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Delito de Opinião

Mercearias

Sérgio de Almeida Correia, 21.04.24

Douro Boys | ENOBAHIA

Aproveito a VI Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), mais conhecido como Fórum Macau, e a vinda à RAEM do novo ministro da Economia de Portugal, Pedro Reis, para escrever algumas linhas sobre um problema de natureza prática que afecta a reputação de Portugal no exterior. Penso que nenhum governante minimamente interessado e competente deixará de prestar atenção às consequências das más apostas e das boas políticas, pois qualquer que seja o caso perduram no tempo. E, nalguns casos, colam-se de tal forma ao país que muitas vezes se torna difícil, quando o produto é mau, recuperar de um desastre. 

Ainda tenho na memória a crise que se abateu há quatro décadas sobre as exportações de azeite espanhol depois da crise da síndrome da colza ou do azeite tóxico, que afectou mais de 20 mil pessoas e provocou mais de um milhar de mortos. Tudo porque o óleo de colza desnaturado que era utilizado na indústria, devido à ganância do lucro, foi adulterado e desviado para consumo humano. O Supremo Tribunal espanhol considerou o Estado espanhol co-responsável pelo sucedido e o azeite de Espanha levou um abanão do qual levou anos a recompor-se. Em 2001 foi o óleo de bagaço de azeitona com benzopireno, um produto cancerígeno e péssimo para a saúde, a causar novos problemas.

Aqui o assunto não é tão grave e o exemplo serve apenas como chamada de atenção para o importante papel que o Estado, e neste caso específico o Ministério da Economia, tem na definição de políticas, na promoção das nossas exportações e no papel que algumas instituições devem assumir na defesa do nome de Portugal e dos bons produtores nacionais.

Ao longo da minha vida, e até da conversa com amigos que exploram negócios, nomeadamente restaurantes e lojas de venda a retalho de produtos alimentares (vinhos, enchidos, queijos, produtos de cosmética, por exemplo) em diversos pontos da Ásia, tenho-me apercebido da necessidade de se fazer uma aposta na qualidade dos produtos que são exportados pelos produtores portugueses, que aparecem  e saõ apoiados em campanhas promocionais no exterior, participando em feiras internacionais por todo o mundo. Muitos produtores têm eles próprios capacidade de inovação e de internacionalização e estão cientes da importância de se exportar com qualidade. Veja-se o caso dos Douro Boys e como a sua aposta no melhor vinho que se produz na região que abraça o rio que lhes deu nome se tem revelado um sucesso na China. 

O programa do XXIV Governo de Portugal enfatiza em diversos pontos uma aposta na internacionalização e no aumento de competitividade da economia portuguesa, referindo mesmo a aposta num “novo paradigma da economia portuguesa”, a exigir instituições e um tecido empresarial capaz de se posicionar entre os melhores a nível europeu e mundial, orientando os fundos europeus para “proje[c]tos que permitam à economia promover a criação de riqueza, que potenciem as vantagens competitivas nacionais e que elevem o valor acrescentado da economia portuguesa e que promovam as exportações, assente em critérios de sele[c]ção claros, uma aplicação transparente e fiscalização rigorosa.”

Oxalá assim seja. Quem circule pelos supermercados de Macau, de Hong Kong e de outras cidades asiáticas, já se terá apercebido da co-existência nas suas prateleiras e corredores de produtos portugueses de excelente qualidade, apreciados e venerados por qualquer gastrónomo ou enófilo, com outros produtos de péssima qualidade. Do pior que se produz e vende inclusivamente em Portugal. Estar a exportar presunto com menos de seis meses de cura, intragável, queijos industriais que são uma verdadeira pasta, peixe “prensado” e muitas vezes congelado em deficientes condições, de péssimo sabor, cheiro repelente e pior textura, são produtos exportáveis que em nada contribuem para uma boa imagem do país no exterior. 

E, ao contrário do que já ouvi por aí, não se trata apenas de um problema de mercado do tipo “se o consumidor não gostar não volta a comprar”. Porque da primeira vez pode vender-se tudo; depois  exporta-se uma segunda vez, para já não se vender como da primeira ou ser comercializado no destino, em final de prazo, com 50% de desconto. Os consumidores têm boa memória e dificilmente haverá uma terceira vez porque a seguir virá produto idêntico de Espanha, do Chile, de Itália ou da Austrália, a preços igualmente competitivos e de melhor qualidade. 

O Ministério da Economia deverá conduzir internamente  campanhas massivas de consciencialização dos produtores nacionais para a imperiosidade de se produzir com qualidade para a exportação. E através do AICEP e da rede consular tem de fazer um aposta nessa qualidade, no melhor que somos capazes de produzir para diferentes segmentos de mercado, mas que terá de ser necessariamente acessível a várias bolsas nos países de destino. 

O que não se pode de todo é apoiar as exportações e a presença em certames internacionais apenas por apoiar. Tem de haver critério, tem de haver selecção nos apoios e no que se deixa sair. Não pode haver apoio, seja a que nível for, à exportação da mediocridade. Não se podem exportar nacos de banha dentro de tripa com o rótulo de “chouriço tradicional” porque nem é chouriço nem é tradição em parte alguma do país comer o que não presta.

Isto não significa, obviamente, promover as empresas dos amigos e correligionários do partido que estão sempre disponíveis para agilizar negócios, financiá-las e abrir a porta dos fundos aos fala-barato que travestidos de empresários ou fazendo de "secretários de Estado", andam por aí e vão percorrendo a rede consular, visitando os amigos e “irmãos”, falando de cátedra sobre a política nacional, como se fossem umas drag queens, arregimentando apoios para as próximas eleições, enquanto gesticulam muito e vão amealhando comissões de intermediação à custa de um lobbying fomentado à sombra das juventudes partidárias e que não raro dificilmente se distingue do tráfico de influências.

Os exemplos que nos chegam de França, de Itália, da África do Sul, da Austrália, da América do Sul, ou de países europeus com a dimensão de uma Dinamarca, de uma Bélgica ou dos Países Baixos, mostram que é possível produzir a preços competitivos, com qualidade e exportar em quantidade. Portugal também pode e deve fazer o mesmo. Já que não somos capazes de segurar os nossos melhores dentro do país, ao menos que sejamos capazes de exportar o melhor. Que chegue a todos e a preços competitivos. Olhem para a rapaziada dos Douro Boys. Não será muito difícil fazer como eles, ganhar escala, dimensão e cultivar a excelência. E que não haja medo. A qualidade dá sempre frutos a médio e longo prazo. 

Por uma vez sejamos inteligentes e façamos alguma coisa por Portugal e os portugueses. A começar com o que enviamos para a China e os PLP. As câmaras de comércio, os consulados e o AICEP não servem só para jantaradas. Deles se espera que sejam úteis e façam o melhor por Portugal. Muitos já o fazem. É preciso alargar a rede e cultivá-la com critério, controlando o que de mau sai de Portugal para o exterior. E aí é fundamental o papel do Ministério da Economia. Não sejamos tolerantes com a mediocridade. Ainda que seja da nossa cor política.

