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Um modelo falível

por Alexandre Guerra, em 12.08.19

Tentar prever o comportamento de um governante no âmbito de um tema fracturante, atendendo ao seu perfil político-ideológico, pode e deve ser um exercício válido, mas nem por isso infalível. Partindo de um determinado modelo de pensamento previamente conhecido, poder-se-á antecipar a decisão de um líder perante uma problemática sócio-política instalada na comunidade. Em tese, e dando um exemplo clássico, poder-se-á presumir que alguém ideologicamente de “esquerda” seja mais favorável à intervenção do Estado nos assuntos da “polis” do que alguém de “direita”, ou vice-versa.

Tendo como base este paradigma, consegue-se vislumbrar potenciais decisões de governantes em matérias relacionadas com o papel do Estado na esfera comunitária, seja na saúde, na educação ou nos transportes. Ou antever a sua relação política com temáticas culturais ou religiosas. Da mesma maneira que se poderão tornar previsíveis as decisões de um decisor, à luz de um registo mais conservador ou progressista, mais tradicionalista ou liberal, face a temas como o aborto, a eutanásia ou a engenharia genética.

O conhecimento e estudo das ideologias dá-nos um certo grau de previsibilidade no processo de decisão no âmbito do sistema político. Quando um candidato se apresenta a eleições assumidamente debaixo de um manto ideológico, é natural que o eleitor crie expectativas quando ao desfecho legislativo de determinadas matérias.

Mas esta fórmula está longe de ser exacta, até porque muitas das vezes os políticos estão desprovidos dessa carga ideológica, regendo-se exclusivamente pelo pragmatismo técnico-burocrático, podendo tomar decisões circunstanciais, de acordo com as necessidades (ou sondagens) do momento. E, mesmo aqueles decisores que, convictamente, se entreguem a uma determinada ideologia, podem ver-se confrontados perante uma realidade impositiva que se sobreponha aos seus princípios políticos originários.

Tome-se como exemplo o caso prático que por estes dias tem ocupado horas de telejornais e páginas de jornais: a greve dos motoristas de pesados de mercadorias, nomeadamente de matérias perigosas. Não são aqui chamados os contornos ou os efeitos da greve em si, mas sim o seu enquadramento político-ideológico feito por diferentes intervenientes. E se este caso é aqui referido, é porque é um bom exemplo da falibilidade da “fórmula” acima apresentada.

Na óptica do tal quadro de análise “esquerda-direita”, não seria descabido prognosticar, há umas semanas, que, perante um cenário extremado de greve, o Governo (esquerda) assumisse uma posição suavizada perante aquilo que tem historicamente considerado um princípio constitucional intocável ainda herdeiro da boa e velha tradição sindicalista dos tempos do “proletariado” marxista. Partindo dessa “fórmula”, dir-se-ia também que a oposição (direita) seria menos conivente com o tom radicalizado dos grevistas e viesse defender uma acção mais “musculada” por parte das autoridades no garante da normalidade da sociedade.

Porém, os últimos dias vieram demonstrar o contrário, assistindo-se a uma inversão de papéis, pelo menos à luz daquilo que seria o cenário expectável: a esquerda fortemente empenhada na limitação aos direitos “excessivos” dos grevistas; a direita bastante permissiva perante o discurso extremado dos grevistas. Ideologicamente, será abusivo extrapolar estas posições para uma realidade mais definitiva, onde a esquerda e a direita alteraram os seus princípios face ao instrumento da greve.

Em Portugal ainda é bastante clara a fronteira doutrinária entre a esquerda e a direita em relação a algumas matérias, verificando-se algum conservadorismo ideológico em ambos os campos. A questão é que as circunstâncias políticas que se vivem acabaram por empurrar o Governo e a oposição para terrenos que não são habitualmente os seus. E quando assim é, rapidamente as ideologias são “metidas na gaveta” e os discursos mudam.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 22.07.19

 

À beira do precipício. De José Ribeiro e Castro, n' O Observador.

