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As mulheres que li e vi (2)

por João Campos, em 10.03.20

O Dia Internacional da Mulher serviu de pretexto para, em alguns grupos mais geek do Twitter, se partilharem algumas das personagens femininas preferidas de filmes, séries, bandas desenhadas e videojogos. Por imagens, claro - o Twitter convida a muita coisa, mas a prosa não é uma delas. Felizmente, os blogues ainda cá estão, e são tão amigos da imagem como da palavra, pelo que pensei valer a pena pegar nesta ideia e desenvolvê-la um pouco para além dos 140 caracteres. O objectivo era escrever um único texto que passasse por todos estes formatos, e ainda referisse alguns livros, mas o projecto logo se tornou demasiado longo para um artigo num blogue (the tale grew in the telling). Assim, um artigo dará lugar a vários, ao longo dos próximos dias, sobre autoras e personagens que me marcaram ao longo dos anos. Hoje continuamos, desta vez com Banda Desenhada.

 

Da página escrita de ontem será talvez fácil passarmos para as pranchas da banda desenhada para destacar algumas personagens femininas que me acompanharam ao longo dos anos. A primeira obriga-me a regressar à infância, e às "revistas aos quadrinhos" que li em miúdo - algumas "herdadas" da minha irmã, outras compradas para mim quando íamos com os nossos pais a alguma vila ou cidade. Havia as da Disney, claro, mas para este artigo em concreto trago a Mônica de Maurício de Sousa - a miúda rija que tantas gargalhadas me proporcionou com as "surras" que dava aos outros miúdos com o Sansão, o seu coelho de peluche. Naquela altura não tinha tantas oportunidades quanto isso de arranjar livros novos, pelo que li e reli inúmeras vezes todas as bandas desenhadas que havia cá em casa (é apropriado estar a escrever isto enquanto estou de visita aos meus pais). Não leio a Turma da Mônica há décadas, claro, mas lembro-me com nitidez de várias histórias que ficaram sempre comigo.

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As várias Mônicas ilustradas por Maurício de Sousa

Apesar de sempre ter nutrido um gosto muito especial por banda desenhada, passei vários anos sem dar à Nona Arte a atenção merecida (à Turma da Mônica e à Disney seguiram-se o Astérix e o Calvin & Hobbes, mas durante os primeiros anos que passei em Lisboa li relativamente pouco). Mas o interesse pela ficção científica e pela fantasia, assim como as sugestões de alguns amigos, acabaram por me fazer redescobrir as páginas ilustradas. E naquela que será talvez a melhor banda desenhada que já li encontrei uma personagem feminina que, não sendo a principal, tem uma presença marcante: falo da Morte de The Sandman (1989 - 2015, DC Comics/Vertigo). Na narrativa desenvolvida por Neil Gaiman, a clássica figura do ceifeiro esquelético coberto por um manto negro deu lugar a uma simpática rapariga gótica de ar jovial e com uma personalidade tão empática como pragmática. O protagonista, Morpheus, procura a companhia e o conselho da Morte com alguma frequência - dos seus seis irmãos, será com ela que o Senhor dos Sonhos mantém uma relação mais próxima e cúmplice, e ela ajudá-lo-á em várias ocasiões. The Sound of Her Wings, a história de The Sandman na qual Gaiman apresenta a Morte e a sua relação com Morpheus, é absolutamente magnífica.

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The Sandman #8: The Sound of Her Wings (1989).Texto de Neil Gaiman, ilustração de Mike Dringenberg e Malcolm Jones III

Há outras personagens femininas que poderia destacar nos comics norte-americanos. Brian K. Vaughan escreveu várias nas suas bandas desenhadas, como a Agente 355 de Y: The Last Man (2002-2008, DC Comics/Vertigo) com ilustrações de Pia Guerra,  ou a Alana de Saga (2012-, Image Comics), ilustrada por Fiona Staples. Num outro título da Image Comics ainda em curso, Monstress (2015-), Marjorie Liu e Sana Takeda tecem uma trama de fantasia épica muito pouco convencional que tem em Maika Halfwolf uma protagonista fascinante, que carrega consigo, e não apenas metaforicamente falando, os seus demónios.

