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As condições para "impeachment"

por Alexandre Guerra, em 22.08.18

Os casos judiciais que envolveram Paul Manafort e Michael Cohen, outrora homens poderosos que fizeram parte do círculo mais próximo do Presidente Donald Trump, servem de “combustível” para manter vivo o “lume” até às eleições intercalares de Novembro. Um “lume” que os opositores de Trump esperam que se transforme nas “chamas do inferno”, com um processo de “impeachment” que, na actual configuração do Congresso (Câmara dos Representantes e Senado), é impossível de passar. É por isso que, provavelmente, nunca em tantos anos nos EUA, as eleições intercalares tiveram uma importância tão directa no destino do Presidente, porque se os republicanos perderem a maioria no Congresso e, consequentemente, a liderança de algumas comissões, poderão estar criadas as condições para o início formal de um processo de “impeachment”. Reconheça-se que, por menos, muito menos, Bill Clinton foi alvo de um processo destes, embora tenha sido absolvido e cumprido o seu segundo mandato até ao final, terminando com os mais altos índices de popularidade que um Presidente teve desde a II GM.  

 

Para um processo destes ter possibilidade de avançar, são sobretudo precisas duas condições: a primeira tem a ver com uma conjuntura política adversa contra Trump e um ambiente muito hostil instalado numa significativa franja da opinião pública; a segunda condição é partidária e prende-se com a composição do Congresso que, maioritariamente, tem que se opor ao Presidente.

 

Se polémicas com actrizes porno ou casos de polícia, como os do antigo director de campanha e o do ex-advogado de Trump, são excelentes para criar bases jurídicas e um sentimento cada vez mais adverso contra o Presidente, empolado diariamente pelos principais órgãos de comunicação social americanos, com a ajuda de muitos artistas e personalidades “activistas”, nada disto servirá se depois não houver correspondência no poder legislativo. Que é isso que acontece actualmente.

 

Não custa a acreditar que, daqui até Novembro, a primeira condição seja reforçada ainda mais, atendendo à habilidade de Trump para se meter em problemas criados por si próprio. A questão que se coloca é saber se os ventos de mudança chegarão ao Congresso. Para a segunda condição ser cumprida, tanto a Câmara dos Representantes como o Senado terão que mudar a sua composição (ou então, teria que haver uma alteração no pensamento de muitos republicanos, o que não parece verosímil). Na Câmara dos Representantes basta uma maioria simples para dar início ao processo de “impeachment”, já ao nível do Senado, a confirmação da queda do Presidente precisa sempre de uma maioria de dois terços. Ora, se em teoria, é possível que os democratas conquistem a maioria na Câmara dos Representantes, já que todos os seus 435 assentos irão a eleições, no Senado, dos seus 100 lugares, apenas 35 estarão em disputa, sendo que a maioria destes são actualmente ocupados por democratas. Mesmo admitindo que os democratas conquistem a maioria no Senado (perfeitamente possível), dificilmente chegariam a uma maioria de dois terços, porque pressuponha que, além de conquistarem lugares novos, teriam que convencer outros republicanos que já lá estão.

 

Do que se vai analisando, a estratégia de oposição a Trump passa por manter o Presidente debaixo de fogo até Novembro, explorando ao máximo todos os seus casos polémicos e, sempre que possível, abrindo novas “frentes de batalha”. Basta ver órgãos como o New Times e a CNN para se perceber que os próximos dois meses e meio vão ser de ataque constante a Trump e é por isso que casos como o de Manafort ou de Cohen são autênticas armas de destruição maciça contra o Presidente. O que a oposição a Trump está a tentar fazer é criar uma espécie de “casus belli”, na esperança de que em Novembro a maioria do Congresso mude de mãos e formalize o “impeachment”. E se isso vier a acontecer, é muito provável que muitos republicanos congressistas e senadores mais moderados se sintam tentados a dar o “empurrão” final a Donald Trump.

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Distracções

por Alexandre Guerra, em 21.06.18

O mundo de hoje é mesmo assim, tão cedo as pessoas e as redes sociais se revoltam e se indignam com uma tragédia, como, rapidamente, a esquecem e as suas atenções se desviam para um outro assunto. O jornalismo histriónico, munido de comentadores e analistas pouco atentos, alimenta estas dinâmicas ilusórias, e os governantes (quase todos) vão navegando na espuma dos dias. Se, algures, uma injustiça é revelada ao mundo, surgem de imediato as vozes de indignação, os movimentos de sensibilização, as frentes comuns de “batalha” (parece que agora se está a formar um frente “anti-fascista, signifique lá o que isso significar). O problema é que este “despertar” súbito da sociedade para os problemas, não deixando de ser louvável, é efémero e, muitas vezes, contraproducente, porque aborda as questões pelo seu pior ângulo: o imediato e, muitas vezes, o demagógico.

 

Os dramas de natureza política e social, ao contrário das catástrofes naturais, normalmente, não surgem de rompante nem de surpresa. Há sinais, indícios, que podem perspectivar determinados acontecimentos. É claro que para os identificar e interpretar é preciso tempo, conhecimento, dedicação profissional e, sobretudo, interesse. Admite-se que esse não seja o papel dos cidadãos comuns, que têm os seus empregos e actividades no quotidiano profissional e social, dando, assim, o seu contributo à comunidade. Para as pessoas, enquanto massa (sociologicamente falando) integrada numa democracia, está reservado o derradeiro papel: o voto. Essa leitura atempada e atenta deveria ser feita pelos “observadores” e actores dos respectivos sistemas políticos, por forma a produzirem-se decisões que pudessem, se não evitar, pelo menos atenuar o impacto de alguns dos dramas que acabam por irromper mais tarde.

 

É extraordinário constatar como, desde há poucos dias, se fazem ouvir as vozes revoltosas de comentadores, analistas, políticos e activistas, como se tivessem “acordado” agora para um tema, tema esse que se tivesse contado com este mesmo empenho há mais de um ano, provavelmente, mais de duas mil crianças não tinham sido separadas dos seus pais migrantes ilegais vindos do México em direcção aos Estados Unidos. Mas poderá o leitor perguntar, como é que isso seria possível, se só há cerca de dois meses se começou a concretizar esta política promovida pelas autoridades americanas. A questão é totalmente pertinente, no entanto, lá está, os tais sinais já existiam há mais de um ano. E nem se pode dizer que eram indícios ténues. Nada disso.

 

A 3 de Março de 2017, ou seja, há mais de um ano, a MSNBC avançava com um exclusivo que dizia: “Trump admin. plans expanded immigrant detention”. O que vinha nessa notícia era absolutamente assustador, porque ia muito para além de meras declarações estapafúrdias do Presidente Trump. Pelo contrário, essa notícia não trazia qualquer declaração do Presidente, demonstrava, isso sim, uma sistematização daquilo que poderia vir a ser o novo modelo de tratamento dos migrantes ilegais com filhos vindos do México.

 

Lia-se: “In a town hall with Department of Homeland Security staffers last month, Asylum Division Chief John Lafferty said DHS had already located 20,000 beds for the indefinite detention of those seeking asylum, according to notes from the meeting obtained by All In. This would represent a nearly 500% increase from current capacity.

The plan is part of a new set of policies for those apprehended at the border that would make good on President Trump’s campaign promise to end the practice critics call ‘catch and release’. 

‘If implemented, this expansion in immigration detention would be the fastest and largest in our country’s history’, says Andrew Free, an immigration lawyer in Nashville who represents clients applying for asylum. ‘And my worry is it’ll be permanent. Once those beds are in place they’ll never go away.’

[…]

Under the plan under consideration, DHS would break from the current policy keeping families together. Instead, it would separate women and children after they’ve been detained – leaving mothers to choose between returning to their country of origin with their children, or being separated from their children while staying in detention to pursue their asylum claim.”

 

Sublinhe-se. Este exclusivo foi avançado a 3 de Março de 2017 pela MSNBC, que ainda há dias voltou a relembrar o tema. Curiosamente, das muitas vozes agora indignadas, que estão “avalizadas” para comentar nos jornais e televisões e para decidir nos gabinetes, não se ouviu ao longo deste mais de um ano qualquer comentário ou acção concreta sobre este assunto. Tinham palco e condições para o fazer. Se não o fizeram não foi, supostamente, por falta de boa vontade, foi, simplesmente, porque, mais uma vez, estavam distraídos. Se tivessem estado um pouco mais atentos, talvez se pudesse ter evitado o choro e sofrimento de mais de duas mil crianças. Infelizmente, este é apenas um de muitos outros tristes exemplos.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 16.06.18

«Ainda é cedo para reconhecer o legado de Trump, mas a economia tem crescido, a importante questão do controlo de armas parece estar realmente na agenda política, e, evidentemente, o mundo ainda cá está. Para grande desgosto de Rachel Maddows.

Qual foi o legado de Obama? Tirando o cool black guy. A Primavera Árabe? O maior número de vítimas civis por ataques de drones? O deixa-andar que quase levou a uma guerra sino-nipónica? A anexação da Crimeia? Um clima de violência racial quase inédito nos EUA? A total submissão a Wall Street? A história o dirá, mas considero-o uma lástima.

Reagan, o actor de segunda, derrubou o muro de Berlim e reunificou a Alemanha. Se Trump conseguir dar o primeiro passo para a reunificação da Coreia será um feito mais digno do Nobel da Paz que deram a Obama. Estas coisas levam tempo, mas é preciso começar. Coisa que o outro não fez. Está agora na Netflix, num reality show. Hum...»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do Alexandre Guerra.

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Todos devem apoiar Trump

por Alexandre Guerra, em 12.06.18

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No sistema internacional, por vezes, as relações pessoais entre líderes contam muito/Foto: Evan Vucci/AP 

 

Por mais que custe a admitir aos opositores e detractores de Donald Trump, e independentemente do parco conteúdo da declaração conjunta da cimeira de Singapura e do inexistente “road map” a ser seguido nos próximos tempos, ao fim de várias décadas de gelo diplomático entre os EUA e a Coreia do Norte, seria sempre preferível ter um encontro amigável de alto nível, mesmo que inócuo, do que não ter nada e manter-se o clima instável e volátil que se vinha sentindo nos últimos meses entre Washington e Pyongyang. A guerra de palavras entre Trump e Jong-un tinha escalado para níveis nunca dantes vistos nas relações internacionais entre dois chefes de Estado, mas o problema maior tinha a ver com o processo nuclear norte-coreano que, apesar de tudo, foi fazendo o seu caminho, com testes atrás de testes e lançamentos atrás de lançamentos. Se a Coreia do Norte continuasse a seguir este caminho, seria muito provável que viesse a conseguir dotar-se de uma capacidade plena e eficaz nuclear, quer ao nível dos seus vectores de lançamento, quer na miniaturização das respectivas ogivas. Até ao momento, daquilo que se foi sabendo, ainda havia muito trabalho a fazer, mas algum dia esse percurso teria que ser travado… diplomática ou militarmente. Sendo a capacidade nuclear um factor de poder enormíssimo na hierarquia dos Estados no sistema internacional, uma coisa é Washington negociar com Pyongyang nesta fase, outra coisa seria um líder americano sentar-se à mesa com o seu homólogo norte-coreano numa altura em que este país já fizesse parte do exclusivo “clube” das potências nucleares. Aqui, as condições de negociação seriam certamente outras.

 

Trump deslocou-se a Singapura numa altura em que a Coreia do Norte ainda está longe de ser reconhecida como uma potência nuclear, com capacidade para militarizar a tecnologia até agora desenvolvida. Ainda não alcançou o estatuto de países como a Índia, o Paquistão ou Israel. Mas para lá caminha(va). Mais, Trump foi até Singapura com a certeza de que a Coreia do Norte está desesperadamente à procura de recursos financeiros (e outros) para colmatar a “falência” daquele país. Tudo na Coreia do Norte é uma ficção, uma ilusão, excepto a crise humanitária que aflige milhares de pessoas em proporções que, na verdade, não são verdadeiramente conhecidas.

 

Além disso (e isto em política internacional é muito importante), nota-se uma ânsia de diálogo e abertura por parte do líder Kim Jong-un. Não quer dizer necessariamente que seja uma vontade de suavizar o regime ou de “abrir” a sociedade, mas, para quem tem acompanhado com alguma atenção o percurso deste jovem líder, constata que há em si um ímpeto para ir além-fronteiras e estabelecer pontes com outros países e governantes. Às vezes quase que parece uma criança num loja de chocolates quando se confronta com a novidade. Parecem pormenores, mas, num regime unipessoal como é o da Coreia do Norte, estas matérias de personalidade podem fazer toda a diferença nos desígnios de uma nação.

 

Trump poderá estar certo quando diz que sentiu da parte do seu interlocutor vontade genuína para negociar. Resta saber o que será negociado e em que condições. Para já, pouco se sabe, mas presume-se, caso a cimeira tenha sido bem conduzida os seus protagonistas bem assessorados, que tenham sido estabelecidas as metas, os grandes objectivos políticos a serem alcançados. É para isso que servem estes encontros. Depois a forma de como lá se chega, concessão aqui, concessão ali, é um trabalho de bastidores, de muita paciência e, sobretudo, confiança entre as partes.

 

Se for verdade aquilo que Trump tem anunciado nestas últimas horas, então o mundo deve congratular-se pelo facto de aqueles dois líderes terem definido a “desnuclearização da Península da Coreia” como o principal objectivo. Provavelmente, os EUA terão que pagar um preço muito elevado como contrapartida, mas, a médio e a longo prazo, quem sabe se Washington não terá na Coreia do Norte um gigantesco receptor de ajuda financeira, à semelhança do Egipto e da Jordânia, países que, apesar das suas diferenças religiosas, culturais e políticas, se mantiveram sempre como preciosos aliados da Casa Branca.

 

Para já, e por mais disparates e erros que Trump tenha feito nos últimos meses e ódios que suscite, este esforço diplomático merece ser reconhecido e é por isso que ainda esta semana o insuspeito Nicholas Kristof escrevia que os democratas no Congresso não deveriam adoptar a mesma atitude dos republicanos e criticar por criticar a iniciativa do Presidente americano. Porque, neste momento, é do interesse de todos que esta jogada arrojada de Donald Trump se revele certeira.

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Frases de 2018 (29)

por Pedro Correia, em 12.06.18

«Qualquer um pode travar uma guerra. Mas só os mais corajosos conseguem chegar à paz.»

Donald Trump, há pouco, em Singapura, anunciando um acordo histórico com Jim Jong-un para a desnuclearização da península coreana

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O que se pode aprender com uma "porn star"

por Alexandre Guerra, em 27.03.18

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Não foi tanto pelos contornos políticos (e muito menos por outro tipo de contornos), foi sobretudo por interesse profissional na vertente comunicacional que vi com atenção a entrevista que Stormy Daniels deu a Anderson Cooper. Sempre gostei da forma como os americanos fazem estas coisas, porque parece que têm um talento inato para fazer informação em televisão, tanto os entrevistadores como os entrevistados. Não é por acaso que o 60 Minutes da CBS News está a celebrar meio século de existência (imagine-se) e ainda consegue proporcionar momentos de grande qualidade informativa e televisiva.

 

Analisando a entrevista, percebe-se como Stormy Daniels estava muitíssimo bem preparada para enfrentar aquele momento. Se eu tivesse que apostar, diria que há ali muito trabalho por trás, tudo é muito profissional. Não há hesitações, as respostas são curtas, assume o que fez, reconhece as suas fraquezas, tem ideias objectivas e claras. E mesmo perante perguntas mais escorregadias por parte de Anderson Cooper, não há silêncios comprometedores, mas sim declarações assertivas. É uma autêntica lição de media training dada por uma porn star. Quem diria... Por outro lado, na sociedade americana este tipo de fenómeno não é assim tão raro, em que a ascensão social é um “elevador” onde todos querem entrar, seja quem for, em que “andar for”. E quando a oportunidade surge, neste caso, quando uma porn star tem um slot para ascender ao estrelato mainstream, não o desperdiça.

