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Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (71)

O neto chamado Dinis

Cristina Torrão, 12.01.26
 

D. Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

Porém, as desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves. D. Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino com apenas cinco meses. 

A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho?*

O pequeno infante Dinis morreria com cerca de um ano de idade, cumprindo o mesmo destino de um seu irmão, chamado Afonso, nascido em 1315.

Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto, nas vésperas do primeiro aniversário do pequeno. Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.

(…)

O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo (...) Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome?*

Dos sete filhos do futuro D. Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho, futuro rei D. Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319.

 

Pedro I.jpg

D. Pedro I, neto de D. Dinis 

 

* Excertos do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

Um ano com D. Dinis (67)

Infanta Dona Constança de Portugal, Rainha de Castela

Cristina Torrão, 03.01.26

Constança 1.jpg

(sobre a imagem, ver nota no final)

 

A 3 de Janeiro de 1290, nasceu a infanta D. Constança de Portugal, a primeira filha de D. Dinis e de D. Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei D. Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta D. Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois ficou prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual a noiva ser criada pelos sogros.

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

Fernando IV e Maria de Molina.jpg

Fernando IV e sua mãe Maria de Molina, Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863.

 

O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir protecção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

A cena política de Castela agitou-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino. A situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas da corte e as lutas entre os ambiciosos nobres castelhanos e aragoneses. Cortou inclusivamente relações com a sogra.

Sobre isto, um pequeno excerto do meu romance:

No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho. No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina.

Dinis censurou Isabel por haver arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro.

Constança faleceria poucos dias depois, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.

 

Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento que avolumou as discórdias entre D. Dinis e o seu herdeiro: a sentença do tribunal régio, no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos, D. João Afonso Telo.

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de D. Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, D. Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim desse ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches. Foi, porém, exactamente isso que acabaria por acontecer. Por decisão régia!

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de D. Dinis, foi uma razão de peso para a revolta do príncipe herdeiro Afonso. Como sabemos, essa revolta desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador. Mas sejamos honestos: este rei, tão culto e cujo reinado ficou marcado pela justiça, falhou redondamente, neste preceito, ao sujeitar o seu único filho legítimo a várias humilhações.

 

Afonso IV Selo.jpgD. Afonso IV, filho de D. Dinis

 

Nota em relação à primeira imagem: não encontrei nenhuma representação de D. Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem da série Game of Thrones. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança descrita no meu romance.

Um ano com D. Dinis (59)

Os últimos meses

Cristina Torrão, 25.10.25

Em Outubro de 1324, D. Dinis fez-se ao caminho de Santarém, como de costume. Tinha-se tornado um hábito passar o Natal e o fim do ano naquela cidade, só regressando a Lisboa na Primavera. Naquele ano, porém, D. Dinis fora desaconselhado a empreender a viagem, devido ao seu precário estado de saúde. A rainha D. Isabel tratava dele, administrando-lhe pessoalmente os remédios.

Durante a viagem, D. Dinis sentiu-se tão mal, que a rainha mandou chamar o filho D. Afonso, encontrando-se este em Leiria. Depois de uma desgastante guerra civil, o rei e o seu herdeiro haviam assinado as pazes a 26 de Fevereiro daquele ano. A guerra terminara, mas os dois continuavam desentendidos, não se falavam e evitavam encontrar-se. 

Vendo o pai em tão mau estado, porém, o infante tudo fez para cuidar dele. Com a sua ajuda, D. Dinis chegou a Santarém, onde melhorou um pouco.

Mas o destino do Rei Lavrador estava traçado. Sentindo a morte aproximar-se, fez o seu terceiro e último testamento a 31 de Dezembro. Morreria a 7 de Janeiro seguinte, com 63 anos.

