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A importância da caligrafia

por Pedro Correia, em 21.03.18

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Escrevi aqui há oito dias sobre a importância da escrita caligráfica como descoberta da história, dos outros e de nós próprios, lamentando que esta aprendizagem esteja em declínio acentuado nos sistemas de ensino contemporâneos, que privilegiam a escrita tipográfica, padronizada e uniforme.

Em países como a Finlândia as crianças já só aprendem as letras que estão pintadas no teclado do computador.

 

Anteontem, na página 2 do El País, a poetisa e dramaturga espanhola Ana Merino abordou o mesmo tema. Num excelente texto, intitulado "Caligrafia", que nos faz reflectir sobre a importância da escrita manual, lembrando que "muitos dos documentos históricos que dão sentido ao nosso presente foram escritos" desta forma e tornam-se impossíveis de interpretar por gerações futuras, desprovidas de uma "habilidade que durante séculos foi pilar do conhecimento e da articulação do pensamento".

E conclui deste modo, que passo a citar com a devida vénia e tradução da minha lavra: "O alfabeto caligráfico que cada indivíduo alberga compõe-se de traços subtis que representam um estilo próprio, uma peculiar e evidente marca da sua expressão pessoal. Saber escrever à mão com letra clara e legível deixou de ser prioridade em muitas escolas. Ser habilidoso no teclado é indubitavelmente necessário, mas não deve fazer-nos prescindir do minucioso processo da alfabetização e da caligrafia bem aprendida - essa arte que herdámos das escritas caligráficas dos últimos dois mil anos. Retirar aos nossos filhos a possibilidade de existirem na escrita caligráfica equivale a não ensiná-los a cozinhar, submetendo-os à comida industrial pré-cozinhada que se aquece no micro-ondas."

 

Subscrevo, claro. Não por acaso, algumas das mais exigentes entrevistas de emprego incluem um exame grafológico. Ao contrário do que supõem certos pedagogos de turno, a escrita tem inequívocas características pessoais, revelando traços da personalidade de quem escreve. Tal como o estilo nos diz muito do essencial sobre um autor: escrever bem passa, desde logo, por evitar as frases sem artifícios, as frases já muito gastas, as frases de efeito fácil mas vazias de conteúdo.

Amputar as crianças da aprendizagem e desenvolvimento da caligrafia é, de algum modo, divorciá-las do passado. E, assim, estreitar-lhes o futuro.

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Upstairs, downstairs

por Pedro Correia, em 19.12.16

Começo a convencer-me que é sina nossa: enquanto a sociedade puxa para cima, os decisores políticos insistem em puxar para baixo. Neste caso, fazendo coro com o sindicalista vitalício que lidera as corporações do sector em função dos interesses partidários.

E no entanto, apesar de uns e outros, lá vamos progredindo. Com reconhecimento internacional.

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Estou quase de volta

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.12.16

Entretanto, vão pensando nisto:

"The public does not think journalists are doing a very good job at their jobs, despite journalists’ high regard for their own work. This disparity highlights the print media’s lack of understanding public perception and the industry’s apparent inability to respond in ways that would bolster news consumers’ faith in the quality of journalists’ work";

"Public contempt with press performance fuels reduced media consumption, which has a host of negative implications for a healthy democracy. Chief among those concerns is a spiraling decline of knowledge and participation that can result in a disengaged, anemic electorate, as well as the potential that news organizations themselves will continue to wither, giving way to self-interested partisan rhetoric devoid of meaningful analysis and context" (Homero Gil de Zúñiga & Amber Hinsley, The Press Versus the Public, Journalism Studies, 2013, 14:6, 926-942)

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O estado da Nação.

por Luís Menezes Leitão, em 06.11.16

Se há coisa que demonstra bem o estado a que este país chegou é esta revelação da troca de e-mails entre Sua Excelência, o Senhor Ministro da Educação, e Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado da Juventude e Desportos. Descontamos a zanga de comadres que está na base da divulgação destes e-mails. Está em causa algo de muito mais profundo: a forma como neste país se compõem os gabinetes dos Ministros e dos Secretários de Estado e as relações entre eles.

