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Delito de Opinião

O que eles disseram de olhos nos olhos (5)

Pedro Correia, 09.12.25

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JOÃO COTRIM FIGUEIREDO:

«Ainda bem que entra ao ataque, que é para poder responder da mesma maneira.»

«Eu nunca disse que o Luís Marques Mendes me tinha contactado. Nunca falei em si.»

«Não vou dizer nomes, porque para mim isso não é essencial.»

«Escolheu este assunto para abrir o debate, está a dar-lhe extrema importância. Vou tomar isto como um elogio. É muito revelador que escolha começar por aí.»

«Sei que vai sair um livro seu, em que resume os 18 anos desde que saiu do Governo, até hoje, em cinco páginas. A vida profissional de pessoas, os contactos e as relações que tiveram são ou não são importantes para um Presidente da República?»

«Tem alguma coisa a esconder?»

«Não tenho uma carreira política de 50 anos nem a experiência de Luís Marques Mendes, mas tenho muita experiência noutras áreas. E tenho uma visão relativamente à sociedade portuguesa muitíssimo mais moderna e arejada.»

«Já o ouvi propor incluir um jovem no Conselho de Estado, [mas] não é isso que vai dar destaque à juventude.»

«Sou o candidato que fala em crescimento económico.»

«Luís Marques Mendes é membro do Conselho de Estado, ininterruptamente, desde 2002, 2003... E mesmo assim continuamos com estes problemas todos.»

«Promulgaria esta legislação  laboral nesta versão mais recente.»

«Os candidatos têm a obrigação de dizer o que pensam. [Mendes] não disse se promulga ou não. Eu disse claramente que promulgaria.»

«O papel do Estado como garante da segurança das pessoas em situações de desespero, eu defendo-o tanto ou mais do que o Luís Marques Mendes.»

«A banca comercial já nos custou muito. Houve quase 30 mil milhões de euros para resgatar bancos em Portugal.»

 

LUÍS MARQUES MENDES:

«Queria confrontar Cotrim Figueiredo com estas perguntas muito simples e concretas a exigir também respostas muito concretas. Quando é que eu falei consigo a pressionar para a sua desistência? Ou quem foram as pessoas que em meu nome o pressionaram? Não se fazem acusações destas sem apresentar provas.»

«Não se fazem acusações desta gravidade da forma ligeira como as fez. Ou se fazem acusações e se provam ou não se fazem acusações.»

«Quem não deve não teme e quem não se sente não é filho de boa gente

«É uma acusação não só grave como é feia. Mesmo os seus eleitores não gostam. Ninguém gosta

«O senhor comporta-se como uma espécie de André Ventura envergonhado. Isso não o recomenda para Presidente da República, até o desqualifica. Portanto, a sua palavra não é para levar a sério.»

«Tem alguma coisa a acusar-me? Diga. Responda!»

«Isto é uma tentativa de assassinato de carácter. Eu fui talvez a pessoa mais escrutinada nos últimos anos.»

«Em algumas coisas da sociedade e do Estado, são precisos consensos. Na justiça, no combate à corrupção...»

«Um Presidente da República tem um poder moderador e tem de ser moderado. Mas não [tem] de ser mole nem frouxo.»

«O Conselho de Estado é o único órgão político em Portugal que junta à mesma mesa o Presidente da República, o primeiro-ministro e o líder da oposição. Reúne quatro vezes por ano. Ter um jovem no Conselho de Estado é uma oportunidade para dar voz aos jovens.»

«O Governo tem todo o direito, toda a legitimidade, de fazer esta reforma [laboral].»

«Em sou muito mais ambicioso no plano social do que o João Cotrim Figueiredo.»

«Não podemos estar à espera que o mercado vá resolver os problemas dos idosos, dos pensionistas e dos reformados. A intervenção do Estado é fundamental.»

«Cotrim Figueiredo defendeu a privatização a 100% da Caixa Geral de Depósitos. Isto significaria que a Caixa iria provavelmente parar às mãos dos espanhóis. É o grande fusível do nosso sistema financeiro. Se o fusível quebra, pode ser um problema sério.»

 

Excertos do debate ocorrido anteontem à noite na TVI e na CNN Portugal, com a habitual moderação hesitante e gaguejante de José Alberto Carvalho.

O que eles disseram de olhos nos olhos (4)

Pedro Correia, 04.12.25

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ANTÓNIO JOSÉ SEGURO:

«Eu não seguia a maioria parte das intervenções que Marques Mendes fazia como comentador. Mas há uma diferença entre comentar a actualidade e transformar o país.»

«O centro-direita a que pertence Luís Marques Mendes não é o centro-esquerda a que eu pertenço.»

«O cartel da banca foi condenado em dois momentos a pagar 225 milhões de euros. Não pagou porque [o crime] prescreveu. Prescreveu porquê? Quais são as causas?»

«Marques Mendes diz que é muito interventivo. É membro do Conselho de Estado há 15 anos. Podia ter aconselhado os Presidentes da República a agir e a fazer esse pacto da justiça. Porque não fez?»

«Nós, ao ritmo a que temos vindo a diminuir a pobreza no nosso país, precisamos de um século para a eliminar. Isto é chocante, é um cancro social enorme.»