 

Um ano com D. Dinis (58)

Cortes de Lisboa de 1323

Cristina Torrão, 17.10.25

Espada Funeráriam - inglês.jpg

Em Outubro de 1323 (não se sabe em que dias) reuniram-se Cortes em Lisboa, a pedido do infante D. Afonso, o herdeiro de D. Dinis. E reacendeu-se a guerra civil, que já se dera por terminada.

O infante D. Afonso exigia, entre outras coisas, que fosse retirado a seu meio-irmão Afonso Sanches o cargo de mordomo-mor, assim como as terras e dinheiros a ele doados pelo pai de ambos. Estas suas pretensões foram, porém, desleixadas, tratou-se de outros assuntos, acabando com a paz frágil, negociada entre pai e filho em Leiria, no ano anterior. A seguir ao cerco a Coimbra, essa paz tinha sido possível através da mediação da rainha D. Isabel e do conde D. Pedro de Barcelos.

Deixo-vos com um excerto do meu romance relativo às Cortes de Lisboa, quando o príncipe herdeiro viu os seus desejos ignorados pelos pares do reino, sem que seu pai interviesse a seu favor:

Ninguém abriu a boca. Mas Dinis arrependeu-se daquele procedimento em relação ao príncipe. Apesar de Afonso se manter digno, a humilhação era enorme, principalmente, perante a notória satisfação dos meios-irmãos. Naquele instante, o rei apercebeu-se haver exagerado na sua protecção e no seu favorecimento dos bastardos.

Não podia, porém, voltar atrás, dando o dito por não dito e, por isso, nada fez para impedir o voltar de costas do seu herdeiro àquela assembleia.

No fim do dia, o rei foi informado que o príncipe deixara a cidade e, passado duas semanas, soube que juntava os seus partidários em Santarém, planeando marchar sobre Lisboa, a fim de se apoderar do trono à força!

Era a ruptura total. Embora Isabel não o dissesse, Dinis sabia que ela o considerava responsável pela situação. Ele próprio assim se sentia. A rainha recolheu-se novamente em jejuns e penitências, recusando falar com ele.

Não obstante o arrependimento, o rei não podia deixar de defender o seu trono. Passou o mês de Novembro a organizar um exército, formado principalmente pelos combatentes do concelho de Lisboa.

A questão decidir-se-ia numa batalha em campo aberto, onde não existiria lugar para piedades nem perdões. As tropas digladiar-se-iam até haver um vencedor.

Os exércitos aquartelaram-se na zona do campo de Alvalade.

Um ano com D. Dinis (52)

Tratado de Alcanices

Cristina Torrão, 12.09.25

Tratado Alcanices - selo.jpg

Selo comemorativo do Tratado de Alcanices (circulou de 12-09-1997 a 30-09-2001)

 

12 de Setembro é uma data muito importante na História de Portugal. Foi neste dia, no ano de 1297, que se definiram novas fronteiras entre Portugal e Castela, no Tratado de Alcanices. Estas fronteiras sofreram alterações mínimas nos últimos 728 anos, fazendo de Portugal um caso único na Europa. Foi através do Tratado de Alcanices que Moura, Serpa, Noudar e Mourão foram incluídas no território português, além de alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal.

Tratado Alcanices - Territórios.jpg

Celebrado entre D. Dinis e D. Fernando IV, que necessitou da tutela da mãe D. Maria de Molina, pois tinha apenas onze anos, o Tratado de Alcanices serviu ainda para estabelecer um duplo consórcio:

- O infante D. Afonso de Portugal, futuro rei Afonso IV, desposaria D. Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. O infante português tinha, à altura, apenas seis anos, a infanta castelhana era um pouco mais nova. Casariam em Maio de 1309.

- A infanta D. Constança de Portugal, de sete anos, ficou prometida ao próprio rei Fernando IV de Castela.

Em casos destes, era costume as noivas mudarem-se para o seu novo lar, a fim de serem criadas pelos sogros, pelo que D. Dinis e D. Isabel trocaram a filha Constança pela infanta castelhana. 