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Monstress #4. Texto de Marjorie Liu, ilustração de Sana Takeda

Dos quadrinhos norte-americanos passamos para os japoneses, com uma personagem que descobri no cinema ainda nos anos 90 e que me acompanhou ao longo dos anos, primeiro em filme, mais tarde em televisão, e por fim na banda desenhada onde surgiu pela primeira vez. Falo de Motoko Kusanagi, a "Major" de Masamune Shirow em Ghost in the Shell (1989-1997). Texto fundamental da ficção científica cyberpunk (e uma das minhas bandas desenhadas preferidas), a história de  Ghost in the Shell decorre num futuro (hoje) próximo, com a cyborg Kusanagi a assumir o papel de líder operacional da Secção 9, uma unidade governamental de contra-terrorismo cibernético. É a única mulher da Secção 9, com uma liderança incontestada assente no seu carisma, na sua inteligência e, claro, nas forma como retira partido das capacidades do seu corpo cibernético. Quem tiver apenas visto o filme de Mamoru Oshii (1995) ou a série televisiva de Kenji Kamiyama (2002-2005) irá talvez surprender-se por encontrar nas pranchas hiper-detalhadas de Masamune Shirow uma Major mais descontraída e bem humorada, quando não mesmo insubordinada. 

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Ghost In the Shell #01 (1989). Texto e ilustração de Masamune Shirow.

A próxima parte desta série continuará com Motoko Kusanagi, mas desta vez na suas versões animadas de cinema e televisão.

As mulheres que li e vi (1)

por João Campos, em 09.03.20

O Dia Internacional da Mulher serviu de pretexto para, durante o passado dia 8, em alguns grupos mais geek do Twitter se partilharem personagens femininas preferidas de filmes, séries, bandas desenhadas e videojogos. Por imagens, claro - o Twitter convida a muita coisa, mas a prosa não é uma delas. Felizmente, os blogues ainda cá estão, e são tão amigos da imagem como da palavra, pelo que pensei valer a pena pegar nesta ideia e desenvolvê-la um pouco para além dos 140 caracteres. O objectivo era ter escrito no Domingo um único texto que passasse por todos estes formatos, e ainda referisse alguns livros, mas o projecto logo se tornou demasiado longo para um artigo num blogue ("the tale grew in the telling", passe o anglicismo). Assim, um artigo dará lugar a vários, ao longo dos próximos dias, sobre autoras e personagens que me marcaram ao longo dos anos. E começamos hoje pelos livros. 

 

Já aqui falei do livro que me serviu de introdução à ficção científica literária - The Snow Queen, de Joan D. Vinge (não costumo desperdiçar oportunidades para escrever sobre este livro). À data da sua publicação em 1980, esta space opera inspirada no conto tradicional de Hans Christian Andersen foi descrita como um Star Wars feminista, e se é certo que reconheço à descrição algum mérito, nem por isso deixo de a considerar demasiado redutora: a narrativa de Vinge passa-se de facto numa galáxia distante, mas é infinitamente mais complexa e ambígua do que qualquer filme saído dos conceitos iniciais de George Lucas. Certo é que a inocente (mas determinada) Moon e a cruel (mas visionária) rainha Arienrhod ficaram sempre comigo; volta e meia lá regresso àquelas páginas, sem nunca deixar de me maravilhar.

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The Snow Queen abriu-me as portas de todo um género que, sendo predominamente masculino, foi tendo as suas grande autoras. Ursula K. Le Guin será o nome incontornável, claro - quem nunca leu The Left Hand of Darkness (1969) está a perder um dos grandes livros do século XX, tanto pela desconstrução e pela problematização das identidades de género como pela profunda humanidade das suas personagens. E a trilogia Earthsea (The Wizard of EarthseaThe Tombs of AtuanThe Farthest Shore, de 1968, 1971 e 1972 respectivamente) figura com justiça entre as obras maiores da fantasia literária, tanto pela riqueza do mundo secundário que criou como pela capacidade de dizer tanto, e tão bem, em tão pouco espaço. Ao reler, há algumas semanas, The Wizard of Earthsea (na lindíssima colectânea ilustrada por Charles Vess), dei por mim a pensar que, para qualquer autor contemporâneo de fantasia, a trama que Le Guin desenvolve com elegância nos cinco primeiros capítulos, em poucas dezenas de páginas, seria suficiente para pelo menos um calhamaço de seiscentas páginas e longas descrições inúteis. Saber escrever também é isto.

