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Se olharmos para trás, o país evoluiu muito em termos de igualdade de género. Mas, se quisermos ser sérios, há ainda muito a fazer, nomeadamente em contexto profissional. Quer dizer que não há mulheres competentes a chegar a posições de destaque nas mais variadas áreas das empresas, do Estado e da vida pública? Há, seguramente. Todavia, a igualdade não passa apenas, nem passa principalmente, por mulheres capazes terem direito ao espaço que lhes cabe em função dessa capacidade. Era só o que faltava que não tivessem. A igualdade passa por mulheres incapazes tomarem espaços para os quais não são capazes. Porque o país está cheio de homens incapazes que ocupam esses espaços apesar da sua incapacidade. Igualdade tem de ser, portanto, o empoderamento (lá está...) de mulheres incapazes para as colocar em circunstâncias semelhantes às dos homens incapazes que têm sido promovidos às mais altas responsabilidades apesar da sua profunda incompetência. O governo de António Costa, é justo reconhecer, tem liderado pelo exemplo nesta matéria. A ministra Graça Fonseca (a da cultura ou lá como se chama aquela pasta que distribui dinheiro dos contribuintes por “agentes” que se dedicam a “performances” variadas que os contribuintes nunca pagariam para ver, ouvir ou comprar) parece até mais incompetente do que o ministro homem (não me recordo agora do nome, mas é aquele que é poeta e tinha cara assim de patarata) que a precedeu. E a ministra Marta Temido, da Saúde, honra lhe seja feita, também tem mostrado potencial para ser tão ou mais incompetente que o ministro Adalberto, sendo que, com este, a fasquia já estava situada a um nível de incompetência bastante exigente. Mas se no que diz respeito ao elenco governativo estão a ser dados passos seguros no sentido de dar palco a mulheres com níveis de incompetência apreciáveis (veremos em todo o caso se será possível encontrar um dia uma líder do executivo tão incompetente como o próprio António Costa), este não é um movimento que esteja a acontecer com a mesma velocidade noutras áreas. Veja-se o sector vital da Malandragem no qual se atingiu, em Portugal, um nível de proficiência que nos coloca entre os trinta melhores do mundo nos indicadores globais de corrupção e que é responsável pela criação de emprego e de assinalável acumulação de riqueza. Quem tivemos no país que se tenha destacado no sector da Malandragem? Um Alves dos Reis, no passado? Era, tanto quanto se sabe, gajo. Normal, numa sociedade que era profundamente heteropatriarcal. Mas as coisas mudaram entretanto? Muito pouco. Quem tivemos então com acusações de trafulhice em julgado ou na praça pública nos últimos anos? Um Sócrates? Ao que se sabe, apesar da voz esganiçada, é gajo. Ricardo Salgado? Gajo, ao que tudo indica. Bava, Dias Loureiro, Vara, Carlos Santos Silva, José Paulo Pinto de Sousa, Isaltino, Valentim Loureiro, Granadeiro, os do futebol? Tudo gajos, até prova em contrário. A sub-representação feminina em todos estes casos é deprimente. Repare-se que estes expoentes do sector da Malandragem são todos eles razoavelmente incompetentes uma vez que acabaram por ser apanhados (condenados é outra coisa) com a boca na botija. Pois nem assim há uma mulher que se destaque em algum dos grandes casos de corrupção que abanaram o país. Fernanda Câncio, por exemplo, intrépida lutadora da igualdade de género, apesar da sua intimidade com Sócrates, nem sequer conseguiu ser arguida no Processo Marquês. Bárbara Vara, de vistas curtas, contentou-se com um empréstimo mixuruca de duzentos mil euros da Caixa Geral de Depósitos de Vinhais (naquelas condições não era logo de pedir cinco ou seis milhões?) e nunca suspeitou (muito menos participou, claro) das trampolinices do patriarca Vara. A mulher de Ricardo Salgado? Uma senhora, hã!!! Uma senhora! Incapaz de partir uma unha no intervalo das missas, quanto mais de colocar o pé em ramo verde. Do ponto de vista do empoderamento feminino no sector da Malandragem é tudo uma miséria, convenhamos. Tão mais grave quanto é certo que a economia paralela e subterrânea representa para aí 25% da riqueza do país. Se as mulheres competentes, mas sobretudo as incompetentes, forem sistematicamente afastadas de posições de liderança no sector da Malandragem isso significa que estão desde logo privadas de aceder a uma parte muito relevante do PIB. A verdade é que para encontrarmos uma mulher com algum destaque na gatunice temos de recuar a D. Branca na década de 80 do século passado (um esquema de Ponzi razoavelmente bem esgalhado mas ainda assim longe da performance de João Rendeiro uns anos depois) ou a Fátima Felgueiras (um desempenho promissor que incluiu fuga rocambolesca, fixação de residência em país sem acordo de extradição e remodelação estética, mas que acabou numa aparente cedência ao sector formal da economia e ao recato da vida autárquica numa parvónia do norte-interior). Há mais? Quem? A da Raríssimas? O Bataglia dos submarinos e do Monte Branco riu-se. Note-se que até no caso da troca de lâmpadas e casquilhos na Câmara de Loures é o genro do Jerónimo, não a filha, que leva a massa para casa. A verdade é esta: em Portugal, em pleno século XXI, ao lado de um grande homem envolvido em trambiqueirice há, na melhor das hipóteses, uma grande mulher que não viu nada. É muito pouco e é óbvio que temos de dar a volta a isto.

