Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (67)

Infanta Dona Constança de Portugal, Rainha de Castela

Cristina Torrão, 03.01.26

Constança 1.jpg

(sobre a imagem, ver nota no final)

 

A 3 de Janeiro de 1290, nasceu a infanta D. Constança de Portugal, a primeira filha de D. Dinis e de D. Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei D. Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta D. Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois ficou prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual a noiva ser criada pelos sogros.

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

Fernando IV e Maria de Molina.jpg

Fernando IV e sua mãe Maria de Molina, Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863.

 

O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir protecção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

A cena política de Castela agitou-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino. A situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas da corte e as lutas entre os ambiciosos nobres castelhanos e aragoneses. Cortou inclusivamente relações com a sogra.

Sobre isto, um pequeno excerto do meu romance:

No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho. No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina.

Dinis censurou Isabel por haver arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro.

Constança faleceria poucos dias depois, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.

 

Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento que avolumou as discórdias entre D. Dinis e o seu herdeiro: a sentença do tribunal régio, no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos, D. João Afonso Telo.

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de D. Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, D. Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim desse ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches. Foi, porém, exactamente isso que acabaria por acontecer. Por decisão régia!

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de D. Dinis, foi uma razão de peso para a revolta do príncipe herdeiro Afonso. Como sabemos, essa revolta desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador. Mas sejamos honestos: este rei, tão culto e cujo reinado ficou marcado pela justiça, falhou redondamente, neste preceito, ao sujeitar o seu único filho legítimo a várias humilhações.

 

Afonso IV Selo.jpgD. Afonso IV, filho de D. Dinis

 

Nota em relação à primeira imagem: não encontrei nenhuma representação de D. Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem da série Game of Thrones. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança descrita no meu romance.

Um ano com D. Dinis (62)

Morte de Dona Constança

Cristina Torrão, 18.11.25
 

- Que se passa?

Isabel respondeu num sussurro:

- Tive um sonho…

- Um pesadelo?

- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…

Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera aos seus aposentos, numa noite tão fria. Acabou por dizer:

- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta.

Isabel assim fez. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:

- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.

Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:

- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…

Começou a tremer mais violentamente:

- Sonhei com ele…

- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…

- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… Que Constança havia morrido!

 

A 18 de Novembro de 1313 morreu a rainha D. Constança de Castela, antiga infanta portuguesa, filha de D. Dinis e D. Isabel, com apenas vinte e três anos.

 

Constança 1.jpg

 

Nota: não encontrei nenhuma representação de D. Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem da serie Games of Thrones, interpretada por Sophie Turner. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance.

Um ano com D. Dinis (52)

Tratado de Alcanices

Cristina Torrão, 12.09.25

Tratado Alcanices - selo.jpg

Selo comemorativo do Tratado de Alcanices (circulou de 12-09-1997 a 30-09-2001)

 

12 de Setembro é uma data muito importante na História de Portugal. Foi neste dia, no ano de 1297, que se definiram novas fronteiras entre Portugal e Castela, no Tratado de Alcanices. Estas fronteiras sofreram alterações mínimas nos últimos 728 anos, fazendo de Portugal um caso único na Europa. Foi através do Tratado de Alcanices que Moura, Serpa, Noudar e Mourão foram incluídas no território português, além de alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal.

Tratado Alcanices - Territórios.jpg

Celebrado entre D. Dinis e D. Fernando IV, que necessitou da tutela da mãe D. Maria de Molina, pois tinha apenas onze anos, o Tratado de Alcanices serviu ainda para estabelecer um duplo consórcio:

- O infante D. Afonso de Portugal, futuro rei Afonso IV, desposaria D. Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. O infante português tinha, à altura, apenas seis anos, a infanta castelhana era um pouco mais nova. Casariam em Maio de 1309.

- A infanta D. Constança de Portugal, de sete anos, ficou prometida ao próprio rei Fernando IV de Castela.

Em casos destes, era costume as noivas mudarem-se para o seu novo lar, a fim de serem criadas pelos sogros, pelo que D. Dinis e D. Isabel trocaram a filha Constança pela infanta castelhana. 