 

Stormy Daniels chegou lá, tornou-se numa estrela pop e ela sabe-o bem. Não é a primeira actriz de “filmes para adultos” a fazer esta transfiguração. O caso mais conhecido é o de Jenna Jameson, que a partir de determinada altura da sua ascensão ao mundo pop, disse que “não voltaria a abrir as pernas” para ganhar a vida. A mesma Jenna Jameson que foi citada no final da entrevista, com Anderson Cooper a recuperar esta frase que ela disse recentemente em relação à situação de Daniels: “The left looks at her as a whore and just uses her to try to discredit the president. The right looks at her like a treacherous rat. It’s a lose-lose. Should’ve kept her trap shut.” É uma frase ácida, que poderia abalar a capacidade de resposta da visada, mas Stormy Daniels não hesitou e disse: “I think that she has a lotta wisdom in those words.”

 

Um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos, que foi New York Times Best Seller, foi precisamente a biografia de Jenna Jameson, que teve como co-autor, Neil Strauss, jornalista, escritor, ghost writer, e colunista da Rolling Stone e do New York Times. Neste livro, Strauss ajuda a contar a história de vida de Jameson que, de estela porn star passou a ícone da cultura pop norte-americana. O livro está longe de ser uma grandeza literária, mas tem o seu valor, por ser cru e pragmático, espelhando aquilo que a sociedade americana é. Se, por um lado, os preconceitos e o puritanismo fazem parte do quotidiano de uma certa América, por outro lado, aquela sociedade é de tal forma livre ao ponto de uma pessoa poder chegar ao topo, sendo aceite pelo sistema mainstream e não ser julgada pela sua “profissão” ou passado. De facto, o “céu é o limite” e o american dream é sempre possível, independentemente de onde se venha ou do que se tenha feito.

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Ninguém o atura

por Pedro Correia, em 18.03.18

 

A Casa Branca parece um reality show. Daqueles que Donald Trump protagonizava antes de ascender ao posto máximo da política mundial.

Em 14 meses o sucessor de Barack Obama já despediu ou viu partir 28 altos funcionários da sua administração - incluindo o secretário de Estado, Rex Tillerson, o conselheiro de segurança nacional, Mike Flynn, a conselheira adjunta de segurança nacional, Dina Powell, o director do FBI, James Comey, o secretário da Saúde, Tom Price, o director do Conselho Económico Nacional, Gary Cohn, a directora do gabinete das relações públicas da Casa Branca, Omarosa Manigault-Newman, três directores do gabinete de comunicação da Casa Branca, Mike DubkeAnthony Scaramucci e Hope Hicks, o principal conselheiro de imprensa, Sean Spicer, o seu principal conselheiro para os assuntos estratégicos, Steve Bannon, o seu assessor pessoal John McEntee e o seu próprio chefe de gabinete, Reince Priebus, ex-presidente do Partido Republicano.

O canal de televisão ABC fez as contas: já foram pelo menos 28 com guia de marcha. Trump não atura ninguém. E é retribuído, pois ninguém o atura.

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Ilustração de Andrea Ucini/NYT 

 

Quem diria que seria Donald Trump a propor uma mudança legislativa restritiva em matéria de armas... É certo que a ordem executiva que o Presidente assinou, e que obriga o Departamento de Justiça a rever a lei, é bastante limitada e incide apenas na proibição da venda de acessórios ("bump-stocks) que permitem modificar armas semi-automáticas em automáticas, mas, mesmo assim, já é qualquer coisa. É também certo que Trump, num laivo de bom senso político ou bem aconselhado, percebeu rapidamente que precisava de aliviar a pressão. Antes, já tinha também anunciado que estava disponível para apoiar legislação que aperte o controlo ao "background" de possíveis compradores de armas. Estas medidas são claramente insuficientes e, na verdade, até têm o apoio da National Rifle Association (NRA), o que se compreende, já que, através destas cedências, aquela organização vai gerindo a agenda das armas nos EUA, mantendo intacto o enquadramento legal que verdadeiramente interessa e que permite ter no mercado todo o tipo de armas.

 

Aliás, poucos acreditam que a vontade reformadora de Trump vá ao ponto de se poder vir a discutir a proibição da venda de armas de assalto. No entanto, isso não significa que a Casa Branca, nesta altura, não alimente junto da opinião pública a percepção de que Trump poderá estar comprometido com novas medidas restritivas. E neste sentido, as declarações da sua porta-voz, Sarah Huckabee Sanders, são muito interessantes, porque quando questionada pelos jornalistas sobre a possibilidade da proibição da venda de armas de assalto, responde que a Casa Branca "não fecha a porta em nenhuma frente". Isto é o mesmo que dizer que Trump admite rever a lei para proibir a venda daquele tipo de armas, o que é uma posição arrojada, para um Presidente republicano que se assumiu um "true friend and champion in the White House" da NRA.  A questão é que mesmo sabendo-se que dificilmente será concretizada algum tipo de iniciativa, a "intenção" presidencial já foi lançada para a opinião pública.

 

Se olharmos com clareza para as últimas décadas, constatamos que em matéria de controlo de armas os presidentes americanos têm sido impotentes ou passivos, ficando sempre amarrados aos seus interesses e ao "gun lobby". Nem Barack Obama conseguiu mexer substancialmente no sistema vigente. Os massacres sucedem-se, mas a acção política tem-se ficado pelos lamentos. Pelo menos, até agora. Trump, por pouco que seja, está a fazer algo de concreto e, como foi acima referido, tem tido a preocupação de passar a ideia da "intenção" de fazer ainda mais. E esta "intenção" não deve ser desvalorizada, tendo em conta as pressões, os lobbies e os financiamentos eleitorais que se fazem sentir e jogam na arena das armas. Trump parece estar a ir um pouco mais além do que, por exemplo, Barack Obama terá ido em matéria de controlo de armas.

 

O que terá então acontecido para que Trump, um republicano "amigo" das armas, esteja a ter uma posiçao aparentemente mais interventiva do que Obama, claramente identificado com um outro tipo de sociedade? A resposta, na minha opinião, tem a ver com um fenómeno que está a acontecer desta vez e que não se verificou em tragédias anteriores semelhantes: a resposta e a mobilização dos jovens estudantes. Para quem tem acompanhado os meios de comunicação social norte-americanos nos últimos dias, percebe que há uma dinâmica crescente, que tem potencial para se transformar numa questão política e social, sobretudo a partir do momento em que os jovens estudantes decidiram fazer uma "marcha" sobre Washington. A Casa Branca percebeu o que tinha pela frente, porque desta vez não se trata apenas de uma campanha dos media das elites de Washington contra a administração. A causa dos jovens estudantes tem um aliado muito mais poderoso: os seus pais. Se, por um lado, a irreverência e temeridade da juventude dá a dinâmica ao movimento, os pais dão a consistência e a dimensão. Trump percebeu isso ao ponto de alguém ter "passado" ao Washington Post a informação de que o Presidente tinha ficado muito sensibilizado quando viu as reportagens dos jovens estudantes e que se terá virado para os seus convidados, que estavam com ele na residência de férias de Mar-a-Largo na Flórida, e lhes terá perguntado o que mais poderia fazer pelo controlo de armas. Provavelmente, Trump saberia melhor do que ninguém naquela sala o que poderia fazer, mas a questão é que da forma como a história é contada e transmitida (como se de uma grande cacha do Post tratasse), as pessoas ficam com a percepção de que o Presidente, na sua intimidade, se importa genuinamento com o assunto. E isso em comunicação política é o que, por vezes, mais conta.

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Foto:Reuters/Jonathan Ernst 

 

A notícia passou quase despercebida, mas esta segunda-feira o Presidente Donald Trump tomou a primeira medida concreta que dá corpo à retórica agressiva que tem proferido durante o último ano contra a liberalização do comércio internacional. A retirada dos EUA do Acordo Transpacífico (TPP) e o anúncio da revisão da sua participação no NAFTA foram sinais importantes e reveladores do caminho que a nova administração queria seguir, mas não foram mais do que isso, sinais. Pelo menos, até agora. Trump, em plena ressaca da crise do “shutdown” e com os holofotes mediáticos apontados para a guerra entre democratas e republicanos, anunciou que vai aumentar as tarifas de importação para máquinas de lavar e painéis solares. Estas medidas afectam, principalmente, países como a China e a Coreia do Sul e, segundo conselheiros citados pelo New York Times, outros produtos, como aço e alumínio, poderão vir a ser alvo de semelhante medida. Trump parece ter sido sensível ao “lobby” de empresas norte-americanas, como a Whirlpool (máquinas de lavar) ou a Suniva e a SolarWorld Americas (ambas de painéis solares). Os números revelados são muito significativos. Por exemplo, no primeiro ano, as primeiras 1,2 milhões de máquinas importadas sofrerão um acréscimo de 20 por cento nas respectivas tarifas, subindo para 50 por cento sobre todos os equipamentos comprados ao estrangeiro acima daquele número. A partir do terceiro ano, os valores descem para 16 por cento, no primeiro caso, e 40 por cento, no segundo. Quanto aos painéis solares importados, sofrerão um aumento de 30 por cento, um valor que cairá para 15 por cento no quarto ano.

 

Se aquelas empresas têm motivos para celebrarem, o sentimento não parece ser unânime na indústria da energia solar nos EUA, receando que estas medidas tornem o mercado menos competitivo. Também os ambientalistas temem que o aumento dos painéis solares comprometa o investimento da população nestas soluções. Além disso, são evidentes os potenciais efeitos nocivos que estas medidas podem ter no comércio internacional e nas relações de confiança entre os principais actores mundiais. Pequim e Seul já demonstraram o seu desagrado e ameaçam recorrer à OMC, no entanto, não anunciaram, para já, qualquer represália. Trump passou da retórica aos actos, naquilo que considera ser a concretização do seu lema: “America First”. Ora, aquilo que Trump não parece estar a ver é que, num primeiro momento, estas medidas até poderão beneficiar algumas empresas americanas e galvanizar uma parte do eleitorado, sobretudo aquele mais ligada à indústria pesada americana, mas, a médio prazo, os efeitos serão contraproducentes para a economia americana. A História, aliás, tem demonstrado que as economias crescem muito mais quando se abrem ao exterior do que quando se fecham com medidas restritivas.

Isso é dos livros, mas sobre essa matéria, Donald Trump não deverá estar muito ciente daquilo que é verdadeiramente benéfico para a América.

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Figura internacional de 2017

por Pedro Correia, em 04.01.18

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DONALD TRUMP 

É a chamada figura incontornável. Pelo segundo ano consecutivo, o magnata nova-iorquino foi eleito Figura Internacional do Ano. Em 2016, o destaque deveu-se ao facto de ter sido eleito para a Casa Branca, derrotando a favorita, Hillary Clinton, e surpreendendo a grande maioria dos analistas políticos. Desta vez justifica-se por ter iniciado o mandato, a 20 de Janeiro.

Um mandato muito polémico desde o primeiro dia, marcado por um cortejo de demissões de figuras relevantes na administração Trump. A 21 de Julho demitiu-se o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer. Dez dias depois, saía o recém-entrado director de comunicação, Anthony Scaramucci. O anterior, Mike Dubke, abandonara funções em Maio. Também em Julho, o Presidente perdeu o seu chefe de gabinete, Reince Priebus, e viu partir o director do gabinete de ética, Walter Shaub. Em Fevereiro, exonerara o conselheiro de segurança, Michael Flynn, que só esteve um mês em funções. Outro conselheiro, Ezra Cohen-Watnick, foi demitido em Agosto. O secretário da Saúde, Tom Price, viu-se forçado a resignar em Setembro. No fim do ano, anunciava-se a saída de Omarosa Manigault-Newman, directora de comunicação com o público da Casa Branca e a mais destacada afro-americana do Executivo.

Também na frente legislativa Trump encontrou dificuldades. Só em Dezembro conseguiu a primeira vitória no Congresso, apesar de contar com maioria republicana nas duas câmaras do Capitólio, ao ver aprovada a prometida reforma tributária - primeira em 30 anos. Mas enfrentou oposição firme à reversão da reforma sanitária realizada pelo antecessor, Barack Obama. Em compensação, a economia continuou na rota do crescimento: 3,2%, no terceiro trimestre de 2017, com o desemprego a registar os números mais baixos em 17 anos.

Na frente externa, Trump desencadeou coros de críticas ao anunciar o fim da vinculação dos EUA ao acordo de Paris sobre as alterações climáticas, acentuou o isolacionismo da sua administração ao retirar o país da Unesco e enfureceu o mundo árabe ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel, em flagrante colisão nesta matéria com os parceiros europeus de Washington e os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China.

Tudo isto num ano marcado por intensas disputas verbais entre o inquilino da Casa Branca - activíssimo no Twitter, rede social onde funciona como cabeça de cartaz à escala global - e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un. «É melhor que a Coreia do Norte não faça mais ameaças aos EUA. Vai enfrentar fogo e fúria como o mundo nunca viu», assegurou Trump, em Agosto. Agindo cada vez mais como um elefante nessa vasta loja de porcelana que é a cena política internacional.

 

O líder norte-americano recebeu dez dos 24 votos nesta eleição do DELITO. Na segunda posição, com seis votos, ficou o Presidente francês, Emmanuel Macron, que em 2017 se impôs aos candidatos da esquerda e da direita clássicas na primeira volta da corrida ao Palácio do Eliseu, esmagando na segunda volta, a 7 de Maio, a sua opositora, Marine Le Pen, representante da Frente Nacional. Recolheu dois terços dos sufrágios nas presidenciais e não tardou a fundar um movimento, a República em Marcha, que em Junho conquistou 350 dos 577 assentos parlamentares.

O terceiro lugar do pódio, com cinco votos, coube ao Presidente chinês, Xi JInping, que em 2017 reforçou consideravelmente o seu poder, consolidando a posição da China na cena mundial.

Houve ainda votos solitários no deposto ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, no movimento feminista #metoo e na ucraniana Anna Muzychuk, que perdeu o estatuto de dupla campeã mundial de xadrez ao recusar a participação no campeonato do mundo da modalidade, disputado em 2017 na Arábia Saudita. Em nome da defesa dos direitos das mulheres, reprimidos neste país.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

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Um ano de Trumpismo

por João André, em 03.01.18

Ao longo de 2017 fui-me abstendo de comentar a presidência de Trump. Fi-lo essencialmente por três razões: 1) nao tenho humanamente tempo para comentar toda a estupidez que sai da Casa Branca a um ritmo diário; 2) seria cansativo para qualquer leitor; 3) a asneira poderia muito bem ser minha e vale a pena não condenar alguém excessivamente cedo (especialmente quando eu não vou ser lido por ele e não o posso influenciar). Agora, ao fim do primeiro ano de Trump na Casa Branca, tento deixar uma reflexão.

 

Antes de mais é-me complicado escrever "trumpismo". A única característica do "trumpismo" enquanto política é a crença de Trump num mundo de soma zero, onde há vencedores e vencidos em cada conversa, diálogo ou negociação e a medida em que cada parte é vencedora é a mesma em que a outra é vencida. Esta visão é obviamente errada: basta ver o resultado de negociações que ponham fim a guerras, que acabam com o sofrimento da esmagadora maioria das pessoas. Haverá quem perca (por exemplo a indústria do armamento) mas nunca na mesma medida em que os outros vençam.

 

Já as outras características que Trump tem usado ao longo desta sua presidência não são políticas. Narcisismo, bullying, insultos, estupidez, egoísmo, interesse pessoal, mentira, etc, nada disso é política, mesmo quando usados ao serviço da mesma. Estas características são apenas aquelas que, a menos que me engane muito, colocarão Trump como o pior presidente da história dos EUA (ou muito perto disso).

 

Como o avaliar? Comecemos com as suas vitórias. Aqui teve duas: nomeou Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal e conseguiu passar a sua reforma do sistema de impostos. Tudo o resto até ao momento pouco teve de vitória. Mudar leis para permitir às empresas poluir mais ou colocar centenas de milhar de pessoas em risco de serem deportadas do país onde viveram toda a sua vida não são vitórias. São actos de estupidez e maldade. Nem há argumentação em defesa do que ele fez.

 

A nomeação de Gorsuch pode ser vista como uma vitória, mesmo que o seja mais do braço parlamentar, quando impediu Obama de cumprir o seu papel e apresentar o seu nomeado. Gorsuch veio inclinar a balança do Supremo Tribunal para o lado mais conservador mas, para ser sincero, Trump parece ao menos ter escolhido alguém com sólidas credenciais intelectuais, ao contrário de algumas das suas outras escolhas para juízes, tão incapazes que até conservadores lançam as mãos aos céus. Mesmo assim é bom lembrar que Gorsuch foi aquilo a que os americanos chamam um gimme, tão fácil num congresso completamente dominado pelo Partido Republicano que seria o mesmo que aceitar elogios por um pôr do sol bonito.

