Qual a cor da alma?
Invadido pelo espírito da quadra festiva, que entretanto terminamos, e enquanto apreciador do género musical em causa, vi logo após o seu lançamento, o filme Soul, da Disney/Pixar.
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A história não é muito surpreendente mas é agradável. Alguns dos momentos musicais ajudam a digerir o resto. Foram duas horas bem passadas.
Quando já não pensava mais nele, tropecei algures num espasmo muscular do Nuno Markl sobre a dobragem da personagem principal. Andou para ali às voltas com elogios e salamaleques misturados com um reparo sobre o que designa como “racismo sistémico”. Parece que para ele as vozes também têm cor e, com o intuito de que somos todos iguais, acabou por defender que as vozes africanas são diferentes das demais. É bom ser-se diferente. É bom que todos sejamos diferentes nos detalhes, porque acabamos por ser iguais nas questões de fundo. Mas isso não importa, ele acha é que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Por mim tudo bem, embora prefira cultivar as minhas dúvidas, pois nunca pensei aprender tanto como desde que escolhi fazê-lo.
Talvez não importe referir, mas eu gosto do trabalho do Nuno Markl. Dizer isto não me obriga a apreciar tudo o que faz, ou diz. Gosto da sua abordagem e do boneco que criou sobre si próprio e da forma como explora o que poderiam ser fraquezas e as transforma em produto de media. É legitimo e tem graça.
Desta vez achei que ele estava a meter a foice em seara alheia, mas com certeza que o tema iria causar as inconsequentes e habituais ondas de choque. A espuma dos dias tem de ser preenchida com coisas.
A toque de caixa parece que já há quem tenha reagido ao estímulo lançado. Se há quem defenda que o fim do mundo irá começar com uma corrente de ar, como é que isto não teria de acontecer?
Mamadou Ba e Sara Tavares assinam petição em que pedem uma nova versão do filme Soul. Defendem que somos todos iguais e por isso as vozes da dobragem deveriam ser negras.
Eu, que gosto de Soul, de Blues, de Jazz, de Samba, de Bossa Nova e de Rock, não consigo deixar de me impressionar com a capacidade da raça humana em ultrapassar profundas e inaceitáveis tragédias e, mesmo no inferno, conseguir produzir arte. Sem a influência africana na cultura norte e sul-americana não teríamos todas estas maravilhosas manifestações artísticas, que me emocionam e sem as quais teríamos uma vida ainda mais incompleta.
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Hoje de manhã, num passeio de bicicleta com uns amigos na Serra de Aire e Candeeiros, a “polémica” da dobragem deste filme foi abordada durante uns escassos 75 metros. A meio de uma curta e enlameada subida, alguém em esforço de respiração arrumou o assunto. “Sabias que quem dobrou o Rei Leão nem sequer era sportinguista? Disso ninguém fala!”

