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Temos cadáveres no armário

por Teresa Ribeiro, em 08.03.19

Os cadáveres têm um problema. Não espalham fake news, nem cavalgam movimentos mediáticos para perseguir indiscriminadamente os homens. Limitam-se a ser.

Não por acaso, desta vez não há polémica no ar. As cavaleiras andantes, que noutras situações se apressam a defender o macho ibérico, não se manifestam. As militantes do Not Me (nome que inventei por oposição ao #MeToo), que desvalorizam as queixas das mulheres que denunciam assédios e discriminações, insinuando que só é vítima quem quer, calam-se.

À medida que este macabro cortejo engrossa, torna-se difícil sustentar que em Portugal, no século XXI, a misoginia é um epifenómeno instrumentalizado para efeitos de propaganda pelas lésbicas, galdérias e mal amadas do costume.

Mulheres no poder

por Pedro Correia, em 08.03.18

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As duas maiores potências económicas do continente europeu são comandadas por mulheres: Angela Merkel e Theresa May.

Sinal inequívoco da crescente influência feminina nos grandes centros de decisão política do mundo contemporâneo. Boa notícia, portanto.

 

ADENDA: O Governo português só inclui 16,7% de mulheres. Estamos dez pontos abaixo da média europeia.

Pelo fim do dia anual da mulher

por João André, em 08.03.18

Desde que comecei a pensar no assunto que passei a não gostar do Dia Internacional da Mulher. Fazia sentido a sua celebração quando surgiu, mas não celebro aquilo que passou a representar: o dia em que os homens prestam atenção às mulheres como antigamente comprariam indulgências. Passou a ser então uma espécie de vávula de escape para a consciência. Não faz mal o comportamento machista ou misógino nos outros dias se se oferecerem flores (hoje em dia virtuais) no dia 8 de Março. Como li (ou ouvi) em tempos: por ano há um Dia Internacional da Mulher e 364 Dias Internacionais do Homem.

 

Não é uma questão apenas de como os homens se comportam (e não se pense que eu não me incluo neste grupo). Parte da responsabilidade é também das mulheres, que enchem os seus murais do Facebook, os seus feeds to Twitter ou os seus blogs com comentários de celebração do ser mulher, celebração das mulheres nos seus círculos (pessoais ou profissionais), e o orgulho de ser mulher. Não tenho nada contra isso, mas especialmente o primeiro e terceiro casos fazem-me confusão. Como celebrar ou ter orgulho em algo sobre o que não se tem influência. Seria o mesmo que dizer que se tem orgulho em ter dois pés ou uma boca. Há naturalmente circunstâncias em que isto muda (operações, acidentes) mas nenhum de nós pode influenciar o sexo com que nasceu.

 

Da mesma forma que não vale a pena celebrar o ser-se feminina. Uma mulher que se identifique como tal mas goste de crescer os pêlos, arrotar, vestir-se de calças e camisa de flanela, colocar uma tatuagem a dizer "Amor de Mãe", ver filmes de acção, beber cerveja, e, horror dos horrores, preferir mulheres, será menos digna de ser chamada "mulher"? Pode ser menos interessante do ponto de vista estético (e a estética muda com o tempo), mas não podemos reduzi-la a algo menos que Catherine Deneuve ou Natália Correia.

 

O Dia Internacional da Mulher é então o dia em que as mulheres são lembradas e acarinhadas por serem aquilo que sempre são. Deveríamos no entanto vê-lo como um dia em que reflectimos sobre o papel das mulheres, os seus direitos, aquilo que conquistaram (com ou sem ajuda) num mundo dominado por homens e aquilo que ainda falta conquistar. O papel de movimentos como os actuais #metoo ou #timesup é fundamental, mais que qualquer flor, virtual ou não, oferecida num único dia do ano. Não mudará o mundo só por si, mas lembra o mundo dos desafios que as mulheres e os homens (estamos neste mundo juntos) continuam a enfrentar.

 

Este dia 8 de Março de 2018 é então um belo dia para relembrar tudo o que foi exposto no último ano. Um colunista que eu leio (a propósito de outros temas) gosta d eescrever que a luz do sol é o melhor desinfectante. Se assim é, estes últimos 365 dias têm vindo a desinfectar muitos dos corredores infectos no mundo. E a limpeza, como aconteceu no passado, tem sido feita por mulheres.

 

E, assim, deixo o meu voto. Por para elas serem importantes, deixo às minhas mulheres os meus votos de um Feliz Dia Internacional da Mulher. E o meu desejo muito sincero que seja um dos últimos que se celebrem apenas de ano a ano.