A importância de ser um guru capaz de prever os cataclismos

Pedro Correia, 11.02.24

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Vale a pena recordar o que o alegado mago da economia Nouriel Roubini vaticinou a propósito da crise financeira europeia (2008-2012) em geral e Portugal em particular:

 

Julho de 2009

O pior da crise já está para trás: recessão acaba este ano.

 

Junho de 2011

Uma "tempestade perfeita" pode afectar a economia mundial a partir de 2013. (...) Dívidas da Grécia, da Irlanda e de Portugal precisam de ser reestruturadas o mais rápido possível. Adiar essa decisão pode resultar num processo de default mais desordenado.

 

Junho de 2011

A zona euro encaminha-se para uma ruptura, com a saída dos membros mais fracos, incluindo Portugal, com a actual abordagem à crise.

 

Setembro de 2011

Portugal e Grécia são os países da zona euro com maior probabilidade de abandonar a moeda única, podendo fazê-lo num horizonte de três a cinco anos.

 

Setembro de 2011

A zona euro é uma fonte de risco sistémico. Se existir uma situação de desordem na zona euro, será pior que o Lehman Brothers.

 

Março de 2012

A Grécia sairá da zona euro, talvez no início de 2013. Portugal também pode abandonar a moeda única.

 

Julho de 2012

Hipóteses de Portugal e Grécia saírem do euro é de 85%

 

Julho de 2012

Zona euro vai desmoronar-se dentro de seis meses

 

Setembro de 2013

Se o Tribunal Constitucional chumbar mais medidas no corte da despesa em Portugal, um segundo resgate pode ser inevitável.

 

Novembro de 2013

A dívida de Portugal precisará de uma reestruturação. A situação de Espanha é insustentável.

 

Gravura: "quadradinho" do álbum Le Devin, de Astérix (Uderzo/Goscinny)

O preço do rancho

jpt, 11.03.23

De súbito sabe-se que neste Março de 2023 o organismo estatal de fiscalização do comércio se decidiu debruçar sobre modos e preços (galopantes) da venda de vitualhas. E decerto tal inflexão terá sido acobertada - ou mesmo mandada - pelo governo maioritário. Porventura este algo induzido pelo notório prurido da plebe, esta atrapalhada pelo pronunciado aumento do custo do rancho.... Do qual o governo (e sua secção ASAE) terá tido agora conhecimento, e logo entrou em acção...

Como alguns saberão eu estou disponível para tarefas laborais ("arranja-me um emprego ... / Com certeza eu dava conta do recado / E pra ti era um sossego" - contacto por mensagem privada, por favor). E para comprovar que terei perspicácia suficiente para as exercer, até mesmo sob a figura do "out-sourcing" para a própria ASAE, recordo que em Janeiro de 2022 aqui notei que nos estavam a meter a mão... no rancho, ao detectar um inesperado e abrupto aumento de 25% no pão mais básico do Lidl - e isto antes da guerra álibi que decorre na Ucrânia. E adianto que nada me move contra essa empresa, que tanto tenho louvado in-blog, não só pela decente qualidade como pelo afável preço do seu "Queen Margot". E até amiúde saliento a "responsabilidade social" do Lidl, que sob esta espiral inflacionista susteve o preço do referido elixir (dos tão celebrados 7, 89 euros de inícios de 22 para os actuais 8,15), um grande contributo para a paz social.

Adianto ainda que para além das minhas capacidades próprias tenho também uma ampla rede de contactos, algo precioso no mundo laboral, como é consabido, os quais exemplifico com os dizeres de uma amiga, residente em Maputo e que há meses aqui veio de férias nisso clamando "um conto e duzentos" (a tradução em escudos é tique de imigrante, pois bem ilustrativo do disparate que é o custo de vida nesta nossa "santa terrinha") "por quilo de feijão-verde, esta gente está louca?"... Ou seja, e consoante a vontade do freguês (o contratante), eu estou habilitado a auscultar o sentir do povo e o pulsar do real.

Mas não só me anuncio pois também quero salientar que esta investida dos próceres políticos e dos inúmeros quadros da administração pública sobre os preços do minguante rancho popular sendo feita agora muito me surpreende, deixando-me entre um ufano "eu bem (vos) dizia..." e um ríspido castrense "sacaninhas, estavam a dormir na forma" - reconfortante soneca aconchegada sob a escalfeta da eterna segurança laboral típica do funcionalismo público e das mezinhas obtidas na neoliberal medicina privada através da tão legítima ADSE.

Sei que sobre esta questão dos (muito) acrescentados lucros dos comerciantes de víveres vários virão clamar que é o puro efeito da virtuosa lei da oferta e da procura, e recitarão os apropriados salmos em sua defesa. Pois, tal como os crentes do avatar de Jeová juram da total pertinência dos seus CEOs Ornelas, Linda e Clemente lá no negócio do pastoreio de almas tresmalháveis, estes adoradores da Mão Invisível também pugnam pela infalibilidade dos seus administradores, executivos e não-executivos. 

Mas o mais relevante são os argumentos de muitos críticos desta situação. Invocam a falta de "ética" dos grandes comerciantes, dada a punção que estes vêm fazendo na dieta da mão-de-obra, pensionistas e discentes de professores grevistas. São uma delícia esses apelos à tal "ética" - um pouco desajustados dado que os dedos da tal Mão Invisível já vieram dizer que a culpa dos aumentos é dos produtores. O que não corresponderá bem à verdade mas demonstra bem que a conversa da "ética" é tralha sem sentido - "amigos, amigos, negócios à parte" é um um clandestino dizer popular, conhecido só por alguns etnógrafos iniciados...

Em suma: o que tem mesmo piada são estes críticos da desbragada inflação dos comes e bebes, tanto os pedagogos da "ética" como também outros mais viscerais, os do culto da "revolução". Que depois, paga a conta do supermercado, escorropichado o uísque no restaurante, clamada a indignação contra os "especuladores", lá se recolhem, os mais intelectuais nos livros e actividades da "Fundação", os outros folheando avidamente o boletim da SONAE. E coisas similares. Como se não fosse a coisa...

Não fará mal, ninguém liga. Amanhã, segunda-feira, os preços aumentarão mais um pouco. Durante a semana as atenções serão captadas por outras trapalhadas - "já viram que o Medina despediu os tipos da TAP sem acautelar os procedimentos jurídicos? E é isto um ministro das Finanças....!". Por mim, entricheirado no Lidl, mais lata de conserva menos lata de conserva, desde que não aumentem o Queen Margot... calo-me.

Coldplay e a Economia do Rock

jpt, 25.08.22

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Não é preciso afixar um retrato para comprovar a conclusão a que hoje cheguei: abandonei o estado de (mais-)velho e atingi o estatuto, frágil, de ancião.
 
Notei isso face à azáfama nacional na aquisição de bilhetes para os concertos do grupo Coldplay, que actuarão em Maio próximo em Coimbra - em espectáculos com algum apoio autárquico (ainda não especificado) -, numa hora esgotaram-se três lotações do estádio municipal  e outra se esgotou em breve, tamanho o afã de centenas de milhares de admiradores. O bilhete mais barato custa 90 euros, depois 150 e daí para cima. Demonstração de que há dinheiro na sociedade civil, algo óptimo, pois saudável.
 