Solicitaram-se dispendiosas bulas de dispensa de parentesco a Roma, pois os infantes castelhanos eram primos de D. Dinis, tendo sido o pai deles, o falecido Sancho IV de Castela, tio do rei português.

Também se solicitaram bulas de legitimação do jovem rei Fernando IV e de seus irmãos, já que o casamento dos pais nunca havia sido legitimado, igualmente por parentesco. Fernando IV foi, durante muito tempo, contestado na sua condição de soberano por tios e primos e manteve-se no trono, não só devido ao pulso firme de sua mãe Maria de Molina, mas também com a ajuda de D. Dinis.

 

Tratado Alcanices.jpg

Tratado de Alcanices (versão portuguesa no Arquivo Nacional Torre do Tombo)

Da parte castelhana, o dinheiro para as bulas só foi disponibilizado quatro anos mais tarde, em Junho de 1301, depois das Cortes de Burgos/Zamora. Os bispos de Lisboa e do Porto acompanharam o arcebispo de Toledo a Roma e, em Setembro de 1301, Bonifácio VIII outorgou as bulas que foram solenemente publicadas na catedral de Burgos, a 7 Dezembro de 1301.

O casamento de D. Fernando IV com D. Constança de Portugal realizou-se em Janeiro de 1302, fazendo da infanta portuguesa rainha de Castela. Durou apenas dez anos, terminando com a morte súbita de Fernando IV, a três meses do seu 27º aniversário. Já tinha aliás nascido o seu herdeiro, o futuro Afonso XI de Castela, neto de D. Dinis e de D. Isabel.

D. Constança acabou por morrer pouco tempo depois do marido, com apenas 23 anos, vítima de uma febre.

Um ano com D. Dinis (36)

Doença de D. Dinis

Cristina Torrão, 20.06.25
 

DinisCoimbra.jpgPormenor da estátua de Dom Dinis, em Coimbra

A 20 de Junho de 1322, dois anos e meio antes da sua morte, D. Dinis foi acometido de doença grave. «Um ligeiro ataque vascular-cerebral ou um pequeno ataque cardíaco?», pergunta-se José Augusto Pizarro, autor da biografia de D. Dinis (Temas e Debates, 2008).

O rei Lavrador tinha, nesta altura, sessenta e um anos e não se lhe conheciam doenças. Encontrava-se, porém, numa fase muito desgastante da sua vida: a guerra civil contra o seu próprio filho e herdeiro. Esta doença verificou-se depois do cerco a Coimbra, que implicou duros combates. Através da mediação da rainha D. Isabel e do conde de Barcelos Pedro Afonso (filho ilegítimo de D. Dinis), o rei assinou as pazes com o infante, mas, no seu regresso a Lisboa, sentiu-se mal.

O estado de D. Dinis melhorou no início do ano seguinte, mas as pazes com o filho foram de pouca dura. O acordo seria quebrado em Outubro de 1323, depois das Cortes de Lisboa. A guerra entraria na sua última fase, com a Batalha de Alvalade, mas dedicar-me-ei ao assunto na altura própria. Para já, um excerto do meu romance, quando já não havia entendimento possível entre pai e filho:

De nada adiantava mandar emissários, depois da humilhação nas Cortes de Lisboa, Afonso tudo faria para se apossar do trono. A batalha era inevitável.

Dinis sabia ter ido longe demais. Mas que força o impedia de se entender com o seu próprio herdeiro? Teria inconscientemente guiado os acontecimentos de maneira a que Afonso Sanches lhe pudesse suceder? Na verdade, via-se incapaz de responder a esta pergunta. 

Naquela noite, véspera da batalha, Dinis mortificava-se. Estava a ir contra a vontade de Deus, chefiando um combate contra o seu único filho legítimo? O rei não conseguia adormecer, novamente atacado por tonturas, dores de cabeça e suores. Tornaria a adoecer? Finar-se-ia ainda antes de se dar o combate?