 

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Cuidados intensivos

por Pedro Correia, em 20.07.19

Barómetro de Julho da Aximage: há já um fosso de 14 pontos percentuais a separar o PS de António Costa do PSD de Rui Rio. É a maior distância do ano entre os dois partidos.

De acordo com estes números, divulgados a menos de três meses das legislativas, PSD e CDS somam apenas 28,5% (23,6% + 4,9%). Conclusão óbvia: em Portugal, a chamada "direita" (que rejeita este rótulo no PSD de Rio) necessita de internamento urgente nos cuidados intensivos.

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A cultura entre dois homens de espectro oposto

por João Pedro Pimenta, em 13.06.19

 

Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo.

Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Ruben.

 

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Donald goes to London

por jpt, em 04.06.19

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Há algumas semanas não só uma qualquer dignitária da Comissão Europeia como, depois, o próprio presidente francês, Macron, enviaram públicas mensagens de apreço ao nosso primeiro-ministro. Em período pré-eleitoral pareceu um bocado intromissão externa. Nada de particularmente grave, por mais que nos queixemos a democracia portuguesa vai um bocado adulta (já trôpega?) e resiste a uns floreados metediços. Talvez por isso deu para este (e outros?) velhadas sorrir(em?), na memória do vero slogan "dos tempos", aquele do "meu amigo Miterrand", com o qual Soares capitalizava o apreço que no estrangeiro por ele tinham, aquilo do "A Europa connosco", em particular a sacrossanta França, a sempre Pátria de Victor Hugo, como nos ensinou e ainda ensina aquele (de facto reaccionário) Eça de Queirós. 

Mas esta "aisance" (assim mesmo, na língua de Gambetta) não foi universal. Li vários patrícios algo ofendidos com o atrevimento francófono e europeísta, isso de aparecerem políticos estrangeiros a congratularem o (de facto malvado) António Costa. Patrícios esses que nos chegam doutores e praticantes da opinião política, nos por enquanto órgãos de comunicação social e nas fervilhantes "redes sociais".

Acalmado que foi o período eleitoral esquecidos foram esses momentos. Entretanto Trump vai à Grã-Bretanha, celebrar o 75º aniversário do heróico Dia D. No caminho diverte-se a pontapear o Medina londrino, a celebrar o André Ventura lá do sítio e a propor a liderança daquele antigo estudante da Escola Europeia de Bruxelas (quereis compreender o anti-europeísmo do rapaz?). Qual a reacção dos nossos patrícios, mui liberais, veementes direitistas? Ei-los nas redes sociais congratulando-se com a bela posição do presidente americano.

A gente não tem que ser coerente (na realidade até nem o deve ser). Mas para quem anda, até arisco, a botar sobre política, a publicar livros-manifestos, a abrir partidos, a propor novos caminhos, renovar e regenerar o envelhecido degenerado, convirá ter alguma ... consistência. Um bocadinho, pelo menos. É que, em não a tendo, o pessoal depois não vai votar nestas "novidades".

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Entretanto, e só para aqueles mais conservadores, ligados aos valores patrióticos, de sacrifício pelo bem comum: utilizar a celebração deste tipo de heroísmo extremo para "mandar bocas" aos medinas alheios é mesmo sinal de pequenez. Reconhecível, excepto pelo mentecaptismo liberalóide.

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Comemorar o 28 de Maio

por jpt, em 29.05.19

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A notícia é de 28 de Maio ("curiosa data", se glosando Mota Amaral): "Divulgar informação sobre grandes devedores ameaça a estabilidade, avisa o Banco de Portugal", uma veemente defesa dessa verdadeira "evolução na continuidade" feita pelo organismo dirigido por um indivíduo tendente à amnésia. Nesse mesmo dia se soube que o Banco de Portugal "calcula em 23,8 mil milhões de euros os fundos públicos injetados na banca nos últimos 12 anos. Falta recuperar cerca de 80%.". E ainda no vigoroso 28 de Maio, a GNR sai para a estrada para penhorar os carros aos micro-devedores fiscais.