 

Os impostos então. É uma clara vitória, isso sem dúvida. Trump conseguiu avançar com a sua reforma, a mais profunda desde Reagan, mesmo contra as objecções do seu próprio partido. Conseguiu ainda colocar-lhe cláusulas que provavelmente acabarão com o Affordable Care Act, conseguindo assim aquilo que não foi possível por via legal normal. Claro que conseguiu esta vitória de uma forma exclusivamente partisan, sem diálogo, sem apoio de mais ninguém, contra todos os conselhos dos especialistas, contra aquilo que todos os estudos indicam e de uma forma que vai aumentar o défice, aumentar a carga fiscal da esmagadora maioria dos americanos depois da próxima eleição (que coincidência) e aumentar a sua fortuna e a dos membros do seu gabinete. Mas foi uma vitória. Para a sua conta bancária, pelo menos.

 

De resto? Bom, não só não conseguiu impedir a Coreia do Norte de adquirir um arsenal nuclear credível (embora provavelmente ninguém o conseguisse), mas conseguiu também hostilizar o ditador que tem o dedo nesse mesmo arsenal. Claro, os EUA provavelmente não temem verdadeiramente o arsenal norte-coreano. Uma coisa é possuir um míssil com alcance para chegar a Washington DC, outra é acertar no alvo e ainda outra é conseguir que o mesmo não seja abatido pelas defesas americanas. Além disso os EUA sabem que podem transformar a Coreia do Norte num planalto se forem atacados. Não serão os norte-americanos a sofrer com a estupidez e egotismo de Trump. Poderão antes ser os sul-coreanos, que morreriam às centenas de milhar se as hostilidades começassem a sério; ou os norte-coreanos que já são oprimidos mais que qualquer outro povo no planeta e que morreriam aos milhões. Mas Trump já provou que se está nas tintas para o sofrimento que causa a outros.

 

Que mais? Decidiu aceitar a transferência da embaixada em Israel para Jerusalém. Não contente com isso e perante a condenação internacional, decidiu "punir" o resto do mundo ao cortar financiamento de programas da ONU. Agora, pensando que ainda há quem possa sofrer mais, ameaça cortar o financiamento aos palestinianos, especificamente à Autoridade Palestiniana. Mais uma vez estupidez pura: se pensa que os palestinianos irão agora baixar os braços depois de serem punidos, vai provavelmente ser acordado ao som de bombas. Mas não vai ser ele a sofrê-las, serão antes os israelitas a morrer, aqueles que ele diz querer ajudar a proteger. Mais: o processo de paz na Palestina chegou ao fim por muito tempo. Dado que os EUA são indispensáveis ao mesmo, não será retomado tão cedo. Lá poupou umas viagens ao genro, o manequim que tem uma enorme pasta que deve servir de pisa papéis lá em casa.

 

Saiu da UNESCO. A sério, que lógica tem isto? Esqueceram-se de designar a monstruosidade que é a torre Trump como património da Humanidade?

 

Saiu do acordo de Paris. Basta ver a reacção da indústria americana para saber que foi mais uma estupidez.

 

Está a tentar destruir alianças de décadas na Europa. A curto prazo é mau para os europeus. A longo prazo nem tanto. Entretanto a CIA, o FBI e a NSA devem andar a tentar reparar os danos para poderem continuar a receber informação.

 

Ainda vai acabar com o Irão a construir armas nucleares. Sinceramente, o homem deve querer que o resto do mundo se arme.

 

A sua administração fez um bom trabalho com um furacão e depois, quando o outro caiu sobre os hispânicos, decidiu que esses não mereciam a mesma atenção.

 

Não deixou uma palavra de crítica à Rússia (não falo da investigação sobre o potencial conluio, isso pertence á justiça dos EUA) mas criou um vazio que Xi Jinping tem vindo a aproveitar para expandir a influência chinesa, essa grande democracia.

 

Conseguiu em um ano perder um porta-voz, um chefe de staff, um conselheiro nacional para a segurança, dois directores de comunicação e a única mulher negra que tinha num posto sénior. As suas nomeações para as centenas de posições que já deveria ter preenchido têm sido tarde e esmagadoramente masculinas e brancas (80%, se não me engano). Conseguiu ainda que o seu Secretário de Estado tivesse a relevância de um peixe fora de água.

 

Claro. posso estar errado. Trump pode estar a quebrar o molde dos políticos mas poderá conseguir resultados que o mundo deseja desde há décadas. Poderá conseguir levar a paz ao médio oriente, atingir uma nova era de colaboração entre as Coreias, desenvolver a economia dos EUA para níveis não atingidos desde há muito e obter uma conciliação interna no seu país entre as diversas correntes de pensamento. Já houve coisas mais estranhas a acontecer (se bem que me falha a memória do que fosse).

 

No entanto penso que não e, para dizer a verdade, não sei o que seria pior.  Se um mundo mais inseguro, menos próspero, mais intolerante, mais desigual e mais dominado por ditadores ou iliberais; ou um mundo que está melhor mas que lá chegou devido a um ogre na Casa Branca. Por agora fico-me. Talvez volte ao assunto no próximo ano se ainda cá estivermos.

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As portas do Inferno

por Alexandre Guerra, em 06.12.17

Conheço relativamente bem Israel e a Palestina. Estive lá por duas temporadas durante a intifada de al-Aqsa, numa altura em que turistas ou peregrinos não se atreviam ir à Terra Santa. Numa altura em que Jerusalém era a cidade com mais correspondentes a seguir a Washington, numa altura em que os atentados suicidas eram uma constante nas principais cidades israelitas. No lado palestiniano, os check points das Forças de Segurança Israelitas (IDF) eram cada vez mais intrusivos, os ataques aéreos sucediam-se, a construção de colonatos judeus avançava de forma intensa, os palestinianos deixaram de poder circular em Israel, nomeadamente entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. O Hamas e a Jihad Islâmica afirmavam-se, tal como as milíciasTanzim, uma espécie de braço terrorista da Fatah, liderada entāo por Yasser Arafat. O clima que se vivia foi dos mais violentos e sufocantes desde a última guerra israelo-árabe. A maior parte das infraestruturas palestinianas ficou reduzida a entulho. Na Faixa de Gaza, fosse na cidade de Gaza ou em Rafa, no sul, vi escombros sobre escombros, o porto e o aeroporto totalmente destruídos, projectos que tinham sido financiados pela UE. Israel também sofreu na sua economia, no seu turismo, na sua imagem internacional. Entre 2000 e 2005, terão morrido mais de 3000 palestinianos e cerca de 1000 israelitas. A violência tinha voltado a assolar aquela região e tudo porque Ariel Sharon, na altura líder do Likud na oposição, decidira fazer uma visita aparatosa, em jeito de provocação, à Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para os muçulmanos. Agora, é só imaginar o que poderá novamente acontecer com esta decisão de Donald Trump. O Hamas já veio dizer que se abriram as "portas do Inferno" e sobre isso não tenho qualquer dúvida.

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Crianças

por Alexandre Guerra, em 28.09.17

Tudo tem a sua escala. Quando uma mãe, um pai, está no parque infantil com o seu filho ou filhos, normalmente, deixa-os à vontade, naquele espaço controlado, onde os seus ocupantes têm o mesmo código de “conduta” e lógica de discurso (na verdade, ausência dela) e são livres de fazer as diabruras que lhes são permitidas pela tenríssima idade. Os adultos, de longe, vão “deitando o olho” para assegurar que os disparates não ultrapassam os limites aceitáveis e desculpáveis para aquelas pequeninas amostras de gente. Caso o façam, não tendo bem a noção das consequências, de imediato os pais intercedem e males maiores são evitados. No final, todos vão para casa contentes sem danos a reportar. Com alguma sorte, é precisamente isso que se passa entre Donald Trump e Kim Jong-un, ou seja, duas crianças a disparatar no “recreio”, enquanto os “adultos” (espera-se) vão controlando os comportamentos para que nenhum deles cometa a infantilidade de carregar no “botão”. E quem são esses adultos? O aparelho em Washington, as estruturas e sub-estruturas das instituições americanas e também a gente responsável e com senso que está nas chancelarias de Pequim e Moscovo. E, sabe-se lá, se no meio do esquizofrénico regime de Pyongyang não haja alguém na cúpula do poder dotado de uma clarividência já (pelo menos) na idade juvenil.

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Leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.07.17

"Mr. Trump and Mr. Macron actually hold very different views of the current nationalist, anti-immigrant leadership of Poland. They hold very different views of the fundamental meaning of European construction, which was at the heart of Mr. Macron’s campaign. They differ on the assessment of Mr. Putin’s leadership of Russia, and they hold diametrically opposed views of the fight against global warming."

Na véspera de mais um aniversário da tomada da Bastilha, este ano com motivos adicionais, vale a pena ler todo o texto de Sylvie Kauffmann no New York Times.

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A reboque de um louco

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.06.17

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É evidente que não se trata da reafirmação de qualquer soberania dos EUA, nem de uma protecção dos interesses dos contribuintes e trabalhadores estado-unidenses. E como também já foi afirmado pelos principais líderes europeus, não há nada para voltar a discutir quando em causa está o futuro da Humanidade e o desertor é só "the biggest carbon polluter in history", o responsável pelo envio para a atmosfera da maior quantidade de emissões de dióxido de carbono. Ao colocar os EUA no mesmo saco em que estão a Nicarágua e a Síria, o Presidente Donald Trump não está a fazer dos EUA uma nação mais esclarecida, mais poderosa, nem de novo "grande". Quando dentro de quatro anos os trabalhadores do Midwest perceberem como foram enganados por um louco xenófobo e ignorante, os EUA terão regredido décadas e o país será reconhecido internacionalmente como um pobre povo governado por bárbaros. Em poucos meses, os EUA tornaram-se numa caricatura da grande nação sonhada pelos seus fundadores que teve a ambição de ser um exemplo para o mundo. Se alguma vez o foi, certamente que já não o é. O editorial de hoje do New York Times pode não reflectir o que toda a nação pensa sobre o assunto, mas é seguramente um repositório de preocupações e dá conta do estado de espírito de todos aqueles que não embarcaram no discurso primário de Trump.

Quem apostaria há dez anos, depois de todas as reticências iniciais, que a China estaria nesta altura do outro lado da linha, ao lado da Europa? Tão preocupada quanto os accionistas da poderosa Exxon

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O discurso de Merkel

por Alexandre Guerra, em 29.05.17

O discurso de Angela Merkel proferido este Domingo num comício para 2500 pessoas em Munique é daqueles que poderá ficar para a História da construção europeia. Não se pode dizer que tenha passado despercebido à imprensa internacional, porque, que se recorde, é a primeira vez que se vê a chanceler alemã a pronunciar-se de uma forma tão assertiva para a necessidade dos europeus contarem com eles próprios e não estarem dependentes dos “aliados” tradicionais, em referências directas aos “afastamentos” dos EUA e do Reino Unido. Ao dizer que a União Europeia tem que “tomar o futuro pelas suas próprias mãos”, Merkel está na prática a assumir que está na hora dos líderes europeus começarem a pensar seriamente na criação de uma efectiva política europeia de defesa e segurança, algo que não existe neste momento. É certo que existem muitas proclamações políticas e alguns mecanismos, mas nada perto daquilo que poderá garantir a defesa física da Europa como um todo perante uma ameaça externa. E nesse ponto é importante não esquecer que a NATO continua a ser a única organização com essa capacidade de resposta, ou seja, com a agilidade de mobilizar forças de diferentes países sob um único “badge” (comando). Em termos de meios militares, a NATO propriamente dita tem uns aviões AWACS (que vão reforçar a sua acção na recolha e partilha de informação entre todos os Estados-membro da Aliança), alguns quartéis-generais e pouco mais, no entanto, tem uma experiência acumulada de décadas, que lhe permite reagir a diferentes ameaças e em diferentes cenários através da interoperacionalidade oleada das forças dos diferentes países colocadas ao serviço NATO. Na prática, a NATO tem sido a estrutura comum da defesa europeia e até há poucos anos o território europeu tinha o exclusivo da sua acção.

 

Não é mentira quando Trump enfatiza o desequilíbrio das contribuições financeiras de cada país aliado para aquela organização. É um facto histórico com origens conhecidas no surgimento da Guerra Fria e que durante muito tempo serviu os propósitos norte-americanos na lógica do sistema bipolar, onde parte da Europa era claramente uma área de influência sob o “guarda-chuva” de Washington. Desde o fim da ameaça do Exército Vermelho sobre a Europa que a discussão sobre a Defesa do Velho Continente tem sido recorrente, nomeadamente ao nível do investimento que é preciso ser feito por cada país. Concomitantemente, várias administrações em Washington têm, ao longo dos anos, lançado avisos à Europa para que começasse a investir mais na Defesa e no orçamento da NATO. Por várias vezes, e sobretudo em momentos de crise, política ou militar, líderes europeus vieram para a praça pública falar entusiasticamente na necessidade da Europa começar a gastar mais na sua Defesa. Chegaram a ser ensaiados alguns projectos comuns, mas que nunca se concretizaram. Por isso, aquilo que Merkel disse no Domingo não é propriamente novo no conteúdo nem na forma. A verdadeira novidade foi ter sido Merkel a dizê-lo, sobretudo no tom particularmente firme em que o disse. É certo que estava influenciada pelo ambiente pouco diplomático provocado por Donald Trump nas cimeiras da NATO e do G7, mas para a chanceler ter assumido uma posição daquele calibre é porque a mesma deverá vir acompanhada de uma política firme nos próximos tempos.

Merkel foi a primeira líder europeia a assumir uma divergência desta magnitude com a administração Trump. Em causa estão valores fundamentais para a Europa, como são as alterações climáticas, mas é preciso não esquecer que, à margem da cimeira da NATO, o Presidente americano tinha ameaçado restringir as importações de carros alemães para os EUA. Nestas coisas da política internacional, e ao contrário do que muita gente possa pensar, as relações pessoais entre líderes podem fazer toda a diferença no adensar ou no desanuviamento de uma potencial situação de escalada político-diplomática. Neste caso, admite-se que a convivência entre os dois, primeiro em Bruxelas e depois em Taormina, não tenha corrido pelo melhor. Acontece. Agora, é preciso que nos corredores da diplomacia sejam encetados esforços no sentido de se manterem os canais de comunicação abertos entre Berlim e Washington, porque, uma coisa é certa: a Europa não está em condições de caminhar sozinha em matéria de Defesa e vai continuar a depender do envolvimento dos EUA na NATO durante muitos e longos anos. Por outro lado, Trump não deve esquecer, nunca, que apesar de todas as diferenças, é com a Europa com quem os EUA partilham os valores basilares da democracia e do liberalismo que norteiam a sua democracia e sociedade. Além disso, Trump também não se deve esquecer de um conceito muito importante e desenvolvido há uns anos por Robert Keohane e Joseph Nye, o da interdependência complexa. E neste aspecto, EUA e Europa estão ligados um ao outro como dois siameses.

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100 dias de Donald Trump.

por Luís Menezes Leitão, em 28.04.17

 

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Trump está perigoso.

por Luís Menezes Leitão, em 11.04.17

Os presidentes norte-americanos têm o condão de supreender qualquer observador, funcionando completamente ao contrário do que tinham anunciado. É assim que Donald Trump, depois de imensa controvérsia por as suas medidas inconstitucionais contra os imigrantes islâmicos terem sido barradas nos tribunais, decidiu agora intervir na guerra civil síria. Foi uma acção sem mais consequências do que uns mísseis despejados no terreno, mas que lhe garante o aplauso da comunidade internacional perante o total apagamento da ONU. A propósito, o que é que anda lá a fazer o nosso Guterres? A Rússia fica furiosa, o Irão protesta, mas o ataque não vai trazer consequências de maior na esfera internacional. Trump pode por isso proclamar que está a tornar a América "great again" e tranquilamente gozar os aplausos gerais pela sua iniciativa, que lhe permite consolar o seu ego magoado por um dos inícios presidenciais mais desastrados da história recente. 