Nada mais lhe restava senão confiar na força divina. Desejou um milagre. Sabia que Isabel rezava, recolhida no seu paço, depois de semanas de penitências rigorosas. Conseguiria ela provocar um milagre?

Um ano com D. Dinis (41)

Guerra Civil de 1320/25

Cristina Torrão, 01.06.25
 

Afonso IV Selo.jpg

D. Afonso IV, sucessor de D. Dinis

 

A 1 de Julho de 1320, D. Dinis apresentou o seu primeiro manifesto contra a revolta do filho, o futuro D. Afonso IV. Durante a guerra civil, que se verificou entre o Rei Lavrador e o seu herdeiro, D. Dinis apresentou três manifestos.

O primeiro foi lido nos paços reais da alcáçova de Santarém e incluía várias queixas do rei contra o filho, acusando-o de ingratidão. Porém, o mais importante foi a apresentação de provas documentais, desmantelando duas acusações graves feitas pelo infante: seu meio-irmão Afonso Sanches tê-lo-ia mandado envenenar e o pai prepararia o seu afastamento do trono, tendo pedido ao papa a legitimação do mesmo Afonso Sanches.

Alguns momentos marcantes da guerra civil de 1320/25:

- Em Março de 1321, partidários do príncipe assassinaram D. Geraldo, bispo de Évora, junto da Igreja de Santa Maria de Estremoz. D. Geraldo estava, desde 1317, autorizado a excomungar os adversários do rei.

- Em Abri de 1321, o príncipe D. Afonso assumiu o controlo de Leiria e a 15 de Maio, D. Dinis apresentou, em Lisboa, o segundo manifesto contra o filho e seus partidários.

- No Verão de 1321 (altura do desterro de D. Isabel em Alenquer, por D. Dinis a acusar de pactuar com o filho) o príncipe D. Afonso tentou debalde conquistar Santarém e Tomar (a alcáçova de Santarém é recuperada por D. Dinis e o Mestre da Ordem de Cristo fechou a fortaleza de Tomar ao infante).

- Em Setembro de 1321, Jaime II de Aragão, cunhado de D. Dinis, enviou Frei Sancho a Portugal, a fim de reconciliar o pai com o filho, mas o prelado nada pôde fazer.

- A 9 de Dezembro de 1321, houve um grande terramoto em Lisboa, interpretado como castigo de Deus pelos desentendimentos entre pai e filho.

- A 17 de Dezembro de 1321, D. Dinis apresentou o terceiro manifesto, desnaturando o filho e considerando traidor quem o seguisse.

- A 31 de Dezembro de 1321, o príncipe D. Afonso apoderou-se de Coimbra, pelo que foi cercado por D. Dinis, a 7 de Março de 1322.

- Em Janeiro de 1322, D. Dinis recuperou Leiria e castigou duramente os traidores, refugiados no mosteiro de Alcobaça. Nesta altura, o infante D. Afonso ocupou os castelos de Montemor-o-Velho, Feira e Vila Nova de Gaia e a cidade do Porto, onde se lhe juntou o conde Pedro de Barcelos (seu meio-irmão).

- Em Maio de 1322, há um acordo de paz em Leiria. D. Dinis foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa e fez segundo testamento. O seu estado melhorou no início de 1323, mas a paz foi quebrada depois das Cortes de Lisboa, em Outubro deste ano, com D. Afonso decidido a apoderar-se à força do trono. Por intervenção de D. Isabel, não chegou a travar-se a batalha no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

 Dona Isabel na Batalha de Alvalade

 

Um ano com D. Dinis (25)

Casamento de D. Afonso IV

Cristina Torrão, 01.05.25

Afonso IV Selo.jpg

Em Maio de 1309 (não se sabe o dia), o futuro rei D. Afonso IV, filho de D. Dinis, casou com a infanta D. Beatriz de Castela. Viriam a ser os pais de D. Pedro I, conhecido pelo seu amor trágico por Inês de Castro (tendo ficado seu pai com a “fama” de a haver mandado assassinar, embora não exista certeza histórica).

