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Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (65)

Batalha de Alvalade

Cristina Torrão, 12.12.25

Dom Dinis Papel (2).JPG

Depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323, em que as pretensões do príncipe herdeiro foram desleixadas, este retirou para Santarém, a fim de reunir os seus apoiantes e apoderar-se do trono à força.

Ao saber que o filho avançava em direcção a Lisboa com a sua hoste, D. Dinis, auxiliado pelos bastardos Afonso Sanches e João Afonso, tomou posição no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

Estava tudo a postos para a batalha final da guerra civil. Mas a refrega foi impedida por intervenção de D. Isabel. Diz-se que se interpôs entre os dois exércitos, no meio do campo de batalha. 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

Imagem daqui

 

Dei a minha versão dos acontecimentos, no romance sobre D. Dinis:

 

Soaram as trombetas e os anafis, deu-se ordem de disparo, abrindo as hostilidades. Voaram as primeiras setas dos archeiros de Dinis por cima do campo e não tardou que uma chuva delas, vindas do adversário, caísse em cima dos seus homens, que se protegiam com os escudos.

O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.

Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se:

- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?

Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. Viu a cruz em primeiro lugar. Devia ser enorme, mas era transportada por um único cavaleiro. À frente deste, vinha mais alguém. Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do fogo das setas.

- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?

O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…

Isabel!

- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!

Também do outro lado teria sido dada ordem semelhante, pois os projécteis deixaram de cruzar os céus. Estabeleceu-se o silêncio sobre a planície. Dinis mandou cavaleiros ao encontro de Isabel e seu acompanhante. Constatou que o príncipe fizera o mesmo. Cavaleiros de ambos os lados aproximaram-se das duas figuras solitárias.

 

O acompanhante de D. Isabel era o bispo de Lisboa, D. Gonçalo Pereira. Enquanto a rainha seguiu os cavaleiros do príncipe, pois decidiu falar primeiro com o filho, o bispo acompanhou os de D. Dinis. Chegado à presença do rei, o prelado relatou:

 

«Vieram acordar-me a meio da noite, disseram-me que a rainha se encontrava ali no meu paço. E ela assim comigo falou:

- D. Gonçalo, temos de impedir a batalha prestes a acontecer no campo de Alvalade. Estava eu a meio das minhas rezas, quando Deus me fez ver a desgraça: os corpos mutilados, os gritos desesperados dos feridos… E uma voz suplicou-me que me interpusesse entre os dois exércitos, acompanhada do mais alto representante de Deus que pudesse encontrar. Aqui em Lisboa sois vós, eminência.

- Mas que podemos nós os dois fazer contra dois exércitos, minha santa senhora? Sem armas, sem guerreiros…

Ela replicou, cheia de serenidade:

- A voz garantiu-me que nada nos sucederá, se levarmos esta cruz.

Mostrou-me a enorme cruz, transportada por quatro criados. 

Ainda me recordo de pensar ter D. Isabel endoudecido, quando senti uma força misteriosa apoderar-se de mim. Parecia vir do brilho dos olhos da rainha, uma força que me impedia de a contradizer. Fizemo-nos ao caminho, no escuro da noite fria, acompanhados pelos quatro serviçais e mais dois com lanternas. Ao acercarmo-nos do campo de batalha, já ao nascer do sol, D. Isabel disse que apenas eu e ela estaríamos protegidos das setas pelas forças divinas. Os criados teriam de procurar abrigo. Eu retorqui que, na minha idade, jamais conseguiria carregar com uma cruz daquelas, mas ela disse:

- Pegai nela, D. Gonçalo, e vede como Deus a faz leve.

E tinha razão! Logrei pegar na cruz e erguê-la. Se não o houvesse experimentado, nunca acreditaria. Mas ainda perguntei à rainha:

- E quem guiará o meu cavalo? Fico sem mãos livres para as rédeas…

- Deus - respondeu ela. - Tende Fé!

A minha montada seguia a de D. Isabel como se realmente alguma força a guiasse, nem sequer se assustava com a zoada das setas, voando em arco por cima de nós. O mesmo não se podia dizer de mim. Confesso nunca haver sentido tanto medo na minha vida. Bradei:

- Morreremos, é o nosso fim.

- Fechai os olhos, D. Gonçalo, e rezai.

- Fechar os olhos? Mas como saberei para onde ir?

- Confiai em Deus!

Obedeci, nada mais me restava. E dei por mim com a cabeça encostada à cruz, a confessar os meus pecados, suplicando absolvição, tão convencido estava haver chegado a minha hora. Não faço ideia quanto tempo assim estive. De repente, dei conta do silêncio que se havia apoderado de todo o campo. O meu cavalo parou, sem que lhe houvesse dado qualquer ordem. Abri os olhos e vi os vossos cavaleiros e os do príncipe virem ao nosso encontro. Chegaram no momento certo, pois comecei a tremer violentamente e a cruz pôs-se-me de repente mui pesada. Não fossem eles, tê-la-ia deixado cair ao chão. E só deixei de tremer aqui, no abrigo da vossa tenda».

 

A pedido da mãe, o príncipe concordou em desistir dos seus intentos, mas declarou não mais desejar falar com o pai, nem encontrar-se com ele.

Em Fevereiro seguinte, D. Dinis dirigiu-se a Santarém, onde o príncipe se havia recolhido, apenas para sofrer grande humilhação. As portas da cidade mantiveram-se fechadas, barrando a entrada ao rei de Portugal. Houve combates, em redor das muralhas, e, a 26 de Fevereiro, conseguiu-se um acordo entre o rei e o príncipe. D. Dinis comprometeu-se a aumentar as rendas do filho e a retirar o cargo de mordomo-mor ao bastardo Afonso Sanches.