 

* publicado na edição de Fevereiro do Dia 15.

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Previsões para 2019

por Rui Rocha, em 04.02.19

Marcelo Rebelo de Sousa – Em 2018 visitou o interior do país durante o Verão, ficando célebres os mergulhos em praias fluviais e as trocas de calções subsequentes, num esforço para não deixar cair no esquecimento as áreas mais afectadas pelos incêndios e pelo abandono. Em 2019, passará Julho e Agosto em estações e apeadeiros da CP, confortando os passageiros vítimas de atrasos, supressões e greves. Passará o Natal numa automotora na Linha do Oeste e, na véspera de Ano Novo, deslocar-se-á ao Barreiro num barco da Transtejo para beber a já tradicional ginginha. Durante a Volta a Portugal em Bicicleta conduzirá o carro-vassoura. Será chamado a lançar a primeira pedra da futura Ala Geriátrica do S. João (antiga Ala Pediátrica).

Ferro Rodrigues – Liderará os trabalhos da Assembleia da República com isenção e equidistância e demonstrará sentido de Estado em todos os assuntos e processos em que estiver envolvido, constituindo-se como referencial e exemplo democrático, garante do respeito pelas instituições, reserva moral da Nação e farol dos direitos, liberdades e garantias. Ahahahah! Não vai fazer nada disto. Eu é que estava a mangar.

António Costa - O ano começará com conflitualidade social provocando algum desgaste à medida que se aproximarem as eleições. Contará, todavia, com a preciosa ajuda de Maria Begonha que, em poucos meses, tirará a licenciatura em enfermagem, a especialidade de anestesista e concluirá o estágio de maquinista da CP. Graças ao contributo da jovem socialista, as greves no sector da saúde e dos comboios terão menos impacto do que o previsto, ajudando a um resultado eleitoral positivo. Maria Begonha assegurará ainda o acompanhamento dos partos na Maternidade Alfredo da Costa durante o período de Natal e Ano Novo. No Verão, Costa ordenará a evacuação de todos os portugueses residentes em Portugal continental para os Açores, não vá haver azar com a coisa dos incêndios.

Rui Rio – Lutando contra todas as dificuldades, será finalmente capaz de derrotar a oposição interna e de mobilizar os condóminos do prédio em que habita para adoptarem um novo processo de gestão do economato e uma frequência pré-definida de substituição das lâmpadas das caixas de escadas. Sob a sua liderança inspiradora a gestão das redes sociais do PSD entrará definitivamente no século XIX. Num golpe de asa inesperado, negociará impiedosamente com António Costa as condições para um acordo de regime que traçará como linhas vermelhas a tão aguardada revisão do POC e a previsão na Constituição da obrigatoriedade de os portugueses e portuguesas maiores de 18 anos estarem inscritos da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas. Depois do êxito alcançado com a linha de produtos para banhos de ética, lançará um champô contra a seborreia e um elixir para combater o mau hálito. Na frente eleitoral, nada a registar.

