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A honra perdida do PSD

por Pedro Correia, em 30.07.20

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Foto: Filipe Farinha / Lusa

 

Rui Rio prepara-se para accionar disciplinarmente os sete deputados do PSD que ousaram votar contra o vergonhoso pacto com o PS para trocar a presença quinzenal obrigatória do primeiro-ministro na Assembleia da República por deslocações bimestrais de Sua Excelência ao hemiciclo.

Tão vergonhoso foi esse pacto que 28 deputados socialistas também votaram contra, incluindo vários ex-ministros e ex-secretários de Estado: Ana Paula Vitorino, Ascenso Simões, Bruno Aragão, Capoulas Santos, Carla Sousa, Cláudia Santos, Eduardo Barroco de Melo, Fernando Anastácio, Filipe Neto Brandão, Francisco Rocha, Hugo Oliveira, Isabel Moreira, Joana Sá Pereira, João Paulo Pedrosa, Jorge Lacão, José Magalhães, Marcos Perestrello, Maria Begonha, Marta Freitas, Miguel Matos, Nuno Fazenda, Olavo Câmara, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Sérgio Sousa Pinto, Sónia Fertuzinhos, Susana Correia, Tiago Barbosa Ribeiro, Tiago Martins. E cinco abstiveram-se: António Gameiro, Diogo Leão, Elza Pais, Rosário Gamboa e Pedro Delgado Alves. Além dos representantes de todas as restantes bancadas parlamentares - BE, PCP, CDS, PAN, PEV, IL e Chega.

 

A diferença entre as duas metades do bloco central é que os socialistas dispuseram da liberdade de voto que Rio cerceou na bancada laranja - apesar de só o PS ser partido de governo e a alteração agora introduzida ao regimento da Assembleia da República apenas beneficiar o primeiro-ministro enquanto lesa os direitos da oposição parlamentar da qual nominalmente o PSD ainda faz parte.

Assistimos, portanto, a este facto extraordinário: enquanto se comporta como serviçal do Governo, Rio dirige a sanha persecutória contra os sete rebeldes do seu próprio partido que agiram em consciência quando se insurgiram contra a honra perdida do PSD no momento da votação - entre eles o novo líder da JSD, Alexandre Poço, e a líder cessante, Margarida Balseiro Lopes.

Procura assim, com esta absurda ameaça de processos disciplinares, quebrar os últimos vestígios de dissidência no grupo parlamentar: 

 

Marcelo Rebelo de Sousa poderia dizer-lhe como se dirige um partido tolerando a autonomia de decisão dos deputados. Quando o actual Presidente da República liderava o PSD, as bancadas socialista e comunista tomaram a iniciativa de apresentar projectos de lei que ampliavam as circunstâncias legais da prática do aborto. Marcelo era contra, tal como a esmagadora maioria dos parlamentares do PSD. Mas não houve disciplina de voto nem monolitismo. Assim, no momento da votação, três deputados - José Pacheco Pereira, José Silva Marques e Rui Rio -  divergiram do líder sem recearem consequências disciplinares.

Foi em 1998. Rio não hesitou então em colidir com o presidente do partido enquanto deputado. Mas agora, na posição que Marcelo ocupava há 22 anos, procede precisamente ao contrário. Prestando assim mais um favor aos socialistas: o de os distinguir, por contraste, como campeões da liberdade individual. 

Um favor que António Costa nem sequer se dará ao incómodo de lhe agradecer.

A casta

por Pedro Correia, em 20.04.20

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Eis um "estado de emergência" à portuguesa: os políticos, em vez de darem o exemplo de respeito pelas normas que impõem aos outros, assumem-se como casta separada do conjunto dos portugueses, preparando-se para comemorar o 25 de Abril em sessão solene da Assembleia da República. Violando assim as regras de drástico confinamento que aprovaram naquele mesmo local.

Voltamos, assim, a ter dois países dentro do País. O país que manda e o país que obedece.