Entretanto, durante a referida data, imensos portugueses se afadigam celebrando a "vitória da esquerda" e, acima de tudo, "a derrota da direita", esta um magma neoliberal ao serviço do capitalismo desumano. Outros, e bastantes, dissertam ainda sobre as causas da "abstenção eleitoral", especulando, implícita ou explicitamente, sobre o quanto esta influenciou a "derrota da (pérfida) direita" e/ou apoucou a "vitória da (bondosa) esquerda".

Que dizer de tudo isto, desta gente festiva? Só "Ah, Ah, Ah", para citar José Berardo, o apaniguado de José Sócrates.

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A direita acéfala.

por Luís Menezes Leitão, em 04.05.19

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Ao contrário do que aqui se afirma, esta foto não demonstra que a direita perdeu a cabeça. Na verdade, a direita em Portugal não perdeu a cabeça porque nunca a teve, estando há muito tempo completamente acéfala. Os actuais líderes do PSD e do CDS não são de direita: são de esquerda. É por isso que nunca resistem a estes cantos de sereia.

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Os nazis, esses esquerdalhos

por João Pedro Pimenta, em 06.04.19

Segundo Jair Bolsonaro, esse grande pensador político, o nazismo era de esquerda porque "tinha socialismo no nome". Pois tinha, provém do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. E a República Democrática Alemã e a República Popular Democrática da Coreia do Norte sempre foram modelos de democracia porque tinham "democrática" no nome. Se calhar vêm daí as dúvidas de Bernardino Soares sobre a Coreia do Norte. Vai-se a ver, Bolsonaro e Bernardino até têm ideias parecidas.

Mas há quem tenha ideias fixas. Muitos dos apoiantes desta tese continuam a defendê-la nas redes sociais, como Maria Vieira, actriz convertida em comentadora política, que aparentemente descobriu agora que nazi é abreviatura de nationalsozialismus (ou nem tanto, porque também diz que "os nacionais-socialistas depois ficaram nazis) e sente-se defraudada "pelos historiadores comunistas" que "andaram a passar a ideia de que o nazismo era de extrema-direita" (confirmar isto na página de Facebook da senhora).

Esta estranha ideia de rever a posição do nazismo no espectro político mostra bem como as massas hoje em dia se deixam arrastar pelas redes sociais e por demagogos, tanto os messiânicos como os de caixa de comentários. Houve uma discussão idêntica, há uns anos, entre José Rodrigues dos Santos, que jurava a pés juntos que o fascismo provinha do marxismo, e António Araújo (longe de ser marxista), que o contradisse com sólida argumentação. Ao menos aí houve polémica nos jornais; quase que me atrevo a dizer "como antigamente", só que sem os numerosos pontos de exclamação e a ameaça de bengaladas.

Mas só para dar uma pequena ajuda à ideia revisionista de que o nazismo era de esquerda e que o fascismo "era marxista", lembrei-me de um livro meio esquecido mas que ainda tenho num estante qualquer, o "Testamento Político de Mussolini" com prefácio de Alfredo Pimenta (não é meu parente, asseguro). Mais do que a herança da Duce, interessam aqui as palavras do historiador português fundador da Acção Realista, monárquico tradicionalista e com ideias próximas do Integralismo Lusitano. Pimenta eleva Mussolini aos píncaros, apesar de "não se considerar feixista" (podíamos usar o aportuguesamento do termo, como fazem os galegos), considera-o restaurador do império romano" como Hitler tinha restaurado "o império germânico" e Salazar "o império lusitano". Mussolini começou no socialismo, como se sabe, mas as suas convicções mudaram com os anos. Alfredo Pimenta, tal como António Sardinha, o ideólogo do Integralismo, também teve um percurso de extremos: começou no anarquismo, passou pelo republicanismo moderado e acabou na tradicionalismo anti-liberal e anti-democrata. É um bom exemplo de como há mudanças profundas em certos percursos políticos, e uma testemunha óbvia de que os compagnons de route dos fascistas por esta altura eram os tradicionalistas e não os marxistas e que o nacional-socialismo era uma doutrina da direita revolucionária e nunca da esquerda.

