Archie Bunker gentrificado

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Vi um sururu a propósito das declarações de ontem do ministro da Educação, Fernando Alexandre - a cujas políticas já aludi no postal “A Extinção da FCT” -, sobre residências universitárias. A imprensa truncou-as e “denunciou-as”, muitos cidadãos digitais indignaram-se....
Que os da extrema-esquerda critiquem é normal, é-lhes essência. Que os cheganos ululem contra a “bandalheira” vigente também é normal, daquilo não se pode esperar outra coisa.
Mas o que o ministro disse - e não o fez de maneira canhestra - é fruto de uma matriz “social-democrata” (dantes também se dizia “socialismo democrático”, e alhures “trabalhista”). Pode-se criticar os princípios (e os resultados) dessa matriz de acção estatal.
Mas como podem os partidos e os cidadãos digitais que se revêm como de “esquerda”, “centro” ou “direita”, vituperar as afirmações?
Os que tiverem paciência para perceber como se é manipulado pelo binómio imprensa torpe/indignismo poderão ouvir o discurso (que o próprio ministro partilhou) - em particular entre os 8.40 e os 18 minutos. Ainda por cima é muito bom.
(Coloquei o filme do discurso do ministro neste postal "Residências Universitárias" no meu blog "O Pimentel". Mas é grande demais para o carregar nesta plataforma SAPO)
E depois podem seguir para criticar o governo. Mas por outras coisas e declarações.

(créditos: Forbes, DPA/PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES)
O problema não é novo e não se me afigura de fácil resolução.
Não há muito tempo, um artigo do Vítor Rebelo, deu-nos conta de que a Escola Portuguesa de Macau realizou um inquérito junto dos encarregados de educação no sentido de apurar qual a posição destes sobre a eventual imposição de restrições ao uso de telemóveis no interior do estabelecimento de ensino e durante os períodos escolares, sem prejuízo da sua utilização "em situações de emergência, actividades pedagógicas por indicação do professor, ou para permitir o acesso a recursos educativos e ferramentas online facilitadoras da aprendizagem". A ressalva é importante, mas não é tudo.
Depois disso, em Março, saíram notícias vindas da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude de Macau sobre a vontade de se impor um "conjunto de orientações sobre o uso de telemóveis para alunos de escolas do ensino não superior". pareceu-me bem.
E quanto a este ponto, o presidente da Associação de Pais da Escola Portuguesa de Macau (EPM), Filipe Figueiredo, manifestou a concordância da associação a que preside quanto à introdução dessas restrições, salientando, com razão, as perturbações ao comportamento das crianças e jovens que a influência e a dependência daqueles equipamentos tem causado.
Recorde-se que, em 2023, a UNESCO recomendara que fossem banidos os telemóveis (smartphones) das escolas por constituírem uma distracção à aprendizagem.
Concordar-se-á, facilmente, que há impactos positivos, mas também alguns muito perniciosos, ao uso frequente, desregrado, incontrolado de equipamentos electrónicos. E não apenas por parte dos mais novos. O mesmo se diga quanto às ferramentas de Inteligência Artificial (IA).
Ontem, o The Guardian deu-nos a notícia de que na Estónia, considerado uma dos países mais avançados do mundo em matéria de Educação e que obteve resultados muito bons na última ronda do PISA, em 2022, ocupando os seus estudantes o primeiro lugar em Matemática, Ciências e Pensamento Criativo, e o segundo em Leitura, se lançou um programa nacional designado "AI Leap" destinado a dotar os seus alunos e professores de ferramentas e qualificações de nível mundial em matéria de IA, programa esse que começará em Setembro. Desse modo se investirá na preparação tecnológica dos professores, enfatizando-se um modelo de aprendizagem autónomo, suportado numa ética digital, de maneira a que se dê "prioridade à equidade educativa e à literacia em IA".
A ministra da Educação e Tecnologia da Estónia enalteceu o uso desses equipamentos, referindo que no seu país o direito de voto é exercido a partir dos 16 anos, que o exercício desse direito é estimulado para que ser feito online, recorrendo-se aos telemóveis, e acrescentando que isso contribui para a participação cívica e eleitoral, a obtenção de informação e a análise de plataformas políticas, não fazendo sentido a imposição de restrições, que transmitiriam uma ideia contraditória.
O sucesso do uso dos telemóveis, e dos resultados obtidos por aquele país, estará antes num conjunto de regras direccionadas a crianças com menos de 12 ou 13 anos, quanto ao modo como esses equipamentos deverão ser utilizados, cabendo depois às escolas a regulação do seu uso durante os intervalos e nas aulas, sempre que o professor considere que devem ser usados como auxiliares na realização de trabalhos escolares.
Segundo Kristina Kallas, o desafio está em saber se somos capazes de evoluir no sentido de nos tornamos criaturas de pensamento mais rápido e de nível mais elevado, ou se vamos deixar que seja a tecnologia a apoderar-se da nossa consciência.
A solução não é fácil. Continua a haver todo um debate por fazer.
A solução da proibição é a mais fácil, a mais imediata. Mas, pergunto eu, será que com a proibição se garante o sucesso?
Há que encontrar as soluções mais adequadas ao momento e procurar ir adaptando-as à medida que vamos conhecendo um pouco melhor os desafios que se nos colocam, as exigências e as consequências do uso, imoderado ou regrado, desses equipamentos e da IA.
Uma coisa é certa: não podemos permitir que seja a IA a decidir por nós. Nem ficar num grau tal de dependência que a nossa autonomia seja colocada em risco. No dia em que isso acontecer será o fim da nossa espécie enquanto seres pensantes, dotados de razão e independência.
No fundo, o que está aqui em causa é saber se seremos capazes de continuar a evoluir não perdendo razão nem autonomia. Isto é, se continuamos a ser livres ou se vamos perder essa liberdade em favor das máquinas e de quem as domina.
A escolha será decisiva e voltará a ser, não há que fugir, entre a liberdade e a tirania.
Nas redes que frequento e onde frequentemente ilumino a turba com opiniões percucientes havia há dias um ror de textos sobre a série Adolescência (na Netflix). Não é raro e já tenho enfiado por mor destas leituras alguns barretes.