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Ursula K. Le Guin, fotografia de Benjamin Brink/The Oregonian via AP; fonte.

Outro grande nome feminino da ficção científica é o de Alice Sheldon, ou James Tiptree Jr. - o pseudónimo masculino deu azo a muita especulação e a alguns episódios caricatos nos anos 70. Contista notável, Sheldon/Tiptree encantou-me com a sua prosa clara e com a ambiguidade, a sofisticação e a imaginação dos seus contos. Textos como The Girl Who Was Plugged In (1973), The Women Men Don't See (1973), Love is the Plan the Plan is Death (1973),  Houston, Houston, Do You Read? (1976), ou The Screwfly Solution (1977) serão leitura obrigatória tanto para apreciadores de contos em geral como para fãs de ficção científica em particular. As polémicas recentes envolvendo o prémio literário atribuído em seu nome e as circunstâncias da sua morte em 1987 em nada diminuem o seu enorme legado (e já agora, para quem quiser saber um pouco mais sobre Alice Sheldon/James Tiptree Jr., aqui deixo um artigo muito interessante que descobri enquanto fazia algumas pesquisas).

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Alice Sheldon/James Tiptree Jr.; fotografia de autor desconhecido. Fonte.

Das minhas leituras dos últimos anos destacaria ainda três autoras notáveis. A primeira, Ann Leckie, cujo romance de estreia, Ancillary Justice (2013) deu um contributo notável para a revitalização da space opera literária partindo de um ponto de vista marcadamente feminista (também já cá falei dele). A segunda, Emily St. John Mandel, que não sendo uma autora de ficção científica explorou alguns temas clássicos do género no notável Station Eleven (2014), um romance pós-apocalíptico cuja narrativa explora as vidas de algumas personagens antes e depois de uma pandemia de gripe ter destruído a civilização tal como a conhecemos (uma leitura curiosa para estes dias). E, por fim, Nnedi Okorafor, norte-americana de origem nigeriana que tem pegado em décadas de convenções narrativas para lhes dar um novo fôlego de inspiração africana. Nas minhas leituras encontrei poucas alienígenas tão intrigantes com a Ayodele de Lagoon (2014), e a odisseia da jovem Onyesonwu em Who Fears Death (2010) é absolutamente espantosa.

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Os próximos textos incidirão mais sobre personagens do que sobre autoras, pelo que talvez valha a pena concluir esta breve viagem literária com uma personagem: Esmerelda (Esme) "Granny" Weatherwax, protagonista de um dos arcos narrativos da longa série de fantasia satírica Discworld, de Terry Pratchett. Líder informal (e incontestada) do círculo de bruxas da região montanhosa conhecida como Ramtops, Esme é conhecida pela sua absoluta confiança nas suas capacidades e pelos seus princípios inamovíveis; quem a procura, obtém não aquilo que procura, mas aquilo de que precisa. Não é muito frequente encontrar protagonistas com a vetusta idade de Granny na fantasia literária, pelo que ler as suas aventuras acaba sempre por se revelar refrescante (e divertido - estamos em Discworld, afinal). A galeria de personagens que Pratchett criou para Discworld é notável, mas,  pese embora a competição renhida, é bem possível que Granny Weatherwax tenha sido a sua maior criação.

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Granny Weatherwax, esboços de Paul Kidby. Site oficial.

