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Venho hoje falar de um documento um pouco polémico, pois paira sobre ele o espectro da falsificação, embora actualmente se considere poder ser verdadeiro. De qualquer maneira, trata-se de um assunto em aberto e que, na minha opinião, tem a sua relevância. Estou a falar de um Pacto Sucessório secreto, que terá sido firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, à revelia do sogro Afonso VI, decidindo como dividiriam a herança depois da morte deste e por mim já aqui referido. Não se sabe a data exacta em que terá sido firmado, o historiador Charles Bishko situa-o entre 14 de Maio e 22 de Setembro de 1105, ou seja, durante o Verão. Nada melhor do que o mês de Agosto para o relembrar.

Nos arquivos portugueses, não existe cópia do documento, mas a versão que terá sido enviada ao abade de Cluny encontra-se na Bibliothèque Nationale de France. O Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, publicou dois estudos sobre o assunto, na Medievalista online. No primeiro, O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, em 2011, duvida da sua autenticidade. Porém, no segundo, Proposta de aclaração do “pacto sucessório” à luz de novos dados, três anos depois, admite que possa ser verdadeiro.

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY, Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470.

Atentemos às palavras com que o Professor Abel Estefânio abre o segundo estudo:

«Quando o estudei pela primeira vez, pareceu-me que se tratava de um falso histórico e apresentei essa hipótese num artigo publicado em 2011 na revista Medievalista (…) Todavia, como não o pude afirmar categoricamente, não dei o assunto por encerrado. Havia, desde logo, que considerar a nota que o Professor José Mattoso elaborou sobre o meu estudo, com o contributo do Professor Arnaldo do Espírito Santo relativamente ao argumento linguístico. Perante a ausência de sinais evidentes do uso de um latim clássico que denuncie um falsário da época moderna, o Dire(c)tor da Medievalista considerou que se impunha um exame mais aprofundado».

Na minha opinião, é verosímil que os condes D. Raimundo e D. Henrique tenham firmado este pacto. Recordemos a situação! D. Afonso VI, sentindo a morte a aproximar-se e angustiado por não ter herdeiro varão, nomeia seu sucessor o filho que teve da moura Zaida, baptizando-o de infante Sancho. Podemos imaginar a revolta que sentiu a sua única filha legítima, D. Urraca, e também o genro D. Raimundo, sobretudo por, neste mesmo ano de 1105, a 1 de Março, ter nascido o filho do casal.

Raimundo terá recorrido ao abade Hugo de Cluny. A fim de conseguir guerreiros para a Reconquista, Afonso VI seguira, durante anos, uma política pró-francesa, ligada à Ordem Cluniacense, nomeando muitos prelados estrangeiros para as dioceses hispânicas, fazendo-lhes riquíssimas doações e dotando-os de privilégios, assim como aos nobres que os acompanhavam. Foi neste contexto que surgiram Raimundo e Henrique na Hispânia. O conde portucalense era inclusive sobrinho-neto do abade Hugo. Os cluniacenses introduziram, na Península, o culto romano, ditado pela reforma gregoriana, em detrimento do velho rito hispânico, ou moçárabe.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant

Miniatura representando Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza (1047-1109). Tumbo A da catedral de Santiago de Compostela.

A fim de poder nomear Sancho seu sucessor, porém, o imperador Afonso VI executou um verdadeiro volte-face, pois o velho clero hispânico prontificou-se a baptizar a moura Zaida e a legitimar o filho desta. Alarmado por Raimundo, o abade Hugo de Cluny enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret, na presença do qual Raimundo e Henrique terão firmado o pacto sucessório.

O documento não costuma ser mencionado na nossa historiografia. A hipótese de falsificação não é o único motivo, já que, mesmo sendo verdadeiro, há quem o considere irrelevante. Tanto Raimundo, como o infante Sancho, viriam a falecer antes de Afonso VI, o primeiro dois anos depois de ter assinado o pacto e o segundo no ano seguinte, em 1108, na batalha de Uclés.

Na minha opinião, porém, que vejo boas razões para que seja autêntico, ele foi fundamental na política tão criticada de D. Teresa. Mas comecemos pelo princípio!

Ao casar com D. Urraca, D. Raimundo tornou-se conde da Galiza e, nas suas posses, incluía-se o condado Portucalense que, nessa altura, ia até ao Tejo, pois Afonso VI tinha recebido Santarém e Lisboa do rei mouro de Badajoz, que se pôs sob a protecção do imperador. Raimundo, porém, não conseguiu segurar Lisboa, provocando a ira do sogro. Ao casar a filha Teresa com Henrique, Afonso VI pôs nas mãos deste o condado Portucalense, confinando Raimundo à Galiza. Henrique, porém, permaneceu vassalo do cunhado, situação que o pacto confirma. A carta endereçada ao abade de Cluny começa assim:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, seu vassalo, desejam saúde e amor em Cristo (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p. 13).

