garcia, rei da Galiza, na fortaleza de Luna, situada numa região inóspita de fronteira com as Astúrias. Garcia viria a falecer depois de quase vinte anos de cárcere.

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Afonso VI de Leão, Castela e Galiza. Imagem daqui, sem indicação de data e autor.

À altura da sua morte, Afonso VI tinha cerca de 62 anos e, apesar de ter sido um homem poderoso e temido, morreu amargurado, sobretudo, por não deixar herdeiro varão. Como referido num post anterior, o infante Sancho, filho da sua barregã moura e por ele legitimado, pereceu com apenas quinze anos na Batalha de Uclés, um ano antes do pai. O imperador reuniu então cortes em Toledo e declarou a filha Urraca sua herdeira universal, decisão que não pareceu agradar ao genro D. Henrique, pois é na sequência desta reunião que Afonso VI o expulsa da corte, considerando-o traidor. Tudo leva a crer que D. Henrique teria pretensões à coroa do sogro, ou pelo menos, à divisão da herança. Segundo José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007), o conde portucalense teria, então, encetado uma viagem à sua Borgonha natal, regressando cerca de um ano mais tarde, no Verão de 1109. É curioso notar que esta versão põe em causa a hipótese de o seu filho ter nascido em Viseu, a 9 de Agosto de 1109, pois, à altura em que teria de ser gerado (Novembro ou Dezembro de 1108) o pai, pelos vistos, não se encontrava por terras hispânicas.

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada

Estamos a falar de uma época em que mulheres não eram bem vistas à frente de um território e, sendo D. Urraca viúva, os nobres castelhanos exigiram, nas cortes de Toledo, que ela casasse. D. Afonso VI deu-lhes razão e logo os mesmos nobres se apressaram a fazer-lhe a corte. Não é difícil imaginar a grande agitação que se teria gerado à volta da herdeira mais cobiçada da Hispânia. Porém, só cerca de um ano mais tarde, no leito de morte, D. Afonso VI estipulou que sua filha desposasse o rei D. Afonso I de Aragão e Pamplona.

Urraca cumpriu a vontade de seu pai, mas, na verdade, o casamento foi um erro, um verdadeiro desastre, e acabou por ser anulado pela Igreja. Pensa-se inclusive que nunca teria sido consumado, o que leva a especulações sobre as preferências sexuais do rei aragonês, que era aliás um bravo guerreiro e ficou na História com o cognome de Batalhador. Contudo, apesar de ter tido vida longa e um reino para legar, só esteve casado meia dúzia de anos e não se lhe conhecem filhos ilegítimos, como era habitual entre os monarcas medievais.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Enquanto foi casado com Urraca, Afonso de Aragão chegou a intitular-se “imperador”, à semelhança do sogro, mas a oposição de vários nobres castelhanos mergulhou o coração da Península Ibérica em combates sangrentos. D. Urraca tanto se posicionava do lado do marido, como apoiava os nobres castelhanos. Atitude semelhante tiveram, aliás, D. Henrique e D. Teresa, que oscilavam no seu apoio entre D. Urraca e o monarca aragonês. Trata-se de uma época confusa, sendo, hoje em dia, difícil de explicar o que levava os três a tanta indefinição, num conflito que haveria de provocar a morte de D. Henrique, em Abril de 1112.

Afonso VI morreu em Toledo, mas foi sepultado no mosteiro de Beneditinas de Sahagún, conforme seu desejo. Sendo as duas cidades separadas por cerca de 400 km, podemos imaginar quão penoso terá sido este cortejo fúnebre, naquele tempo, em pleno Verão. O funeral, em Sahagún, só se realizou a 21 de Julho.

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Batalha de São Mamede. Óleo de Acácio Lino, 1922

 

Hoje, dia de São João Baptista, celebra-se o 891º aniversário da Batalha de São Mamede.

Foi na sequência desta refrega, às portas de Guimarães, que D. Afonso Henriques atingiu a liderança sobre o condado Portucalense. O nosso primeiro rei tinha à volta de vinte anos e estava ainda longe de ser o Conquistador que conhecemos da nossa História. Na verdade, não passava de um jovem inexperiente, mas os barões portucalenses, que repudiavam a influência da família galega de Trava, apoiavam-no em peso. As famílias mais poderosas eram as de Ribadouro (à qual pertencia Egas Moniz), da Maia, de Sousa, de Baião e de Bragança (os Braganções medievais nada têm a ver com a dinastia actual de Bragança).

Não há certezas quanto ao número exacto de guerreiros envolvidos, as fontes, como sempre, são contraditórias. Afonso Henriques estaria, porém, em larga vantagem, pensa-se que teria à volta de seiscentos homens, contra cerca de trezentos do lado de sua mãe.

Apesar de muito contestada no Norte do condado, D. Teresa tinha apoios a sul do Douro, principalmente, em Viseu e Coimbra. O Entre Douro e Minho era, porém, muito mais povoado, possuía mais força de armas. D. Teresa juntou os seus vassalos e demais apoiantes, que incluíam os homens de armas galegos afectos a Fernão e Bermudo Peres de Trava e a Gomes Nunes de Barbosa, os cavaleiros vilãos de Viseu, Coimbra e Seia e alguns nobres, como os de Grijó.

Não penso que, à altura da Batalha de São Mamede, D. Afonso Henriques teria já a intenção de fundar o reino português. Ele teria, sim, receio que nascesse ainda um filho da relação de sua mãe com Fernão Peres de Trava, o que poria a sua herança em perigo. D. Teresa tentou aliás transformar o condado em reino (ela apelidava-se de rainha), mas juntando-o ao território galego. Recordemos que a Galiza tinha já estatuto de reino. Podemos mesmo perguntar-nos se Afonso Henriques teria a mesma intenção, pois, nos cinco anos que se seguiram à Batalha de São Mamede, tentou, por todos os meios, conquistar território galego. Só depois de várias derrotas, ele se virou para as conquistas a Sul.

