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Delito à mesa (16)

por Pedro Correia, em 18.05.19

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Num restaurante, o cenário conta muito. No Gilão, contribui imenso para cativar os clientes, encostado ao rio que lhe empresta o nome. Mesmo no centro de Tavira, no recuperado Mercado da Ribeira, dotado de uma ampla esplanada onde é preferível escolher mesa. Porque os olhos também comem.

 

Mas as virtudes desta casa comandada por duas mulheres – Ângelo Botelho, a proprietária, e Cecília Paixão, a chefe da cozinha - estão longe de esgotar-se no panorama.

Aqui é perfeito o cruzamento da tradicional comida algarvia com uma culinária criativa, aberta a novos paladares. Desde logo nas entradas: imperdíveis, as chamuças de cavala em molho de caril e gengibre. Superlativa, a tempura de polvo e mel picante. Mas há mais: camarão em molho de mostarda e laranjas; ceviche de atum e lima em emulsão de manga; empada de pato com redução de Porto e salada de rúcula e laranja.

 

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Tempura de polvo e mel picante

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Lombo de atum com migas de broa e azeitonas

 

Como prato principal, recomenda-se lombo de atum com migas de broa e azeitonas, polvo na frigideira com batata doce ou peito de frango e camarão em molho de caril com arroz de coco. Tudo provado, tudo aprovado. E bem regado, a combater a canícula, com um simpático rosado algarvio, o Barranco Longo.

Também se servem cataplanas (robalo com camarão, por exemplo) e pratos vegetarianos. Nas sobremesas, recomenda-se o cheesecake e a tarte de alfarroba.

Com qualidade garantida tanto nos petiscos que chegam à mesa como no atendimento atento e profissional, este Gilão é um excelente cartaz gastronómico de Tavira. Onde apetece sempre voltar.

 

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Restaurante Gilão

Rua do Cais, Mercado da Ribeira, Loja 2A, Tavira

Telefone 281 322 050

Não encerra

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Delito à mesa (15)

por Pedro Correia, em 27.04.19

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Empadas de galinha, arroz de perdiz, tarte de requeijão: a refeição ideal no lisboeta Salsa & Coentros, onde se presta tributo à cozinha do Alentejo e Trás-os-Montes. Mick Jagger gostou do que aqui comeu.

 

É o melhor restaurante do meu bairro. O bairro de Alvalade, em Lisboa, onde não faltam espaços capazes de satisfazer os palatos mais exigentes. Mas tenho uma especial predilecção por este, a cuja inauguração praticamente assisti. Aqui presta-se tributo à cozinha tradicional portuguesa – sobretudo de inspiração transmontana e alentejana – aliada à arte de bem-receber, cultivada pelo seu proprietário, José Duarte, diplomado pela Escola de Hotelaria de Lisboa e com uma longa experiência anterior na Adega da Tia Matilde, também na capital.

No Salsa & Coentros sinto-me sempre em casa, sobretudo à hora do jantar, quando o ambiente ganha tons familiares e as conversas são ainda mais amenas: percebe-se que tem clientes incapazes de trocá-lo por outro restaurante da zona. No final do Verão, o espaço foi remodelado e adquiriu um toque suplementar de sofisticação.

 

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Empadas de gallinha

 

Mal nos sentamos, somos brindados com acepipes que contribuíram para a boa fama da casa. Favinhas de coentrada, pimentos com coentros, cogumelos de coentrada – e sobretudo as empadas de galinha: ainda não encontrei melhores em Lisboa. Elas contribuem para esta minha longa fidelidade ao restaurante, fundado em 2006, a curta distância do Mercado de Alvalade, na rua em frente aos bombeiros.

 

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Arroz de perdiz

 

Mas aquilo de que mais gosto são os arrozes de caça. Sobretudo o arroz de perdiz, com um toque adequado de vinagre. Nesta época, quando aqui venho, nem preciso de espreitar a ementa: é o prato que peço sempre. 

Feito no momento, demora a chegar à mesa. Mas asseguro que vale a pena esperar. E o apetite pode ser entretido com um apreciável naipe de entradas: recomendo os espargos com ovos ou as migas de batata e ovo.

 

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Empada de perdiz com arroz de grelos

 

Todas as semanas há opções novas em vinhos – em garrafa ou servidos a copo. Na minha mais recente incursão, apreciei um tinto do Douro, Raposeira, colheita de 2015. Acompanha bem outros pratos fixos: empada de bacalhau, pato borracho com arroz malandro ou os suculentos lombinhos de porco preto fritos com pimentão. Sem esquecer a empada de perdiz com arroz de grelos.

 

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Tarte de requeijão

 

Em 2014, Mick Jagger jantou aqui – por sugestão da fadista Ana Moura, sua amiga e cicerone no roteiro gastronómico alfacinha. Consta que saiu satisfeito, desde logo com as favinhas, o que constitui prova inegável de bom gosto. Se não provou a tarte de requeijão, fez mal: é imperdível.

Aviso ao leitor: os dois pisos do restaurante estão sempre cheios. É indispensável fazer marcação prévia, de segunda a sábado, para evitar ir a outro lado. Seria uma pena. 

 

Restaurante Salsa & Coentros

Rua Coronel Marques Leitão, 12, Lisboa.

Telefone 21 841 09 90

Horário: 12.30-15.00, 19.30-23.00. Encerra aos domingos.

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Delito à mesa (14)

por Pedro Correia, em 06.04.19

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Requinte e tradição conjugam-se à mesa, a poucos metros do local onde decorre uma cena fundamental desse monumento do romance português que é Os Maias. Eça haveria de gostar.

 

Não podemos deixar de pensar que pouco metros acima de nós se desenrolou uma cena fulcral do melhor romance português de todos os tempos, Os Maias, quando Carlos é apresentado à fogosa Condessa de Gouvarinho. Eis-nos num dos mais belos recantos de Lisboa, marcado por referências melómanas, ou não estivéssemos no rés-do-chão do Teatro Nacional de São Carlos, e também literárias: no majestoso prédio fronteiro, num 4.º andar, nasceu a 13 de Junho de 1888 um tal Fernando António Nogueira Pessoa, figura cimeira da nossa poesia.

Mas o que hoje aqui nos traz é algo prosaico: comer. Neste Café Lisboa – um dos estabelecimentos com a marca de José Avillez, cada vez mais influente no circuito gourmet do Chiado – tudo é recomendável. O cenário, o ambiente, o serviço, o vinho JA (exclusivo dos restaurantes deste chefe, em produção conjunta com o enólogo e gastrónomo José Bento dos Santos), os preços razoáveis para tão inspiradora localização, no centro cultural e turístico de Lisboa.

Aconselha-se reserva: a oferta de lugares não é escassa, mas a procura abunda. Se o tempo estiver convidativo para tomar um copo para celebrar o fim da tarde, prefira a esplanada. Onde poderá jantar também.

