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O diabo a chegar

por Pedro Correia, em 16.03.20

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Foto: Mário Costa/Lusa

 

Razão tinha aquele ex-governante ao avisar que «vinha aí o diabo». Em forma de recessão económica e colapso financeiro, que é uma espécie de guerra por outros meios.

Para enfrentar este espectro que abala o mundo, nada melhor do que ter contas correntes equilibradas, impostas pela disciplina orçamental. Sobretudo tratando-se de um país como o nosso, que importa grande parte do que come, está muito longe da auto-suficiência e tem um dos maiores défices da balança alimentar da Europa. Além de mantemos a terceira maior dívida pública dos países membros da OCDE, avaliada em 122% do PIB anual.

Pois o diabo está aí a chegar, como o ex-governante advertia. Em forma de vírus, como testemunhamos nesta espécie de praga chinesa lançada a quem ansiava por viver «tempos interessantes». Daí a necessidade de fazer sem demora esta advertência: há que travar o passo ao ministro das Finanças, que já se preparava para esvaziar as gavetas do seu gabinete e rumar ao posto de comando do Banco de Portugal. Não é o momento para tal transferência. Ninguém lhe perdoaria que protagonizasse o papel de desertor, em pleno cenário de crise, quando já se vislumbra uma nova situação de emergência financeira e social, provocada pela pandemia.

Como acentuou há dias António Costa, «não se mudam generais a meio da batalha».

Até o diabo se ri!

por Maria Dulce Fernandes, em 22.06.19

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Não há ser mais inseguro do que este humano que somos. Os ditos irracionais que vivem condicionados à subsistência diurnal são tantas vezes mais ousados, mais resolutos  e expeditos do que os pensantes.

É certo que se vive num habitat social onde cumprir regras é fundamental para coabitarmos pacificamente, mas existe o livre arbítrio, aquilo que imprime em cada indivíduo a marca da sua personalidade. São as escolhas que fazemos que nos definem como pessoas. Somos nós que transportamos o passado, criamos o presente e lançamos a pedra basilar do nosso futuro .

Não há prescrição para o advir, mas é normalíssimo atribuir-se os agravos da existência a outrem, principalmente aos nossos medos, insatisfações e negatividade a que normalmente chamamos diabo, porque tudo o que corre mal é sem dúvida obra do diabo.

"São coisas do diabo"; "Às vezes, atrás da cruz está o diabo escondido"; "Quem com o diabo se deita, com o diabo amanhece"; "Não vá o diabo tecê-las"; "O diabo a quatro"... O mais característico de todos os dizeres "diabólicos" é sem dúvida "Que venha o diabo e escolha".

Escolheremos nós assumir as nossas escolhas como próprias, e não imputá-las a um qualquer pobre diabo?  

O orgulho é a raiz de todo o mal, e apesar de enraizado e ramificado na consciência dos homens não é robusto nem preciso como um relógio suíço, nem o relojoeiro é o diabo. O detentor da chave que lhe dá corda e alimenta somos todos, é cada um de nós.

 

Bom fim de semana.

Grandes progressos

por José Navarro de Andrade, em 10.07.13

 

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William Blake, "Demónio", circa 1810

 

Não há conforto maior do que ter explicação para tudo. Ou melhor, uma explicação para tudo; melhor ainda: uma explicação rápida e simples que resolva tudo. Convenhamos que o "o penso, logo existo" de Descartes é um bocado preguiçoso e o barbudo de Trier complicou a questão com não menos que 10 teses. E assim por diante. Mas eis que um cientista social, um doutor e português, senhores, destrinçou o enigma definitivamente:

"O Humanismo renascentista e Iluminismo setecentista recusaram a transcendência do mal como incompatível com a dignidade humana. O pecado original foi rejeitado por razões ideológicas. Assim, os últimos séculos não consideram a possibilidade de Satanás." Corolário: "Quem não acredita no diabo acaba vendo-o em todo o lado."

Nobel já para César das Neves! E logo da medicina, porque a sintética teoria (qual teoria - teorema!) tem profundas implicações clínicas: "o verdadeiro campo de batalha entre o bem e o mal é não a política e a sociedade mas o meu coração." Fica pois certo que da esponja encefálica nem a glândula pineal se aproveita; é mesmo no músculo cardíaco que a moral (deveria ter escrito em maiúscula?) se digladia e Satanás, Belzebú, Lúcifer, ou lá que nome tem o "mal concreto", se estabeleceu. Para já e de imediato, isto explica umas palpitações que me acometeram ontem, julgava eu que era comida, afinal deve ter sido insídia do mafarrico por causa de uns pecadilhos que me envergonha dizê-los aqui.

Perante tamanha descoberta teleo-cárdio-sócio-filosófica, a humanidade aguarda, com extrema ansiedade, quiçá em transe místico, que César das Neves decidida se mefistófeles reside efetivamente nos glóbulos vermelhos cor do demo, nos brancos que são vorazes, nas sonsas plaquetas ou no plasma que é esquivo. Há que precisar estas coisas, senão fica a missa a metade.

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Coisas da canalha

por Gui Abreu de Lima, em 30.06.13

Um Mefistófeles dentro de casa. 13 anos, a anunciar que não vai mais à missa. "Deixa-te disso", disse a mãe, "enquanto viveres debaixo do meu tecto fazes o que eu mando", lembrou o pai. Conseguiu um acordo - passaria a ir à das seis e meia e dispensavam-no da do meio-dia, na Misericórdia, com aquele errante final social.

Da Matriz ao campo da bola era uma certa distância e ainda que com tempos sobrepostos, valia toda a diferença.

Junto e atacado, só levou uma. No meio da estrada, depois do som da travagem no areão da berma, viu-lhe os olhos faiscar. – Foste à missa? Nem falou. Ao primeiro biqueiro concluiu que chegara o dia. Da coça.

Hoje, quando derrapa por si adentro e a poeira se levanta, é um camelo direitinho a casa. Percorre o seu deserto e frente a santinhos de pau com olhares de troça, deixa correr o pranto. Mefistófeles apeia-se nas igrejas.

 

Foto: Gui Mohallem


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