Desta vez, porém, não apenas se gabava a qualidade da realização e representação – isso era pacífico – mas as opiniões divergiam sobre a natureza do problema que a série (4 episódios) relata, e mais ainda sobre as soluções.
É lá, se não há acordo talvez valha a pena ver. Vale. Trata-se de um miúdo de 13 anos acusado de ter assassinado à facada uma aluna da mesma escola, o que fez a polícia para deslindar a meada, como reagiram os pais e a irmã, como funcionava a escola e o que move, e como se move, a canalhada hoje em dia.
A realização é excelente, conseguindo o prodígio de, sem pressas (às vezes parece o tempo real), prender o espectador, e o desempenho, incluindo dos adolescentes, sobretudo o herói, notável. Eu vi a série de cambulhada (fui-me deitar a desoras), aprende-se muito sobre como funciona a polícia inglesa em casos destes, o que é uma escola multi-rácica que é provavelmente típica, o que é uma análise psicológica bem feita por uma profissional que intervém magistralmente com um interrogatório, o papel que têm as redes sociais (no caso a estrela era o Instagram) no modo como os miúdos se relacionam uns com os outros, e a ignorância e a cegueira em que vivem os pais.
Das soluções que vi apresentar discordo: não é exigível aos pais que tenham uma vida profissional diferente e mais disponível, a culpabilização deles é uma crueldade acessória dispensável, assim como se exagera nas sugestões adiantadas para anular o risco da ausência de supervisão das interacções dos miúdos, incluindo o bullying, e se vilificam as redes com alguma ligeireza.
Mas a indisciplina na escola, a omnipresença dos telemóveis, a tribalização levada ao extremo, os códigos de conduta desenvolvidos na mais completa ignorância de pais e educadores – tudo recomenda que se olhe para o assunto e se encontrem meios de restaurar um módico de civilização. A escola ensina e também forma, não no sentido de substituir os pais mas sim na imposição de regras que sejam as necessárias para uma vida colectiva sã.
Não só isto, claro. Mas, deixando-me ir, acabaria por revelar a trama, maldade que não vou fazer porque quem vai ver que sofra como eu sofri em metade da fita.
A Televisão de Macau deu a notícia no Telejornal de ontem.
Esta manhã, o jornalista contava mais um episódio da quase tragédia grega que se abateu sobre a Escola Portuguesa de Macau, os seus professores e alunos:
"A Escola Portuguesa de Macau (EPM) despediu no final do ano civil [31/12/2024] dois professores que tinham sido contratados localmente, numa altura em que se depara com falta de docentes e pretende autorizações de licenças especiais junto do Ministério de Educação, Ciência e Inovação (MECI) para trazer docentes de Portugal.
Um dos docentes demitidos leccionava a disciplina de economia e o outro as disciplinas de matemática e físico-química. Ambos foram contratados com o corrente ano lectivo em andamento, numa tentativa de preencher o quadro de docentes, depois de várias saídas da instituição durante o Verão, que motivaram inclusive queixas às autoridades locais."
Calculo que esta tenha sido mais uma medida para diminuir o número de alunos sem aulas, situação que é acompanhada em Lisboa com a devida atenção e que certamente visa dar corpo ao compromisso anteriormente reafirmado pelo responsável do Governo português que supervisiona o caos.
Não obstante, quer-me parecer que começa a ser evidente a necessidade da Fundação da Escola Portuguesa de Macau, que ainda deverá ter – embora faltem alguns meses para as eleições presidenciais – por principal missão garantir o funcionamento e desenvolvimento da Escola Portuguesa de Macau, passar da área governativa do Ministério da Educação, Ciência e Inovação para a alçada do Ministério da Saúde.
É preciso garantir as horas de sono, o respeito pelos fusos horários e o bem-estar de docentes e discentes.
[06/01/2025: um oportuno esclarecimento]

No início de Agosto, Mariana Patrocínio publicou, na sua conta do Instagram, esta fotografia com sua mãe e quatro das suas irmãs. Uma seguidora comentou “genética maravilhosa”. E eu atrevo-me a discordar. Melhor falando, penso que a genética apenas contribui com 20% a 30% para resultados destes. O resto é berço e disciplina nas práticas alimentares e de exercício. No caso desta família, o berço inclui aliás dinheiro q.b. para gastar em ginásios e institutos de beleza. Não menciono, porém, a questão monetária com cinismo. Quem nasce em ambiente propício, faz muito bem em aproveitá-lo. Eu faria o mesmo. Berço, no entanto, é bem mais do que notas e cartões de crédito.
O cerne da questão é a genética estar muito sobrevalorizada. A silhueta das beldades da foto está ao alcance da maioria das mulheres. Para adquirir boas práticas de alimentação e exercício físico, o berço pode ser de classe média, ou até pobre. Mas cumpre um papel importantíssimo. Alcançar, na idade adulta, figuras deste tipo, é quase impossível para quem cresceu num ambiente de obesidades e más práticas alimentares.
Muita gente não acredita, mas criar crianças obesas é estragar-lhes o futuro. E uma família não precisa de ser rica para comer com discernimento e incentivar a actividade física. Uma alimentação equilibrada também não significa dietas, não há alimentos proibidos. Mas é preciso saber quando comer o quê e em que quantidades. Talvez seja bom acabar com o hábito de dizer às crianças “come lá mais uma fatia de bolo” ou “então não acabas a carninha”, quando elas dão sinais de já estarem satisfeitas. Parece que não, mas é muito importante aprender a interpretar os sinais do corpo. Muitas vezes, continuamos a comer, apesar de já estarmos cheios até à goela.
Actividade física também não implica ginásios caros, podem-se inscrever as crianças num clube desportivo acessível à família, seja de futebol, voleibol e outros “ois”, ginástica, natação, patinagem, dança, skate, ciclismo, etc. Mas é igualmente importantíssimo dar o exemplo em casa, fazendo, quanto mais não seja, caminhadas regulares com os pimpolhos. Pode-se aproveitar o caminho para a escola, ou mesmo a ida ao café. Se o café for perto é até aconselhável fazer um desvio generoso. E quem alegue não ter tempo para passeios durante a semana, pode fazê-los ao fim-de-semana. Uma hora de caminhada faz milagres em todos, pais e filhos. E, quem chega a adulto habituado a estas andanças, normalmente, continua a praticá-las.