Catarina Martins – Num ano de intensa actividade política, dividir-se-á entre a luta contra a discriminação, a desigualdade, a linguagem não inclusiva, a xenofobia, as alterações climáticas, a gentrificação e a viabilização do 1º orçamento de António Costa na nova legislatura. Encontrará ainda tempo para regressar ao teatro contracenando como actriz pincipal na revista “Olívia Senhoria, Olívia Inquilina”, uma divertida comédia em que, de forma descontraída, são exploradas questões intemporais como o sentido da vida e as contradições mais profundas da natureza humana, tudo isto tendo como pano de fundo uma sociedade lisboeta fustigada por um movimento agressivo de especulação imobiliária.

Assunção Cristas – Em 2019 conseguirá descolar definitivamente o CDS da imagem de partido do táxi, celebrando um contrato exclusivo com a Uber para transportar a totalidade do grupo parlamentar em três viaturas. Conseguirá combater, com esforço e sucesso, todas as tentativas de Adolfo Mesquita Nunes para dotar o CDS de um pensamento político, ideológico e económico estruturado. Aumentará a variedade e profundidade do guarda-roupa o que lhe permitirá apresentar-se bem quer nas visitas a bairros sociais, quer em jornadas de discussão e almoçaradas promovidas por agro-betos em plena lezíria.

Jerónimo de Sousa – Lançará com êxito uma colectânea de ditados, dichotes e frases populares usados nos seus discursos. Enfrentará, todavia, uma grave crise na frente sindical no 2º trimestre de 2019 quando Mário Nogueira assinar um mau acordo para os professores por se enganar a contar o tempo de serviço pelos dedos. Num esforço por demonstrar algum arejamento, admitirá que foram cometidos dois ou três erros na informação de cadastro do registo predial da antiga União Soviética.

André Silva (o do PAN) – Enfrentará uma grave crise interna com a criação de uma célula radical de defesa de plantas e legumes cujo objectivo será semear o pânico. Em termos eleitorais, o apoio obtido nas redes sociais não corresponderá aos resultados obtidos nas urnas, pelo que se prevê que possa dar com os burrinhos na água.

Cidadãos em geral – Serão chamados a assumir maior protagonismo no pagamento de impostos e a fazer escolhas eleitorais de grande responsabilidade. Em todos os momentos serão capazes de afirmar o seu sentido patriótico com civismo e elevação, respondendo à pergunta essencial sobre o futuro colectivo: qual o país que pretendem deixar aos sobrinhos-netos do Carlos César?

 

* originalmente publicado na edição de Janeiro do Dia 15.