 

Ficámos assim a saber que os Secretários de Estado são impostos aos Ministros pelo Primeiro-Ministro, não sendo aqueles livres de escolher a equipa do seu Ministério. É natural assim que os Ministros vejam com maus olhos estes "ajudantes de Ministros", na imortal expressão de Cavaco Silva. Mas há uma forma de os controlar: é intervir na escolha dos membros do seu gabinete. Assim, no governo de Portugal, um Secretário de Estado não tem sequer autonomia para escolher o seu chefe de gabinete, que lhe é imposto pelo Ministro, e por isso até passa mais tempo no gabinete do Ministro do que no gabinete do seu Secretário de Estado, que por acaso até chefia. Mas o Ministro, que por acaso até é independente, também escolhe o referido chefe de gabinete do Secretário de Estado, pedindo indicações ao partido, não sendo assim de estranhar que lhe tenha saído na rifa alguém que nem sequer tinha as licenciaturas apregoadas.

 

Daqui resulta que as relações entre Sua Excelência, o Senhor Ministro, e Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado, sejam um mimo. Sua Excelência, o Senhor Ministro, dirige um e-mail a Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado, tratando-o por "João", perguntando-lhe sobre as férias que teria autorizado em relação a um membro do seu gabinete, e transmitindo-lhe uma ordem relativamente aos outros membros do seu gabinete. E Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado, tem que pedir autorização a Sua Excelência, o Senhor Ministro, para demitir o seu próprio chefe de gabinete. Cabe perguntar afinal qual a razão por que alguém aceita assumir uma Secretaria de Estado nessas condições.

 

E quanto às qualificações para os cargos no Ministério da Educação, estamos conversados. O chefe de gabinete não tinha as licenciaturas apregoadas, mas o Ministro da Educação, que pelos vistos até desconhece o currículo das pessoas que chama para o gabinete do seu Secretário de Estado, consegue escrever um e-mail com a expressão "a cônjuge". De facto, continua muito actual o que Eça de Queiroz escreveu na sua obra Os Maias sobre os oficiais superiores da Instrução Pública.

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Os Lopes planearam passar dez dias no Parque de Campismo da Nazaré no Verão de 2016. Entre diária, taxas, gás para o petromax, mais qualquer coisa para as bifanas e as acendalhas, um tanto para uma extravagância de ir jantar fora uma vez, combustível para a viagem e o mais que se lembraram, fizeram uma estimativa de gastos de 780€. Na verdade, acabaram por gastar 870€. Agora, como são gente previdente, os Lopes já fizeram um novo orçamento para as férias de 2017 que querem passar no mesmo sítio. No caso, o da Nazaré. São 830€ e nem mais um tostão, afirma o Lopes. Pois bem. Os Lopes prevêem gastar mais ou menos do que gastaram em 2016? Menos, dirão as pessoas normais. Mais, afirmará o génio que trata da propaganda do Ministério da Educação.

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A polícia ou o absentismo escolar?

por Diogo Noivo, em 01.10.16

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Sublime reflexão de parede - estação ferroviária da linha de Sintra

 

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 12.06.16

«A secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, exerceu a sua liberdade de escolha e matriculou as suas duas filhas numa escola privada. Tudo bem. Seria hipocrisia aproveitar esta sua opção para denegrir a sua sinceridade e empenho na defesa da escola pública. Pela sua inteligência, pela sua energia e pela sua convicção, Alexandra Leitão tornou-se o rosto do combate contra a continuidade dos contratos de associação que autorizavam o Estado a financiar escolas privadas em áreas onde o serviço público existe, e esse é um galhardete que ninguém lhe tira. Mas a falta de articulação entre a sua opção privada e a sua luta pública não é neutra no debate em curso. Dos políticos, para lá de palavras, esperamos exemplos. E o exemplo de Alexandra Leitão vai ao encontro dos defensores da liberdade de escolha. O racional é óbvio: a secretária de Estado fez uma opção pela escola privada e pôde pagá-la. Há milhões de portugueses que gostariam de fazer a mesma escolha, mas não têm dinheiro para tal.»