A genética está igualmente sobrevalorizada noutros campos, como o artístico, ou o intelectual. O ambiente e os hábitos conhecidos desde o berço são muito mais importantes. Filhos de escritores habituam-se, desde sempre, a hábitos e conversas de e sobre os livros e escrita, incluindo as visitas e amigos dos pais. Filhas de actrizes crescem no meio dos cenários, das câmaras, dos holofotes, dos gritos de “acção”, do decorar dos papéis e também os frequentadores da casa familiar pertencem maioritariamente a este meio. O mesmo acontece com músicos, cantoras, pintores, cientistas, jornalistas, etc. Porém, mesmo quem não pertença a mundos destes, pode transmitir aos filhos o interesse pela cultura, interessando-se ele próprio. Quem não é incentivado, na infância, também pode lá chegar, mas é bastante raro.
Por isso, quando se quer elogiar uma pessoa elegante, considero mais adequado dizer “bons hábitos” do que “bons genes”. Também é mais lisonjeador, pois, na verdade, em nada contribuímos para ter os genes que temos. Já elogiar-nos os hábitos é elogiar o que é da nossa responsabilidade.
Não estou a dizer que a genética não contribui. O mais importante, contudo, é como aprendemos a estar no mundo. E, na infância, vemos o mundo através dos olhos dos nossos pais.

(Escola Secundária dos Olivais, nos anos 1980s, agora chamada Eça de Queirós e reconstruída)
Consta dos anais familiares que o filho do casal Pimentel sofreu de uma agudíssima nefrite aos seus três anos, causando angústia familiar. Já na convalescença o seu pediatra, o consagrado doutor Abílio Mendes, - que o petiz viria, alguns anos mais tarde, perceber como o homem diante do qual o seu pai assumia a pose mais respeitosa, numa mescla de agradecimento pelos dotes médicos e de anuência à sua postura avessa à "situação" de então -, o doutor Abílio Mendes, dizia, recomendou que a criança fosse criada o mais ao "ar livre" possível. E assim quatro anos feitos foi inscrito no Colégio Valsassina, tanto pela (vera) excelência do ensino ministrado como pela esperada robustez advinda dos ares da magnífica Quinta das Teresinhas. E assim, enquanto os homens novos da sua família partiam para as guerras d'África, medrou, mais ou menos viçoso, jamais o último do pelotão (excepto na traumática mesa alemã, nessa ex aequo com alguns outros coxos medrosos), e nem tanto o primeiro na meta ou no quadro de honra e louvor... Nas vésperas do então notório exame da 4ª classe irrompeu o saudado "25 de Abril" e subsequente imensa agitação. Poucos dias após a "intentona" da "maioria silenciosa", já sem bibe e calções, o rapazola avançou até ao andar térreo do edifício dos "grandes", para cursar o Ciclo Preparatório, o qual cumpriu ali resguardado do PREC circundante.
Depois, Constituição aprovada, "normalidade democrática" (enfim...) encetada, e após oito anos de permanência naquele ninho de saber, ao tal filho do casal Pimentel foi dada paterna "guia de marcha" para se apresentar, logo que possível, na Escola Secundária dos Olivais, então a inaugurar. Para cumprir o obrigatório rumo de encetar o ensino secundário, o então chamado 7º ano. Como o festivo evento estava atrasado o rapaz ainda fruiu o seu Colégio até Janeiro, quando, finalmente, a novel Escola oficial estava pronta e encetou o ano lectivo, pujante no seu chão de material tóxico que alguns anos depois seria substituído.
O menino sentiu a transferência como um descalabro. Deparou-se com um compósito social assustador, a pequenada da zona oriental daquela Lisboa, com a insurreição discente - da qual, alguns anos depois, se tornou agente activo, forma óbvia de se integrar e afirmar - e com a impotência docente. E com pormaiores impressionantes, como o nunca mais ter tido Educação Física, dada a inexistência de um pavilhão ou mero espaço disponível. E da ausência de quaisquer actividades extra-curriculares, às quais estava habituado, ali resumidas a espontâneos campeonatos de flippers na fronteira tasca do Sô Álvaro, onde corriam também taças sub-15 de "submarinos" (o cálice de bagaço dentro das "imperiais"), e as maratonas de ganzas, então fumadas em cachimbos de prata (os invólucros dos maços de tabaco). Tudo isso causou efeitos tremendos nos hábitos laborais e na aprendizagem curricular - ainda que alguns anunciados falhanços fossem ultrapassados pela intervenção doméstica do paterno engenheiro, se em questões "científicas", e da materna (e bilingue) professora, se em questões linguísticas, isto para além dos laivos colhidos na biblioteca caseira. Pois o capital cultural familiar reproduz a estratificação social, aprenderia depois o já pós-adolescente quando estudando ali ao Campo Grande...
Um dia, mais tarde, já homenzito, chaves do Fiat 600 no bolso, cigarro na mão, o filho enfrentou o pai "com que propósito é que me tiraram do Valsassina?, é que aquela escola era uma catástrofe!". O Camarada Pimentel sorriu - naquele seu sorriso algo desanimado diante do mundo imperfeito que não se aperfeiçoa à velocidade tão desejada. E resumiu "Não queríamos que fosses um menino de colégio!"...
O filho do casal Pimentel cresceu. E até amadureceu. Estudou antropologia - "nos Olivais, não ali ao Campo Grande", faz sempre questão de dizer. Depois envelheceu, empobreceu, ensimesmou. E nisso tudo nunca foi um "menino de colégio...".
Obrigado Camarada Pimentel. Obrigado Pai António. Obrigado Mãe Marília.