 

No país que obedece, há cidadãos a ser detidos por "crime de desobediência" - por recusarem levantar-se de um banco público onde estão sentados sem ninguém ao lado, por caminharem solitariamente junto à praia.

No país que obedece, vemos compatriotas submetidos a "cercas sanitárias" impostas por autarcas armados em xerifes ou líderes regionais sequiosos de palco público em concelhos onde existem "dez novos casos" (!) de infectados.

No país que obedece, milhares de pessoas são impedidas de assistir a funerais de familiares e amigos, em nome das drásticas regras sanitárias, e há gente que chora por não ter sido autorizada a despedir-se de um ente querido. Nunca terão segunda oportunidade para o fazerem.

 

Entretanto, no país que manda, a casta - integrando largas dezenas de pessoas pertencentes a grupos de risco - prepara-se para reunir, à porta fechada, em festiva violação das normas que parecem dirigir-se só aos outros, entre despropositadas e até insultuosas loas retóricas à "liberdade" em pleno estado de emergência. Num momento da vida nacional e mundial que devia ser de recolhimento e luto, não de celebração seja do que for.

Depois lamentem-se de haver por aí muitos "populistas", fartos de verem dois países dentro do País. João Soares foi o primeiro a perceber isto: leiam e meditem no alerta dele.

 

Leitura complementar:

Pandemia(7): O 25 de Abril é de todos! De Vital Moreira, na Causa Nossa.

Pandemia (9): Democracia celebratória. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

De mordaça e cravo

por Pedro Correia, em 18.04.20

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Há duas semanas, o presidente da Assembleia da República enfureceu-se com um vice-presidente da bancada do PSD porque este partido tinha "deputados a mais" na sala de sessões do parlamento. Há dois dias, com uma rispidez muito semelhante, o mesmo Ferro Rodrigues insurgiu-se contra um deputado do CDS que protestava contra a anunciada presença de mais de duas centenas de pessoas no mesmíssimo local, a pretexto da celebração do 25 de Abril. Praticamente mandando calar o deputado, sob a alegação de que aquele tema não era para tratar ali. Como se entre as competências da segunda figura da hierarquia do Estado estivesse a de fornecer guiões aos deputados para falarem daquilo que ele considere politicamente correcto.

É inaceitável que para o trabalho regular no hemiciclo apenas um quinto das bancadas devam estar preenchidas, alegando-se grave risco sanitário, mas para celebrar o feriado esse risco esmoreça ao ponto de ser expressamente ali autorizada a presença de um terço dos deputados. Com o alto patrocínio do Presidente da República, que há quase um mês se apressou (e bem) a cancelar as cerimónias do 10 de Junho, Dia de Portugal. E no preciso local onde por esmagadora maioria já se autorizou por três vezes um estado de emergência que impõe a clausura compulsiva dos cidadãos e a supressão de vários direitos e liberdades. Incluindo o direito de manifestação, o direito de reunião, o direito de resistência, o direito à greve, a liberdade de circulação, a liberdade de emigração e a liberdade de culto.

Irão suas excelências comparecer de mordaça (perdão, de máscara) e cravo? Eis uma original forma de "celebrar Abril".

Tábuas em vez de livros

por Pedro Correia, em 16.04.20

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Uns preferem rodear-se de livros: parece bem e confere um toque acrescido de autoridade intelectual, verdadeira ou postiça.

Mas há quem opte, também nisto, por vias fracturantes. É o caso desta deputada do Bloco de Esquerda, que mandou os livros às malvas e se fez filmar no interior de uma choupana, sem adereços burgueses nem elementos decorativos indignos da "verdadeira esquerda" - a que tresanda a realismo socialista vintage, o último grito da moda dos loucos anos 30 do século passado.

Assenta-lhe bem este visual: em vez de lombadas, tábuas carcomidas pelo caruncho. Sinal inequívoco de que a revolução está para chegar.