8 de Março (4)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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8 de Março (3)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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8 de Março (2)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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8 de Março (1)

por Cristina Torrão, em 08.03.20

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É pró menino e prá menina! (tem de ser)

por Teresa Ribeiro, em 07.03.20

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Já tive acesso a muita informação que fundamenta bem a razão de ser das quotas de género, informação que se encontra sem esforço como esta, esta, e esta. Podia continuar, porque o que não faltam são estudos e exemplos que demonstram que o sexismo resiste apesar dos movimentos de protesto e dos discursos politicamente correctos e portanto é óbvio que só por via administrativa se consegue corrigir esta injustiça.  Mas não quero provocar náuseas a quem deplora este tema. No dia 8 vai ser a hecatombe do costume com notícias e mais notícias sobre a situação feminina, quase todas muito más, a intercalar as do coronavírus e do futebol, por isso serei breve. Quero só partilhar uma história que me ficou na memória desde que a li, em março de 2018, numa edição da revista de uma associação empresarial, que não circula nas bancas, chamada “Comunicações”. Num artigo à volta deste tema das quotas, assinado pela jornalista Ana Sofia Rodrigues, às tantas, lê-se:

"...Para eventuais cépticos de que esta revolução cultural é absolutamente necessária, deixamos um último exemplo. A socióloga Kristen Schilt (Universidade de Chicago) e o professor Matthew Wiswall ( Universidade do Wisconsin), compilaram dados em três congressos de transexuais. Tentaram medir o seu desempenho profissional antes e depois da mudança de sexo. Os resultados a que chegaram são sugestivos. Os homens que mudaram para o sexo feminino passaram a ganhar menos (cerca de 10% menos). Já as mulheres que passaram para o sexo masculino ficaram a ganhar mais (cerca de 7,5%). São exatamente as mesmas pessoas, só mudaram de sexo. Dá que pensar."

Dá que pensar, caras e caros negacionistas (que também os há, e de que maneira, relativamente a este assunto).

Temos cadáveres no armário

por Teresa Ribeiro, em 08.03.19

Os cadáveres têm um problema. Não espalham fake news, nem cavalgam movimentos mediáticos para perseguir indiscriminadamente os homens. Limitam-se a ser.

Não por acaso, desta vez não há polémica no ar. As cavaleiras andantes, que noutras situações se apressam a defender o macho ibérico, não se manifestam. As militantes do Not Me (nome que inventei por oposição ao #MeToo), que desvalorizam as queixas das mulheres que denunciam assédios e discriminações, insinuando que só é vítima quem quer, calam-se.

À medida que este macabro cortejo engrossa, torna-se difícil sustentar que em Portugal, no século XXI, a misoginia é um epifenómeno instrumentalizado para efeitos de propaganda pelas lésbicas, galdérias e mal amadas do costume.

Mulheres no poder

por Pedro Correia, em 08.03.18

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As duas maiores potências económicas do continente europeu são comandadas por mulheres: Angela Merkel e Theresa May.

Sinal inequívoco da crescente influência feminina nos grandes centros de decisão política do mundo contemporâneo. Boa notícia, portanto.

 

ADENDA: O Governo português só inclui 16,7% de mulheres. Estamos dez pontos abaixo da média europeia.

Pelo fim do dia anual da mulher

por João André, em 08.03.18

Desde que comecei a pensar no assunto que passei a não gostar do Dia Internacional da Mulher. Fazia sentido a sua celebração quando surgiu, mas não celebro aquilo que passou a representar: o dia em que os homens prestam atenção às mulheres como antigamente comprariam indulgências. Passou a ser então uma espécie de vávula de escape para a consciência. Não faz mal o comportamento machista ou misógino nos outros dias se se oferecerem flores (hoje em dia virtuais) no dia 8 de Março. Como li (ou ouvi) em tempos: por ano há um Dia Internacional da Mulher e 364 Dias Internacionais do Homem.

 

Não é uma questão apenas de como os homens se comportam (e não se pense que eu não me incluo neste grupo). Parte da responsabilidade é também das mulheres, que enchem os seus murais do Facebook, os seus feeds to Twitter ou os seus blogs com comentários de celebração do ser mulher, celebração das mulheres nos seus círculos (pessoais ou profissionais), e o orgulho de ser mulher. Não tenho nada contra isso, mas especialmente o primeiro e terceiro casos fazem-me confusão. Como celebrar ou ter orgulho em algo sobre o que não se tem influência. Seria o mesmo que dizer que se tem orgulho em ter dois pés ou uma boca. Há naturalmente circunstâncias em que isto muda (operações, acidentes) mas nenhum de nós pode influenciar o sexo com que nasceu.