A nossa historiografia tende a divulgar a versão de que o interesse de D. Teresa pela Galiza se deveu ao seu envolvimento com a família de Trava. Ora, este pacto secreto, assinado pelo marido, sete anos antes de morrer, mostra que a Galiza fazia parte das ambições do conde portucalense. D. Teresa deu-lhe seguimento. Nas suas lutas com a irmã Urraca, ela reclamou sempre a Galiza para si. E o próprio Afonso Henriques passou os cinco anos a seguir à Batalha de São Mamede a tentar conquistar território galego. Foi essa a sua primeira medida, depois de se tornar no líder incontestado do condado Portucalense. Só depois de sucessivas derrotas, perdendo os territórios galegos conquistados, ele se virou para o Sul.

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p.22).

Esta passagem, do texto do pacto, é um pouco enigmática, pois dá a ideia de que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e que o cunhado não estava disposto a concedê-lo, substituindo-o pela Galiza. Ou seria o contrário? Inclino-me para a segunda hipótese. Não vejo que interesse D. Henrique pudesse ter por Toledo, tão longe das suas posses, apesar de se tratar de uma cidade de grande prestígio, antiga capital do reino visigótico. Contudo, depois da morte do imperador, Toledo nunca foi motivo de conflito com a rainha D. Urraca. Já a Galiza sim! Além disso, à data do pacto, D. Raimundo era conde da Galiza há cerca de quinze anos, não penso que facilmente abrisse mão desse território. E relembremos ainda que, dar, a um vassalo, o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano, era prática habitual na Idade Média. Podemos, por isso, admitir que a ideia de Toledo terá sido de Raimundo, como recompensa pela ajuda do cunhado. Henrique, porém, estaria mais interessado no reino da Galiza, criando um impasse. Com a moderação de Dalmácio Geret, ter-se-á tentado uma solução provisória, do estilo: «Toledo ou a Galiza».

Defendo, portanto, a importância do pacto, ao mostrar que a luta pela Galiza não se baseou num capricho de D. Teresa, por ter um amante galego. Fazia parte de uma estratégia política iniciada pelo conde D. Henrique, seguida pela sua viúva e também pelo filho de ambos, num primeiro momento: formar um reino na faixa oeste da Península, que iria desde a costa norte galega até onde as conquistas a Sul o permitissem.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

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Teresa, Bermudo e Urraca.JPG

Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

 

Calcula-se que foi em Julho de 1122 que D. Teresa deu a sua filha mais velha, Urraca Henriques, em casamento a Bermudo Peres de Trava. Este consórcio gerou um verdadeiro vendaval no condado Portucalense.

Nesta altura, D. Teresa já tinha perdido muitos apoios, pois os nobres de Entre-Douro-e-Minho nunca aceitaram a influência da família de Trava. Convém, no entanto, fazer aqui um parênteses para explicar que o condado Portucalense, recebido por D. Teresa à altura do seu casamento com D. Henrique, era a junção de dois antigos condados: o Portucalense propriamente dito, que ia sensivelmente até à região do Douro, e o condado de Coimbra, que englobava o restante território, de fronteira sul indefinida, mas pertencendo-lhe ainda o castelo e a localidade de Soure. As terras de Viseu, Seia e Coimbra mantiveram-se fiéis a D. Teresa, pelo que, nos anos que antecederam São Mamede, poderia ter-se verificado a divisão. Para isso, contribuía igualmente o facto de os senhores do Norte, com mais posses e maior poderio militar, desdenharem dos cavaleiros vilãos de Viseu e de Coimbra, alguns deles estrangeiros, antigos companheiros de armas de D. Henrique.

A relação de D. Teresa com Fernando Peres de Trava terá começado à volta de 1120 e, à altura do casamento de Urraca Henriques, os dois tinham já, ou estavam prestes a ter, uma filha. Orientados pelo arcebispo de Braga, os nobres portucalenses acusaram D. Teresa de incesto, já que dava a mão da sua filha ao irmão do seu amante. Acusavam-na aliás de incesto duplo, pois alegavam a própria D. Teresa haver tido um caso com Bermudo Peres de Trava, casando assim a filha com o antigo amante. É, no entanto, provável que esta relação tenha sido inventada, no intuito de danificar ao máximo a reputação de D. Teresa, a fim de a substituir pelo filho, o mais depressa possível.