Derrotada em São Mamede, D. Teresa preferiu o exílio. Morreria cerca de dois anos depois, Herculano refere o dia 1 de Novembro de 1130.

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A 20 de Junho de 1120, D. Teresa refugiou-se no castelo de Lanhoso e a meia-irmã D. Urraca montou-lhe cerco.

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Castelo de Lanhoso - esta torre, a sua "imagem de marca" actual, ainda não existia ao tempo de D. Teresa. Foto © Horst Neumann

Trata-se de uma época muito conflituosa, cheia de intrigas e golpes, nos quais estavam envolvidas mais duas importantes personalidades: o conde galego Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela, Diego Gelmírez.

Tal como a meia-irmã, D. Urraca, como mulher, teve muita dificuldade em fazer valer a sua autoridade, apesar de ser a única herdeira legítima de D. Afonso VI. O facto de ter cumprido a última vontade de seu pai, casando com o rei D. Afonso I de Aragão e Navarra, piorou a situação da rainha, pois, no caso de o casal ter filho varão, esse príncipe deveria herdar Leão e Castela e o meio-irmão, Afonso Raimundes, filho do falecido D. Raimundo, herdaria apenas a Galiza. Assim determinara o imperador Afonso VI, logo provocando o protesto do conde galego Pedro Froilaz de Trava, Aio de Afonso Raimundes, que considerava o seu protegido o único herdeiro do avô. Depois da morte do imperador, o conde galego, assim como o bispo Gelmírez, apressaram-se a coroar Afonso, de apenas seis anos, como rei da Galiza, num primeiro sinal da autoridade que assistia ao pequeno.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Esta coroação complicou a vida de D. Urraca, pois, durante a menoridade do filho, teve de aceitar a regência de Pedro Froilaz de Trava sobre a Galiza. Não teve aliás filhos com Afonso I de Aragão e o casamento chegou mesmo a ser dissolvido pela Igreja. Porém, quando o filho atingiu a maioridade, que, nesta altura, se dava pelos catorze ou quinze anos, o conde galego instou-o a ocupar o trono de Toledo, a fim de tomar o lugar de seu avô, apesar de a mãe ainda ser viva. Não estando disposta a prescindir dos seus direitos, D. Urraca envolveu-se em contendas com Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela.

Os dois galegos eram amigos, unidos na defesa do seu protegido, mas, com o tempo, começaram a desentender-se. D. Urraca aproveitou para aprofundar o fosso entre eles, entrando, em 1120, com um exército na Galiza. Instalou-se em Santiago de Compostela, onde doou um importante feudo à igreja daquela cidade, favorecendo o arcebispo. Esta doação debilitava a família de Trava, o que indignou o conde Pedro Froilaz.

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D. Urraca de Leão e Castela, pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada, na Prefeitura de Leão

Em seguida, aconteceu, porém, algo que hoje não se sabe bem explicar: D. Urraca penetrou no condado Portucalense, arrasando culturas, incendiando e depredando. Terá sido por influência do arcebispo Diego Gelmírez, que pretendia acabar com o estatuto arqui-episcopal de Braga? Nesse caso, será difícil de explicar que D. Urraca tenha feito, a 17 de Junho, uma importante doação à igreja de Braga, na presença do arcebispo D. Paio Mendes.

O certo é que, na sequência da incursão da meia-irmã, D. Teresa teve receio de ser destituída do governo do condado e refugiou-se no castelo de Lanhoso, um dos melhores de Entre Douro e Minho. Situado no cimo de um maciço rochoso com quase trezentos metros de altura, o castelo permitia vigiar as redondezas num raio de dezenas de milhas. Devido ao terreno acidentado, o seu acesso fazia-se apenas por um itinerário e as suas muralhas eram reforçadas por cinco torreões, dois dos quais ladeavam a única porta de entrada, voltada a Sul. Além disso, o seu interior albergava uma estrutura palaciana.

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Pormenor do recinto actual do castelo de Póvoa de Lanhoso. Foto © Horst Neumann

A partir daqui, não há certezas sobre o que aconteceu. A versão mais conhecida é que as irmãs se reconciliaram, nas chamadas «pazes de Lanhoso», jurando-se amizade e tendo D. Teresa prestado vassalagem à irmã, que instituiu, a seu favor, «os senhorios de Zamora, Orense, Salamanca, Toro e Ávila» (Mateus, 2005). Certo é que o cerco foi de pouca dura. E, regressada a Compostela, D. Urraca mandou prender o arcebispo Gelmírez e confiscou-lhe todos os castelos! O que terá gerado este volte-face?

Na opinião de Mateus (2005), terá havido intriga de Fernão Peres de Trava, o filho mais novo do conde Pedro Froilaz. Este é um interessante e fulcral episódio, pois talvez marque o início da relação entre Fernão Peres e D. Teresa. Mas como entraram os dois em contacto? Terá Fernão Peres procurado D. Teresa em Lanhoso? Teriam os dois, nessa altura, combinado apoderarem-se da Galiza (que D. Teresa considerava fazer parte da sua herança) e urdido uma intriga, a fim de pôr D. Urraca novamente contra o arcebispo Gelmírez? Neste caso, é possível que nem tenham existido as «pazes de Lanhoso», rejeitando a hipótese de D. Teresa ter prestado vassalagem a D. Urraca.

O mais certo é nunca virmos a saber o que realmente aconteceu. No entanto, o episódio de Lanhoso teve importância fulcral no futuro de D. Teresa, já que a sua ligação a Fernão Peres de Trava, permitindo a ingerência deste no governo do condado Portucalense, afastou de si os barões que veriam no filho, Afonso Henriques, o melhor meio de afastar a influência galega.