 

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Bacalhau à Brás com azeitonas explosivas

 

Tem muito por onde escolher em matéria comestível, de matriz bem portuguesa.

Nas entradas, por exemplo, tártaro de polvo ou favinhas de coentrada.

Nos pratos principais, bacalhau à Brás com azeitonas explosivas (ou moleculares, segundo a patente registada por Ferran Adrià no mítico El Bulli), bacalhau assado com cebolada, pastéis de Lisboa com arroz de grelos, cachaço de porco com favinhas guisadas e enchidos.

Confesso: o meu preferido é bife de atum com manjericão – servido sobre migas de batatas.

 

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Bife de atum com manjericão

 

Nas sobremesas, queijos vários. Para os mais gulosos, torta de laranja com sorvete de laranja ou toucinho-do-céu de Lisboa com sorvete de framboesa. Ou um simples pastel de nata - outra forma de promover a doçaria nacional e alfacinha.

Para degustar num ritmo compassado, apreciando o panorama circundante e o prazer da companhia. Este Café Lisboa não merece menos.

 

Restaurante Café Lisboa

Largo de São Carlos, 23, Lisboa

Telefone 211 914 498

Horário: do meio-dia à meia-noite, todos os dias

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Delito à mesa (13)

por jpt, em 30.03.19

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O "Ponto de Encontro" é o meu porto de abrigo aqui em Schaerbeek. Por cá a um estabelecimento como este chamam "petite restauration", o que pode esconder muito, até apoucando-o. Por isso prefiro, e muito, tratá-lo pelo nosso antigo termo casa de pasto, o qual deixa antever um local de alimento e estada, convívio.

A gente sabe-o, negócios destes não vivem das "estrelas" dos críticos ou da publicidade. Mas muito dependem dos patrões, de como estes sabem acolher a clientela, vinculá-la. E aqui é mesmo a casa do casal Belchior, o Luís e a Sónia, que muito justificam o "cinco estrelas", pois são gente com muito boa onda. Daquela rara de encontrar. Da qual se gosta não por qualquer atendimento particular, por alguma "atençãozinha" feita, pequeno favor ou informação. Simpatiza-se, e chega. E volta-se no dia seguinte.

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Alentejanos de Elvas, mas o Luís cresceu aqui no bairro (na "comuna") até à adolescência, quando a sua família fez "torna-viagem". Chegada a recente crise, trancada a actividade económica na zona, para cá voltou, num verdadeiro regresso à "origem". E se a história local da imigração portuguesa sempre remete para a praça Flagey, em Ixelles, onde se agregaram os patrícios desde os anos 1960s (por lá está o Fernando Pessoa a simbolizá-lo), desde então que também houve um menos conhecido fluxo alentejano ancorando a Schaerbeek - e tanto que no quarteirão acima está ainda a antiga sede do clube "Campomaiorense", encerrado há um ano. Por isso chegar ao "Ponto de Encontro" é encontrar um núcleo alentejano residente, de elvenses e de campomaiorenses em particular. Desde uns poucos de jovens recém-chegados, ainda quase glabros, até outros bem mais antigos, com meio século de Bruxelas, alguns também veteranos da guerra de Angola, com tanto mundo marchado.

Mas o que é muito significativo, demonstrando a qualidade do serviço e a excelência dos donos, é que tendo aberto o "Ponto de Encontro" em Outubro - antes exploraram um café distante apenas dois quarteirões - a casa não se encerrou na clientela portuguesa. Pois abundam os belgas, tantos deles acotovelando-se para o jogo das setas (o Luís é jogador federado, os jogos do campeonato nacional são constantes). Chegam espanhóis, romenos, ocasionais turcos, há um inglês habitual, e brasileiros, pois claro. É Schaerbeek, é Bruxelas, com a bela marca "Elvas", "Alentejo" mas não nela encerrada. Anima. 

E há a comida. Sim, com a tal marca alentejana. Almoços durante a semana, e também jantares aos fins-de-semana. Nos quais a cozinha é reforçada pela amiga Sandra Madeira, elvense, claro está, imigrada há pouco e que antes explorou restaurantes em Elvas e Borba ("Sabores do Alentejo"). O cardápio é curto e variado, 3 pratos do dia nos sábados e domingos, 2 nos dias úteis. E o sistema é o de preço pelo "menu" (exceptuando a sobremesa).

Aqui partilho a bela memória do almoço de sábado passado:

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A sopa Juliana, que estava como deve-de-ser, e que fora antecipada pela mini Super-Bock e por um apetitoso cacho de azeitonas, que se apresentavam em estado muito meritório.

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O cesto de pão, com legítima manteiga Gresso, aqui acompanhado da até mítica água de Carvalhelhos.

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E o que convocara a atenção, migas com entrecosto. Não me é necessário adjectivar a qualidade do prato. Apenas refiro que os três convivas à mesa não deixaram migalha de migas, e roeram, despudoradamente, todas as fibras do saudado entrecosto. Saciados, com extremo agrado, foi como ficámos. Foi esta parte do repasto acompanhado de vinho da casa, dois copos de tinto Ermelinda Freitas por pessoa.

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Para a sobremesa aportou o não tão regional pudim Molotov, símbolo do acima referido cosmopolitismo da casa. Foi comido com agrado geral.

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E para rematar o café e a aguardente Mosca. A "bica" bem tirada, algo não tão usual assim por estas paragens (e outras). E a água-da-vida bem aprazível. Foi, aliás, repetida.

Preço? Com Molotov à parte - e, pormaior que julgo relevante, a dez minutos pedestres do coração do "bairro europeu", a praça Schuman e sua chusma de restaurantes "italianos", "irlandeses" e quejandos - o "menu" importa em 13 euros.

Em suma, belo repasto, excelente acolhimento, clientela simpática, e preço mais do que acessível. Quereis melhor conselho?

Ponto de Encontro, Av. Dailly, 150, 1030 Bruxelles (encerra às segundas-feiras)

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Delito à mesa (12)

por Pedro Correia, em 16.03.19

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Vai sendo tempo de reabilitar a comida de forno e tacho, para travar o crescente predomínio dos grelhados. É o que sucede neste restaurante situado no centro histórico de Castelo Branco.

 

Tal como o nosso vocabulário comum tem vindo a comprimir-se em proporções assustadoras, tornando-se mais esquemático que nunca, também os nossos gostos alimentares se vão estreitando, sujeitos a modismos de importação e à ditadura dos grelhados. Felizmente há locais como este, capazes de reabilitar a ancestral comida de forno e tacho, que exige vagar, minúcia e requinte culinário – muito mais do que uma chapa quente num fogão para satisfazer clientelas apressadas.

