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Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (68)

Fundação de Vila Real e Morte de D. Sancho II

Cristina Torrão, 04.01.26

 

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Faz hoje 736 anos que D. Dinis fundou a Vila Real (hoje, cidade), doando-a a D. Isabel. Na medieval Terra de Panóias, existia uma outra vila, Constantim, que acabou por decair. O pai de D. Dinis, D. Afonso III, tentou desenvolver a região, concedendo foral e direitos reais sobre a Terra de Panóias, mas o seu povoamento falhou. D. Dinis empenhou-se em renovar o malogrado plano, e fundou aquela que se tornaria a maior cidade transmontana.

 

Hoje verifica-se igualmente o 777º aniversário da morte do rei D. Sancho II, tio de D. Dinis, no seu exílio em Toledo.

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Incapaz de impor a ordem no reino, Sancho II foi afastado do trono pelo seu irmão mais novo, Afonso. Uma delegação portuguesa havia-se deslocado a França, onde vivia o infante D. Afonso, conde de Bolonha, por casamento com Matilde de Bolonha. Composta de clérigos e nobres, a delegação foi pedir ao conde que intercedesse na situação portuguesa, exigindo justiça e a imposição da ordem no reino. Jurou-lhe obediência, em Paris, a 6 Setembro de 1245, depois de, a 24 de Julho, o papa Inocêncio IV ter emitido a bula Grandi non immerito, que ditara a deposição de Sancho II, aí considerado rex inutilis.

O futuro rei D. Afonso III jurou respeitar as liberdades da Igreja, mas, durante o seu reinado, envolveu-se numa série de conflitos com o clero, culminando num interdito, lançado pelo papa Alexandre IV, em Maio de 1255. Este papa acusou igualmente Afonso III de adultério e incesto, numa bula de Abril de 1258, exigindo a restituição do dote a Matilde de Bolonha, a consorte ignorada pelo rei português. Este casara entretanto com Beatriz de Castela, filha de Afonso X o Sábio. Uma situação complicada, resolvida pela morte da malograda Matilde, nesse mesmo ano de 1258.

Um ano com D. Dinis (65)

Batalha de Alvalade

Cristina Torrão, 12.12.25

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Depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323, em que as pretensões do príncipe herdeiro foram desleixadas, este retirou para Santarém, a fim de reunir os seus apoiantes e apoderar-se do trono à força.

Ao saber que o filho avançava em direcção a Lisboa com a sua hoste, D. Dinis, auxiliado pelos bastardos Afonso Sanches e João Afonso, tomou posição no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

Estava tudo a postos para a batalha final da guerra civil. Mas a refrega foi impedida por intervenção de D. Isabel. Diz-se que se interpôs entre os dois exércitos, no meio do campo de batalha. 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

Imagem daqui

 

Dei a minha versão dos acontecimentos, no romance sobre D. Dinis:

 

Soaram as trombetas e os anafis, deu-se ordem de disparo, abrindo as hostilidades. Voaram as primeiras setas dos archeiros de Dinis por cima do campo e não tardou que uma chuva delas, vindas do adversário, caísse em cima dos seus homens, que se protegiam com os escudos.

O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.

Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se:

- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?

Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. Viu a cruz em primeiro lugar. Devia ser enorme, mas era transportada por um único cavaleiro. À frente deste, vinha mais alguém. Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do fogo das setas.

- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?

O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…

Isabel!

- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!

Também do outro lado teria sido dada ordem semelhante, pois os projécteis deixaram de cruzar os céus. Estabeleceu-se o silêncio sobre a planície. Dinis mandou cavaleiros ao encontro de Isabel e seu acompanhante. Constatou que o príncipe fizera o mesmo. Cavaleiros de ambos os lados aproximaram-se das duas figuras solitárias.