(Lembrando tudo isto: nesta nossa continuada "normalidade democrática" o político "já-não marxista" Rui Tavares tem a descendência em boas escolas privadas, como refere o Paulo Sousa? Não vejo problema, não vejo contradição radical entre defender uma boa escola oficial e dar o melhor enquadramento possível aos filhos. Nem todos têm de seguir as mesmas concepções de paternidade. E não confundamos a esfera pública e a privada. Pois o problema é o da demagogia nas posições e o da irrealidade das propostas. E o LIVRE é um partido muito demagógico. Nisso até melífluo. Tenhamos fé que as boas escolas façam medrar melhores cidadãos entre as futuras gerações.)
Adenda: não quero provocar ou alimentar polémicas. Mas somando ao que disse escreve-me um amigo, após ler o postal, chamando a atenção para que a mulher do político do LIVRE é uma diplomata. Se outra razão fosse necessária - que julgo não ser - para justificar a colocação dos filhos em escolas de ensino internacional, privadas sempre, esta seria mais do que suficiente.

Todos os dias docentes universitários - quase sempre os mesmos - acampam durante horas nas pantalhas, perorando sobre a mais vasta gama de temas, da guerra soviética na Ucrânia às alterações climáticas, passando pela desflorestação da Amazónia e das pequenas peripécias da política doméstica. Tanto faz: qualquer coisa lhes serve de motivo para longa prelecção televisiva.
Ficamos mais sábios ao escutá-los? Não. Espantosamente, estes professores parecem pouco ou nada ter para ensinar. Alguns distinguem-se por falar português de forma deficiente, parecendo cópias de carne e osso do rudimentar Google tradutor.
Uma senhora com pergaminhos académicos proclamava há dias a intenção de se pronunciar com «accuracy» a propósito já não me lembro de que assunto. Confirmando que em certas universidades cá da terra o idioma dominante se tornou o crioulo luso-"amaricano".
Outra, também com lugar cativo em estabelecimento de ensino alegadamente superior, dizia que «quaisqueres» garantias estariam a ser dadas por alguém, irrelevante para o caso. E um cavalheiro, igualmente docente universitário, assegurava que «vão haver» surpresas num futuro próximo.
Quando os professores falam assim, admira quase nada que os alunos passem o tempo a grunhir inanidades, sem conseguirem debitar três frases seguidas de modo inteligível. Oiço-os nos transportes públicos: em cada cinco palavras, dizem «bué»; em cada três, dizem «tipo». Quase sempre rematado com o onomatopaico «iá».
São as supostas elites do futuro. Estão a ser formadas por «quaisqueres» especialistas em ignorância de alto nível. Teme-se o pior.

"Vão surgir muitos problemas no Mundo e vão surgir muitos problemas em Portugal, e é bom que, de vez em quando, nos possamos encontrar, possamos ver o que é que se passa e possamos encontrar um caminho para o futuro, o que nem sempre vai ser fácil. Pelo contrário, vai ser sempre muito complicado, com várias opiniões se encontrando, porque estamos, em todo o Mundo e aqui, naquilo que se chama um período de transição.
Agostinho da Silva (1906-1994)
(“25 de Abril e o futuro”, Assembleia da República, 25-04-1989)
[(c) Binary Code Pixels, Allan Swart, 2016]
Um período de transição. Para quê? Para onde?
Nem tempo, nem capacidade de inteligir basta(ria)m para o entender, diria o professor. Então como agora, só a genuína curiosidade em saber (a coexistência entre sonho e objectividade) garante abertura ao que se poderá seguir. Ao futuro.
Penso muitas vezes na importância que dava, no que ia partilhando, à combinação entre impulso de descoberta e prudência, entre entusiamo e observação cautelosa, calculada. Pergunto-me se ainda guardamos, como povo, o reflexo de hesitação/interrogação ante o que nos é apresentado como novo. Talvez não, não sei, pelo menos olhando para o modo ligeiro como subestimamos o senso dos que agora são tidos por não-instruídos, mas que permanecem atentos a pormenores que escapam aos oficialmente escolarizados.
Que país está pronto para o futuro?
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Estava eu sentada a ler, saboreando do melhor modo que sei as últimas horas de folga, quando ela chegou com o avô. Veio enroscar-se no meu colo como habitualmente, sequiosa dos mimos e afagos que apenas as avós sabem fazer tão bem. Notei-a triste. “Então Neta, que cara mais macambúzia, passa-se alguma coisa? “O que é macambúzio, Avó? Tem a ver com mar?“ "Não, tem a ver com carinhas tristonhas como a que trazias quando entraste. Vá, conta-me tudo” "Sabes Avó, estou muito desapontada por não saber escrever no computador. Estive a praticar no fim de semana em casa e demorei mais de duas horas para escrever uma cópia de 10 linhas. Se não souber escrever, não posso fazer as Provas de Aferição, e se não fizer, não sei o que irá acontecer." “Provavelmente não acontecerá nada de grave, mas diz-me, quantos colegas na tua turma têm computador?” "Quatro. A Professora divide-nos em grupos de cinco alunos por computador, mas não conseguimos praticar nem aprender nada de jeito, Avó. Tenho tanto medo de chumbar.” "Olha que ideia mais peregrina, essa tua, Neta. Ouviste dizer isso onde?" "Todos os meus colegas falam nisso, Avó. No medo que têm de chumbar se não fizerem as Provas de Aferição no computador. Eu tenho sorte, porque a minha mãe deixa-me praticar no computador dela, mas muitos meninos não têm computador, em casa ou na escola para praticar. Eu gosto tanto da minha turma, Avó! Não gostava nada mesmo que algum deles chumbasse." “Não fiques preocupada, que ninguém vai chumbar por não fazer ou fazer mal as Provas de Aferição. Tudo se resolverá e todos os alunos continuarão a aprender normalmente.” "Então as provas não são importantes?" “Provas são sempre importantes e deve estar-se sempre bem preparado antes de as fazermos. Destas talvez algumas necessitem ser repensadas, mas não penses nisso agora. Prepara-te para as provas de Educação Artística. Mais tarde no mês veremos em que ficamos em termos de decisão final no que toca à utilização do computador. É boa ideia?" “É, sim”, respondeu conformada.