Será racismo? Será misoginia?

por Pedro Correia, em 31.01.20

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O Livre, que foi uma das grandes novidades eleitorais a 6 de Outubro de 2019, aliás celebrada com incontáveis expressões de exultação e júbilo, acaba de perder a sua única deputada na Assembleia da República: Joacine Katar Moreira manterá o lugar no hemiciclo, para o qual foi eleita com toda a legitimidade, mas já sem representar o partido.

A decisão foi tomada por 34 dos 41 membros do chamado Grupo de Contacto - o órgão directivo do Livre - e produz, como consequência imediata, o fim da representação parlamentar do partido, que abdica da deputada, eleita por Lisboa. Um sério revés para o primeiro agrupamento político português que adoptara a introdução de «quotas étnico-raciais» em listas eleitorais.

Subsistem legítimas dúvidas sobre a bondade desta decisão, não faltando quem considere que terá sido meticulosamente orquestrada por gente que recebeu mal a inesperada popularidade de uma deputada capaz de «introduzir diversidade» no Parlamento.

Pertencendo a doutora Katar Moreira, enquanto «presidenta», ao núcleo duro do Instituto da Mulher Negra em Portugal, assumida «entidade anti-racista e feminista interseccional» apostada no combate a quem ouse «retirar ao sujeito negro o lugar de multiplicidade», mais se enraíza em muita gente a convicção de que na origem deste expurgo estarão motivações de índole racista e sexista.

Não será indiferente a tais suspeitas o facto de o fundador do Livre ser homem, caucasiano e agora docente em Harvard - selecto viveiro da classe dominante norte-americana, reduto das elites capitalistas. Já dizia o outro: isto anda tudo ligado.

Solidariedade muito selectiva

por Pedro Correia, em 23.11.19

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A propósito da indignação que ontem aqui expressei pela recusa da Assembleia da República em exprimir solidariedade a Bernardo Silva, jogador titular da selecção nacional injustamente acusado de práticas racistas pela Federação Inglesa de Futebol, recordo alguns votos solidários que o mesmo órgão institucional aprovou num passado nada distante:

- Solidariedade com a operária corticeira Cristina Tavares:

- Solidariedade com os presos políticos sahrauis;

- Solidariedade com os presos políticos palestinos;

- Solidariedade com Cuba, exigindo o fim do bloqueio comercial;

- Solidariedade com a "comunidade trans".

Para que os leitores ajuízem do contraste. Como se os deputados, em vez de representarem todos os portugueses nos termos em que a Constituição da República determina, representassem só alguns.

Azar do Bernardo, não ser operário corticeiro nem membro da "comunidade trans".

Inqualificável

por Pedro Correia, em 22.11.19

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Bernardo Silva e Mendy, companheiros e amigos

 

O PS, indo a reboque do Bloco de Esquerda e da deputada do Livre, recusou exprimir solidariedade na Assembleia da República a um dos melhores jogadores portugueses da actualidade, titular absoluto da selecção nacional de futebol, alvo de uma infame acusação de racismo sem o menor fundamento.

Foi um acto de inqualificável cobardia política dos socialistas, talvez com receio de serem apontados a dedo pelos seus companheiros de estrada.

 

Como há dois meses assinalei aqui, Bernardo Silva - que alinha no Manchester City, acaba de ser eleito melhor médio ofensivo do mundo e tem lugar cativo no onze da equipa das quinas com presença garantida no Europeu de futebol - limitou-se a fazer uma piadola no Twitter com um colega de equipa, que é seu grande amigo. Acontece que este colega, o francês Mendy, tem um tom de pele mais escuro do que a do Bernardo: foi quanto bastou para se levantem clamores histéricos contra o internacional português, acusando-o de racismo.