À altura do casamento, D. Afonso tinha dezoito anos e a sua noiva dezasseis ou dezassete. Os dois conheciam-se desde a infância. D. Beatriz foi criada pelos sogros, vindo para a corte portuguesa na sequência do Tratado de Alcanices, celebrado a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram definitivamente as fronteiras entre Portugal e Castela e se estabeleceu um duplo consórcio. Ficou igualmente estipulado que D. Fernando IV de Castela, à altura com onze ou doze anos, casaria com a infanta D. Constança de Portugal.

Era costume as noivas-crianças serem criadas pelos sogros. O par real português e a rainha viúva castelhana, D. Maria de Molina, trocaram de filhas. D. Beatriz, de cinco anos, veio para Portugal, enquanto D. Constança, de sete, foi viver para a corte castelhana.

Para a concretização deste duplo consórcio, foi necessário solicitar dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, pois os nubentes eram parentes próximos. Os infantes castelhanos eram filhos do falecido D. Sancho IV, tio de D. Dinis.

No caso de D. Afonso IV e de D. Beatriz, parece ter sido vantajoso terem crescido juntos. Não obstante a tradição  ter conferido um temperamento irascível a este monarca português, ele parece ter-se inteiramente dedicado à família, pois não se lhe conhecem barregãs, nem filhos ilegítimos. Trata-se de um caso raro na nossa historiografia.

O casal teve sete filhos, mas apenas três chegaram à idade adulta, conquanto a mais nova, Leonor, que casou com D. Pedro IV de Aragão, tenha morrido com apenas vinte anos.

Um ano com D. Dinis (19)

Nascimento de D. Pedro I e Cerco a Portalegre

Cristina Torrão, 08.04.25

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Representação do Rei Pedro I de Portugal na Sala dos Reis, Quinta da Regaleira, Sintra

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=62092638

Faz hoje 705 anos que nasceu D. Pedro I. Como todos sabemos, este rei ficou sobretudo conhecido pelo seu trágico amor por Inês de Castro.

D. Pedro I era neto de D. Dinis e de D. Isabel, filho de D. Afonso IV. Nasceu numa época complicada, em plena guerra civil, que opunha o seu avô ao seu pai.

Inês de Castro viria a ser assassinada no Paço mandado construir pela rainha Santa Isabel , junto ao mosteiro de Santa Clara, em Coimbra.

Nota: Encontrei datas diferentes (18 e 19 de Abril) para o nascimento de D. Pedro I, na internet. A data de 8 de Abril de 1320 é, contudo, apontada pela Dra. Cristina Pimenta, autora da biografia de D. Pedro I (Temas e Debates 2007). Também o Professor Bernardo Vasconcelos e Sousa, autor da biografia de D. Afonso IV (pai de D. Pedro) e o Profesor Sotto Mayor Pizarro, autor da biografia de D. Dinis (avô de D. Pedro) apontam esta mesma data.

 

Também a 8 de Abril, mas em 1299, D. Dinis fez o seu primeiro testamento, antes de partir para uma campanha contra o irmão (o rei contava trinta e sete anos). O infante D. Afonso revoltava-se pela terceira vez. D. Dinis montou cerco a Portalegre, a 27 de Abril. O irmão resistiu mais tempo do que o esperado e o rei solicitou a intervenção da infanta D. Branca, a irmã de ambos.

Depois de a infanta ter conferenciado com o irmão mais novo, trouxe informações incomodativas.

- Afonso anda mui estranho - anunciou Branca a Dinis. - Acha-se com mais direito ao trono do que vós.

Com dificuldades em controlar a sua fúria, o rei remeteu-se ao silêncio. E foi Frei Vasco Fernandes quem inquiriu:

- Em que se baseia D. Afonso para afirmar tal?