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A 18 de Junho de 1116, o papa Pascoal II emitiu a bula Fratrum Nostrum, em resposta a queixas do bispo de Coimbra, ordenando que fosse restituído à igreja de Coimbra tudo o que lhe tinha sido tirado, inclusive a igreja de Lamego que fora concedida à igreja do Porto. Esta bula foi enviada aos arcebispos de Toledo e de Braga, aos bispos de Tui e de Salamanca e à «rainha D. Teresa».

06 - Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoa

Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoal II em 18 de Junho de 1116

Foi este um reconhecimento oficial do título real de D. Teresa, ou apenas um tratamento especial dado à filha do «imperador Afonso» (Adefonsi imperatoris)? Tudo indica que este fosse um tratamento habitual entre os portucalenses. A nossa historiografia realça os últimos três a quatro anos da regência de D. Teresa, ou seja, a partir do momento em que os barões portucalenses entraram em conflito aberto com ela e, nos últimos dois, o próprio filho. No entanto, D. Teresa regeu cerca de dezasseis anos sobre o Condado Portucalense, a maioria dos quais em perfeita sintonia com os seus barões. Estes reconheciam-lhe a competência, a «rainha» exercia um controlo total sobre o território, mediando conflitos, dando opinião, ouvindo, fazendo alianças, retribuindo lealdades, castigando quem a infligisse e afirmando-se com grande autoridade.

Além disso, os barões terão admirado o comportamento de D. Teresa à altura do ataque a Coimbra, a 7 de Julho desse mesmo ano de 1116. Na sequência de uma investida almorávida, caíram os castelos de Santa Eulália (concelho de Montemor-o-Velho) e de Miranda do Corvo, enquanto o de Soure foi abandonado e incendiado pelos próprios habitantes, que se refugiaram em Coimbra. Os sarracenos fizeram então grande mortandade ao redor das muralhas desta cidade e D. Teresa terá mostrado coragem, aguentando o ataque, sem fugir, embora estivesse acompanhada dos filhos (D. Afonso Henriques, o mais novo, tinha à volta de oito anos).

Em vários documentos régios e particulares, num período compreendido entre 1105 e 1126, com destaques para as cartas de doação ou de escambo, D. Teresa surge com o título de rainha: «Tarasia regina». Alguns destes documentos exibem mesmo o selo real de D. Teresa em redor da cruz de Cristo.

02 - Carta de doação da igreja de Soure a D. Gon

Carta de doação da igreja de Soure a D. Gonçalo Pais bispo de Coimbra (1109-1127) datada de 10 de Outubro de 1111. Pode ler-se numa passagem assinalada no centro, em baixo: "Ego Tarasia Regina".

10 - Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, d

Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro datada de Janeiro de 1126. 
No fim do documento, observa-se o selo real com os dizeres "Tarasia Regina" (Teresa Rainha). 
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Gavetas.
 

11 - Pormenor do selo real de D. Teresa no final d

Pormenor do selo real de D. Teresa no final da carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, Janeiro de 1126.

12 - Carta de confirmação dos foros concedidos

Carta de confirmação dos foros concedidos à Sé de Viseu, datada de Maio de 1123. Também aqui se encontra assinalada a passagem: "Ego Tarasia Regina".

13 - Carta de doação do castelo de Soure à orde

Carta de doação do castelo de Soure à ordem dos Templários, 29 Março 1128. Mais uma vez, o selo real de D. Teresa.

Relembremos que D. Afonso Henriques agiu exactamente da mesma maneira. À semelhança de sua mãe, começou a usar o título de «rei», antes de este ser oficializado por seu primo D. Afonso VII e pela Santa Sé. Além disso, ainda antes de assumir o governo do Condado Portucalense, D. Afonso Henriques era tratado por (e assinava como) «infante», título dado a filho de rei (o que continuou a fazer, depois da Batalha de São Mamede, em 1128, até à Batalha de Ourique, em 1139). Ora, sabemos que seu pai, D. Henrique, permaneceu conde até à sua morte. O título só se justificava por sua mãe ser rainha.

A página do Facebook Lisbon’s Heritage (de onde copiei os documentos) chegou a colocar a questão: Terá Sido Portugal Fundado Por Uma Mulher?

Talvez seja ir longe demais. Afinal, apesar do título de «rainha», D. Teresa regeu sobre um condado. Por outro lado, ela marcou indubitavelmente a independência em relação a sua meia-irmã D. Urraca, a única herdeira do imperador D. Afonso VI. Recusou-se terminantemente a prestar-lhe vassalagem, assim como ao sobrinho (depois da morte de D. Urraca, em 1126). Mesmo não aceitando D. Teresa como a fundadora de Portugal, temos de admitir que, muito mais do que o conde D. Henrique, ela foi a preparadora do caminho que seu filho haveria de percorrer.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos.

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Faz hoje 872 anos que chegou à cidade do Porto a armada de Cruzados que haveria de ajudar D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa.

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Foto © Horst Neumann

Esta minha paixão pela História Medieval leva-me, muitas vezes, a desejar viajar no tempo. E, tendo eu vivido quase duas décadas muito importantes da minha vida (dos 10 aos 27 anos) em Vila Nova de Gaia, perto da Igreja da Serra do Pilar, de onde se tem uma vista extraordinária sobre o rio Douro e a cidade velha do Porto (e de onde foi tirada a fotografia acima), o dia 16 de Junho de 1147 seria um dos meus momentos de eleição. Mas, mesmo sem viajar, não será difícil imaginar a sensação que terá sido a chegada à Ribeira do Porto das 150 a 200 embarcações que constituíam a frota dos Cruzados.