 

#PressforProgress

Sharon Stone: cintilante aos 59

por Pedro Correia, em 08.03.18

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 Foto: The New York Times

 

Ela está estupenda, aos 59 anos. E revela ao New York Times os segredos para se manter em tão boa forma.

Hoje, 8 de Março, presto homenagem simbólica a todas as mulheres homenageando-a a ela, minha actriz de culto.

A deslumbrante, a cintilante, a inconfundível Sharon Stone.

As outras mulheres...

por Alexandre Guerra, em 08.03.18

A determinadas horas nas quotidianas viagens de comboio que faço na linha de Sintra (coisa que desconfio que uma certa elite pensante lisboeta desconheça em absoluto), dou por mim a observar algumas mulheres, não aquelas que entusiasticamente metem likes em tudo o que tenha a hashtag “MeToo”, ou aquelas que, histericamente, reiventaram uma versão mais fundamentalista da queima dos soutiens dos anos 60, mas antes aquelas que se levantam às 5 ou 6 da manhã para irem trabalhar nas limpezas das empresas ou para entrar na caixa de um supermercado. Muitas delas, provenientes das antigas colónias e que residem naqueles subúrbios que tanta alergia causam a algumas almas que comentam euforicamente nas televisões e twittam ruidosamente, é como se ficassem com o refugo que a sociedade não quer. Ainda esta manhã, uma delas, ao frio e a apanhar com os pingos da chuva, esvaziava os caixotes de lixo na estação do Cacém. Por vezes, estas mulheres carregam aos ombros o sustento de uma família inteira. Os miúdos estudam (quando estudam) e o homem da família há muito que, cobardemente, se meteu ao largo. Olho para os rostos destas mulheres e não consigo descortinar as suas emoções. Não consigo perceber se estão tristes, felizes, angustiadas... Certamente estarão a fazer contas à vida. Cumprem as suas obrigações… Quando precisam, têm que esperar horas numa urgência, meses para uma consulta, ou fazer sacrifícios imensos naqueles dias caóticos de greves de transportes públicos porque não têm outra forma de chegar ao trabalho. E nestes casos, os patrões quase nunca são benevolente. São mulheres sofridas, mas as suas vozes são silenciosas. Não se queixam, ninguém lhes mete um microfone à frente e seguramente os seus temas não são suficientemente sexy para fazer a tendência do dia nas redes sociais. Estas mulheres são, de certa forma, vítimas de um certo tipo de exclusão social ou, talvez melhor dito, de uma apatia social.

 

Confesso que acho pouco interessante a discussão primária quando o assunto se coloca ao nível de feminino vs machismo, dos livros cor-de-rosa vs livros azuis, se as mulheres voluptuosas devem ou não estar na grelha de partida na Fórmula1 ou dar beijinhos aos vencedores das etapas em bicicleta (eu acho que devem, mas isso é outra questão). E mais, pouca credibilidade dou àquilo que saia do circo chamado Hollywood "embrulhado" em assunto sério (aliás, é de uma hipocrisia enorme que na cerimónia dos Óscares se fale dos previsíveis e populares temas e se "bata" (e bem) no Weinstein e Damon, mas nem uma palavra sobre o massacre de mulheres e crianças em Ghouta oriental). Naquilo que deve ser uma abordagem séria e intelectualmente consistente, prefiro a linha de raciocínio de António Guterres, secretário-geral da ONU, quando hoje em Nairobi disse que as mulheres são as principais vítimas da pobreza, dos conflitos e da violação dos direitos humanos. Porque, e de acordo com os indicadores da Organização Internacional de Trabalho, divulgados ontem, verificaram-se progressos substanciais nos últimos 20 anos, sobretudo nas sociedades ocidentais, em termos de desigualdade de género, embora haja muito caminho para percorrer até ser alcançada uma igualdade justa. No entanto, o problema continua particularmente acentuado em regiões como África ou Ásia. Ou seja, em situações limite, seja de abuso de poder governamental ou laboral, de conflito social ou militar, são as mulheres quem mais sofre.

 

E isto é tão válido para a mulher que percorre quilómetros para ir buscar água para a família algures na Etiópia, para a estudante em Riade que não pode ir ao cinema de mão dada com o namorado ou para a operária explorada por um chefe sem escrúpulos numa qualquer empresa do Vale do Ave. Mas não só. Essas situações limite podem assumir, por vezes, formas bem mais subtis e que levam as mulheres ao sofrimento, muitas vezes silencioso, mesmo no nosso quotidiano mais cosmopolita.

