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Jornalismo sem notícia

por Pedro Correia, em 18.08.19

 

Já havia os directos de horas intermináveis sobre autocarros a caminho dos estádios.

Agora regista-se uma inovação nos noticiários televisivos: directos, dia após dia, sobre estações de abastecimento de combustível onde não se vê ninguém, excepto a desgraçada da jornalista (são quase sempre mulheres) a preencher tempo de antena sem novidade alguma: «Aqui regista-se perfeita normalidade»; «Todos os postos que visitámos tinham muito poucas viaturas»; «A tarde tem estado muito tranquila»; «Não há filas em lugar nenhum»; «Encontrámos muitos postos vazios não por falta de combustível mas por falta de clientes.»

Um imenso bocejo. Em perfeito contraste com o alarmismo dos ministros que andaram uma semana inteira a entrar-nos em casa a falar como se o País estivesse em estado de sítio e fosse necessário mobilizar as tropas especiais para travar uma agressão de um país estrangeiro ou uma invasão de marcianos.

Com momentos que me fizeram lembrar a guerra do Solnado. Deixo-a ali mais em cima para quem não sabe ou já não se lembra.

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O imaterialismo aplicado aos serviços públicos

por João Campos, em 24.06.19

“Não se pode deixar de dar nota que os atrasos também são o resultado de um fenómeno próprio e específico da procura que tem a ver com o facto de a generalidade dos cidadãos optar, sistematicamente, por se dirigir aos mesmos serviços, à mesma hora – antes da abertura do atendimento ao público”, explicou [Anabela Pedroso, Secretária de Estado da Justiça]. (via Observador)

A lógica é admirável: se os cidadãos não forem para as filas dos serviços públicos, não há filas nos serviços públicos. Dito de outro modo: os serviços públicos funcionam globalmente bem se não forem utilizados. É o princípio do SIRESP (o serviço de comunicações de emergência que funciona sempre bem desde que não haja emergências) aplicado às lojas do cidadão e às repartições de registo civil. Nem sei por que motivo há-de o Governo ficar por aqui. Aguardo que o Secretário de Estado das Infraestruturas diga que a culpa dos problemas dos transportes é dos utentes, que os utilizam; ou que o Secretário de Estado da Saúde venha a público defender que os problemas actuais do SNS não se devem às cativações ou à simples irresponsabilidade do Governo, mas sim aos utentes, que teimam em adoecer, em frequentar hospitais e, maçada das maçadas, em agendar cirurgias. Como se não tivessem nada melhor para fazer.

(como é bom de ver, a culpa da falta de obstetras durante o Verão nos hospitais de Lisboa, mas também nos de Beja e de Portimão - a província não faz muitas manchetes - não se deve a nenhuma falha do Ministério da Saúde, mas sim a todas as mulheres que, malvadas, ousaram engravidar algures entre Novembro e Dezembro do ano passado)

Daqui até à filosofia vai um passo de bebé, desde que o bebé nasça no Outono ou na Primavera: se um serviço público abrir e ninguém estiver lá para tratar de alguma coisa, ela faz algum som? Julgo que o exercício funcionava melhor com a árvore e a floresta, mas essas, enfim, arderam em 2017 (e, lá está: se não fosse as árvores...). Fiquemos então com as repartições públicas, exemplo de imaterialismo que julgo não ter ocorrido a Berkeley.

Mais admirável do que a lógica só mesmo o descaramento. Mas esse será tudo menos imaterial.

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De disparate em disparate

por Pedro Correia, em 02.06.19

Rui Rio, como se não tivesse já adversários em número suficiente, decidiu abrir mais uma frente de batalha. Mas ainda não foi desta vez que começou a alvejar o Governo: preferiu atirar-se ao Presidente da República, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa faz uma análise «muito optimista um bocadinho superficial» da cena política portuguesa.