Um ano com D. Dinis (62)

Morte de Dona Constança

Cristina Torrão, 18.11.25
 

- Que se passa?

Isabel respondeu num sussurro:

- Tive um sonho…

- Um pesadelo?

- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…

Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera aos seus aposentos, numa noite tão fria. Acabou por dizer:

- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta.

Isabel assim fez. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:

- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.

Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:

- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…

Começou a tremer mais violentamente:

- Sonhei com ele…

- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…

- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… Que Constança havia morrido!

 

A 18 de Novembro de 1313 morreu a rainha D. Constança de Castela, antiga infanta portuguesa, filha de D. Dinis e D. Isabel, com apenas vinte e três anos.

 

Constança 1.jpg

 

Nota: não encontrei nenhuma representação de D. Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem da serie Games of Thrones, interpretada por Sophie Turner. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance.

Um ano com D. Dinis (60)

Morte de D. Pedro III de Aragão

Cristina Torrão, 02.11.25
 

Pedro III de Aragão.jpg

Pedro III de Aragão, por Manuel Aguirre Y Monsalbe, 1854

 

A 2 de Novembro de 1285 morreu o rei D. Pedro III de Aragão, denominado o Grande, pelas suas conquistas militares. Tinha apenas quarenta e seis anos e era o pai da rainha Santa Isabel. Não sabemos qual o efeito teria o acontecimento causado em sua filha, que já estava em Portugal há dois anos e meio. Segundo a tradição, D. Isabel era muito chegada ao pai e, considerando que estava ainda a dois meses de completar quinze anos e seria dona de um carácter sensível, criei esta cena no meu romance, no castelo de Trancoso, rodeado de neve:

 

Os alões deitados em frente à lareira levantaram-se, a ladrar como doidos. Dinis bradou:

- Que vem a ser isto?

- Virá por aí alguém? - sugeriu Pêro Anes Coelho.

- A esta hora? Num tempo destes?

Dinis virou-se para Isabel e assustou-se: a rainha apresentava uma palidez cadavérica, uma das mãos agarrava o vestido à altura do peito.

- Que tendes? Não vos sentis bem?

Isabel apontou-lhe olhos aterrorizados:

- Uma desgraça sucedeu!

- Que dizeis?

Apesar de assustado, Dinis pegou-lhe nas mãos gélidas e afirmou:

- Os cães ficaram nervosos com o uivar dos lobos, é só.

De repente, irromperam na sala dois cavaleiros com os seus capotes cobertos de neve. Isabel começou a tremer, mas Dinis teve de a largar para ir ajudar Pêro Anes Coelho e João Anes Redondo a segurar os alões, que ameaçavam despedaçar as vestes dos recém-chegados.

- Quem sois? - bradou o rei. - Porque vos deixaram entrar?

- Vimos de Aragão, Alteza.

- Meu Deus - gritou Isabel.

Levantou-se e foi ao encontro deles. Logo os cães se acalmaram, como por encanto. 

- Trata-se de meu pai, não é verdade? Que lhe sucedeu? Dizei!

- Lamentamos ter de vos informar que el-rei D. Pedro III se finou no passado dia 2 deste mês.

Gerou-se um silêncio sepulcral. Até que os lobos tornaram a uivar. Isabel desfaleceu de encontro a Dinis, que a segurou nos braços.

Carregando-a, o rei desceu a escada exterior da torre de menagem e caminhou pela neve a dar-lhe pelas canelas. Pêro Anes Coelho seguira-o e bateu à porta da casa da rainha, arrancando as damas e as camareiras do seu sono.

 

Nota: Pedro III de Aragão era igualmente rei de Valencia, Sicília e conde de Barcelona.

Um ano com D. Dinis (59)

Os últimos meses

Cristina Torrão, 25.10.25

Em Outubro de 1324, D. Dinis fez-se ao caminho de Santarém, como de costume. Tinha-se tornado um hábito passar o Natal e o fim do ano naquela cidade, só regressando a Lisboa na Primavera. Naquele ano, porém, D. Dinis fora desaconselhado a empreender a viagem, devido ao seu precário estado de saúde. A rainha D. Isabel tratava dele, administrando-lhe pessoalmente os remédios.

Durante a viagem, D. Dinis sentiu-se tão mal, que a rainha mandou chamar o filho D. Afonso, encontrando-se este em Leiria. Depois de uma desgastante guerra civil, o rei e o seu herdeiro haviam assinado as pazes a 26 de Fevereiro daquele ano. A guerra terminara, mas os dois continuavam desentendidos, não se falavam e evitavam encontrar-se. 

Vendo o pai em tão mau estado, porém, o infante tudo fez para cuidar dele. Com a sua ajuda, D. Dinis chegou a Santarém, onde melhorou um pouco.

Mas o destino do Rei Lavrador estava traçado. Sentindo a morte aproximar-se, fez o seu terceiro e último testamento a 31 de Dezembro. Morreria a 7 de Janeiro seguinte, com 63 anos.

 

Um ano com D. Dinis (58)

Cortes de Lisboa de 1323

Cristina Torrão, 17.10.25

Espada Funeráriam - inglês.jpg

Em Outubro de 1323 (não se sabe em que dias) reuniram-se Cortes em Lisboa, a pedido do infante D. Afonso, o herdeiro de D. Dinis. E reacendeu-se a guerra civil, que já se dera por terminada.

O infante D. Afonso exigia, entre outras coisas, que fosse retirado a seu meio-irmão Afonso Sanches o cargo de mordomo-mor, assim como as terras e dinheiros a ele doados pelo pai de ambos. Estas suas pretensões foram, porém, desleixadas, tratou-se de outros assuntos, acabando com a paz frágil, negociada entre pai e filho em Leiria, no ano anterior. A seguir ao cerco a Coimbra, essa paz tinha sido possível através da mediação da rainha D. Isabel e do conde D. Pedro de Barcelos.