 

Da mesma forma que não vale a pena celebrar o ser-se feminina. Uma mulher que se identifique como tal mas goste de crescer os pêlos, arrotar, vestir-se de calças e camisa de flanela, colocar uma tatuagem a dizer "Amor de Mãe", ver filmes de acção, beber cerveja, e, horror dos horrores, preferir mulheres, será menos digna de ser chamada "mulher"? Pode ser menos interessante do ponto de vista estético (e a estética muda com o tempo), mas não podemos reduzi-la a algo menos que Catherine Deneuve ou Natália Correia.

 

O Dia Internacional da Mulher é então o dia em que as mulheres são lembradas e acarinhadas por serem aquilo que sempre são. Deveríamos no entanto vê-lo como um dia em que reflectimos sobre o papel das mulheres, os seus direitos, aquilo que conquistaram (com ou sem ajuda) num mundo dominado por homens e aquilo que ainda falta conquistar. O papel de movimentos como os actuais #metoo ou #timesup é fundamental, mais que qualquer flor, virtual ou não, oferecida num único dia do ano. Não mudará o mundo só por si, mas lembra o mundo dos desafios que as mulheres e os homens (estamos neste mundo juntos) continuam a enfrentar.

 

Este dia 8 de Março de 2018 é então um belo dia para relembrar tudo o que foi exposto no último ano. Um colunista que eu leio (a propósito de outros temas) gosta d eescrever que a luz do sol é o melhor desinfectante. Se assim é, estes últimos 365 dias têm vindo a desinfectar muitos dos corredores infectos no mundo. E a limpeza, como aconteceu no passado, tem sido feita por mulheres.

 

E, assim, deixo o meu voto. Por para elas serem importantes, deixo às minhas mulheres os meus votos de um Feliz Dia Internacional da Mulher. E o meu desejo muito sincero que seja um dos últimos que se celebrem apenas de ano a ano.

 

#PressforProgress

Sharon Stone: cintilante aos 59

por Pedro Correia, em 08.03.18

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 Foto: The New York Times

 

Ela está estupenda, aos 59 anos. E revela ao New York Times os segredos para se manter em tão boa forma.

Hoje, 8 de Março, presto homenagem simbólica a todas as mulheres homenageando-a a ela, minha actriz de culto.

A deslumbrante, a cintilante, a inconfundível Sharon Stone.

As outras mulheres...

por Alexandre Guerra, em 08.03.18

A determinadas horas nas quotidianas viagens de comboio que faço na linha de Sintra (coisa que desconfio que uma certa elite pensante lisboeta desconheça em absoluto), dou por mim a observar algumas mulheres, não aquelas que entusiasticamente metem likes em tudo o que tenha a hashtag “MeToo”, ou aquelas que, histericamente, reiventaram uma versão mais fundamentalista da queima dos soutiens dos anos 60, mas antes aquelas que se levantam às 5 ou 6 da manhã para irem trabalhar nas limpezas das empresas ou para entrar na caixa de um supermercado. Muitas delas, provenientes das antigas colónias e que residem naqueles subúrbios que tanta alergia causam a algumas almas que comentam euforicamente nas televisões e twittam ruidosamente, é como se ficassem com o refugo que a sociedade não quer. Ainda esta manhã, uma delas, ao frio e a apanhar com os pingos da chuva, esvaziava os caixotes de lixo na estação do Cacém. Por vezes, estas mulheres carregam aos ombros o sustento de uma família inteira. Os miúdos estudam (quando estudam) e o homem da família há muito que, cobardemente, se meteu ao largo. Olho para os rostos destas mulheres e não consigo descortinar as suas emoções. Não consigo perceber se estão tristes, felizes, angustiadas... Certamente estarão a fazer contas à vida. Cumprem as suas obrigações… Quando precisam, têm que esperar horas numa urgência, meses para uma consulta, ou fazer sacrifícios imensos naqueles dias caóticos de greves de transportes públicos porque não têm outra forma de chegar ao trabalho. E nestes casos, os patrões quase nunca são benevolente. São mulheres sofridas, mas as suas vozes são silenciosas. Não se queixam, ninguém lhes mete um microfone à frente e seguramente os seus temas não são suficientemente sexy para fazer a tendência do dia nas redes sociais. Estas mulheres são, de certa forma, vítimas de um certo tipo de exclusão social ou, talvez melhor dito, de uma apatia social.