Manuel Carvalho, no Público

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O ridículo mata

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.05.16

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Não tenho nada contra manifestações, desde que sejam pacíficas e tudo se processe dentro da legalidade. Com mais ou menos exaltação, mais ou menos indignação, todos têm o direito de se manifestar e agitar as suas bandeiras, tendo o Estado de direito o dever de proteger essa conquista da democracia. Se existe ou não razão para a manifestação, isso é outra história. Por isso mesmo, seria curioso se amanhã os defensores da escola pública se lembrassem de promover manifestações por todo o país em defesa da sua dama. Para exigirem, por exemplo, o fim dos contratos de associação e mais dinheiro para a escola pública. Quem sabe se então o título da notícia não seria qualquer coisa como "Milhares em defesa da escola pública e contra os contratos de associação"?  Não é que eu esteja a sugerir alguma coisa que não devesse já ter sido feita, mas seria o bom e o bonito.

De qualquer modo, tenha uma manifestação o peso que tiver, convenhamos que a defesa dos contratos de associação não é propriamente a mesma coisa que defender a Rádio Renascença do perigo comunista. Para ser coerente e manter a razão, a Igreja portuguesa devia agir com inteligência. E arranjar uma causa, como hei-de dizer, menos fracturante. 

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Deixemo-nos de merdas

por Rui Rocha, em 12.05.16

Se estivéssemos verdadeiramente preocupados com a defesa da escola pública, em lugar de andar a perder tempo com os contratos de associação, estaríamos a propor a reintrodução de uma prova de acesso para candidatos à função de professor que impedisse analfabetos funcionais com excelentes classificações atribuídas por instituições de vão-de-escada de ensinar e, para não pedirmos muito, um mecanismo de avaliação adequado dos professores do quadro que afastasse do sistema os que tivessem uma classificação negativa reiterada. Mas claro. A escola pública está ao serviço de tudo menos da educação dos alunos. E depois, já se sabe. Num país em que a discussão científica mais profunda que é possível fazer-se diz respeito à idade real do Renato Sanches, o ministro aponta e a turba corre na direção que o dedo indica, desviando-se cada vez mais da Lua.

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Dinis Rocha e Leonor Rocha receberam ontem prémios de excelência pelos seus resultados no 10° e 6° anos, respectivamente. Se um pai sente orgulho num momento destes? Sente muito, claro. Mas, ao mesmo tempo, uma nuvem de preocupação desenha-se no horizonte: que sequelas, que terríveis consequências enfrentarão ao longo das suas vidas por terem realizado exames no seu percurso escolar? É triste vê-los tão bem e saber que nenhum deles poderá já ser um cirurgião feliz.

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O PCP e o Bloco sabem?

por José António Abreu, em 05.02.16

Depois de tudo o que o que António Costa disse sobre o assunto, o orçamento para este ano prevê menos dinheiro para as escolas públicas e mais para as privadas.

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O futebol e a fuga de cérebros

por João André, em 02.02.16

Ontem andava a tentar fazer o apanhado das notícias do dia e surgiram duas notícias em simultâneo e que de certa forma se fundiram (coisas de ouvir noticiários televisivos quando se lêem jornais online): a notícia sobre as transferências de futebol e sobre as fugas e movimentos de cérebros. Inicialmente não compreendi por que razão juntei os dois temas, mas após reflexão tive uma ideia meio louca. Passo a explicá-la.