Calcula-se que o contingente contasse cerca de 10.000 homens, distribuídos por várias nacionalidades, não havendo, assim, um líder único. Germânicos e Flamengos rondariam os 5.500 efectivos, capitaneados, respectivamente, pelo conde Arnoldo de Aerschot, um lotaríngio, sobrinho de Godofredo de Bulhão (que fundara o reino de Jerusalém na sequência da Primeira Cruzada) e por Cristiano, senhor de Gistelles, habitualmente apontado como um vassalo do conde Thierry da Flandres. Incluído neste grupo, estariam os contingentes do condado de Boulonge, igualmente vassalo do conde da Flandres.

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Embarcação do tipo coga, característica do Norte da Europa

Os ingleses totalizavam perto de 4.500 homens, divididos em quatro grandes grupos, cada um deles sob o comando de um «condestável». Hervey de Glanville (que teria algum ascendente sobre os outros comandantes) liderava as forças do condado de Norfolk, Simão de Dover liderava os combatentes do Suffolk, André de Londres estava à frente das forças da capital do reino e Saher de Archell liderava um grupo de escoceses e franceses.

A armada transportava ainda vários clérigos, sendo os mais conhecidos Gilberto de Hastings (o inglês que viria a ser escolhido por D. Afonso Henriques para primeiro bispo de Lisboa), o presbítero Raul e os germânicos Winando, Arnulfo e Duodequino de Lahnstein. Os relatos e as cartas destes últimos quatro clérigos constituem as fontes mais importantes sobre o decorrer do cerco de Lisboa.

Não é igualmente de excluir a presença de mulheres, fossem esposas ou companheiras de alguns dos homens, fossem prostitutas, como era habitual nos exércitos medievais.

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Imagem que em tempos usei no meu blogue, sem indicação de origem, mas, como está assinada, resolvi usá-la novamente.

Os representantes dos Cruzados foram recebidos pelo bispo do Porto, D. Pedro de Pitões, que, no dia seguinte, 17 de Junho, fez a sua pregação no terreiro junto à Sé, a fim de os convencer a ajudarem D. Afonso Henriques no seu empreendimento. Nada ficou decidido, mas os estrangeiros anuíram em viajar até Lisboa, a fim de ouvirem o que o rei português tinha para lhes dizer.

A frota partiria a 27 de Junho em direção a Lisboa, ou Lušbuna, mas os Cruzados não foram os únicos a viajar. Na verdade, deve ter-se verificado um verdadeiro êxodo, a partir do Norte do reino. O exército de D. Afonso Henriques contava cerca de 3.000 efectivos, o que, juntando aos 10.000 Cruzados, perfaz 13.000 combatentes. Já vimos, porém, que a frota transportava mais gente. Além disso, calcula-se que, no cerco a Lisboa, se encontravam cerca de 30.000 pessoas, do lado cristão, indiciando que muito povo decidiu rumar a Sul, considerando-se peregrinos em missão de fé. Na verdade, muita gente iria na esperança de uma vida melhor, confiando nas riquezas arrebanhadas aos pagãos e nas terras que D. Afonso Henriques haveria de distribuir, a fim de segurar a conquista.

Penso que este é um momento crucial para a coesão do reino acabado de formar. Estamos efectivamente a falar dos primeiros portugueses da História. D. Afonso Henriques conseguiu mobilizar todo o povo no mesmo objectivo, gente vinda desde a margem esquerda do rio Minho e da região transmontana, passando pelo Porto e pela região duriense até às terras à volta do rio Mondego. Portugal deixava de ser apenas Braga, Guimarães, Porto, Lamego, Viseu e Coimbra, para passar também a ser Leiria, Santarém, Lisboa e Sintra (havia cerca de dez anos que D. Afonso Henriques mandara construir o castelo de Leiria, mas, até 1147, situava-se em pleno território de fronteira indefinida).

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Nota: quem se interessar por este tema, não encontra melhor leitura do que este livro de autoria do Professor Miguel Gomes Martins, do qual tirei muitas das informações publicadas neste texto. 1147 A Conquista de Lisboa - Na Rota da Segunda Cruzada contém tudo o que, até ao momento, é conhecido sobre o Cerco e a Conquista de Lisboa, dando ainda um retrato da situação europeia da época e o papel das conquistas portuguesas nesse contexto.

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50 anos de Woodstock (em Agosto)

por Marta Spínola, em 15.06.19
Eu não contei, mas conto agora, que um dia destes vi o documentário de Michael Wadleigh (cuja edição tem também mão de Martin Scorsese) sobre Woodstock, que teve três nomeações e ganhou o Oscar para melhor documentário em 1970. Não tinha expectativas altas nem baixas, como muita gente, sabia vagamente quem passou pelo palco, e que tinha havido lama, droga e banhos de rio. Felizmente fui surpreendida. 

Senti-me transportada até ao recinto, numa quinta em Bethel, a norte de Nova Iorque. Uma ideia de dois miúdos que podia ter corrido tão mal, onde eram esperadas 50 mil pessoas e apareceram 400 mil (um milhão contando com os arredores), mas com apelos de peace and love constantes, lá se foi dando. Bravo, gerações de 50 e 60. 

Uma chuvada e tanta gente ensopada, a lama do dia seguinte, é claro que tinha de haver banhos de rio a seguir (e antes e durante). 

E o público. Miúdos, graúdos, bebés. A população local, ao contrário de nos filmes, compreensiva com os miúdos, conformada com a invasão e a escassez pontual de alimentos. Pais com um filho no festival outro no Vietname, serenos com toda aquela gente em redor. 

Ver Santana quase menino, rever os gestos de Joe Cocker - só o conheci bem mais tarde, mas os movimentos eram os mesmos -, Roger Daltrey (sempre com Pete Townshend numa perfeita liderança a dois), o único homem do Rock que deu dignidade a caracóis. Ainda Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joan Baez, Jefferson Airplane, Richie Havens, Ravi Shankar, Arlo Guthrie, Cannes Heat, Ten Years After, Crosby Stills Nash & Young são nomes a ver e ouvir no documentário. 