«Temos uma crise efectiva de regime, com um descrédito muito grande de todo o sistema partidário», disse hoje Rio aos jornalistas. Falava como se não fizesse parte do sistema partidário e não fosse ele próprio líder de um partido desde Janeiro de 2018. Falava como se não andasse há quase 40 anos na política portuguesa - como vice-presidente da JSD, deputado social-democrata, vice-presidente do grupo parlamentar, secretário-geral do PSD, presidente da Câmara do Porto eleito pelo partido laranja e presidente da Junta Metropolitana do Porto antes de assumir as actuais funções.

Foi preciso ter conduzido o partido à mais estrondosa derrota eleitoral de sempre para se alarmar com a «crisa efectiva de regime». Cabe perguntar se falaria assim caso o PSD não tivesse ficado 11,5 pontos percentuais atrás do PS nas eleições que ocorreram faz hoje oito dias.

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Tiro à letra

por Pedro Correia, em 12.04.19

20190407_120600.jpg

 

Há livros que são editados com os pés, para usar uma expressão da gíria jornalística. Abrimos um exemplar e logo na contracapa ou numa badana deparamos com um erro grosseiro, gerado por ignorância ou incompetência - daqueles que nos levam de imediato a pôr aquilo de parte.

Por vezes o disparate surge não na casca, mas já no miolo, no espaço reservado à apresentação ou prefácio. Aconteceu-me há dias, com um exemplar de uma destas editoras que pretendem difundir "coisas giras" e "fora da caixa". Bastou-me ir à primeira página impressa para deparar com isto: como se não bastasse o impiedoso extermínio das impropriamente chamadas "consoantes mudas", o tiro à letra é tão obsessivo que leva estes mabecos a mutilarem até palavras como "actual", aqui mascarada de "acual". Deve ser idioma de pato: língua portuguesa não é, seguramente.

Fechei o livro e ele lá ficou, a gozar um merecido repouso. Faço votos para que seja perpétuo.

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Ab amore Dei

por Pedro Correia, em 26.10.18

Acabo de ouvir a Filomena Cautela dizer "por amor de Deus" no 5 para a Meia Noite, da RTP. Ainda antes da meia-noite, o que torna a coisa mais grave. Àquela hora estavam certamente criancinhas a ouvir. E as criancinhas devem ser poupadas a expressões eventualmente traumáticas como esta.

Bem sei que o programa tem bolinha no canto superior direito do ecrã. Mesmo assim, trata-se de algo inaceitável num Estado laico. Expressões de conteúdo teológico deviam ser rigorosamente interditas no canal público. Que esperam o Conselho de Administração, o Conselho de Opinião e o Conselho Geral Independente da RTP para aprovarem um Index Verbis Prohibitorum que possa prevenir tais despautérios?

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Um ministro a ver-se grego

por Pedro Correia, em 26.07.18

Lisboa, 24 de Julho:

«Portugal vai enviar 50 elementos da Força Especial de Bombeiros para ajudar a combater os incêndios na Grécia, anunciou esta terça-feira o ministro da Administração Interna. Eduardo Cabrita adiantou que as cinco dezenas de bombeiros partem para a Grécia entre hoje e quarta-feira, no âmbito da resposta aos pedidos de ajuda feitos por Atenas ao abrigo do Mecanismo Europeu de Protecção Civil.»

 

Lisboa, 25 de Julho:

«Afinal, Portugal ainda não sabe se vai enviar bombeiros para a Grécia. Ministro disse que 50 elementos da Força Especial de Bombeiros partiriam para a Grécia entre terça e quarta-feira, mas precipitou-se: as autoridades gregas ainda não responderam à oferta portuguesa.»

 

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Deputação

por Pedro Correia, em 20.07.18

A que propósito é que o chamado "núcleo de deputados sportinguistas na Assembleia da República" recebe com pompa o presidente destituído do Sporting Clube de Portugal, no Palácio de São Bento, dando-lhe um crédito que ele não justifica nem merece? Será que os senhores legisladores não têm mesmo mais nada para fazer?