Depois de uma hesitação, Branca acabou por responder:

- Baseia-se no facto de o matrimónio de meus pais só haver sido reconhecido pela Igreja em Junho de 1263.

Gerou-se um silêncio embaraçante, perante o abordar de um assunto julgado esquecido. À altura do seu matrimónio com D. Beatriz, Afonso III havia sido acusado de bigamia pelo papa Alexandre IV. O rei estava ainda casado com Matilde de Boulogne, apesar de o casal já viver separado há quase uma década.

Seguiram-se cinco anos de contendas graves com a cúria pontifícia. O problema acabou por se resolver com a morte inesperada de Matilde, mas só passada mais meia década, Urbano IV legitimara o segundo consórcio do monarca.

- Afonso nasceu em Fevereiro de 1263 - prosseguiu Branca, - escassos quatro meses antes de o papa passar a bula de legitimação. Essa é a razão por ele dada para se considerar, digamos, mais legítimo do que o irmão rei.

Dinis tinha ganas de ir arrancar o estouvado do irmão ao castelo de Portalegre, a fim de lhe dar uma valente sova.

O infante D. Afonso só se renderia em Outubro, logo partindo para o reino de Múrcia, onde possuía senhorios, por parte da esposa.

 

Nota: Apesar de se tratar de um excerto do meu romance (obra de ficção), na sua biografia de D. Dinis, o Professor Sotto Mayor Pizarro refere o infante D. Afonso ter realmente usado este argumento para se considerar com mais direito ao trono do que o irmão mais velho.

Um ano com D. Dinis (12)

Cerco a Coimbra

Cristina Torrão, 07.03.25
A 7 de Março de 1322, D. Dinis cercou a cidade de Coimbra. O reino português encontrava-se em plena guerra civil, entre o rei e o seu herdeiro, futuro D. Afonso IV. O príncipe havia tomado posse de Coimbra, pela força, a 31 de Dezembro de 1321. Naquele dia de Março, também D. Isabel para lá se dirigiu, deixando o seu desterro em Alenquer, ordenado pelo próprio D. Dinis, que a acusava de pactuar com o filho. Esta guerra desgastou muito o rei, pode mesmo ter acelerado a sua morte.

 

Como se vê, havia um grande drama familiar por trás da guerra que dilacerou o reino português no início do século XIV. Não deixa de ser estranho, tendo em conta os protagonistas: um rei culto, justo e amigo do povo; uma rainha exemplar; o filho dos dois.

DinisCoimbra.jpgPormenor da estátua de D. Dinis em Coimbra

Vendo a derrota à frente, Dinis pediu a Isabel:

- Suplico-vos que arranjeis guisa de estabelecer a paz sem que haja vencedor nem derrotado.

- Pedis-me o impossível.

Dinis aproximou-se dela e, pegando-lhe nas mãos, insistiu:

- Intercedei junto de Deus! Diz-se já haverdes feito milagres… Não o podereis tornar a fazer?

A rainha engoliu em seco e replicou:

- A graça de fazer milagres só é concedida quando Deus assim o entende, não depende da minha vontade. Sou um mero instrumento nas Suas mãos.

- Quereis dizer nada poderdes fazer por mim?

Ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu, disse:

- Darei o meu melhor. Mas haverei mister de auxílio, de um mediador, a quem Afonso dê realmente ouvidos. E não me ocorre mais ninguém tão adequado como o conde de Barcelos.

Dinis estremeceu perante a menção daquele seu bastardo, por ele próprio destituído do cargo de alferes-mor e da maior parte das suas rendas, obrigando-o ao exílio. Até àquele momento, considerara-o um traidor. Agora, deu consigo a perguntar:

- Pensais que ele consentirá em falar comigo?