Uma organização denominada Kick It Out apressou-se a exigir a adopção imediata de medidas punitivas contra o «comportamento ofensivo» do nosso compatriota, pressionando a Federação Inglesa de Futebol. E esta cedeu aos clamores da correcção política: Bernardo foi condenado a um jogo de suspensão, ao pagamento de uma multa de quase 60 mil euros e ao cumprimento de um programa comunitário de educação presencial para o descontaminar do putativo vírus racista.

Sublinhe-se que em momento algum Mendy se mostrou ofendido ou apresentou queixa contra o colega.

 

Hoje, no parlamento, PS, BE e Livre cerraram fileiras, recusando o voto de solidariedade com Bernardo proposto pelo CDS. Vários destes parlamentares - sobretudo os socialistas - adoram acotovelar-se nas tribunas dos estádios em aplausos frenéticos à selecção nacional e farão tudo para conseguirem ver in loco os jogos do Europeu, que se disputam em diversas capitais europeias. Alguns, imagine-se, até são comentadores de futebol na rádio e na televisão.

Felizmente para eles, a hipocrisia justifica reparos morais mas ainda não merece censura penal. Ficam assim dispensados de frequentar programas comunitários e de pagar qualquer multa, ao contrário do talentoso futebolista a quem acabam de negar o voto solidário que se impunha. Convicto como estou que nesta matéria pensam inteiramente como eu: é profundamente injusto e vergonhoso rotular Bernardo Silva de racista.

Enfim, um deputado liberal

por Pedro Correia, em 08.10.19

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Está de parabéns o Carlos Guimarães Pinto. Não foi eleito deputado mas viu a sua Iniciativa Liberal chegar à Assembleia da República logo à primeira tentativa, com um representante por Lisboa. Portugal era até agora o único país europeu sem uma força assumidamente liberal no seu parlamento. Esta lacuna acaba de ser preenchida. Apesar de a IL ter sido ignorada pela generalidade dos órgãos de comunicação social durante a campanha - designadamente pelas televisões, que voltaram a mostrar-se incapazes de seguir novos trilhos informativos, apostando sempre e só nos consagrados.

Tenho grande apreço pelo Carlos, que já escreveu como convidado especial no DELITO DE OPINIÃO e teve a amabilidade de ajudar a promover o nosso livro. Daqui lhe mando um forte e merecido abraço.

Um destes dias Marat ressuscita

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.19

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(foto daqui, da Sábado)

Apesar de estar muito longe, e de hoje em dia raramente escrever sobre o que se passa na política nacional, não posso deixar de dizer duas palavras sobre o indecoroso espectáculo a que me foi dado assistir pela televisão a propósito da visita de um tal de Joe Berardo a uma comissão parlamentar da Assembleia da República.

Confesso que não é fácil encontrar palavras que descrevam o que ali se passou, mas grotesco será o mínimo.

E tudo acontece na mesma semana em que as revistas Sábado e Visão mostraram aos portugueses como é possível a um conjunto de pseudo-empresários, pseudo-banqueiros, gestores incompetentes e devedores relapsos levarem vidas milionárias, depois de terem derretido milhões em negócios ruinosos à custa da banca nacional, pública e privada, não pagando a dívida que geraram e deixando os prejuízos para os outros.

No entanto, a avaliar pelas vidas que levam, todos se fizeram pagar pela criatividade da sua gestão, enquanto lhes foi possível, sendo certo que os prejuízos estão a ser, e continuarão, a ser pagos pelos zés-ninguém que sustentam a gula da máquina fiscal e dos bancos que temos.

A imagem de gozo de Berardo no Parlamento, onde se fez acompanhar por um advogado que fazia de ponto, e ao qual condescendentemente o presidente da Comissão deixou que fosse falando e segredando as respostas que o seu constituinte deveria dar, ultrapassou todos os limites.

Depois, o estilo sobranceiro do depoente, as interjeições que foi fazendo, a risada alarve, as respostas irónicas a questões sérias, denunciavam o chico-esperto que a democracia, o Estado de Direito e os nossos sistemas jurídico e judicial fomentaram em quarenta e cinco anos de liberdade com o aval do poder político e da elite dos banqueiros nacionais.