Mas lembro-me, ancião ainda não totalmente desmemoriado, de uma coisa. Quando era miúdo tinha o hábito de coleccionar os bilhetes dos concertos, e de os afixar no quarto. Assim os seus detalhes acompanharam-me anos e recordo alguns: os bilhetes de rock em estádio custavam 420 escudos (Police, para exemplo de grandes "estrelas", e em organização de apenas um concerto, no topo do estádio, assim com menos audiência). Quantia que era, grosso modo, o equivalente ao preço de um LP e de um single. Já os concertos de pavilhão (principalmente no Dramático de Cascais, no Restelo ou em Alvalade, rondavam os 300 escudos - o tal LP).- Quando uma década depois (já na CEE) os Rolling Stones deram um (apenas um) espectáculo em Lisboa, na sua ansiada primeira actuação no país, o bilhete custou 5500 escudos. Era dinheiro que se visse. Mas, de facto, correspondia a um jantar bem regado num restaurante mediano no "Bairro" (esse que fomos nós que inventámos, não os d'agora).
 
E agora a lotação de 4 estádios com bilhetes de 90 euros para cima, esgotados numa manhã? A economia do rock mudou muito. E eu, ancião, congratulo-me. Finalmente o meu país está na "Europa", os patrícios abonados. Enfim, vou ali ao parque jogar dominó....

Após a batalha todos somos generais

Pedro Correia, 29.04.22

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Nunca os economistas estiveram tanto em voga: quanto maior é a crise, mais rivalizam com os futebolistas enquanto campeões da permanência nos ecrãs televisivos. A esmagadora maioria limita-se a dizer-nos o que todos já sabemos, embora o diga com indisfarçável convicção: que as coisas estão más, que a situação é difícil, que a recuperação será penosa, que os problemas sociais poderão multiplicar-se, que a criação de emprego é um objectivo prioritário mas de concretização problemática. Patati, patatá.

Ouço este corrupio de crânios em desfile na pantalha, noite após noite, e questiono-me por que motivo não terão eles surgido com a sua palavra avisada e esclarecida quando o rumo dos acontecimentos era ainda incerto e a prosperidade parecia prolongar-se em rota ascendente ao contrário do que sucedeu depois.

Há um velho aforismo que me vem à memória em momentos destes: depois da batalha, todos somos generais.

E lembro-me de outro: Deus criou os economistas para que os meteorologistas tivessem credibilidade.

Estamos bem entregues com tantos génios a velar por nós.

Anedotário nacional

João Sousa, 01.08.21

Há anos, pessoa amiga contou-me uma anedota que foi bastante popular na altura das bancarrotas pós-PREC:

Certa manhã, uma funcionária de limpeza do Banco de Portugal perdeu a sua aliança de casamento numa caixa-forte. No dia seguinte, os jornais anunciaram em delírio: "Reserva de ouro nacional duplicou".

Ver o ministro Siza Vieira falar de "máximo histórico de crescimento do PIB" fez-me recordar aquela anedota. Ou talvez fosse mais exacto eu dizer: aquela outra anedota.

Os ricos que paguem a crise!

jpt, 04.03.21

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Leio que a professora Peralta - que, ao que diz a "Sábado", segue agora grã-"influencer" -, propõe com ênfase na última edição "Visão" um aumento de impostos e a recuperação do imposto sucessório. Diz a muito louvada (e, pelos vistos, disputada pelas revistas "sérias") académica:  "Tem de se arranjar maneira de pôr os ricos a pagar a crise."
 
Sobre esta abordagem socioeconómica - que tem "pedigree" social-democrata, como demonstro na referência bibliográfica que acima deixo, e que segue viçosa, como bem sentimos, nós pobres, remediados ou classe média bem-posta -, disse o economista polaco Korzeniowski: "recordo ainda a mocidade que eu tinha e que nunca mais voltei a sentir... de poder viver sempre, sobreviver ao mar, ao céu e aos homens; a sensação enganosa que nos arrasta às alegrias, aos perigos, ao amor, ao esforço inútil... à morte; a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo... e apagar cedo, muito cedo... antes da própria vida".

Deseconomias

José Meireles Graça, 17.04.20

Susana Peralta, uma conhecida deseconomista*, escandaliza-se aqui com a intenção de algumas empresas cotadas, incluindo EDP e Galp, manterem a intenção de pagar os dividendos relativos a 2019.

As razões dela?

“Quando trabalhadores e pequenos empresários perdem tanto (muitos quase tudo!), pagar dividendos é um rastilho para a raiva política”.

Não me custa a crer, faz todo o sentido. E como essa raiva só pode ter tradução política na adesão a partidos anticapitalistas, igualitaristas e economicamente analfabetos, isto é o mesmo que dizer que os senhores accionistas (e sobretudo os gestores mancomunados com o que chamam de accionistas de referência, que são quem decide estas coisas) estão a dar ao PCP e ao Bloco a corda com que se podem enforcar.

Porém: os accionistas que compraram as acções com as suas poupanças (isto é, excluindo as que foram adquiridas dentro de pacotes de prémios de gestão) deixaram de investir em aplicações alternativas que geram rendimento, por exemplo imóveis. E portanto a discriminação que legalmente se pretende impor passa para o mercado a seguinte mensagem: o investimento em acções acrescenta ao risco da desvalorização e do abuso dos gestores o risco administrativo, porque crises a reclamar a intervenção do Estado nunca faltaram nem vão faltar. Não está mal visto – para quem achar que o mercado bolsista é apenas um casino.

“É também provavelmente uma decisão estúpida para a própria saúde financeira das empresas, que podem estar a gastar agora em dividendos recursos que lhes farão falta daqui a uns meses”.

Talvez. Mas quem avalia o risco para a saúde financeira das empresas são precisamente os gestores e os accionistas. Não faltam exemplos de uns e outros que avaliaram mal, mas por que carga de água uma teórica, ou um grupo deles, sentados nas suas cátedras, ou um secretário de Estado qualquer, terá mais lucidez do que quem arrisca o que lhe pertence, a autora não explica. Nem pode porque a verdadeira explicação é esta: quem sabe faz e quem não sabe ensina.

“… A primeira é que o Governo iniba as empresas que recebam apoios no contexto desta crise de distribuir lucros e pagar prémios de desempenho”.

Ahahah, aqui é que a coisa fica cómica: porque não apenas concordo como eliminaria a expressão “no contexto desta crise”. Todas as empresas que recebam apoios do Estado, seja sob que forma for, seja qual for o pretexto, seja quando for, devem, enquanto o apoio não se extinguir, não apenas estar proibidas de distribuir lucros ou prémios como inibidas de pagar salários dos gestores acima de um certo limite. E nem é preciso inventar legislação: basta copiar, com uns pequenos retoques, e ainda com a vantagem suplementar de o texto já estar em bom português, ao contrário do que sucede com boa parte da actual.