A pergunta que se põe é: porque patrocinou D. Teresa este casamento? Não previa ela as terríveis consequências? Uma das razões poderá ser precisamente o facto de ela não ter tido relação íntima com Bermudo Peres de Trava. De resto, há que compreender a estratégia de D. Teresa, que aspirava ao reino da Galiza, a fim de ser coroada rainha, título que já vinha usando, com o beneplácito dos nobres portucalenses, e usado igualmente por um papa, numa bula, como tratamento à filha de Afonso VI. D. Teresa planeva englobar nesse reino o condado que lhe pertencia, não admirando, por isso, que visse vantagens na sua aproximação à mais poderosa família galega.

Há indícios de que ela tenha tentado casar com Fernando Peres, anulando o casamento deste; há mesmo quem considere que eles realmente casaram secretamente, numa cerimónia em que o nobre galego terá repudiado a sua primeira esposa. À luz das leis medievais, tal atitude podia ser motivo suficiente para a Igreja anular o consórcio. Ora, tudo isto, aliado ao matrimónio de Urraca com Bermudo, reforçaria a ligação das duas famílias, dando-lhe legitimidade e aumentando a pressão sobre os barões de Entre-Douro-e-Minho.

Como sabemos, o contrário aconteceu, o que não admira muito, tendo D. Teresa dois arcebispos como contraentes: o de Braga e o de Santiago de Compostela. O braço-de-ferro entre a “rainha” e os nobres portucalenses duraria ainda seis penosos anos, até 1128, quando se deu a Batalha de São Mamede.

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Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques, morreu a 1 de Julho de 1109. Sabemos que se intitulava “imperador” por reger sobre três reinos, apesar de ter utilizado meios mais do que duvidosos para se apoderar das heranças dos irmãos. À morte do pai, D. Afonso VI teve apenas direito ao reino de Leão, pois D. Fernando I o Magno dividiu as suas posses pelos três filhos. Enquanto a rainha-mãe foi viva, os irmãos mantiveram-se sossegados. Mal ela fechou os olhos, porém, entraram em conflito. Sancho, o mais velho, seria assassinado, pensa-se que a mando do irmão Afonso, que assim se apoderou do reino de Castela. E acabaria por encarcerar o mais novo, Garcia, rei da Galiza, na fortaleza de Luna, situada numa região inóspita de fronteira com as Astúrias. Garcia viria a falecer depois de quase vinte anos de cárcere.

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Afonso VI de Leão, Castela e Galiza. Imagem daqui, sem indicação de data e autor.

À altura da sua morte, Afonso VI tinha cerca de 62 anos e, apesar de ter sido um homem poderoso e temido, morreu amargurado, sobretudo, por não deixar herdeiro varão. Como referido num post anterior, o infante Sancho, filho da sua barregã moura e por ele legitimado, pereceu com apenas quinze anos na Batalha de Uclés, um ano antes do pai. O imperador reuniu então cortes em Toledo e declarou a filha Urraca sua herdeira universal, decisão que não pareceu agradar ao genro D. Henrique, pois é na sequência desta reunião que Afonso VI o expulsa da corte, considerando-o traidor. Tudo leva a crer que D. Henrique teria pretensões à coroa do sogro, ou pelo menos, à divisão da herança. Segundo José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007), o conde portucalense teria, então, encetado uma viagem à sua Borgonha natal, regressando cerca de um ano mais tarde, no Verão de 1109. É curioso notar que esta versão põe em causa a hipótese de o seu filho ter nascido em Viseu, a 9 de Agosto de 1109, pois, à altura em que teria de ser gerado (Novembro ou Dezembro de 1108) o pai, pelos vistos, não se encontrava por terras hispânicas.

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Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada

Estamos a falar de uma época em que mulheres não eram bem vistas à frente de um território e, sendo D. Urraca viúva, os nobres castelhanos exigiram, nas cortes de Toledo, que ela casasse. D. Afonso VI deu-lhes razão e logo os mesmos nobres se apressaram a fazer-lhe a corte. Não é difícil imaginar a grande agitação que se teria gerado à volta da herdeira mais cobiçada da Hispânia. Porém, só cerca de um ano mais tarde, no leito de morte, D. Afonso VI estipulou que sua filha desposasse o rei D. Afonso I de Aragão e Pamplona.

