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Famílias fora de prazo

por Teresa Ribeiro, em 21.09.17

 

 

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Num país onde o desemprego atinge sobretudo os maiores de 50 e os que procuram o primeiro emprego, os casos de pais desempregados a coabitar com filhos adultos que ainda não entraram no mercado de trabalho aumentaram exponencialmente. Mesmo assim o fisco, quando os descendentes chegam aos 25 anos, não perdoa e declara-os... independentes.

Quando tanto se fala de apoio à família, esta realidade é varrida para debaixo do tapete. Maior de 25 que viva à custa dos pais é uma não-pessoa. Não conta para o agregado familiar, nem pode apresentar despesas para incluir no IRS dos pais. A regra já existia, mas ao contrário de outras que também existiam e já foram mudadas, nesta não tocaram nem com uma flor.  Era o mínimo a conceder às famílias que se tornaram disfuncionais em consequência do esbulho fiscal e destruição de emprego. 

 

Emprego em números (curtinho e simples*)

por João André, em 22.07.14

 

Quando falamos do desemprego temos duas correntes: a corrente governativa, onde o pior já passou e agora estamos todos em direcção à paz celestial; e a corrente anti-governo, onde o apocalipse está ao virar da esquina e o desemprego real é de 450 mil por cento. Como não gosto de andar a ler notícias sobre as estatísticas em jornais carregados de analfabetos matemáticos que estão amiúde comprometidos com uma das duas correntes, decidi dar uma espreitadela aos números absolutos, i.e., quantas pessoas estavam activas, quantas pessoas empregadas e quantas pessoas desempregadas. O resultado está no gráfico acima (retirado dos dados do INE).

 

O que se vê é claríssimo: o desemprego caiu entre o 3º trimestre de 2012 e o 1º trimestre de 2014. O emprego por outro lado também desceu no mesmo período. Em termos absolutos, o número de desempregados caiu em cerca de 59 mil e o número de empregados caiu em cerca de 137 mil. O emprego recuperou um pouco no último ano registado acima mas não irei debruçar-me sobre razões nem sobre as razões do decréscimo no início de 2014.

 

A realidade é que a queda do desemprego de 15,7% para 15,1% com um pico de 17,5% no 3º trimestre de 2013 terá decorrido mais de emigração e óbitos que de qualquer outra coisa. Em termos líquidos pode-se dizer que se perderam empregos no período decorrido e a recuperação dos mesmos (em termos absolutos) ainda não parece muito notória.

 

O governo gosta de retirar para si os frutos de qualquer número positivo e atirar para o governo de Sócrates ou para a Europa qualquer má notícia. Os números acima apontam para uma real influência do governo na diminuição da taxa do desemprego através da promoção da emigração. Não quero contudo retirar-lhes outro mérito. A verdade é que há limites para aquilo que um país pode cair desde que tenha um estado funcional (mesmo que não ideal): após tanta queda havíamos de ressaltar um pouco.

 

Gostaria de ser optimista como outros colegas do blogue (admiro o optimismo e a esperança do Luís Naves, por exemplo) mas não consigo. Uns tempos de bom clima económico e uma pneumonia do BES arrisca atirar-nos para os cuidados intensivos. Apesar de todos estes esforços do nosso bando de incompetentes do governo, os bons resultados parecem-me continuar a dever-se mais ao espírito aventureiro dos portugueses e a influências externas.

 

Infelizmente a situação provavelmente não irá mudar muito nos próximos tempos: não vejo quem em Portugal faça muito melhor (até porque pior só se for o Santana).

 

* - talvez não tão curtinho quanto pensava. Perdoem-me o pouco jeito para o resumo.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 20.07.14