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Não sei se com razão ou falta dela, mas parece-me evidente que o Dr. Costa não gosta de socialistas. Vejamos. O Dr. Tozé Seguro era militante do PS ou não era? Era, coitado. E o Eng. Sócrates? Também era. Pois o Dr. Costa não só o renegou como, antes disso, só para o arreliar, foi ao Estabelecimento Prisional de Évora visitá-lo com aquele casaco em tons de verde, aos quadrados, que o Dr. Costa usa nos momentos em que se sente desconfortável com o passado. E a Dra. Maria de Belém não está ainda a pagar as dívidas da candidatura presidencial em que o Dr. Costa apoiou o Dr. Nóvoa? Pois está. E não é socialista? É. Ah que não é bem assim, que o Dr. Costa levou socialistas para o governo. Pois foi. E lá está. Mais uma prova. A pobre da Ministra Vitorino, como se não lhe bastasse aturar o marido em casa, ainda tem que levar com o Ministro Cabrita nas reuniões do Executivo. No cenário hipotético de vosselências estarem casadas com o Ministro Cabrita, gostavam de ainda ter de levar com ele no trabalho? É o que eu digo. E, já agora, quem foi que convidou o Dr. Carlos César para Presidente do PS, quem foi? O Dr. Costa, naturalmente. Vosselências gostavam de pertencer a uma organização presidida pelo Dr. Carlos César? Pois claro que não gostavam. O Dr. Costa faz tudo, tudo, para lixar os socialistas. Se dúvidas houvesse, bastaria atentar na forma como o Dr. Costa discursa sempre que está em reuniões do partido. É nos congressos, é nas comissões políticas, é nos comícios, é em todo o lado onde o Dr. Costa for submetido à provação de falar para mais de dois socialistas. Reparem como nessas alturas o homem está sempre zangado. Berra, ulula, vocifera. Perante terríveis desgraças, o Dr. Costa apresenta invariavelmente um sorrisinho. Salvo, claro, se estiver num encontro do PS. Nesse caso, amofina-se-nos. Sobe-lhe a mostarda ao nariz, fica-nos com os azeites. Pode estar a anunciar as maiores maravilhas, o aumento de cinquenta cêntimos aos pensionistas, o investimento estratosférico em mais quinze enfermeiros para o Sistema Nacional de Saúde, eu sei lá. Mas é sempre como se estivesse com prisão de ventre ou tivesse batido com o dedo pequeno do pé na perna de uma mesa. Repare-se na ‘rentrée’ dos socialistas. O PS organizou um comboio para transportar os militantes entre Pinhal Novo e Caminha. Viste-o no comboio? Nem eu. O Dr. Costa preferiu ir de véspera à xaropada do Festival de Vilar de Mouros só para não ter de se cruzar com os camaradas antes de tempo. Mas nem assim o Dr. Costa conseguiu controlar os maus fígados provocados pela presença de socialistas. No dia seguinte, estavam ali os militantes aos gritos no comício, PS, PS, Costa, Costa, Costa, queremos mais cunhas, queremos mais tachos, queremos mais assessores e directores-gerais, ou lá o que aquela gente berra nos ajuntamentos do PS, e o