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Delito de Opinião

Proibir o verde

Pedro Correia, 05.08.21

Quando já pensávamos ter visto quase tudo em matéria de imbecilidades, eis mais uma, parida no país que acaba de sagrar-se campeão europeu de futebol: a partir da temporada 2022/2023 os equipamentos verdes serão proibidos nos estádios italianos para satisfazer as queixas dos operadores televisivos que alegam dificuldade em distinguir entre a cor das camisolas e o relvado. 

Proibir o verde: eis o sonho totalitário de muita gente também por cá. Em matéria de direitos e liberdades, vamos de restrição em restrição enquanto meio mundo bate palminhas. 

Os animais são uns bichos interessantes

Maria Dulce Fernandes, 10.07.21

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Uma carreira nas forças da ordem, nas forças armadas, como segurança, ter-me-á passado ao lado? 

Para estas profissões com componente física tive sempre mais queda do que jeito, por isso nunca acalentei a ideia de poder aspirar a ser um John MacClane, ou quem sabe um John Matrix ou até mesmo um Larry Daley. 

Por isso, e também porque no meu singelo parecer a máxima de Plautus, apesar de muito acertada, não pode ser dogma, fora do âmbito que a minha profissão e o meu cargo requerem, não é de todo pacífico nem coadunante com a minha maneira de ser e de estar,  exercer funções de  polícia do povo.

É certo que cumprir e fazer cumprir a lei faz parte da ética de todo o indíviduo que se rege pelas regras democráticas de um estado de direito, mas no pó dos dias desta emergência calamitosa poderá mesmo valer tudo?

Arremessados de encontro à mole ululante, munidos de um telemóvel com uma aplicação do governo português,  com um quase inaudível "thou shall not pass", lá vamos nós quase que em slow motion salvar o mundo.

Seria bastante giro até, se não fosse o ridículo disto tudo.

Mais um.

Ser sensato, ser prudente, ser imbecil

Pedro Correia, 25.06.21

Governar à Costa

Pedro Correia, 12.05.21

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Segunda, 10 de Maio (manhã)

155 imigrantes impedidos de atravessar a cerca sanitária nas freguesias de São Teotónio e Longueira-Almograve para trabalhar em Odemira. Dezenas destes trabalhadores chegaram a fazer testes rápidos à Covid-19, na berma da estrada, com a GNR a assistir. Mesmo assim, foram impedidos de avançar pela burocracia estatal: faltava cumprir uma alínea do despacho n.º4697-A, de 2021, do ministro da Administração Interna e da ministra da Saúde - em vigor desde o dia 8 - que obriga as entidades empregadoras a comunicar a lista de trabalhadores à Direcção Regional da Agricultura do Alentejo, que por sua vez deve remetê-la GNR... que já estava no local. Pormenor fundamental: sem trabalhar, estes imigrantes não recebem salário.

 

Segunda, dia 10 (tarde)

O presidente da Câmara Municipal de Odemira e os presidentes das duas juntas sob cerca sanitária contestam todo este processo, considerando-o absurdo. José Alberto Guerreiro exige o «fim imediato» daquela cerca. Lembrando que aquele concelho é o mais testado do País e está hoje abaixo dos 240 casos por cem mil habitantes.

 

Terça, dia 11

O primeiro-ministro reúne um "Conselho de Ministros electrónico" e altera a agenda oficial ao início da tarde para se deslocar a Odemira, onde anuncia o fim da cerca sanitária naquelas freguesias. As restrições à circulação no concelho são levantadas a partir da meia-noite.

Seria uma boa rábula humorística se não fosse verdade

João Campos, 10.05.21

No Público: Governo exige teste para sair de Longueira-Almograve, mas a farmácia está noutra freguesia. Se fosse um sketch do Herman ou do Gato Fedorento, o diálogo entre o morador do Almograve e o GNR no cruzamento da Longueira seria algo assim:

- Posso sair da freguesia?
- Pode, com um teste negativo.
- E onde posso fazer um teste?
- Numa farmácia.
- Mas o Almograve não tem farmácia. Posso sair para ir à farmácia de Milfontes fazer o teste?
- Não, não pode sair do Almograve sem um teste negativo.
- Mas então não posso sair da freguesia.
- Com um teste negativo pode.
- Mas se só posso fazer o teste na freguesia vizinha...
- Isso já não é problema meu. Olhe, pergunte ao Cabrita.

 

(Teste negativo, e não positivo, claro - obrigado à leitora Bea pelo reparo!)