 

Confesso que acho pouco interessante a discussão primária quando o assunto se coloca ao nível de feminino vs machismo, dos livros cor-de-rosa vs livros azuis, se as mulheres voluptuosas devem ou não estar na grelha de partida na Fórmula1 ou dar beijinhos aos vencedores das etapas em bicicleta (eu acho que devem, mas isso é outra questão). E mais, pouca credibilidade dou àquilo que saia do circo chamado Hollywood "embrulhado" em assunto sério (aliás, é de uma hipocrisia enorme que na cerimónia dos Óscares se fale dos previsíveis e populares temas e se "bata" (e bem) no Weinstein e Damon, mas nem uma palavra sobre o massacre de mulheres e crianças em Ghouta oriental). Naquilo que deve ser uma abordagem séria e intelectualmente consistente, prefiro a linha de raciocínio de António Guterres, secretário-geral da ONU, quando hoje em Nairobi disse que as mulheres são as principais vítimas da pobreza, dos conflitos e da violação dos direitos humanos. Porque, e de acordo com os indicadores da Organização Internacional de Trabalho, divulgados ontem, verificaram-se progressos substanciais nos últimos 20 anos, sobretudo nas sociedades ocidentais, em termos de desigualdade de género, embora haja muito caminho para percorrer até ser alcançada uma igualdade justa. No entanto, o problema continua particularmente acentuado em regiões como África ou Ásia. Ou seja, em situações limite, seja de abuso de poder governamental ou laboral, de conflito social ou militar, são as mulheres quem mais sofre.

 

E isto é tão válido para a mulher que percorre quilómetros para ir buscar água para a família algures na Etiópia, para a estudante em Riade que não pode ir ao cinema de mão dada com o namorado ou para a operária explorada por um chefe sem escrúpulos numa qualquer empresa do Vale do Ave. Mas não só. Essas situações limite podem assumir, por vezes, formas bem mais subtis e que levam as mulheres ao sofrimento, muitas vezes silencioso, mesmo no nosso quotidiano mais cosmopolita.

 

Veja-se aquela mulher que se levanta todos os dias, sozinha, trazendo às costas os problemas do dia anterior, que veste, alimenta e leva à escola os filhos. Após o tormento dos transportes públicos ou do trânsito, chega ao emprego e já está preocupada se sairá a horas para ir buscar os filhos e passar algum tempo de qualidade com eles, educá-los, mimá-los. Muitas vezes, o apoio é pouco ou nulo, estando entregues a si próprias. No trabalho, por vezes, as proclamações de boas práticas empresariais e os afectos públicos demonstrados pelos chefes não casam com aquilo que é, efectivamente, praticado. Tudo lhes é dificultado, os horários são inflexíveis, e quando é preciso compreensão, ela não existe. Com sensibilidade e bom senso, algumas destas angústias seriam facilmente resolvidas e contribuiria, seguramente, para um maior conforto da mulher. No final do dia, é o regresso de um longo calvário, com paragem obrigatória na escola para ir buscar os filhos, talvez também no supermercado e, finalmente, fazer o jantar. Por fim, a responsabilidade maternal desencanta tempo e paciência (sabe-se lá onde) para a educação e algum tempo de lazer com os filhos. Deitadas as crianças, é preciso ainda rever uma proposta do trabalho que o "chefe" pediu para ser enviado ainda nesse dia. E já no limiar das suas forças, uma zona onde normalmente os comuns mortais caem por terra, a mulher revela todo o seu esplendor, e ainda arranja tempo e disposição para ser fascinante. 