Urraca cumpriu a vontade de seu pai, mas, na verdade, o casamento foi um erro, um verdadeiro desastre, e acabou por ser anulado pela Igreja. Pensa-se inclusive que nunca teria sido consumado, o que leva a especulações sobre as preferências sexuais do rei aragonês, que era aliás um bravo guerreiro e ficou na História com o cognome de Batalhador. Contudo, apesar de ter tido vida longa e um reino para legar, só esteve casado meia dúzia de anos e não se lhe conhecem filhos ilegítimos, como era habitual entre os monarcas medievais.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Enquanto foi casado com Urraca, Afonso de Aragão chegou a intitular-se “imperador”, à semelhança do sogro, mas a oposição de vários nobres castelhanos mergulhou o coração da Península Ibérica em combates sangrentos. D. Urraca tanto se posicionava do lado do marido, como apoiava os nobres castelhanos. Atitude semelhante tiveram, aliás, D. Henrique e D. Teresa, que oscilavam no seu apoio entre D. Urraca e o monarca aragonês. Trata-se de uma época confusa, sendo, hoje em dia, difícil de explicar o que levava os três a tanta indefinição, num conflito que haveria de provocar a morte de D. Henrique, em Abril de 1112.

Afonso VI morreu em Toledo, mas foi sepultado no mosteiro de Beneditinas de Sahagún, conforme seu desejo. Sendo as duas cidades separadas por cerca de 400 km, podemos imaginar quão penoso terá sido este cortejo fúnebre, naquele tempo, em pleno Verão. O funeral, em Sahagún, só se realizou a 21 de Julho.

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Batalha de São Mamede. Óleo de Acácio Lino, 1922

 

Hoje, dia de São João Baptista, celebra-se o 891º aniversário da Batalha de São Mamede.

Foi na sequência desta refrega, às portas de Guimarães, que D. Afonso Henriques atingiu a liderança sobre o condado Portucalense. O nosso primeiro rei tinha à volta de vinte anos e estava ainda longe de ser o Conquistador que conhecemos da nossa História. Na verdade, não passava de um jovem inexperiente, mas os barões portucalenses, que repudiavam a influência da família galega de Trava, apoiavam-no em peso. As famílias mais poderosas eram as de Ribadouro (à qual pertencia Egas Moniz), da Maia, de Sousa, de Baião e de Bragança (os Braganções medievais nada têm a ver com a dinastia actual de Bragança).

Não há certezas quanto ao número exacto de guerreiros envolvidos, as fontes, como sempre, são contraditórias. Afonso Henriques estaria, porém, em larga vantagem, pensa-se que teria à volta de seiscentos homens, contra cerca de trezentos do lado de sua mãe.

Apesar de muito contestada no Norte do condado, D. Teresa tinha apoios a sul do Douro, principalmente, em Viseu e Coimbra. O Entre Douro e Minho era, porém, muito mais povoado, possuía mais força de armas. D. Teresa juntou os seus vassalos e demais apoiantes, que incluíam os homens de armas galegos afectos a Fernão e Bermudo Peres de Trava e a Gomes Nunes de Barbosa, os cavaleiros vilãos de Viseu, Coimbra e Seia e alguns nobres, como os de Grijó.

Não penso que, à altura da Batalha de São Mamede, D. Afonso Henriques teria já a intenção de fundar o reino português. Ele teria, sim, receio que nascesse ainda um filho da relação de sua mãe com Fernão Peres de Trava, o que poria a sua herança em perigo. D. Teresa tentou aliás transformar o condado em reino (ela apelidava-se de rainha), mas juntando-o ao território galego. Recordemos que a Galiza tinha já estatuto de reino. Podemos mesmo perguntar-nos se Afonso Henriques teria a mesma intenção, pois, nos cinco anos que se seguiram à Batalha de São Mamede, tentou, por todos os meios, conquistar território galego. Só depois de várias derrotas, ele se virou para as conquistas a Sul.

Derrotada em São Mamede, D. Teresa preferiu o exílio. Morreria cerca de dois anos depois, Herculano refere o dia 1 de Novembro de 1130.

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A 20 de Junho de 1120, D. Teresa refugiou-se no castelo de Lanhoso e a meia-irmã D. Urraca montou-lhe cerco.

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Castelo de Lanhoso - esta torre, a sua "imagem de marca" actual, ainda não existia ao tempo de D. Teresa. Foto © Horst Neumann

Trata-se de uma época muito conflituosa, cheia de intrigas e golpes, nos quais estavam envolvidas mais duas importantes personalidades: o conde galego Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela, Diego Gelmírez.