 

Veja-se aquela mulher que se levanta todos os dias, sozinha, trazendo às costas os problemas do dia anterior, que veste, alimenta e leva à escola os filhos. Após o tormento dos transportes públicos ou do trânsito, chega ao emprego e já está preocupada se sairá a horas para ir buscar os filhos e passar algum tempo de qualidade com eles, educá-los, mimá-los. Muitas vezes, o apoio é pouco ou nulo, estando entregues a si próprias. No trabalho, por vezes, as proclamações de boas práticas empresariais e os afectos públicos demonstrados pelos chefes não casam com aquilo que é, efectivamente, praticado. Tudo lhes é dificultado, os horários são inflexíveis, e quando é preciso compreensão, ela não existe. Com sensibilidade e bom senso, algumas destas angústias seriam facilmente resolvidas e contribuiria, seguramente, para um maior conforto da mulher. No final do dia, é o regresso de um longo calvário, com paragem obrigatória na escola para ir buscar os filhos, talvez também no supermercado e, finalmente, fazer o jantar. Por fim, a responsabilidade maternal desencanta tempo e paciência (sabe-se lá onde) para a educação e algum tempo de lazer com os filhos. Deitadas as crianças, é preciso ainda rever uma proposta do trabalho que o "chefe" pediu para ser enviado ainda nesse dia. E já no limiar das suas forças, uma zona onde normalmente os comuns mortais caem por terra, a mulher revela todo o seu esplendor, e ainda arranja tempo e disposição para ser fascinante. 

Feminina, não feminista

por Teresa Ribeiro, em 08.03.18

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Sempre que oiço: "Sou feminina, não feminista", pergunto-me o que isso quer dizer. Como por definição "feminista" é quem se afirma a favor dos movimentos pela igualdade de género, devo presumir que as mulheres que fazem esta declaração são contra?

Algumas serão. Em todos os tempos sempre houve mulheres que defenderam convictamente o direito à desigualdade (não confundir com o direito à diferença), ombreando com os homens mais conservadores. Mas acredito que muitas se colocarão em posições intermédias.

Presumo que algumas se afirmam "femininas, não feministas" porque não se identificam com o estereótipo "lésbicas de bigode e pelos nas pernas a queimar soutiens na praça pública". É claro que reduzir as feministas a este velho cliché é alinhar com os que o consagraram com o único objectivo de descredibilizar as suas causas, cobrindo-as de ridículo. Terão estas senhoras a noção disso?

Outra interpretação possível para a frase "Sou feminina, não feminista" é querer com isso dizer que não se tem perfil de activista. Mas neste caso quem o fizer labora num equívoco, porque uma mulher que se afirme defensora das causas feministas, não tem de ser necessariamente uma activista, além de que, last but not least, opõe feminilidade a feminismo, como se os termos se excluíssem.

Mas ainda há a considerar a categoria de mulheres que adopta este chavão para transmitir a ideia de que o termo feminismo não lhes interessa porque não lhes diz respeito, pois nada acrescenta ao seu nível e estilo de vida, que por sinal inclui, sem complexos, muitas ociosidades e futilidades de princesa. Esta é a versão provocatória, a afirmação descomplexada de valores contra o politicamente correcto, que coloca a defesa dos direitos humanos acima de todos os egoísmos.

Dispensarão estas senhoras dois minutos de reflexão sobre o tema da violência contra as mulheres? Talvez no dia 8 de Março, quando ritualmente os noticiários se enchem deste tipo de informação. Ou então, nem isso, porque provavelmente pensam que o tema só interessa às feministas, "a essas mulheres frustradas, sem auto-estima, que não devem ter sucesso nenhum com os homens, por isso os odeiam. Sim, porque todas as feministas odeiam os homens" (fim de cassete). As que pensam assim e se afirmam respeitadas, admiradas, valorizadas e bem-sucedidas, essas o que adoram mesmo é sentar-se, de perna traçada, em cima dos direitos que outras, antes delas, tiveram de conquistar e gozar a vida dentro da sua bolha cor-de-rosa. 

Dia Internacional da Mulher

por Rui Rocha, em 08.03.17

Vamos lá ver. Não teremos verdadeira igualdade se o objectivo for que as mulheres assumam as mais diversas funções por serem competentes. Na verdade, só poderemos falar realmente de uma situação justa quando as mulheres incompetentes ascenderem a cargos em igualdade de circunstâncias com os homens incompetentes. É uma matéria em que fizemos significativo progresso mas temos de reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer.