Claro está que neste ponto não faltará quem diga: e então os subsídios da EU para formação profissional ou investimento, quem os quererá com estas limitações? Que isso não dê cuidado a quem tenha essas preocupações ꟷ haverá sempre mais gente a querer dinheiro dado do que dinheiro para dar.

“Mas isso quer dizer que há rendas, que é como quem diz: a remuneração do capital e dos conselhos de administração [da EDP e da Galp] é superior àquela que lhes cabe como retorno justo da sua produtividade. Portanto, é evidente que há espaço para aumentar os impostos sobre os lucros destas grandes empresas e sobre as remunerações dos seus acionistas e quadros dirigentes, sem que isso tenha um custo económico. Quero dizer: impostos que recaem sobre rendimentos que são rendas desincentivam as ditas rendas, mas não desincentivam a atividade económica”.

Fantástico raciocínio: A EDP e a GALP são rentistas, isto é, abusam da sua posição dominante para prejudicar os consumidores. E portanto a solução não é fomentar a concorrência, será torpedear a igualdade dos cidadãos perante a lei, criando regimes especiais de impostos para gestores e accionistas daquelas duas empresas. Do efeito que isto teria na valorização das acções, e em futuros reforços de capital e capacidade de investimento, para não falar dos mil e um subterfúgios que os gestores inventariam para se porem ao abrigo do esbulho, Susana não cuida.

“Deve ser difícil de acreditar, mas os Conselhos de Administração dos bancos praticamente não diminuíram os dividendos nos primeiros 15 meses da pior crise desde a Grande Depressão’. Afinal, a pior crise afinal ainda estava para vir e estamos agora mergulhados nela. Parece que os reguladores dos bancos puseram a incredulidade de parte e proibiram estes comportamentos irresponsáveis. E para as empresas não financeiras? Vamos ter de esperar até à próxima crise?”

O divórcio entre a propriedade e a gestão dos bancos era um evidente conflito de interesses sob a aparência de um fim comum. Mas a ideia de que os bancos são empresas iguais às outras, e que portanto o que vale para eles deveria valer para elas, é uma ideia pueril: não apenas quanto às empresas não há riscos sistémicos do mesmo grau como, na realidade, os bancos a trabalhar em Portugal são hoje balcões do BCE sob a supervisão burocrática e acéfala de  uma agência do mesmo Banco, que por tradição conserva a designação de Banco de Portugal. A brilhante gestão do país já conseguiu destruir o sector bancário nacional, cujos accionistas perderam quase tudo, mesmo que muitos gestores não tenham perdido o suficiente ou nada. Seria da mais elementar prudência não misturar alhos com bugalhos.

Bem sei que a autora, como qualquer dos seus colegas, estará convencida que não teria problemas de maior em gerir um banco, ou a EDP, ou um minimercado. Quanto a bancos, estou certo que sim; quanto à EDP também, desde que os seus conselhos de agora não fossem seguidos; e quanto ao minimercado idem, com a condição de esquecer o que julga saber.

*Por deseconomista, palavra que incompreensivelmente ainda não se encontra acolhida nos dicionários, entende-se aquele economista que acha que a planificação pode substituir o mercado, que a desigualdade económica não é necessária no processo de criação de riqueza e que o direito de propriedade é apenas uma construção jurídica; o mesmo que economista de esquerda.

O progresso do retrocesso

José Meireles Graça, 13.01.20

Na última campanha eleitoral a Iniciativa Liberal tinha uns cartazes em que mostrava o lento deslizar para os últimos lugares da EU, no que toca ao rendimento per capita, em paridades do poder de compra, do nosso país.

O assunto passou para a opinião publicada e para o debate político, e é dramático. Lembremos os factos:

  1. A Estónia e a Lituânia ultrapassaram Portugal (segundo aquele indicador, que é o que vou utilizar sempre para o que segue), na vigência do governo anterior;
  2. No mesmo período, dentro da EU, cinco países tiveram um desempenho pior que o português: foram eles a Grécia, a França, a Eslováquia, a Suécia e o Reino Unido. Destes, só a Grécia e a Eslováquia têm um problema sério de atraso relativo, e só deles, portanto, é que se pode dizer que defrontam o mesmo problema que Portugal;
  3. Há agora oito países ainda abaixo do nosso lugar na hierarquia dos 28: são eles a Bulgária, a Grécia, a Croácia, a Letónia, a Hungria, a Polónia, a Roménia e a Eslováquia. Mas, destes, apenas a Grécia e a Eslováquia cresceram menos do que nós. Ou seja, tudo o mais igual, o objectivo estratégico do nosso país parece ser atingir o 26º lugar, ou facilitar a admissão na EU da Albânia, do Montenegro e da Sérvia, para que nos afastemos da embaraçosa cauda.

É esta a medida do apregoado sucesso do governo PS. E como a IL trouxe estas aborrecidas comparações para o espaço público, havia que engendrar o adequado spin, tarefa em que o PS se especializou desde os gloriosos tempos de Sócrates.

Coube a Centeno, há dias no Parlamento, dar o mote, e foi ele que afirmou, com a suficiência aparvalhada que é a sua marca d’água, que todos os países que cresceram mais do que Portugal têm dívidas públicas substancialmente inferiores. O peso do serviço da dívida compromete o crescimento, por inibir o investimento público.

Quem se der ao trabalho de pesquisar vai descobrir que há várias listas do ranking do endividamento e nesta, por exemplo,  a Itália é apresentada como tendo um endividamento maior, mas nem por isso cresceu menos do que Portugal. Depois, o problema é complexo porque o endividamento líquido é diferente do bruto, e não é indiferente que os financiadores sejam nacionais ou estrangeiros.

Sendo embora ocioso negar que a dívida condiciona o crescimento, a menos que resulte de investimentos reprodutivos, é fantástico que seja um ministro do PS a vir negar o mantra das virtudes dela: não vai longe o tempo em que o partido, o seu actual líder, e legiões de economistas albardados de cátedras, defendiam as virtudes do défice e o seu efeito multiplicador. De resto, um magistrado da opinião como Pacheco Pereira, decerto bebendo nos alquimistas universitários que ainda não se reconverteram (coisa que o próprio fará dentro de algum tempo, por mudar de opinião a cada 15 anos, sempre papagueando os últimos autores que julga de referência), continua a debitar com superioridade as mesmas lérias que lhe granjearam um nome e audiências.

Dizer que o país não pode crescer mais porque está peado é uma confissão de impotência, talvez natural num académico convertido em funcionário partidário e às tranquibérnias do PS, que toma como política. Mas não é política, é politiquice, por muito que resulte no sucesso do partido que o acolhe e na garantia de uma carreira de tachos e prebendas futuras.

Se os juros da dívida comprometem a despesa pública, só impõem impostos altos porque não há qualquer esforço para a diminuir. Ora, o que distingue os países recordistas no crescimento não é apenas terem um endividamento menor – a fiscalidade é também mais leve. E o argumento de que a nossa carga fiscal não é das piores tem um grave defeito lógico, que consiste em nós, fazendo o mesmo que aqueles que queremos alcançar, nunca podermos encurtar a distância.