Esta Cabra Preta, inaugurada em 2016 no centro histórico de Castelo Branco, passa com distinção no teste. E assume-se como digna herdeira do encerrado Praça Velha, que durante anos honrou os pergaminhos gastronómicos albicastrenses. Sendo novo, este estabelecimento sabe cultivar a memória, trazendo-nos à mesa a melhor tradição gastronómica beirã.

Aos apreciadores, recomenda-se o serrabulho, recém-premiado em concurso regional. Pode chegar como entrada ou como prato principal, neste caso acompanhado de ovos de cebolada, finas fatias de pão regional, arroz e feijão. Opção alternativa, para entreter o apetite enquanto se aguarda o manjar central, é a tiborna – pão acabado de sair do forno, regado com um fio de azeite e coroado com uma fatia de bom presunto.

 

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Serrabulho: entrada premiada

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Ensopado de veado, ex libris da casa

 

Quem optar pelo arroz de pato não sairá desiludido. Mas o que mais recomendo é o ensopado de veado, um dos cartazes gastronómicos da casa. Sem prescindir, ainda como entrada, dos suculentos cogumelos emporcalhados – salteados em azeite, com pedacinhos e chouriço e lombo, também a evocar-nos refeições de outros tempos. Siga a opção vinícola da casa, em branco ou tinto: Conde Villar, belo vinho alentejano, da Herdade de Penedo Gordo (Borba).

Castelo Branco já merecia um restaurante como este.  

 

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Restaurante Cabra Preta

Rua de Santa Maria, n.º 13, Castelo Branco

Telefone 272 030 303

Horário: 11.30-22.45. Encerra às terças e ao almoço de quarta-feira

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Delito à mesa (11)

por Pedro Correia, em 09.03.19

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Em equipa que ganha não se mexe. A Adega do Chico, em Caminha, entrou na sétima década de vida mantendo o bacalhau da casa como prato emblemático.

 

Há coisas que não mudam. Ir a Caminha, no extremo norte do País, e apreciar o bacalhau à Chico é um prazer antigo sempre renovado. A Adega do Chico chama-se assim por ter sido fundada em 1957 por uma figura bem conhecida na vila, que respondia pela alcunha de Francisco dos Jornais. Era um tasco de características muito populares, que granjeava clientela graças à qualidade da cozinha. Com destaque para o famoso bacalhau, muito bem demolhado e frito em abundante cama de azeite e cebolada, servido com batatas fritas às rodelas. Uma dose do apreciado bicho, pescado em águas islandesas, chega à vontade para duas pessoas.

 

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                   Bacalhau à Chico, confeccionado com a cozinha à vista dos clientes

 

Há 36 anos na mesma família, que adquiriu o estabelecimento ao senhor Francisco, esta acolhedora Adega situada junto ao pano da muralha medieval da vila soube cultivar as características originais, conservando o caldo verde e o bacalhau como cartões de visita. As alternativas são escassas, mas suculentas: arroz do mar à chefe, robalo à marinheira, polvo cozido, cabrito à Serra de Arga. Tudo confeccionado pela cozinheira Elsa, sempre de acordo com a matriz original. Para acompanhar, e visto estarmos em zona de vinho verde, nada melhor do que um branco de Ponte de Lima.

 

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Também no exterior, a paisagem do passado ecoa no presente: a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d' Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, já na Galiza. Apetece sempre regressar, a caminho de Caminha. 

 

Adega do Chico

Rua Visconde Sousa Rego, n.º 30, Caminha.

Telefone 258 921 781.

Horário: 12.00-15.00, 19.00-22.00. Encerra às quintas.

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Delito à mesa (10)

por Pedro Correia, em 02.03.19

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Há restaurantes que nos conquistam à primeira. É o caso deste, situado num espaço rural, a escassos quilómetros de Alcobaça, na saída para norte.

 

Estamos num cenário de quinta. Real, não encenada. Há cavalos, cabras, cães, muitas flores. No topo de um cabeço, para fazer jus ao nome do restaurante. Com um panorama deslumbrante sobre a cidade que alberga o mais célebre mosteiro cisterciense português.

Conjugar a envolvência rústica com um inesperado requinte de cozinha de autor é o segredo deste restaurante, inaugurado em 2011 por um casal, Evelina e Pedro João. Viviam-se tempos de crise, a clientela escasseava, estiveram quase a fechar portas. Mas o esforço e a persistência recompensaram: hoje é raro o dia em que não têm as duas salas cheias. Convém fazer reservas, de terça a sábado. O Cabeço encerra aos domingos e segundas: este é o único defeito que lhe encontro.

 

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Folhado de queijo de cabra e croquetes de farinheira

 

Também se recomenda muito apetite. Desde logo para as entradinhas – folhado de queijo de cabra, croquetes de farinheira, patês variados. Fuja aos lugares-comuns: se quer frango na púcara, prato típico da região de Alcobaça, tem alternativas na própria cidade. Opte pela originalidade, este é o sítio certo. Sem fugir às raízes portuguesas.

 

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Bife de atum braseado com escabeche de maracujá

20180922_131538-1.jpgStrudel de pato com cogumelos

 

Algumas sugestões: cataplana de polvo, camarão frito à Cabeço, risoto de polvo, camarão e cogumelos, coxa de pato confitada com cogumelos salteados. Para mim, elejo bife de atum braseado, com escabeche de maracujá, juliana de legumes e esmagado de batata doce (peixe) ou strudel de pato com cogumelos (carne). Há menu infantil e opções vegetarianas. Vinho? Um Dorna Velha, da Quinta do Silva (Douro), branco, passou com distinção.

O atendimento é cordial: sentimo-nos em casa. Enquanto comemos, espraiamos o olhar pela magnífica paisagem circundante: um cenário relaxante, apaziguador. E apetece voltar, uma vez e outra.

 

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Restaurante O Cabeço

Rua D. Elvina Machado, 65, Bemposta, Alcobaça.

Telefone 914  500 202.

Horário: 12.30-14.00, 19.30-22.00. Encerra aos domingos e segundas.

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Delito à mesa (9)

por Pedro Correia, em 23.02.19

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Quem gosta de comer com o pé no acelerador deve escolher outro poiso. No Dom Joaquim, hoje o melhor restaurante de Évora, a gastronomia aprecia-se com um ritmo propício à digestão e à verdadeira sabedoria. Que nos manda seguir devagar para chegar longe.

 

Évora é uma das cidades portuguesas onde mais se honra a excelência das nossas tradições gastronómicas. E o melhor restaurante da bela capital alentejana, que nunca cessa de nos deslumbrar pela sua beleza paisagística e pelo vigor que mantém na defesa do seu rasto cultural, é o Dom Joaquim, inaugurado em 2007 e assim denominado em alusão ao chefe Joaquim Almeida, comandante destas navegações gastronómicas de longo curso. Um restaurante situado dentro das muralhas da cidade, a dois passos do histórico Largo das Alterações, onde em 1637 se produziu o primeiro levantamento popular contra o invasor castelhano, em antecipação da independência que viria a ser recuperada três anos depois.