«O desemprego é uma enorme chaga que nos atingiu para ficar. Oxalá esteja enganado, mas o desemprego em Portugal dificilmente baixará dos dois digitos nos próximos dez ou vinte anos.
Há com certeza muita gente mais habilitada do que eu para explicar as razões desta desgraça. Mas normalmente quem explica as razões do desemprego nunca explica como é que se criam empregos. Eu só conheço duas maneiras:  no estado e nas autarquias, ou então com investimento, muito e bom investimento. O estado e as autarquias têm de reduzir e muito os seus efectivos, e para o investimento é preciso haver quem tenha dinheiro e interesse em fazê-lo, e não há entre os que têm os meios quem esteja interessado em investir em Portugal, que para criar  400 mil empregos  necessita nos próximos cinco anos de investimento equivalente a dez Autoeuropas.
Para juntar a isto, temos entre mãos a falência do maior grupo financeiro português, que vai deixar um rasto de destruição na economia indígena cuja dimensão ninguém ainda se atreve a prever. Mas há um "pormaior" que vai ter um enorme impacto directo na economia portuguesa: 90% de uma parte do calote, cerca de 4 mil milhões de euros, pertence a portugueses. Podemos imaginar o que vai ser o "choro e ranger de dentes" que por aí virá.
Por outro lado, o que os futuros governantes, sejam da direita ou da esquerda, andam por aí a dizer que vão fazer também não augura nada de bom. Por isso, temo que Portugal se esteja a aproximar a grande velocidade de uma "tempestade perfeita".»

 

Do nosso leitor Alexandre Carvalho da Silveira. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

O desemprego.

por Luís Menezes Leitão, em 12.06.14

Este belíssimo texto de Pedro Santos Guerreiro justifica uma análise sobre um drama que tem vindo a atingir profundamente as sociedades desenvolvidas e que consiste no problema do desemprego. Não consigo compreender — e acho um erro político grave — que se cantem loas ao "sucesso" do programa de ajustamento e se prometa que um dia — seguramente daqui a muitos anos — chegarão os gloriosos amanhãs que cantam e lá acabaremos por atingir as terras de leite e mel do equilíbrio imposto pelo Tratado Orçamental. Mas nesse glorioso processo de "ajustamento", cada vez mais exigente, chega sempre algo que todos os economistas avisam: níveis de desemprego sem precedentes neste país. Não é o facto de as estatísticas apresentarem um ponto a mais ou a menos, que impede o impacto brutal de notícias como esta, que normalmente significam que o flagelo chegou a amigos e conhecidos. As pessoas angustiam-se e perguntam se não serão o próximo na lista. É por isso que a maior boutade alguma vez dita por Passos Coelho foi quando disse que o desemprego era uma oportunidade para mudar de vida.

 

Neste âmbito, um dos filmes que vi retratar com mais brilhantismo o desemprego, a propósito da crise financeira dos EUA, foi Homens de Negócios (The Company Men), com Ben Affleck e Tommy Lee Jones. O filme retrata a história de um executivo, com um bom emprego, que um dia chega à empresa alegre depois de um jogo de golfe, recebendo a notícia de que iria ser despedido. Assistimos então ao completo desmoronar da vida dessa pessoa, sendo que não é o único, uma vez que todos os dias a empresa vai mandando novas pessoas para o desemprego. A justificação que o administrador dá é simples: a empresa está a ser objecto de uma OPA, que só se conseguirá frustrar valorizando as acções e para isso é necessário reduzir os custos laborais. Nessa luta contra a OPA, a empresa vai sucessivamente despedindo mais e mais trabalhadores, lançando as suas famílias no desespero. Até que, depois de os despedimentos se terem multiplicado, o administrador diz que afinal a empresa não conseguiu resistir e a administração vai aceitar a OPA. Quando alguém lhe diz que lamenta esse fracasso, o administrador responde que não se justifica o lamento, pois as suas acções, que irá alienar na OPA, valem agora 600 milhões de dólares.

 

Aí somos levados a perguntar o seguinte: qual é a lógica disto tudo? Que interessa que alguém receba 600 milhões de dólares ou metade dessa importância, já que uma pessoa normal nem em toda a sua vida gasta valores dessa ordem? E o resultado disto é que o desemprego acumula-se e o tecido empresarial vai sendo destruído numa lógica de capitalismo de casino. Seguramente que alguma coisa se perdeu do espírito original do capitalismo. Os verdadeiros empresários criavam riqueza e sentiam-se responsáveis pelo bem-estar dos seus trabalhadores. Hoje a lógica passou a ser apenas comprar e vender acções, valendo tudo para se obter o melhor preço. Resta saber a que custo.