Com tudo o que ouvi, continuo sem saber o que foi verdade e o que é mentira, e também já não tenho esperança de algum dia vir a saber.  Sei é que a dislexia não impediu o cavalheiro de sacar milhões, de continuar a fugir às notificações e de agora gozar com o pagode. Deputados incluídos.

Porém, houve algo que retive, para além do facto do cavalheiro não ter dívidas pessoais. O modo como depois de tudo o que aconteceu se permitiu dizer que tentou “ajudar” a banca nacional, mantendo nos dias que correm um padrão de vida incompatível com a escassez de bens que refere possuir, é um insulto a qualquer cidadão trabalhador e cumpridor das suas obrigações.

O presidente da "Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco" (só o nome diz tudo) e os senhores deputados podem não chegar a conclusão alguma. Ninguém estranhará depois da triste figura que fizeram e daquilo que nas suas barbas permitiram que acontecesse.

E até poderemos ter mais uma dúzia de comissões, na linha do que se passou com a avioneta que caiu em Camarate, por exemplo, para investigarem a CGD e as negociatas a que este banco se prestou, para que agora os seus depositantes estejam a pagar o ordenado dos senhores deputados e dos supervisores do Banco de Portugal e, ainda, os prémios que a CGD irá continuar a oferecer aos seus administradores pelas asneiras, a irresponsabilidade e a desfaçatez com que gerem o dinheiro dos outros e impõem comissões bancárias sem que quem governa coloque um travão aos sucessivos insultos.

Não obstante, há uma coisa de que todos temos já a certeza: a de que à sombra da liberdade, da democracia e do Estado de Direito, num país envelhecido e em acelerada regressão demográfica, um poder político estruturalmente mal formado e manipulado por partidos ainda mais sofríveis, promoveu o aparecimento e a reprodução de múltiplos Berardos. De muitos “Joe”. Na banca, nos partidos, nos sindicatos, nas empresas, nas escolas, no futebol, nas autarquias, nas forças armadas, nas universidades, em todo o lado e em todas as instituições. Como se tivéssemos sido invadidos por uma espécie de formiga branca semi-analfabeta, bem falante e bem vestida, alimentada pelos contribuintes e protegida pela classe política, pelos banqueiros e pelo Estado de Direito.

Pena é que em vez de terem alimentado a canalhada que nos roubou não tivessem andado a produzir mel para oferecer a ursos. Fizessem deles comendadores. Como fizeram a tantos outros ursos. Num Dez de Junho. Teria saído muito mais barato, ter-se-ia podido proteger a natureza e haveria a certeza de que depois de saciados, estes ursos, mesmo sendo comendadores, não iriam para o Parlamento arrotar o mel, rir-se na nossa cara e fugir calçada abaixo das notificações dos agentes de execução.

Enfim, o importante agora é garantir que o circo possa continuar. Em directo e a cores. Com os colaterais que o fisco se encarregará de periodicamente sacar a todos nós, indistintamente, residentes e emigrados. Sem um ui. Aos que conseguiram ficar e aos que foram empurrados para fora da sua zona de conforto. E que mesmo fora não escapam ao linchamento fiscal vitalício, continuando a cumprir. Até um dia.

O silêncio dos deputados.

por Luís Menezes Leitão, em 11.10.18

Parece que alguns deputados do PSD se andam a queixar de ser silenciados por Fernando Negrão. Mas eles não podem simplesmente pedir a palavra como no "Mr. Smith goes to Washington"?

Deputação

por Pedro Correia, em 20.07.18

A que propósito é que o chamado "núcleo de deputados sportinguistas na Assembleia da República" recebe com pompa o presidente destituído do Sporting Clube de Portugal, no Palácio de São Bento, dando-lhe um crédito que ele não justifica nem merece? Será que os senhores legisladores não têm mesmo mais nada para fazer?