Honrar os pergaminhos culinários do Alto Alentejo, reabilitando a comida de tacho e forno tantas vezes desprezada nestes tempos em que se come de pé no acelerador e se recorre com exagerada frequência aos congelados, é um dos nobres propósitos desta casa. Quem aqui vem, não espere velocidades: há que saborear bem, no seu devido tempo, cada prato que chega à mesa. Também não espere “cozinha de fusão” nem outras modernices: aqui a prioridade é cultivar os valores ancestrais da gastronomia transtagana. Com uma palavra amável para o cliente, que pode já ser ou vir a tornar-se um amigo: no Alentejo, comer, conversar e conviver são verbos de parentesco muito próximo.

Sugestão a abrir: se quer conseguir lugar, é imprescindível reservar mesa. A sala é espaçosa, além de bem decorada, mas acaba quase sempre por encher.

 

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Coelho à São Cristóvão

 

Para inaugurar a refeição, recomenda-se ovos mexidos com espargos verdes, cogumelos de coentrada, ovos de codorniz de vinagrete ou coelho à São Cristóvão – sendo este desossado e desfiado após levado a assar, e depois temperado com azeite em abundância, vinagre, alhos picados e coentros.

 

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Migas de espargos com carne de porco

 

Feitas as apresentações, rumemos aos pratos principais. Se apostar na tradição, não se arrependerá. E aqui tradição rima com sopa de cação. Mas também com arroz de lebre malandrinho, borrego assado no forno com batatinhas a murro, migas de espargos verdes com carne de porco do alguidar. Pode também optar por aquele que para alguns comensais mais regulares se tornou o ex-libris da casa: bochecha de porco assada em vinho tinto acompanhada de puré de maçã. Ou por outra emblemática criação do chefe: almofada de porco preto – uma generosa empada com borrego, leitão, bacalhau ou caça que chega à vontade para duas pessoas.

Se é incapaz de rematar uma refeição sem ceder à tentação da sobremesa, seguem duas sugestões: pudim de água de prata ou bolo de chocolate com aguardente vínica e frutos secos. Além da doçaria mais tradicional da região, nunca aqui com falta de comparência.

 

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Javali estufado

 

À margem da ementa fixa, aguarde que lhe transmitam as novidades gastronómicas da semana: aqui a rotina não rouba lugar ao imprevisto. No Dom Joaquim, por exemplo, comi o melhor javali estufado que guardo na memória. Regado com um tinto alentejano proveniente da abundante adega da casa. Aconselho o Bojador, que superou com distinção a prova.

Tudo com o requinte prévio da travessa em vez de chegar já empratado da cozinha, contrariando uma péssima tendência agora em voga. Tudo em porções generosas, que convidam à partilha. Porque essa é outra tradição a honrar e preservar neste Alentejo que tem memória.

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Restaurante Dom Joaquim                                                                                          

Rua dos Penedos, n.º 6, Évora.

Telefone 266 731 105.

Horário: 12.00-15.00, 19.00-22.45. Encerra aos jantares de domingo e às segundas.

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Delito à mesa (8)

por Pedro Correia, em 17.02.19

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O centenário Faz Frio foi recuperado sem perder as características que lhe deram fama. Assim se evitou o óbito de outro histórico restaurante de Lisboa.

 

Eis a boa notícia: o restaurante Faz Frio, na zona do Príncipe Real, em Lisboa, reabriu as portas. De cara lavada, com um toque renovado na decoração, mas mantendo a traça original, incluindo as salinhas interiores características de uma época cada vez mais dissolvida na memória dos alfacinhas.

Quem conhecia a Antiga Casa Faz Frio, encerrada em 2017, receou o pior. Felizmente, o centenário estabelecimento não veio acumular as negras estatísticas necrológicas da capital, que tem visto desaparecer vários restaurantes que levaram consigo inumeráveis histórias narradas por sucessivas gerações de clientes.

É bom saber também que reabriu com qualidade renovada, a preços comportáveis, com serviço competente e uma ementa que, sendo escassa, não descura o bom casamento entre modernidade e tradição. Sempre com uma sugestão diária. Na semana em que lá passei, os destaques eram estes: arroz de polvo, açorda de bacalhau, arroz de carnes fumadas, entrecosto com ervilhas, bacalhau à Assis, pastéis de massa tenra com arroz de feijão.

 

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Peixe assado com puré de cebola

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Cachaço de porco preto com xerém de amêijoas

 

O menu fixo deste remoçado Faz Frio, assumidamente, «troca as voltas ao passado», dando realce aos sabores sazonais de cada época. Agora, por exemplo, experimenta-se ali peixe assado com puré de cebola ou cachaço de porco preto com xerém de amêijoas. Bacalhau, em diversos formatos, há todos os dias. E pelo menos um prato vegetariano. Vinho a copo, com opções variadas. A rematar, arroz doce com creme de canela ou musse de chocolate 70% com abóbora, laranja e amêndoa.

Saúde-se a proeza: novos artífices honrando sabores antigos.

 

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Musse de chocolate 70% com abóbora, laranja e amêndoa

 

Rua D. Pedro V, 96, 1250-091 Lisboa

Telefone: 21 581 42 96

Horário: do meio-dia à meia-noite. Encerra às segundas.

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Delito à mesa

por Pedro Correia, em 17.02.19

Só para avisar que vou recuperar, a partir de hoje, a série que leva este nome, lançada há quase sete anos no DELITO DE OPINIÃO pela Ana Vidal e prosseguida por alguns de nós, incluindo por mim, com um texto que só agora tem sequência porque entretanto a vida dá muitas voltas e outras prioridades foram acontecendo.

Fica aqui o aviso - em jeito de teaser, como agora se diz em "português técnico" - e a lembrança dos restaurantes anteriormente mencionados. Sendo esta uma secção de autoria colectiva, permanece aberta a qualquer colega de blogue que nela queira participar. Até porque, felizmente, bons restaurantes de todos os géneros não faltam em qualquer recanto deste nosso doce país e deste vasto espaço comunitário onde hoje nos integramos.

Mariana (Afife, Viana do Castelo)

Tapadão (Monforte)

Golfinho Azul  (Ericeira, Mafra)

Chiringuito (Lisboa)

Eira do Mel (Vila do Bispo)

Zé Manel dos Ossos (Coimbra)

 

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Flagrante Delito com estreantes à mistura

por João Pedro Pimenta, em 24.04.18

Aos dezanove dias do corrente do ano da Graça de 2018, os membros do Delito reuniram-se em ambiente de obscura conspiração, em forma de um jantar no clássico e luminoso Café Império, sempre resistente aos chamamentos da vizinha igreja que se assenhoreou do ex-cinema o mesmo nome. O pretexto era a possibilidade de alguns membros da confraria se puderem estrear nestas conspirações imperiais, pelo que parte dos membros não pôde vir. Ainda assim, e com a anunciada vinda do João André dos Países Baixos, do José Pimentel Teixeira desembarcado há já uns tempos de Moçambique e dos escritor destas linhas quase directamente vindo do Porto, a coisa realizou-se.