- Com certeza. Pedro Afonso é uma alma gentil, que não guarda rancor… E que vos ama e respeita como ninguém.*

 

Graças às intervenções de D. Isabel e do conde D. Pedro de Barcelos, o rei retirou para Leiria e o infante para Pombal. Em Maio, encontraram-se em Leiria e assinaram um acordo de paz. D. Dinis, porém, que já passara dos sessenta, foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa.

 

Nos piores momentos da sua enfermidade, os cuidados e a dedicação de Isabel provaram ser imprescindíveis. O rosto dela iluminava o dia mais triste, a sua voz confortava, a sua serenidade dava confiança e coragem e o toque das suas mãos era bálsamo para almas aflitas. Isabel era a esperança transformada gente, como se Deus houvesse decidido dar uma forma humana a esse sentimento. E, apesar de haver amado outras mulheres e de, muitas vezes, haver odiado a rainha, Dinis não desejaria ter qualquer outra perto de si naquelas horas difíceis.*

 

D. Dinis melhorou. Mas a paz assinada com o filho foi quebrada cerca de ano e meio mais tarde, depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323. A guerra civil entraria na sua última fase.

Afonso IV Selo.jpgD. Afonso IV

 

* Excertos do meu romance "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador"

Um ano com D. Dinis (4)

O casamento de D. Dinis

Cristina Torrão, 11.02.25

Livro Dinis e Isabel.jpg

 

Faz hoje 744 anos que D. Dinis e D. Isabel casaram por procuração.

O matrimónio de D. Dinis representou um problema, pois, por desavenças entre seu falecido pai D. Afonso III e o clero, o reino de Portugal esteve sob interdito durante cerca de vinte anos, ou seja, salvo raras excepções, as igrejas mantiveram-se fechadas, sendo proibidas todas as cerimónias religiosas, assim como os sacramentos.

O consórcio com D. Isabel foi combinado, a fim de quebrar a supremacia de Castela. D. Dinis nomeou três procuradores, que, a 11 de Fevereiro de 1281, o representaram, por palavras de presente, na cerimónia de recebimento de D. Isabel de Aragão, no Paço Real de Barcelona. Os três procuradores eram os cavaleiros João Pires Velho e Vasco Pires e o clérigo D. João Martins de Soalhães, futuro bispo de Lisboa.

D. Dinis tinha dezanove anos e D. Isabel apenas dez. Casamentos destes eram habituais, na Idade Média, principalmente, no meio nobre. Representavam, acima de tudo, uma aliança entre duas famílias. Por vezes, eram combinados consórcios entre crianças (noivo e noiva) de quatro ou cinco anos.

Isto não quer, porém, dizer que a prática da pedofilia fosse comum. Normalmente, aguardava-se que a jovem esposa atingisse idade apropriada para consumar a união. O primeiro parto costumava acontecer aos quinze ou dezasseis anos. D. Isabel tinha aliás já dezanove anos.

D. Isabel era filha do rei D. Pedro III de Aragão e de D. Constança da Sicília. Só deu entrada em Portugal cerca de ano e meio depois da cerimónia em Barcelona, sendo as bodas do par real festejadas em Trancoso, a 26 de Junho de 1282.

O casamento de D. Dinis e D. Isabel durou quase quarenta e quatro anos. O casal teve dois filhos: a infanta D. Constança (rainha de Castela, por casamento) e o infante D. Afonso, futuro rei D. Afonso IV.

Um ano com D. Dinis (3)

O sucessor de D. Dinis

Cristina Torrão, 08.02.25

Afonso IV Selo.jpg

 

Faz hoje 734 anos que nasceu um dos reis mais enigmáticos da nossa História: D. Afonso IV

Ficou sobretudo conhecido por ter mandado assassinar Inês de Castro, embora os verdadeiros contornos dessa conspiração permaneçam nebulosos.