Talvez por isto, há dias tropecei num argumento novo, que será o de a diferença de crescimento vir do facto de os países com melhor desempenho terem uma população com níveis superiores de educação. Não é porém difícil perceber que a educação, só por si, nunca garantiu crescimento em lado algum: os países que já e os que nos vão ultrapassar tinham níveis de educação superiores quando, por serem comunistas, não progrediam; e a própria mãezinha destes regimes, a Rússia, que igualmente apostava na educação, não é propriamente um exemplo de milagre económico. Aliás, Portugal hoje exporta médicos, enfermeiros, arquitectos e outros depositários de um saber no qual o país investiu. Conviria perceber por que razão vão enriquecer quem na formação deles não despendeu pevas.

Neste ponto, seria altura de declarar o meu apoio a este texto do deputado da Iniciativa, porque pareço navegar nas mesmas águas. Mas não navego: mesmo acreditando (e acredito) que a redução de impostos é um excelente catalisador do crescimento, há pelo mais duas condições (entre muitas outras) que têm de estar presentes, e são elas a previsibilidade e a saúde das contas públicas. Ora, um horizonte de quatro anos é curto para aliciar investidores, é preciso que acreditem que o país não é, como na realidade é, um lugar onde é pacífico que a melhor maneira de criar riqueza é distribuí-la; e o nosso endividamento pode facilmente derrapar, à boleia de uma qualquer convulsão europeia que mude as agulhas do BCE, ou um atentado que cause danos à indústria do turismo que o Governo diz que promoveu, mas foi promovida pelas low-cost e os atentados islâmicos noutras paragens.

Donde, a prioridade deveria ser a redução do endividamento através do  alargamento de superavits, e portanto pela redução da despesa pública, isto é, pela eliminação de serviços públicos inúteis ou redundantes e despedimento de funcionários.

Reduzir impostos sem reduzir a despesa é uma aposta arriscada e eu não sou adepto de jogos de fortuna e azar, a menos que a feijões.

Ai e tal, se não for assim não será de maneira alguma porque toda a gente quer mais, não menos, despesa pública, e já, mesmo que um crescimento robusto viesse a permitir no futuro um aumento nominal da despesa.

Será. Há que concluir então que talvez não haja outro remédio senão um crescimento poucochinho.

Mas não foi isso que elegemos, um governo poucochinho?

O brigadeiro

José Meireles Graça, 17.12.19

Há uns anos falava-se muito do princípio do utilizador pagador. Fui pesquisar o assunto, a ver se apurava por que razão o conceito desapareceu tão completamente da opinião, e do combate político, que não devem faltar jotinhas partidários que nem saibam o que é. O meu palpite era que sumiu porque cumpriu o seu propósito: fazer pagar por bens públicos que anteriormente eram grátis (grátis para o usuário, claro, que alguém tem sempre de pagar) e por essa via aumentar a receita pública, sob a desculpa de que é injusto que quem não usa ou consome pague para quem o faz.

Daqui deduziria que a mesmíssima manobra se faz agora com a política do ambiente, e citaria o caso dos combustíveis: os impostos foram aumentados temporariamente porque a matéria-prima estava demasiado barata, diminuindo a receita do Estado por o imposto ter um valor fixo, sob promessa de serem reduzidos quando o preço subisse. O preço subiu mas os impostos não baixaram. E quem lembra, ainda hoje, ao falso bonacheirão que nos serve de PM a flagrante quebra da promessa imediatamente leva com o labéu de inimigo do ambiente: credo, o senhor deputado quer incentivar o uso do automóvel em vez da trotinete! (a hipótese de regressar ao transporte animal, dando aproveitamento à pletora de azémolas que enxundiam o governo, nunca é contemplada).

Mas tropecei neste texto, de 2004, do então ominoso Sérgio Vasques (ominoso porque viria a ser Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do governo da bancarrota) e estaquei. Diz o preclaro, a par de outras coisas interessantes:

Em tudo isto é importante compreender que o utilizador-pagador não constitui de todo a expressão fiscal do liberalismo. O Estado liberal, esse que se contenta com as funções tradicionais de soberania, pode financiar-se com dois ou três grandes impostos pagos pelo todo da comunidade. É quando o Estado alarga as suas funções e passa a oferecer aos cidadãos escolas, hospitais, museus e aeroportos que se torna necessário encontrar novas fontes de receita e exigir que o utilizador pague pelo que recebe.

Isto à época, Deus nos acuda, passava por um discurso tingido de, horror, inclinações de direita – o autor achava necessário explicar que quem consome deve pagar, mas por razões de justiça, nada a ver com liberalismo. E ia deixando entrever o que lhe ia na alma: O Estado “passa a oferecer” coisas que antes não oferecia, razão pela qual, por essas coisas, se deve pagar. Por que razão aquilo que o Estado “oferece” não pode ser “oferecido” por privados, a quem o Estado pague o mesmo ou menos do que o que lhe custa, se o bem for considerado de interesse público, o autor não esclarecia então nem, presumo, esclareceria agora se perguntado.

O princípio do utilizador-pagador é especialmente importante num país habituado a pensar que pode ter a civilização sem lhe pagar o preço. Num país onde o grosso da população esconde rendimentos, simula o valor dos imóveis e não emite facturas, o utilizador-pagador tem o mérito de nos lembrar o dever fundamental de contribuir para os gastos públicos.

O país de hoje não acha que pode ter a civilização nem pagando nem deixando de pagar o preço: os que ainda são jovens e têm formação, coragem e oportunidade, vão procurar a civilização para outro lado; a maioria dos que ficam dizem melancolicamente o que realmente pensam sobre os amanhãs que lhes prometem não se dando sequer ao trabalho de votar, por acharem que votando nuns ou noutros é sempre a mesma desconsolada mesmice; simular o valor dos imóveis não adianta, o Fisco corrige e cobra; não emitir facturas está ainda ao alcance do picheleiro (creio que a esta nobre profissão se chama no sul canalizador), electricista ou outro jeitoso que faz uns trabalhos caseiros necessários, mas está fora de hipótese para quase todos os outros menial jobs; até mesmo os ciganos, e outros industriosos cidadãos que vão mantendo as feiras, têm um medo que se pelam da ASAE, que se apresenta acompanhada às vezes com uns GNRs fortemente armados, por causa da venda de t-shirts falsificadas; e as empresas não podem emitir guias de remessa sem conhecimento do Fisco, os programas de contabilidade são certificados pela AT, e qualquer inspector tributário pode, face a discrepâncias de inventário, presumir vendas sem factura, sem precisar de apresentar o mais remoto resquício de prova – a inversão do ónus de prova transformou a Autoridade Tributária num abcesso no Estado de Direito que ninguém ousa lancetar, os inspectores em familiares do Santo Ofício e os sucessores de Vasques em inquisidores-mores.