Ética republicana.

por Luís Menezes Leitão, em 29.06.18

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Um exemplo típico da ética republicana é este parecer do parlamento, a dizer que os deputados podem declarar a morada que quiserem para efeitos de receber subsídio de deslocação, que ninguém se vai dar ao trabalho de os fiscalizar. Não me espantaria que a esmagadora maioria dos deputados passasse de repente, em consequência deste parecer, a residir na Ilha do Corvo. O que o país sabe hoje sobre os nossos políticos é apenas isto: que não há limites para a sua falta de vergonha.

Um exemplo de altruísmo.

por Luís Menezes Leitão, em 05.05.18

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Há umas décadas passou na RTP um célebre concurso de talentos, apresentado por Raúl Solnado, que se chamava A Visita da Cornélia, onde os candidatos eram examinados por um júri, cujos membros tomavam frequentemente decisões polémicas. Um desses membros era o escritor Luís de Sttau Monteiro. Um dia informou os telespectadores de que estava a receber uma série de cartas anónimas insultuosas devido às suas decisões no concurso. Disse logo que não iria alterar o seu procedimento, e que se lhe queriam dirigir correspondência, os telespectadores fariam melhor em mandar-lhe bacalhau, que pelo menos era comestível.

 

Apesar de naquele tempo não existirem redes sociais, aquela mensagem no único canal de televisão tornou-se viral e ele foi literalmente bombardeado com envio de encomendas de bacalhau para sua casa, ficando assim com um abastecimento considerável. No programa seguinte exibiu algum do bacalhau que tinha recebido, mas avisou logo que lhe parecia que não era correcto ele ficar com todo aquele bacalhau em virtude de ser membro do júri do concurso. E concluiu: "Por conseguinte, decidi oferecê-lo todo a uma família necessitada: A minha".

 

Foi disto que me lembrei quando vi esta atitude de elevada solidariedade do deputado do Bloco de Esquerda Paulino Ascensão que decidiu doar o dinheiro das viagens que recebeu do Parlamento a favor de uma associação de cujos corpos sociais faz parte. Afinal de contas, se está em causa a solidariedade e o altruísmo, por que razão não se hão de beneficiar os que nos são mais próximos? Assim se consegue o enorme benefício de termos uma solidariedade e altruísmo em circuito fechado. O deputado Paulino Ascensão é um exemplo para toda a nossa classe política.

Uma vergonha

por Pedro Correia, em 04.05.18

Prática inaceitável e vergonhosa revelada em reportagem da RTP: deputados de vários partidos - alguns até residentes a poucos metros da Assembleia da República - recebem ajudas de custo diárias e "abonos de deslocação" por indicarem no Parlamento moradas longínquas como habitação permanente. Enquanto no Tribunal Constitucional deixam evidente que residem em Lisboa.

Parabéns à Sandra Machado Soares pela investigação. Eis um exemplo de bom jornalismo.

Coisas difíceis de perceber

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.04.18

Não, a questão não é apenas a de saber se é legal ou não. É de outra ordem, mas não vou perder mais tempo a repeti-lo. 

E não pode ser colocada nos termos em que ele o faz. Desta forma, está-se apenas a tentar escamotear, sem sucesso, a questão principal. Além de que é perfeitamente irrelevante para o que está em causa que nas duas últimas deslocações o custo tenha sido inferior ao que está fixado por viagem ou que tenha viajado em classe económica.

O problema, como qualquer cidadão de boa fé e minimamente inteligente perceberá, é outro. É o de saber se os subsídios são cumuláveis e se mesmo não se esgotando o valor atribuído para as viagens o deputado tem o direito a encher o bolso com a diferença não utilizada. Isto é, para que todos percebam, com o diferencial do dinheiro que todos os contribuintes deram para uma função muito específica. 