Do estar desempregado

por Marta Spínola, em 10.06.14

Eu já não estou, é a primeira novidade. Apareceu finalmente o meu emprego e eu acredito com alguma força que vai correr bem. Mas não é disso que venho falar. Tentarei em poucos posts descrever alguns aspectos do lado de quem está nessa terrível posição.

Enquanto se está desempregado passa-se pelas mais diversas situações, observações e opiniões. Mas o pior de tudo é quando o telefone toca, é um contacto para uma eventual entrevista, um teste de idioma, uma hipótese "que pode vir a acontecer, mas ainda sem certezas". Não me interpretem mal, não é o interlocutor ou o que/quem nos levou até ele que está mal, as pessoas fazem o que podem ou está ao seu alcance, e eu tenho algumas a agradecer por terem ajudado na minha busca de trabalho, ainda que sem sucesso.

O pior é mesmo o outro lado, o nosso. O que procura, tenta, ouve e espera uma oportunidade e uma segunda chamada. Sabe que é capaz, pode fazer aquele trabalho sem problemas ou se lho explicarem, deixa-me lá pensar o que levo vestido para a entrevista. E o novo contacto tarda, e acaba por não chegar. Mas sempre que há um novo, toda a esperança se renova e recomeça, vai ser bom, aquela zona até é boa e eu não me vou atrapalhar, eu faço o que for preciso. É como se o que está para trás não importasse já, deixa lá, alguma coisa havia de haver para ti caramba, já chega de esperar. E foram algumas vezes em que afinal ainda não era desta.

Comigo foram dois anos. Não estive parada e tive experiencias enriquecedoras, estive em lugares onde não me imaginei, vi o lado bom de muita gente. O mais difícil foi mesmo esse jogo esgotante da energia para começar de novo e a desilusão de ainda não ser dessa vez.

Leituras

por Pedro Correia, em 09.04.14

 

 

«Estar desempregado pode, em certas condições, tornar-se estimulante. De repente, encontramo-nos fora do sistema, não fazemos parte do mundo, ninguém nos quer, batemos às portas e as portas não se abrem, os conhecidos mudam de passeio quando nos vêem a tempo, ou então enchem-se de piedade, o que ainda é pior. É uma boa altura para sabermos se somos apenas o que fazemos, ou se vamos mais longe do que esse pouco.»

José Saramago, A Noite (1979), p. 66

Ed. Caminho, 2009 (4ª edição)

Isto não vai demorar nada. Jonet revisitada

por Marta Spínola, em 02.04.14

Há muitas vezes um silêncio quando alguém diz mal do facebook ou outra rede social. Se calhar por não acharmos fundamental defender, cada um está onde quer estar, quem não quer ter nenhuma não tem e vivemos bem assim. 

Mas depois há estes momentos em que acho o silêncio injusto. Cada um fará o que entender com o facebook, e se for só ter jogos pois seja. Eu uso para tudo e mais um par de botas.
Ao ler hoje (eu sei, ainda leio, para quê? Não sei, é o meu acidente na estrada, para esses não olho, olho para isto) as declarações de Isabel Jonet sobre os desempregados e as redes sociais, não consigo não dizer nada. Porque mais uma vez se generaliza sem, imagino eu, saber. 
Num resumo, direi apenas: 
  • em ano e meio desempregada, os trabalhos e contactos que maior efeito surtiram nesse sentido surgiram através do facebook. 
  • antes de estar desempregada também foi por ali que fui contactada para os melhores trabalhos que já fiz.
  • neste ano e meio tomei conta de dois bebés, cujos pais são meus amigos de infância e não teria reencontrado se não fosse pelo Facebook 
Eu sou uma pessoa tímida, quem me lê no facebook ou me segue no twitter não o diz. Mas mesmo que não o fosse, há coisas que escrevemos mais facilmente do que surgem numa conversa falada (ou numa entrevista de trabalho, já que estamos nesse âmbito). E chegam a mais pessoas numa rede social, e ainda bem, não tenho dúvidas que foi assim que muitas pessoas me foram conhecendo um pouco melhor, e elogios e cumprimentos ao que digo e penso - mesmo que sejam delírios, tolices, o que me dá na real gana, nunca escrevo nada muito profundo, garanto - só puderam existir porque me leram, porque eu estava no facebook/twitter/blogosfera. Se isso um dia me dará novo emprego? Não sei, mas não me distrai certamente de o continuar a procurar.
 