 

O problema é que Trump tem um perfil psicológico narcísico e os aplausos que hoje lhe dão por uma iniciativa bem sucedida estimulam-no a passar rapidamente a outra. Mas o que ele agora considera estar à mão é muito mais perigoso do que ele alguma vez pode imaginar: a Coreia do Norte. À primeira vista pode parecer um resquício da guerra fria, que os Estados Unidos facilmente dominarão, mas a verdade é que nem nos seus maiores tempos de grandeza a América conseguiu vencer a Coreia do Norte. O seu mais brilhante génio militar McArthur, depois de encurralado no sul da península, conseguiu tomar Pyongyang em virtude do sucesso mililtar do seu desambarque em Incheon, mas percebeu perfeitamente que teria que recuar após a entrada da China no conflito. Ainda chegou a propor a Truman um ataque nuclear à China, mas a perspectiva de generalização da guerra nuclear, com a ameaça de uma resposta russa, levou o presidente a demitir o seu general, tendo depois as partes acordado em voltar a fixar a fronteira no paralelo 38.

 

Hoje a Coreia do Norte é um estado nuclear, que não reconhece qualquer poder na esfera internacional, uma vez que até se gaba de ter vencido uma guerra contra as Nações Unidas. Não é por isso nada provável que um ataque convencional à Coreia do Norte não desencadeie uma resposta nuclear imediata que, se não atinge por enquanto os EUA, facilmente atinge a Coreia do Sul ou o Japão. Trump pode estar a querer testar tantos anos depois a velha doutrina de Kissinger da guerra nuclear limitada, que lhe granjeou o epíteto de Dr. Strangelove. Mas é muito pouco provável que a China alguma vez pactue com semelhante estratégia, ainda mais depois das polémicas declarações de Trump sobre a Formosa. Seguramente que Trump não sabe onde se está a meter.

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Rollback

por Alexandre Guerra, em 29.03.17

Com mais ou menos polémica e trapalhada, mais ou menos anúncio espalhafatoso, a verdade é que, até ontem, Donald Trump ainda não tinha concretizado qualquer medida que fosse verdadeiramente maléfica para a Humanidade. Nalguns casos até se mostrou mais moderado em relação à sua posição inicial, como observou (e bem) o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Portas, esta semana numa conferência em Lisboa, ao lembrar que Trump “fez a revisão do acordo NAFTA, mas não o denunciou, como não denunciou o acordo com o Irão, optando por vigiá-lo” e também “abandonou a ideia de transferir a embaixada [dos EUA] de Telavive para Jerusalém”. E já houve até um ou outro caso de humilhante derrota face àquilo que tinha prometido em campanha, como aconteceu na passada Sexta-feira ao ser obrigado a retirar do Congresso a “ bill” que iria revogar o Obamacare.

 

Mas ontem, não. Ontem, Trump clamou “vitória” e assinou um decreto presidencial na Sala Oval que tem como objectivo reverter muitas das medidas implementadas por Barack Obama em matéria ambiental. Algumas ainda nem sequer estavam em vigor, mas, muito provavelmente, e à luz desta nova orientação, nunca chegarão sequer a concretizar-se. Como também dificilmente se alcançarão as metas definidas nos Acordos de Paris de 2015, aquilo que tinha sido um marco histórico na política ambiental norte-americana.

 

É um autêntico “rollback” na política ambiental da administração Obama, com consequências nefastas a médio e a longo prazo e que depois serão difíceis de reparar. Porque, a questão não se põe só ao nível das medidas que Obama tinha implementado (já por si muito importantes), mas também no exemplo e motivação que os Estados Unidos deram ao mundo para que outras nações, nomeadamente algumas das mais poderosas e poluentes, seguissem políticas mais sustentáveis em termos ambientais. Quando Obama se comprometeu com os Acordos de Paris estava claramente a dar um sinal ao mundo, em nome dos Estados Unidos, para a necessidade de serem adoptados modelos de sustentabilidade nas economias mais desenvolvidas, por modo a fazer-se face à realidade inequívoca das alterações climáticas e do aquecimento global.

 

Ao assinar aquele decreto presidencial, Trump não só deitou por terra todo o esforço e pedagogia que Obama desenvolveu, como legitimou e recuperou as teses mais ignorantes e retrógradas em matéria ambiental. E isso é assustador e triste.

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Sean Spicer, um porta-voz à medida do seu líder

por Alexandre Guerra, em 31.01.17

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Depois de Donald Trump ter dado, na Quarta-feira passada, a primeira entrevista em sinal aberto ao canal ABC, no dia a seguir reparei que um dos apresentadores da FOX News não deixou de atirar uma "boca" ao Presidente por ter escolhido a concorrência para tão importante momento televisivo. De facto, nessa altura, só faltava mesmo a "insuspeita" FOX News juntar-se ao coro de críticas que vinham dos media americanos. Trump foi literalmente arrasado durante a primeira semana de mandato, com os principais canais noticiosos americanos a dissecarem até ao tutano os vários disparates que se iam sucedendo. Tive o privilégio de assistir a essa primeira semana da presidência de Trump nos EUA, mas a questão é de que não me recordo de qualquer outro mandato ter começado de forma tão atribulada e polémica. Foi a argumentação patética de Trump por causa da assistência que esteve na cerimónia do "inauguration day" em Washington, depois veio a polémica do muro e a questão do imposto de 20 por cento sobre produtos mexicanos. Trump lançou ainda a "bomba" da possível fraude eleitoral, algo que terá passado despercebido nos media europeus, mas que os jornalistas americanos consideraram uma acusação de proporções monumentais, questionando o Presidente por que razão então não concretizava essa acusação e pedia uma investigação federal. E, finalmente, a "immigration order". Muita coisa para apenas uma semana e meia de trabalho. E em todas estas frentes de combate mediático, Trump tem contado basicamente apenas com uma pessoa ao seu lado: Sean Spicer, o seu assessor de imprensa. Nestes quatro casos, Spicer, tal e qual como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento, surgiu perante os jornalistas num exercício penoso e que o próprio um dia deverá recordar como momentos bastante humilhantes na sua carreira.

 

Spicer, num dos briefings da Casa Branca, chegou mesmo a ser interrogado por um dos jornalistas se acreditava naquilo que estava a dizer. Uma pergunta que eu nem queria acreditar estar a ouvir logo na primeira semana de trabalho de uma presidência. Como era possível que os jornalistas questionassem a palavra do assessor de imprensa do Presidente logo nos primeiros dias de mantado? Mas a verdade é que Spicer tem sido o único porta-voz das trapalhadas de Trump e isso certamente terá custos na sua reputação e credibilidade junto dos jornalistas. Nem mesmo outras figuras republicanas se têm atravessado pelas medidas que o Presidente tem adoptado. Na verdade, as figuras de topo do Partido Republicano ou estão caladas ou as que têm aparecido é para criticarem.

 

Reconheça-se que, apesar dos erros e dos disparates, coragem é coisa que parece não faltar a Spicer porque, mesmo caminhando para o abismo, ele segue em frente. Ou, por outro lado, também pode ser apenas loucura. Lembro-me sempre daquele ministro iraquiano da Informação e que foi o porta-voz de Saddam Hussein durante a invasão americana em 2003, que ficou célebre pela sua propaganda tola (e que divertiu muita gente, incluindo o Presidente George W. Bush), ao repetir convictamente que o Exército iraquiano iria vencer aquela batalha, quando a realidade mostrava os soldados americanos já às portas de Bagdade. Loucura à parte, a verdade é que a partir daí Mohammed Saeed al-Sahaf se tornou uma estrela à escala global até com direito a clube de fãs. Pode ser que Spicer tenha a mesma sorte.

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Trump

por José António Abreu, em 26.01.17

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Alguém já deve ter feito um estudo relacionando o nível de riqueza dos países e o nível de proteccionismo das respectivas economias. Confesso desconhecê-lo. Estou, porém, convencido de que, a prazo, o proteccionismo nunca cria riqueza. Quando muito, é útil para dar algum tempo de adaptação a sectores específicos, de modo a evitar mudanças demasiado bruscas. Nenhum regime fortemente proteccionista é verdadeiramente rico (exemplo-limite: a Coreia do Norte) e, no mundo actual, baseado na tecnologia e no conhecimento, o proteccionismo é uma táctica suicida para economias pequenas e mal desenvolvidas (como a portuguesa).

 

Os Estados Unidos não têm nem o problema da dimensão (o PIB norte-americano representa cerca de 24% do PIB mundial) nem o de constituírem uma economia subdesenvolvida. Na realidade, numa economia tão grande, tão variada, tão baseada no consumo (68% do PIB) e tecnologicamente tão avançada como a norte-americana, é perfeitamente possível que medidas proteccionistas dêem origem a recuperação do emprego e aumento dos salários – durante uns tempos. Depois os preços tenderão a subir, o dólar a valorizar-se (com péssimas consequências para a sustentabilidade das dívidas de vários países periféricos), o consumo a travar, as exportações a diminuir (tanto pelo aumento dos custos de produção como pela imposição de tarifas aos produtos norte-americanos por parte de outros países), a imigração a aumentar (o efeito negativo na economia mexicana será imediato), o nível de inovação a descer, o investimento estrangeiro a hesitar, o mercado de capitais (assente em empresas multinacionais) a ressentir-se. Já para não mencionar o surgimento de dificuldades logísticas ou até mesmo político-logísticas: alguns materiais necessários para fabricar certos produtos obtêm-se apenas em países específicos (a China produz 85% dos metais de terras raras - como o neodímio e o lantânio - essenciais para o fabrico de smartphones e computadores) e uma deterioração das relações internacionais poderá dificultar o acesso a eles. (Vejam-se, por exemplo, as implicações de transferir a produção do iPhone para os Estados Unidos.) Enquanto isto for acontecendo, países mais fracos enfrentarão tremendas dificuldades (o México encontra-se prestes a ficar numa posição similar àquela em que Portugal se encontraria se perdesse o acesso livre ao mercado europeu) e a economia mundial também.

 

Mas Donald Trump está apenas a fazer o que prometeu. Na verdade, está até a fazer o que sempre defendeu. Comprovando a teoria (tão injustamente atacada) de que se pode ler a Playboy pelos artigos, parece que no interior do governo alemão tem andado a circular a edição de Março de 1990. Trump - que, pelos vistos, não gosta apenas de gatinhas (pussies), mas também de coelhinhas - era o entrevistado. E não tinha dúvidas: os problemas da economia norte-americana (no início de uma década de excelente desempenho) tinham origem nas importações de produtos japoneses e alemães, tornados competitivos através de subsídios dos respectivos governos, os quais ganhavam a folga para os pagar devido ao facto de serem os Estados Unidos a assegurar que os dois países não eram «removidos da face da Terra em cerca de 15 minutos». Trump acusava japoneses e alemães de roubarem o amor-próprio dos norte-americanos e terminava dizendo que «os nossos aliados lucram biliões lixando-nos». De então para cá, apenas necessitou de acrescentar China, México e, suponho, Coreia do Sul à lista dos seus ódios de estimação. Para Trump, tudo assenta em análises custo-benefício simplistas, feitas sempre numa perspectiva de curto prazo. Trata-se de uma excelente receita para o desastre. Que ele esteja a posicionar-se para incentivar o desmembramento da União Europeia, de modo a forçar acordos bilaterais a partir de uma posição de força que as condições actuais não lhe providenciam, só pode reforçar os motivos de preocupação.

 

Há um ponto, todavia, em que é necessário elogiá-lo. Um ponto que até ajuda a explicar por que venceu as eleições. Nos primeiros dois dias, Trump reuniu-se com líderes de grupos industriais e com sindicalistas. Nas conferências de imprensa diárias, Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, fez questão de realçar que vários deles nunca tinham estado na Sala Oval e que alguns nunca haviam sequer entrado na Casa Branca. Para um cidadão desempregado, ou num emprego de baixo rendimento, que via as estrelas de Hollywood descreverem, nos programas de Stephen Colbert ou Jimmy Fallon, as festas e os jantares na Casa Branca em que haviam participado, isto é um tremendo sinal. Os encontros de Trump podem não passar de demagogia ou significar o pontapé de partida para uma crise mundial. Para essas pessoas, contudo, marcam a diferença. Barack e Michelle Obama eram elegantes, politicamente correctos, excelentes oradores e dançarinos - o epítome do cosmopolitismo. Mas Trump está a lutar por eles. Não há piada desdenhosa ou crítica mal fundamentada capaz de vencer esta ideia.

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A Mãe

por Bandeira, em 21.01.17

A ti, generoso amigo norte-americano que me diz soluçando, entre dois goles de whiskey, “Por muito que me custe, este é o meu presidente e eu apoiá-lo-ei sem reservas”, lembro as imortais palavras do (literalmente) grande Chesterton:

“’O meu país, com razão ou sem ela’, é algo que a um patriota jamais ocorreria dizer excepto em casos desesperados. Seria como dizer ‘A minha mãe, bêbada ou sóbria.'"

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Figura internacional de 2016

por Pedro Correia, em 05.01.17

                  

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DONALD TRUMP 

O magnata novaiorquino surpreendeu tudo e todos. Contrariou sondagens e as sofisticadas análises dos comentadores políticos - não só nos Estados Unidos mas também em Portugal, onde chegou a haver gente a escrever e publicar peças jornalísticas considerando-o antecipadamente derrotado na corrida eleitoral para a sucessão de Barack Obama como inquilino da Casa Branca.

À partida, de facto, quase ninguém dava nada por ele: anteviam-no apenas como animador da campanha com a sua atitude nada diplomática, digna de elefante em loja de porcelanas. Mas Donald Trump foi derrubando sucessivas barreiras, desde logo nas primárias republicanas, em que enfrentou grande parte do establishment do seu partido, incluindo os ex-presidentes George Bush e George W. Bush e os antigos candidatos presidenciais John McCain e Mitt Romney: todos se demarcaram dele desde o primeiro instante.

Apesar disso - ou por causa disso - acabou por emergir vitorioso nas primárias, derrotando antagonistas que comprovaram ser tigres de papel, como Jeb Bush, Marco Rubio e Ted Cruz. Com uma mensagem linear e populista, e uma utilização maciça das redes sociais, centrou o seu discurso contra a oligarquia de Washington, a imigração ilegal e o terrorismo, apelando ao proteccionismo económico e ao apaziguamento com Moscovo.

Linhas discursivas que repetiu na contenda com Hillary Clinton, sua adversária do Partido Democrata, que viria a derrotar nas urnas em Novembro. Conquistando maioria no colégio eleitoral, graças às peculiares regras vigentes nos Estados Unidos, embora tivesse menos cerca de três milhões de votos do que Hillary no voto popular.

Vai tomar posse já no próximo dia 20, entre vaticínios generalizados de uma presidência desastrosa. Paradoxalmente, este é talvez o único ponto que à partida o favorece: as expectativas iniciais para o seu mandato serem tão baixas.

Na votação do DELITO, que mobilizou 27 dos 31 autores deste blogue, o novo Presidente eleito dos EUA ganhou por maioria absoluta: teve 21 votos no escrutínio para Figura Internacional do Ano.

Os restantes seis foram distribuídos pela chanceler alemã Angela Merkel (já aqui vencedora em 2010, 2011 e 2015), com três votos, o Presidente russo Vladimir Putin, o Presidente filipino Rodrigo Duterte e o cantautor Bob Dylan, controverso galardoado com o Nobel da Literatura.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

 

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2017, o ano do renascimento do Czar Putin

por Alexandre Guerra, em 02.01.17

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A eleição de Donald Trump veio colocar Vladimir Putin numa posição de enorme relevância no sistema internacional, talvez como nunca tenha tido antes, porque, pela primeira vez, tem em Washington um interlocutor que lhe parece reconhecer o seu poder czarista e autoritário sem qualquer constrangimento ou julgamento moral. Mais, Trump parece estar disposto a aceitar e a respeitar as regras do jogo definidas por Putin, naquilo que poderá ser um paradigma com algumas semelhanças ao sistema de Guerra Fria em matéria de delimitação de zonas de influência. Perante isto, e à luz daquilo que se tem vindo a saber, é muito provável que Putin venha novamente a estar num plano de igualdade com o seu homólogo norte-americano. Trump parece querer conceder-lhe esse privilégio, já que não o deverá fazer a mais nenhum chefe de Estado. Além disso, do que se vai percebendo, Trump acreditará que o mundo pode ser gerido novamente pelas duas potências, numa divisão de influências, onde a China e outros Estados emergentes não lhe merecem grande atenção (quantas vezes ouvimos Trump falar do Brasil, da Índia ou até mesmo do Reino Unido ou da Alemanha???). Hoje, mais do que nunca, é importante perceber quem é Putin, como pensa e como age.