Mesmo que fosse legal, e eu considero que não é, seria sempre ética e moralmente discutível aos olhos de todos que embolsassem a diferença. Isto deveria ser o bastante para nem sequer se atreverem a pedir o parecer. 

Lamento que um indivíduo na posição dele e com as suas responsabilidades não tenha querido compreendê-lo, dando logo o exemplo, e em vez disso tente dar a volta ao prego. Como se as pessoas fossem estúpidas.

Feio, muito feio. Mesmo para quem vê de longe.  

Homenagem.

por Luís Menezes Leitão, em 16.04.18

Quero aqui expressar publicamente a minha homenagem ao deputado Paulino Ascenção. Quando vejo tanta gente envolvida nos maiores escândalos se limitar a dizer que está de consciência tranquila e seguir em frente como se nada se passasse, que haja ao menos um deputado que assume frontalmente as suas responsabilidades e tira a única consequência possível das mesmas: a renúncia ao cargo. Que sirva de exemplo.

Uma vergonha

por Pedro Correia, em 29.10.17

Serei só eu a indignar-me pelo facto de apenas metade dos deputados se encontrarem no hemiciclo quando teve início a sessão parlamentar dedicada ao debate do relatório da comissão técnica independente sobre a tragédia de Pedrógão Grande?

Isto revela quais são afinal as prioridades de suas excelências, os supostos representantes da nação. Confirma o fosso crescente entre eleitores e eleitos em Portugal. E serve para demonstrar, por evidente contraste, que não é por acaso que o Presidente da República se destaca hoje - e a larga distância dos demais - como o político com maior popularidade em Portugal.

Não poupemos nas palavras: a ausência dos deputados num debate tão relevante como este - acompanhado por 30 representantes das famílias das vítimas nas galerias da Assembleia da República - é uma vergonha.

Em política, o que aparece é

por Pedro Correia, em 21.07.16

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Eu gostaria de ver a política imitar o melhor do futebol. Afinal por cá vejo o futebol a imitar o pior da política. Não o futebol jogado, note-se. Refiro-me ao futebol falado. Ultimamente o espaço do comentário futebolístico nas televisões tem sido invadido por dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, numa réplica do espaço habitual do comentário político, hoje parasitado por deputados de todos os partidos.

Tanto os comentadores-dirigentes como os comentadores-deputados são parte interessada em tudo quanto comentam. Cada frase que proferem deve ser entendida no contexto das suas ambições pessoais e das suas legítimas expectativas: a meritocracia em Portugal mede-se pelo número de aparições nos ecrãs televisivos, que funcionam como passaporte automático para patamares cada vez mais elevados.

Na política, nada disto é novo. Em 2002, Emídio Rangel convidou Pedro Santana Lopes e José Sócrates para formar um duo de comentadores na RTP: dois anos depois emergiam ambos como líderes dos dois principais partidos, tendo ascendido à chefia do Governo. Em 2007, pela inefável mão de Pacheco Pereira, António Costa iniciou-se como comentador regular da SIC Notícias: estava lançada a sua candidatura à liderança do PS. Em vez de mergulhar no Tejo, como sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa em 1989, mergulhou na telepolítica. Terá engolido alguns sapos, mas pelo menos evitou engolir salmonelas.

De resto, o percurso do actual Presidente da República, construído essencialmente nas últimas duas décadas como comentador alternado de um canal privado e do canal público, confirma esta estreita ligação entre a ascensão política e os holofotes televisivos. Mas Marcelo é Marcelo - um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.

Algo muito diferente é assistir ao penoso desfile de deputados que marcam os serões televisivos nos canais noticiosos. Com raras excepções, nada mais têm a debitar do que umas solenes vacuidades, confrangedoras na forma e despojadas de conteúdo. Tanto lhes faz, desde que consolidem o território na respectiva trincheira. Podem todos proclamar-se fiéis ao lema dos novos tempos: em política, o que aparece é.