Deixo-vos com um excerto do meu romance relativo às Cortes de Lisboa, quando o príncipe herdeiro viu os seus desejos ignorados pelos pares do reino, sem que seu pai interviesse a seu favor:

Ninguém abriu a boca. Mas Dinis arrependeu-se daquele procedimento em relação ao príncipe. Apesar de Afonso se manter digno, a humilhação era enorme, principalmente, perante a notória satisfação dos meios-irmãos. Naquele instante, o rei apercebeu-se haver exagerado na sua protecção e no seu favorecimento dos bastardos.

Não podia, porém, voltar atrás, dando o dito por não dito e, por isso, nada fez para impedir o voltar de costas do seu herdeiro àquela assembleia.

No fim do dia, o rei foi informado que o príncipe deixara a cidade e, passado duas semanas, soube que juntava os seus partidários em Santarém, planeando marchar sobre Lisboa, a fim de se apoderar do trono à força!

Era a ruptura total. Embora Isabel não o dissesse, Dinis sabia que ela o considerava responsável pela situação. Ele próprio assim se sentia. A rainha recolheu-se novamente em jejuns e penitências, recusando falar com ele.

Não obstante o arrependimento, o rei não podia deixar de defender o seu trono. Passou o mês de Novembro a organizar um exército, formado principalmente pelos combatentes do concelho de Lisboa.

A questão decidir-se-ia numa batalha em campo aberto, onde não existiria lugar para piedades nem perdões. As tropas digladiar-se-iam até haver um vencedor.

Os exércitos aquartelaram-se na zona do campo de Alvalade.

Um ano com D. Dinis (52)

Tratado de Alcanices

Cristina Torrão, 12.09.25

Tratado Alcanices - selo.jpg

Selo comemorativo do Tratado de Alcanices (circulou de 12-09-1997 a 30-09-2001)

 

12 de Setembro é uma data muito importante na História de Portugal. Foi neste dia, no ano de 1297, que se definiram novas fronteiras entre Portugal e Castela, no Tratado de Alcanices. Estas fronteiras sofreram alterações mínimas nos últimos 728 anos, fazendo de Portugal um caso único na Europa. Foi através do Tratado de Alcanices que Moura, Serpa, Noudar e Mourão foram incluídas no território português, além de alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal.

Tratado Alcanices - Territórios.jpg

Celebrado entre D. Dinis e D. Fernando IV, que necessitou da tutela da mãe D. Maria de Molina, pois tinha apenas onze anos, o Tratado de Alcanices serviu ainda para estabelecer um duplo consórcio:

- O infante D. Afonso de Portugal, futuro rei Afonso IV, desposaria D. Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. O infante português tinha, à altura, apenas seis anos, a infanta castelhana era um pouco mais nova. Casariam em Maio de 1309.

- A infanta D. Constança de Portugal, de sete anos, ficou prometida ao próprio rei Fernando IV de Castela.

Em casos destes, era costume as noivas mudarem-se para o seu novo lar, a fim de serem criadas pelos sogros, pelo que D. Dinis e D. Isabel trocaram a filha Constança pela infanta castelhana. 

Solicitaram-se dispendiosas bulas de dispensa de parentesco a Roma, pois os infantes castelhanos eram primos de D. Dinis, tendo sido o pai deles, o falecido Sancho IV de Castela, tio do rei português.

Também se solicitaram bulas de legitimação do jovem rei Fernando IV e de seus irmãos, já que o casamento dos pais nunca havia sido legitimado, igualmente por parentesco. Fernando IV foi, durante muito tempo, contestado na sua condição de soberano por tios e primos e manteve-se no trono, não só devido ao pulso firme de sua mãe Maria de Molina, mas também com a ajuda de D. Dinis.

 

Tratado Alcanices.jpg

Tratado de Alcanices (versão portuguesa no Arquivo Nacional Torre do Tombo)

Da parte castelhana, o dinheiro para as bulas só foi disponibilizado quatro anos mais tarde, em Junho de 1301, depois das Cortes de Burgos/Zamora. Os bispos de Lisboa e do Porto acompanharam o arcebispo de Toledo a Roma e, em Setembro de 1301, Bonifácio VIII outorgou as bulas que foram solenemente publicadas na catedral de Burgos, a 7 Dezembro de 1301.

O casamento de D. Fernando IV com D. Constança de Portugal realizou-se em Janeiro de 1302, fazendo da infanta portuguesa rainha de Castela. Durou apenas dez anos, terminando com a morte súbita de Fernando IV, a três meses do seu 27º aniversário. Já tinha aliás nascido o seu herdeiro, o futuro Afonso XI de Castela, neto de D. Dinis e de D. Isabel.

D. Constança acabou por morrer pouco tempo depois do marido, com apenas 23 anos, vítima de uma febre.

Um ano com D. Dinis (50)

Sentença Arbitral de Torrellas (3)

Cristina Torrão, 24.08.25
A Sentença Arbitral de Torrellas, da qual D. Dinis foi o principal medianeiro, foi proferida a 8 de Agosto de 1304. Depois de já ter publicado dois textos (também aqui), referentes a este tema, concluo com uma cena de convívio por mim imaginada. Esta Sentença reuniu, em Torrellas, na fronteira castelhano-aragonesa, as famílias reais de Portugal, Castela e Aragão, além de muitos nobres dos três reinos, clérigos e outras personalidades.

 

Portugueses e aragoneses confraternizaram num banquete. A rainha Branca de Aragão espantou a corte de Isabel com a última novidade vinda de Veneza: um espelho de vidro! As damas pasmavam com a clareza da imagem, acostumadas às folhas de prata polida, ou ao simples reflexo projectado na água. Algumas assustavam-se ao ver-se tão nítidas, descobrindo rugas e defeitos cutâneos e concluindo não apreciarem tais novidades.