«O combate à corrupção tem de ser uma prioridade do estado de direito.»

«Penso que o senhor doutor fez parte, como consultor, de algumas das empresas que estavam na privatização. Defendi que houvesse planos anti-corrupção associados a cada processo de privatização, designadamente na TAP: isso seria útil para prevenir algumas das situações que neste momento estão em investigação. Na altura o governo do doutor Marques Mendes fez orelhas moucas.»

«Neste momento há um desequilíbrio completo do sistema político. A direita tem a maioria das juntas de freguesia, câmaras municipais, governo da Região Autónoma da Madeira, governo da Região Autónoma dos Açores, a maioria no parlamento, o primeiro-ministro... O país tem a ganhar se o sistema político estiver equilibrado.»

«Em duas leis essenciais - a lei dos estrangeiros e a lei da nacionalidade - com que é que o governo do seu partido fez acordo? Com o Chega. Matérias que são estruturantes para o nosso chão comum.»

«Precisamos de um Presidente da República para novos tempos e não para os velhos tempos.»

 

LUÍS MARQUES MENDES:

«Há uma grande diferença entre estes dois candidatos: António José Seguro privilegia mais as proclamações de carácter genérico. Eu quero ser bastante mais activo e interventivo.»

«Já houve um período, há 30 anos, com Guterres a primeiro-ministro e Jorge Sampaio a Presidente, com os ovos no mesmo cesto. Dois socialistas no topo do Estado. António José Seguro fazia parte desse governo. Fazia parte dos ovos que estavam no cesto - e nunca se queixou.»

«É preciso dar rapidamente o pontapé-de-saída para um pacto da justiça. O meu primeiro Conselho de Estado será sobre esta matéria.»

«A justiça está doente.»

«Há uma diferença [minha] com  o António José Seguro: eu sou mais interventivo, gosto de ir mais à frente.»

«Eu quero avançar no combate à pobreza. Vou instituir um Fórum Anual de Combate à Pobreza.»

«O governo Passos Coelho é que fez a privatização da TAP. Eu não fui membro desse governo.»

«A minha Casa Civil terá menos assessores políticos e mais assessores sociais.»

«Já assumi o compromisso de colocar um jovem [no] Conselho de Estado. Nunca na vida isso aconteceu.»

«Não indigitarei o líder do Chega primeiro-ministro nem lhe darei posse enquanto não tiver garantias por escrito de que o seu programa será limpo de inconstitucionalidades.»

 

Excertos do debate ocorrido ontem à noite na RTP e conduzido por Carlos Daniel com a segurança habitual.

Tudo o que um debate não deve ser

Sérgio de Almeida Correia, 01.12.25

Catarina Martins vs André Ventura: quem teve a nota mais alta? - SIC  Notícias

Já calculava que alguns dos "debates" entre os candidatos às próximas eleições presidenciais seriam muito pouco interessantes, iriam esclarecer nada ou quase nada, e que só serviriam para continuar a transmitir uma péssima imagem dos nossos (deles) actores políticos, mostrando nalguns casos a sua manifesta impreparação, falta de sentido de Estado, oportunismo, irresponsabilidade política e total desprezo pela situação do país e dos portugueses.

Confesso que nunca pensei é que se viessem a revelar bem piores do que aquilo que poderia imaginar nos maiores pesadelos.

Da falta de ideias à de educação, da linguagem desbragada ao estilo carroceiro, com frases e apartes de estrebaria, gritaria, mãos e braços no ar, sem esquecer mentiras, insultos, falsas verdades, omissões convenientes e incoerências, nada tem faltado.

O pseudodebate de ontem entre Catarina Martins e André Ventura, que aproveitei para ver durante a minha hora de almoço, é apenas mais um exemplo de algo que nunca deveria ter acontecido. E admiro a paciência do entrevistador, por muito bem paga que seja.

Aos debates que se têm visto seria preferível o silêncio. 

Este seria bem mais enriquecedor, educativo e muito menos ofensivo da dignidade nacional.

E os portugueses continuariam tão esclarecidos sobre as ideias dos candidatos presidenciais como estavam antes. Sem "debate".

O que eles disseram de olhos nos olhos (3)

Pedro Correia, 26.11.25

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ANDRÉ VENTURA:

"Eu estou farto que a esquerdalhada faça o que quer no parlamento."

"Marques Mendes, se calhar, tem alguns interesses mais escondidos [em Angola]."

"O senhor é político desde 1976, eu ainda não tinha nascido."

"Estou farto até à cabeça de estar rodeado de corruptos."

"Não me venha dizer que é independente, porque não é. Tem um partido que o protegeu sempre, o PSD."

"Em vez de conversa da treta, como a sua me parece, temos de ir onde dói: quem andou a roubar tem de ficar sem o património. Temos de os agarrar, temos de acabar com eles."

"Eu nasci em 1983. Nasci em democracia e o que vi nesta democracia foi corrupção, corrupção, corrupção. Não me venham pedir para olhar 100 ou 200 anos para trás."

"Está ao lado da casta que nunca quer ser investigada."

"O seu partido está cheio de corruptos do princípio ao fim. Os senhores andam a roubar malas de dinheiro do país."