Eu já evito escutá-los - desde logo porque sei tudo quanto dirão ainda antes de abrirem a boca. Mas não cesso de me espantar quando vejo que as televisões abdicam cada vez mais dos seus próprios comentadores para cederem tempo de antena à confraria dos deputados.

Agora está a acontecer algo semelhante no reduto do comentário futebolístico, cada vez mais confiado aos representantes das confrarias dos dirigentes e dos treinadores. Também aqui só quem aparece é. Saiba ou não saiba falar, tenha ou não tenha coisas originais para dizer, saiba distanciar-se ou não de rancores e ódios pessoais que lhe contaminem o discurso.

Um tributo merecido

por Diogo Noivo, em 23.03.16

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Pobreza gera terrorismo. Sempre que somos abalroados por actos de uma brutalidade indizível como os de ontem, há sempre alguém que levanta o braço para dizer que este tipo de violência tem as suas raízes na precariedade, nas desigualdades e, em geral, na pobreza. Desta vez, foi Miguel Tiago, deputado do PCP, a assumir a causa, designando pobreza sob a forma de “política de direita”. O post entretanto foi apagado, o que demoveu o Sérgio de o comentar. Ainda assim, e dado o assunto, acho que se justificam dois ou três apontamentos.

 

Embora recorrente, o argumento que associa pobreza a terrorismo carece de fundamento. Aliás, nunca teve qualquer sustentação. A literatura que aborda o referido lugar-comum é vasta (veja-se, a título de exemplo, estas páginas, estas ou ainda estas) e, como tal, é difícil resumi-la aqui. No entanto, repare-se que os ideólogos e os líderes do jihadismo – Hassan al-Banna, Osama Bin-Laden, Ayman al-Zawahiri, entre outros – são, em regra, oriundos da classe média-alta ou mesmo dos sectores mais privilegiados das sociedades que os viram crescer. Note-se igualmente que muitos dos que executam atentados, por vezes estando até disponíveis para abdicar da própria vida – Mohammed Atta (célula do 11 de Setembro), Umar Farouk Abdulmutallab (underwear bomber), entre outros –, pertencem a estratos socioeconómicos não muito diferentes daqueles que os lideram. Isto para não abordar o óbvio: se existisse um vínculo de causalidade entre terrorismo e miséria, países como o Congo, a África do Sul, Cuba ou a Venezuela seriam viveiros de actividade jihadista. E, para não deixar pontas soltas, se quisermos olhar para o fenómeno através de uma amostra cronológica mais ampla, veremos que organizações terroristas como o Baader Meinhof, a ETA ou as Brigate Rosse tornam ainda mais difícil estabelecer uma ligação entre violência e pobreza (embora a ligação entre extrema-esquerda e terrorismo se torne mais fácil). Abreviando, não há relação entre terrorismo e pobreza.

 

Mas este argumento gasto, para além de infundado, é ainda insultuoso. Dele resulta que em todo o pobre há um terrorista em potência. Talvez alguém tenha explicado isto a Miguel Tiago e, por essa razão, o post tenha desaparecido.

 

Em Teoria Geral da Estupidez Humana, Vítor J. Rodrigues diz-nos que, nos dias de hoje, a estupidez consiste numa resistência estóica à inteligência. Dada a enorme difusão de conhecimento, e a facilidade em aceder a esse conhecimento, a estupidez é produto de um esforço notório. Escreve Vítor J. Rodrigues que “a exuberância dos fenómenos estupidológicos, a sua extrema variedade, a riqueza das suas realizações ou a elegância dos seus refinamentos [esta última parte, evidentemente, não se aplica a Miguel Tiago], tudo nos faz encontrar na estupidez mais, muito mais do que uma vacuidade, uma ausência de inteligência”. Por esta razão, e apenas por esta razão, importa prestar algum tributo a Miguel Tiago.

Evaporou-se?

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.03.16

Logo agora que eu me preparava para entender o "contexto" e comentar, o post desapareceu. Assim não vale, é batota.


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