Quotas para que vos quero

por Teresa Ribeiro, em 08.03.17

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Quotas. É uma polémica recorrente, mesmo entre mulheres, portanto muito apropriada para assinalar este dia. Durante alguns anos fui sensível ao argumento de que o estabelecimento de quotas para mulheres as inferiorizava, mas depois as estatísticas entraram em diálogo comigo e falaram mais alto. Sim, felizmente há mulheres que chegam ao topo sem que para tal tenham sido empurradas por quotas. A ascensão feita assim é o que está certo. Sem equívocos, nem margem para dúvidas quanto a mérito e competência. Mas a realidade diz-nos que estas situações são de excepção. Basta consultar as primeiras páginas dos jornais de hoje para perceber qual o estado da arte: "Mulheres têm menos chances de ter bom emprego", diz o Público; "Na UE uma em cada três posições de gestão é ocupada por mulheres", noticia o I; "G20 - grupo dos poderosos só tem Merkel e May" e "PSI 20 - quatro empresas sem nenhuma administradora", anuncia o DN.

No entanto sabe-se que as mulheres estão em maioria entre os que terminam licenciaturas e que apresentam mais qualificações. E que é assim em Portugal e no mundo. Como se explica isto? Recorrendo ao primado bíblico "a culpa é delas"?

Deveremos então concluir que este enorme contingente, que não consegue subir na carreira de acordo com as suas competências e no limite franquear as portas do poder é todo desprovido de "soft skills", como agora se usa dizer? Ou o que lhes falta é - vamos lá a chamar os bois pelos nomes - tão somente algo que a Natureza não lhes deu: o sexo adequado para alcançar o topo?

Quando não existe mais nada, o que nos resta é o pragmatismo. E é por isso que me tornei a favor das quotas. Se não vai a bem, vai a mal. Porque sem quotas bem podem as mulheres esperar sentadas por oportunidades e reconhecimento iguais.

Dia da Mulher

por Pedro Correia, em 08.03.17

Os vossos direitos, meninas e senhoras, ainda não estão plenamente alcançados. Hoje, por exemplo, só devia haver mulheres a escrever neste blogue.

E lá vamos nós!

por Teresa Ribeiro, em 08.03.16

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"Parabéns" porque nasci mulher? "Parabéns" porque não é fácil viver num mundo de homens? "Parabéns" porque apesar de tudo já estivemos muito pior? "Parabéns" porque a luta continua? "Parabéns" porquê, senhores?

Ui, ui, hoje é o meu dia!

por Teresa Ribeiro, em 08.03.15

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Quando me perguntam se gosto de ser mulher, respondo que não. Lamento, mas neste aspecto não soube evoluir. Desde que percebi, ainda na primeira infância, que o mundo é dos homens, este sentimento ficou-me colado aos ossos e não há campanha publicitária de pensos higiénicos que me faça mudar de ideias.

Esta rejeição, que cresceu comigo, nada tem a ver com problemas de identidade sexual. Gosto de cor-de-rosa, de bebés e de sapatos, portanto não há qualquer dúvida, sou muito estereotipada, o que paradoxalmente só veio agravar a relação conflitual que tenho com o meu género desde que me conheço.

Gostava em menina de brincar com bonecas, mas não da terna displicência do meu avô, que só tinha conversas com o meu primo, mas não sabia do que falar comigo. Identificava-me com as princesas das histórias de encantar, mas detestava que me apontassem as regras de comportamento "próprias de uma menina" - sempre mais restritivas que as dos meninos - e ainda mais que fossem a minha mãe, as minhas tias e a minha avó a ditá-las. Gostei de crescer com estas mulheres, mas revoltou-me perceber que, por razões diferentes, todas abdicaram de uma maneira ou de outra do que podiam ter sido só pelo facto de terem nascido com um par de ovários.

Na vida adulta pus-me à prova. De um lado os meus ressentimentos e reivindicações feministas, do outro a realidade, esse tapete onde caí tantas vezes por KO. E tem sido esta a minha vida. Sempre a sopesar o que sou e o que somos. Eu e as mulheres. Eu e elas. Eu que sou elas.

Admiro as mulheres que dizem que se orgulham de ser mulheres, mas quando as oiço não consigo iludir a tristeza funda que me nasce da consciência de que o fazem pela necessidade de se afirmarem como iguais.

A misoginia, a doença infantil do homem das cavernas, continuará a discriminar, segregar, matar, estropiar e escravizar milhões de mulheres em todo o mundo. E é a consciência disto que me mata à nascença o prazer de pertencer à tribo e ainda mais de festejar esta data. Festejar o quê?

Agustina Bessa-Luís

por Patrícia Reis, em 08.03.15

A mulher, até pelo seu grande poder de insignificância, é muito menos vulnerável que o homem.