 

No futebol, quando um jogador termina o contrato, pode transferir-se para outro clube sem que o clube que deixa tenha que ser compensado. Isto está de acordo com as regras de um mercado laboral livre e é perfeitamente correcto. Há algumas regras em certos países (por exemplo na Inglaterra) onde o clube que adquire o jogador tem que pagar uma compensação ao clube que o forma. Uma regra semelhante existe no caso de transferências durante contratos, em que 5% do valor da transferência é pago aos clubes envolvidos na formação do jogador até este ter 23 anos de idade. É a chamada "contribuição de solidariedade".

 

E foi aqui que comecei a pensar se um sistema destes não seria interessante para o mercado laboral em geral. Aviso desde já que não sei que consequências teria nem como poderia ser implementado. A ideia seria simples: quando um profissional fosse trabalhar para outro país que não o da sua formação profissional (não necessariamente o da sua nacionalidade), o país de acolhimento poderia pagar uma compensação ao país de formação. Esta deveria estar dependente do número de anos de escolaridade e do nível da mesma. Um doutorado em física levaria a uma compensação diferente da de um electricista. Essa compensação deveria ter lugar uma única vez - aquando da entrada do profissional no país de acolhimento - mas poderia ser repetida se este profissional voltasse a mudar de país. O pagamento deveria ser feito pelo empregador (o próprio no caso de empregados por conta própria) mas até um montante máximo. Os valores deveriam ser tais que pudessem levar a uma compensação real para o país formador mas não tão elevados que dificultassem a empregabilidade dos profissionais.

 

Sei que esta ideia apresenta desde logo a dificuldade de se configurar como mais uma taxa para empresas e ser desde logo um obstáculo à empregabilidade. É essa a minha maior dificuldade com ela. Parto apenas do princípio que uma empresa que recrute um profissional fora do seu país o faz por ter necessidade, por não lhe ser possível encontrar profissionais adequados dentro do mercado interno. É o que vemos, por exemplo, no mercado da saúde inglês ou mercado tecnológico alemão, onde as empresas têm que ir recrutar ao estrangeiro.

 

A medida seria uma forma de entregar alguma compensação aos países que formaram as pessoas e incentivar a educação. Desta forma os custos na educação não seriam vistos como completamente a fundo perdido e permitiria aos países reinvestirem esses fundos no seu país.

 

Os principais riscos para os países recrutadores seriam os obstáculos ao mercado de trabalho. Para o país de formação o maior risco seria ser transformado num exportador de mão de obra em prejuízo do desenvolvimento do próprio país. Em termos morais, ainda que pudesse potencialmente ajudar a corrigir assimetrias, seria o risco de transformar os profissionais num produto que possa ser comercializado.

 

Como escrevi acima, a ideia é meio louca e consigo imaginá-la atacada à esquerda, direita e centro. Nem faço ideia se alguém alguma vez a propôs no passado. Confesso no entanto que estaria muito interessado em ler alguma análise teórica à implementação da mesma. Haverá algum economista interessado? Basta um agradecimento no artigo final e um convite para a cerimónia em Estocolmo.

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110 anos

por Isabel Mouzinho, em 20.01.16

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Inaugurado a 20 de Janeiro de 1906, o Liceu Pedro Nunes, como ainda hoje é conhecido, começou por designar-se "Lyceu Central da 3ª Zona Escolar de Lisboa", funcionando até 17 de Novembro de 1911 no Liceu do Carmo, primeiro, e na Rua do Sacramento à Lapa, depois, até se instalar definitivamente no centro da cidade, na Avenida Pedro Álvares Cabral, junto ao belíssimo Jardim da Estrela, num edifício criado de raiz pelo arquitecto Ventura Terra, modernizado entre 2008 e 2010 no âmbito do programa de intervenção da Parque Escolar, com um projecto da autoria dos arquitectos Pedro Viana Botelho e Maria do Rosário Beija, e classificado desde 2012  como "Monumento de interesse público".