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Nascidos a 5 de Julho.

por Luís Menezes Leitão, em 24.03.19

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É evidente que a forma mais eficaz de derrotar a geringonça passa por uma união dos partidos de centro-direita. A mesma só pode, porém, fazer-se através de um acordo entre esses partidos, não através de movimentos inorgânicos, ainda mais patrocinados por quem promoveu cisões, o que só enfraqueceu o combate político do centro-direita à geringonça. Para além disso, remeter para o saudosismo de uma aliança partidária constituída há quarenta anos, e várias vezes replicada não é seguramente a melhor forma de apresentar algo novo aos eleitores. A designação dos Nascidos a 5 de Julho só faz lembrar o filme Nascido a 4 de Julho. Se bem me lembro o protagonista tinha um triste destino.

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O equívoco Mário Machado

por João Pedro Pimenta, em 15.01.19

 

A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que caem nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não exactamente conhecidos por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.

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Frases de 2018 (44)

por Pedro Correia, em 10.12.18

«A direita política portuguesa atravessa a sua pior crise desde 1978.»

Miguel Morgado, deputado do PSD, em entrevista ao Observador

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Frases de 2018 (39)

por Pedro Correia, em 22.10.18

 

«A direita portuguesa hoje não existe.»

Vasco Pulido Valente, ontem, em entrevista ao Público

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Ser de esquerda ou de direita

por Pedro Correia, em 11.09.18

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Não passa um dia sem que leia alegados analistas políticos usando e abusando de rótulos identitários sem um menor esboço de rigor. Incluo nestes rótulos a estafada dicotomia "esquerda/direita". Que tenho cada vez mais dificuldade em aceitar como forma de interpretar o mundo contemporâneo, caracterizado por fracturas de outro género.

O que é ser "de direita"? Quais os requisitos necessários para meter alguém na gaveta da "esquerda"? E quem está habilitado a emitir certidões deste tipo?

 

Estes dísticos têm, desde logo, o defeito de nunca valerem por si: necessitam sempre de uma bengala. Neste caso, uma bengala geográfica. Porque quem se diz de esquerda ou de direita situa-se invariavelmente em função de terceiros: ninguém está à esquerda ou à direita de si próprio.

O que nos conduz ao aparente paradoxo de qualquer de nós poder ser, em simultâneo "de esquerda" e "de direita". A menos que se trate de alguém tão colado a um extremo do espectro político que tenha a leste ou a oeste, conforme o caso, apenas um muro.

Falo por mim: sou de esquerda e de direita. Porque me situo muito mais à esquerda do que o PNR e muito mais à direita do que o MRPP. Seguramente 99% dos meus compatriotas estarão como eu.

 

Os cenários podem multiplicar-se, estreitando as margens da equação mas conduzindo ao mesmo resultado: não faz sentido alguém assumir-se politicamente em função de coordenadas geográficas que dependem sempre do contexto e das circunstâncias.

Tomemos alguns exemplos: Ramalho Eanes, eleito em 1976 como hipotético "candidato da direita" à Presidência da República, seria reeleito quatro anos depois como suposto "candidato da esquerda" - sem nunca ter deixado de ser a mesma pessoa nem abdicado do essencial do seu pensamento político. E o Mário Soares que combateu Álvaro Cunhal em 1975, perante a fúria da "esquerda", não seria estruturalmente o mesmo que colidiu com Cavaco Silva no seu segundo mandato em Belém, escandalizando parte da "direita"?