PS. A Neta concluiu hoje as Provas de Aferição na categoria de Educação Artística. Telefonou-me a contar que correram muito bem. Numa das provas, tinham de se imaginar a rastejar para entrar numa gruta onde estavam uma minhoca, uma aranha, um caracol, um morcego, um sapo cego e uma toupeira. Cada criança escolheu o animal que preferia, para mimetizar os movimentos e reproduzir-lhe os sons. Claro que aplaudi e incentivei o entusiasmo, mas fiquei a pensar para comigo. "Que raio… Um sapo cego, porquê? E que raio de som poderá emitir uma minhoca, uma aranha ou um caracol? Serão exemplos de inclusão?"
(Imagens Google)
Notável entrevista de Noah Chomsky ao suplemento Ípsilon, do jornal Público (entrevistado por Ivo Neto e Karla Pequenino). Tema dominante: a inteligência artificial. O pensador norte-americano adverte: hoje há pessoas que se apaixonam por máquinas. Gente nascida após 1997, os chamados "nativos digitais". Gente deste XXI - o século em que a máquina, tendencialmente perfeita, supera de vez o homem, imperfeito por definição.
«Porque é que uma criança de três anos fala com os seus brinquedos? Algo nestas tecnologias lembra a nossa infância e todos podemos ser apanhados nisso», assinala Chomsky. Na sua perspectiva, proibir não é solução. Nunca é. «Podemos levar as pessoas a compreender o que a inteligência artifical é e não é. Acabar com a euforia e olhar para a realidade como ela é. Basicamente, é como qualquer outra ideologia ou doutrina. (...) Não há maneira de a impedir, não vai acabar nem desaparecer. Pode educar-se a população para compreender como realmente são as coisas.»
Sempre estimulante, concordemos ou discordemos dele. Com lúcidos 94 anos.

Hoje é O Dia Internacional da Educação
«Este dia anual foi criado pela ONU em 2018. Visa sensibilizar a sociedade civil para que se cumpra o direito à educação, consagrado no artigo 26.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Convenção sobre os Direitos da Criança. Procurando sublinhar o papel da educação enquanto meio para quebrar ciclos de pobreza.
A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adoptada em Setembro de 2015, reconheceu a educação como pilar essencial para o desenvolvimento sustentável.
A UNESCO dedica a comemoração da data, este ano, às raparigas e mulheres no Afeganistão que foram privadas do seu direito à educação e apela ao levantamento imediato das interdições que restringem o seu acesso à educação.»
Há educação e educação. Este dia celebra o direito à educação que se aprende nas escolas. Isto não quer dizer que uma criança que não sabe ler nem escrever não seja bem educada. Todas as crianças devem saber ler e escrever como ponto de partida sine qua non as suas escolhas terão bom rumo. O saber é a pedra basilar de um futuro pensado. Mas a educação primeira e principal, é aquela que começa no berço. Os valores e os princípios que são transmitidos no seio familiar de geração em geração, são imprescindíveis para saber estar em sociedade. Infelizmente muitos progenitores pensam que a função de ensinar uma criança a ser civilizada pertence ao professor. Como nos poderemos espantar ou insurgir se um aluno bate num professor? Sim, como, se nunca aprendeu o significado da palavra respeito?

Hoje é O Dia do Irish Coffee
«Famoso em diversos países, o Irish Coffee, ou café irlandês, é uma das bebidas mais tradicionais da Irlanda.
Esta mistura de café com uísque e natas surgiu em 1943, conquistando o paladar de irlandeses e estrangeiros. Foi no antigo aeroporto de Foynes, no condado de Limerick, que tudo começou. Naquela época, era um dos maiores aeroportos da Europa e o primeiro a ter voos transatlânticos na Irlanda, recebendo regularmente passageiros dos Estados Unidos que desembarcavam em hidroaviões.
Nesse Inverno, um voo decolou de Foynes com destino a Nova Iorque. Porém, devido às péssimas condições climáticas, o avião viu-se forçado a retornar ao aeroporto para aguardar condições mais seguras. Nessa altura Joe Sheridan, qualificado chef do restaurante do aeroporto, foi chamado de volta ao trabalho naquela noite. Desafiado a preparar uma bebida quente para os passageiros, Joe deitou um pouco de uísque de boa qualidade no café que seria servido e pôs natas no topo da bebida. A partir de então, a bebida tornou-se parte do menu oficial do restaurante no aeroporto. Foynes encerrou operações em 1945 e o restaurante foi transferido para o aeroporto de Shannon.
O jornalista norte-americano Stan Delaplane viria a apresentar o Irish Coffee ao mundo. Em visita à Irlanda, em 1951, experimentou a bebida no aeroporto de Shannon. Ao regressar a São Francisco, começou a divulgá-la. A partir daí, a bebida começou a tornar-se popular nos EUA, na Europa e no resto do mundo.»
Há sempre espaço para um bom Irish Coffee. Deve ser a única bebida composta que sei preparar em condições e se não carregar no "Rye", consigo bebê-lo sem manifestações adversas. O primeiro que tomei foi num bar irlandês no Rio de Janeiro. Não me entusiasmou grandemente porque o café, como a maior parte do café que se bebe no Brasil, era café de saco. Coisa fraquinha. O melhor que já bebi foi em Roma, num bar mal iluminado que de repente resplandesceu.
(Imagens Google)
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(Fotografia de Gerardo Santos, Global Imagens)

António Sampaio da Nóvoa, então reitor da Universidade de Lisboa, tornou-se conhecido da população em geral após o seu discurso nas comemorações do 10 de Junho de 2012, no qual teceu incisivas críticas às políticas austeritárias então em curso, sob a governação do governo PSD/CDS. O renome que assim alcançou veio a induzir a sua candidatura às presidenciais de 2016, para a qual colheu o apoio explícito - ainda que apresentado de forma bastante sui generis - de António Costa e do PS.