Ao longo da sua história, passaram pelo Liceu Pedro Nunes alunos e professores que são ou foram figuras de relevo na sociedade portuguesa, como Nuno Crato, Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Represas, enquanto alunos, ou Rómulo de Carvalho, o Padre Alberto Neto e Delfim Santos, como professores, para referir apenas alguns exemplos.

No velho edifício só me lembro de ter entrado uma vez, há muitos anos, para fazer um exame do "Propedêutico" - também eu fui "cobaia" da mil e umas experiências e reformas do ensino dos anos pós revolução de Abril e que se mantêm actualmente, no mesmo ritmo frenético e insensato, a cada mudança de governo. Guardo  uma memória difusa desse dia longínquo, marcado acima de tudo pelos nervos e a ansiedade de um acontecimento excepcional. Do espaço, só recordo  a enorme escadaria de madeira, que ainda existe, e uma sala de grandes janelas.

Hoje, o Liceu Pedro Nunes - que ainda não conheço bem, mas sinto já um pouco meu - é um espaço imenso, lindo e de bom gosto, onde a tradição e a modernidade se conjugam em harmonia, um lugar com história, onde passo muitas horas dos meus dias, um mundo quase todo novo que descubro devagar, no arrepio da surpresa que é também um desafio que se vai construindo a cada dia, e onde cabem todas as vitórias e derrotas, esperanças e desilusões, expectativas e vontades de que se vai fazendo o quotidiano, como se a vida estivesse sempre a recomeçar.

E, apesar de não haver lugares perfeitos, vivo ainda no estado de encantamento que têm todos os inícios, na satisfação de um sonho realizado, e na alegria de estar num lugar a que gosto muito de pertencer.

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Ídolos tecnológicos com pés de barro?

por João André, em 12.01.16

Em 2015, os órfãos da figura tutelar que era Steve Jobs receberam um estímulo na forma de uma Steve Jobs no feminino e orientada para as Ciências da Saúde. Elizabeth Holmes, uma jovem empresária que deixou o seu curso em engenharia química em Stanford (que foste tu fazer Liz?...) para fundar a Theranos, uma empresa dedicada a produzir testes sanguíneos rápidos e baratos e assim revolucionar o mercado das análises clínicas.

Aquilo que levou às comparações com Steve Jobs foram a ambição e, aparentemente, um gosto por roupas pretas e com camisolas de gola alta para não perder tempo a escolher o que vestir. Todo o bom geek gosta destas coisas, especialmente quando resultou numa potencial fortuna pessoal de 4.500 milhões de dólares (cerca de 50% da Theranos, avaliada em 9 mil milhões).

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Yanis Varoufakis esteve em Portugal no fim-de-semana passado, para a 'Aula Inaugural' dos Programas de Doutoramento do Centro de Estudos Sociais (CES) - Universidade de Coimbra. Durante a exposição, num aparte que não terá sido dos mais recordados, insurgiu-se contra a tendência de 'mercantilização' das Universidades:

 

<A certo ponto, nas nossas grandes Universidades, foi-nos dito que deveríamos tratar os alunos como clientes. Ora, isso representa o fim da Universidade, uma vez que o cliente, como se sabe, “tem sempre razão", sabe o que quer e tem direito a isso. Mas, quando se vem para a Universidade, por definição, não se sabe o que quer. Caso contrário não precisaríamos de vir para a Universidade. A missão do professor, por isso, não é satisfazer o cliente, é confrontar os alunos, pedir-lhes que leiam o que não querem ler, examiná-los em tópicos em que não querem ser examinados.>

(tradução minha, livre)

 

Embora não seja um tema mainstream, é um ponto-de-vista que já tenho visto defendido noutros fóruns. E, curiosamente, é uma crítica capaz de granjear apoios tanto à esquerda como entre a direita - chamemos-lhe - ‘tradicional’.