Sérgio Vasques pode portanto dormir descansado: os vícios que existiam em 2004 e que nos impediam de chegar à civilização foram todos eliminados, e com requinte: não há serviço do Estado que não faça questão de se pagar pelo mais insignificante papel – uma simples declaração, emitida pela Caixa Geral de Aposentações, sobre o montante de um subsídio mensal vitalício por deficiência, exigida pela ADSE, não vá ter havido uma cura milagrosa, custa 5,40€, a deduzir na pensão de aposentação. Montante aliás modestíssimo, face à parafernália de taxas e taxinhas que os serviços alegremente inventam e cobram, por sua vez ridículas por comparação com as multas terroristas que o legislador vem estatuindo para as mais diversas infracções a leis e regulamentos intrusivos de um Estado voraz e omnipresente.

Civilização, na cabeça desta personagem e boa parte da intelligentzia, consiste em pagar ao Estado pelo menos tanto como se paga nos países mais “avançados”, confiantes em que, preenchida essa condição básica, os serviços terão os níveis dos melhores e o país rapidamente alcançará o pelotão da frente. (outra expressão que, felizmente, passou de moda).

Não sucedeu, nem vai suceder, nada disto: o SNS (jóia da coroa do regime) entope as notícias com os relatos dos seus crescentes atrasos e falhanços, que agora começam a aparecer nas estatísticas (mais alta taxa de mortalidade materna dos últimos 40 anos em 2018, por exemplo); e na vigência do governo anterior, período sobre o qual se diz que Portugal cresceu mais do que a média da EU, o que o PIB per capita (medido em paridades de poder de compra) mostra é o seguinte:

  1. Perda de três lugares na hierarquia dos países da EU – a Eslováquia, a Estónia e a Lituânia disseram-nos adeus;
  2. Aquele PIB dos 28 cresceu, de 2015 a 2018, 1.800€, e em Portugal 1.100€;
  3. Estamos orgulhosamente à frente da Bulgária, Grécia, Croácia, Letónia, Hungria, Polónia e Roménia. Mas não por muito tempo: com excepção da Grécia, todos estes países se aproximaram – a Letónia e a Roménia vertiginosamente.

Não é impossível que venha o tempo em que o governo PS da ocasião fale com jactância da Albânia e da Bósnia-Herzegovina. Se, é claro, não vierem entretanto a fazer parte da União Europeia, caso em que pelo menos a Albânia, que tem belas praias, e que pode bem livrar-se dos socialistas que por lá poluem a paisagem política, tem condições para nos empurrar um pouco mais para trás no pelotão de trás.

O país precisa de se libertar da ganga socialista que o sufoca. Mas, se o não fizer, não desesperemos: Um brigadeiro que Eça inventou disse algures que “Portugal é pequeno, mas é um torrãozinho de açúcar".

Esse brigadeiro, se fosse hoje vivo, votava PS.

Pinhas e pinhões

Maria Dulce Fernandes, 01.12.19

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“Olha a pinha!”, gritava ele com o proverbial duplo sentido antes do bombardeamento.  

Eu nem olhava, apenas me encolhia e procurava refúgio fora do raio de acção, enquanto ele lançava lá do alto da copa verdejante uma pinha atrás da outra, que caiam pesadamente na terra molhada. Era necessária toda a atenção, porque a seguir às pinhas saiam disparadas as laranjas podres que recolhera na estrumeira antes da subida. Não doíam tanto, mas sujavam o triplo e cheiravam ainda mais, por isso convinha não facilitar. Ele era assim. Porque era rapaz. E os rapazes podiam fazer todos os disparates exactamente porque sim. Havia sempre aquele sorriso condescendente que acompanhava a “valente rabecada”, que bem vistas as coisas era apenas para inglês ver ou ouvir. 

A verdade é que havia pinhas suficientes para lhes catar o fruto. Braseiro com elas uns minutos, duas pedras e aquele som leve, como que de casca de noz a quebrar por entre dedos pétreos. Depois era passar agulha e linha e fazer nascer colares de pérolas oblongas de requintado e doce sabor a seiva. 

Em bolos, saladas, molhos e doces, não havia para mim – e ainda não há - nada que se comparasse ao ouro branco. “O melhor do Mundo”, dizia o meu pai com toda a justiça. Apenas com o conhecimento relativamente recente do pinhão chinês e do pinhão paquistanês, entendo sem sombra de dúvida a dimensão  e a excelência da qualidade nacional. 

Possuo um quilo inteirinho! Não sei se me trará reconhecimento nas redes, mas acredito ser um excelente indicador de estatuto social. 

“112, qual é a sua emergência?” Bom dia! Preciso de uma escolta para movimentar um quilo de pinhões.” “PSP ou forças especiais?” "Os GOE estão disponíveis? Óptimo! Obrigada.” 

Distópico? Talvez, mas de exagerado tem muito pouco. 

Um Zandinga com Nobel

Pedro Correia, 27.07.19

 

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Paul Krugman sempre foi péssimo nas previsões, talvez por transformar cada texto jornalístico sobre economia em peças mais apropriadas a comícios políticos, confundindo opiniões com factos. 

Mal Donald Trump foi eleito, Krugman previu nada menos que isto: «Uma recessão global, sem fim à vista.» Num artigo que publicou em Novembro de 2016 no New York Times, o Nobel da Economia interrogava-se quando iriam os mercados recuperar, fornecendo de imediato a resposta: «Nunca.»

Previsão tão certeira como a que fizera meses antes, em entrevista à SIC, quando disse acreditar que Hillary Clinton sucederia a Barack Obama na Casa Branca.

No fundo, nada que destoasse do que anunciara em Maio de 2012, ao proclamar em primeiríssima mão que a Grécia «sairia da eurozona nos próximos doze meses»

Os factos, para azar de Krugman, persistem em ser teimosos. Ao contrário do que apregoava este profeta da desgraça, a economia americana tem registado um crescimento sem precedentes. Em Fevereiro, atingiu o centésimo mês de expansão contínua, reflectida na criação de postos de trabalho e na redução do desemprego para níveis que não se registavam há perto de meio século.

Mas o que seria de esperar de alguém que em 1998 anunciou «o fim da Internet» para daí a sete anos, equiparando-a à máquina de faxe? Apenas aquilo que é: um Zandinga com Nobel. Ora se não damos crédito ao júri de Estocolmo que na literatura já premiou gente tão obscura como Harry Martinson, Carl Spitteler, Shmuel Agnon e José Echagaray, porque haveremos de reconhecer mais lucidez intelectual aos que ali laurearam Krugman em 2008?

Retrato de sobrevivência

Diogo Noivo, 23.04.19

Pedro Braz Teixeira publica hoje um importante artigo no ECO onde pede maior clareza e detalhe ao INE na informação sobre distribuição de salários e rendimentos.

Sem prejuízo da importância do tema, o que mais impressiona - e indigna – no texto é o quadro que segmenta o vencimento líquido de trabalhadores por conta de outrem.

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Mesmo tendo em conta possíveis insuficiências nos dados, é perturbante constatar que quase 65% da população portuguesa aufere menos de 900€ mensais. E que praticamente 80% recebe mensalmente um valor inferior a 1.200€.

Considerando os custos com habitação nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto (onde reside boa parte da população), o preço da energia (combustíveis e eletricidade à cabeça) e as debilidades dos serviços públicos (da saúde à segurança de pessoas e bens), o quadro retrata um povo que sobrevive. O tão apregoado fim da austeridade não passa de uma enorme fraude.