Admito que, nascida quase dez anos depois de acontecer, a minha ideia de Woodstock reflectia algum first world drama, mas acreditem quando vos digo que um dos pontos altos é a eficácia na limpeza das casas de banho portáteis em 1969. Nem sei se nos dias de hoje é assim por cá, mas há 50 anos não era certamente, estávamos bem longe destas andanças, com outros dias, outros tempos em mãos. Outro exemplo é a resolução imediata e local de problemas como alimentar toda a gente. É possível que se tenha passado fome, mas houve passos dados para pelo menos remediar isso, sem dúvida. Ninguém estava só por si ali. 

O melhor de tudo: ver na assistência do CCB (minha mãe incluída), maioritariamente acima dos 60 anos, cabeças a abanar acompanhando o rock que cá chegava e viviam tão intensamente noutro tempo. Adorei. Acho que amo Woodstock afinal. Peace!

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Trinta anos

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.06.19

merlin_155529741_1308c562-024d-46ea-9e15-6a044a6c4(Catherine Henriette/Agence France-Presse — Getty Images)

Trinta anos depois promove-se a estratégia OBOR (One belt, One road) e a Grande Baía. Há sorrisos, brindes e fatos de bom corte em tecidos nobres. Tudo o que aconteceu em 4 de Junho se mantém escondido e silencioso. Em Hong Kong e Macau, outrora locais de abrigo e acolhimento de quem precisava, são poucos os que conhecem a história recente do País. Há jovens que desconhecem, inclusivamente, o passado anterior a 1997 e 1999 e a herança de outras administrações. Pensam que tudo foi sempre assim. A ignorância ajuda a manter o silêncio. Goza da cumplicidade dos poderosos. E tirando uma ou outra vigília, uma ou outra vela que se acende, os anos passam sem que se faça luz sobre o que aconteceu em 4 de Junho de 1989. A perpetuação da memória é a única forma de honrar os mortos e manter a chama acesa, mesmo sem quebra-vento que a proteja dos golpes que diariamente lhe são desferidos em nome do patriotismo e do desenvolvimento. A História pode ser escondida, manipulada, deturpada, omitida, ostracizada, vilipendiada, numa palavra ignorada. Só não se apaga.

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Faz hoje 911 anos que morreu um infante hispânico com apenas quinze anos de idade, de seu nome Sancho. E que importância pode ter um acontecimento destes para Portugal, ocorrido numa altura em que o nosso país ainda nem existia (talvez D. Afonso Henriques ainda nem fosse nascido)?

Na verdade, esta morte modificou o curso da História hispânica de forma radical. Caso o jovem Sancho tivesse sucedido a seu pai, seria até provável que o reino de Portugal nunca se tivesse formado. Estamos a falar do único filho varão do imperador D. Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques.

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Afonso VI de Galiza, Leão e Castela, imagem daqui, sem indicação de data e autor

Num certo aspecto, a história de vida de D. Afonso VI, rei de Leão Castela e Galiza, o que lhe valeu o título de imperador, assemelha-se à de Henrique VIII de Inglaterra, que haveria de nascer quase quatro séculos depois da sua morte: esperou, durante toda a sua vida, por um herdeiro varão. Apesar de ter casado cinco vezes, nasceu-lhe apenas uma criança legítima: a infanta D. Urraca, a conhecida meia-irmã de D. Teresa.

À medida que envelhecia, D. Afonso VI via-se incapaz de se conformar com este destino e, no início do século XII, terá casado com Zaida, a sua barregã moura, legitimando assim o filho de ambos. Zaida ter-se-ia convertido ao Cristianismo, sendo baptizada com o nome de Isabel, tendo o seu filho adquirido o nome de Sancho (não sabemos como anteriormente se chamaria). Este casamento do imperador não é consensual, entre os historiadores, pois não há forma de o provar. A ter sido celebrado, foi-o de forma muito discreta. No entanto, encontram-se referências a uma “rainha Isabel”, em alguns documentos coevos, e o Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, refere, num seu artigo na revista Medievalista online, que “é pela autoridade do bispo Paio de Oviedo que somos informados de Zaida que «babtizata Helisabeth fuit vocitata»”.

Do que não há qualquer dúvida é que D. Afonso VI, nos primeiros anos do século XII, decidiu apontar esse seu filho, nascido em 1093, como seu sucessor legítimo, apelidando-o de «infante Sancho». O jovem passou a confirmar os documentos oficiais da corte, em conjunto com sua mãe, a tal «rainha Isabel».

Podemos imaginar o impacto que esta medida causou na corte, nomeadamente em sua filha legítima Urraca e seu genro Raimundo, mas também no casal Henrique-Teresa. Esse impacto foi de tal ordem, que levou os dois genros a esquecerem as suas rivalidades, a fim de firmarem, às escondidas do sogro, um Pacto Sucessório, acontecimento praticamente desconhecido da nossa historiografia, mas onde os dois decidiam como seria dividida a herança do imperador, passando por cima do infante Sancho.

O vendaval durou, porém, apenas meia dúzia de anos. O conde D. Raimundo faleceu, de repente, ainda antes do sogro. E o jovem Sancho, nomeado, com apenas quinze anos, responsável pela defesa de Toledo, acabou por perecer na Batalha de Uclés, a 29 de Maio de 1108, na sequência de um ataque sarraceno.

D. Afonso VI, velho, doente e minado pelo desgosto, morreria apenas cerca de um ano mais tarde. Antes disso, porém, reuniu Cortes em Toledo e anunciou a filha Urraca sua sucessora, ao que aliás se opôs o genro Henrique. Este acontecimento originou o rompimento do conde portucalense com o sogro, que o baniu da corte, considerando-o traidor.