Isabel foi a única a não se surpreender com a sua imagem. De resto, preferia prosear com dois famosos estudiosos aragoneses.

Arnaldo Vilanova, filósofo e alquimista, ligado ao movimento dos espirituais franciscanos, era médico oficial da corte desde o tempo de Pedro III e assumia missões diplomáticas ao serviço de Jaime II.

Raimundo Lulo, um franciscano catalão, igualmente ligado à alquimia, expressava pensamentos não entendidos pela maior parte dos seus contemporâneos. Dizia ele, por exemplo, ser possível alcançar a Índia circum-navegando a África, evitando o Mar Mediterrâneo, a rota comercial dominada pelos sarracenos. E ia mais longe. Numa das suas obras, escrevera: A terra é esférica e o mar também é esférico (…) é necessária uma terra oposta às praias inglesas: existe, pois, um continente que não conhecemos.

A existência de um continente desconhecido assustava e chocava, pois nada disso era mencionado nos mapas da época, que apresentavam Jerusalém como o centro da Terra e o mar como o fim do mundo. Outras almas mais iluminadas, porém, como as da rainha portuguesa e do Mestre dos Templários Frei Vasco Fernandes, fascinavam-se. Os cavaleiros do Templo estavam familiarizados com ideias avançadas e mal compreendidas, eram conhecedores de enigmas, sendo inclusive encarados com desconfiança por personalidades como Filipe IV de França.

Raimundo Lulo mencionou ainda a intrigante viagem de um italiano à China, Marco Pólo de sua graça, que, volvido à sua terra, ditara as suas aventuras a um companheiro de prisão, Rusticiano de Pisa.

 

Dom Dinis Papel (1).JPG

Um ano com D. Dinis (47)

Foral de Vila Nova de Gaia e Afonso XI de Castela

Cristina Torrão, 13.08.25
 

Vila Nova de Gaia.png

Faz hoje 737 anos que D. Dinis concedeu foral a Vila Nova de Gaia.

 

Também a 13 de Agosto, mas de 1311, nasceu o futuro rei D. Afonso XI de Castela. Foi o primeiro neto varão de D. Dinis e de D. Isabel, sua mãe era D. Constança de Portugal. O par real português já tinha aliás uma neta, de nome Leonor.

Um ano com D. Dinis (45)

Sentença Arbitral de Torrellas (1)

Cristina Torrão, 08.08.25
Faz hoje 721 anos que se proferiu a Sentença Arbitral de Torrellas, na fronteira castelhano-aragonesa, estabelecendo a paz definitiva entre Aragão e Castela. As quezílias entre os dois reinos eram reflexo da crise de sucessão, que se seguiu à morte de D. Afonso X de Castela, o Sábio, avô de D. Dinis. Tratou-se de um processo longo (durou cerca de vinte anos) e complicado, no qual D. Dinis foi o medianeiro principal, apoiado pelo Papa e pelo rei francês Filipe IV. É por isso estranho ser este acontecimento praticamente desconhecido entre nós. Nunca é referido, quando se enumeram as principais ocorrências do reinado do rei Lavrador.

 

Em Junho de 1304, saiu de Portugal uma solene e enorme comitiva, que incluía quase toda a corte portuguesa. A presença da rainha D. Isabel era imprescindível, pois o monarca aragonês Jaime II era seu irmão.

Jaime II de Sragão.jpeg

Jaime II de Aragão, por Manuel Aguirre y Monsalbe - [3], Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1111454

 

Isabel e Jaime cumprimentaram-se emocionados. Haviam-se separado há mais de vinte anos, nas idades de onze e catorze respectivamente. Dinis achou-os parecidos, mas Jaime não ostentava a palidez da irmã. Era robusto, nas suas vestes escarlates, bordadas a fio de ouro.

O herdeiro do trono português foi apresentado ao tio, que lhe elogiou a postura, arrancando-lhe um sorriso e espantando Dinis, pois raramente assistia a tal reacção por parte do rebento. O monarca aragonês fez ainda questão de mencionar a parecença do moço com o avô Pedro III, embevecendo Isabel. Dinis, no entanto, apreciaria mais que o príncipe fosse parecido com ele… Como Afonso Sanches.

(Do meu romance D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador)

D. Dinis tinha todo o interesse em que a paz fosse estabelecida na Hispânia, pois, embora Portugal não estivesse directamente implicado, esta crise passava pela legitimação dos filhos do falecido D. Sancho IV de Castela. O seu sucessor, Fernando IV, ainda menor, era o noivo da infanta D. Constança de Portugal, filha de D. Dinis e de D. Isabel.

 

Nota: este assunto vai ser tema de mais dois posts.

Um ano com D. Dinis (40)

Levantamento do interdito

Cristina Torrão, 30.06.25
 
A 30 de Junho de 1290, foi levantado um interdito a que o reino de Portugal esteve sujeito desde 1267. Assim esteve o reino proibido de realizar missas e sacramentos (salvo raras excepções) durante mais de vinte anos.
 
Este tinha sido aliás o segundo interdito, no espaço  de doze anos. Um outro havia sido lançado em 1255, por D. Afonso III ter sido acusado de bigamia. Durou até 1263, surgindo o próximo, apenas quatro anos depois, devido aos conflitos entre o mesmo D. Afonso III e o clero. 

 

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D. Dinis na sua corte (ignoro qual o autor desta imagem)

Ao ser aclamado rei, em Fevereiro de 1279, com apenas dezassete anos, D. Dinis herdou um reino sob interdito. E foram longas e difíceis as negociações com a Santa Sé, até o papa Nicolau IV decretar o seu fim, em 1290.