homem, furioso, de trombas, decidiu prometer uma redução do IRS de 50% para os portugueses que emigraram até 2015. Repare-se como a embirração com os socialistas leva o Dr. Costa aos actos mais diabólicos. A maior parte dos que ali estavam, tirando um ou outro emigrante atraído por engano pelo cheiro a bifanas, são dos que ficaram, dos que alombaram com a troika, dos que, Deus lhes perdoe, colaram cartazes com a cara do Dr. Costa, dos que foram, inclusivamente, ao Congresso de Matosinhos dar 93% dos votos ao Eng. Sócrates depois da bancarrota. E o que faz o Dr. Costa? Pois o Dr. Costa, enxofrado, diz-lhes olhos nos olhos: vocês, cambada de tansos, digo, cambada de camaradas tansos, vocês que ficaram, vão continuar a pagar os impostozinhos todos aqui ao Costa: o das varandas viradas para o Sol, os dos combustíveis, o do sal, o do açúcar, o do camandro e o mais que o Centeno se lembrar e, para aprenderem, o IRS todinho. Agora, aplaudam a medida aqui do Costa. E os tansos camaradas, digo, camaradas tansos, aplaudiram. Note-se que o Dr. Costa não se deteve sequer perante argumentos de inconstitucionalidade ou violações do princípio da igualdade. O Dr. Costa queria a todo o custo atazanar os socialistas que ali estavam e não olhou a meios. Agora, que o Dr. Costa não vá à bola com socialistas e aproveite todas as ocasiões para os vexar, é lá entre eles. O que já não parece correcto é prejudicar terceiros. Vamos que há, entre os portugueses que emigraram, um ou outro que se deixa enganar e que regressa por causa da redução temporária do IRS. Ah e tal que não há quem caia numa coisa dessas. Não é bem assim. Há sempre espíritos mais frágeis que se deixam enrolar. No fundo, na ânsia de aperrear os socialistas presentes em Caminha, o que o Dr. Costa propôs aos portugueses emigrados até 2015 é uma daquelas estratégias típicas dos esquemas de ‘time-sharing’: estás a entrar no campismo de Portimão na tua auto-caravana, com a patroa, os miúdos, a namorada do mais velho que trabalha no Lidl, o cão e a tua sogra, convidam-te para passar uma tarde grátis num ‘resort’ mal-amanhado na Praia da Rocha, enfiam-te um chapéu de palha na cabeça e uma caipirinha pela goela abaixo e, quando dás por ela, tens uma caneta na mão para assinar um contrato Vip Gold por 30 anos, relativo à utilização na primeira semana de Maio de uma fracção virada a norte, no rés-do-chão, sem direito a utilização de garagem e com um aspirador de oferta. Ora aqui é a mesma coisa. Os desgraçados que caírem na esparrela estarão a “poupar” uns cêntimos no IRS durante um par de anos para, ao mesmo tempo, entregarem ao Dr. Costa uma cabazada de impostos indirectos, contribuições para a Segurança Social, taxas para o audiovisual, comparticipação para as eólicas, IMI em tranches ou em fatias e calhando, um dia destes, direito de pernada. Ninguém merece. Mesmo que se trate de emigrantes socialistas.

