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Delito de Opinião

Eduardo Lourenço

José Meireles Graça, 02.12.20

Morreu Eduardo Lourenço e a comunicação social explodiu em ditirambos: no Público, por antonomásia o jornal do regime, o homem é “o gigante que nos desvendou Pessoa, Portugal e a Europa” e, no I, “o intelectual que decifrou o enigma português”. Marcelo informou que o finado era “figura essencial do Portugal que vivemos” e Costa recordou “o amigo com quem aprendeu muito”; o Conselho de Ministros decretou luto nacional; e quem é quem no mundo da opinião, conhecida ou discreta, profunda ou superficial, desarrincou textos muitíssimo inspirados.

Claro que nunca escreveu nada que fosse muito lido senão por quem leva a sério lá essas coisas de letra redonda que entende mal, ou fizesse escola, ou estabelecesse doutrina, ou apontasse caminhos que não fossem os da mais chã banalidade no pensamento e na acção. Mas tinha uma receita. Como disse um ignoto comentador no Facebook, essa rede dois dias pejada de citações do vulto desaparecido:

E então, a Ordem dos Psicanalistas já veio dar testemunho do seu pesar? Morreu o confrade que se especializou na homeopatia para a pátria no sofá.

Essa era de facto a especialidade, a par de arroubos líricos em torno da imarcescível alma portuguesa e mergulhos na psique da nacionalidade, consoante os dias e as circunstâncias. Quem tiver dúvidas ou pecados a expiar pode conferir neste repositório de citações.

Pobre homem, talvez não merecesse, pela sua simplicidade, que era provavelmente genuína, o prémio que dá a pátria aos seus próceres da cultura quando morrem velhos: o estatuto de génios retroactivos, em vez de diuturnidades.

Não mereceria talvez, também, estas regras desabusadas porque foi um homem bom o que morreu; e na lavoura do pensamento e da escrita são precisos muitos para que, de longe em longe, um se livre da lei da morte.

Descanse em paz e nós até ao próximo génio que o mundo oficial assim declarar.

Eduardo Lourenço e os astros

Teresa Ribeiro, 20.07.17

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Leio a mais recente entrevista de Eduardo Lourenço ao Expresso. Às tantas ele diz isto: «Pertenço àquela raça de pessoas que quereria estar ao mesmo tempo entre coisas diferentes.» E isto: «Fui mais vivido do que vivi as minhas escolhas. Queria estar 'entre' e não 'em'.» Não sou entendida em signos astrológicos, mas os meus conhecimentos rudimentares levaram-me a pensar, de imediato: "Só um nativo de Gémeos poderia falar assim." Fui ver ao Google e acertei na mouche: nascido a 23 de Maio! Lembrei-me de Pessoa, outro que gostava de estar "entre", outro que só podia ser Gémeos e que não por acaso um dia escreveu: «Sou, entre mim e mim, o intervalo.»

Ainda dizem que a astrologia é uma treta!

o fim do mundo

Patrícia Reis, 21.02.14

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.

 

Esta frase é de Eduardo Lourenço, assim a disse, ontem, nas Correntes d'Escrita, edição 2014.

O meu coração encolhe-se.

O que quer dizer é que já não vê o futuro, que partilhou mais de 50 anos de vida com alguém que não está, que talvez possa deixar de pensar, de escrever, de querer saber. Não o diz assim. Nunca o dirá. Mas sente-o.

No Congresso Internacional Fernando Pessoa em Novembro de 2012, andando para cá e para lá, a ver a morte rondar, não parou um segundo.

Dei-lhe boleia. A minha mão nas mudanças, a dele na minha. Um gesto de conforto. De ternura. Os meus olhos ficaram nublados com a história que me contou. Não a repetirei, não é para isso que servem estes espaços. E, ao mesmo tempo, há no silêncio de algo que nos foi digo uma certa ideia de sagrado. Disse-lhe

 

Gosto de o ouvir pensar.