"Marques Mendes é a marioneta de Luís Montenegro. (...) Nem Passos Coelho o apoia."

 

LUÍS MARQUES MENDES:

"André Ventura comemora o 25 de Novembro porque não gosta do 25 de Abril. Convive mal com a opinião dos outros. E quer combater o 25 de Abril."

"André Ventura actua com total falta de sentido de Estado. No plano do Estado não contam as preferências pessoais."

"Os políticos mandarem prender alguém era no tempo da PIDE, não é agora."

"O senhor está a fazer teatro."

"Passa a vida a interromper os outros, não tem coragem de ouvir os outros. É uma atitude de fraqueza."

"O senhor está a branquear o regime anterior, onde havia mais corrupção."

"O senhor não se candidata a xerife da República, pois esse cargo não existe "

"A justiça tá doente. O meu primeiro Conselho de Estado será sobre a reforma da justiça e o combate à corrupção. É preciso acabar com os diagnósticos e ter acção."

"Hoje há uma justiça pa ricos e outra pa pobres "

"André Ventura não tem propostas concretas e exequíveis para assunto nenhum."

 

Excertos do debate ocorrido ontem à noite na SIC, com moderação competente de Clara de Sousa.

O que eles disseram de olhos nos olhos (2)

Pedro Correia, 21.11.25

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JOÃO COTRIM FIGUEIREDO:

«A independência não se proclama: pratica-se.»

«Eu saberei resistir a todas as pressões que me queiram desviar dos superiores interesses dos portugueses e de Portugal.»

«Não vai dizer-me que é cadastro ter passado partidário.»

«Tenho uma abrangência muito maior do que o partido de onde sou oriundo. Tenho apoios de figuras do PS, do PSD, do CDS, da IL, do Chega.»

«As estruturas da sua candidatura foram responsáveis pela máquina de propaganda de José Sócrates.»

«Eu uso avental, mas é na cozinha.»

«Tinha um professor que dizia que cada vez que ouvia falar de estratégia numa empresa, isso queria dizer que alguém ia ao bolso de alguém.»

«Não me falta optimismo nem energia.»

«Eu sou a verdadeira vacina contra o pessimismo e o medo do futuro.»

 

HENRIQUE GOUVEIA E MELO:

«A Presidência da República não é um conselho de administração. É um serviço à nação.»

«[Cotrim] quer levar correntes ideológicas  Presidência da República.»

«O candidato presidencial tem de ser mais aberto, apanhar um espectro político maior para ajudar a construir soluções que um candidato não-partidário ajuda a encontrar porque tem esse afastamento dos interesses partidários.»

«Venho de fora do sistema, que está um bocado descredibilizado.»

«Eu não sou maçom.»

«Sou social-democrata.»

«A economia são as pessoas. Economia sem coesão é má economia.»

«O povo, quando vota, é inteligente.»

«Este país precisa de avançar.»

 

Estreia absoluta de ambos em debates entre candidatos presidenciais. Na noite de ontem, na RTP, com boa moderação de Vítor Gonçalves.

O que eles disseram de olhos nos olhos (1)

Pedro Correia, 19.11.25

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ANTÓNIO JOSÉ SEGURO:

«O senhor está sempre a dividir, está sempre com extremismos, está sempre com ódio.»

«O senhor está sempre a pôr as pessoas umas contra as outras, está sempre a dividir entre os bons e os maus. Eu não consigo olhar para o País assim.»

«Compreendo as razões que assistem aos representantes dos trabalhadores para convocarem uma greve geral.»

«A revisão da legislação laboral nem fez parte da proposta eleitoral do Governo.»

«O deputado André Ventura tem mais anos de actividade partidária neste século do que eu, contando os anos em que esteve no PSD.»

«Há uma diferença entre ser candidato de um partido ou candidato apoiado por um partido. (...) Se quer debater com o PS, dou-lhe o número do telefone de José Luís Carneiro e o senhor debate com ele.»

«O senhor deputado está na eleição errada: devia estar nas eleições legislativas. Andou a pedir aos portugueses para votarem em si, mas borrifou-se para esse voto e está a candidatar-se a Presidente da República.»

«Daqui a quatro meses vou recebê-lo em Belém. Eu como Presidente da República, o senhor como líder partidário.»

«O senhor não me dá lições de patriotismo.»

«Faz favor, se quiser interromper. Não há problema.»

«O senhor não baseia a sua retórica em factos.»

«O senhor não é por falar mais alto que resolve os problemas.»

 

ANDRÉ VENTURA:

«O António José Seguro é como o Melhoral, que não faz bem nem faz mal.»

«Esteve no governo de António Guterres, do pântano, da crise, do desnorte do País.»

«Tem de haver uma lei laboral que incentive ao trabalho e à produtividade.»

«As pessoas ficam sem comboio para ir ao hospital e ir trabalhar, quando pagam o passe e não recebem compensação nenhuma [em dias de greves]. Essas também merecem uma palavra da nossa parte.»

«Nunca como no tempo do PS os jovens emigraram tanto: 30% foram para fora. É a sua herança, é a herança do PS. Deixou-nos com os salários mais baixos da União Europeia.»

«A herança do seu partido destruiu o SEF.»