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada na Prefeitura de Leão, Wikipedia

Como sabemos, também D. Henrique acabou por morrer prematuramente, tornando-se as meias-irmãs Urraca e Teresa as principais protagonistas da História Ibérica durante mais de uma década. Ora, se o infante Sancho tivesse, de facto, sucedido a seu pai, não se teriam verificado as lutas pelo poder entre as duas irmãs, rivalidades que foram fundamentais para a formação do reino português.

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Bula Manifestis probatum. Imagem Wikipedia

 

Completam-se hoje 840 anos sobre a emissão da bula Manifestis probatum, pelo papa Alexandre III, reconhecendo oficialmente a independência de Portugal. Muitas vezes se assinala o dia 5 de Outubro de 1143 como sendo o da criação de um reino independente, mas o assunto não é pacífico. Na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007), um livro de mais de 400 páginas, o Professor Mattoso reserva apenas um pequeno parágrafo à conferência de Zamora, aqui transcrito na sua totalidade:

“Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal [Guido de Vico] dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto (p. 212)”.

D. Afonso VII reconheceu, em Zamora, a dignidade régia de D. Afonso Henriques (que utilizava o título de «rei» desde 1139), mas não há provas de que tenha prescindido da condição de vassalo do primo, já que se intitulava «imperador de toda a Hispânia», o que lhe dava o direito de ter reis como vassalos - algo que, muitas vezes, é esquecido, ou ignorado, na nossa historiografia. O certo é que D. Afonso Henriques teve necessidade de enviar, a 13 de Dezembro de 1143 (apenas dois meses depois de Zamora) a carta Claves regni ao papa, declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido de Vico, como cavaleiro de São Pedro, solicitando, assim, a sua libertação do poder central hispânico.

É, por isso, difícil de atribuir uma data para a independência de Portugal, mas acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo esta se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português (desenvolverei este assunto num próximo post).

D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e debilitado. Tinha cerca de setenta anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos fracos. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo, na época, um caso raro de longevidade, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos quinze anos.

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Afonso Henriques, escultura em bronze (pormenor); Ourique, 1979

 

Tendo em conta as viagens morosas daquela época, a chegada da bula Manifestis Probatum à corte portuguesa só se terá dado na segunda quinzena de Julho. Segurar nas próprias mãos este importante documento deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca, que aspirava à independência do seu reino havia quase cinquenta anos.

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Cidade de Zamora, nas margens do rio Douro/Duero. Imagem Sapo Viagens

 

Embora se conheça o local, não se conhece bem a data em que D. Afonso Henriques foi armado cavaleiro. Há consenso, por parte dos historiadores, que tenha sido num Dia de Pentecostes, uma data muito usada para este efeito, na época medieval, e o Professor Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (Temas e Debates 2007) situa a cerimónia nos anos 1125 ou 1126, preferindo, no entanto, a primeira hipótese.

O Pentecostes, no ano de 1125, foi no dia 17 de Maio. Penso, por isso, que podemos assinalar hoje o 894º aniversário da investidura de D. Afonso Henriques.

A História teve, no passado, a tendência para afirmar que este teria sido um acto de rebeldia do jovem infante em relação a sua mãe, por D. Teresa estar ligada ao conde galego Fernão Peres de Trava. Porém, o Professor Mattoso dá-nos uma versão diferente. Em primeiro lugar, diz-nos, na referida biografia, que, a partir de 1120, D. Afonso Henriques

“passou a viver na corte, e a ocupar nela uma posição de destaque, pois algumas vezes é mencionado como outorgante de documentos juntamente com sua mãe ou confirma-os em posição superior à do conde Fernão Peres. Até 1127, não se pode apontar nenhum indício seguro de qualquer conflito entre ele e a «rainha» [D. Teresa] (p. 54)”.

O professor Mattoso reforça esta sua tese com o local escolhido: Zamora.

“Se alguma investidura houve, porque não se escolheu Braga, Guimarães, o Porto, Coimbra ou Viseu? (…) Não se esqueça que Zamora pertencia ao senhorio de D. Teresa desde que lhe fora concedida por D. Urraca durante o cerco de Peñafiel em 1111. Se aceitarmos a veracidade da referência ao lugar, teremos, logicamente, de admitir que a cerimónia se teria realizado com o acordo de D. Teresa e, dadas as suas relações com Fernão Peres, também com o seu consentimento (p. 56)”.

Tudo isto nos dá outra visão dos acontecimentos: em vez de um acto de rebeldia do jovem infante, por instigação dos barões portucalenses revoltados, teria sido antes uma tentativa de D. Teresa de apaziguar esses mesmos barões, apresentando-se ao lado do filho.

A cerimónia terá decorrido na basílica de São Salvador de Zamora, pois não existia ainda a catedral. Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses (redigidos à volta de 1185), dizem-nos o seguinte:

“O ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso (…) tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar como é costume fazerem os reis”.

A ser verdadeiro, este relato reforça a tese de que D. Teresa promoveu a investidura do filho, pois intitulava-se «rainha», por isso, o seu filho era um infante tal como o primo. D. Teresa pretendia mostrar à meia-irmã D. Urraca e ao sobrinho D. Afonso Raimundes que continuava a reclamar para si uma parte da herança de seu pai, ou seja, o governo independente do reino da Galiza, no qual era apoiada pelos Trava.

 

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La Lys - uma mortandade há cem anos

por João Pedro Pimenta, em 09.04.18
Há cem anos acontecia o desastre quase anunciado de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua, tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que eram sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos, apesar de se anunciar uma rendição de contingentes para as horas seguintes. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães,  perder-se-ia "a importância portuguesa no mundo" e Portugal até poderia ser invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.

O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão. Houve alguns actos de heroísmo sobre-humano, como o do "soldado Milhões", outro de entre muitos que tinham sido levados da sua aldeia para as trincheiras, mas a maioria daqueles homens a quem chamaram soldados sem lhes ensinar esse estatuto debandou ou lá ficou.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares, violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas as menos aí defendíamos o que era oficialmente nosso, e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo, enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, para fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.