 

Não sendo -- dizia -- a primeira vez que ouvi este lamento, a verdade é que me deixou a cogitar, até porque está, em alguma medida, em sintonia com a minha experiência enquanto estudante. Digo em alguma medida porque existem inegavelmente méritos na profissionalização do ensino universitário. Mas as desvantagens a que Varoufakis se refere são também manifestas para qualquer pessoa que tenha estado numa sala de aula no século XXI. 

 

O que está em causa, então, é a profissionalização da actividade pedagógica. A docência já era, claro está, uma categoria profissional, mas o enfoque era até aqui colocado sobretudo nos méritos académicos do docente, mais do que na sua capacidade pedagógica. Há, quanto a mim, claras vantagens em avaliar criteriosamente a capacidade de ensinar, a disponibilidade, a metodologia de ensino – entre outros factores – de cada professor. Não obstante, embora parte dessa avaliação tenha que se centrar na satisfação do beneficiário-último do ensino, o aluno, depender exclusivamente dessa aprovação acarreta, inegavelmente, riscos.

 

Enquanto estudante, frequentei durante a licenciatura uma instituição que era – à época, algo anacronicamente – em grande medida ainda imune à ‘mercantilização’ do ensino universitário. Posteriormente, dentro e fora de Portugal, tive contacto com instituições já claramente integradas na onda de mercado. Entre esta e aquela experiência, identifiquei rapidamente uma melhoria clara num aspecto: a probabilidade de encontrar um professor realmente fraco caiu drasticamente. A profissionalização da pedagogia tem, inegavelmente, esse mérito: deixa de ser possível a eternização no lugar de professores cuja falta de capacidade pedagógica é tão flagrante que, com o passar dos anos, chega a conferir-lhes, paradoxalmente, um estatuto de lenda-viva. Do outro lado do espectro, fui-me apercebendo de que a profissionalização trazia acoplada uma certa ‘estandardização’ do modelo de professor, coarctando a liberdade necessária à actuação daqueles professores que, sendo menos convencionais, são também muitas vezes os mais geniais e, na minha experiência, os que mais nos marcam para a vida. Por um lado, o estabelecimento, ex ante, de um modelo de aula cria entraves à adopção de um estilo mais idiossincrático, restringindo apartes que fujam à agenda pré-definida e métodos alternativos. Por outro lado, como nota Varoufakis, o peso dado à avaliação do professor coloca o aluno no lugar de cliente, um esquema que, trazendo vantagens, tem também o claro custo de incentivar o professor a abster-se de tudo aquilo que não tenha um benefício visível, imediato e relativamente indolor para o aluno. Com efeito, várias vezes reparei no desagrado de colegas com tarefas vistas como demasiado difíceis ou trabalhosas, quando estas, analisadas com a devida distância, eram claramente justificadas (outras vezes, certamente, terei sido eu próprio a lamentar-me erradamente do mesmo).

 

Em suma, parece-me necessário encontrar um meio-termo entre o ensino autoritário de antigamente e a via, de inspiração ango-saxónica, do ‘curso-enquanto-produto’.

 

Termino com um episódio que julgo exemplificativo. Recentemente, em conversa com um amigo que leccionou durante uns anos no ensino universitário, ele relatava-me uma experiência reveladora. No primeiro ano, com o entusiasmo típico do estreante, deu-se ao trabalho de programar as aulas à minúcia, de modo a torna-las tão interessantes e desafiantes quanto possível. No final do ano, a Universidade deu-lhe conta de que a reacção dos alunos tinha sido claramente negativa, dela sobressaindo desagrado com o excesso de trabalho e a exigência desmesurada. Conformado com a realidade, este meu amigo decidiu arrepiar caminho, e refez a cadeira no ano seguinte, abrandando o ritmo e estandardizando-a. O resultado? Avaliações transversalmente positivas, evidentemente.