Tal como a meia-irmã, D. Urraca, como mulher, teve muita dificuldade em fazer valer a sua autoridade, apesar de ser a única herdeira legítima de D. Afonso VI. O facto de ter cumprido a última vontade de seu pai, casando com o rei D. Afonso I de Aragão e Navarra, piorou a situação da rainha, pois, no caso de o casal ter filho varão, esse príncipe deveria herdar Leão e Castela e o meio-irmão, Afonso Raimundes, filho do falecido D. Raimundo, herdaria apenas a Galiza. Assim determinara o imperador Afonso VI, logo provocando o protesto do conde galego Pedro Froilaz de Trava, Aio de Afonso Raimundes, que considerava o seu protegido o único herdeiro do avô. Depois da morte do imperador, o conde galego, assim como o bispo Gelmírez, apressaram-se a coroar Afonso, de apenas seis anos, como rei da Galiza, num primeiro sinal da autoridade que assistia ao pequeno.

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe

Afonso I de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe (1822–1856)

Esta coroação complicou a vida de D. Urraca, pois, durante a menoridade do filho, teve de aceitar a regência de Pedro Froilaz de Trava sobre a Galiza. Não teve aliás filhos com Afonso I de Aragão e o casamento chegou mesmo a ser dissolvido pela Igreja. Porém, quando o filho atingiu a maioridade, que, nesta altura, se dava pelos catorze ou quinze anos, o conde galego instou-o a ocupar o trono de Toledo, a fim de tomar o lugar de seu avô, apesar de a mãe ainda ser viva. Não estando disposta a prescindir dos seus direitos, D. Urraca envolveu-se em contendas com Pedro Froilaz de Trava e o arcebispo de Santiago de Compostela.

Os dois galegos eram amigos, unidos na defesa do seu protegido, mas, com o tempo, começaram a desentender-se. D. Urraca aproveitou para aprofundar o fosso entre eles, entrando, em 1120, com um exército na Galiza. Instalou-se em Santiago de Compostela, onde doou um importante feudo à igreja daquela cidade, favorecendo o arcebispo. Esta doação debilitava a família de Trava, o que indignou o conde Pedro Froilaz.

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D. Urraca de Leão e Castela, pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada, na Prefeitura de Leão

Em seguida, aconteceu, porém, algo que hoje não se sabe bem explicar: D. Urraca penetrou no condado Portucalense, arrasando culturas, incendiando e depredando. Terá sido por influência do arcebispo Diego Gelmírez, que pretendia acabar com o estatuto arqui-episcopal de Braga? Nesse caso, será difícil de explicar que D. Urraca tenha feito, a 17 de Junho, uma importante doação à igreja de Braga, na presença do arcebispo D. Paio Mendes.

O certo é que, na sequência da incursão da meia-irmã, D. Teresa teve receio de ser destituída do governo do condado e refugiou-se no castelo de Lanhoso, um dos melhores de Entre Douro e Minho. Situado no cimo de um maciço rochoso com quase trezentos metros de altura, o castelo permitia vigiar as redondezas num raio de dezenas de milhas. Devido ao terreno acidentado, o seu acesso fazia-se apenas por um itinerário e as suas muralhas eram reforçadas por cinco torreões, dois dos quais ladeavam a única porta de entrada, voltada a Sul. Além disso, o seu interior albergava uma estrutura palaciana.

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Pormenor do recinto actual do castelo de Póvoa de Lanhoso. Foto © Horst Neumann

A partir daqui, não há certezas sobre o que aconteceu. A versão mais conhecida é que as irmãs se reconciliaram, nas chamadas «pazes de Lanhoso», jurando-se amizade e tendo D. Teresa prestado vassalagem à irmã, que instituiu, a seu favor, «os senhorios de Zamora, Orense, Salamanca, Toro e Ávila» (Mateus, 2005). Certo é que o cerco foi de pouca dura. E, regressada a Compostela, D. Urraca mandou prender o arcebispo Gelmírez e confiscou-lhe todos os castelos! O que terá gerado este volte-face?

Na opinião de Mateus (2005), terá havido intriga de Fernão Peres de Trava, o filho mais novo do conde Pedro Froilaz. Este é um interessante e fulcral episódio, pois talvez marque o início da relação entre Fernão Peres e D. Teresa. Mas como entraram os dois em contacto? Terá Fernão Peres procurado D. Teresa em Lanhoso? Teriam os dois, nessa altura, combinado apoderarem-se da Galiza (que D. Teresa considerava fazer parte da sua herança) e urdido uma intriga, a fim de pôr D. Urraca novamente contra o arcebispo Gelmírez? Neste caso, é possível que nem tenham existido as «pazes de Lanhoso», rejeitando a hipótese de D. Teresa ter prestado vassalagem a D. Urraca.