«Eu nunca serei uma jarra de enfeitar.»

«Marcelo Rebelo de Sousa é uma jarra numas coisas e uma traição noutras.»

«Há imigrantes que passam à frente dos portugueses na saúde. O senhor aceita de bom grado que chegue alguém do Bangladeche, da Índia e do Paquistão, e passe à frente de uma família portuguesa no acesso à saúde.»

«Eu sou candidato a Presidente de Portugal. Não sou candidato a presidente do Bangladeche. Se quiser, apanhe um avião e vá para lá.»

«O senhor tem a mesma conversa da treta que não vai em nada, vai manter tudo igual.»

«Essa conversa da treta levou ao estado do País em que estamos.»

 

Primeiro dos 28 anunciados debates entre candidatos presidenciais. Na noite de anteontem, na TVI e na CNN Portugal, com péssima "moderação" do gaguejante José Alberto Carvalho. 

O país é Lisboa, o resto é paisagem

Pedro Correia, 23.09.25

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A SIC reuniu alguns candidatos à Câmara Municipal do Porto - deixando outros de fora, sem se dar ao incómodo de explicar porquê - para um debate na noite de domingo motivado pela eleição autárquica do próximo dia 12.

Esta estação televisiva tem redacção e estúdios no Porto. Mas forçou os candidatos a viajar 600 km, ida e volta. Não pode haver melhor (ou pior) exemplo de centralismo. Os cinco participantes e até a moderadora são do Porto, mas o debate travou-se no concelho de Oeiras, distrito de Lisboa. Só faltou que ocorresse no próprio Terreiro do Paço.

Na mesma SIC onde abundam comentadores a perorar sobre as virtudes da descentralização e até a entoar loas à regionalização - aliás quase todos residentes na capital. Mas metem a viola no saco quando o canal pratica o contrário do que apregoam.

Eis um sinal evidente do atraso do País: Portugal continua a ser Lisboa, o resto é paisagem.

Era assim no tempo do Eça, continua a ser assim agora.

Separados pela distância

Pedro Correia, 13.04.25

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Pedro Nuno Santos (ontem, no Porto): «É fundamental que consigamos conciliar quem está preocupado com o fim do mundo com quem está preocupado em chegar ao fim do mês. A transição climática e energética não pode ser feita contra as pessoas, contra as famílias.»

 

Inês Sousa Real (ontem, em Queluz de Baixo): «De repente achei que estava a debater com o Bloco de Esquerda e não com o PS. Vimos Pedro Nuno Santos quase a diabolizar as empresas e a encostar-se mais uma vez à extrema-esquerda.»

Separadas à nascença?

Pedro Correia, 11.04.25

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Mariana Mortágua e Inês de Sousa Real no debate de ontem na CNN Portugal. Mais do que um frente-a-frente, foi um tête-a-tête.

 

O mais relevante diálogo que travaram ocorreu logo a abrir.

Foi assim:

Mariana - Muito boa noite, Inês. Cumprimento-a pela escolha da roupa, que é muito parecida com a minha. Ainda bem, quer dizer que temos bom gosto.

Inês - Cumprimento também a Mariana e felicito-a também pela escolha.

 

Uma de amarelo e preto, a outra de preto e amarelo. Mal se deu pela diferença.

A peixeirada

Legislativas 2024 (9)

Pedro Correia, 21.02.24

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- Não está preparado para governar o país.

- Estou preparadíssimo. 

- Mas não parece! Não parece... desculpe lá que lhe diga. Não parece.

(...)

- Falhou! Você diz que faz, mas não faz.

- Ai faço, faço! Você é que não sabe o que é fazer, não sabe o que é governar.

- Sei, sei. 

- Não sabe. Nunca governou! Nem num gabinete esteve. Não sabe a dificuldade de tomar decisões, de avançar. Isso não sabe. 

- O Pedro Nuno Santos é que esteve mal como ministro. O que fará como primeiro-ministro...

- Não, não estive. Tenho resultados para apresentar!

- Esteve muito mal. Habitação, infraestruturas, o aeroporto... O nosso plano fiscal não é nenhuma aventura...

- É aventura, é! Irresponsabilidade mesmo. Nunca vai conseguir cumprir.

- ... incremento económico. O PS tem uma voracidade fiscal completa, nunca está satisfeito...

- Qual voracidade? Qual voracidade?

- ... foram e são hoje um bloqueio ao crescimento económico...

- Qual bloqueio? O investimento estrangeiro é hoje 70% do PIB.

- ... os nossos profissionais estão a procurar oportunidades no estrangeiro porque não têm aqui o rendimento... Estamos a perder na competição com os países que concorrem connosco.

- Estamos a crescer mais! Somos o país que cresceu mais.

 

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(...)

- Ó Pedro Nuno Santos, olhe, estou muito melhor preparado do que o Pedro Nuno Santos, muito melhor preparado.

- Está, está... 

- Fale verdade! Fale verdade!

- Não se viu hoje, não se viu hoje. Hoje falhou. Hoje correu mal. Hoje não correu bem, não é? Hoje não correu bem.

- Fale verdade, fale verdade, não crie falsas expectativas. Quero cumprir os meus compromissos, tudo o contrário do que o senhor e os seus colegas de governo fizeram nos últimos...