 

Naquele Estio, festejou-se na corte portuguesa um grande acontecimento: Nicolau IV levantou, a 30 de Junho, o interdito a que o reino estivera sujeito mais de vinte anos.

Podiam finalmente abrir-se as igrejas, celebrar-se os Ofícios Divinos, proceder-se aos sacramentos, coisas que, para uma grande parte da população, não passavam de memórias longínquas, para não falar dos que nunca haviam assistido a tais procedimentos. Haviam-se desenvolvido cultos populares misturados com ritos pagãos.

Curiosamente, Isabel interessava-se muito por esses cultos, fazia inclusive planos de, nas suas vilas, integrar alguns nas celebrações oficiais da Igreja. A rainha era sensível a tudo o que fosse espiritual, sentia-se responsável pela salvação das almas das populações e tencionava supervisionar pessoalmente a reorganização das igrejas locais. 

(Do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram O Lavrador)

Um ano com D. Dinis (39)

Bodas de D. Dinis e D. Isabel

Cristina Torrão, 26.06.25
 

Faz hoje 743 anos que D. Dinis e D. Isabel celebraram as suas bodas na vila de Trancoso, Beira Alta.

 

Dinis e Isabel.jpg

 Retrato de D. Dinis e D. Isabel da Sala dos Capelos, Universidade de Coimbra

Os dois estavam casados por procuração desde 11 de Fevereiro de 1281, mas só dezasseis meses mais tarde, em Trancoso, se conheceram. D. Isabel entrou em Portugal por Bragança, onde foi recebida pelo infante D. Afonso (o irmão de D. Dinis), pelo alferes-mor conde Gonçalo Garcia de Sousa e possivelmente pelo mordomo-mor D. Nuno Martins de Chacim. O cargo de mordomo-mor era o mais alto da cúria régia, mas de facto não há certeza de ele estar presente, pois, nesta altura, tinha idade já muito avançada.

D. Nuno Martins de Chacim foi o último representante dos Bragançãos medievais e Aio de D. Dinis, ou seja, foi o escolhido por D. Afonso III para se encarregar da educação do príncipe herdeiro. A localidade de Chacim, que bem conheço, teve a sua importância na Idade Média e até ao século XVIII. Foi inclusive sede de concelho, estatuto que perdeu para Macedo de Cavaleiros, em meados do século XIX.

D. Dinis deslocou-se ao encontro da sua noiva, pelo interior Norte, encontrando-se os dois em Trancoso, onde foi festejada a sua união.

Isabel tornou a encará-lo, com um esboço de sorriso. Dinis tomou-lhe uma das mãos e o franciscano D. Telo, arcebispo de Braga, envolveu as dos soberanos com as suas, num gesto de bênção e aceitação. Portugal encontrava-se sob interdito, com as cerimónias religiosas e os sacramentos proibidos, e aquele gesto legitimava oficialmente a união em solo português dos nubentes já casados por procuração.

(Do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram O Lavrador)

D. Isabel tinha apenas doze anos e depreende-se que D. Dinis tenha esperado que ela se fizesse mulher para consumar o casamento, como era hábito na época. A primeira filha, Constança, só nasceria oito anos mais tarde, a 3 de Janeiro de 1290; o segundo filho, futuro Afonso IV, a 8 de Fevereiro de 1291.

As duas crianças nasceram apenas com um ano de diferença uma da outra. O casal não tornou a ter filhos, durante um casamento que durou quarenta e quatro anos. A vida conjugal de D. Dinis, que teve alguns bastardos, e de D. Isabel, a rainha que foi canonizada, suscita várias interrogações.

Um ano com D. Dinis (36)

Doença de D. Dinis

Cristina Torrão, 20.06.25
 

DinisCoimbra.jpgPormenor da estátua de Dom Dinis, em Coimbra

A 20 de Junho de 1322, dois anos e meio antes da sua morte, D. Dinis foi acometido de doença grave. «Um ligeiro ataque vascular-cerebral ou um pequeno ataque cardíaco?», pergunta-se José Augusto Pizarro, autor da biografia de D. Dinis (Temas e Debates, 2008).

O rei Lavrador tinha, nesta altura, sessenta e um anos e não se lhe conheciam doenças. Encontrava-se, porém, numa fase muito desgastante da sua vida: a guerra civil contra o seu próprio filho e herdeiro. Esta doença verificou-se depois do cerco a Coimbra, que implicou duros combates. Através da mediação da rainha D. Isabel e do conde de Barcelos Pedro Afonso (filho ilegítimo de D. Dinis), o rei assinou as pazes com o infante, mas, no seu regresso a Lisboa, sentiu-se mal.

O estado de D. Dinis melhorou no início do ano seguinte, mas as pazes com o filho foram de pouca dura. O acordo seria quebrado em Outubro de 1323, depois das Cortes de Lisboa. A guerra entraria na sua última fase, com a Batalha de Alvalade, mas dedicar-me-ei ao assunto na altura própria. Para já, um excerto do meu romance, quando já não havia entendimento possível entre pai e filho:

De nada adiantava mandar emissários, depois da humilhação nas Cortes de Lisboa, Afonso tudo faria para se apossar do trono. A batalha era inevitável.

Dinis sabia ter ido longe demais. Mas que força o impedia de se entender com o seu próprio herdeiro? Teria inconscientemente guiado os acontecimentos de maneira a que Afonso Sanches lhe pudesse suceder? Na verdade, via-se incapaz de responder a esta pergunta. 

Naquela noite, véspera da batalha, Dinis mortificava-se. Estava a ir contra a vontade de Deus, chefiando um combate contra o seu único filho legítimo? O rei não conseguia adormecer, novamente atacado por tonturas, dores de cabeça e suores. Tornaria a adoecer? Finar-se-ia ainda antes de se dar o combate?