 

Devo dizer que fui dos últimos a chegar e o primeiro a ir embora, por inadiável compromisso. Mas aquele convívio permitiu que em poucas horas se estabelecesse uma data de conversas, de uma incrível diversidade, que se cruzavam entre elas tornando difícil seguir uma e outra. Os escritos dos membros do Delito não são prosa para impressionar o leitor com o seu incrível conhecimento geral dos factos, mas produtos de reflexão, conversa e troca de impressões várias, como se podia comprovar ao vivo. 

 

Assim, e entre a chegada dos bifes da vazia (com maioria qualificada) e das cervejas que constantemente arribavam à mesa, falou-se na experiência na blogosfera e nos nossos fieis comentadores, aos quais qualquer dia teremos de endereçar convites para um convívio, caso queiram (pôs-se a possibilidade de alguns serem criações do Pedro Correia para estender e melhorar o nível de conflituosidade nos comentários); de como nos mantemos resilientes apesar do domínio das redes sociais; do início dos blogues e de como em determinadas situações foram trampolins para um maior mediatismo; de casos de perseguição obsessiva (stalking, não é?), incluindo o conhecimento do nosso paradeiro; mencionaram-se antigos jovens assistentes universitários e as suas actuais ambições políticas; falou-se de bola, com maioria leonina, e apostou-se em Jesus para substituto de Wenger no Arsenal.

 

Do lado onde me encontrava ouvi sobretudo as recentes impressões de Roma (algo desiludidas) do José Bandeira, ao qual asseguraram que Nápoles estava muito melhor que a capital, e dos mais harmoniosos percursos pela Toscana; as recordações de buscas arqueológicas da Ana Cláudia, com a velha discussão dos mármores do Pártenon levados por Lord Elgin e da defesa da civilização ocidental logo assumida pelo José Teixeira. Ressoaram também as opiniões jurídica abalizadas do Luís Menezes Leitão e as suas memórias de viagem ao gelo da Rússia, o percurso de vida do João André, que pelo meio o levou ao Delito, e de novo a defesa da civilização agora pelo José Navarro de Andrade. A distância  e os obstáculos sonoros ainda me impediram de ouvir melhor o Luís Naves e a Teresa Ribeiro. O Pedro coordenava o jantar e distribuía assuntos de conversa. Eu tentava ouvir um pouco de tudo e limitava-me a lançar algumas opiniões, na esperança de que tivessem algum impacto.

 

Ainda houve tempo para admirarmos, em primeira mão, e nas nossas mãos, o novo opus do Pedro - 2017 - As Frases do Ano - antes do lançamento oficial e que é um apanhado exaustivo e divertido de tudo quanto se disse no ano passado, arrumado de forma cronológica. Para a coisa ser melhor, faltou apenas o livro do próprio do Delito, que deve estar por dias.

 

Como disse atrás, tive de sair mais cedo do que seria desejável, ao mesmo tempo que o Luís. Não posso descrever o fim da conspiração, sendo certo que teria certamente valido a pena continuar caso pudesse. A desforra ficará para próxima reunião, previsivelmente à hora de jantar.

 

Jantar Delito Abr.2018.jpg

 

PS: a fotografia já tinha sido revelada antes, bem sei, mas além de não ter outra, acho que vale a pena ser exibida novamente. Os membros do Delito merecem-no.

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Delito à mesa (7)

por João André, em 03.01.17

Confesso que há muito que não tenho o hábito de ir a restaurantes. Sempre gostei de o fazer com amigos mas afazeres profissionais, ter saído de Portugal e ter por perto menos dos amigos com quem gosto de partilhar estes momentos, além da vida familiar que por vezes torna difícil a ida a restaurantes, tudo isto tem conspirado para que eu não tenha renovado os meus hábitos comensais públicos. Na falta dos mesmos, recorro a um hábito já antigo a que volto sempre que posso (ou por lá passo).

 

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O Zé Manel dos Ossos é uma instituição de Coimbra onde não há café no final da refeição, o vinho vem à escolha de branco ou tinto, copo ou jarro (garrafa também pode ser), as paredes estão escarrapachadas de papéis de toalha de mesa escrevinhados com saudações, poemas ou outras inspirações de rotundas barrigas, a fila à entrada pode ir dos 20 minutos à hora e meia para quem chega depois das 7 da noite e o espaço dá para uma meia dúzia de mesas e pouco mais. Quem quiser sofisticação e estilo bem pode ir a outro lado.

 

Conta a lenda que tudo começou quando o Sr. Zé Manel começou a recolher os ossos de um talho ao lado e a cozinhá-los com umas ervas, sal e outros truques que só serão transmissíveis em quintas-feiras de lua cheia depois de sacrificar um gato, um lagarto e um javali aos diversos deuses da gula nos intermináveis panteões da história universal. Facto é que os ossos, além do nome, dão o carácter ao restaurante. A maioria dos pratos incluem ossos de uma forma ou outra, mas os ossos a sério, aqueles que se pedem sem dizer nada mais além do número de convivas, esses são motivo só por si para uma espera de uma hora num beco de Coimbra aos 35 °C de uma noite de Verão.

 

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Os preços (além da qualidade) tornam o restaurante obrigatório entre estudantes, mas não se pense que enchem o espaço e o tornam impossivelmente "académico". Os simples factos de ser necessário enfrentar filas para entrar depois das 7 e meia da noite (ou tarde, depende da altura do ano), de se situar na Baixa (e fora dos circuitos habituais da Universidade) conspiram para controlar o fluxo de clientela e permitir que qualquer pessoa se sinta em casa. Uma vez dentro, há sempre o risco de o calor ser altíssimo e o espaço exíguo. Mas vale a pena aguentar tudo.

 

A melhor escolha inicial é dizer que se quer ossos. O empregado decide quanto vai trazer em função dos convivas à mesa (esqueçam as noções de doses se ali entram) e é possível ter tempo para decidir o que se vai comer. Mais uma vez, o ideal é escolher uma selecção de pratos e deixar que as quantidades fiquem à escolha da casa. Pessoalmente vou sempre pelas barriguinhas ou costeletas com arroz de feijão ou pela feijoada de javali. O vinho é despretensioso mas costuma ir muito bem com a comida e o ambiente.