(...)

- Oiça! Está nervoso?

- Não estou nada nervoso!

- Então oiça, não me interrompa. 

- Não insista na mentira.

- Oiça! Quer ouvir ou não? É que não é mentira, não é mentira.

Traidor, idiota útil, prostituta política

Legislativas 2024 (7)

Pedro Correia, 14.02.24

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Os debates, num registo frente-a-frente, têm sido entre líderes de partidos. Mas certos jornalistas que deviam moderá-los, em vez de se apagarem o mais possível, procuram concorrer com os políticos em fome de palco. Fazendo lembrar aqueles árbitros que roubam protagonismo aos jogadores em partidas de futebol exibindo cartões de várias cores a torto e a direito enquanto apitam a cada 30 segundos. Numa tentativa desesperada de serem o centro das atenções.

Infelizmente isto não acontece só nos estádios: passa-se o mesmo nos estúdios. Na segunda-feira de Carnaval, na RTP, o moderador do debate entre Luís Montenegro e André Ventura fez tudo para se evidenciar. E, de algum modo, concretizou o objectivo: naqueles 39 minutos conseguiu interromper 121 vezes os candidatos! Quase em partes iguais, com o presidente do PSD a ver as suas frases 61 vezes cortadas por João Adelino Faria, enquanto o mesmo sucedeu 60 vezes ao presidente do Chega.

«Quando estamos os três a falar, ninguém nos ouve», lamentou a certa altura o pivô da RTP. Num involuntário exercício de autocrítica, pois era incapaz de se calar enquanto os dois políticos se confrontavam.

«Temos muito pouco tempo», foi outra das suas frases, dignas de cronometrista. Além da bengala verbal «muito bem» que já se transformou numa espécie de senha no canal público de televisão. É raro o jornalista que ali não usa e abusa dela, mesmo totalmente fora de contexto. Já ouvi alguns dizerem «muito bem» até quando se fala de guerras, massacres, catástrofes climáticas ou epidemias. Vale para tudo.

 

Quanto ao debate em si, nos escassos momentos em que Faria deixou os participantes completarem três frases, a ideia dominante foi esta: o Chega funciona como aliado objectivo do PS. Daí ter sido eleito, durante toda a legislatura que agora termina, como interlocutor preferencial de António Costa nos confrontos parlamentares - imitando o precedente inaugurado em França, na década de 80, pelo socialista François Mitterrand com a ultra-direita de Jean Marie Le Pen.

Os socialistas, cá como lá, alimentaram o ovo da serpente. Na expectativa de assim neutralizarem a direita moderada, sua rival directa nas urnas. Em França, o tiro saiu-lhes pela culatra: o Reagrupamento Nacional, liderado pela filha de Le Pen, tem hoje 89 deputados na Assembleia Nacional enquanto o PSF não conseguiu eleger mais do que 24, entre 577 lugares, nas legislativas de 2022. Tornou-se um partido irrelevante.

 

Neste confronto na RTP, Montenegro fez o que lhe competia. Desmascarando a irresponsabilidade do Chega, que exige agora o direito à filiação partidária e o direito à greve aos elementos das forças de segurança sem avaliar as consequências do que propõe. E esclareceu que só as 13 medidas mais emblemáticas do pacote de promessas eleitorais do partido da direita populista custariam cerca de 25,5 mil milhões de euros se fossem postas em prática - o equivalente a 9% do PIB anual português.

Contas que aparentemente Ventura não fez: embatucou ao ouvir isto, ficando sem resposta. 

Argumentou como? À maneira dele: com insultos.

Acusou o PSD de «traição», de «espezinhar as forças de segurança», de «enganar os pensionistas há 50 anos», de ser «uma prostituta política». Montenegro, para ele, é «o idiota útil da esquerda» - representante «de um sistema que nos tem dado corrupção, tachos e bandidos à solta».

 

Eis o caudilho do Chega, uma vez mais, a funcionar como guarda avançada do PS. Nem lhe passaria pela cabeça chamar alguma vez «prostituta política» a António Costa...

Ventura berra tudo quanto for preciso para gerar títulos na imprensa e cliques nas redes sociais. Mesmo baixando cada vez mais o nível. Comparado com ele, o Tino de Rans faz figura de estadista.

Este debate confirmou que há sérios problemas de governabilidade à direita com o líder do Chega em cena. À esquerda, ninguém imagina uma peixeirada destas entre Mariana Mortágua, Paulo Raimundo e Pedro Nuno Santos.

Montenegro nunca governará com quem lhe chama idiota e traidor, nem se coligará com quem acusa o PSD de prostituição política. Há limites para tudo. De algum modo, beneficiou com a estridência insultuosa de Ventura: atraiu votos moderados, separando as águas. «Muito bem», como diria João Adelino Faria pela enésima vez, repetindo a bengala verbal tão em voga na RTP.

Sob o signo do Cupido

Legislativas 2024 (5)

Pedro Correia, 09.02.24

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Mariana Mortágua e Rui Tavares "debateram" ontem na SIC Notícias. Debate é força de expressão: parecia antes um rendez vous, tantas foram as miradas enternecidas que dirigiram um ao outro. E as frases plenas de concórdia, harmonia e fraternidade universal. Nem houve um sussurro crítico ao PS.