O mais certo é nunca virmos a saber o que realmente aconteceu. No entanto, o episódio de Lanhoso teve importância fulcral no futuro de D. Teresa, já que a sua ligação a Fernão Peres de Trava, permitindo a ingerência deste no governo do condado Portucalense, afastou de si os barões que veriam no filho, Afonso Henriques, o melhor meio de afastar a influência galega.

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A 18 de Junho de 1116, o papa Pascoal II emitiu a bula Fratrum Nostrum, em resposta a queixas do bispo de Coimbra, ordenando que fosse restituído à igreja de Coimbra tudo o que lhe tinha sido tirado, inclusive a igreja de Lamego que fora concedida à igreja do Porto. Esta bula foi enviada aos arcebispos de Toledo e de Braga, aos bispos de Tui e de Salamanca e à «rainha D. Teresa».

06 - Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoa

Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoal II em 18 de Junho de 1116

Foi este um reconhecimento oficial do título real de D. Teresa, ou apenas um tratamento especial dado à filha do «imperador Afonso» (Adefonsi imperatoris)? Tudo indica que este fosse um tratamento habitual entre os portucalenses. A nossa historiografia realça os últimos três a quatro anos da regência de D. Teresa, ou seja, a partir do momento em que os barões portucalenses entraram em conflito aberto com ela e, nos últimos dois, o próprio filho. No entanto, D. Teresa regeu cerca de dezasseis anos sobre o Condado Portucalense, a maioria dos quais em perfeita sintonia com os seus barões. Estes reconheciam-lhe a competência, a «rainha» exercia um controlo total sobre o território, mediando conflitos, dando opinião, ouvindo, fazendo alianças, retribuindo lealdades, castigando quem a infligisse e afirmando-se com grande autoridade.

Além disso, os barões terão admirado o comportamento de D. Teresa à altura do ataque a Coimbra, a 7 de Julho desse mesmo ano de 1116. Na sequência de uma investida almorávida, caíram os castelos de Santa Eulália (concelho de Montemor-o-Velho) e de Miranda do Corvo, enquanto o de Soure foi abandonado e incendiado pelos próprios habitantes, que se refugiaram em Coimbra. Os sarracenos fizeram então grande mortandade ao redor das muralhas desta cidade e D. Teresa terá mostrado coragem, aguentando o ataque, sem fugir, embora estivesse acompanhada dos filhos (D. Afonso Henriques, o mais novo, tinha à volta de oito anos).

Em vários documentos régios e particulares, num período compreendido entre 1105 e 1126, com destaques para as cartas de doação ou de escambo, D. Teresa surge com o título de rainha: «Tarasia regina». Alguns destes documentos exibem mesmo o selo real de D. Teresa em redor da cruz de Cristo.

02 - Carta de doação da igreja de Soure a D. Gon

Carta de doação da igreja de Soure a D. Gonçalo Pais bispo de Coimbra (1109-1127) datada de 10 de Outubro de 1111. Pode ler-se numa passagem assinalada no centro, em baixo: "Ego Tarasia Regina".

10 - Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, d

Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro datada de Janeiro de 1126. 
No fim do documento, observa-se o selo real com os dizeres "Tarasia Regina" (Teresa Rainha). 
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Gavetas.
 

11 - Pormenor do selo real de D. Teresa no final d

Pormenor do selo real de D. Teresa no final da carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, Janeiro de 1126.

12 - Carta de confirmação dos foros concedidos

Carta de confirmação dos foros concedidos à Sé de Viseu, datada de Maio de 1123. Também aqui se encontra assinalada a passagem: "Ego Tarasia Regina".

13 - Carta de doação do castelo de Soure à orde

Carta de doação do castelo de Soure à ordem dos Templários, 29 Março 1128. Mais uma vez, o selo real de D. Teresa.

Relembremos que D. Afonso Henriques agiu exactamente da mesma maneira. À semelhança de sua mãe, começou a usar o título de «rei», antes de este ser oficializado por seu primo D. Afonso VII e pela Santa Sé. Além disso, ainda antes de assumir o governo do Condado Portucalense, D. Afonso Henriques era tratado por (e assinava como) «infante», título dado a filho de rei (o que continuou a fazer, depois da Batalha de São Mamede, em 1128, até à Batalha de Ourique, em 1139). Ora, sabemos que seu pai, D. Henrique, permaneceu conde até à sua morte. O título só se justificava por sua mãe ser rainha.