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Não há pressão para se sair da mesa, apesar da fila que existe à porta. Há sempre contudo a oferta de mais bebidas, como que a lembrar-nos para consumirmos um pouco mais. Mas sem verdadeira pressão: a simpatia esteve sempre presente. No final não há café. A máquina ocupa espaço e, na realidade, ninguém lá vai para isso. E beber um café poderia ter o mesmo efeito que a folhinha de menta em The Meaning of Life.

 

A melhor demonstração do restaurante ocorreu quando um dia tive um jantar com os elementos de uma banda americana (que tinham dado um concerto organizado pela Ru( na noite anterior). Nesse dia alguns dos elementos da banda dormiram tarde e almoçaram já perto das seis da tarde. Vontade de jantar: perto de zero. Umas horas mais tarde tinham-se deliciado com a comida e iam rebolando alegremente para o hotel. Passados uns anos um amigo reencontrou um deles e foi imediatamente reconhecido com as palavras: «os ossos!».

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Resumindo: a visita ao Zé Manel dos Ossos vale sempre a pena. Sem pressas e com espaço no estômago. E escritas estas linhas, estou com vontade de marcar uma viagem a Coimbra para breve.

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Delito à Mesa (6)

por Francisca Prieto, em 08.12.16

Vai para uns quantos anos que, quando chega Agosto, enfio os malotes no carro e trato do exílio familiar para a Costa Vicentina.

Gastronomicamente falando, o mês é intercalado por cachorros quentes na praia e, à noite, peixe escalado, do fresquíssimo, ali pescado por gente local. Acrescenta-se com frequência pratadas de percebes (ou perceves, consoante a corrente) e um ou outro churrasco caseiro, quando aparece um habilidoso capaz de dominar a labareda.

Há porém o dia da rebeldia. Várias famílias de amigos deixam os filhos ao abandono e marca-se uma mesa de estadão na Eira do Mel, o respeitado estabelecimento de restauração, sito em Vila do Bispo.

Assim que chegamos, começa o choradinho do “Leite Queimado”, uma rara iguaria, servida à sobremesa, que só há de vez em quando e que, quando há, acaba logo na primeira ronda de clientela. O objectivo primordial é assegurar, à partida, umas quantas doses que permitam acabar o jantar em beleza.

A Eira do Mel proclama-se como um restaurante de Slow Food e faz jus ao que promete, o que quer dizer que leva uma eternidade a servir uma mesa do tamanho da nossa. De maneira que, invariavelmente, vão chegando várias garrafas de vinho até que se consiga ferrar o dente nas entradas. Na altura de apreciarmos os magníficos ovos mexidos com morcela ou o camarão mergulhado em molho fenomenal, já soaram as primeiras gargalhadas guturais que ditam o tom para o resto da refeição.

Das entradas ao prato principal decorre mais um período de tempo considerável. Tanto, que dava para assistir a uma prova do Grande Prémio, com a parte da subida ao podium e tudo. Mas nós não reclamamos porque, para além de continuarmos entretidos nas degustações vinícolas, sabemos o que lá vem: uma cataplana de polvo com batata doce de fazer chorar qualquer coração mais empedernido.

Só por causa desta cataplana, a Michelin devia deixar-se de mariquices e atribuir cinco estrelas ao Chef José Pinheiro.

E é assim que, já com um par de grãos na asa, os convivas contam e recontam vezes a fio as mesmas histórias dos velhos tempos de Sagres, enquanto perdoam a longa espera e molham pão saloio no molho da panela.

No final, se há Leite Queimado assegurado, manda-se servir para acompanhar uns copitos de medronho, daqueles que não se devem beber sozinhos.

No dia a seguir há lamentos na praia, mas todos concordamos que o ritual se há-de voltar a cumprir. Afinal, temos doze meses para recuperar da epopeia.

 

Eira do mel.jpg

 

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Delito à Mesa (5)

por Isabel Mouzinho, em 26.11.16

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Chiringuito 

 

Em espanhol designa um bar de praia, lugar de bebidas frescas e comidas simples e rápidas. Nada a ver, portanto, com este lugar lisboeta que aqui menciono. O que o Chiringuito tem de especial é a conjugação feliz de diversos factores:

O espaço, em primeiro lugar. São duas salas distintas, ambas arranjadas com cuidado e extremo bom gosto, num lugar que  antes funcionara como padaria. A sala que fica junto da rua tem uma decoração ligeiramente  mais informal, enquanto a segunda, mais espaçosa e conhecida como "a fábrica" ainda em alusão ao anterior espaço da padaria, com móveis antigos e louças do tempo das nossas avós, conjuga na perfeição o antigo e o moderno e faz lembrar a sala de jantar de uma família numerosa.

Depois, há a comida propriamente dita, entre o tradicional, alentejano e o espanhol andaluz, que é muito o leitmotiv do conceito subjacente e faz deste restaurante um espaço profundamente ibérico, misto de casa de petiscos e bar de tapas, como de resto é designado.

Das entradas às sobremesas, é tudo de "comer e chorar por mais", numa carta onde se podem encontrar algumas especialidades típicas de ambos os lados da fronteira: há as "puntillitas" e os "tintos de verano", os secretos de porco preto e os peixinhos da horta, as "patatas ali oli" e  as farófias, entre muitas outras delícias, em clara e subtil demonstração de que é muito mais o que nos aproxima do que o que nos distingue.

A acrescentar a tudo isto há ainda os preços muitíssimos acessíveis e a simpatia com que somos recebidos. O Chiringuito é um negócio familiar e isso sente-se no trato e no ambiente que se respira. No fundo, é quase como se jantássemos na sala da casa de uns amigos. Por isso saímos  claramente satisfeitos e com vontade de voltar muitas vezes.

Falta dizer que fica em Campo de Ourique, na rua Correia Teles, e que ao Domingo há  buffet de cozido ao almoço. 

Por fim, tenho que fazer uma confissão: é que posso ser considerada relativamente suspeita, uma vez que tenho pela família que está à frente do Chiringuito grande consideração e um afecto profundo, que é já antigo.

Mas estive em várias ocasiões no restaurante e quem me acompanhava, de todas as vezes, gostou tanto como eu. Este é pois, por agora, um dos meus lugares favoritos de Lisboa para estar à volta de uma mesa, com amigos, em ambiente agradável e descontraído, o que constitui, quanto a mim, um dos maiores prazeres da vida.

Ora vejam as fotografias... E depois passem por lá para comprovar se eu tenho ou não razão...

 

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Delito à mesa (4)

por Pedro Correia, em 22.11.16

Gosto de entrar em restaurantes onde já sou conhecido e sabem de antemão o que irão trazer-me para a mesa sem eu ter necessidade de consultar a ementa.

É como se fizesse parte da família alargada desses estabelecimentos, onde um cliente nunca deixa de ser bem tratado mas os habitués justificam um toque suplementar de atenção.