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Lido e ouvido

por Pedro Correia, em 11.05.17

Esta semana, para não variar, tem sido farta em pérolas informativas.

Fiquei a saber, por exemplo, que “dezenas de voos ficaram em terra”, provavelmente devido à força da gravidade. E que o aeroporto de Lisboa tem “freeport”. E eu a pensar que “freeport” era em Alcochete, simpática povoação onde um certo primeiro-ministro queria à viva força inaugurar um aeroporto cheio de freeshops

Isto enquanto alguém especializado em politologia, analisando as presidenciais francesas, lembrava doutamente que “Sarkozy foi em 2012 o primeiro Presidente em funções a não conseguir garantir a reeleição”. Esquecendo que Valéry Giscard d’ Eistang era igualmente inquilino do Eliseu, em funções desde 1974, quando em 1981 foi derrotado nas urnas por François Mitterrand.

Vou continuar a coleccionar estes cromos. Daqui a uns meses terei uma bela caderneta.

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Jornalismo a sofrer de amnésia

por Pedro Correia, em 02.05.17

IMG_0025[1].jpg

 Paulo VI e Salazar: fotografia do Século Ilustrado, Maio de 1967

 

A asneira anda cada vez mais à solta nas redacções. Sem revisores de textos, sem editores com capacidade ou competência para detectar erros, com jornalistas cada vez mais impreparados, os periódicos debitam disparates a uma velocidade estonteante.

Enquanto leitor atento, vou anotando estes erros como reflexo condicionado de mais de duas décadas passadas a rever textos alheios em redacções de jornais. Devo confessar que nesta matéria já quase nada me impressiona. Mas ainda consegui arregalar os olhos de espanto ao ler na contracapa da última edição do Expresso um par de erros do tamanho da Sé de Braga. Numa notícia que encima a página, sob o título "Só Salazar não deu tolerância de ponto". A propósito da próxima vinda do Papa Francisco a Portugal.

 

Escreve o semanário fundado por Francisco Pinto Balsemão - em prosa anónima - que em 1967, quando pela primeira vez um Papa visitou Fátima, "o ditador recusou encontrar-se com Paulo VI, depois de o Papa ter recebido, em Roma, representantes dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas".

É difícil escrever tantos disparates em tão pouco espaço. Bastava o anónimo escriba do Expresso dedilhar na Rede para logo lhe aparecerem imagens do encontro entre Salazar e Paulo VI, que aliás forçou o então Presidente do Conselho a deslocar-se à Cova da Iria pela sua recusa de visitar Lisboa. Uma dessas imagens, muito conhecida, ilustra este texto.

 

De resto, jamais Salazar poderia irritar-se com a audiência papal aos dirigentes dos movimentos africanos (Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos) pois já estava fora do poder quando esse encontro ocorreu, a 1 de Julho de 1970 - mais de três anos após a vinda de Paulo VI a Fátima e precisamente 26 dias antes do falecimento do fundador do Estado Novo, substituído em Setembro de 1968 por Marcelo Caetano.

Se algo ainda pode conferir utilidade aos jornais é a capacidade de nos transmitirem conhecimentos ou avivarem a memória. Mas como poderá isso acontecer se as redacções andam cada vez mais ignorantes e amnésicas?

 

 

ADENDA: Toda a peça é lamentável, começando pelo título. Salazar não "deu" tolerância de ponto: decretou o dia 13 de Maio de 1967 feriado nacional. Como é do conhecimento generalizado, um feriado dispensa do trabalho muito mais gente do que a tolerância de ponto, destinada aos funcionários públicos.

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Conhecer D. Afonso Henriques.