 

Um ser humano é muito mais do que a soma ou a subtracção de pontos cardeais. Gostaria que os comentadores e os jornalistas que reduzem a vida partidária aos gestos mecânicos de um polícia-sinaleiro se lembrassem mais vezes disto, rejeitando rótulos que podem ser úteis para os amantes da taxidermia mas empobrecem o debate político, reduzindo-o a tosca caricatura. Cada ser humano é demasiado complexo para caber por inteiro numa etiqueta.

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Frases de 2018 (18)

por Pedro Correia, em 06.04.18

«A direita convive bem com a corrupção, sempre conviveu.»

José Pacheco Pereira, ontem, na SIC Notícias

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Descubra as diferenças

por Pedro Correia, em 11.12.17

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«O PS nunca mais vai precisar da direita para governar.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Jornal Económico

20 de Janeiro

 

«Em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Público

26 de Novembro

 

«Não precisamos da direita para governar mas pode vir a acontecer.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista à TSF

9 de Dezembro

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Dez meses é muito tempo

por Pedro Correia, em 28.11.17

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«O PS nunca mais vai precisar da direita para governar.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Jornal Económico

20 de Janeiro

 

«Em matérias estruturantes vamos procurar o PSD e o CDS.»

Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, em entrevista ao Público

26 de Novembro

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Abriu a época de tiro ao Marcelo

por Pedro Correia, em 26.10.17

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Nada ficará na mesma entre o Presidente da República e o primeiro-ministro depois do trágico 15 de Outubro. Os primeiros indícios estão já aí: Marcelo Rebelo de Sousa vai passar a estar sob a bateria de críticas de alguns destacados apoiantes do Governo no espaço mediático.

Sintomaticamente, o mote foi dado pelo ex-ministro Pedro Silva Pereira faz hoje uma semana, em declarações à TSF. «O Presidente da República está naquela posição fácil de poder alinhar com expressões de indignação e sofrimento do país sem ter que subscrever responsabilidade na solução de problema nenhum», afirmou o antigo braço direito de José Sócrates.

 

A narrativa anti-Marcelo começava assim a ser construída. E nessa mesma noite prolongou-se - em tom mais veemente - numa intervenção feita por Fernando Rosas na TVI 24, acusando o Chefe do Estado de se deixar «atrair pela intriga política» e «exceder o magistério presidencial». Para este fundador do Bloco de Esquerda, e ex-candidato a Belém, não restam dúvidas: «O Presidente quis entalar o Governo.»

Na mesma linha, pronunciou-se Daniel Oliveira, na sua coluna da última edição do semanário Expresso: «O Presidente, uma raposa disfarçada de peluche, aproveitou. Distanciou-se de Costa no tom, o que é fácil para quem apenas tem a parte perfomativa da representação do Estado. (...) Não se enganem: o rei do teatro sensível tem uma frieza invejável no cálculo político.»

 

Hoje a escalada prosseguiu, engrossando o tom. Com "fonte do Governo", não identificada, a confessar-se em estado de choque com Marcelo na manchete do jornal Público. Enquanto Porfírio Silva, membro do Secretariado Nacional socialista, rasgava as vestes perante o «inaceitável aproveitamento politiqueiro de uma enorme tragédia que o País viveu». O alvo continua a ser o Chefe do Estado.

Cereja em cima do bolo: no jornal oficial do PS, há já quem chegue ao ponto de apontar tentações ditatoriais ao inquilino de Belém, lançando o toque a rebate. «A esquerda deve estar unida e coesa, para impedir esta caminhada preocupante e perigosa, combatendo a tentação presidencialista de Marcelo, que ameaça a democracia. E o presidencialismo, é bom ter presente, descamba, por vezes, em ditadura.»

 

Não restam dúvidas: abriu a época de tiro ao Presidente.