Nesse contexto o artigo que ontem publicou no jornal "Público", crítico não só das políticas que vêm sendo seguidas no sector da Educação mas também - e explicitamente - das políticas deste governo, nisso apoiando a contestação que a estas vêm opondo os professores, tem um significado muito especial. E até letal para o actual ministro da Educação. Até porque não o poderão reduzir a um qualquer oposicionista da (extrema-)direita ou a um mero apaniguado do célebre e eterno Mário Nogueira.
No Facebook, quando o assunto fervia e a propósito do escândalo do Ministério Público de Famalicão, escrevi o seguinte:
Alguém sabe onde está a promoção do MP sobre o caso da família de Famalicão? Tenho visto várias transcrições de excertos, a começar na Lusa, logo isso deve ser acessível, mas no site, que eu veja, não há textos. A julgar apenas pelas transcrições o MP acha normal o império do Estado ser enfiado pela goela abaixo dos cidadãos recalcitrantes quando calhe estes terem suficiente amor às suas convicções para tentar impedir o sistema de ensino de formatar as cabecinhas dos infantes em escolhas ideológicas que não são neutras. Ou seja, a Constituição declara o Estado laico mas o poder do dia acha que o ensino oficial deve promover a religião boazinha da chamada ideologia de género, por exemplo, entre outras obsessões. As querelas ideológicas resolvem-se, em regime democrático, por escolhas livres, mas a liberdade fica diminuída se se pretende condicionar as crianças a ver o mundo da forma que o vê uma parte dele, que é a dos paizinhos que legitimamente são de esquerda. Eduquem os vossos filhos com as caraminholas em que acreditam, abstenham-se de reivindicar o direito, que a Constituição, a lógica, o senso e a decência não consentem, de educar os filhos de quem não compre as frescuras do tempo. Ontem a Mocidade Portuguesa, hoje acampamentos do Bloco de Esquerda em formato de sala de aula e com notas?
As transcrições a que me refiro estão, por exemplo, aqui. E as primeiras observações que se podem fazer são estas: se a promoção não é pública, então excertos não deveriam andar na imprensa; se andam é porque alguém lá os pôs; quem os pôs só pode ter sido o advogado da família, ou esta, ou o MP, ou funcionários; se o que chega à comunicação social são extractos, deveria o próprio MP ter interesse na divulgação porque os interesses a proteger, se há, com o secretismo, já estão ofendidos, e nada garante que o que os jornalistas entenderam salientar tenha mais relevo do que o que ficou omisso.
O texto acima foi objecto, dentro do meu mural, de comentários aqui e ali azedos e vi-me aflito para evitar zangas. Tenho amigos claramente de direita, outros em cima do muro e outros ainda à esquerda. E nas raras vezes (três a que tenha dado atenção, para ser exacto) em que pessoas entenderam excluir-me por não “aguentarem sarcasmos” ou o meu alegado machismo considerei o facto como uma derrota: as redes são lugares tribais e as pessoas sentem-se confortáveis apenas nas respectivas bolhas mas um mundo alternativo em que toda a gente concordasse comigo seria decerto muitíssimo razoável, e progressivo, e rico, e sensato, e exornado ainda de muitas outras qualidades, mas também, como a ilha de Calipso, prodigiosamente chato.
Um destes amigos (que no diálogo em questão não participou – se o tivesse feito haveria ainda mais troca de tiro de morteiros, por ter notoriedade), que estimo, declara-se como liberal de esquerda, coisa que tecnicamente parece que existe mas nunca pude apurar o que seja. Curiosamente, é, como eu, naturalmente tolerante em relação a pessoas que subscrevam ideias que contrariem as próprias, e escreveu este fim-de-semana, na sua coluna no Expresso, sobre o caso.
Ainda bem. Que assim comento um texto que li integralmente e não um de que conheça apenas partes e que tem contornos de legalês, que é um terreno eriçado de escolhos. Que diz então Luís Aguiar-Conraria? Muitas coisas para concluir que
“A escolaridade obrigatória faz parte do consenso da sociedade, e os pais não têm o direito de impedir que os filhos usufruam desse ensino.”
Começando pelo fim, o raciocínio é capcioso: há efectivamente um consenso social em torno da obrigatoriedade do ensino; mas não há, como este conflito e a polémica em torno dele demonstram, nenhum consenso em torno da ominosa disciplina de Cidadania e é ela, e só ela, que está em causa, e não a obrigatoriedade do ensino de cadeiras do currículo tradicional. A menos que se queira entender que o “consenso social” cobre as manias do pensamento progressista-socialista-modernista que são moeda corrente e provavelmente maioritárias nos assuntos de que trata a disciplina mas de modo nenhum pacíficas.
Esta conclusão é, ademais, tão intelectualmente enviesada como outros raciocínios que a suportam como, por exemplo, quando diz
“Que hoje a direita em peso assuma as dores dos pais de Famalicão, quando impediu a escola de atender a casos particulares, é irónico”.
A observação refere-se à desastrada iniciativa da ministra Maria de Lurdes que, in illo tempore, quis arranjar um expediente para fazer passar de ano os alunos que, por excederem o máximo de faltas, chumbassem automaticamente. O expediente consistia num exame de faz-de-conta e o propósito era diminuir administrativamente o número de “retenções”, vulgo chumbos. A direita, realmente, torceu o nariz. E bem, porque todo o espectro político subscreve a massificação do ensino, mas à parte esquerda, aparentemente, não importa se isso se faz com analfabetos albardados de diplomas. A relação deste incidente pretérito com o problema actual Luís vê-a porque eram “casos concretos” aos quais os professores deveriam ter “flexibilidade” para atender. Eu não vejo relação nenhuma.
A seguir vem um bom argumento: “A possibilidade de uma família muçulmana não querer que a filha adolescente tenha aulas de Educação Física é real. Um dia acontecerá (...) mas conto que com o Estado para impor o direito desta adolescente a ter as aulas todas”.
Também eu porque a Constituição defende a igualdade entre os sexos, que resultaria negada pela excepção. E não é apenas a Constituição, é também o estádio actual do tal consenso social, que no caso se estabeleceu numa sociedade de tradição judaico-cristã, e não numa muçulmana, que não só é alienígena como não se mostra geralmente compatível com um certo número de valores (o da igualdade de direitos entre os sexos é um deles) que consideramos como um adquirido civilizacional.