 

* artigo publicado na edição de Setembro do Dia 15.

 

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Durante séculos, a Humanidade mediu o tempo através da posição do Sol. E, portanto, era natural que o meio-dia não acontecesse ao mesmo tempo para os habitantes daqui e dacolá. Quando os relógios mecânicos apareceram, esta situação de disparidade do tempo não mudou. Por muitos anos, a convenção seguida foi que cada cidade ajustasse o seu tempo em função do meridiano em que se situava. E assim, para vermos um exemplo, quando eram 12h00 em Bristol, seriam 12h10 em Londres. Isto não constituía realmente um problema quando as comunicações de longa distância eram lentas ou inexistentes. Depois, o progresso veio baralhar as coisas. Com a chegada da ferrovia, impôs-se alguma uniformização. Os comboios que partiam de Londres regiam-se pelo tempo de Greenwich. Mas os comboios com origem em Bristol seguiam o tempo do meridiano local. Não é difícil perceber a dificuldade dos passageiros que vinham de Londres em acertar com a hora das ligações ou dos regressos. E vice-versa. Para acabar com o pandemónio, decidiu-se que todos os comboios britânicos utilizariam Greenwich como referência. Daí partiu-se, mais tarde, para um consenso que levou a que muitos países fixassem uma única hora legal dentro do seu território. E mesmo naqueles casos em que a dimensão impõe diversidade de fusos horários, persiste uma determinada organização. Se a hora de Nova Iorque e de Los Angeles não pode ser a mesma, subjaz à situação uma certa racionalidade. Estes princípios de organização do tempo pareciam um adquirido da Humanidade, uma daquelas bases a que se tinha chegado depois de milhares de anos da evolução. Algo tão básico como lavar os dentes depois de comer cebola. Que Diabo: se um tipo está em Braga, independentemente da posição do Sol, do meridiano ou do caraças, sabe que tem a mesma hora que teria se estivesse em Lisboa. Não é? Pois. A verdade é que não é. E isto graças à CP. A CP dos comboios está a contribuir para lixar os princípios de organização do tempo que o próprio transporte ferroviário tinha historicamente contribuído para harmonizar. Vejamos. A CP afirma que o Alfa que parte às 19h00 de Santa Apolónia chega a Braga às 22h25. Mas isso será na hora de Lisboa. Porque a Braga nunca chega antes das 22h40 ou 22h50, hora local. Nos dias bons, que não são assim tantos. Nos dias maus, as coisas são mais complicadas. Veja-se o caso de um passageiro que apanhou o Alfa que parte de Lisboa às 17h00. Entrou no comboio perfeitamente escanhoado e portador de uma vasta melena. Quando passou em Coimbra B já tinha mais barba e menos cabelo que o João Miguel Tavares. Aqui há uns anos, gerou-se grande polémica porque uma determinada classe profissional recebia subsídio para cortar o cabelo. Tendo em conta o tempo que as viagens da CP demoram, os revisores e maquinistas da empresa deviam ter direito a que lhes aparassem as pontas durante o trajecto, sob pena de os familiares não os reconhecerem no regresso a casa. E isto não é uma questão de centralismo. No percurso inverso acontece o mesmo. O Alfa que sai do Porto às 7h45 devia chegar a Lisboa às 10.40. Mas não. Em geral, chega depois das 11h00. Hora local, claro. O Dr. Costa, que ficou famoso por organizar uma corrida entre um burro e um Ferrari durante a campanha para umas autárquicas do século passado, devia promover agora uma competição entre ele próprio e um Intercidades. Em 1993, o burro ganhou. Da maneira que as coisas estão na CP, o Dr. Costa, não desfazendo, tem todas as condições para não lhe ficar atrás. Há mesmo uma possibilidade não despicienda de o material de guerra desaparecido de Tancos estar, afinal, em trânsito numa locomotiva da CP que partiu em 2017 e que ainda não chegou ao destino. Os cientistas afirmam que o tempo é uma grandeza física. Mas não na CP. Na CP, o tempo é uma enormidade. Uma grandiosidade. Nas epopeias portuguesas esteve sempre presente o Oriente. No tempo das Descobertas, como destino. Hoje, se o mar estivesse para cronistas, o Fernão Mendes Pinto dos nossos dias escreveria uma obra-prima baseado numa longa viagem iniciada numa estação ferroviária desenhada pelo Calatrava ali para os lados da Expo. O Adamastor dos nossos tempos fixou residência por alturas do Entroncamento. E muito poucos podem gabar-se de ter dobrado esse novo Cabo das Tormentas à hora prevista. A previsão de horário dos Alfa e Intercidades da CP existe para dar credibilidade à da ponte aérea da TAP. Que, por sua vez, existe para dar credibilidade às dos economistas. Que, por sua vez, existem para dar credibilidade às dos meteorologistas. Mas se isto é assim nos comboios rápidos (ihihihih), a coisa pia ainda mais fino noutros serviços. Na linha do Oeste, até se torna difícil fazer oposição. Em dias consecutivos, partidos políticos tentaram viajar na CP para demonstrar as insuficiências do seu desempenho. Em nenhuma das ocasiões o comboio chegou sequer a partir. Quando a próxima bancarrota chegar, a verdade é que já ninguém nos tira estes momentos de boa disposição. Se quisermos ser sinceros, não temos propriamente caminho de ferro. Temos um caminho das pedras destinado a testar a fibra heróica dos utentes. A situação chegou a tal estado que as contas da CP nas redes sociais são as primeiras a gozar com a coisa. Duas em cada três publicações dedicam-se a ridicularizar o serviço. Os atrasos, a falta crónica de wi-fi , a ausência de climatização, os cancelamentos, as supressões, os milhares de horas perdidas porque os passageiros não chegam a tempo de apanhar ligações. Tem tudo muita piada. Aliás, estou convencido de que o gestor de conteúdos da CP deve ser a mesma pessoa que se lembrou, com evidente optimismo, de chamar material circulante às locomotivas e automotoras da CP.