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Simples proposta para o nosso ensino

por João André, em 15.09.15

No início do novo ano escolar surgem sempre novas propostas (além do caos a que este governo nos habitua, deve ser ritual de passagem). Este ano é a oferta do ensino do mandarim como língua estrangeira a partir do 10º ano e o inglês como obrigatório a partir do 3º.

 

Nunca tenho nada contra estas ideias (embora eu oferecesse o mandarim mais cedo, considerando a sua complexidade), mas espero um dia ver uma simples medida: manter por um lado a matemática e uma disciplina geral de ciências (física, química, biologia) nas áreas de humanidades; e manter filosofia e literatura/história nas áreas de ciências.

 

Num país onde muitos licenciados/mestrados não sabem argumentar e não conhecem história, e onde as pessoas com formação em humanidade são frequentemente completamente analfabetas cientificamente, estas medidas só poderiam enriquecer o nosso futuro. 

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Drama

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.15

Drama é saber disto e pensar que ainda vamos ter a abertura de mais um ano lectivo antes das próximas eleições. Com os mesmos cratos no cesto.

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A provocação é um direito

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.01.15

sabir-nazar1.jpgJá andava há uns meses tentado a escrever algumas linhas sobre uma reflexão que ultimamente me causticava o espírito em razão de textos e comentários que por aí vou lendo. O absurdo episódio de ontem obrigou-me a não deixar passar mais tempo. De certa forma, revejo-me nos que foram surpreendidos pela barbárie e que pagaram com a vida o preço de uma liberdade que as democracias se revelam cada vez mais incapazes de defender.

Não tenho qualquer dúvida que a liberdade de expressão, em todas as suas manifestações, não é um valor fundamental das sociedades democráticas. A liberdade de expressão é o valor matricial da democracia. A raiz que saída do pensamento dá luz a tudo o que necessita de se revelar aos olhos e ouvidos dos nossos semelhantes.

Se me pedissem para colocar numa escala hierarquizada as liberdades, confesso que não hesitaria em colocar, logo a seguir à liberdade de pensamento, a liberdade de expressão. É a liberdade de expressão que dá sentido ao que na nossa intimidade, em qualquer solidão, somos capazes de pensar. Sem liberdade de expressão não há pensamento articulável. Sem ela estaremos no campo da ausência de construção, sem instrumentos de composição. Só vale a pena pensar se formos capazes de construir e exprimir o que pensamos. De torná-lo acessível e estimulável pelo permanente exercício da liberdade de expressão. O modo como esta se revela é que pode tornar-se problemático porque nem todos pensamos da mesma maneira, nem todos pensam com a mesma desenvoltura, não escrevem todos o mesmo, com igual facilidade nem sob a mesma forma, e a arte do desenho, da caricatura, da composição gráfica ou gestual não foram distribuídas por igual entre todos nós. Expressamos a nossa liberdade pelas formas que nos estão ao alcance, usando as armas que melhor sabemos manejar.

Acontece que alguns de nós as manejam exemplarmente, o que faz com que a forma como esse exercício se processa também não seja igualmente compreensível por todos nós. Se não segue a mesma bitola também não se rege pelos mesmos cânones. E é aqui que perante a incompreensão, o insulto, a obscenidade, quantas vezes por simples deficiência na recepção da mensagem, somos confrontados com a barbárie. O que aconteceu na redacção do Charlie Hebdo foi o encontro da liberdade de pensamento expressa através do desenho com a incompreensão da mensagem na sua forma mais bárbara.

A dimensão desta incompreensão, antes de ser um problema da democracia, é uma questão que diz respeito a cada um de nós, cartoonista ou não, cuja resposta deverá ser encontrada na formulação de uma simples pergunta: qual o sentido da provocação?

Admito que sou por natureza um provocador. Mais quando pretendo estimular em quem me escuta ou me lê uma reacção, um movimento de resposta, de geração da discussão, de insatisfação. Perante um problema, ao manifestar o meu direito à opinião, gosto de provocar os que me escutam, os que me lêem. Porque entendo que só dessa forma a própria clareza da ideia pode sobressair e ser mais facilmente entendida pelo destinatário. Essa será a única forma, ou pelo menos a mais fácil, à laia de um beliscão, de provocar o receptor acomodado.