 

Acompanho com atenção o percurso de Vladimir Putin ainda antes de ter sido eleito Presidente da Rússia pela primeira vez em 2000. Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin. Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000. Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado, como aliás fica bem evidente na recente biografia de Steven Lee Myers, "O Novo Czar" (2015, Edições 70). Na altura, terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin. Muitos viram na decisão de Yeltsin o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduzira o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro. Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma e que viria a ser assassinado em Fevereiro de 2015, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco." Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembrava que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos. 

 

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais. E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política. É o próprio Nemtsov que reconheceu o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam. Características que se encaixaram na perfeição ao estilo musculado necessário para responder às explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa, para nunca mais sair de lá. Em Outubro desse ano, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

 

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde. Por motivos de imposição constitucional que o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial, Putin teve que fazer uma passagem pela chefia do Governo entre 2008 e 2012, mas era claro que nunca teve verdadeiras intenções de deixar os desígnios da nação nas mãos do novo ocupante do Kremlin. Conhecendo-se um pouco da história política russa e da sua liderança, facilmente se chegaria à conclusão de que Putin era o homem por detrás do poder, enquanto o novo Presidente em exercício, Dimitri Medvedev, seria apenas um "fantoche". Medvedev compreendeu bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a uma mera representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa. Como na altura se constatou, a forma seria apenas um pormenor porque o que estava em causa era a substância da decisão. Ouvido pela rádio Ekho Moskvy, na altura, o analista russo Gleb Pavlovsky ia directo à questão central: "We can forget our favourite cliche that the president is tsar in Russia." E neste caso o Czar é Vladimir Putin que tanto o poderia ser na presidência, na chefia do Governo ou noutro cargo qualquer, desde que fizesse as devidas alterações constitucionais e que continuasse acompanhado dos seus "siloviki".

 

Aparentemente, Putin tem em Washington um parceiro que não o recriminará e que respeitará a sua liderança, desde que o Presidente russo não mexa com os interesses norte-americanos que, diga-se, nem será assim um exercício tão difícil de aplicar. Actualmente, Moscovo joga algumas das suas prioridades geoestratégicas e geopolíticas em tabuleiros que Trump já deu a entender não estar interessado. Agora, é ver a partir de dia 20 de Janeiro como o Czar Putin e o populista Trump se vão entender.

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Escolhas interessantes de Trump

por Alexandre Guerra, em 23.11.16

Interessantes, é o que se pode dizer de algumas escolhas que Donald Trump tem feito para a sua equipa. Contrariando um pouco a ideia que reinou nos primeiros dias após a sua eleição, de que se estaria perante uma equipa de transição caótica e que se estava perante um "assalto ao poder" por parte de "amigos" e familiares, não deixam de ser curiosos os nomes que Trump escolheu para a Educação, Habitação e Desenvolvimento Urbano e para o lugar de Embaixador dos EUA nas Nações Unidas. Betsy DeVos, na Educação, é republicana, activista conservadora, filantropista e presidente da American Federation for Children, um grupo de interesse bastante agressivo na defesa da atribuição de vouchers de dinheiro público para que as famílias mais carenciadas possam colocar os seus filhos a estudar em escolas privadas. É claro que por detrás desta medida está uma opção ideológica, com a qual se pode concordar ou não, mas a verdade é que DeVos não é propriamente uma pessoa de quem se possa dizer que é completamente desajustada ao lugar. Penso que, efectivamente, qualquer que fosse o candidato republicano, o seu nome seria visto com normalidade.

 

Para a Habitação e Desenvolvimento Urbano, é surpreendente a escolha de Trump ao ir buscar Ben Carson, negro, neurocirurgião retirado, e que foi seu rival nas primárias. Embora não tenha qualquer experiência governativa, merece pelo menos o benefício da dúvida. Também hoje se ficou a conhecer a Embaixadora dos EUA para as Nações Unidas. Nikki Haley parece ser uma escolha acertadíssima. "Rising star" no Partido Republicano, de 44 anos, era até agora a primeira mulher governadora do estado da Carolina do Sul. É filha de imigrantes indianos e por várias vezes já demonstrou ser uma pessoa defensora dos valores da integração e do diálogo.

 

Ao nomear estas três pessoas, Trump tem, por um lado, o objectivo estratégico de aliviar a pressão sobre si, escolhendo duas mulheres e um negro, passando a ideia de diversidade e escapando ao estigma de que se estava a criar uma administração maioritariamente "branca" ligada aos interesses de grupos de direita mais radical. Por outro lado, e esse é um lado mais curioso, Trump revela algum desportivismo, porque todos estas pessoas foram suas críticas. E a ironia disto é que muitos dos políticos europeus arautos da liberdade que tanto têm criticado Trump (e existem razões para isso) jamais nomeariam alguém que os tivesse criticado. Nesse aspecto, Trump parece estar a dar algumas lições. Logo se verá se é para durar. Até ver...

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Profetas da nossa terra (75)

por Pedro Correia, em 23.11.16

«Acho pouco provável que Trump ganhe as eleições.»

Pacheco Pereira, TVI 24, 20 Julho de 2016

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Há alguém muito baralhado no Reino de Lisboa

por Diogo Noivo, em 21.11.16

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Durante a Web Summit, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu criticar Donald Trump. Fê-lo usando fundos e recursos públicos, de forma presunçosa e com erros ortográficos, mas enfim, a crítica é legítima e a Trump não lhe faltam características merecedoras de censura.
O que já é difícil compreender é que se critique Trump e, acto contínuo, se atribuam as chaves da cidade a Abdel Fattah al-Sissi, o presidente do Egipto. Critica-se o presidente eleito de um Estado de Direito Democrático, um Chefe de Estado e de Governo cujo poder está limitado por um sistema de freios e contrapesos. Mas dão-se as chaves da cidade a um ditador que chegou ao poder por via da força, interrompendo um processo de transição democrática que, apesar das vicissitudes normais, avançava.
Temo que no município de Lisboa alguém ande a limpar os pés às cortinas e a tapar as janelas com os tapetes de entrada.

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As redes sociais contra o jornalismo.

por Luís Menezes Leitão, em 14.11.16

É uma verdade absoluta que a campanha de Trump demonstrou o poder das redes sociais contra o jornalismo tradicional. Enquanto os media tradicionais barraram completamente Trump, ridicularizando e tornando-o anedótico, e só falando do avanço triunfal de Hillary Clinton, Trump utilizou as redes sociais para fazer passar a sua mensagem, como demonstra o vídeo aqui exibido. E essa mensagem foi clara: vamos recuperar o nosso país de novo, que foi tomado por uma elite criminosa, de que os Clinton são o maior exemplo. A mensagem não passa de um arremedo da teoria da conspiração, mas o facto de ser ignorada pelos media e pela sua adversária só facilitou a vitória de Trump. A primeira regra na política é a de que não se pode subestimar os adversários. E, ao contrário do que julgava Emídio Rangel, hoje as televisões já não vendem Presidentes como quem vende sabonetes. As redes sociais deixaram campo livre para que as mensagens se espalhem independentemente de qual o seu conteúdo e, como se viu, uma mensagem eficiente e bem difundida pode ser o caminho aberto para a vitória.

 

Claro que é sempre possível reagir a isso, dizendo que Trump ganhou com o apoio de ignorantes, incultos, mal-formados, e gente deplorável. É bem capaz de ser verdade, mas essa é a regra da democracia. Quem não quer que o povo inculto vote, a única coisa que pode fazer é propor o regresso aos tempos anteriores à revolução francesa, em que a nobreza e o clero tudo decidiam de forma culta e esclarecida. Não é seguramente uma solução praticável. Compreender os anseios do povo e saber lidar com eles parece muito mais adequado. E para isso os jornalistas não podem ignorar o que se passa à sua volta.

 

 

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Trump, Obama e o jornalismo

por Pedro Correia, em 14.11.16

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1

No meio dos dislates de Donald Trump - que os houve, e graves - ficou por perceber, deste lado do Atlântico, que mérito afinal este candidato teve aos olhos do eleitorado norte-americano. Algum terá, seguramente, caso contrário o "sábio povo" que elegeu Barack Obama em 2008 e 2012 não se transformaria no "estúpido povo" que agora votou como votou.

Acontece que a Portugal, durante a campanha, só chegou o aspecto anedótico, grosseiro e caricatural do candidato. Mais nada. Nenhuma proposta de âmbito social, nenhuma proposta de âmbito económico. Por que motivo a larga maioria da classe trabalhadora branca americana e um segmento significativo dos desempregados de longa duração votaram nele?

Era uma excelente história. Mas ficou por contar nos meios de comunicação portugueses. No meio de tanta reportagem “editorializada” não houve tempo para fazer jornalismo.

 

2

Trump, um milionário que fez questão de pagar a sua própria campanha sem recorrer a fontes de financiamento externas, conseguiu passar a mensagem de que era ele o candidato anti-sistema. Mal ou bem, o escrutínio confirmou esta evidência. Financiador das campanhas de Bill Clinton na década de 90 e recém-filiado no Partido Republicano, o magnata pulverizou o establishment político de Washington.

Isso verificou-se logo nas primárias, em que todos os candidatos da oligarquia partidária foram caindo, um a um (Jeb Bush, Marco Rubio, Ted Cruz), até à desistência definitiva do último que lhe fez frente. E acaba de ocorrer na eleição presidencial: Hillary Clinton (que, com o marido, domina o Partido Democrata há um quarto de século) é a personificação máxima do sistema. Talvez isto explique o facto de 20% dos eleitores que preferiam Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata terem votado Trump.

Porquê? Outra boa história que ficou por contar nos meios de comunicação portugueses, pré-formatados para a "inevitável" vitória de Hillary Clinton. Entre tanta reportagem “editorializada” contaminada pela propaganda de uma facção, não houve tempo para fazer jornalismo.

 

3

Tem faltado por cá um balanço crítico da presidência Obama. Porque a derrota eleitoral de Hillary é também uma derrota de Obama, que aliás se envolveu por completo na campanha – com uma intensidade e uma frequência raras vezes vistas num inquilino da Casa Branca prestes a abandonar o cargo.

De Obama, no entanto, também cá chega apenas a versão benévola disseminada pelos seus diligentes assessores de imagem e aceite nas redacções sem um assomo de interrogação: o homem que mal começou a governar e já recebia o Nobel da Paz, o bom pai de família, culto, sorridente, tolerante, descontraído, elegante e bem humorado - em jantares risonhos, passeios informais, bailes de gala e divertidos talk shows.

Um político com imensas qualidades, sem dúvida, mas cujo mandato foi agora avaliado negativamente pelos eleitores norte-americanos, que recusaram a candidata de Obama e optaram pelo Partido Republicano nas corridas à Presidência dos Estados Unidos, ao Senado e à Câmara dos Representantes. Numa jornada eleitoral em que os republicanos também conquistaram terreno nas eleições para  governadores (onde dispõem da mais larga maioria desde 1922) e para os parlamentos estaduais.

Quais as sombras projectadas pela administração Obama que prejudicaram seriamente Hillary Clinton e arrasaram o Partido Democrata nas urnas? Outra excelente história que não chegou a ser contada. Porque a propaganda se sobrepôs ao jornalismo.

 

4

Uma personagem de um filme de John Ford, jornalista de profissão, proclamava no Velho Oeste: “Quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda.”

Imitando essa figura de ficção, demasiados jornalistas andam por cá a imprimir a lenda, impondo-a como verdade unidimensional. Tudo isto esbarra no entanto com um sério problema: quando os factos desmentem a lenda, toda a construção mediática anterior cai pela base. E o descrédito dos meios de comunicação clássicos amplia-se ainda mais.

Não admira portanto que as pessoas se virem em doses crescentes e maciças para as "redes sociais". Lá, ao menos, e no meio de imenso lixo, acabam enfim por encontrar o indispensável e elementar contraditório que os media tradicionais estupidamente lhes vão negando.

 

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Se a esquerda quer mesmo perceber como raio é possível alguém inteligente apoiar Trump, pode começar por perguntar a muita malta inteligente de esquerda por que raio gostava tanto de Hugo Chávez.

Luís Aguiar-Conraria, n'A Destreza das Dúvidas.

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Ainda isto

por Rui Rocha, em 10.11.16

Abomino Trump. Jamais votaria em Trump. Que o Deus das eleições me perdoe, mas mais depressa votaria num bandalho como Sócrates do que em Trump, ainda que só de pensar nisso já me sinta agoniado. Dito isto, espanta-me muito que os guardiões encartados da democracia venham agora, perante a eleição de Trump, manifestar a sua condescendência: não há problema que o gajo não vai fazer nada do que prometeu. Como diz que disse? Esta gente não aprende? Desvalorizaram a dimensão do eleitorado de Trump antes da ida às urnas. Desrespeitam o sentido do voto democrático que o elegeu logo no dia a seguir às eleições.

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Prevendo uma Presidência Trump

por João André, em 10.11.16

E passaremos a escrever Presidente Trump. Não sei se o farei, custa-me. Para explicar o que aconteceu, que se leiam os especialistas, coisa que não sou. Pelo que leio na imprensa internacional que respeito, alguma da tal em decadência, Trump terá vencido ao concentrar o voto do eleitorado branco sem educação superior mas não necessariamente de rendimentos mais baixos. De certa forma parece que Trump soube ir capturar os ressentimentos de todos os Archie Bunkers americanos para quem os candidatos nunca ou raramente falaram (não eram um verdadeiro grupo demográfico para as sondagens) e que queriam ser ouvidos.

 

Por isso Trump atacou muçulmanos, latinos, asiáticos, negros e todo o establishment que permitiu a ascenção de tais grupos. Por isso atacou também o comércio livre que permitiu aos EUA tornarem-se na nação mais rica - de longe - do planeta. Por isso admirou ditadores e autocratas que lembrassem a este grupo a força que perderam mas que ainda poderia ser deles.

 

Não invoco isto para explicar a vitória de Trump. Invoco isto para falar do que poderá vir a ser a sua presidência. É que Trump foi eleito por estas pessoas e sabe que não conseguirá reconquistar aqueles que antagonizou sem virar o seu eleitorado base contra si. Por isso é provável que não abrande a mensagem mas que a reforce. Por isso é provável que, uma vez na Casa Branca, não passe a ser mais moderado e centrista. Não poderá fazer tudo quanto gostaria, devido ao balanço de poder dos EUA e das leis que estão em vigor, mas não será certamente por falta de vontade.

 

Vejamos algo que poderá ser o caso mais desastroso: o golpe duplo de rasgar o NAFTA e erigir um muro na fronteira com o México. Se rasgar o acordo NAFTA acabará a, senão destruir, pelo menos a dar um golpe enorme na economia mexicana, que envia 80% das suas exportações através da fronteira. Se ao mesmo tempo colocar um muro na fronteira, teoricamente impede mexicano de entrar. Só que há aqui um problema: pessoas desesperadas - como os mexicanos ficariam numa economia a colapsar - correm os riscos que forem necessários. Os mexicanos acabariam a destruir a fronteira pelos meios que pudessem a menos que os EUA colocassem o exército ao longo da sua fronteira de 3.200 quilómetros. Isto destruiria a economia do país vizinho e criaria uma situação de guerra nas fronteiras do peóprio país. A piorar o cenário estaria o simples facto que os produtos que não chegassem do México teriam de ser produzidos internamente, a custos mais elevados (e assumindo que existiria mão de obra para tal). Isto levaria a um aumento da inflação, que levaria a aumentos de salários para manter a base satisfeita e acabaria numa economia completamente fora de controlo.