Sucede que os pais de Famalicão não pretendem ofender nenhum valor social legítimo, mas antes correntes de opinião de modo nenhum pacíficas, que no caso são as de uma parte do eleitorado, que desencantou o expediente de formatar as cabeças das criancinhas nas crenças em engenharias sociais que lhes norteiam as posições políticas, com a esperança de em adultos estarem mais receptivos a adoptarem os disparates e radicalismos, com frequência ridículos, que imaginam fazerem parte de um espécie de teleologia em direcção à sociedade perfeita.
A própria polémica suscitada ilustra isto: se a esquerda, em geral, subscreve o palavreado progressista que enforma parte da disciplina, e alguma direita não, é um abuso usar o poder do Estado para obrigar os filhos da parte que tem reservas a serem educados pelos critérios, em questões de moral e certas de organização social, da que não tem.
Por exemplo: igualdade de género? Esta formulação equívoca (fora da Gramática, onde tem um significado preciso) destina-se a inculcar a ideia de que o sexo é uma construção social e não uma marca distintiva biológica, o que abre a porta a uma quantidade de abusos e tolices que não vou detalhar porque o ponto não é o bem-fundado da teoria – é que quem a defende não tem o direito de a impor, com autoridade professoral, aos filhos de quem encara semelhantes delírios como fazendo parte de modernismos passageiros quando não são masturbações intelectuais de marxistas reciclados que arranjaram um modo de vida nas universidades do mundo anglo-saxónico, de onde vêm estas modas.
O texto vai longo e por isso salto para o ponto em que o autor declara que “A primeira hipótese [chumbos] é demasiado penalizadora para os miúdos, que deveriam ter sido protegidos e não penalizados pelos pais irresponsáveis que lhes calharam”. Irresponsáveis?! Subscrevo integralmente o que dizia há dias Rui Ramos sobre a forma como estes pais devem ser encarados, e o que no dia seguinte disse Alberto Gonçalves, e lembro que
No tempo do Estado Novo os inimigos activos do regime eram uma minoria, e dentro desta sobressaíam os comunistas, que por o serem pagaram um pesado preço. Gente dos meus lados, mas não tão lúcida quanto eu, costuma lembrar a evidência de o tipo de sociedade que os comunistas reivindicavam ser imensamente mais deletério que a que pretendiam substituir. Pois sim: o facto é que, sem o activismo comunista, acharíamos hoje que o Estado Novo praticamente não teve repressão. Acaso acha o Luís que os filhos de comunistas devem censurar aos pais terem-nos prejudicado pela defesa das suas convicções? Pergunto eu, que sou anticomunista.
Amigas dilectas minhas chamam incansavelmente a atenção para o facto de a miudagem não ligar provavelmente grande coisa à disciplina, diga o que disser o professor que lhes calhar em sorte, e que no tempo delas a Religião e Moral não as pôs nem mais nem menos católicas, nem as condicionou nas suas mundividências, que foram tributárias muito mais do que aprendiam nos recreios e em leituras avulsas e conversas; assim como a disciplina de Organização Política, se queria formar servidores do regime, falhou clamorosamente.
Isto dizem elas, com mais verve. E diz Conraria que a disciplina não deveria existir. Também acho, a menos que fosse facultativa e sem notas.
Ou seja, mesmo quem defende a existência da aberração acha que ela não tem importância, razão pela qual deve permanecer; e quem acha que ela não devia existir entende que o melhor é que exista.
Porquê? Porque o Estado não pode emendar a mão, quem a deve emendar é quem seja vítima de atropelos.
Deve ser o que entendem por cidadania.
Só acredita nas palavras do nosso ministro da educação quem anda mesmo a leste do que se passa na educação e só a conhece dos títulos dos jornais.
Tenho notado que, apesar dos triunfalismos do ministro quando diz que agora todos pensam criticamente, os alunos, em geral, têm cada vez menos capacidade de concentração continuada. Se têm de ler um texto de uma página para fazer um trabalho qualquer, desanimam antes mesmo de começar porque não conseguem concentrar-se tanto tempo.
Estão habituados a ler na internet frases curtas e a saltar de assunto em assunto, não completando nunca um raciocínio complexo, uma argumentação com fundamentação, um discurso de dissertação sobre um tema, uma descrição pormenorizada. A maior parte das avaliações escolares são de preenchimento de espaços e identificação de palavras ou construção de definições curtas, decoradas. Não têm nenhuma experiência de terem que discorrer sobre um tema de modo coerente, objectivo, fundamentado e completo, tendo de relacionar conceitos, encadeá-los numa arquitectura, já nem digo elegante, mas pelo menos robusta.
Como consequência, quando chegam às aulas e ao trabalho escolar, não sabem pensar porque nem sequer são capazes de seguir um raciocínio complexo e isto advém de não terem hábitos de concentração continuada.
Reparo que a esmagadora maioria não consegue sequer concentrar-se para ver um filme, o que até há uma meia-dúzia de anos lhes era muito fácil. Pois agora não é, talvez por estarem habituados a consumir exclusivamente vídeos do YouTube que não requerem mais do que dez ou quinze minutos de atenção continuada. Ao fim de vinte minutos de filme já estão cansados de tomar atenção.
Há pouco tempo comentava isto com uma turma e explicava-lhes -mais uma vez- os benefícios de aumentarem o seu poder de concentração e os prejuízos de não o fazerem - para ver se conseguia convencê-los a ler um livro. A certa altura disse, 'qualquer dia também deixam de ser capazes de ver um jogo de futebol inteiro e só vêem os resumos'. Diz uma aluna, 'Não é qualquer dia. Eu não consigo ver um jogo inteiro. É muito tempo. Às vezes vejo a primeira parte e depois espero que o resumo caia no YouTube e vou ver os golos e as jogadas mais importantes'. Confesso que fiquei estupefacta porque tinha dito aquilo meio a brincar.