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Cem anos depois no dia delas

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.03.15

Facto

 

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

 

(Ruy Cinatti, 08/03/1915 -12/10/1986)

Tipo A rh XX

por Teresa Ribeiro, em 08.03.14

Soube, desde o começo, o que me estava reservado e não gostei. Era a menina da história. Filha única e só com primos machos. O meu pai ficou decepcionado quando nasci, porque desejava, como quase todos os pais na época, um menino "para jogar à bola". O meu avô, quando queria humilhar o meu primo mais velho, dizia-lhe que eu era mais despachada, "apesar de ser uma rapariga". Para se vingar, quando nos encontrávamos para o almoço de domingo em casa dos nossos avós, ele batia-me e eu ripostava com uma gana feita da necessidade de não me vergar. Era a minha guerra dos sexos dominical, que me deixava coberta de nódoas negras e com amargos de boca, pois ele vencia-me sempre e eu sentia - talvez por preconceito - que era por ter uma força de uma qualidade diferente da minha, mil vezes superior.

Aquelas arrochadas semanais tornaram-me competitiva. Até à mudança de idade era uma miúda empenhada em brincadeiras que exigiam competências físicas. Vencer era, numa corrida, deixar rapazes para trás. Crescer era dar rédea curta às fantasias que se intrometiam na minha luta e me levavam também a gostar de bonecas e a identificar-me com as princesas das histórias de encantar.

Com o tempo, as hormonas levaram-me a melhor. Apesar das minhas denegações infantis, fiquei na cabeça com um mapa neuronal cor-de-rosa cheio de idiossincrasias em tons fúcsia. Não consigo até hoje explicar como é que a miúda que se recusava a vestir saias acabou a adorar sapatos, malas e brincos. Não é só a cultura, Simone. Eu tive uma filha e sei. Ainda recém-nascida a pediatra topou-a: "Ela é muito feminina", disse-me. Espantei-me com esse diagnóstico tão precoce, mas depressa percebi que tinha acertado em cheio. Aos dois anos, quando a mesma médica a mandou caminhar de uma ponta a outra do consultório para vermos se ela tinha pé chato, pôs-se a rebolar as ancas enquanto andava, tal e qual a Marilyn Monroe.

Não é só cultura. É também uma coisa que nos corre nas veias, tipo A rh XX. Eu nem queria ser menina. Quando na escola aprendi que as mulheres eram consideradas sociologicamente uma minoria, houve um nó cá dentro que se apertou ainda mais. Mas apesar do desconforto que a condição feminina sempre me despertou, identifico-me com o meu género.

O que é puramente cultural é tudo o que leva uma criança a sentir que está em desvantagem só porque nasceu sem pilinha.

Para as nossas leitoras...

por Laura Ramos, em 08.03.13


A opacidade da blogosfera não permite uma «leitura de género» dos sitemeter, baseada no número de pageviews e de comentadores segundo o seu sexo.

Será o Delito de Opinião mais procurado por homens ou por mulheres?...

Irrelevante.

O que importa é que hoje é o seu dia e por isso aqui fica, para festejar (com) as nossas leitoras!

 

Ou escapar-me-á o sentido da coisa?

A soma dos dias

por Ana Vidal, em 08.03.13


Percebo a utilidade da existência de um "Dia da Mulher" pelo muito, muitíssimo, que há ainda para conquistar até chegarmos todas (países árabes, áfrica profunda e oriente incluídos) a um patamar justo de igualdade de direitos, num mundo quase exclusivamente patriarcal. Mas não posso deixar de pensar que enquanto não houver também um "Dia do Homem", a contabilidade é desastrosa: em cada ano há 1 dia da mulher para 364 do homem.


Sim, é hoje!!!

por Teresa Ribeiro, em 08.03.13

O dia da discriminação positiva!!!

Dia Internacional da Costela de Adão

por Rui Rocha, em 08.03.13

No Vaticano, os cardeais interromperão o processo de preparação do Conclave para participar numa pequena celebração comemorativa da data. Oito irmãs contemplativas, da Ordem da Visitação de Santa Maria, abandonarão, por não mais de uma hora, o mosteiro Mater Ecclesiae, situado    nas proximidades da Praça de S. Pedro. E lavarão os pés dos purpurados, aliviando-os, pela água, do peso que têm suportado que é o do corpo, mas é também o da decisão que nos próximos dias terão de tomar. Se a humanidade continuar a ser o que sempre foi, a irmã Maria Begoña Sancho Navarro não conseguirá conter um levíssimo suspiro quando chegar o momento de enxugar, com uma cálida toalha de fio turco, as calosidades do cardeal Bertone.

 


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