D. Afonso IV era filho de D. Dinis e de D. Isabel. Diz-se que era mau e irascível desde a infância, o que não deixa de ser curioso, sendo os seus pais um rei exemplar e uma rainha "santa". Muitas vezes me pergunto: porque não conseguiram D. Dinis e D. Isabel transmitir bom carácter ao filho? E porque nunca D. Dinis se deu bem com o seu próprio herdeiro? Coisas que ficarão para sempre envolvidas na bruma dos séculos...

D. Afonso IV casou com a infanta D. Beatriz de Castela, dois anos mais nova, filha de seu tio-avô, o rei D. Sancho IV, e de D. Maria de Molina. O casamento parece ter sido feliz, Afonso IV é mesmo um caso raro entre os monarcas portugueses, pois não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. Não deixa de ser estranho num homem que se julga ter sido destituído de escrúpulos.

Terá sido dono de grande moralidade, transmitida pela mãe D. Isabel? Isto poderia explicar a sua falta de tolerância a desvios de comportamento do seu filho e herdeiro, D. Pedro I. E também explicaria que, sendo mais ligado à mãe, se tivesse afastado do pai. Na verdade, D. Dinis preferia a companhia do seu bastardo Afonso Sanches.

A infanta D. Beatriz de Castela, rainha de Portugal, viveu na corte portuguesa desde os quatro anos de idade. Foi criada pela sogra D. Isabel, assim que ficou estabelecido o seu consórcio com o príncipe herdeiro, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297. Neste Tratado, ficaram definitivamente estabelecidas as fronteiras do reino português. 

Todas as informações conhecidas sobre D. Afonso IV estão reunidas na biografia de autoria de Bernardo Vasconcelos e Sousa (Círculo de Leitores, 2005).

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Um ano com D. Dinis (2)

O irmão de D. Dinis

Cristina Torrão, 06.02.25

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Codex Manesse

 

Faz hoje 762 anos que nasceu o infante D. Afonso, irmão de D. Dinis, mais novo cerca de ano e meio. D. Afonso parece nunca ter superado a sua condição de filho segundo, pois causou problemas ao rei durante toda a vida. Por três vezes se insubordinou, obrigando D. Dinis a usar da força, pondo cerco aos lugares onde ele se refugiava: Vide, Arronches e Portalegre. Por outro lado, é notável que o rei-poeta sempre lhe tenha perdoado e o tenha protegido, mesmo em circunstâncias absurdas.

O infante D. Afonso casou com D. Violante Manuel, filha do infante D. Manuel de Castela, recebendo senhorios no reino de Múrcia. O matrimónio, porém, não foi reconhecido pela Igreja, devido ao parentesco: D. Manuel de Castela, sendo irmão do rei Afonso X, era tio-avô do infante português.

D. Dinis, sempre protector, legitimou-lhe os filhos, na sua qualidade de rei, sem consultar a Igreja, provocando um protesto formal de D. Isabel, por sinal, no dia do 34º aniversário do infante. A 6 de Fevereiro de 1297,  a Rainha Santa apresentou o protesto na alcáçova de Coimbra. Como motivos, alegou o irmão do rei ter-se insubordinado algumas vezes e o provável perigo que os sobrinhos pudessem significar para o reinado do filho D. Afonso IV. De qualquer maneira, é curiosa uma atitude deste tipo por parte de uma rainha caridosa, que sempre procurou consensos.

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D. Afonso teve um fim de vida muito amargo. O seu filho e herdeiro morreu com apenas dezassete anos, em 1302, e, apesar de ter ainda três filhas, o infante não conseguiu superar a morte daquele que era o orgulho da sua vida. Terá começado a comportar-se de maneira estranha, chegando mesmo a assassinar a esposa, caso que foi abafado por D. Dinis, apesar de o rei de Aragão, cunhado do monarca português e igualmente parente da falecida, o instar a esclarecer a questão.

D. Dinis protegeu o irmão até ao fim. D. Afonso morreu a 2 de Novembro de 1312, com apenas quarenta e nove anos, sendo sepultado na igreja de São Domingos de Lisboa, no túmulo que o próprio mandara fazer.