Locais infectos

Pedro Correia, 16.03.21

Desde Março de 2020, estivemos cerca de seis meses submetidos a "estado de emergência" - algo inédito em Portugal fora de situações de guerra, impondo drásticas restrições aos direitos, liberdades e garantias consagrados no texto constitucional de 1976.

Sempre em nome do combate à pandemia. Desde o tempo em que ninguém podia comparecer "mascarado" à sala de sessões do Parlamento por ordem expressa de Ferro Rodrigues, em que havia municípios a regar as ruas com desinfectante para afugentar o vírus e em que a directora-geral de Saúde, com manifesto receio, abria garrafas de água munida de lenços de papel nas conferência de imprensa em que comparecia a um metro da ministra, estando ambas sem máscara.

 

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Houve decisões acertadas, outras erradas e muitas absurdas. Ou simplesmente ridículas.

Para mim, nenhuma tão disparatada como aquela que proibia alguém de sentar-se num mero banco de jardim. O mesmo Governo e as mesmas autarquias que nos impunham o dever coercivo de permanência entre quatro paredes domésticas, indiferentes aos brutais custos em saúde mental de tais medidas, interditavam-nos algo tão inócuo como permanecer uns minutos num banco, isoladamente, em repouso ou contemplação da paisagem. 

Entre as boas notícias que o tímido "desconfinamento" de ontem nos trouxe, destaco esta: Suas Excelências devolveram o exercício da cidadania aos bancos de jardim, deixando de considerá-los infectos, potenciais transmissores de vírus. Aquelas fitinhas que pretendiam selá-los, como se fossem cenários de crime, podem ser rasgadas.

Falta saber se permanecem noutros locais, públicos ou privados, como este que a imagem de baixo documenta. Esperemos por novas mensagens de Suas Excelências para ficarmos esclarecidos.

 

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Estátua ao deputado desconhecido

Pedro Correia, 25.02.21

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Nunca percebi o que simboliza no alto do Parque Eduardo VII aquela pedrinha fálica lá implantada há mais de 20 anos. Sem volumetria para aquele espaço, em óbvia colisão com o enquadramento paisagístico, dando a sensação de que aterrou no local por erro no endereço: garantem-me que estava destinada não a um jardim de Lisboa mas das Caldas da Rainha.

Já que ali se encontra, convém dar um significado à coisa. Inspirado pela verve de um parlamentar socialista, que anda por aí num frenesim a exigir o camartelo para o belo Padrão dos Descobrimentos concebido em 1940 pelo arquitecto Cottinelli Telmo e pelo escultor Leopoldo de Almeida, eu - que milito na facção oposta à dele, contrária à demolição de monumentos - proponho que o "pirilau" do Parque passe a homenagear o Deputado Desconhecido.

Como a imagem mostra, com ejaculação incluída. O tal parlamentar ainda agradece. Eis algo que talvez não lhe agrade derrubar.

Jornalismo sem notícia

Pedro Correia, 18.08.19

 

Já havia os directos de horas intermináveis sobre autocarros a caminho dos estádios.

Agora regista-se uma inovação nos noticiários televisivos: directos, dia após dia, sobre estações de abastecimento de combustível onde não se vê ninguém, excepto a desgraçada da jornalista (são quase sempre mulheres) a preencher tempo de antena sem novidade alguma: «Aqui regista-se perfeita normalidade»; «Todos os postos que visitámos tinham muito poucas viaturas»; «A tarde tem estado muito tranquila»; «Não há filas em lugar nenhum»; «Encontrámos muitos postos vazios não por falta de combustível mas por falta de clientes.»

Um imenso bocejo. Em perfeito contraste com o alarmismo dos ministros que andaram uma semana inteira a entrar-nos em casa a falar como se o País estivesse em estado de sítio e fosse necessário mobilizar as tropas especiais para travar uma agressão de um país estrangeiro ou uma invasão de marcianos.

Com momentos que me fizeram lembrar a guerra do Solnado. Deixo-a ali mais em cima para quem não sabe ou já não se lembra.

O imaterialismo aplicado aos serviços públicos

João Campos, 24.06.19

“Não se pode deixar de dar nota que os atrasos também são o resultado de um fenómeno próprio e específico da procura que tem a ver com o facto de a generalidade dos cidadãos optar, sistematicamente, por se dirigir aos mesmos serviços, à mesma hora – antes da abertura do atendimento ao público”, explicou [Anabela Pedroso, Secretária de Estado da Justiça]. (via Observador)

A lógica é admirável: se os cidadãos não forem para as filas dos serviços públicos, não há filas nos serviços públicos. Dito de outro modo: os serviços públicos funcionam globalmente bem se não forem utilizados. É o princípio do SIRESP (o serviço de comunicações de emergência que funciona sempre bem desde que não haja emergências) aplicado às lojas do cidadão e às repartições de registo civil. Nem sei por que motivo há-de o Governo ficar por aqui. Aguardo que o Secretário de Estado das Infraestruturas diga que a culpa dos problemas dos transportes é dos utentes, que os utilizam; ou que o Secretário de Estado da Saúde venha a público defender que os problemas actuais do SNS não se devem às cativações ou à simples irresponsabilidade do Governo, mas sim aos utentes, que teimam em adoecer, em frequentar hospitais e, maçada das maçadas, em agendar cirurgias. Como se não tivessem nada melhor para fazer.