Feminina, não feminista

por Teresa Ribeiro, em 08.03.18

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Sempre que oiço: "Sou feminina, não feminista", pergunto-me o que isso quer dizer. Como por definição "feminista" é quem se afirma a favor dos movimentos pela igualdade de género, devo presumir que as mulheres que fazem esta declaração são contra?

Algumas serão. Em todos os tempos sempre houve mulheres que defenderam convictamente o direito à desigualdade (não confundir com o direito à diferença), ombreando com os homens mais conservadores. Mas acredito que muitas se colocarão em posições intermédias.

Presumo que algumas se afirmam "femininas, não feministas" porque não se identificam com o estereótipo "lésbicas de bigode e pelos nas pernas a queimar soutiens na praça pública". É claro que reduzir as feministas a este velho cliché é alinhar com os que o consagraram com o único objectivo de descredibilizar as suas causas, cobrindo-as de ridículo. Terão estas senhoras a noção disso?

Outra interpretação possível para a frase "Sou feminina, não feminista" é querer com isso dizer que não se tem perfil de activista. Mas neste caso quem o fizer labora num equívoco, porque uma mulher que se afirme defensora das causas feministas, não tem de ser necessariamente uma activista, além de que, last but not least, opõe feminilidade a feminismo, como se os termos se excluíssem.

Mas ainda há a considerar a categoria de mulheres que adopta este chavão para transmitir a ideia de que o termo feminismo não lhes interessa porque não lhes diz respeito, pois nada acrescenta ao seu nível e estilo de vida, que por sinal inclui, sem complexos, muitas ociosidades e futilidades de princesa. Esta é a versão provocatória, a afirmação descomplexada de valores contra o politicamente correcto, que coloca a defesa dos direitos humanos acima de todos os egoísmos.

Dispensarão estas senhoras dois minutos de reflexão sobre o tema da violência contra as mulheres? Talvez no dia 8 de Março, quando ritualmente os noticiários se enchem deste tipo de informação. Ou então, nem isso, porque provavelmente pensam que o tema só interessa às feministas, "a essas mulheres frustradas, sem auto-estima, que não devem ter sucesso nenhum com os homens, por isso os odeiam. Sim, porque todas as feministas odeiam os homens" (fim de cassete). As que pensam assim e se afirmam respeitadas, admiradas, valorizadas e bem-sucedidas, essas o que adoram mesmo é sentar-se, de perna traçada, em cima dos direitos que outras, antes delas, tiveram de conquistar e gozar a vida dentro da sua bolha cor-de-rosa. 

Dia Internacional da Mulher

por Rui Rocha, em 08.03.17

Vamos lá ver. Não teremos verdadeira igualdade se o objectivo for que as mulheres assumam as mais diversas funções por serem competentes. Na verdade, só poderemos falar realmente de uma situação justa quando as mulheres incompetentes ascenderem a cargos em igualdade de circunstâncias com os homens incompetentes. É uma matéria em que fizemos significativo progresso mas temos de reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer.

Quotas para que vos quero

por Teresa Ribeiro, em 08.03.17

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Quotas. É uma polémica recorrente, mesmo entre mulheres, portanto muito apropriada para assinalar este dia. Durante alguns anos fui sensível ao argumento de que o estabelecimento de quotas para mulheres as inferiorizava, mas depois as estatísticas entraram em diálogo comigo e falaram mais alto. Sim, felizmente há mulheres que chegam ao topo sem que para tal tenham sido empurradas por quotas. A ascensão feita assim é o que está certo. Sem equívocos, nem margem para dúvidas quanto a mérito e competência. Mas a realidade diz-nos que estas situações são de excepção. Basta consultar as primeiras páginas dos jornais de hoje para perceber qual o estado da arte: "Mulheres têm menos chances de ter bom emprego", diz o Público; "Na UE uma em cada três posições de gestão é ocupada por mulheres", noticia o I; "G20 - grupo dos poderosos só tem Merkel e May" e "PSI 20 - quatro empresas sem nenhuma administradora", anuncia o DN.