«Temos objectivos comuns», sublinhava o porta-voz do Livre. «Temos diagnósticos comuns», afiançava em coro a coordenadora do Bloco de Esquerda. Como se estes dois partidos pudessem fundir-se a qualquer momento.

Esperava-se um frente-a-frente, saiu um tête-à-tête. Sob o signo do Cupido, talvez por estar tão próximo o Dia dos Namorados. Entre Mariana Tavares e Rui Mortágua. Amor é cego e vê, como diz o verso da canção. Coisa mais linda não há.

Coitada da Heloísa

Legislativas 2024 (4)

Pedro Correia, 08.02.24

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Luís Montenegro tentou fazer-se representar no debate televisivo com a CDU por Nuno Melo, presidente do CDS, o segundo partido da coligação AD. Paulo Raimundo recusou de imediato a sugestão do social-democrata, acusando-o de fugir à discussão. O secretário-geral do PCP é inflexível: não tolera debater com um "número dois".

Perdeu excelente oportunidade de fazer avançar alguém do PEV, o partido-fantasma que integra a CDU com os comunistas. Coitada da Heloísa Apolónia: ainda não é desta que deixa de ser invisível.

Como desmascarar um farsante

João Pedro Pimenta, 03.10.22

Não sei se tiveram a oportunidade de ver, mas aquela correia de transmissão das ordens de Moscovo, de seu nome Alexandre Guerreiro, levou uma tareia inacreditável do Francisco Pereira Coutinho em todos os aspectos, num debate na SIC Notícias na sexta-feira. Podem - julgo eu - ver o vídeo na íntegra aqui (não consegui transportá-lo directamente para o post por ser muito grande) e avaliar as prestações. O homem do Kremlin a certa altura parecia completamente perdido, repetia incessantemente "o precedente do Kosovo", cujas diferenças aliás o Francisco explicou devidamente, acabou a justificar a anexação da Crimeia com "sondagens" (como se sabe um elemento essencial no direito internacional) e a dizer que a anexação das quatro regiões ucranianas "era legal mas também podia não ser".

Eis a forma como se neutralizam os farsantes: colocá-los perante alguém que efectivamente conhece o terreno para os desmascarar. Acresce que nas horas que se seguiram ao debate, Guerreiro era alvo de chacota pelos twiters e watsaps fora.

Os nomes e as coisas

Pedro Correia, 20.01.22

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No debate de segunda-feira na RTP, o moderador tratou quase todos os nove intervenientes pelo nome próprio. Esta recente forma de tratamento, como tantas outras modas, foi importada dos States. Tal como a tendência para dar nomes de pessoas a cães e gatos.

Lá entre a bimbalhada, todos se tratam pelo primeiro nome e até por diminutivos. Incluindo presidentes - daí ter havido o Jimmy (Jaiminho) Carter e o Bill (Gui) Clinton; agora há o Joe (Zé ou Zeca ou Zezé) Biden.

Há-de chegar o tempo em que, pela mesma lógica, o Francisco actual passa a Chico, a Catarina deriva para Cati, o Rui passa a denominar-se Ruca e o António encolhe para Tó. Só Jerónimo continuará a ser Jerónimo, honra lhe seja.

Nos programas televisivos de comentário e debate tornou-se também moda tratarem-se todos por tu, como se tivessem sido colegas da primária ou costumassem jantar juntos. É outra importação "amaricana", neste caso facilitada pelo facto de no idioma dos States o "you" servir para toda a segunda pessoa, do singular e do plural, haja ou não tratamento familiar.

Isto serve igualmente para a forma como os partidos comunicam connosco. Numa destas manhãs ouvi na rádio alguém de uma agremiação política intitulada Volt dizer-me: «Vota em nós.» E há por aí propaganda partidária de todo o género que insiste em tratar-me por tu. Como se eu fosse muito lá de casa.

Mas não os conheço de parte alguma.

Debate a nove na RTP

Pedro Correia, 18.01.22

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ANTÓNIO COSTA (PS):

«Só a maioria absoluta garante a estabilidade durante quatro anos.»

«Desde que eu sou primeiro-ministro, pela primeira vez neste século Portugal cresceu acima da média europeia. Aproximámo-nos dos países mais ricos.»

«O PSD quer que o SNS deixe de ser tendencialmente gratuito e deseja que a classe média passe a pagar os cuidados de saúde.»

«Há uma proposta de maioria de governo, que é a do PS, e uma proposta da direita para uma política de desgoverno.»

 

RUI RIO (PSD):

«A probabilidade de haver uma maioria absoluta, seja do PS seja do PSD, é muito próxima de zero.»

«Queremos que os portugueses vivam efectivamente melhor e não criar a ilusão do momento.»

«Não há planeamento, não há organização, não há gestão. O dinheiro que lá está [no Serviço Nacional de Saúde] é muito mal gerido.»

«Nós precisamos de melhores serviços públicos, que foram completamente degradados pelo PS - degradaram as carreiras dos enfermeiros, dos médicos, dos professores, dos investigadores.»