A provocação é um risco que só valerá a pena correr se conduzir ao efeito pretendido. Saber até que ponto a provocação vale a pena não é questão de somenos. E há dois pontos em que a provocação se torna irrelevante: 1) quando não é entendida pelo destinatário; 2) quando se torna inócua. A provocação irrelevante deixa de servir os seus propósitos. Por ignorância, incapacidade intelectual ou défice de comunicação a provocação irrelevante conduzirá, em regra, à reacção desproporcionada, desajustada, por vezes ofensiva. Na segunda situação gera a indiferença e nada mais.

Proteger a liberdade de expressão é garantir a liberdade de pensamento. Às democracias, a todos nós, compete-nos proteger a primeira se se quiser continuar a pensar livremente. E a protecção daquela passa por assegurar o exercício do direito à provocação. Até que esta no seu percurso se torne irrelevante. De caminho poderá causar incomodidade, insatisfação, desconforto, até ofender. A ofensa não torna a provocação menos legítima. Ou desmerecedora de protecção. Porque contra a ofensa, nas democracias, há sempre remédio. Talvez seja isto o que nos afaste deles. Quando não se conhece desconfia-se. Quando se ignora não se acredita.

O Estado de direito é hoje o estado da provocação permanente. Por isso se torna tão imperioso protegê-lo. E é preciso que eles o entendam pela única forma que pode tornar a provocação irrelevante: a educação na liberdade e na responsabilidade. Com a Bíblia, a Tora ou o Corão na mão, se necessário for. Como fizeram os cartoonistas do Charlie Hebdo. E como fazem homens como Sabir Nazar. No Paquistão. Até que a provocação se torne irrelevante. Até que gere a indiferença.

A provocação também se educa.

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Justiça Vs. Educação

por José António Abreu, em 15.10.14

A reforma do mapa judiciário é simultaneamente uma exigência do memorando de entendimento e, dentro do que é constitucionalmente possível fazer, uma reforma ambiciosa. Mesmo após resolvidos todos os problemas informáticos dificilmente produzirá efeitos milagrosos no aumento da eficiência dos tribunais mas tem, ainda assim, um propósito claro e o mínimo que se pode dizer quanto aos prazos é que a sua implementação peca por tardia. Sendo graves, as falhas informáticas são inevitáveis num processo desta dimensão: qualquer pessoa que tenha passado por uma alteração de sistema informático, ainda que muito mais simples, sabe que existem sempre problemas. Provavelmente poderiam ter sido menores mas há alturas em que é necessário tomar decisões e correr riscos.

O caso da Educação é diferente. Os problemas na colocação de professores são indesculpáveis acima de tudo porque não correspondem a qualquer reforma substancial. A falta de uma constitui, aliás, a principal falha de Nuno Crato enquanto Ministro da Educação: à promessa de aumentar a autonomia das escolas correspondeu afinal o mesmo centralismo mastodôntico de sempre, de que estes concursos são o mais rematado exemplo. Para um governo acusado de neoliberalismo, sobrevivem-lhe – e sobreviverão - uma quantidade assombrosa de processos que não estariam deslocados na União Soviética da planificação central e dos planos quinquenais.

Numa época e num governo em que qualquer falha suscita críticas ferozes, mais vale merecê-las ao arriscar mudanças verdadeiras do que ao fazer ajustes irrelevantes.

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Fórmula matemática da demissão de Crato

por Rui Rocha, em 10.10.14

Milhares de alunos x 0 professores +(professores colocados e depois despedidos x ministro tapado por faltas à verdade) + (1 professor colocado x 10 escolas) + (2 professores / 1 único horário) = demissão

 

Não é uma opinião. É uma evidência matemática.

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