 

E esse é apenas um aspecto. Vejamos agora a política externa. É de crer que ou Trump terá um encontro com Putin nas primeiras semanas da sua presidência ou que Putin colocará o exército em exercícios extensivos nas fronteiras dos países bálticos, só para ver como Trump reage. Uma cimeira é mais provável e é altamente crível que Putin acabe a conseguir de Trump tudo o que quer. Não seria de espantar se Trump aceitasse uma intervenção russa na Síria ainda mais alargada que agora em troca de ficar com algum território (ou recursos) para si. Imagino facilmente Trump e Putin a dividir o território no Médio Oriente. Para cúmulo, com Trump a cumprir a promessa de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e a aceitar a expansão dos colonatos - além de rasgar o acordo com o Irão - a região acabaria ainda mais a ferro e fogo, numa revolta dos árabes aos piores níveis do passado. Uma Europa sem a protecção americana, um Médio Oriente em chamas e um extremo oriente com Coreia do Sul, Japão e Coreia do Norte numa corrida nuclear. Soa bem, não é?

 

E quanto à sociedade americana? Bom, Trump prometeu rasgar o Obamacare, algo que não pode ser feito sem grandes custos financeiros, independentemente do resto das consequências. Trump não deu nenhum plano de saúde - quase de certeza porque nem pensou no assunto - mas as indicações que deu já foram consideradas por republicanos como um apanhado sem sentido de propostas do passado. Seja como for, para não antagonizar a sua base, Trump terá que acelerar o desmantelamento do Obamacare, o que custará (muito) dinheiro (nada que o incomode) e que terá de ir buscar a outros lados (já lá vamos). Além disto, poderá nomear o próximo juiz do Supremo Tribunal e fazer tender a balança para o lado conservador. Como dois dos juízes liberais e um dos conservadores já estão com 78 ou mais anos de idade, poderá até escolher outros três. No final de um primeiro mandato poderia escolher 4 juízes, passando o equilíbrio de 4-4 (ou 5-4 a favor de conservadores) agora para 7-2 a favor de conservadores, os quais o seriam provavelmente ainda mais que o tradicional, dado que não enfrentariam oposição de monta no Congresso.

 

Estas mudanças na sociedade iriam embater em vários avanços ou situações presentes. As leis que sustentam Roe vs Wade seriam provavelmente alteradas e Trump chegou mesmo a prometer uma forma de punição para as mulheres que abortem. O casamento homossexual estará em risco se ele o puder conseguir e a NRA poderá obter concessões verdadeiramente escabrosas, como a possibilidade de licenças de porte de arma serem transportáveis entre estados (permitindo que criminosos possam adquirir armas noutros estados e levá-las para o seu). Além disto prometeu uma polícia mais musculada e com menos controlos externos. Mortes a tiro de suspeitos poderão tornar-se depressivamente mais comuns.

 

Tudo isto sem falar no próprio comportamento de Trump, que demonstrou já o seu desprezo por quase toda a gente que não seja família e a sua falta de respeito por qualquer pessoa que não seja Donald Trump. Mulheres estarão particularmente ameaçadas. Se não directamente pelo próprio Trump, então por outros que se revejam no seu (execrável) exemplo. A título muito pessoal, não me admirarei se acabarmos um dia com a notícia de Trump ter violado alguma estagiária em plena Casa Branca.

 

Os imigrantes nos EUA, por seu lado, poderão estar a tremer, sejam legais ou não. Há quem diga que deportar 11 milhões de pessoas é impraticável, mas os EUA têm um hábito de conseguir o impraticável. Se o fizerem haverá certamente muitas crianças atiradas fora com a água do banho. As consequências numa economia que em muitos sectores está dependente destas pessoas é essencialmente imprevisível. Já impedir a entrada de muçulmanos, mesmo que isto seja inconstitucional, pode ser conseguindo contornando o problema (como Trump já o fez), dizendo que será apenas com aumento do controlo (já de si extremamente exigente) de imigrantes vindos de "países com terrorismo islâmico". Isto na prática permitiria impedir a entrada de qualquer muçulmano mas também colocaria obstáculos à entrada de, por exemplo, franceses, ingleses ou belgas. O país de imigrantes (Trump é neto de um alemão e casado com uma eslovena) fecharia as portas como talvez nunca antes na sua história.

 

Financeiramente a situação é ainda mais preocupante. Trump prometeu acabar com as cláusulas que permitem a directores de hedge funds pagarem impostos mais baixos. Isto seria (pelo menos parcialmente) promissor se não fossem outras promessas, como cancelar a lei Dodd-Frank que mantém algumas medidas de controlo sobre a especulação financeira. Os financeiros poderiam não mais ter certas cláusulas para explorar, mas pdoeriam provavelmente explorar outras. E sendo Trump quem é, também é muito possível que passe leis que se destinem a beneficiar (ou às suas empresas) directamente. Os cálculos aos custos dos planos económicos e financeiros de Trump indicam uma explosão da dívida de quase 50% em 10 anos. Isto sem que os gastos viessem beneficiar muito a população em si. Adicionando a isto a sua tendência isolacionista que pode perfeitamente causar uma guerra comercial (os chineses, para salvar a face, estariam culturalmente e em princípio muito mais dispostos a sofrer tais consequências que os americanos). Mesmo não percebendo muito de economia, imagino que o valor do dólar teria tudo para cair, os preços internamente para subir e a inflacção para disparar. E se quando a economia americana tem uma constipação a economia mundial apanha uma pneumonia, imaginem-se as consequências da pneumonia americana.

 

Claro que é possível que Trump não faça tudo isto (é inclusivamente provável) e até é possível que faça só algumas destas coisas. É possível que o Congresso, o Partido Republicano, ou os lobbies lhe façam frente. É possível que ignore tudo isto e deixe Mike Pence fazer tudo (seria de si mau, mas não tanto quanto a alternativa). É possível que Trump seja capturado pelo establishment (uma Casa Branca a cumprir os seus caprichos é algo que mesmo a sua - suposta- fortuna não pode comprar). Mas o risco está aí. Acima está apenas uma análise a algumas das promessas de Trump. É simplista, mas menos que os planos em si. Se há alguma coisa que desejo, é que me venham dizer, daqui a 4 anos, que eu estava completamente errado.

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Lisboa, bandeira do mundo livre

por Rui Rocha, em 10.11.16

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Leio que anda por aí alguma indignação (não muita, na verdade, que o promotor da coisa é de esquerda e goza da presunção universal da virtude original) contra a iniciativa de Fernando Medina de colocar cartazes anti-Trump na zona onde decorre o Web Summit: Lisboa como bandeira do mundo livre e local onde o cidadão em busca de justiça pode construir o seu futuro. Meia-dúzia de mal intencionados perguntam: "quem é o gajo para estar agora a fazer juízos de valor sobre o resultado das eleições americanas?". Estas vozes, claro, não perceberam nada. Medina tem consigo a legitimidade absoluta do voto livre dos cidadãos que o elegeram a ele, de forma pessoal e intransmissível, para o cargo que ocupa. Quem é que esse tal Trump pensa que é?

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Previsível.

por Luís Menezes Leitão, em 09.11.16

Durante imenso tempos os jornalistas andaram a fazer uma futurologia completamente absurda sobre as eleições americanas, construindo castelos no ar que era evidente que não resistiriam ao mais leve sopro da realidade. Disseram que o Partido Democrata ia ganhar o Senado, que Hillary Clinton já tinha assegurado 303 votos no colégio eleitoral e que tinha 90% de hipóteses de ganhar a eleição. A certa altura o absurdo foi tão grande que até se pôs a hipótese de Hillary Clinton ganhar o Texas, desde sempre um bastião republicano.

 

Sempre me pareceu que esses jornalistas estavam a tomar os seus desejos pela realidade. Ora, a realidade é que Hillary Clinton sempre foi uma candidata fraca, não conseguindo entusiasmar nenhum eleitor e tendo, pelo contrário, elevadíssimos índices de rejeição no eleitorado. Por isso inicialmente teve que recorrer a Michelle Obama, e mais tarde chamou o próprio Obama, que se envolveu na campanha eleitoral de uma forma que não me lembro de um presidente em exercício alguma vez ter feito pelo seu sucessor. E nos seus comícios teve que recorrer a celebridades como Jay-Z ou Beyoncé para conseguir gerar algum entusiasmo, facto que o próprio Trump não deixou de salientar. Foi por isso uma péssima decisão do Partido Democrático em escolher Hillary Clinton como candidata. Bernie Sanders podia ser um candidato mais à esquerda, mas tinha algumas hipóteses de bater Trump. Hillary Clinton, com os níveis de rejeição que sempre teve nos eleitores americanos, até pelo Rato Mickey seria derrotada.

 

Ora, Donald Trump pode ser conhecido por the Donald, mas não é o Pato Donald. Pode ser extremamente grosseiro, arrogante, provocador e insultuoso, mas é inteligente, ou não teria tido o sucesso que teve nos negócios. Por isso nunca poderia ter sido subestimado, nem se poderia confiar que os eleitores americanos, que o conhecem muito bem há décadas, se escandalizariam com revelações sobre a sua linguagem desbragada.

 

Bastava, aliás, recordar a forma estrondosa como Trump ganhou a nomeação republicana, arrasando candidatos muito mais favoritos, exactamente com o mesmo estilo, para se perceber que Hillary Clinton — que só tinha vencido tangencialmente Bernie Sanders — teria extrema dificuldade em responder ao discurso populista de Trump, de nostalgia pelo regresso ao sonho americano. Ora, o que se viu foi que muitos eleitores alinharam fervorosamente nesse discurso, mesmo nas minorias que Hillary Clinton dava como asseguradas. Na verdade, os media criaram uma ficção de favoritismo absoluto de Hillary Ciinton, que nunca existiu nesta eleição. Por isso, ontem, confrontada com a realidade, Hillary Clinton nem foi capaz de fazer o discurso de derrota, só o tendo feito há momentos.

 

Sun-Tzu escreveu que aquele que se conhece a si mesmo e conhece o inimigo, pode garantir a vitória, mas quem conhece o tempo e o terreno a alcançará de forma absoluta. Manifestamente dos dois candidatos, só Trump percebeu o terreno que pisava: o de um país revoltado, frustrado com a globalização e ansioso pelo regresso ao proteccionismo e ao sonho americano, que ele lhe prometia. Foi por isso o vencedor da noite. Hillary Clinton não percebeu o que o marido tinha percebido ser decisivo para ganhar umas eleições: "It's the economy, stupid!".

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A decadência do jornalismo

por Pedro Correia, em 09.11.16

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«Estabeleceu-se e orientou-se uma tendência para a preguiça intelectual e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade.»

José Saramago (2001)

 

Alguns correspondentes de canais televisivos portugueses nos Estados Unidos e alguns enviados especiais a Nova Iorque – que mal desembarcam em Times Square logo se transformam em “especialistas” da política norte-americana – foram incapazes, até ao momento, de explicar as causas do sucesso eleitoral de Donald Trump.

Continuam a reduzir o recém-eleito Presidente norte-americano às anedotas. Deles se esperariam que fizessem reportagens mas preferem debitar editoriais defronte das câmaras, dizendo-nos o que pensam sobre o milionário que andou por aí a “insultar tudo e todos”, como um deles repetia ontem à hora do jantar. Sem perceber que a campanha eleitoral terminara já.

 

Andámos assim durante 16 meses.

Trump foi derrubando sucessivas barreiras – contra o establishment republicano, contra a esmagadora maioria da opinião publicada nas cidades-chave, contra a nata do show business que apoiou a sua adversária democrata, contra o  Presidente Obama e a primeira dama - mas a explicação rigorosa e fundamentada para a progressão eleitoral do magnata continuou sem surgir: sobravam apenas anedotas de circunstância.

Eis que Trump vence, conquistando redutos rivais como a Pensilvânia (que elegia candidatos democratas desde 1992) e o Wisconsin (fiel ao Partido Democrata desde 1988). Será o primeiro Presidente republicano a governar com maioria simultânea do seu partido nas duas câmaras do Congresso desde o remoto mandato de Calvin Coolidge, em 1928.

Como é que um homem sem ligações permanentes aos circuitos do poder em Washington, diabolizado na generalidade da imprensa de referência e que nunca exerceu um cargo público (nem senador, nem congressista, nem governador), alcança um êxito tão retumbante nas urnas?

Lamentavelmente, ficou uma excelente história por narrar.

 

Durante ano e meio não houve praticamente uma notícia que aludisse a Trump num contexto favorável, capaz de lhe reconhecer méritos. Já mesmo depois de contabilizados os votos nas urnas, alguns correspondentes e enviados especiais continuam incapazes de fornecer explicações. Viveram durante demasiado tempo em estado de negação, sofrem agora um choque de realidade.

Acabou o tempo em que alguns editorialistas, com a força da sua pena, faziam eleger presidentes. Trump acaba de demonstrar que sem o apoio da chamada elite do jornalismo, e até hostilizando-a abertamente, é possível triunfar nas urnas. Durante a longa campanha eleitoral, passou todas as mensagens que quis e quando quis recorrendo quase em exclusivo às redes sociais.

Um dos marcos desta campanha - pela negativa - ocorreu quando o Washington Post, que em 1974 conseguiu derrubar o presidente Richard Nixon com uma investigação jornalística sólida e séria, optou desta vez por dar destaque a uma alcoviteirice sobre Trump com base numa gravação feita à socapa, em 2005, de uma conversa estritamente privada. Ao nível de qualquer tablóide de vão de escada, o que diz muito sobre os tempos que vivemos.

 

Por tudo isso estas eleições nos Estados Unidos não devem suscitar só reflexões de âmbito político: justificam igualmente uma análise séria sobre o rumo dos meios de comunicação no mundo contemporâneo. Porque, de algum modo, representam também um marco irreversível na decadência do jornalismo clássico, cada vez mais irrelevante.

Ninguém tenha ilusões: há páginas que se viram para sempre.

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O futuro é um lugar imprevisível

por José António Abreu, em 09.11.16

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1.

Será interessante ver se Donald Trump - claramente alguém que não se preocupa com o detalhe ou com a coerência - irá aplicar muitas das medidas que defendeu. Sendo certo que o Partido Republicano controlará Câmara dos Representantes e Senado, muitos dos seus elementos discordam de Trump; porém, o poder tende a atenuar divergências. E os eleitores estão à espera de mudança - em parte, a que Obama prometeu e não concretizou.

 

2.

Se Hillary Clinton perdeu, Obama é o outro grande derrotado da noite. A eleição de Trump permite verificar quão insatisfeitos estão os norte-americanos com a sua presidência. Tivesse Obama conseguido os resultados que muitos por cá - e por lá - lhe atribuem, Clinton teria vencido. Pessoas satisfeitas não querem mudança - ainda por cima, com elevadíssimo grau de risco.

 

3.

Algumas medidas parecem certas. Por exemplo, o fim do Obamacare e o adiamento de qualquer medida para controlar a venda e posse de armas. Do ponto de vista de um europeu, são questões irrelevantes, exclusivamente de política interna. Há, no entanto, três temas com alcance global: o eventual proteccionismo económico, a política externa e a política monetária. Em nenhum deles o comportamento de Trump pode ser dado como adquirido.

 

4.

No campo da Economia, depois de tudo o que disse e das expectativas que criou, Trump está forçado a fazer algo. O TTIP já morrera durante a presidência Obama, mas veremos o que sucede com o NAFTA, que muitos congressistas republicanos têm apoiado, e em que bases se estabelecerá a relação com a China. Seja como for, o comércio global irá quase certamente ressentir-se. Quem hoje celebra, poderá rapidamente constatar que fechar fronteiras não significa mais riqueza - especialmente no caso de países pequenos como Portugal, que apenas poderão crescer captando recursos no exterior.

 

5.

Vladimir Putin foi o outro grande vencedor do dia. Uns Estados Unidos focados na política interna e desinteressados da NATO abrem-lhe as portas para todos os impulsos. Resta saber em que moldes Trump procurará cumprir a promessa de acabar com o Daesh. E se, mais cedo ou mais tarde, como sucedeu a George W. Bush, não acabará arrastado para conflitos que deseja evitar. Para Israel (mas também para a Palestina), os riscos acabam de aumentar exponencialmente.

 

6.

Para o bem e para o mal, a acção dos Bancos Centrais tem sido decisiva no equilíbrio do castelo de cartas em que a Economia se transformou. Irá Trump permitir uma correcção dos mercados, que terá sempre reflexos violentos na vida diária das pessoas? Parece-me improvável. Trump anunciou investimento público; necessita de uma Economia capaz de lhe fornecer o dinheiro necessário (ainda que artificialmente). E mais: Trump é um especulador e um milionário; fará tudo para evitar prejuízos.