 

CATARINA MARTINS (BE):

«Aqui não há uma escolha para primeiro-ministro. Aqui vota-se para um parlamento e a maioria determinará o que existe no dia seguinte.»

«É muito importante descer o IVA de algo tão fundamental como a electricidade.»

«Nós não podemos ter directores de serviço num hospital público que vão a correr trabalhar para o hospital privado que fica do outro lado da rua.»

«O PS, com a maioria absoluta que pede, quer deixar os problemas agudizarem-se - seja na saúde, seja nos salários, seja no trabalho.»

 

JOÃO OLIVEIRA (PCP):

«A estabilidade de qualquer governo não depende dos acordos nem dos papéis assinados.»

«O aumento geral dos salários, de todos os salários e não apenas do salário mínimo, é a grande solução de fundo.»

«A questão da valorização dos serviços públicos tem de ser uma prioridade em todas as áreas. Mas no SNS é uma questão crítica. É preciso contratar profissionais, é preciso garantir a valorização das carreiras.»

«Há soluções, há meios: eles têm é de ser mobilizados para o desenvolvimento da sociedade.»

 

FRANCISCO RODRIGUES DOS SANTOS (CDS):

«Há um elefante na sala: a possibilidade de um voto no PSD ir parar ao bolso de António Costa.»

«Os anos da geringonça conduziram Portugal a um aumento brutal da carga fiscal, ao aumento da dívida pública para 135% do PIB, à diminuição do rendimento disponível das famílias e ao aumento do índice da pobreza.»

«António Costa prometeu há seis anos médicos de família para todos os portugueses. A palavra dada não foi palavra honrada.»

«O voto no CDS serve para derrotar a maioria de esquerda no parlamento mas também para não fazer acordos com o PAN. Não haverá entendimento com um partido animalista radical que quer destruir o mundo rural.»

 

INÊS DE SOUSA REAL (PAN):

«A maioria absoluta ou um bloco central não servem os interesses do País.»

«Devemos taxar as actividades poluentes, criar uma taxa ambiental e acabar com as borlas fiscais de quem está a ter mais ganhos e ainda por cima polui.»

«Defendemos a reposição dos 25 dias de férias para que as pessoas possam ter mais tempo para a família e o lazer.»

«Quem respeita os animais vai votar PAN nas próximas eleições.»

 

ANDRÉ VENTURA (Chega):

«Os portugueses querem uma direita diferente, que não esteja sempre a tentar colocar-se nos ombros da esquerda.»

«A classe média em Portugal paga 35% de IRS. Isto tem de acabar, isto é um roubo.»

«O Bloco de Esquerda aprovou o Orçamento do Estado suplementar em 2020 que deu 900 milhões de euros para a TAP e 450 milhões para o SNS - ou seja, metade do que foi para a TAP. Muito bonito, da parte do BE...»

«Temos décadas de bandidos a roubar o nosso país. Décadas. É tempo de acabarmos com isso.»

 

JOÃO COTRIM FIGUEIREDO (IL):

«António Costa, com o aumento extraordinário aos pensionistas, está a tentar comprar o seu voto no imediato.»

«Portugal é o país da Europa Ocidental com o salário líquido mais baixo. Se alguém pode estar satisfeito com esta situação, nós não estamos.»

«Apesar de haver um sistema universal e tendencialmente gratuito, Portugal é um dos países da Europa em que as pessoas mais gastam do seu próprio bolso para a saúde: cerca de 34%. Isto não faz sentido e é um indicador de que o SNS não está a dar resposta.»

«António Costa quer salvar a TAP mas vai para Ponta Delgada na Ryanair.»

 

RUI TAVARES (Livre):

«Se houver uma maioria à esquerda, nós seremos parte da solução; se houver uma maioria à direita, nós seremos parte da oposição.»

«O Livre, em vez de prescindir de dois mil milhões de euros em fiscalidade do Estado, quer ir buscar os mais de dez mil milhões de euros que neste momento em evasão fiscal fogem todos os anos e que é possível recuperar.»

«Eu não troco o SNS, que nos deu - com o civismo dos portugueses - as maiores taxas de vacinação do mundo pelo serviço de saúde da Bulgária, que tem as piores taxas de vacinação da Europa.»

«A história impõe-nos uma agenda política cidadã a que a política tem de dar resposta.»

 

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Esta noite, na RTP, com moderação impecável de Carlos Daniel. Foi o melhor debate televisivo desta campanha eleitoral para as legislativas do dia 30. Pudemos ouvir os diferentes líder políticos falarem de vários temas. Com substância, pluralismo garantido e sem peixeiradas.

O debate mais importante

Pedro Correia, 14.01.22

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O que disse António Costa:

«O doutor Rui Rio preocupa-se muito com os números e isso foi-o tornando insensível às pessoas.»

«Se não tiver maioria absoluta não viro as costas aos portugueses, não viro as costas a Portugal.»

«Eu apresento-me a estas eleições não só com um programa de governo mas com um Orçamento do Estado para aprovar imediatamente a seguir ao governo entrar em funções.»

«170 mil famílias da classe média ficarão isentas do pagamento de IRS.»

«Pela primeira vez na nossa história, temos um nível de qualificação que começa a aproximar-se da média europeia.»