Para terminar, e não quero confundir pessoa e Instituição, para a qual contribuo, muito menos o trabalho dos voluntários que nada têm que ver com isto, a verdade é que precisando mais depressa pedia um ovo no facebook que ao Banco Alimentar. E sei que o receberia. 
(também publicado ali)

Desistir

por Teresa Ribeiro, em 20.02.14

Há quem disfarce a falta de esperança de inércia. Só para não parecer tão triste.

No reino dos eufemismos

por Pedro Correia, em 29.11.13

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora "rescindiu com 300 colaboradores". Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. "Bem basta a cada dia o seu trabalho", diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é "funcionário" ou, de modo ainda mais eufemístico, "colaborador". Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas "dispensado". Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial "prescinde" dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: "colabora-se". E ninguém é despedido: há apenas quem "cesse funções" ou veja os seus préstimos "prescindidos" por alguma entidade empregadora em fase de "reestruturação" ou "reavaliação" das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

 

Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 28 de Maio de 2012

A crise e as oportunidades

por João André, em 29.11.13

Um dos momentos mais interessantes de cada nova discussão com colegas - oriundos de outras unidades de negócio - ou com pessoas de outras empresas alemãs é quando chega o momento de dizer que sou português. Quase todos perguntam pela situação em Portugal, lamentam as dificuldades e desejam que passem depressa. Sentimentos genuínos, sem dúvida, tal como o são quando alguém falava sobre a fome no Biafra com um bife no/do lombo.

 

Aquilo que muitas vezes se me depara é outra coisa: acabam quase todos a perguntar se será então um bom local de recrutamento de pessoas, especialmente com formação técnica.

 

De uma penada vejo um certo tipo de mentalidade: uma cristã preocupação pelo sofrimento no mundo e um muito prático aproveitamento das oportunidades geradas. Pedro Passos Coelho tinha de facto razão: a crise e o desemprego são oportunidades. Para os outros países.

6% baralha e volta a... tirar

por Marta Spínola, em 18.04.13

É puxar a brasa à minha sardinha, pois é. Estou desempregada e vejo este yo-yo da que já não é fortuna nenhuma. Se o meu coração, por este e outros motivos, sobreviver a 2012/13 podem estudar-me.

Ainda não foram passados os valores a partir dos quais se manterão os 6%, mas provavelmente serão os que nunca se imagina que as pessoas recebam, os que rondam os 400 euros.

Estou irritada, não vejo futuro para mim por cá, e também não sei bem como fazer para me ir embora. Acima de tudo ainda não o queria fazer. Porque irei sozinha, porque estarei sozinha. Não me atrapalho sozinha em muita coisa, mas ir passear a Roma sozinha, viver cá sozinha, pagar as minhas contas sozinha, é uma coisa, fazer a vida toda noutro lado, é outra. Sou optimista regra geral, mas neste caso obrigo-me a refrear-me, não dar um passo maior que a perna.

Tenho capacidades, não tenho medo de trabalhar, mas no cv vão os meus 36 anos e essas qualidades talvez fiquem para trás, não sei. Sei que ninguém responde, nem mails automáticos (já não se usam? Eu preferia-os ao vazio). 

Desde que fiquei sem emprego já passei por várias fases. Mas uma constante é sentir que tenho muitos deveres e poucos direitos, a sensação é a de que vivo de um favor do Estado. Constantemente. Felizmente as pessoas que me passam esses deveres e cumprem (formadores, atendimento) mostram-se compreensivas com quem está do lado de cá, seria insuportável de outra forma. 

Custa, não se pense que é viver à sombra da bananeira. Sabem-me bem os primeiros dias de sol, poder aproveitá-lo. Experimentei fazer coisas que fui adiando enquanto trabalhava, pude fazer babysitting e não o trocava por nada. Mas custa bastante ser diariamente confrontada com a situação, com os 6% que afinal eram meus mas agora já não. Custam os olhares de pena e segue a vidinha (prefiro que a sigam logo), custam as não respostas, custa o subsídio comparado com o que se recebia a trabalhar. E custa-me ser só um número, isso é o que me custa mais. 