 

* artigo originalmente publicado na edição de Julho do Dia 15.

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O Kit do Governante

por Rui Rocha, em 06.08.18

Analisemos então o caso do Dr. Siza. O Dr. Costa convidou o Dr. Siza para ir a ministro. E, na véspera de assumir funções, de entre todas as coisas que podia ter feito, o Dr. Siza decidiu constituir uma imobiliária. A constituição da imobiliária está para a função de ministro como a despedida de solteira está para a noiva. Que maluquices não podes fazer depois de casada? Pois isso. Aproveita os últimos momentos de liberdade e não faças prisioneiros. O malandreco do Dr. Siza , em vez de ir para os copos, foi constituir a imobiliária antes que se fizesse tarde. A noiva vai com as amigas para a ramboia. O Dr. Siza foi ao notário. Aliás, o bardina deve ter aparecido na tomada de posse ainda cheio de olheiras e atafulhado de Guronsans. Constituir uma imobiliária no dia imediatamente antes de ir a ministro é capaz de ser a preocupação de nove governantes em cada dez, não acham? E o décimo é o Eng. Sócrates que preferiu deslocar-se à Suiça para abrir uma conta com vista para o Lago de Genebra. Vamos lá ver. Um tipo pode aproveitar a véspera de ir a ministro para comprar uns fatos e uns sapatos para ficar composto nas fotografias. Pode almoçar com a família. Pode dormir. Pode fazer um levantamento de raízes, mas pronto, aí dou de barato porque é preciso ter cabelo. Pode pôr unhas de gel. Pode fazer um envolvimento em algas ou um tratamento de vinoterapia com polifenóis de uva e antioxidantes para combater os radicais livres. Pode inscrever-se num ginásio para não parecer mal ao lado do espadaúdo Dr. Costa. Mas não. O Dr. Siza decidiu passar aquela tarde, pasme-se, a constituir uma imobiliária. Estou a imaginar a conversa do Dr. Siza com a mãe. Mãe, o Costa convidou-me para ministro. Tá bem, filho. Alimenta-te, leva um casaquinho, lava os dentes, não fales com desconhecidos e constitui uma imobiliária. E quando vierem cá a casa pede à Laurinha que traga o tupperware onde levou os croquetes. Tá bem, mãe. E tem cuidado com as más companhias. Tá bem, mãe. Por falar em más companhias, o Dr. Costa é que não está para brincadeiras. Com o Dr. Costa não fazem farinha. Com o Dr. Costa ninguém põe o pé em ramo verde. O Dr. Costa impõe um elevado padrão de conduta aos colaboradores. O Dr. Costa lidera pelo exemplo. Em concreto, o Dr. Costa, inflexível, deu um murro na mesa e exigiu a demissão do Dr. Siza, perdão, do Lopetegui. Isso. A demissão do Lopetegui da Selecção de Espanha. E a elaboração de uma check-list. Isto porque o Dr. Siza não sabia dessa coisa das incompatibilidades. O desconhecimento da lei não aproveita ao cidadão comum mas é invocável a favor dos causídicos amigos do Dr. Costa. O Dr. Siza não sabia e não é por acaso que dizem que a ignorância é atrevida. Em todo o caso, é bom lembrar que a check-list não é a primeira iniciativa do género. Já antes o governo tinha dado ao mundo um Código de Conduta, indispensável para os governantes perceberem que não podem ir à bola com entidades com quem o Estado está em litígio por centenas de milhões de euros. Dá ideia que isto é como no “Velocidade Furiosa”. Depois do Código e da check-list virão mais meia-dúzia de sequelas. Ou me engano muito ou ainda teremos o guia, o inventário, a relação, a tabela e o rol. Apesar disso, a verdade é que estes instrumentos serão sempre insuficientes. O Dr. Costa devia começar pelo princípio: entregar aos ministros os Dez Mandamentos. Ah e tal que estou a exagerar. Não estou. Ora vejamos. Não roubarás, por exemplo. Olhando para a história recente, tinha sido útil ou não que certos governantes soubessem que não é conveniente andar na gatunice? Tinha, claro. Não levantarás falso testemunho. Quantos erros de percepção mútuos se tinham evitado com o não levantarás falso testemunho, não é Dr. Centeno? Pois é. Não cobiçarás a mulher do próximo. Nem a filha, nem o sobrinho, nem a cunhada, nem o avô que este governo é como se fosse uma família. Se um ministro mais atrevidote fizer olhinhos à ministra Vitorino, consorte do ministro Cabrita, como é que ficamos? E se uma secretária de Estado sentir uma súbita atracção pela secretária de Estado Mariana Vieira da Silva, filha do ministro António José com os mesmos apelidos, como é que é? Sem o não cobiçarás um dia destes o Conselho de Ministros ainda nos acaba em tragédia. E é melhor não arriscar, até porque o seguro morreu de velho. Salvo, claro, se estivermos a falar do saudoso Dr. Tozé que, como se sabe, faleceu de uma corrente de ar provocada por uma punhalada nas costas. Tudo somado, o ideal era mesmo oferecer aos membros do Executivo um Kit do Governante. Com uma pen-drive, uma caneca, um diploma de licenciatura (não vá o Diabo tecê-las), um repelente de insectos e um ancinho para roçar mato naqueles dias em que o Dr. Costa vai à floresta de helicóptero, os Dez Mandamentos, um Código de Conduta, uma check-list, dez bilhetes para a Bancada Vip do Estádio da Luz e uma camisola do Benfica autografada pelo Luisão. E depois, com alguns artigos personalizados em função de necessidades específicas de cada governante. Para o próprio Dr. Costa, por exemplo, uma Gramática Elementar da Língua Portuguesa, um Prontuário Ortográfico, toalhetes para limpar o suor da testa e um voucher para umas férias nas Baleares. Aliás, é uma pena que esta coisa da entrega do Kit do Governante logo no início de funções não nos tenha ocorrido antes. Se o Eng. Sócrates tivesse recebido um Código Penal quando foi a primeiro-ministro estou em crer que se tinha poupado muita chatice.

 

* artigo originalmente publicado na edição de Julho do Dia 15.

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