Nada mais lhe restava senão confiar na força divina. Desejou um milagre. Sabia que Isabel rezava, recolhida no seu paço, depois de semanas de penitências rigorosas. Conseguiria ela provocar um milagre?

Um ano com D. Dinis (41)

Guerra Civil de 1320/25

Cristina Torrão, 01.06.25
 

Afonso IV Selo.jpg

D. Afonso IV, sucessor de D. Dinis

 

A 1 de Julho de 1320, D. Dinis apresentou o seu primeiro manifesto contra a revolta do filho, o futuro D. Afonso IV. Durante a guerra civil, que se verificou entre o Rei Lavrador e o seu herdeiro, D. Dinis apresentou três manifestos.

O primeiro foi lido nos paços reais da alcáçova de Santarém e incluía várias queixas do rei contra o filho, acusando-o de ingratidão. Porém, o mais importante foi a apresentação de provas documentais, desmantelando duas acusações graves feitas pelo infante: seu meio-irmão Afonso Sanches tê-lo-ia mandado envenenar e o pai prepararia o seu afastamento do trono, tendo pedido ao papa a legitimação do mesmo Afonso Sanches.

Alguns momentos marcantes da guerra civil de 1320/25:

- Em Março de 1321, partidários do príncipe assassinaram D. Geraldo, bispo de Évora, junto da Igreja de Santa Maria de Estremoz. D. Geraldo estava, desde 1317, autorizado a excomungar os adversários do rei.

- Em Abri de 1321, o príncipe D. Afonso assumiu o controlo de Leiria e a 15 de Maio, D. Dinis apresentou, em Lisboa, o segundo manifesto contra o filho e seus partidários.

- No Verão de 1321 (altura do desterro de D. Isabel em Alenquer, por D. Dinis a acusar de pactuar com o filho) o príncipe D. Afonso tentou debalde conquistar Santarém e Tomar (a alcáçova de Santarém é recuperada por D. Dinis e o Mestre da Ordem de Cristo fechou a fortaleza de Tomar ao infante).

- Em Setembro de 1321, Jaime II de Aragão, cunhado de D. Dinis, enviou Frei Sancho a Portugal, a fim de reconciliar o pai com o filho, mas o prelado nada pôde fazer.

- A 9 de Dezembro de 1321, houve um grande terramoto em Lisboa, interpretado como castigo de Deus pelos desentendimentos entre pai e filho.

- A 17 de Dezembro de 1321, D. Dinis apresentou o terceiro manifesto, desnaturando o filho e considerando traidor quem o seguisse.

- A 31 de Dezembro de 1321, o príncipe D. Afonso apoderou-se de Coimbra, pelo que foi cercado por D. Dinis, a 7 de Março de 1322.

- Em Janeiro de 1322, D. Dinis recuperou Leiria e castigou duramente os traidores, refugiados no mosteiro de Alcobaça. Nesta altura, o infante D. Afonso ocupou os castelos de Montemor-o-Velho, Feira e Vila Nova de Gaia e a cidade do Porto, onde se lhe juntou o conde Pedro de Barcelos (seu meio-irmão).

- Em Maio de 1322, há um acordo de paz em Leiria. D. Dinis foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa e fez segundo testamento. O seu estado melhorou no início de 1323, mas a paz foi quebrada depois das Cortes de Lisboa, em Outubro deste ano, com D. Afonso decidido a apoderar-se à força do trono. Por intervenção de D. Isabel, não chegou a travar-se a batalha no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

 Dona Isabel na Batalha de Alvalade

 

Um ano com D. Dinis (25)

Casamento de D. Afonso IV

Cristina Torrão, 01.05.25

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Em Maio de 1309 (não se sabe o dia), o futuro rei D. Afonso IV, filho de D. Dinis, casou com a infanta D. Beatriz de Castela. Viriam a ser os pais de D. Pedro I, conhecido pelo seu amor trágico por Inês de Castro (tendo ficado seu pai com a “fama” de a haver mandado assassinar, embora não exista certeza histórica).

À altura do casamento, D. Afonso tinha dezoito anos e a sua noiva dezasseis ou dezassete. Os dois conheciam-se desde a infância. D. Beatriz foi criada pelos sogros, vindo para a corte portuguesa na sequência do Tratado de Alcanices, celebrado a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram definitivamente as fronteiras entre Portugal e Castela e se estabeleceu um duplo consórcio. Ficou igualmente estipulado que D. Fernando IV de Castela, à altura com onze ou doze anos, casaria com a infanta D. Constança de Portugal.

Era costume as noivas-crianças serem criadas pelos sogros. O par real português e a rainha viúva castelhana, D. Maria de Molina, trocaram de filhas. D. Beatriz, de cinco anos, veio para Portugal, enquanto D. Constança, de sete, foi viver para a corte castelhana.

Para a concretização deste duplo consórcio, foi necessário solicitar dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, pois os nubentes eram parentes próximos. Os infantes castelhanos eram filhos do falecido D. Sancho IV, tio de D. Dinis.

No caso de D. Afonso IV e de D. Beatriz, parece ter sido vantajoso terem crescido juntos. Não obstante a tradição  ter conferido um temperamento irascível a este monarca português, ele parece ter-se inteiramente dedicado à família, pois não se lhe conhecem barregãs, nem filhos ilegítimos. Trata-se de um caso raro na nossa historiografia.

O casal teve sete filhos, mas apenas três chegaram à idade adulta, conquanto a mais nova, Leonor, que casou com D. Pedro IV de Aragão, tenha morrido com apenas vinte anos.