 

Paz às almas desses pobres soldados tombados às primeiras horas de 9 de Abril de 1918. Há exactamente cem anos.
 
 
 
* Texto escrito originalmente em 2008, pelos noventa anos da batalha, e devidamente actualizado.

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Uma lição diária de optimismo

por Pedro Correia, em 24.01.18

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Dizia Franklin Roosevelt de Winston Churchill, com aquela farta dose de cinismo que quase todos os políticos gostam de cultivar: "Tem cem ideias por dia. Quatro são boas; as outras 96, completamente perigosas."

De Marcelo Rebelo de Sousa - nativo de Sagitário, como Churchill - podemos também dizer, sem cinismo algum, que tem igualmente cem ideias por dia. Mas nenhuma delas perigosa.

Oxalá mantenha o ritmo, a pedalada e a transbordante energia que vem revelando no exercício da função presidencial para que foi eleito, faz hoje dois anos. E sobretudo que continue a insuflar de optimismo quotidiano este país tristonho, macambúzio e derrotista, que por vezes não merece o sol que tem. Um país onde os "vencidos da vida" pontificam e os profetas da desgraça imperam sem contraditório nas mais diversas tribunas da opinião.

Devemos-lhe sobretudo isto. E já é muito.

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'Casablanca': amor e liberdade

por Pedro Correia, em 26.11.17

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A retórica antinazi datou irremediavelmente muitos dos filmes americanos produzidos no tempo da guerra (1939-45). Até Chaplin, o mestre do mudo, caiu nesta armadilha na célebre cena final do seu O Grande Ditador (1940) – e foi quanto bastou para se perder uma obra-prima. Inversamente, o que faz a força perene de Casablanca (Michael Curtiz, 1942) é o facto de jamais ser um filme de propaganda óbvia ao esforço aliado no combate sem tréguas contra o III Reich. E no entanto não conheço outra película tão eficaz no apelo subliminar ao envolvimento de Washington no conflito.
Numa cena poucas vezes mencionada, Richard Blaine (Humphrey Bogart) pergunta ao pianista Sam (Dooley Wilson) que horas seriam em Nova Iorque. Pergunta aparentemente sem nexo, mas logo justificada pelo comentário adicional de Blaine: “Está toda a gente a dormir na América.”
 

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É uma frase emblemática. Corria o mês de Dezembro de 1941, eram as vésperas de Pearl Harbor, os americanos viviam ainda embalados pelo sonho da neutralidade que Philip Roth tão bem retrata no seu romance Conspiração Contra a América. Mas Blaine, o cínico Rick, dono do bar do mesmo nome em Casablanca, já se havia antecipado ao curso da História. Em 1935 fizera chegar armas aos abissínios que lutavam contra Mussolini, no ano seguinte ingressara nas Brigadas Internacionais em defesa da República espanhola. Ao contrário do que aparentava, era um homem de causas e capaz de se envolver até ao limite por elas. Esta dimensão política de Casablanca, que se me tem revelado em sucessivas revisões do filme, ultrapassa claramente as malhas do melodrama a que muitos gostariam de vê-lo confinado. E se algo sobrevive ao malogrado romance entre Rick e Ilsa Lund (deslumbrante Ingrid Bergman) é precisamente a batalha decisiva em que ambos apostam, também em nome do amor – neste caso, do amor à liberdade.

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“Agora só luto por mim. Sou a única causa que me interessa”, diz Bogart a Victor Laszlo (Paul Henreid), tentando aparentar cinismo por uma última vez. Nesta fase já ninguém acredita em tal fachada: há uma dimensão moral em Rick que de todo não existe no dúplice capitão Louis Renault (Claude Rains), sempre virado – nas suas próprias palavras – para “o lado de que sopra o vento”.
O “vento” daqueles tempos era o do cobarde colaboracionismo de Pétain – o velho marechal que se rendeu a Hitler e que surge em cartaz, no início do filme, contra o qual é assassinado um suposto membro da resistência francesa.
Bogart, o aventureiro de passado sombrio, e Bergman, a mulher dividida entre dois homens, não são figuras sem mácula, ao jeito dos “heróis exemplares” que o realismo socialista fornecia às massas. São gente de carne e osso, com os mesmos defeitos de qualquer de nós – e daí o facto de, tantos anos volvidos, continuarmos a identificar-nos com o destino deles. Rick, que jurava “não arriscar o pescoço por ninguém”, proclama afinal que o futuro do planeta importa bem mais do que “três pessoas insignificantes”. Ilsa, incapaz de voltar duas vezes costas à mesma paixão, segreda-lhe: “Terás de ser tu a pensar por nós.”
 
Rick assim faz. Entre o amor sem sombra de liberdade e a liberdade sem garantia de amor, optou por esta. Como se conhecesse os belíssimos versos de Sophia: “Terror de te amar num sítio tão frágil como o Mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e separa.”
Esta é talvez a maior lição que aprendemos em Casablanca: o verdadeiro amor é sinónimo absoluto de verdadeira liberdade.
 
 
Texto reeditado para assinalar o 75.º aniversário da estreia do filme, que hoje se assinala

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Os órfãos de Estaline no PCP

por Pedro Correia, em 07.11.17

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Imaginemos que um dirigente de um partido português elogiava Hitler: seria justamente vergastado no tribunal da opinião pública. E o que sucede quando um dirigente de um partido português elogia Estaline, "talvez o maior torcionário da história universal", como hoje o classifica Viriato Soromenho-Marques no Diário de Notícias?

Nada. Não acontece nada.

 

Na edição de domingo do mesmo jornal, um histórico membro da nomenclatura do PCP, Albano Nunes, afirma em entrevista que  "Estaline não tem só aspectos negativos, tem aspectos positivos".