(como é bom de ver, a culpa da falta de obstetras durante o Verão nos hospitais de Lisboa, mas também nos de Beja e de Portimão - a província não faz muitas manchetes - não se deve a nenhuma falha do Ministério da Saúde, mas sim a todas as mulheres que, malvadas, ousaram engravidar algures entre Novembro e Dezembro do ano passado)

Daqui até à filosofia vai um passo de bebé, desde que o bebé nasça no Outono ou na Primavera: se um serviço público abrir e ninguém estiver lá para tratar de alguma coisa, ela faz algum som? Julgo que o exercício funcionava melhor com a árvore e a floresta, mas essas, enfim, arderam em 2017 (e, lá está: se não fosse as árvores...). Fiquemos então com as repartições públicas, exemplo de imaterialismo que julgo não ter ocorrido a Berkeley.

Mais admirável do que a lógica só mesmo o descaramento. Mas esse será tudo menos imaterial.

De disparate em disparate

Pedro Correia, 02.06.19

Rui Rio, como se não tivesse já adversários em número suficiente, decidiu abrir mais uma frente de batalha. Mas ainda não foi desta vez que começou a alvejar o Governo: preferiu atirar-se ao Presidente da República, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa faz uma análise «muito optimista um bocadinho superficial» da cena política portuguesa.

«Temos uma crise efectiva de regime, com um descrédito muito grande de todo o sistema partidário», disse hoje Rio aos jornalistas. Falava como se não fizesse parte do sistema partidário e não fosse ele próprio líder de um partido desde Janeiro de 2018. Falava como se não andasse há quase 40 anos na política portuguesa - como vice-presidente da JSD, deputado social-democrata, vice-presidente do grupo parlamentar, secretário-geral do PSD, presidente da Câmara do Porto eleito pelo partido laranja e presidente da Junta Metropolitana do Porto antes de assumir as actuais funções.

Foi preciso ter conduzido o partido à mais estrondosa derrota eleitoral de sempre para se alarmar com a «crisa efectiva de regime». Cabe perguntar se falaria assim caso o PSD não tivesse ficado 11,5 pontos percentuais atrás do PS nas eleições que ocorreram faz hoje oito dias.

Tiro à letra

Pedro Correia, 12.04.19

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Há livros que são editados com os pés, para usar uma expressão da gíria jornalística. Abrimos um exemplar e logo na contracapa ou numa badana deparamos com um erro grosseiro, gerado por ignorância ou incompetência - daqueles que nos levam de imediato a pôr aquilo de parte.

Por vezes o disparate surge não na casca, mas já no miolo, no espaço reservado à apresentação ou prefácio. Aconteceu-me há dias, com um exemplar de uma destas editoras que pretendem difundir "coisas giras" e "fora da caixa". Bastou-me ir à primeira página impressa para deparar com isto: como se não bastasse o impiedoso extermínio das impropriamente chamadas "consoantes mudas", o tiro à letra é tão obsessivo que leva estes mabecos a mutilarem até palavras como "actual", aqui mascarada de "acual". Deve ser idioma de pato: língua portuguesa não é, seguramente.

Fechei o livro e ele lá ficou, a gozar um merecido repouso. Faço votos para que seja perpétuo.

Ab amore Dei

Pedro Correia, 26.10.18

Acabo de ouvir a Filomena Cautela dizer "por amor de Deus" no 5 para a Meia Noite, da RTP. Ainda antes da meia-noite, o que torna a coisa mais grave. Àquela hora estavam certamente criancinhas a ouvir. E as criancinhas devem ser poupadas a expressões eventualmente traumáticas como esta.

Bem sei que o programa tem bolinha no canto superior direito do ecrã. Mesmo assim, trata-se de algo inaceitável num Estado laico. Expressões de conteúdo teológico deviam ser rigorosamente interditas no canal público. Que esperam o Conselho de Administração, o Conselho de Opinião e o Conselho Geral Independente da RTP para aprovarem um Index Verbis Prohibitorum que possa prevenir tais despautérios?