Solicitaram-se dispendiosas bulas de dispensa de parentesco a Roma, pois os infantes castelhanos eram primos de D. Dinis, tendo sido o pai deles, o falecido Sancho IV de Castela, tio do rei português.

Também se solicitaram bulas de legitimação do jovem rei Fernando IV e de seus irmãos, já que o casamento dos pais nunca havia sido legitimado, igualmente por parentesco. Fernando IV foi, durante muito tempo, contestado na sua condição de soberano por tios e primos e manteve-se no trono, não só devido ao pulso firme de sua mãe Maria de Molina, mas também com a ajuda de D. Dinis.

 

Tratado Alcanices.jpg

Tratado de Alcanices (versão portuguesa no Arquivo Nacional Torre do Tombo)

Da parte castelhana, o dinheiro para as bulas só foi disponibilizado quatro anos mais tarde, em Junho de 1301, depois das Cortes de Burgos/Zamora. Os bispos de Lisboa e do Porto acompanharam o arcebispo de Toledo a Roma e, em Setembro de 1301, Bonifácio VIII outorgou as bulas que foram solenemente publicadas na catedral de Burgos, a 7 Dezembro de 1301.

O casamento de D. Fernando IV com D. Constança de Portugal realizou-se em Janeiro de 1302, fazendo da infanta portuguesa rainha de Castela. Durou apenas dez anos, terminando com a morte súbita de Fernando IV, a três meses do seu 27º aniversário. Já tinha aliás nascido o seu herdeiro, o futuro Afonso XI de Castela, neto de D. Dinis e de D. Isabel.

D. Constança acabou por morrer pouco tempo depois do marido, com apenas 23 anos, vítima de uma febre.

Um ano com D. Dinis (47)

Foral de Vila Nova de Gaia e Afonso XI de Castela

Cristina Torrão, 13.08.25
 

Vila Nova de Gaia.png

Faz hoje 737 anos que D. Dinis concedeu foral a Vila Nova de Gaia.

 

Também a 13 de Agosto, mas de 1311, nasceu o futuro rei D. Afonso XI de Castela. Foi o primeiro neto varão de D. Dinis e de D. Isabel, sua mãe era D. Constança de Portugal. O par real português já tinha aliás uma neta, de nome Leonor.

Um ano com D. Dinis (25)

Casamento de D. Afonso IV

Cristina Torrão, 01.05.25

Afonso IV Selo.jpg

Em Maio de 1309 (não se sabe o dia), o futuro rei D. Afonso IV, filho de D. Dinis, casou com a infanta D. Beatriz de Castela. Viriam a ser os pais de D. Pedro I, conhecido pelo seu amor trágico por Inês de Castro (tendo ficado seu pai com a “fama” de a haver mandado assassinar, embora não exista certeza histórica).

À altura do casamento, D. Afonso tinha dezoito anos e a sua noiva dezasseis ou dezassete. Os dois conheciam-se desde a infância. D. Beatriz foi criada pelos sogros, vindo para a corte portuguesa na sequência do Tratado de Alcanices, celebrado a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram definitivamente as fronteiras entre Portugal e Castela e se estabeleceu um duplo consórcio. Ficou igualmente estipulado que D. Fernando IV de Castela, à altura com onze ou doze anos, casaria com a infanta D. Constança de Portugal.

Era costume as noivas-crianças serem criadas pelos sogros. O par real português e a rainha viúva castelhana, D. Maria de Molina, trocaram de filhas. D. Beatriz, de cinco anos, veio para Portugal, enquanto D. Constança, de sete, foi viver para a corte castelhana.

Para a concretização deste duplo consórcio, foi necessário solicitar dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, pois os nubentes eram parentes próximos. Os infantes castelhanos eram filhos do falecido D. Sancho IV, tio de D. Dinis.

No caso de D. Afonso IV e de D. Beatriz, parece ter sido vantajoso terem crescido juntos. Não obstante a tradição  ter conferido um temperamento irascível a este monarca português, ele parece ter-se inteiramente dedicado à família, pois não se lhe conhecem barregãs, nem filhos ilegítimos. Trata-se de um caso raro na nossa historiografia.

O casal teve sete filhos, mas apenas três chegaram à idade adulta, conquanto a mais nova, Leonor, que casou com D. Pedro IV de Aragão, tenha morrido com apenas vinte anos.