São só as linhas iniciais de uma novela que promete ter muitos capítulos. Marcelo estará certamente preparado para ela. Só alguns tontos à direita ainda não perceberam. Mesmo depois de ele ter avisado com todas as letras, na visita que fez a Andorra no mês passado: «Quando viro à direita em Portugal, a direita está distraída a bater na esquerda, não nota. Em vez de aproveitar, não nota.»

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Estava escrito nas estrelas

por Pedro Correia, em 01.10.17

 

Que Assunção Cristas teria óbvios motivos para sorrir nesta noite eleitoral.

 

Que Passos Coelho fez muito mal ao optar por  medir forças à direita em Lisboa, em vez de apoiar a líder do CDS, que chegou muito antes ao terreno.

 

Que a derrota esmagadora do PSD na capital se tornou inevitável no próprio momento do anúncio da candidatura de Teresa Leal Coelho.

 

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O historiador e o pára-quedista

por Pedro Correia, em 27.09.17

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Estranhei um artigo de Rui Ramos, ontem publicado no Observador, que é um autêntico panegírico a André Ventura. Estranhei porque considero haver um fosso intelectual entre o historiador e o pára-quedista do PSD em Loures, que ali faz uma espécie de tirocínio para outros voos.

O problema de Ventura, ao contrário do que é referido nesse artigo, está muito longe de se circunscrever à questão dos  ciganos - o que já bastaria para o desqualificar como candidato autárquico de um partido que não pertence às franjas do sistema democrático.

Ventura é também um assumido defensor da  prisão perpétua, do  trabalho compulsivo de presos e da castração química de certos delinquentes, além de não lhe repugnar a pena de morte. Está portanto em oposição aberta não à gestão comunista em Loures - que aliás contou com a colaboração activa do PSD nestes quatro anos - mas ao Código Penal.

Algo insólito, num jurista.

Mais um motivo para este artigo de Rui Ramos me causar estranheza. O autor chega ao ponto de reduzir, sem ironia, as 308 eleições autárquicas de domingo a um "referendo sobre André Ventura em Loures": julgo que nem o próprio bafejado por estas palavras iria tão longe acerca de si próprio.

São palavras pelo menos tão deslocadas da realidade como a suposta "inteligência e sofisticação" do candidato assim descrito pelo historiador, que o eleva à condição de "herói de cidadãos fartos do concurso de misses do politicamente correcto”.

 

Reflecti nestas palavras. E acabei por concluir que esta peça no Observador, mais do que enaltecer Ventura, visa quem ousou criticá-lo  internamente.  Com destaque para Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho, que na sequência imediata das afirmações iniciais de Ventura se demarcaram o mais possível dele. Ao ponto de a líder do CDS ter declarado fim unilateral à coligação pré-eleitoral com o PSD em Loures.
Aparentemente, Rui Ramos inclui a presidente do CDS e a vice-presidente do PSD entre os membros da "oligarquia política" que, à direita, "embora não tendo aderido ainda ao PS, já são inofensivos". Este raciocínio terá muito menos a ver, portanto, com o putativo "plebiscito" de Loures do que com os  ajustes de contas e a recomposição de forças à direita do PS que se prenuncia após a soma dos 308 escrutínios de domingo.

Acontece que para esse filme o contributo de Ventura será residual ou mesmo nulo. O que o ex-director de campanha de Luís Filipe Vieira ambiciona é a presidência do Benfica. Loures, onde caiu de pára-quedas, serviu apenas de isco para o "herói" de Rui Ramos ganhar um palco mediático extra-futebol. Como podia ter sido Sintra, "única terra que verdadeiramente [o] apaixona", como chegou a confessar numa entrevista.

Ou Cascalheira de Cima ou Alguidares de Baixo. Para o caso tanto faz.

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Frases de 2017 (38)

por Pedro Correia, em 08.09.17

«Quando viro à direita em Portugal, a direita está distraída a bater na esquerda, não nota. Em vez de aproveitar, não nota.»

Marcelo Rebelo de Sousa, hoje, em Andorra

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