Um ministro a ver-se grego

Pedro Correia, 26.07.18

Lido e ouvido

Pedro Correia, 11.05.17

Esta semana, para não variar, tem sido farta em pérolas informativas.

Fiquei a saber, por exemplo, que “dezenas de voos ficaram em terra”, provavelmente devido à força da gravidade. E que o aeroporto de Lisboa tem “freeport”. E eu a pensar que “freeport” era em Alcochete, simpática povoação onde um certo primeiro-ministro queria à viva força inaugurar um aeroporto cheio de freeshops

Isto enquanto alguém especializado em politologia, analisando as presidenciais francesas, lembrava doutamente que “Sarkozy foi em 2012 o primeiro Presidente em funções a não conseguir garantir a reeleição”. Esquecendo que Valéry Giscard d’ Eistang era igualmente inquilino do Eliseu, em funções desde 1974, quando em 1981 foi derrotado nas urnas por François Mitterrand.

Vou continuar a coleccionar estes cromos. Daqui a uns meses terei uma bela caderneta.

Jornalismo a sofrer de amnésia

Pedro Correia, 02.05.17

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 Paulo VI e Salazar: fotografia do Século Ilustrado, Maio de 1967

 

A asneira anda cada vez mais à solta nas redacções. Sem revisores de textos, sem editores com capacidade ou competência para detectar erros, com jornalistas cada vez mais impreparados, os periódicos debitam disparates a uma velocidade estonteante.

Enquanto leitor atento, vou anotando estes erros como reflexo condicionado de mais de duas décadas passadas a rever textos alheios em redacções de jornais. Devo confessar que nesta matéria já quase nada me impressiona. Mas ainda consegui arregalar os olhos de espanto ao ler na contracapa da última edição do Expresso um par de erros do tamanho da Sé de Braga. Numa notícia que encima a página, sob o título "Só Salazar não deu tolerância de ponto". A propósito da próxima vinda do Papa Francisco a Portugal.

 

Escreve o semanário fundado por Francisco Pinto Balsemão - em prosa anónima - que em 1967, quando pela primeira vez um Papa visitou Fátima, "o ditador recusou encontrar-se com Paulo VI, depois de o Papa ter recebido, em Roma, representantes dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas".

É difícil escrever tantos disparates em tão pouco espaço. Bastava o anónimo escriba do Expresso dedilhar na Rede para logo lhe aparecerem imagens do encontro entre Salazar e Paulo VI, que aliás forçou o então Presidente do Conselho a deslocar-se à Cova da Iria pela sua recusa de visitar Lisboa. Uma dessas imagens, muito conhecida, ilustra este texto.

 

De resto, jamais Salazar poderia irritar-se com a audiência papal aos dirigentes dos movimentos africanos (Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos) pois já estava fora do poder quando esse encontro ocorreu, a 1 de Julho de 1970 - mais de três anos após a vinda de Paulo VI a Fátima e precisamente 26 dias antes do falecimento do fundador do Estado Novo, substituído em Setembro de 1968 por Marcelo Caetano.

Se algo ainda pode conferir utilidade aos jornais é a capacidade de nos transmitirem conhecimentos ou avivarem a memória. Mas como poderá isso acontecer se as redacções andam cada vez mais ignorantes e amnésicas?

 

 

ADENDA: Toda a peça é lamentável, começando pelo título. Salazar não "deu" tolerância de ponto: decretou o dia 13 de Maio de 1967 feriado nacional. Como é do conhecimento generalizado, um feriado dispensa do trabalho muito mais gente do que a tolerância de ponto, destinada aos funcionários públicos.

Conhecer D. Afonso Henriques.

Luís Menezes Leitão, 30.11.16

 

Leio aqui que "os reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, estão em Portugal e foram recebidos com pompa e circunstância pelas altas entidades e pelo povo, em Guimarães, no Porto e em Lisboa. Na Cidade Invicta disputaram selfies com o Presidente da República, e Marcelo Rebelo de Sousa levou-os a conhecer D. Afonso Henriques". Calculo que D. Afonso Henriques, ainda jovial, apesar dos seus 907 anos de idade, actualmente a residir num Lar da Terceira Idade do Porto, se terá manifestado encantado em conhecer tão ilustres personagens. A pensar em retribuir a iniciativa, D. Felipe VI deve ter referido a Marcelo Rebelo de Sousa não ter a certeza se o primeiro Rei de Espanha, D. Pelayo, ainda era vivo, uma vez que já deveria andar pelos 1300 anos de idade, mas prometeu tudo fazer para o encontrar.

Quando se pensava ser impossível algo mais ridículo do que "Allgarve"

João Campos, 25.06.15