No entanto sabe-se que as mulheres estão em maioria entre os que terminam licenciaturas e que apresentam mais qualificações. E que é assim em Portugal e no mundo. Como se explica isto? Recorrendo ao primado bíblico "a culpa é delas"?

Deveremos então concluir que este enorme contingente, que não consegue subir na carreira de acordo com as suas competências e no limite franquear as portas do poder é todo desprovido de "soft skills", como agora se usa dizer? Ou o que lhes falta é - vamos lá a chamar os bois pelos nomes - tão somente algo que a Natureza não lhes deu: o sexo adequado para alcançar o topo?

Quando não existe mais nada, o que nos resta é o pragmatismo. E é por isso que me tornei a favor das quotas. Se não vai a bem, vai a mal. Porque sem quotas bem podem as mulheres esperar sentadas por oportunidades e reconhecimento iguais.

Dia da Mulher

por Pedro Correia, em 08.03.17

Os vossos direitos, meninas e senhoras, ainda não estão plenamente alcançados. Hoje, por exemplo, só devia haver mulheres a escrever neste blogue.

E lá vamos nós!

por Teresa Ribeiro, em 08.03.16

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"Parabéns" porque nasci mulher? "Parabéns" porque não é fácil viver num mundo de homens? "Parabéns" porque apesar de tudo já estivemos muito pior? "Parabéns" porque a luta continua? "Parabéns" porquê, senhores?

Ui, ui, hoje é o meu dia!

por Teresa Ribeiro, em 08.03.15

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Quando me perguntam se gosto de ser mulher, respondo que não. Lamento, mas neste aspecto não soube evoluir. Desde que percebi, ainda na primeira infância, que o mundo é dos homens, este sentimento ficou-me colado aos ossos e não há campanha publicitária de pensos higiénicos que me faça mudar de ideias.

Esta rejeição, que cresceu comigo, nada tem a ver com problemas de identidade sexual. Gosto de cor-de-rosa, de bebés e de sapatos, portanto não há qualquer dúvida, sou muito estereotipada, o que paradoxalmente só veio agravar a relação conflitual que tenho com o meu género desde que me conheço.

Gostava em menina de brincar com bonecas, mas não da terna displicência do meu avô, que só tinha conversas com o meu primo, mas não sabia do que falar comigo. Identificava-me com as princesas das histórias de encantar, mas detestava que me apontassem as regras de comportamento "próprias de uma menina" - sempre mais restritivas que as dos meninos - e ainda mais que fossem a minha mãe, as minhas tias e a minha avó a ditá-las. Gostei de crescer com estas mulheres, mas revoltou-me perceber que, por razões diferentes, todas abdicaram de uma maneira ou de outra do que podiam ter sido só pelo facto de terem nascido com um par de ovários.

Na vida adulta pus-me à prova. De um lado os meus ressentimentos e reivindicações feministas, do outro a realidade, esse tapete onde caí tantas vezes por KO. E tem sido esta a minha vida. Sempre a sopesar o que sou e o que somos. Eu e as mulheres. Eu e elas. Eu que sou elas.

Admiro as mulheres que dizem que se orgulham de ser mulheres, mas quando as oiço não consigo iludir a tristeza funda que me nasce da consciência de que o fazem pela necessidade de se afirmarem como iguais.

A misoginia, a doença infantil do homem das cavernas, continuará a discriminar, segregar, matar, estropiar e escravizar milhões de mulheres em todo o mundo. E é a consciência disto que me mata à nascença o prazer de pertencer à tribo e ainda mais de festejar esta data. Festejar o quê?

Agustina Bessa-Luís

por Patrícia Reis, em 08.03.15

A mulher, até pelo seu grande poder de insignificância, é muito menos vulnerável que o homem.

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Cem anos depois no dia delas

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.03.15

Facto

 

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,

a gostar de aventuras e, sobretudo,

mulheres ao alto, ao lado, ao fundo

e, adormecido, sonhar fora do mundo.

 

(Ruy Cinatti, 08/03/1915 -12/10/1986)


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