A página do Facebook Lisbon’s Heritage (de onde copiei os documentos) chegou a colocar a questão: Terá Sido Portugal Fundado Por Uma Mulher?

Talvez seja ir longe demais. Afinal, apesar do título de «rainha», D. Teresa regeu sobre um condado. Por outro lado, ela marcou indubitavelmente a independência em relação a sua meia-irmã D. Urraca, a única herdeira do imperador D. Afonso VI. Recusou-se terminantemente a prestar-lhe vassalagem, assim como ao sobrinho (depois da morte de D. Urraca, em 1126). Mesmo não aceitando D. Teresa como a fundadora de Portugal, temos de admitir que, muito mais do que o conde D. Henrique, ela foi a preparadora do caminho que seu filho haveria de percorrer.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos.

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Memórias de Dona Teresa

por Cristina Torrão, em 10.06.19

Estamos em tempo de Feira do Livro de Lisboa. Poucos momentos haverá, em Portugal, em que se vendam tantos livros (talvez este seja mesmo único). Aproveito, assim, para fazer um pouco de publicidade ao meu romance histórico sobre Dona Teresa, já que muito poucos sabem da sua existência.

Os leitores deste blogue que ficaram curiosos podem perguntar pelas "Memórias de Dona Teresa" nos Pavilhões onde se encontra representada a distribuidora Companhia das Artes (Pavilhões A45-A47). E não se deixem desencorajar, se quem lá estiver a servir o público diga que não conhece o livro. Insistam para que o procurem!

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«Fernando [Peres de Trava] possuía o condão de me fazer acreditar que podíamos desafiar as leis mais sagradas, como se possuíssemos feitiço que nos permitia inverter o mundo e nos fosse possível caminhar sobre o tecto, enquanto todos os outros continuavam agarrados ao chão, o que nos dava a embriagante sensação de sermos os únicos sábios num mundo de ignorantes.»

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Faz hoje 911 anos que morreu um infante hispânico com apenas quinze anos de idade, de seu nome Sancho. E que importância pode ter um acontecimento destes para Portugal, ocorrido numa altura em que o nosso país ainda nem existia (talvez D. Afonso Henriques ainda nem fosse nascido)?

Na verdade, esta morte modificou o curso da História hispânica de forma radical. Caso o jovem Sancho tivesse sucedido a seu pai, seria até provável que o reino de Portugal nunca se tivesse formado. Estamos a falar do único filho varão do imperador D. Afonso VI, pai de D. Teresa e avô de D. Afonso Henriques.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela.jpg

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela, imagem daqui, sem indicação de data e autor

Num certo aspecto, a história de vida de D. Afonso VI, rei de Leão Castela e Galiza, o que lhe valeu o título de imperador, assemelha-se à de Henrique VIII de Inglaterra, que haveria de nascer quase quatro séculos depois da sua morte: esperou, durante toda a sua vida, por um herdeiro varão. Apesar de ter casado cinco vezes, nasceu-lhe apenas uma criança legítima: a infanta D. Urraca, a conhecida meia-irmã de D. Teresa.

À medida que envelhecia, D. Afonso VI via-se incapaz de se conformar com este destino e, no início do século XII, terá casado com Zaida, a sua barregã moura, legitimando assim o filho de ambos. Zaida ter-se-ia convertido ao Cristianismo, sendo baptizada com o nome de Isabel, tendo o seu filho adquirido o nome de Sancho (não sabemos como anteriormente se chamaria). Este casamento do imperador não é consensual, entre os historiadores, pois não há forma de o provar. A ter sido celebrado, foi-o de forma muito discreta. No entanto, encontram-se referências a uma “rainha Isabel”, em alguns documentos coevos, e o Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, refere, num seu artigo na revista Medievalista online, que “é pela autoridade do bispo Paio de Oviedo que somos informados de Zaida que «babtizata Helisabeth fuit vocitata»”.

Do que não há qualquer dúvida é que D. Afonso VI, nos primeiros anos do século XII, decidiu apontar esse seu filho, nascido em 1093, como seu sucessor legítimo, apelidando-o de «infante Sancho». O jovem passou a confirmar os documentos oficiais da corte, em conjunto com sua mãe, a tal «rainha Isabel».