 

Parece-me holocáustica a forma como algumas das minhas pessoas estão tão perto do abismo. A justiça disso será o quê? A minha verdade é fruto da experiência, logo distinta da dos outros. O meu abismo é só meu. Gostaria de dar, a quem amo, planíces para caminhar, para gozar o sol, o silêncio. Um mundo plano, sem quedas. Depois repito o que sei ser verdade e, porventura, inevitável para todos

 

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.

Ser ou não ser Europa

Laura Ramos, 09.12.11

 

Ontem, por mera coincidência na véspera da Cimeira de Bruxelas e do ajuste sobre o futuro financeiro da UE, fui ouvir Eduardo Lourenço numa conferência ao pé da porta. Não sei se me irei lembrar muito deste dia (será um mau sinal). Ou se irei esquecê-lo, porque o filósofo tinha razão.
Seja como for, que bom é distanciar-nos das tecnicalities do euro e dos mercados e, sem deixar de lhes reconhecer a diabólica responsabilidade, voltar a pensar na Europa como Victor Hugo, Dellors ou Otto de Habsburgo: um compromisso possível de unidade. Recentrando a questão nos seus alicerces, que sempre foram, apenas, a nossa vontade colectiva.
Era uma sala pequena e calorosa, que reunia um máximo de 80 pessoas, literalmente levadas num voo de águia sobre esta Europa, o projecto comum europeu, o nosso destino solidário - ou não - e, sempre latente, o fatal -Que faremos ?

Nunca deixei de acreditar no sonho europeu, mas não tenho dotes de Cassandra para adivinhar o que lhe vai acontecer – dizia. A Europa comunitária que faz sentido é a da unidade cultural, mas está parada desde Maastricht. Não soube reagir ao desaparecimento de velhos fantasmas e dar sinais indispensáveis aos novos espaços europeus, como a Rússia (e no entanto é a pátria de Tolstoi e de Dostoyevsky…)  - E a Turquia? A Europa é filha da Ásia e sobretudo da Ásia-menor. E eu estou tão desesperado com a Europa que acho muito bem que esta entre!

Tudo isto dizia sem que, apesar das dúvidas e do fio da navalha, eu lhe tenha encontrado qualquer sinal de desencanto mórbido, como tantos lhe atribuem.
Para ele, a Europa continua indubitavelmente a ser o continente mais rico do mundo, a pátria da filosofia, da ciência, a quem ninguém desafiava até passar uma boa parte do séc. XX, quando a Europa não era a Europa, era o Mundo. A América e a Ásia? Poderão vir a igualar-nos, mas nunca antes do final deste século. O natural não é dividirmo-nos, é impormo-nos como um todo, apesar das  nações que nos têm impedido de construir como uma entidade. Apesar da pulsão messiânica da Alemanha, que lhe vem do seu conflito histórico com a latinidade. Apesar da França - a mais vencida de todas e também a única a achar que todos os povos poderão ser franceses... Apesar da Inglaterra, verdadeiramente a mais avançada de todos os países (como até o afrancesado Eça percebeu) e a única a achar que só os ingleses podem ser ingleses... Apesar de Portugal e dos portugueses, nesta nossa ambígua condição de sermos os primeiros europeus e também os primeiros não europeus, num Oriente ao oriente do Oriente, como dizia Pessoa... Sim, houve momentos de humor destes, ciciado e tecido a bilros, com quentes risadas de fundo.

Eduardo Lourenço nunca sentencia, nunca moraliza. A simplicidade com que se expõe, ao discorrer, bastaria para o tornar único. – Quantas vezes podemos, hoje em dia, ser poupados à exibição gratuita de vaidades, de poses fabricadas, de mitos palradores içados à categoria de fazedores de opinião, tão cheias do seu próprio eu e de nada? A qualidade humana e o génio, ou a superioridade intelectual, como queiram, podem coexistir, sim. E ele ali estava, cristalino e objectivo, ainda que relativize o poder da objectividade. Propenso a esta ou àquela corrente, sem pertencer a nenhuma. Contundente e ágil, sem levantar a voz. De tal forma que me apeteceu dizer, no fim: Meus senhores, falou-vos Eduardo Lourenço, um 'não-lourenciano'…