 

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 Solar dos Presuntos: a melhor 'paella' de Lisboa

 

Acontece-me, desde logo, no Solar dos Presuntos. Há anos que vou lá comer sempre o mesmo prato: a melhor paella de Lisboa. Sempre acompanhada por um excelente Alvarinho, o Portal do Fidalgo. Antes de me sentar, já qualquer membro da diligente equipa de empregados bem orientada pelo maestro Pedro Cardoso sabe qual será a minha opção, sólida e líquida.

O mesmo sucede no Nova Goa, onde mantenho fidelidade ao sarapatel. Sebastião Fernandes – proprietário, anfitrião e uma das figuras mais carismáticas da restauração lisboeta – nunca precisa de me estender o menu. Nem eu preciso de lhe dizer o que me apetece mastigar.

Sinto-me lá sempre em casa. Tal como no Salsa & Coentros, que frequento desde a abertura, e onde a escolha quase invariável é o arroz de perdiz – que já não necessito de encomendar. José Duarte, patrão e timoneiro deste simpático restaurante, bem sabe qual será a minha escolha.

Ali perto, no Mercado de Alvalade, quando me sento à mesa sei que virá o inconfundível balchão de camarão – acompanhado por um jarrinho de branco da Casa Ermelinda Freitas, uma das melhores relações preço-qualidade dos vinhos portugueses. Deixaram há muito de perguntar, deixei há muito de pedir.

Acontece o mesmo no Comilão. Secundino Cardoso, alma deste marco na arte de bem refeiçoar em Campo de Ourique, sabe o que ali procuro quase invariavelmente: o admirável arroz de pato, que tenho comido mesmo quando não consta da ementa.

 

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 Conventual: uma saudade

 

Foram-se os tempos do Conventual, que chegou a ter o melhor cozido à portuguesa de Lisboa, e do antigo Coelho da Rocha, onde rumei durante anos em busca da empada de lebre: ainda não me apeteceu regressar com a nova gerência.

Já não existe o Múni, na Rua dos Correeiros, onde o bacalhau à Gomes de Sá era imbatível.

No Bairro Alto deixou de morar o Pap’ Açorda, meu destino invariável quando me apetecia matar saudades dos incomparáveis pastéis de massa tenra. Espreitei o sucedâneo recém-inaugurado, ao Cais do Sodré, mas não fiquei cliente: pareceu-me presumido em excesso. Com doses demasiado minguadas a preços exageradamente robustos.

Os preços nada convidativos afastaram-me de outros poisos gastronómicos da capital que frequentei em tempos idos. Mas lembro ainda com um fio de nostalgia o bife tártaro do XL e a raia no vapor com alcaparras d' A Travessa.

 

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 Via Graça: os olhos também comem

 

Uns partem, outros chegam.

Por estes dias vou abancando no Ibo (lombinhos de peixe em molho de coco e coentros com puré de mandioca e batata doce) ou no Jesus É Goês (magnífico camarão recheado, imbatível nas rotas gastronómicas da capital). Nunca deixo de recomendar a piazza diavola do Come Prima. E revisito clássicos, como a Adega da Tia Matilde (arroz de frango), o Solar dos Nunes (arroz de lebre), o Poleiro (vitela barrosã no forno com arroz de salpicão) ou o velho-novo Via Graça, de onde se desfruta uma das vistas mais soberbas da capital.

De uns e outros tenciono falar aqui, nos meses mais próximos, recuperando uma série iniciada no DELITO por colegas como a Ana Vidal e o José Navarro de Andrade. Uma série que saberá ainda melhor se reflectir o saudável espírito colectivo que sempre cultivámos. As boas tradições devem manter-se.

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Flagrante Delito

por Isabel Mouzinho, em 24.05.15

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Julgo que este terá sido o oitavo encontro do DO. Para mim foi o primeiro. E por ser a "caloira" coube-me, como é da praxe, a complicada e aliciante tarefa de o pôr em palavras. Mas eu gosto do que é difícil.

Começo pelo fim: o que à partida parecia ter um certo toque de "encontro às cegas", acabou por ser na verdade um encontro de amigos. E é isto que torna a blogosfera fascinante: conhecemo-nos  pelas palavras antes de sabermos que cara têm, ou como soam as vozes e os risos de pessoas que nos habituamos a ler, com quem rimos ou sorrimos, pensamos, nos emocionamos e surpreendemos, concordamos ou discordamos, aprendemos, numa teia de encantos e cumplicidades criada entre gente das mais diversas proveniências, idades, áreas profissionais, interesses, e de quem sabemos muito pouco, ou quase nada. Afeiçoamo-nos devagar a pessoas que nunca vimos, que conhecemos sem conhecer,  e percebemos que é possível, ainda assim, criar laços, sintonias e afectos. É a escrita que nos aproxima. E quando finalmente nos encontramos, parece que já nos conhecemos há muito.

Foi mais menos o que se passou comigo. De uma vez só, conheci "em carne e osso" meio DELITO.  

A Patrícia e a sua encantadora família, que os espanhóis designariam como muito "entrañable", receberam-nos de portas e braços abertos e isso foi grande parte do sucesso da soirée, na qual se comeu e bebeu divinamente, em ambiente descontraído como sempre acontece quando um grupo de amigos se junta à volta de uma mesa e se "perde" em longas conversas cruzadas sobre tudo e mais alguma coisa. 

Falámos muito, rimo-nos muito, e no fim não podia faltar a habitual fotografia, a provar que foi tudo verdade.

Para a história desta animada reunião ficarão naturalmente o prato "à Brás, mas sem bacalhau" da Patrícia e do Elvis, elogiadíssimo por todos, o delicioso pudim de queijo  da Serra da Teresa, a tarte de framboesas da Ana, o bolo da Francisca, que parece ser já uma tradição, e a mousse de chocolate do Luís Naves, apurada com extremo requinte. E havia mais, muito mais, mas não consegui experimentar tudo.

Depois houve também tudo o que eu não sei dizer e que é a melhor parte: as vozes, os risos, as piadas, a alegria de estarmos juntos e podermos olhar-nos, as cumplicidades;  e os abraços à despedida, com a promessa de voltar.

Para a metade que não veio fica um recado: nem sabem o que perderam. E agora a boa notícia: Vai haver mais!  E o  próximo encontro já se anuncia para breve, lá pelo início do Verão.

Por mim, é um prazer e uma honra integrar o DO, e uma felicidade conhecer tantas pessoas encantadoras que a blogosfera tem trazido à minha vida e que, aos poucos, se vão tornando amigos novos. 

Balanço final: suculento repasto e muito boa companhia. Uma noite em cheio. E a vontade de repetir. Muitas vezes!...