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.16

 

Leio aqui que "os reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, estão em Portugal e foram recebidos com pompa e circunstância pelas altas entidades e pelo povo, em Guimarães, no Porto e em Lisboa. Na Cidade Invicta disputaram selfies com o Presidente da República, e Marcelo Rebelo de Sousa levou-os a conhecer D. Afonso Henriques". Calculo que D. Afonso Henriques, ainda jovial, apesar dos seus 907 anos de idade, actualmente a residir num Lar da Terceira Idade do Porto, se terá manifestado encantado em conhecer tão ilustres personagens. A pensar em retribuir a iniciativa, D. Felipe VI deve ter referido a Marcelo Rebelo de Sousa não ter a certeza se o primeiro Rei de Espanha, D. Pelayo, ainda era vivo, uma vez que já deveria andar pelos 1300 anos de idade, mas prometeu tudo fazer para o encontrar.

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Chegam os três estarolas presidentes das câmaras de Almada, Barreiro e Seixal com mais um contributo precioso para o anedotário nacional: "Almada, Seixal e Barreiro transformam-se em Lisbon South Bay." No Público (e não, não é no Inimigo):

Lisbon South Bay é o novo nome adoptado para os territórios da margem sul do Tejo, geridos pela Baía do Tejo, empresa pública do universo Parpública, e integrados no Arco Ribeirinho Sul.

O nome, apresentado esta quinta-feira pela administração da empresa e pelos presidentes das três câmaras municipais (CDU), resulta de um estudo de marketing em que foram realizadas mais de mil entrevistas, a entidades e pessoas da região, e tem como objectivo, segundo o presidente da Baía do Tejo, facilitar a promoção internacional dos parques industriais do Barreiro e Seixal, e a Cidade da Água projectada para os terrenos da antiga Margueira, em Almada.

 

A sorte desta gente é que o ridículo não mata. 

 

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Tudo às claras

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.14

"A mulher tinha licença de porte de arma escondida."

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Um Presidente das Arábias

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.11.14

Cavaco_na__torre_Burj_Khalifa_no_Dubai6803982c_664(Foto: Estela Silva/Lusa)

Vender o País a retalho não é bonito de se ver. Mas se daí vier algum proveito, menos mal. Agora que queiram misturar os cavalos com as nossas mulheres é que não me parece grande ideia. Deviam ter-lhe dado uma fatia de bolo-rei.

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Tiros nos pés (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.11.14

Não sei se ainda foi por vergonha, ou se por receio do que aí pudesse vir, que retrocederam. Desta vez escapam. Espero que não volte a haver próxima.

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Tiros nos pés

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.11.14

A menos de um ano das próximas eleições legislativas o bloco central abriu uma oportunidade de ouro para a oposição à esquerda do PS, o populismo e os demagogos que espreitam uma oportunidade para "Poderem". A proposta de reposição das subvenções vitalícias a políticos, por muita razão que possa ter na sua génese, pela forma desastrada como foi conduzida e apresentada, só pode servir para afastar ainda mais os portugueses dos partidos políticos e dos políticos. Os indicadores da confiança relativamente a estes e que constam das bases de dados, designadamente das sucessivas levas do European Social Survey, são elucidativos.  Depois, o que se viu, ajudou ainda menos, embora quanto a este ponto - no que estou totalmente de acordo com ele - Carlos Carreiras esteja coberto de razão. O CDS tentou passar entre os pingos de chuva abstendo-se, mas do partido do governo ao PS ninguém sai imune. Com decisões destas e políticos que têm umbigos do tamanho da despesa do Estado, a democracia e o regime é que saem a perder.

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Coisas que nunca hei-de entender

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.11.14

macedoindex.jpgUm ministro, e mais a mais da Administração Interna, precisa de meter uma "cunha" para um empresário chinês ter um bilhete que lhe dê acesso à final da Liga dos Campeões? Esta gente não se enxerga?

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Ele não disse isso, pois não?

por José Navarro de Andrade, em 13.11.13

Um deputado da República adjectivou de "frígida" uma Ministra. Estou aqui a dar voltas à cabeça a ver se já li coisa mais reles nos últimos tempos e não me lembro.

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