«Há uma necessidade nacional de reforçar a confiança dos cidadãos na justiça.»

«O programa do PSD é muito perigoso relativamente à justiça.»

«Faça um telefonema ao doutor Paulo Rangel para ele lhe explicar porque é que a Comissão Europeia abriu processos contra a Polónia e a Hungria.»

 

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O que disse Rui Rio:

«Todos queremos a maioria absoluta. Mas a probabilidade de termos maioria absoluta é muito próxima de zero.»

«O doutor António Costa não tem condições de reeditar a geringonça mesmo que seja o mais votado.»

«Se o PS ganhar teremos outro primeiro-ministro que não o doutor António Costa e aí tudo leva a crer que é o doutor Pedro Nuno Santos e aí teremos o Bloco de Esquerda mesmo dentro do governo e com ministros do BE.»

«Prioridade: criação de  riqueza. Depois, distribuição. Porque quero o futuro dos portugueses, não quero só o amanhã.»

«Desde 1995, o doutor António Costa teve cargos de responsabilidade em todos os governos do PS. Com António Guterres foi ministro dos Assuntos Parlamentares e ministro da Justiça, com José Sócrates foi ministro da Administração Interna e n.º 2 do governo, e agora é n.º1 do governo. Toda esta linha que foi seguida, que deu os resultados que nós sabemos, com Portugal na cauda da Europa, é a linha que vai continuar.»

«O doutor António Costa quer obter resultados diferentes com a mesma política que sempre seguiu.»

«Agora exibe o Orçamento do Estado para 2022, que a seguir à descoberta do caminho marítimo para a Índia deve ser a coisa mais importante que vai ficar na história de Portugal.»

«Há mais funcionários públicos do que havia e os serviços públicos estão muito pior.»

 

Esta noite, em simultâneo, nos três canais generalistas

E o nível, Senhor, o nível?

Sérgio de Almeida Correia, 13.01.22

35222448-1600x1067.jpg(Créditos: Lusa, daqui

Há dias, no DN, a propósito destes tempos de mediocridade em que vivemos, escrevia Jorge Costa Oliveira ser necessário que a “política tenha elevação e seriedade suficientes para que haja quem fale - e haja quem ouça - sobre os principais problemas que afligem a sociedade”, sendo por isso mesmo um disparate centrar uma campanha eleitoral (pré-campanha) em “debates de 25 minutos (!) em que nenhum problema relevante pode ser discutido seriamente”. Concluía referindo que actos “deste calibre de estupidez num timing histórico desastroso” raramente se terão visto.

Quando li não sei se fiquei totalmente de acordo com o que ali se registou. Mas as poucas dúvidas que ainda tinha, depois de ver as prestações de Costa, Rio, Martins, Sousa, Tavares, Figueiredo e Real, esperava perdê-las com o "debate" de ontem entre o líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo “Chicão”, e o líder do Chega, André Ventura.

Verdade se diga que embora jamais esperasse que dali brotasse uma ideia, uma faísca que fosse, habituado como estava desde as suas primeiras intervenções a ouvir os chavões e as frases mal decoradas do “Chicão”, citando Ronald Reagan (sic), e os dichotes e recortes de jornais de Ventura, ambos recorrendo a um estilo algures entre a conversa de caserna com pretensões e a do arrieiro, nunca pensei que o diálogo acabasse por ser tão elevado e esclarecedor. 

Para vinte cinco minutos de “debate” foi obra (“mariquinhas”, “trauliteirazinha”, “agora já não falas de futebol”, “chorrilho de alarvidades”, “mete-os na tua casa”, “Ó Francisco, desculpa lá”, “cata-vento político”, “rei da bazófia”, “inimputável”, “fanático”, “populista”, “nojo é que você devia ter”, “fale disto com os seus amigos”, “fina flor do entulho”, “você é o primo sozinho”, “você é o primo do Salvini”, e por aí fora). Chicão e Ventura não podiam ser mais eloquentes. Fiquei siderado.

A conclusão que dali retiro é, assim, como aliás demonstrado pelos líderes do CDS-PP e do Chega, a que já esta semana foi aventada pelo singular Miguel Esteves Cardoso, e que àqueles partidos assenta que nem uma luva: “os pequenos partidos perdem personalidade e eficácia quando se tornam médios, até porque deixam de ser pessoas e passam a ser partidos”. 

O CDS-PP é hoje o “Chicão”, "o da barretina". O Chega é o Ventura, "o dos ciganos". Ambos lutam para ser partidos "médios". Não se percebe bem para quê. Seria bom que eles se mantivessem assim, pequenos, para não perderem energias a quererem crescer para médios. E, depois, para chegarem a grandes. É preciso evitar a todo o custo a sua descaracterização, porque quando pequenos é “pequeninos que eles se querem”.

O CDS-PP e o Chega bem que poderiam ficar como estão. Ou até mais pequenos. Minúsculos. Para não perderem “personalidade e eficácia”.

E quanto mais não seja para poderem manter o tempo de antena. E o nível do verbo. Isto é, a genuinidade do discurso vernacular que os afirma e garante audiência junto das claques desportivas, das estrebarias e das tabernas do país.