MIT Portugal e as parcerias internacionais de que poucos falam, mas tanto dão ao país

Alexandre Guerra, 06.03.18

Quando li há dias que arrancou a segunda fase do Programa MIT Portugal, prevendo-se mais dez anos de parceria entre universidades, investigadores nacionais e aquele prestigiado instituto, fiquei francamente contente, porque tive o privilégio de ter contribuído para o arranque desse projecto. O MIT Portugal, lançado em 2006, é considerado um caso de sucesso, sobretudo por duas razões: permitiu às universidades e investigadores nacionais terem acesso ao conhecimento e práticas geradas no MIT; trouxe para o nosso país uma cultura de relacionamento íntimo entre a academia/investigação e o desenvolvimento empresarial. Não é de estranhar que na altura do seu lançamento, o MIT Portugal tenha sido alvo de algumas críticas provenientes de uma certa academia mais conservadora, instalada nos seus feudos, onde o mais importante era manter um determinado status quo de interesses, pouco dada a privilegiar a produção de mais-valias de conhecimento ao serviço de soluções tecnológicas empresariais. O MIT Portugal foi a maior das quatro grandes parcerias internacionais que Portugal celebrou há doze anos (Austin Texas, Carnegie Mellon e Fraunhofer, foram as outras três que agora também foram renovadas), tendo os responsáveis daquela instituição de Massachusetts reconhecido com particular interesse as especificidades deste Programa face a outros do género em diferentes partes do mundo.

 

Acompanhei o processo praticamente desde o início, enquanto consultor de comunicação do MIT Portugal, já que a agência onde trabalhava tinha precisamente acabado de ganhar essa “conta”. Foi uma experiência enriquecedora, onde foi possível perceber as diferenças abissais entre os modelos das duas academias, sobretudo o pragmatismo, a simplicidade e a simpatia na forma de trabalhar dos responsáveis e investigadores do MIT. A mim, enquanto responsável pela comunicação do Programa, cabia-me “puxar” pelo MIT Portugal, comunicá-lo nas suas diferentes vertentes, contando histórias de projectos, promovendo entrevistas e conversas com investigadores do MIT, organizando conferências, entre tanta outra coisa. Tudo isto, naturalmente, sempre em contacto permanente com os meus homólogos no MIT, em Boston, além do acompanhamento próximo da tutela, nomeadamente do saudoso ministro Mariano Gago, um homem do conhecimento e que importante legado deixou com estas parcerias. Anos depois, quando a vida profissional me levou por outros caminhos e deixei de trabalhar com o MIT Portugal, senti que o Programa tinha ganho fôlego e estava no bom caminho, embora pairassem muitas dúvidas quanto à sua continuidade por causa de questões de financiamento. De vez em quando ia acompanhando o “estado da arte” daquele Programa e ficava com a sensação de que alguns agentes da sociedade portuguesa, empresas e media nunca reconheceram a verdadeira importância destas parcerias internacionais. Infelizmente, e atendendo à falta de massa crítica nesses círculos, continua-se a assistir à primazia de acontecimentos mediatos e mediáticos, de fácil consumo e muito “trendy”, mesmo que poucos ou nulos resultados produzam para o conhecimento e tecido económico nacional.

 

No que me toca, gosto de enaltecer o bom trabalho que é feito em prol do conhecimento sólido e do desenvolvimento empresarial sustentável, com base na verdadeira inovação e não em clichés. Doze anos após a criação do MIT Portugal e das outras parcerias internacionais, e depois de muito trabalho, o retorno para a sociedade portuguesa é inegável, tendo sido formados centenas de mestres e doutores, produzidos papers, feitas descobertas científicas e geradas soluções inovadores, e criadas centenas de startups, algumas delas a valerem mais do que empresas cotadas no PSI20. Provavelmente, uma Web Summit (que tem muitas virtudes) nunca irá gerar este tipo de riqueza para o país, mas veja-se a atenção, os recursos e o foco que tal iniciativa mobiliza. Ou ainda, a forma como os media e agentes políticos não hesitam em abraçar a criação de startups da “moda” que tão rapidamente aparecem como desaparecem, sem terem deixado qualquer mais-valia para Portugal. Agora, se o leitor pensar bem, quantas vezes ouviu falar do MIT Portugal? Quantas reportagens viu sobre as parcerias com Carnegie Melon ou Austin Texas? Quantas empresas nascidas destas parcerias mereceram a atenção da classe política ou das elites? O leitor já ouviu falar na Veniam? Vale 118 milhões. E da Feedzai? Vale 508 milhões de euros. Dá que pensar, mas é precisamente a pensar que estas parcerias internacionais conseguiram gerar estas empresas 

É isto

José António Abreu, 19.10.17

[...]

O que se está a passar na nossa vida enquanto comunidade é assustadoramente preocupante. A grande massa de eleitorado urbano satisfaz-se com um bodo aos pobres, na dimensão suficiente para ir fazendo uns fins-de-semana prolongados e uns jantares fora. Dentro desse grupo merecem um tratamento especial os funcionários públicos, pela sua dimensão, e os pensionistas, com especial relevo para os que ganham mais e têm acesso ao espaço público. A estratégia é tão simples e fria quanto a de uma empresa que define um objectivo de mercado. Tudo o resto, como não faz mexer o ponteiro das vitórias eleitorais, não existe.

Os últimos orçamentos do Estado foram pensados nessa lógica. Se o país fosse uma empresa podia dizer-se que na era da troika fomos geridos pelo administrador financeiro e nestes últimos dois anos pelos responsáveis da área comercial e do marketing. Tudo o que não se vê ou que esteja protegido dos olhares externos pode ficar com menos dinheiro. E assim se faz dinheiro para acabar com os cortes dos salários da função pública rapidamente, ao mesmo tempo que se reduz o défice público.

São escolhas políticas apresentadas como uma opção pelas pessoas, pela coesão social, pelo combate à  pobreza e pela promoção da igualdade. Quem o diz assume-se até como tendo o monopólio destes objectivos, como se todos os outros fossem contra valores que são (ou deviam ser) os alicerces da nossa sociedade.

O problema vem ao de cima quando tentamos ver os actos dessas palavras. É enorme a distância entre aquilo que se diz que se faz e aquilo que realmente é concretizado. A coesão social, o combate à pobreza e a promoção da igualdade limitam-se ao segmento do mercado eleitoral urbano que faz mexer o ponteiro dos votos. Os outros ficam ao abandono, como dolorosamente vimos na morte e na vida de quem esteve dentro dos incêndios do fim-de-semana.

[...]

Um texto dolorosamente certeiro de Helena Garrido, no Observador. Convém lê-lo na íntegra

Diz que vem aí nova bolha imobiliária

Teresa Ribeiro, 14.07.17

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Ouvi esta conversa e não estranhei. Os sinais estão aí: preços das rendas a subir, o que leva, como no passado recente, muita gente a considerar que mais vale comprar casa, e a confiança dos consumidores a aumentar, em resultado de um optimismo que nasce mais da necessidade de acreditar que há futuro do que do efectivo melhoramento das suas condições de vida.