De acordo com o ministro Vespa Soares, "percebemos hoje que uma mulher que quer ser mãe pede-nos, mais do que dinheiro, sobretudo mais tempo para acompanhar os seus familiares”. Trata-se de afirmações extraordinárias. Ora vejamos. Portugal tem hoje cerca de 1 milhão de desempregados. E cerca de 600.000 trabalhadores em regime de part-time. Isto é, perto de 30% da população activa ou não trabalha, ou trabalha a tempo parcial. Por outro lado, o país tem um dos salários médios mais baixos da Europa dita desenvolvida e há perto de três milhões de portugueses a viver abaixo do limiar de pobreza. Num cenário destes, afirmar que o motivo da baixa natalidade em Portugal é a falta de tempo, mais do que a falta de dinheiro, só pode ser levado à conta de desconhecimento, de falta de respeito ou de alguma pancada sofrida na caixa dos pirolitos quando circulava de motorizada. No caso, tratando-se do Exmo. Senhor Ministro da Solidariedade e da Segurança Social, descarto de imediato a primeira hipótese por inerência de funções e recuso-me a acreditar na segunda (gente tão preparada e bem formada, não é?). Resta-me a terceira, pelo que me cumpre desejar ao Senhor Ministro uma rápida recuperação dos sentidos e, muito especialmente, do da realidade.

Viva a franqueza!

por Gui Abreu de Lima, em 19.02.13

Em castelhano, trata-se os bois pelos nomes

Fazer de cada português um fiscal da Autoridade Tributária e Aduaneira. O facto de ser um emprego não-remunerado é um detalhe. 

Fernando Ulrich tem uma solução para diminuir o desemprego. Em vez de suportar o subsídio, o Estado poderia pagar a desempregados para trabalharem em grandes empresas. Assim de repente, veio-lhe à ideia que um dos empregadores poderia ser o BPI. Parece-me bem. Mas, a ideia é tão boa, tão boa, que não a devíamos limitar às grandes empresas. Por mim, também estou disposto a ajudar. Se o Estado fornecesse os materiais, poderia mesmo pensar em demolir a habitação actual e construir uma nova com todas as necessidades de mão-de-obra que isso implicaria. Entretanto, mesmo que esse projecto não avance, não faltam oportunidades lá em casa. Deve haver outras, mas enquanto penso nisso, publico já o primeiro anúncio:


Pretende-se:

 

  • Cozinheiro/a - part-time de 4 horas por dia, incluindo feriados e fins-de-semana, ao almoço e ao jantar (necessidade permanente)
  • Empregado/a de limpeza - tempo inteiro (necessidade permanente)
  • Decorador de interiores e exteriores - tempo inteiro  (necessidade temporária: 1 mês)
  • Pintor/a - tempo inteiro (necessidade temporária: 1 a 2 meses)
  • Canalizador/a - tempo inteiro (necessidade temporária: 1 semana)
  • Baby sitter - noites de sexta-feira e sábado (necessidade permanente)
  • Professor/a de piano - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de inglês - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de francês - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de alemão - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de espanhol - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de mandarim - part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Pizzaiolo/a - para uma das folgas do/a cozinheiro/a
  • Sushiman/Sushiwoman - para outra das folgas do/a cozinheiro/a

 

Oferece-se: integração em domícilio sólido e dinâmico, bom ambiente de trabalho, remuneração suportada pelo Estado e oportunidades reais de desenvolvimento enquanto se mantiver o direito ao subsídio de desemprego.