Podemos imaginar o impacto que esta medida causou na corte, nomeadamente em sua filha legítima Urraca e seu genro Raimundo, mas também no casal Henrique-Teresa. Esse impacto foi de tal ordem, que levou os dois genros a esquecerem as suas rivalidades, a fim de firmarem, às escondidas do sogro, um Pacto Sucessório, acontecimento praticamente desconhecido da nossa historiografia, mas onde os dois decidiam como seria dividida a herança do imperador, passando por cima do infante Sancho.

O vendaval durou, porém, apenas meia dúzia de anos. O conde D. Raimundo faleceu, de repente, ainda antes do sogro. E o jovem Sancho, nomeado, com apenas quinze anos, responsável pela defesa de Toledo, acabou por perecer na Batalha de Uclés, a 29 de Maio de 1108, na sequência de um ataque sarraceno.

D. Afonso VI, velho, doente e minado pelo desgosto, morreria apenas cerca de um ano mais tarde. Antes disso, porém, reuniu Cortes em Toledo e anunciou a filha Urraca sua sucessora, ao que aliás se opôs o genro Henrique. Este acontecimento originou o rompimento do conde portucalense com o sogro, que o baniu da corte, considerando-o traidor.

Urraca I de Leão e Castela.jpg

Urraca I de Leão e Castela - Pintura de 1892/94 por José María Rodríguez de Losada na Prefeitura de Leão, Wikipedia

Como sabemos, também D. Henrique acabou por morrer prematuramente, tornando-se as meias-irmãs Urraca e Teresa as principais protagonistas da História Ibérica durante mais de uma década. Ora, se o infante Sancho tivesse, de facto, sucedido a seu pai, não se teriam verificado as lutas pelo poder entre as duas irmãs, rivalidades que foram fundamentais para a formação do reino português.

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Cidade de Zamora, nas margens do rio Douro/Duero. Imagem Sapo Viagens

 

Embora se conheça o local, não se conhece bem a data em que D. Afonso Henriques foi armado cavaleiro. Há consenso, por parte dos historiadores, que tenha sido num Dia de Pentecostes, uma data muito usada para este efeito, na época medieval, e o Professor Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (Temas e Debates 2007) situa a cerimónia nos anos 1125 ou 1126, preferindo, no entanto, a primeira hipótese.

O Pentecostes, no ano de 1125, foi no dia 17 de Maio. Penso, por isso, que podemos assinalar hoje o 894º aniversário da investidura de D. Afonso Henriques.

A História teve, no passado, a tendência para afirmar que este teria sido um acto de rebeldia do jovem infante em relação a sua mãe, por D. Teresa estar ligada ao conde galego Fernão Peres de Trava. Porém, o Professor Mattoso dá-nos uma versão diferente. Em primeiro lugar, diz-nos, na referida biografia, que, a partir de 1120, D. Afonso Henriques

“passou a viver na corte, e a ocupar nela uma posição de destaque, pois algumas vezes é mencionado como outorgante de documentos juntamente com sua mãe ou confirma-os em posição superior à do conde Fernão Peres. Até 1127, não se pode apontar nenhum indício seguro de qualquer conflito entre ele e a «rainha» [D. Teresa] (p. 54)”.

O professor Mattoso reforça esta sua tese com o local escolhido: Zamora.

“Se alguma investidura houve, porque não se escolheu Braga, Guimarães, o Porto, Coimbra ou Viseu? (…) Não se esqueça que Zamora pertencia ao senhorio de D. Teresa desde que lhe fora concedida por D. Urraca durante o cerco de Peñafiel em 1111. Se aceitarmos a veracidade da referência ao lugar, teremos, logicamente, de admitir que a cerimónia se teria realizado com o acordo de D. Teresa e, dadas as suas relações com Fernão Peres, também com o seu consentimento (p. 56)”.

Tudo isto nos dá outra visão dos acontecimentos: em vez de um acto de rebeldia do jovem infante, por instigação dos barões portucalenses revoltados, teria sido antes uma tentativa de D. Teresa de apaziguar esses mesmos barões, apresentando-se ao lado do filho.

A cerimónia terá decorrido na basílica de São Salvador de Zamora, pois não existia ainda a catedral. Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses (redigidos à volta de 1185), dizem-nos o seguinte:

“O ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso (…) tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar como é costume fazerem os reis”.

A ser verdadeiro, este relato reforça a tese de que D. Teresa promoveu a investidura do filho, pois intitulava-se «rainha», por isso, o seu filho era um infante tal como o primo. D. Teresa pretendia mostrar à meia-irmã D. Urraca e ao sobrinho D. Afonso Raimundes que continuava a reclamar para si uma parte da herança de seu pai, ou seja, o governo independente do reino da Galiza, no qual era apoiada pelos Trava.

 

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