Evidentemente, os desejos dele podem mostrar-se irrelevantes. Ninguém segura um castelo de cartas depois de ele estar em queda.

 

7.

Nos países mais prósperos, onde as últimas décadas criaram a ilusão de que era possível manter os níveis de enriquecimento e protecção social sempre a subir, as pessoas andam insatisfeitas. É compreensível. Menos compreensível é que exprimam a insatisfação de forma irracional, votando para acabar com algo em vez de para construir uma alternativa coerente. Inevitavelmente, uma alternativa surgirá; contudo, numa época em que globalmente se vive muito melhor do que em qualquer outra na História, ela pode revelar-se bastante pior do que a situação de partida. Será então demasiado tarde para lamentos. Isto aplica-se à eleição de Trump, mas também à vitória do «sim» no referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, à vitória do Syriza na Grécia, à quase-eleição de Norbert Hofer na Áustria (no dia 4 de Dezembro ver-se-á se o «quase» está a mais), à eventual vitória de Marine LePen em França, aos resultados do Podemos em Espanha ou do AfD na Alemanha, etc., etc., etc.. Quando se unem todos os pontos, a imagem final é assustadora. Mas é o que é, e não vale a pena cair em lamentos. Ou talvez apenas para constatar que a expressão «que possas viver em tempos interessantes» terá resultado da adulteração de uma mensagem defendendo exactamente o contrário.

 

(Foto recolhida na net; não consegui determinar o autor.)

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2019

por José Navarro de Andrade, em 09.11.16

Ainda antes da tomada de posse do 45º Presidente dos Estado Unidos da América começa o êxodo maciço de latinos.
A multidão acumula-se nas fronteiras. Há quem esteja mais de uma semana à espera de passar. Erguem-se os primeiros acampamentos.
O México encerra as fronteiras de Tijuana, Mexicali, Nogales, San Luis Rio Coronado, Sonoyta e Ciudad Juarez por tempo indeterminado para reorganização.
Os tumultos e os incidentes recrudescem no lado americano da fronteira. Já são centenas de milhares que gritam “Volveremos!”. O Presidente Obama decreta o Estado de Emergência e envia a Guarda Nacional. É a sua última medida.
Residentes em El Paso dizem que em Juarez a fuzilaria é incessante dia e noite. Há quem diga ter visto rockets – “It’s a civil war down there.”
Agricultores californianos alarmam o país, não há mão-de-obra para apanhar as colheitas hortícolas. Pela primeira vez na sua história os Estados Unidos têm de importar tomate.
O presidente Trump anuncia que a independência energética será o seu primeiro objectivo e que os EUA apoiarão a produção do fracking custe a quem custar. A Arábia Saudita reduz drasticamente a venda de petróleo e o preço sobe vertiginosamente.


Com o súbito e enorme agravamento das taxas de importação dos EUA, a Mercedes, a BMW e a Audi registam uma queda vertiginosa nas vendas.
Nas eleições federais de 2017 a CDU da Chanceler Merkel tem uma derrota histórica. Larga maioria absoluta para o SPD com o slogan “Deutschland zuerst”.
Declaração do novo Chanceler: “Rejeitamos toda e qualquer forma de expansionismo. A nossa economia tem de assentar no consumo interno.” A Alemanha sai do Euro. Os bancos alemães sofrem um forte investimento do Estado para se restruturarem em função da nova política económica. É lançado um ambicioso plano económico de desenvolvimento para os estados de Mecklenburg-Pomerânia, Brandenburgo, e as duas Saxónias.
A Presidente Marine Le Pen acorda com a Alemanha uma saída simultânea da França e da Alemanha da União Europeia. As diplomacias dos dois países começam a negociar uma miríade de acordos económicos bilaterais entre França, Alemanha, Polónia, República Checa, Hungria, Áustria, Valónia, Flandres, Suíça e países escandinavos.
Os países escandinavos e a Finlândia tomam medidas conjuntas para a revogação no prazo máximo de 60 dias das licenças de residência para todos os cidadãos não-europeus, mesmo os já nascidos em solo nacional. Todas as mesquitas são fechadas, mas o culto em privado é tolerado.
Após o brexit a Escócia torna-se independente por referendo. Em Espanha o governo do Podemos promulga a independência da Catalunha e do País Basco após referendo. Segue-se a Padânia na península Itálica. Primeiras acções armadas independentistas na Córsega.

No já célebre discurso de Tallinn o Presidente Trump declara que os EUA não podem suportar sozinhos a NATO. Os representantes da França e da Turquia interrompem-no dizendo que essa afirmação é falsa.
No dia seguinte há incidentes simultâneos com guardas russos nas fronteiras da Estónia, da Letónia e da Lituânia.
O presidente Putin anuncia a operacionalidade a 100% da capacidade nuclear instalada em Kaliningardo.

Com as exportações para os EUA brutalmente reduzidas, o governo Chinês anuncia que passará a dirigir o seu investimento para a África e os países asiáticos do Índico. Entretanto procede a um ataque em forma às bolsas mundiais. A bolsa de Nova Iorque fecha durante dois dias – é o colapso financeiro nas bancas americana e europeia.
Primeiras trocas de fogo entre a China e o Japão em torno das Ilhas Senkaku / Diaoyu.
A China tenta impedir a passagem de uma esquadra militar dos EUA pelas águas territoriais das nas Ilhas Spratly.
Os vasos de guerra estão frente a frente, o mundo aguarda o discurso de Presidente Trump.

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São loucos, estes americ... Romanos, pois!

por Marta Spínola, em 09.11.16

Vamos cá a ver: havia duas possibilidades e nunca houve uma maioria clara de Hillary Clinton. Não é que haja uma surpresa com Trump, a questão para mim não é tanto ele, que com o seu discurso desta manhã deixou em aberto um caminho para a moderação. Também é ele, que fez uma campanha de palhaço (literalmente) rico e venceu. Veremos o que por aí vem, que remédio.

Deixo a análise política para quem a sabe fazer, eu gosto (ou não) é de observar as pessoas. E o que continua a chocar-me é que as pessoas gostam de um bom circo, mesmo na vida real. Gostam ao ponto de levar circo ao poder para verem mais. Talvez também seja culpa dos canais pagos, pelo menos o presidente tem de dar em sinal aberto, e é entretenimento garantido. O que me preocupa de momento é que quem votou o fez ou porque crê naquela conversa da família americana - quando nem a dele o é! -, ou, e arrisco que pior, quem riu muito com ele, as suas alarvidades e grosserias. Isso não é frontalidade, é circo.

Já sei que a Hillary tem imensos defeitos e "ele é péssimo mas ela também é má" (e foi esta conversa que a vez perder, não tenhamos ilusões), e não sabemos, nem saberemos, como seria se fosse ela a eleita. Agora já está. Olho para trás e vejo como o meu choque com a reeleição do W Bush, parece tão ingénuo perto do de hoje.

Esta campanha foi só circo, e a minha fé na seriedade das pessoas está cada vez mais fraquinha. Sendo eu uma pessoa que adora rir e não reconhece limites ao humor, já vêem o que a ignorância me assusta.

Se falarmos no circo romano, há choque e horror, era um absurdo e uma barbárie. O pão e circo como campanha é uma coisa muito mal vista, mas só à distância de uns séculos. Vemos mal ao perto.

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Confesso: é penoso assistir a “noites eleitorais” dominadas por tudólogos que nada percebem sobre coisa nenhuma mas são capazes de perorar horas a fio sobre não importa o quê. Voltou a acontecer nesta longa emissão televisiva em que se sucediam as mais assombrosas declarações de ignorância sobre a vida real dos Estados Unidos proferidas por gente que observa o mundo pelo buraco da fechadura do eixo Chiado-Príncipe Real.

Com honrosas excepções (das quais destaco Miguel Monjardino e Nuno Rogeiro), nesta longa noite americana, que foi a do naufrágio eleitoral do Partido Democrata, assistimos ao triunfo da ignorância, incapaz de perceber as causas políticas e sociológicas da vitória de Donald Trump e do esmagador domínio do Partido Republicano – que venceu as eleições para a Casa Branca, para o Senado, para a Câmara dos Representantes, para a maioria dos parlamentos estaduais e para a maioria dos governadores que foram a votos.

Sucediam-se banalidades na pantalha. “Os Estados Unidos são um país muito grande”, balbuciava Fulano, preenchendo tempo de antena antes da contagem dos votos. “Normalmente as sondagens nos EUA não falham”, alvitrava Beltrano enquanto os boletins eram contabilizados. “O partido que neste momento tem mais problemas é o Republicano", asseverava Magano, recém-aterrado de Marte. "Ninguém estava à espera que uma coisa destas acontecesse”, escandalizava-se Sicrano após o apuramento dos resultados, passando um atestado de incompetência a si próprio.

Para cúmulo, foram buscar um "especialista em sondagens” que, incapaz de acertar na maioria das pesquisas de opinião que tem feito em Portugal, surgiu nos ecrãs como putativo connaisseur da sociologia eleitoral norte-americana. Tinha o currículo adequado para falhar. E falhou mesmo: pouco depois da meia-noite apresentava ao País um mapa com os Estados do  Michigan, da  Pensilvânia e do  Wisconsin pintados de azul – a cor do Partido Democrata. Infelizmente para ele, a realidade encarregou-se de o desmentir.

Nada a que não esteja habituado.

Do mal o menos: sobre a Virgínia esta sumidade não se pronunciou. “Só conhecendo a Virgínia bem, que eu sinceramente não conheço”, justificou-se. Como se conhecesse algum dos outros 49 Estados norte-americanos.

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada da noite eleitoral. Mas não está só: tem a companhia destes tudólogos. São em número cada vez maior: mal cabem na bolha do Chiado onde se imaginam a recriar o mundo.

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Imperdoável

por Teresa Ribeiro, em 09.11.16

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"Duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, mas quanto ao universo ainda não tenho a certeza"

- dedico esta frase de Einstein ao povo americano. O que votou em Trump e o que não se deu ao trabalho de votar. 

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Hoje milhões de americanos (correcção: noter-americanos; nova correcção: estado-unidenses) irão às urnas. Cerca de 40 milhões já o terão feito por recurso ao voto antecipado. Se há democracias maiores, esta é a mais importante do mundo e mesmo quem não gosta do país terá dificuldades em o negar.

 

Na escolha do próximo presidente há 6 candidatos possíveis, 4 com visibilidade nacional mas só 2 têm reais possibilidades de vencer. Pessoalmente não subscrevo a tese do voto útil, especialmente num país como os EUA. Mesmo que um voto mais de acordo com a consciência e ideologia de cada um (em Gary Johnson para os Libertários ou Jill Stein para os Verdes, por exemplo) leve à eleição de alguém de quem não se goste, o país tem fundações democráticas sólidas que evitariam que uma presidência, independentemente da figura, acabasse num desastre consumado. Se o voto útil acontecer, deve ser porque o medo da eleição de alguém não desejado se sobrepõe às preferências individuais.

 

Não vou escrever muito sobre Donald Trump. A sua personalidade pública (aquela que podemos ver) é a de um ignorante, misógeno, xenófobo, racista, brutamontes, mitómano, egomaníaco e narcisista (estas duas também parecem fazer parte da sua faceta privada). Isso, por si só, é suficiente para o desqualificar de qualquer presidência.

 

Falar em Hillary Rodham Clinton é questionar a razão para o ódio que lhe é dirigido. Parece em parte provir da sua ambição, mas faz sentido perguntar se a de outros homens teria sido questionada. A sua parte na reforma (falhada) do sistema de saúde aquando da presidência de Bill Clinton também parece contribuir. Igualmente o seu muito criticável hábito de secretismo (que levou ao caso dos e-mails em servidores privados) a torna alvo de desconfiança. Não ajuda que seja uma mulher que não gere empatia, sendo mais cerebral e fria que aquilo que se esperaria. Contudo, nada que não se veja noutros políticos.

 

Este ódio que ela gera à direita é ainda mais estranho pelo simples facto de ela ser, mesmo dentro do panorama político americano, tudo menos uma esquerdista (os americanos preferem o irónico “liberal”). Na política americana ela deveria ser colocada no centro, com alguns pontos mais à esquerda mas nunca por muito. Na Europa ela seria colocada firmemente no território da democracia-cristã, num centro-direita claro.

 

Como seria a sua política como presidente? Provavelmente aborrecidamente sólida. O seu currículo como secretária de estado ou senadora indica que é conhecedora dos dossiers mas prefere avanços feitos por pequenos passos, sólidos mas sem aventuras. Também tem hábito de conseguir obter colaborações com republicanos, mesmo alguns que eram visceralmente contra ela. Não parece guardar (muitos) rancores e engole por vezes o orgulho para atingir os seus objectivos.

 

É vista pela esquerda como demasiado próxima aos grandes grupos empresariais. Isto é um facto. As suas presenças no circuito de discursos nos EUA trouxe-lhe uma fortuna agradável e forte proximidade a CEOs e outras figuras do mundo empresarial e financeiro dos EUA. No entanto isso deveria ser uma vantagem. Tais personalidades conseguem ter sempre acesso a qualquer presidente: os montantes que controlam ou influenciam, directa ou indirectamente, garante-o. Ter na presidência alguém que conhecem e com quem conversaram no passado garante um diálogo mais certo que aquele que Bernie Sanders (por exemplo) conseguiria. Isso poderá permitir mudanças a leis ou reformas que de outra forma veriam a oposição dessas pessoas.

 

A forma como Clinton aceitou incorporar propostas de Sanders também poderá jogar a seu favor na presidência. Pode lançar para a arena propostas mais à esquerda do que desejaria para, após a sua rejeição, propôr alternativas que incialmente preferiria. Sendo Clinton uma política orientada para procurar consenso, isso ajudá-la-ia imenso.

 

O principal obstáculo será sempre um congresso (e talvez um senado) controlado pelos republicanos. Isso em si não é mau. O sistema de checks and balances dos EUA procura precisamente esses equilíbrios entre os vários órgãos executivos (se bem que ter ambas as câmaras a operem-se-lhe pode ser demais). O obstáculo é que muitos republicanos começam a ver o valor de optar por uma política de terra queimada e de ataque ao sistema político de Washington, sem permitir a mais simples sombra de compromisso. Isso poderá levá-los a rejeitar toda e qualquer proposta de uma presidente Clinton, mesmo que vá de encontro aos seus interesses e ideias. No entanto, mais uma vez, a alternativa seria pior.

 

Do lado democrata, a alternativa era Bernie Sanders, alguém de quem eu estaria mais próximo ideologicamente. Num cenário europeu Sanders estaria talvez no centro esquerda (depende do país: nos países escandinavos até poderia assemelhar-se por vezes a um centrista). Só que nos EUA ele está tão à esquerda que teria oposição não apenas dos republicanos (mesmos em recorrerem a intransigências) mas também de muitos democratas. Tivesse ele sido escolhido como candidato democrata contra Trump e o cenário seria o de um frente a frente entre um futuro de parálise e outro de incompetência.

 

Penso que os americanos/norte-americanos/estado-unidenses acabarão por escolher Clinton. Escolher Trump será um desastre não por si mesmo (os checks and balances manter-se-iam) mas porque muitos representantes republicanos sentiriam a necessidade de o apoiar, quanto mais não seja para aproveitarem a onda. A escolha de Clinton é pouco apelativa pelo que promete, mas é sólida e basta em si mesma pelo aspecto transformativo que possui (a eleição da primeira mulher presidente após a eleição do primeiro presidente negro). É aborrecida mas isso não é necessariamente mau. No entanto, se finda a contagem Trump acabar na Casa Branca (e deitar fora os outros retratos presidenciais para os substituir pelo seu próprio), a culpa será em grande parte do próprio Partido Democrata.

 

PS: sobre a rejeição da esquerda a Hillary Clinton e os comentários de Slavoj Žižek, basta ler este comentário de Alexandra Lucas Coelho. Não subscrevo a sua visão de Clinton (embora não tenha o seu conhecimento específico), mas a sua análise é claríssima.