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Peixe ao sal (14)

por Helena Sacadura Cabral, em 04.09.14
Ingredientes
1,300 kg de peixe 
2 kg de sal.
5 claras batidas em castelo.
50 gr farinha trigo. 
Preparação
Amasse a farinha, com as claras e o sal até fazer uma papa.
Forre, com papel alumínio, um pirex ou assadeira. Faça uma cama a papa de sal, coloque o peixe por cima, (lavado, mas ainda com as escamas). Tape a abertura por onde se retiraram as tripas com papel alumínio e cubra o peixe com o restante mistura de sal. 
Leve ao forno médio por cerca de 1 hora.

Na altura de servir, parta o sal que, fica duro, com cuidado para não danificar o peixe. Retire-lhe a pele. Por norma acompanho com batatinhas cozidas envoltas em maionese e polvilhadas com pimenta, cebolinho cortado e oregãos e com couve flor.

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Delito à Mesa

por Francisca Prieto, em 28.06.14
 
Hoje foi dia de tertúlia no estrangeiro da Ana Vidal. A meia hora de Lisboa, almoçaram os membros do Delito, quais Lordes Byron, numa faustosa varanda escondida por vasos de hortenses. Ficámos para ali noutro meridiano, em amena cavaqueira, enquanto nos fomos servindo de extraordinárias vitualhas que incluíram um escabeche de pato coroado com raspas de laranja, praliné de citrinos a cavalo numa salada, aspic de tomate à chef Navarro e, meu Deus, uma selecção de sobremesas de fazer saltar as papilas gustativas.

A gastronomia foi, por estas e por outras, o tema dominante da tarde, embora também se tenham abordado assuntos menores tais como o estado da nação, a situação económica mundial e o mistério das conquistas amorosas de Hollande.

Mais para a tardinha, num momento de descontrolo, uma facção da mesa defendia a necessidade de se criar um partido composto pelos políticos de maior sex appeal do país (um critério como outro qualquer), enquanto do outro lado alguém confessava uma velha fraqueza por Cristiano Ronaldo, agarrando com veemência o pescoço e proferindo que “aquele rapaz, daqui para baixo, é um monumento”. Mas a decência rapidamente regressou à mesa, para se discutir ética jornalística, dobragens de filmes estrangeiros e até poesia.

Esteve-se tão bem nesta família que foi a custo que nos arrastámos porta fora para regressar ao azimute de origem. Eternamente gratos à Ana pela trabalheira de nos receber em sua casa.

 

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Primeiro convívio de 2014

por Joana Nave, em 27.01.14

 

Chamo-lhe 1º Convívio do Ano 2014, porque estou certa que há-de haver muitos mais. Conviver é uma necessidade do ser humano, pois quando o fazemos sentimo-nos mais integrados, mais alegres e inspirados para enfrentar os dias solitários que temos pela frente. É uma enorme felicidade poder partilhar uma tarde de convívio com os cibernautas com quem trocamos tantas ideias, sugestões e até desabafos. Uma felicidade que aumenta com a nossa predisposição para a partilha, para ouvir e comentar, para darmos um pouco do nosso tempo para reunir com estes amigos da blogosfera.

Foi mais ou menos neste espírito que encarei o convívio entre os membros deste blog, no fantástico almoço que partilhámos no passado sábado. Não posso deixar de manifestar o meu, e julgo que o de todos, sincero agradecimento à nossa fantástica anfitriã Patrícia Reis, que nos recebeu de braços abertos e com uma energia que nos contagiou a todos de sorrisos e bem estar.

Este convívio fica marcado não só pelo delicioso repasto, mas mais ainda pelas conversas cruzadas, pelas gargalhadas que saltavam de cada canto da sala onde estávamos reunidos, e da imensa alegria que ia transparecendo no rosto de todos nós à medida que íamos sentindo o pulsar das emoções trazer à luz do dia os fragmentos de que somos feitos.

Foi o meu primeiro convívio não só do ano, mas também do blog, e quero manifestar o meu muito obrigada por tão calorosa recepção a todos os meus colegas de escrita.

Venha o próximo!

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Delito à mesa (3)

por Ana Vidal, em 25.08.12

 

Nasceu há exactamente 25 anos, com a modesta intenção de servir sandwiches aos veraneantes de uma praia bonita: a praia de S. Lourenço, concelho de Mafra, quase pegada com a Ericeira. Mas o destino deste Golfinho Azul era saltar mais alto, mais longe. Reinando sobre a escarpa magnífica e com uma vista de cortar a respiração - "Temos um dos pores-de-sol mais bonitos do mundo", afiança-me Mena, a dona da casa, e não me custa nada dar-lhe razão - o Golfinho chama os banhistas e é incentivo suficiente para a empreitada de subir os 150 degraus que vão a pique desde a praia até este terraço mágico, promessa de bons petiscos e sensações fortes. Aos poucos tornou-se romaria certa para amigos e curiosos, e foi assim que a ementa se foi aprimorando. À noite virava bar, ou não fosse músico (além de pintor) um dos fundadores, apaixonado por sons de blues e jazz vindos de outros ambientes igualmente azuis, o mítico Blue Note. As noites ganharam fama e o Golfinho tornou-se poiso certo de músicos e artistas bem cohecidos. Para dar só um exemplo, ali nasceram algumas das belas composições de Rodrigo Leão. 

 

Mas voltemos aos comes e bebes, que é disso que trata esta série. O Golfinho Azul tem hoje uma ementa variada e apetecível (a especialidade é obviamente o peixe, embora haja bastante variedade de pratos de carne também) a preços perfeitamente razoáveis. O preço médio de uma refeição completa - sopa/entradas, prato, sobremesa e vinho da casa - rondará os 25 €. Recomendo o que me leva lá desde que descobri este restaurante, além da simpatia do serviço e da vista deslumbrante: umas cenourinhas à algarvia muito bem temperadas, a sopa de peixe, depois a moqueca ou o caril de gambas. As sardinhas são também um must da casa, e há pratos vegetarianos para quem conseguir resistir aos sabores e cheiros do mar.

 

Costumo ir almoçar mas, se puder, apareça por lá ao fim da tarde e deixe-se transportar para outra dimensão com o tal pôr-de-sol único. Vale a pena. Depois jante e, se for sexta-feira, fique para uma das jam sessions com os convidados de Naná Sousa Dias. Ao sair, não deixe de procurar a Mena Almeida e dizer-lhe um adeus personalizado. A casa faz questão em cultivar a proximidade com os clientes, e esse é um dos segredos de tanto sucesso ao fim de um quarto de século de existência.

 

Notas:

 

1. Tem estacionamento próprio e fácil.

2. Fecha à segunda-feira.

3. Tem 120 lugares, entre interior e esplanada.

4. Sessões de música ao vivo às sextas-feiras (noite), de 15 em 15 dias.

 

Restaurante Golfinho Azul

R. das Ribas, S. Lourenço

2640-254 Mafra

T: 261 862 945

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