 

O acompanhante de D. Isabel era o bispo de Lisboa, D. Gonçalo Pereira. Enquanto a rainha seguiu os cavaleiros do príncipe, pois decidiu falar primeiro com o filho, o bispo acompanhou os de D. Dinis. Chegado à presença do rei, o prelado relatou:

 

«Vieram acordar-me a meio da noite, disseram-me que a rainha se encontrava ali no meu paço. E ela assim comigo falou:

- D. Gonçalo, temos de impedir a batalha prestes a acontecer no campo de Alvalade. Estava eu a meio das minhas rezas, quando Deus me fez ver a desgraça: os corpos mutilados, os gritos desesperados dos feridos… E uma voz suplicou-me que me interpusesse entre os dois exércitos, acompanhada do mais alto representante de Deus que pudesse encontrar. Aqui em Lisboa sois vós, eminência.

- Mas que podemos nós os dois fazer contra dois exércitos, minha santa senhora? Sem armas, sem guerreiros…

Ela replicou, cheia de serenidade:

- A voz garantiu-me que nada nos sucederá, se levarmos esta cruz.

Mostrou-me a enorme cruz, transportada por quatro criados. 

Ainda me recordo de pensar ter D. Isabel endoudecido, quando senti uma força misteriosa apoderar-se de mim. Parecia vir do brilho dos olhos da rainha, uma força que me impedia de a contradizer. Fizemo-nos ao caminho, no escuro da noite fria, acompanhados pelos quatro serviçais e mais dois com lanternas. Ao acercarmo-nos do campo de batalha, já ao nascer do sol, D. Isabel disse que apenas eu e ela estaríamos protegidos das setas pelas forças divinas. Os criados teriam de procurar abrigo. Eu retorqui que, na minha idade, jamais conseguiria carregar com uma cruz daquelas, mas ela disse:

- Pegai nela, D. Gonçalo, e vede como Deus a faz leve.

E tinha razão! Logrei pegar na cruz e erguê-la. Se não o houvesse experimentado, nunca acreditaria. Mas ainda perguntei à rainha:

- E quem guiará o meu cavalo? Fico sem mãos livres para as rédeas…

- Deus - respondeu ela. - Tende Fé!

A minha montada seguia a de D. Isabel como se realmente alguma força a guiasse, nem sequer se assustava com a zoada das setas, voando em arco por cima de nós. O mesmo não se podia dizer de mim. Confesso nunca haver sentido tanto medo na minha vida. Bradei:

- Morreremos, é o nosso fim.

- Fechai os olhos, D. Gonçalo, e rezai.

- Fechar os olhos? Mas como saberei para onde ir?

- Confiai em Deus!

Obedeci, nada mais me restava. E dei por mim com a cabeça encostada à cruz, a confessar os meus pecados, suplicando absolvição, tão convencido estava haver chegado a minha hora. Não faço ideia quanto tempo assim estive. De repente, dei conta do silêncio que se havia apoderado de todo o campo. O meu cavalo parou, sem que lhe houvesse dado qualquer ordem. Abri os olhos e vi os vossos cavaleiros e os do príncipe virem ao nosso encontro. Chegaram no momento certo, pois comecei a tremer violentamente e a cruz pôs-se-me de repente mui pesada. Não fossem eles, tê-la-ia deixado cair ao chão. E só deixei de tremer aqui, no abrigo da vossa tenda».

 

A pedido da mãe, o príncipe concordou em desistir dos seus intentos, mas declarou não mais desejar falar com o pai, nem encontrar-se com ele.

Em Fevereiro seguinte, D. Dinis dirigiu-se a Santarém, onde o príncipe se havia recolhido, apenas para sofrer grande humilhação. As portas da cidade mantiveram-se fechadas, barrando a entrada ao rei de Portugal. Houve combates, em redor das muralhas, e, a 26 de Fevereiro, conseguiu-se um acordo entre o rei e o príncipe. D. Dinis comprometeu-se a aumentar as rendas do filho e a retirar o cargo de mordomo-mor ao bastardo Afonso Sanches.