Um ano com D. Dinis (23)

Compromisso de casamento

Cristina Torrão, 24.04.25

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Estátuas de D. Dinis e D. Isabel, em São Pedro de Muel

 

Faz hoje 744 anos que D. Dinis assinou o seu compromisso de casamento, em pleno cerco de Vide. O rei cercara o irmão Afonso por este ter decidido construir muralhas em torno da vila e aumentar uma torre, sem lhe pedir autorização.

Os agentes de D. Pedro III de Aragão, o pai da noiva, eram Conrado Lanceote e Bertrando de Vila Franca. O Rei Lavrador fez doação à noiva por núpcias das vilas de Óbidos, Abrantes e Porto de Mós, doação que ficava assegurada pelas arras dos castelos de Vila Viçosa, Monforte, Sintra, Ourém, Feira, Gaia, Lanhoso, Nóbrega, Santo Estêvão de Chaves, Monforte de Rio Livre, Portel e Montalegre e mais dez mil libras.

Na verdade, D. Dinis e D. Isabel, já estavam casados, nesta altura, embora ainda não se conhecessem. O casamento ocorreu por procuração, a 11 de Fevereiro de 1281, no Paço Real de Barcelona. Os cavaleiros João Pires Velho e Vasco Pires e o clérigo D. João Martins de Soalhães, futuro bispo de Lisboa representaram o rei, por palavras de presente, na cerimónia de recebimento da noiva.

D. Isabel só deu entrada em Portugal cerca de ano e meio mais tarde, sendo as bodas do par real festejadas em Trancoso, a 26 de Junho de 1282.

A tradição diz-nos que D. Dinis não apreciava os exageros caritativos da sua rainha. E que esta muito sofreu com os casos extra-conjugais do marido. A este propósito, transcrevo um pequeno excerto do meu romance:

 

Num serão abafado e quente de Junho, vieram dizer-lhe que a rainha não viria aos seus aposentos, como por ele solicitado, pois preparava-se para ir ao hospital de Santo Elói. Dinis dirigiu-se furioso ao Paço da sua consorte, apanhando-a já de saída, envolta pela cabeça numa capa escura muito simples, de camponesa.

- Proíbo-vos de deixar o Paço!

Ela limitou-se a replicar:

- Tenho os meus compromissos.

- Que adiareis, por uma vez. Hei mister de vos falar. Ou serão os vossos enfermos mais importantes do que el-rei?

- Não se trata de serem mais ou menos importantes. Trata-se de cuidar de quem necessita.

- Também eu hei mister de algo: de esclarecimentos. Dizei, que vos incomoda? Foi algo que disse ou… fiz?

Isabel fixou-o com os seus olhos perscrutadores. Dinis pensou ver naquele brilho uma certa acusação, algum ciúme, e convenceu-se de que ela realmente se vingava do sucedido em Coimbra. Em vez de se sentir culpado, porém, empertigou-se. Quiçá fosse aquele jeito dela de desprezar tudo o que fosse mácula humana. Mas não lhe competia, afinal, aceitar que ele tivesse as suas barregãs?

Um ano com D. Dinis (22)

Mosteiro de Santa Clara de Coimbra

Cristina Torrão, 19.04.25

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Mosteiro de Santa Clara-a-Velha

 

A 19 de Abril de 1314, D. Isabel obteve do papa Clemente V autorização para fundar o mosteiro de Santa Clara, em Coimbra. Neste mesmo dia, a rainha fez o seu primeiro testamento, onde expressou o desejo de ser enterrada em Alcobaça, desejo que viria a modificar num outro testamento, optando por Santa Clara. É curioso verificar ela não ter desejado ser sepultada junto de D. Dinis, no mosteiro de Odivelas. O rei morreu onze anos antes dela.

Clemente V foi o papa que extinguiu os Templários. A autorização para a fundação do mosteiro de Santa Clara foi das últimas, senão a última, por ele outorgada, pois morreu apenas um dia depois.

Um ano com D. Dinis (12)

Cerco a Coimbra

Cristina Torrão, 07.03.25
A 7 de Março de 1322, D. Dinis cercou a cidade de Coimbra. O reino português encontrava-se em plena guerra civil, entre o rei e o seu herdeiro, futuro D. Afonso IV. O príncipe havia tomado posse de Coimbra, pela força, a 31 de Dezembro de 1321. Naquele dia de Março, também D. Isabel para lá se dirigiu, deixando o seu desterro em Alenquer, ordenado pelo próprio D. Dinis, que a acusava de pactuar com o filho. Esta guerra desgastou muito o rei, pode mesmo ter acelerado a sua morte.

 

Como se vê, havia um grande drama familiar por trás da guerra que dilacerou o reino português no início do século XIV. Não deixa de ser estranho, tendo em conta os protagonistas: um rei culto, justo e amigo do povo; uma rainha exemplar; o filho dos dois.

DinisCoimbra.jpgPormenor da estátua de D. Dinis em Coimbra

Vendo a derrota à frente, Dinis pediu a Isabel:

- Suplico-vos que arranjeis guisa de estabelecer a paz sem que haja vencedor nem derrotado.

- Pedis-me o impossível.

Dinis aproximou-se dela e, pegando-lhe nas mãos, insistiu:

- Intercedei junto de Deus! Diz-se já haverdes feito milagres… Não o podereis tornar a fazer?

A rainha engoliu em seco e replicou:

- A graça de fazer milagres só é concedida quando Deus assim o entende, não depende da minha vontade. Sou um mero instrumento nas Suas mãos.

- Quereis dizer nada poderdes fazer por mim?

Ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu, disse:

- Darei o meu melhor. Mas haverei mister de auxílio, de um mediador, a quem Afonso dê realmente ouvidos. E não me ocorre mais ninguém tão adequado como o conde de Barcelos.