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Ora tomates

por Rui Rocha, em 09.10.16

Para muitos eleitores de Trump o conteúdo do video agora divulgado não traz qualquer surpresa ou desconforto. Sabem que Trump é assim, gostam que Trump seja assim, projectam-se a si próprios nessa imagem. Para esses, a única coisa que pode minar a confiança no seu candidato é o facto de Trump ter pedido desculpa. Isso sim poderá ser entendido como sinal de fraqueza.

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Making America great again

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.10.16

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O meu amigo R.M. (espero que ele não se zangue por eu citá-lo aqui) lembrou-se de que em tempos tivemos o New Deal, de Roosevelt. Depois chegou o "Yes, we can", de Obama. E a seguir veio "Grab them by the pussy, Making America Great Again", de Trump.

Por este andar, digo eu, lá para Novembro (se não for já para semana), somos capazes de vir a ter o "We got him by the balls", de Hillary Clinton.

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Food for thought (2)

por José Maria Gui Pimentel, em 02.09.16

Partilhei aqui, recentemente, um retrato dos EUA enquanto "post-genocidal society", uma análise muito útil à compreensão da reemergência do racismo na América contemporânea.

 

Mas há outro tema, tangencial a essa questão, que me tem invadido cada vez mais o espírito: as novas ameaças à liberdade de expressão. Se, historicamente, o inimigo por excelência da liberdade de expressão era a censura activa imposta pela minoria no poder, actualmente a manifestação livre das opiniões encontra-se ameaçada por um fenómeno mais suave, mas crescente: uma maioria - ou minoria ruidosa - politicamente correcta, cada vez mais vocal, sobretudo, nas redes sociais. Têm sido recorrentes episódios, mais ou menos triviais, de comentários que suscitam a indignação geral, desde a piada de Jose Cid* sobre os transmontanos, ao comentário de Quintino Aires sobre os ciganos, passando pelas inenarráveis diatribes de Pedro Arroja, entre outros.

 

É uma questão que tem gerado mais debate no mundo anglo-saxónico, mas que reencontrei a propósito de um debate que juntou Fernanda Câncio, Daniel Oliveira (o que não ouve olhos) e Ricardo Araújo Pereira, a propósito do livro Trigger Warning: Is the Fear of Being Offensive Killing Free Speech?, de Mick Hume. Um debate tão acalorado – o que é particularmente interessante dada a presença de três incontestáveis esquerdistas – que de uma primeira versão na Feira do Livro gerou um encore na Antena 3

 

Ricardo Araújo Pereira defendia (apaixonadamente, diga-se) a posição do autor, jornalista britânico, que vem insurgir-se nesta polémica essencialmente contra a percepção crescente da existência de um direito à indignação maciça contra afirmações consideradas "ofensivas" proferidas por um indivíduo. Argumenta Hume que esse direito à ofensa extravasa aquilo que a legislação que protege a liberdade de expressão prevê, podendo, por conseguinte, ao mesmo tempo que impede a disseminação dos 9 em cada 10 comentários imbecis e ofensivos, coarctar o debate livre de problemas e ideias, bem como a própria criatividade.

 

O efeito da mordaça identificada por Mick Hume não é, evidentemente, comparável com a situação da liberdade de expressão noutros tempos e, mesmo actualmente, noutras geografias. No entanto, o autor identifica uma tendência - agudizada pela conspicuidade das redes sociais - que não deixa de dar que pensar.

 

Finalmente, vejo nesta questão uma ramificação mais premente: a emergência de políticos radicais, como Donald Trump nos EUA (daí a tangente deste tema ao primeiro). Com efeito, a ditadura do politicamente correcto vinha forçando, nos últimos anos, os candidatos a um discurso artificial e redondo. Trump veio contrariar abertamente esse discurso, com uma retórica sem freio mas que é vista por muitos apoiantes como genuína.

 

* Cid tem, ironicamente, pouco de que se queixar; há anos que diz as maiores enormidades à frente de microfones (lembro-me de um comentário semelhante sobre os chineses, povo felizmente menos dado a protestos). 

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Trump e outros populismos

por José António Abreu, em 11.08.16

A maior tragédia da candidatura de Donald Trump seria a sua eleição. Felizmente, tal começa a parecer improvável.

A segunda maior tragédia da candidatura de Donald Trump - como, de resto, da maioria dos populismos, sejam estes de direita ou de esquerda - é distorcer o debate, afastando-o dos temas e das soluções que verdadeiramente importaria discutir.

As políticas de Barack Obama, que Hillary Clinton prosseguirá, são passíveis de inúmeras críticas: o aumento exponencial da dívida, a que correspondeu apenas um crescimento tímido da Economia; os riscos gerados pela política financeira, de - não obstante a retórica em contrário - apoio a Wall Street; a estagnação dos níveis salariais; o recrudescimento da violência racial; a tendência para o aumento de impostos; as hesitações e contradições da política externa. Seria fundamental que existisse uma oposição à altura, chamando a atenção para estas e outras questões (mas questões verdadeiras, não as que se baseiam em números inventados ou em sensações, como o putativo aumento da criminalidade) e avançando com propostas alternativas, concretas e viáveis. No mínimo, a discussão forçaria o Partido Democrata a clarificar e a refinar propostas. Nada disso está a acontecer. As frases ocas de Trump, a sua incoerência e a sua incapacidade para manter a discussão no plano das ideias (invariavelmente, e ao melhor estilo autocrático, ele responde a críticas de cariz político com descabelados - perdoe-se-me o trocadilho - ataques pessoais) deixa terreno aberto a Clinton para que possa ser eleita não apenas com relativa facilidade mas sem ver o seu programa devidamente escrutinado.

Isto é terrível para a democracia. Os populismos são perigosos por criarem realidades alternativas e fazerem muitas pessoas acreditar no impossível, mas também por (1) levarem os adversários a entrar por seu turno na baixa política dos ataques pessoais e das promessas irrealistas (ou, a prazo, prejudiciais), (2) diminuírem a extensão e qualidade do debate sobre o que verdadeiramente é possível fazer, e (3) queimarem pontes para compromissos futuros. Mesmo que os populistas não vençam as eleições, a conjugação destes factores aumenta a probabilidade de que sejam (ou continuem a ser) implementadas políticas erradas. E o resultado de políticas erradas é o aumento da insatisfação e dos populismos. O círculo vicioso perfeito. O círculo vicioso em que o Partido Republicano se deixou aprisionar. (A terceira maior tragédia da candidatura de Donald Trump é o modo como fragiliza o partido de Abraham Lincoln, ainda que - sejamos honestos - o processo tenha começado antes dela.) O círculo vicioso que, com ligeiras variantes, elegeu o Syriza, deu força ao Podemos, ao UKIP, à AfD e à Frente Nacional, destruiu o PASOK e ameaça o PSOE, e poderá vir a esvaziar ou a fragmentar o PS, se - e talvez fosse mais adequado escrever «quando» - o falhanço da demagogia em curso forçar uma crise.

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Uma espécie de casa dos segredos

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.07.16

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Primeiro saiu o malfadado artigo da New Yorker que deixou o vendedor de banha da cobra a espumar, a que logo se seguiram as ameaças. Depois veio aquele discurso na Convenção Republicana da barbie Trump que deu origem ao hilariante comunicado de Meredith McIver. Ficámos então a saber que não só houve plágio, o que até aí todos negaram, como lá bem no fundo aquela tropa de matronas, agentes imobiliários e pregadores é admiradora dos democratas. É claro que aquilo não é o Watergate, mas como escreve Ryan Lizza, estes episódios esclarecem muita coisa. Quem não esteve pelos ajustes foi Ted Cruz. E o caso não é para menos, porque com um circo na estrada onde não falta rapaziada como Chris Cox, estou convencido de que Hillary Clinton só não vencerá folgadamente se der uma conferência de imprensa em topless. Oxalá que ninguém se lembre de lhe propôr isso. Para pior já basta assim.  

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Corey Lewandowski foi até ontem o "campaign manager" de Donald Trump/Foto Getty

 

O dia de ontem na cena política dos Estados Unidos foi dominado pelo despedimento de Corey Lewandowski, nada mais nada menos do que o até agora "campaign manager" de Donald Trump e um dos operacionais responsáveis pela caminhada triunfante daquele candidato até à Convenção do Partido Republicano. A notícia caiu que nem uma bomba, porque apesar das divergências internas no seio da campanha de Trump e que eram conhecidas há algum tempo, os sinais dos últimos dias não anunciavam uma decisão deste genéro e, sobretudo, tomada desta forma tão abrupta. De tal maneira que Lewandowski, em entrevista à CNN poucas horas depois de ter sido despedido (o que por si só já é estranho), afirmou desconhecer as razões que levaram ao seu afastamento. A alguns colaboradores teria dito que seria uma questão de tempo até se demitir ou ser demitido, talvez estando ciente das forças que começavam a crescer contra si. E, talvez por isso, quando na Segunda-feira foi informado por Trump de que os seus serviços não eram mais precisos, Lewandoswki nada disse, levantou-se e quando saiu da sala do quartel-general da campanha na Trump Tower em Manhattan já tinha segurança à sua espera para o acompanhar ao seu lugar, arrumar as suas coisas e abandonar o edifício. Seja como for, não mostrou ressentimento e à CNN manifestou todo o seu apoio a Trump e que tudo faria para ajudá-lo a chegar à Casa Branca.

 

Muitos republicanos viram neste gesto um passo positivo na direcção de um registo mais conservador e menos populista e conflituoso, características que marcaram o estilo de Lewandowski e que chegaram mesmo a criar situações extremadas, nomeadamente na relação com jornalistas. A verdade é que Trump bem pode agradecer ao seu antigo colaborador, mas a questão é que o processo do seu afastamento foi pouco claro, intempestivo e com contornos ainda por esclarecer. Talvez um dia, em livro, Lewandowski conte a história toda. Aquilo que se vai lendo é que Trump terá começado a sofrer muito pressão de alguns dos seus aliados e doadores para mudar a estratégia da campanha, numa altura em que vai iniciar uma corrida nacional e para a qual Lewandowski não estaria preparado. Também os filhos de Trump terão tido um papel no despedimento daquele assessor. Provavelmente, Lewandowski terá sido vítima da sua própria "criação" política, transformando um homem que era gozado pelo seu cabelo num temido candidato presidencial. Como disseram algumas pessoas próximas de Lewandowski, ele neste momento tinha inimigos em todo o lado e, perante este cenário, dificilmente se poderia assistir a outro desfecho.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.

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Isto está muito perigoso.

por Luís Menezes Leitão, em 07.05.16

 

 

Este vídeo ilustra bem a estratégia que vai ser ser seguida por Hillary Clinton na sua campanha presidencial: fazer uma campanha pela negativa, salientando os deméritos de Donald Trump e apostando na divisão do Partido Republicano. À primeira vista, a estratégia parece correctíssima. Donald Trump é um pesadelo para qualquer eleitor minimamente consciente e seria uma situação próxima do apocalipse imaginá-lo a liderar os Estados Unidos. Mas por acaso poderemos dormir descansados, convencidos de que isso não vai acontecer? Infelizmente acho que não.

 

E acho que não por uma simples razão: todos os candidatos republicanos que aparecem no vídeo são muito mais credíveis do que Donald Trump, e todos esses candidatos usaram a mesma estratégia de chamar a atenção para os enormes problemas da nomeação de um candidato racista, xenófobo e misógino. O problema é que apesar disso todos foram estrondosamente derrotados por Trump. Valerá por isso a pena Hillary Clinton voltar a apostar nesta estratégia? Tenho as maiores dúvidas. E especialmente a acentuação da divisão do partido republicano não me parece uma grande estratégia, quando Trump já é o virtual nomeado enquanto Hillary Clinton vai lutar até ao último segundo com Bernie Sanders.

 

O que as sondagens demonstram é que se Donald Trump bate todos os recordes de rejeição dos norte-americanos, Hillary Clinton também tem imensas rejeições. Em Novembro deveremos assistir assim a uma abstenção sem precedentes nas eleições americanas. E neste caso todos os resultados são possíveis. Depois da hipótese de um Brexit em Junho, o verdadeiro filme de terror seria ver Donald Trump atingir a presidência dos EUA em Novembro.

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A América extremista

por Rui Herbon, em 28.04.16

Trump-e-Sanders.jpg

A política estado-unidense encontra-se numa fase de profunda mudança. Nunca um candidato abertamente socialista havia conseguido a projecção e êxito de Bernie Sanders, e tão-pouco alguém com uma retórica tão brutalmente populista como a de Donald Trump havia desafiado com sucesso as estruturas políticas de poder, inclusive dentro do seu próprio partido, nem sido uma hipótese real de ocupar a Casa Branca. O mais significativo é que o sucesso de Sanders e Trump não é fortuito nem passageiro, antes reflecte grandes transformações que minaram os fundamentos tradicionais da sociedade norte-americana e a sua grande ideia-força: a de uma sociedade de oportunidades, onde o sucesso ou fracasso individual dependem, no essencial, do esforço e mérito de cada um. A nação divide-se de forma cada vez mais profunda, fenómeno que ocorre dentro de todos os grupos étnicos mas que adquire uma intensidade particular na população branca tradicional, afectando sobretudo a sua classe média, composta em grande medida por trabalhadores industriais bem remunerados. Há aparentemente o colapso dessa classe trabalhadora e, em simultâneo, o nascimento de uma nova classe alta. Tal significa uma brecha de oportunidades, que transforma o sonho americano numa frustrante miragem para muitos, e com isso entra em crise a tradicional aceitação e inclusive o enaltecimento das diferenças de rendimento e riqueza. Enquanto predominou a percepção de que a sociedade americana oferecia a todos uma igualdade básica para qualquer um triunfar, essas diferenças foram vistas como legítimas. Ora já não é maioritariamente assim, ainda que a maioria dos estado-unidenses gostasse que fosse. O sonho americano continua forte como desejo, mas já não é reconhecido com um componente real da sociedade. Por isso surge como nunca a denúncia dos muito ricos e as demandas redistributivas de inspiração social-democrata, quer dizer, que tendem a igualar os resultados e não o ponto de partida.

 

As estatísticas sobre a distribuição do rendimento sustentam esta nova percepção. Depois de um longo período de notável aumento simultâneo do bem-estar geral da população e de igualdade na distribuição dos frutos do progresso, a tendência inverte-se a partir da década de 70; primeiro de maneira pouco evidente, mas depois de forma acelerada, efectivando-se num espectacular aumento das fortunas da elite económica, o famoso 1%, ou ainda o 0,1%, que desde os anos 70 triplicou a sua quota no rendimento nacional. O que torna o facto escandaloso para muito americanos é que coincide com um período de salários congelados ou decrescentes para muitos, facto evidente desde finais dos anos 90 e sobretudo depois da crise financeira de 2007-2008.

 

Esta é a realidade que dá força aos ataques de Sanders contra os muito ricos e à agitação de Trump contra o establishment; e à denúncia de ambos de uma suposta aliança de Washington (a elite política) com Wall Street (a elite económica e financeira). Tanto Trump como Sanders denunciam a traição das elites, que abriu o país à nefasta concorrência dos produtos importados e também, no caso de Trump, a uma imigração ilegal massiva. Essa traição seria responsável pelo empobrecimento da classe média trabalhadora e, em especial, dos trabalhadores industriais transferidos para profissões inseguras e de menor rendimento. É dessa classe trabalhadora e predominantemente branca, deslocada e ameaçada, que provém o votante típico de Trump - em geral homens brancos de meia idade, com níveis de educação relativamente baixos. No caso de Sanders, o seu apoiante típico são os jovens desse mesmo estrato social, em muitos casos filhos dos primeiros.

 

O mais provável é Clinton ser a candidata democrata e, eventualmente, derrotar Trump, que ao mesmo tempo que agremia abstencionistas perde votos republicanos para a abstenção e parte do eleitorado moderado flutuante para a rival. Ainda que assim seja, as sementes do populismo e do radicalismo em ambos os partidos estão lançadas. Em suma, o futuro dos Estados Unidos não parece nada risonho; mas tão-pouco o nosso. O regresso dessa grande potência à velha política de auto-isolamento e proteccionismo, caminho para que ambos os extremos parecem apontar e que perdurou até à sua entrada na Segunda Guerra Mundial, seria uma tragédia para todos.

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