O caldo já está ao lume, por isso o jovem dado à especulação imobiliária, que há dias comentava este assunto, esfrega as mãos de contente. As oportunidades estão aí para quem estiver atento. Venda-se agora ao melhor preço para depois voltar a comprar os despojos dos que, movidos pelo desejo de ter uma vida, se vão estatelar ao comprido, mais cedo do que tarde.

Tic, tac, tic, tac... 2008 não foi assim há tanto tempo, mas o relógio biológico do sistema neo-canibal nunca pára.

Plano B

Pedro Correia, 17.05.17

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Na vida, devemos ter sempre um plano B. Por maioria de razão isso deve acontecer na política.

Surpreendentemente, o PSD assumiu o protagonismo da oposição a partir de Novembro de 2015 sem um plano B. Apostou todas as fichas na certeza antecipada de um péssimo desempenho da economia portuguesa, subestimando a capacidade de António Costa para neutralizar os ímpetos reivindicativos do PCP e do Bloco de Esquerda, que queriam fazer disparar a despesa pública com o reforço do investimento estatal.

Ao contrário do que os sociais-democratas auguraram, sempre sem cenário alternativo, Costa não andou a reboque dos dois partidos menores da actual coligação parlamentar: foram os bloquistas e os comunistas a abdicar das suas teses, no essencial, concedendo uma espécie de livre-trânsito ao Governo. Que até ultrapassou os anteriores na “obsessão com o défice”.

E ainda bem. Como o Instituto Nacional de Estatística acaba de confirmar já com dados de 2017, a economia portuguesa segue em rota ascendente. Com o maior crescimento trimestral desde 2010, cifrado em 2,8% e sustentado em simultâneo no aumento das exportações e na recuperação do investimento. Como mandam as boas práticas.

 

São óptimas notícias para o País. No entanto, dado todo o seu discurso anterior, parecem más notícias para o PSD. Que, sem plano B, perdeu o mote e se mostra incapaz de dar a volta rumo a um novo argumentário.

Talvez isso explique o motivo de o líder social-democrata andar desaparecido por estes dias, que por motivos vários têm sido de júbilo para milhões de portugueses.

 

Mas, mesmo com Passos Coelho ausente, outra figura de relevo do partido laranja poderia ter surgido a comentar os mais recentes indicadores estatísticos do desempenho económico do País. Também não. Nem Maria Luís Albuquerque, nem Luís Montenegro, nem Marco António. Nem Leitão Amaro ou qualquer outro vice-presidente da bancada parlamentar.

Estarão talvez todos reunidos, a congeminar um plano B.

Já vão tarde.

It’s not the economy

Alexandre Guerra, 16.03.17

Na campanha presidencial de 1992 contra Bush pai, o staff de Bill Clinton tinha como uma das mensagens-chave a famosa expressão “the economy, stupid”, forjada pelo estratego James Carville (ex-CNN e actual FOX News). Mais tarde, quando esse conceito transbordou para a esfera pública, a frase foi usada e abusada ao longo dos anos na sua versão mundialmente conhecida: “It’s the economy, stupid”. Ainda hoje aquela expressão é utilizada vezes sem conta por comentadores e opinion makers nas suas colunas de jornais e revistas. A questão é que além daquela frase ser completamente datada, o seu conteúdo (que na verdade nunca terá sido bem interiorizado por muitos que ainda hoje a utilizam), pouco ou nenhum sentido faz nos dias que correm se olharmos com atenção para as realidades políticas e eleitorais de alguns países, nomeadamente os Estados Unidos ou o Reino Unido.

 

Na altura, o ainda governador do Arkansas colocou a economia como tema central da campanha, talvez não tanto pela questão do estado real dessa mesma economia americana (que embora não sendo famosa, não era dramática), mas porque, no fundo, Carville sabia que era necessário encontrar um factor de contraste evidente com o mandato de George H. W. Bush que, pela força das circunstâncias, foi dominado pela política espectacular dos grandes acontecimentos mundiais e das grandes cimeiras. Para quem se recordará desses tempos ou tem algum conhecimento das relações internacionais, dificilmente encontrará um período da História recente tão “político”, interessante e entusiasmante como aquele que Bush pai viveu enquanto Presidente entre 1989 e 1993.

 

Foi aquilo a que os especialistas chamam de período de transição sistémica. Hoje é um assunto arrumado de que o século XX acabou ali. Para trás, ficaram décadas de Guerra Fria, onde a economia jamais tinha suplantado a política enquanto tema de campanha ou de topo de agenda mediática. Em quatro anos, e apesar dos problemas da economia dos EUA, o mundo assistia à morte do comunismo, à queda do Muro de Berlim, à implosão da União Soviética, às reformas na China, à primeira Guerra do Golfo, à intervenção americana no Panamá e na Somália, já para não falar na Guerra da Bósnia. Aliás, já antes, Ronald Reagan tinha ficado para a História como o homem que vencera a Guerra Fria.

 

Poder-se-á dizer que os acontecimentos de política externa pouco ou nada interessavam aos americanos perante as dificuldades que enfrentavam no seu dia-a-dia. Pois, mas a questão é que nem os problemas da economia americana eram assim tão dramáticos, como alguns desses acontecimentos internacionais entraram no quotidiano dos americanos de uma forma bastante intensa. Além disso, é preciso notar que a América já tinha vivido períodos bem mais difíceis em termos de economia em décadas anteriores, bastando referir, por exemplo, o processo de desindustrialização nos anos 70 e 80, nomeadamente no sector automóvel, com o surgimento da concorrência asiática.

 

A verdade é que olhando para os tempos de Guerra Fria não havia grande “espaço” para a prevalência da economia sobre a política na condução dos Estados e muito menos para os comentadores económicos e para as análises económicas híper-amplificadas nos media (os canais também eram diminutos, note-se). A política pura e dura dominava e os tempos que se viviam eram deveras muito interessantes. É certo que a partir do início dos anos 90, com o advento da globalização e com as teorias do Fim da História e outras, a política vai perdendo relevância para dar lugar à economia enquanto móbil da História. Os grandes líderes e estadistas foram desaparecendo e surgiram os tecnocratas ou os dirigentes orientados por critérios quantitativos. Começa-se a criar uma ideia (errada) de que a política acabou e as sociedades ocidentais entram num Fim de História, dominadas pelo capitalismo e democracias liberais.

 

A euforia durou até 11 de Setembro de 2001, que foi uma espécie de “wake up call”, mas foram precisos vários anos e muitos acontecimentos geopolíticos para se perceber que, afinal, o mundo está longe de ser “plano” e que a política impera naquilo que é a história dos Estados e as Relações Internacionais. Aliás, olhando para os fenómenos eleitorais mais recentes, com resultados que muitos consideraram de “protesto”, como foram os casos dos EUA, com a eleição de Trump, e do Reino Unido, com o referendo ao Brexit, constata-se que as motivações da maioria do eleitorado pouco ou nada tiveram a ver com economia, pelo menos numa lógica directa, já que ambos os países apresentam índices bastante satisfatórios nestas matérias, quer em crescimento do PIB, quer em taxa de desemprego.