Mais desemprego, novas oportunidades

por Rui Rocha, em 01.10.12

O primeiro-ministro tem razão. O desemprego é uma oportunidade. E a boa notícia é que há cada vez mais oportunidades. Com tantas e novas perspectivas, assistiremos em breve a uma alteração profunda do mercado de trabalho e das próprias designações das actividades profissionais. Na verdade, muitas profissões cairão em desuso e serão substituídas por novas e desafiantes ocupações. Os Solicitadores, por exemplo, serão substituídos pelos Imploradores. O Médico do Trabalho, por seu lado, dará lugar ao Terapeuta Desocupacional. Também muito solicitado será o Técnico de Higiene e Insegurança (angustiados mas asseados). Nas tarefas administrativas, os novos tempos trarão profissionais altamente qualificados: os Desempregados de Escritório. Igualmente na primeira linha do mercado de trabalho do futuro encontraremos os Terapeutas da Falta, os Mestres de Sobras e os Técnicos Oficiais de Pontas. No domínio da saúde, os Dietistas continuarão em alta. Todavia, as estrelas nesta área serão, sem dúvida, os Anestesistas. Na construção, o mercado proporcionará excelentes oportunidades para os Semtectos Paisagistas e para os Engenheiros de Infra Estruturas, estes últimos especialistas em pequenas obras como a reabilitação de vãos de escada e o recondicionamento da parte de baixo das pontes. As preocupações com a ocupação do espaço darão lugar a tudo o que diz respeito ao preenchimento do tempo, com oportunidades desafiantes para a Engenharia de Batalha Naval. Os Engenheiros Magrários e, em geral, todos os que trabalham nos diversos ramos da Magricultura e da Engenharia Magro-Industrial têm boas razões para encarar os próximos tempos com confiança. Na área comercial, o novo mundo será dos Tácticos de Vendas. Encontrar um cliente será tão difícil que vender deixará de ser uma técnica e passará a pressupor vastos conhecimentos de perseguição e emboscada. Nas ciências, destacar-se-ão os Físicos Teóricos. Embora sem a mesma garantia de sucesso, haverá também lugar para os Químicos Inorgânicos. Com boas perspectivas, surgem também as áreas da Matemática Discreta, da Nicklesbiologia (evolução da Microbiologia e da Nanobiologia) e da Citologia (o estudo das citações será fundamental para entreter o tempo). Na educação, serão criadas as novas profissões de Professor do Ensino Básico (o ensino será mesmo muito básico), de Professor do Ensino Secundário (assumindo definitivamente que o ensino é tudo menos prioritário) e, naturalmente, de Professor do Ensino Inferior. No que diz respeito às profissões ligadas à História, apesar de, em geral, as coisas não se apresentarem risonhas, aparecerão novas ocupações como a de Engenheiro Alimentar (o estudo dos alimentos integrará o ramo da arqueologia) e de Especialista em Parasitologia (persistirá, apesar de tudo, alguma curiosidade em perceber como chegámos até aqui).

Dos tempos

por Ana Margarida Craveiro, em 24.09.12

A desesperança é o que mais dói nestes tempos. Sem escolhas, sem ver quando as coisas melhorarão. Tenho metade da família desempregada, e dói-me ver que os braços começam a não se querer levantar. 

 

Queda e ascensão

por Leonor Barros, em 14.09.12

Conta a notícia que o 'emprego português caiu 4,2% no segundo trimestre de 2012'. Caiu e continua estatelado no chão como sabemos, a esta hora já foi trucidado pelo Coelho mais a sua querida austeridade. Na Grécia diz que também lhe aconteceu o mesmo. Caiu. E o desemprego não terá então aumentado?

Recordando a equidade

por Ana Margarida Craveiro, em 06.07.12

800.000 desempregados. Nenhum juiz do Tribunal Constitucional, suponho.

Um mecanismo para responder ao desemprego

por Rui Rocha, em 04.06.12

Leio que Passos Coelho, a propósito da divulgação das conclusões de novo exame da Troika à execução do plano de resgate, declarou que se ficou de encontrar um mecanismo que responda ao desemprego. Parece-me bem. E não quero tirar ao primeiro-ministro o entusiasmo, aliás evidente nas suas palavras, de descobrir pelos seus próprios meios a solução para um problema que tem merecido de todo o seu governo, quando menos, várias manifestações públicas de compreensão e de apoio. Em todo o caso, não vá Passos Coelho estar assoberbado com outras solicitações, atrevo-me a deixar aqui uma sugestão. No fundo, trata-se de algo que responde à tensão, pressupõe uma estrutura de suporte, funciona como alavanca, tem em conta a gravidade e pode proporcionar algum impulso aos desempregados. Nada de muito novo, na verdade. Aliás, foram os gregos que, vendo-se em grandes dificuldades,  desenvolveram o primeiro mecanismo do género. Chama-se catapulta. Com alguma perícia e um bocado de sorte, os desempregados são projectados para lá da fronteira e, se tudo correr pelo melhor, nem sequer fazem ricochete. Em homenagem ao ministro Álvaro, proponho desde já que lhe chamemos Coisapulta.


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