Vale a pena assinalar: quem assim fala é alguém que esteve 42 anos no Comité Central, entre 1974 e Dezembro de 2016, e permaneceu 28 anos consecutivos no Secretariado, órgão de condução efectiva dos destinos do partido, tendo assumido durante décadas a responsabilidade máxima pela secção internacional dos comunistas portugueses.

Albano Nunes diz em voz alta aquilo que a maioria dos dirigentes do PCP pensa a respeito do tirano que conduziu à morte pelo menos 20 milhões de pessoas e aperfeiçoou os mecanismos de terror lançados na vasta Rússia por Lenine, faz hoje cem anos. Instaurando a censura, interditando o pluralismo político, subjugando as mais ínfimas células sociais à bota totalitária do Estado, asfixiando metade da Europa sob o domínio militar de Moscovo, condenando populações inteiras à fome e transformando o país num imenso campo de concentração onde os detidos eram despojados de todos os direitos cívicos e de toda a dignidade humana.

 

O mesmo olhar comovido e complacente pela chamada Revolução Soviética e pelo seu inesgotável cortejo de crimes surge esta manhã, ainda no DN, pela pena do secretário-geral do PCP. Sem um assomo de dúvida ou sobressalto, Jerónimo de Sousa derrama-se em elogios pelo "acontecimento maior da história da humanidade, que inaugurou uma nova época", "lançou as bases de um nova sociedade sem a exploração do homem pelo homem" e possibilitou "a instauração de um verdadeiro e genuíno poder popular".

O líder comunista chega ao ponto de distorcer clamorosas evidências históricas, ao anotar que "no final da década de 80 a URSS encontrava-se na vanguarda em diversas tecnologias, possuía um terço do total de médicos do mundo e a mais baixa taxa de mortalidade do planeta", e ao enaltecer a defunta União Soviética - então sob o mando férreo de Estaline - por ter "enfrentado sozinha durante três anos a besta nazi-fascista e os seus exércitos".

Jerónimo confunde a Rússia com o Reino Unido, que - esse sim, sob o comando de Churchill - combateu as legiões nazis enquanto o déspota do Kremlin assinava o pacto de não-agressão germano-soviético que lhe permitiu partilhar com a Alemanha os despojos da Polónia, garantindo dois anos de amabilidades diplomáticas trocadas com Berlim, entre Agosto de 1939 e Junho de 1941.

 

Leio estas referências dos órfãos ideológicos de Estaline e uma vez mais me interrogo o que pensarão disto alguns destacados militantes do PCP que conheço e respeito. Pessoas como o deputado António Filipe, o ex-deputado Honório Novo, o ex-líder parlamentar Octávio Teixeira, o escritor Manuel Gusmão ou o antigo secretário-geral Carlos Carvalhas.

Estarão confortáveis com esta persistente apologia de um regime criminoso celebrado como libertador pelo partido a que pertencem? Não sentirão pelo menos um vago incómodo ao detectarem o fantasma de Estaline vogando entre as paredes opacas da Soeiro Pereira Gomes?

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Groucho: o marxismo resiste

por Pedro Correia, em 19.08.17

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Groucho Marx morreu faz hoje 40 anos. Ninguém diria: o grande actor norte-americano (1890-1977) parece mais vivo que nunca. Não apenas nos seus filmes, alguns deles geniais (Os Grandes Aldrabões, Uma Noite na Ópera, Um Dia nas Corridas), mas na própria linguagem do dia-a-dia, impregnada de citações dele. Tão ou mais frequentes do que as do outro Marx, o Karl.

Todos teremos as nossas frases favoritas de Groucho. Deixo aqui as minhas dez, com a minha vénia à memória deste inconfundível protagonista da comédia cinematográfica que tantas gargalhadas me arrancou - e arranca ainda, pois revejo sempre os seus filmes como se fosse a primeira vez.

 

«Estes são os meus princípios. Se não gostarem deles, tenho outros.»

«Não quero pertencer a nenhum clube que me aceite como sócio.»

«O que quer que seja, estou contra.»

«A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em toda a parte, diagnosticá-los de forma incorrecta e aplicar-lhes a terapia errada.»

«Ele pode parecer um idiota e falar como um idiota, mas não te iludas: ele é mesmo um idiota.»

«Só um homem em mil lidera outros homens. Os restantes 999 vão atrás de mulheres.»

«O problema de não se fazer nada é que nunca sabemos quando se acaba.»

«A televisão é muito educativa: sempre que alguém a liga, saio da sala e vou ler um livro.»

«Nunca me esqueço de uma cara, mas no seu caso abrirei uma excepção com todo o gosto.»

«Se não te estás a divertir é porque estás a fazer alguma coisa errada.»

 

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 Groucho Marx (1890-1977)

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Quarenta anos sem Elvis Presley

por Pedro Correia, em 16.08.17

Elvis Aaron Presley morreu faz hoje 40 anos. Mas a sua música permanece bem viva. É dia para escutá-la, uma vez mais.

Aqui ficam três das canções dele de que mais gosto.

 

 

De Arthur Crudup (1946). Gravada por Elvis em 1954

 

 

 

De Carl Perkins (1955). Gravada por Elvis em 1956

 

 

 

De Howard Barnes e Don Robertson (1953). Gravada por Elvis em 1970

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Seis Dias que abalaram o Médio Oriente*

por João Pedro Pimenta, em 18.06.17

Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

 
Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscado, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.
A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel cumpria o velho sonho de se reapoderar da sua capital histórica, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes muito superiores em número - formando um cerco que parecia inquebrável - e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. A Jordânia ficou na prática confinada à Transjordânia. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia continuam na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.
 
* Agradeço a inspiração à crónica da Antena 1 com o mesmo nome e sobre o mesmo assunto

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