Era preciso haver uma campanha de esclarecimento aos pais (e ao ministro da educação que tem um pensamento infantil, do tipo mágico) que, calculo, não fazem ideia de como deixarem os miúdos nos telemóveis e internet logo desde muito novos lhes estragam as capacidades de concentração, de aprendizagem da complexidade da língua e portanto, de raciocinar e pensar.
Depois saem relatórios do IAVE a dizer que os alunos não sabem pensar. Isso de saber pensar, ponderar e criticar é um processo longo que leva tempo a aprender e interiorizar e que se alcança através de outros processos que o ministro tirou da aprendizagem escolar para que todos possam passar mesmo sem saber nada, para ele ficar bem no cozido à portuguesa das estatísticas nacionais.

Devido a recente decisão jurídica voltou à berlinda o caso dos irmãos Rafael e Tiago Mesquita Guimarães - cujos encarregados de educação impedem de frequentar a disciplina liceal "Educação para a Cidadania" e que por isso se deparam com o intuito estatal de os reprovar. Em tempos já muito se escreveu sobre o assunto e não será necessário repetir argumentos [eu botei aqui o que penso sobre a algo desajustada disciplina]. Em relação às (improváveis) sanções que os alunos poderão sofrer julgo muito certeiro o que diz Henrique Pereira dos Santos no Corta-Fitas: se cumpre aos encarregados de educação prover à conclusão da escolaridade obrigatória (esta entendida como um direito inviolável das crianças) então essas hipotéticas sanções deveriam incidir sobre estes pais e não sobre os alunos que cumprem os ditames dos seus progenitores. Um pouco à imagem - salvaguardadas as óbvias diferenças - do que acontece em casos de precoce abandono escolar ou em casos de denúncias do corpo docente de indevidas práticas paternais que impeçam a consecução escolar. Mas julgo (e espero) que este é um novelo em que o Estado acabará por se retirar, cedendo a esta idiossincrasia familiar. Com a qual pouco simpatizo, independentemente do que penso da disciplina curricular em causa, pois muito me parece um finca-pé algo histriónico.

Quando aos 18 anos tirei a carta de condução herdei o Fiat 600 (DI-51-56) da minha mãe. O carro não tinha cintos de segurança, nem isso era obrigatório pois já algo antigo. Antes eu, como tantos outros, crescera a andar no banco da frente - e lembro-me de um magnífico volante de plástico, com manete de mudanças e ventosa para colar ao tablier, que tive cerca dos meus 8 anos. Pois até isso era costume. Só anos depois de eu conduzir é que começou o controlo do consumo alcoólico aos condutores - e de início apenas se os procurava sensibilizar (e aos polícias) para o assunto. Entretanto perdi alguns amigos no asfalto. E, para ser honesto, tantos de nós estamos aqui apenas porque "ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo". Lembro-me bem que todas essas alterações e as campanhas que as acompanharam foram acompanhadas dos exaltados dislates de muitos - clamando contra o Estado totalitário, fascista/comunista, a intrometer-se nas questões da liberdade individual, etc.
Agora o governo decidiu proibir a venda nas escolas de uma série de produtos alimentares prejudiciais. É consabido que há um crescendo de obesidade infantil/juvenil, principalmente entre os mais pobres. E de imediato, de novo, surge o mesmo tipo de gente aos gritos, defendendo o que julgam ser as tais liberdades individuais. Ora o Estado existe para isto, não para termos um primeiro-ministro corrupto, um ministro de negócios estrangeiros "parolo" conivente com essa corrupção, ou um secretário de estado também conivente com essa roubalheira e que depois vai para presidente da câmara denunciar cidadãos a países estrangeiros. Isso é que são os inaceitáveis ataques às liberdades individuais. Ao contrário, regulamentar algo racionalmente a dieta que se vende nas escolas é o necessário exercício estatal.
Os pretensos inteligentes dirão que estes meus exemplos, a segurança rodoviária e a alimentação escolar, são diferentes coisas. São, claro, mas não seja por isso: há cerca de uma década o governo regulamentou o nível máximo de sal a incluir na produção panificadora. Instaurou-se o fascismo? O comunismo? Fomos acorrentados a uma hidra dietética?
Certas ideologias depositam uma fé sem limites nas virtudes da educação. Quanto a pessoas e até quanto aos animais. Acontece que a educação, no confronto com a natureza, tem um alcance limitado. A fera nunca deixa de existir: pode estar apenas adormecida.

[Izusek/Getty Images]
"Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão."
Agostinho da Silva, Considerações e outros textos (Assírio & Alvim, 1988).
Os que ainda não (re)começaram a escola estão ao rés disso. Este é um Setembro menos espontâneo, menos lento e menos leve. Há hesitações, receios; há também determinação, muita ânsia de reencontro. Viver meio ano fisicamente distante dessa comunidade - para muitos, a maior constante na primeira fase da vida - foi coisa que até agora, nesta zona do mundo e nas gerações mais recentes, poucos tiveram de suportar. O que não significa que se não tenha aprendido.
Ao longo destes meses, os que decidiram continuar a aprender e a trabalhar com quem aprende aceitaram a empreitada substancial de manter viva uma realidade que não é um conjunto de edifícios, campos e canteiros. Da Primavera ao Verão, dias houve em que foi pesado o esforço de crianças e jovens, famílias, professores e outras entidades no desemaranhar de questões que obstavam à escola: subsistência em contexto de desemprego; reorganização de casa e rotinas de trabalho; adaptação de espaços; investimento em material; assistência à família. Houve maior franqueza sobre o estudar e as suas dificuldades, a pouca literacia, a frágil relação com os livros. E houve cansaço, e tensão, e disrupção, e deslizamento.
Quem participou desta realidade também teve ocasião de observar muitos dos mais novos chamarem a si a responsabilidade de adaptação tecnológica das condições de comunicação com os mais velhos, incluindo pais, avós, professores. Viu direcções, coordenações e autarquias organizarem plataformas de distribuição e estruturas digitais com não muitos recursos. Viu empenho pessoal e cooperação.
Se os meses de Março a Julho tiverem realmente sido uma educação, as gerações que viveram este período talvez não deixem esquecer que, para existir escola, tem de haver uma comunidade educativa em que ninguém é espectador.