Dinis estremeceu perante a menção daquele seu bastardo, por ele próprio destituído do cargo de alferes-mor e da maior parte das suas rendas, obrigando-o ao exílio. Até àquele momento, considerara-o um traidor. Agora, deu consigo a perguntar:

- Pensais que ele consentirá em falar comigo?

- Com certeza. Pedro Afonso é uma alma gentil, que não guarda rancor… E que vos ama e respeita como ninguém.*

 

Graças às intervenções de D. Isabel e do conde D. Pedro de Barcelos, o rei retirou para Leiria e o infante para Pombal. Em Maio, encontraram-se em Leiria e assinaram um acordo de paz. D. Dinis, porém, que já passara dos sessenta, foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa.

 

Nos piores momentos da sua enfermidade, os cuidados e a dedicação de Isabel provaram ser imprescindíveis. O rosto dela iluminava o dia mais triste, a sua voz confortava, a sua serenidade dava confiança e coragem e o toque das suas mãos era bálsamo para almas aflitas. Isabel era a esperança transformada gente, como se Deus houvesse decidido dar uma forma humana a esse sentimento. E, apesar de haver amado outras mulheres e de, muitas vezes, haver odiado a rainha, Dinis não desejaria ter qualquer outra perto de si naquelas horas difíceis.*

 

D. Dinis melhorou. Mas a paz assinada com o filho foi quebrada cerca de ano e meio mais tarde, depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323. A guerra civil entraria na sua última fase.

Afonso IV Selo.jpgD. Afonso IV

 

* Excertos do meu romance "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador"

Um ano com D. Dinis (4)

O casamento de D. Dinis

Cristina Torrão, 11.02.25

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Faz hoje 744 anos que D. Dinis e D. Isabel casaram por procuração.

O matrimónio de D. Dinis representou um problema, pois, por desavenças entre seu falecido pai D. Afonso III e o clero, o reino de Portugal esteve sob interdito durante cerca de vinte anos, ou seja, salvo raras excepções, as igrejas mantiveram-se fechadas, sendo proibidas todas as cerimónias religiosas, assim como os sacramentos.

O consórcio com D. Isabel foi combinado, a fim de quebrar a supremacia de Castela. D. Dinis nomeou três procuradores, que, a 11 de Fevereiro de 1281, o representaram, por palavras de presente, na cerimónia de recebimento de D. Isabel de Aragão, no Paço Real de Barcelona. Os três procuradores eram os cavaleiros João Pires Velho e Vasco Pires e o clérigo D. João Martins de Soalhães, futuro bispo de Lisboa.

D. Dinis tinha dezanove anos e D. Isabel apenas dez. Casamentos destes eram habituais, na Idade Média, principalmente, no meio nobre. Representavam, acima de tudo, uma aliança entre duas famílias. Por vezes, eram combinados consórcios entre crianças (noivo e noiva) de quatro ou cinco anos.

Isto não quer, porém, dizer que a prática da pedofilia fosse comum. Normalmente, aguardava-se que a jovem esposa atingisse idade apropriada para consumar a união. O primeiro parto costumava acontecer aos quinze ou dezasseis anos. D. Isabel tinha aliás já dezanove anos.

D. Isabel era filha do rei D. Pedro III de Aragão e de D. Constança da Sicília. Só deu entrada em Portugal cerca de ano e meio depois da cerimónia em Barcelona, sendo as bodas do par real festejadas em Trancoso, a 26 de Junho de 1282.

O casamento de D. Dinis e D. Isabel durou quase quarenta e quatro anos. O casal teve dois filhos: a infanta D. Constança (rainha de Castela, por casamento) e o infante D. Afonso, futuro rei D. Afonso IV.

Um ano com D. Dinis (3)

O sucessor de D. Dinis

Cristina Torrão, 08.02.25

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Faz hoje 734 anos que nasceu um dos reis mais enigmáticos da nossa História: D. Afonso IV

Ficou sobretudo conhecido por ter mandado assassinar Inês de Castro, embora os verdadeiros contornos dessa conspiração permaneçam nebulosos.

D. Afonso IV era filho de D. Dinis e de D. Isabel. Diz-se que era mau e irascível desde a infância, o que não deixa de ser curioso, sendo os seus pais um rei exemplar e uma rainha "santa". Muitas vezes me pergunto: porque não conseguiram D. Dinis e D. Isabel transmitir bom carácter ao filho? E porque nunca D. Dinis se deu bem com o seu próprio herdeiro? Coisas que ficarão para sempre envolvidas na bruma dos séculos...

D. Afonso IV casou com a infanta D. Beatriz de Castela, dois anos mais nova, filha de seu tio-avô, o rei D. Sancho IV, e de D. Maria de Molina. O casamento parece ter sido feliz, Afonso IV é mesmo um caso raro entre os monarcas portugueses, pois não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. Não deixa de ser estranho num homem que se julga ter sido destituído de escrúpulos.

Terá sido dono de grande moralidade, transmitida pela mãe D. Isabel? Isto poderia explicar a sua falta de tolerância a desvios de comportamento do seu filho e herdeiro, D. Pedro I. E também explicaria que, sendo mais ligado à mãe, se tivesse afastado do pai. Na verdade, D. Dinis preferia a companhia do seu bastardo Afonso Sanches.

A infanta D. Beatriz de Castela, rainha de Portugal, viveu na corte portuguesa desde os quatro anos de idade. Foi criada pela sogra D. Isabel, assim que ficou estabelecido o seu consórcio com o príncipe herdeiro, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297. Neste Tratado, ficaram definitivamente estabelecidas as fronteiras do reino português. 

Todas as informações conhecidas sobre D. Afonso IV estão reunidas na biografia de autoria de Bernardo Vasconcelos e Sousa (Círculo de Leitores, 2005).

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