Um ano com D. Dinis (64)

Os Irmãos Sancho e Afonso

Cristina Torrão, 04.12.25

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Representação de D. Afonso III na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira 2015

 

Em Dezembro de 1245, D. Afonso Conde de Bolonha desembarcou em Lisboa, a fim de tomar conta do reino português, caído em desordem sob a regência de seu irmão D. Sancho II. D. Afonso, que vivia em França há vários anos, satisfazia assim o pedido de uma delegação portuguesa que se deslocara a Paris em busca de ajuda. Possuía o apoio dos concelhos do Centro e do Sul e dos castelos de Santarém, Alenquer, Torres Novas, Tomar e Alcobaça.

Seguiu-se uma guerra civil, que acabou com a deposição de D. Sancho II.

D. Afonso, o terceiro desse nome, seria o pai de D. Dinis. O seu irmão Sancho morreu no exílio, em Toledo, a 4 de Janeiro de 1248.

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Um ano com D. Dinis (57)

764º Aniversário de D. Dinis

Cristina Torrão, 09.10.25

 

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Nuno Luís - Facebook

A 9 de Outubro de 1261, nascia o segundo filho do rei D. Afonso III e da rainha D. Beatriz, o príncipe herdeiro, pois sua irmã mais velha, a infanta D. Branca, só seria considerada na linha de sucessão em situações de emergência.

D. Afonso III vivera na corte francesa, protegido por sua tia Branca de Castela, rainha de França. Resolveu, assim, dar o nome de um santo francês (Saint Denis) ao seu sucessor.

À altura do seu nascimento, D. Dinis era ilegítimo, já que o casamento dos pais não havia sido ainda reconhecido pela Igreja.

Além da infanta D. Branca, D. Dinis teve mais cinco irmãos:

Infante D. Afonso, nascido a 6 de Fevereiro de 1263

Infanta D. Sancha, nascida a 2 de Fevereiro de 1264 (morreu com cerca de vinte anos)

Infanta D. Maria, nascida em Fevereiro ou Março de 1265 (morreu com pouco mais de um ano)

Infante D. Vicente, nascido a 22 de Janeiro de 1268 (morreu ainda criança)

Infante D. Fernando, nascido em 1269, morrendo pouco tempo depois.

Um ano com D. Dinis (51)

Deposição de D. Sancho II

Cristina Torrão, 06.09.25

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Representação de D. Afonso III na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira

 

A 6 de Setembro de 1245, uma delegação portuguesa jurou, em Paris, obediência ao conde de Bolonha, futuro rei de Portugal.

Na verdade, o pai de D. Dinis não estava destinado a ser rei, pois tinha um irmão mais velho. Porém, o reinado de D. Sancho II provou ser caótico, incluindo grandes conflitos com a Igreja e levando o Papa Inocêncio IV a emitir a bula Grandi non immerito, de 24 de Julho desse ano. D. Sancho II foi aí considerado rex inutilis e ditava-se a sua deposição.

 

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Retrato de D. Sancho II, de autor desconhecido, propriedade da Câmara Municipal de Sintra

 

O futuro D. Afonso III jurou respeitar as liberdades da Igreja, mas também ele se envolveu numa série de conflitos com o clero, sendo inclusive acusado de bigamia ao casar-se com D. Beatriz de Castela. Conseguiu, no entanto, impor a ordem no reino.

Um ano com D. Dinis (42)

A mãe de D. Dinis

Cristina Torrão, 10.07.25
 

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Imagem Codex Manesse

Em Julho de 1242 (não se sabe o dia), nasceu D. Beatriz de Castela, futura rainha de Portugal. Era filha ilegítima de D. Afonso X o Sábio, fruto de uma ligação de juventude com D Maior Gusmão. D. Beatriz tinha apenas onze anos, quando casou com D. Afonso III, em Maio de 1253.

Ao tempo da coroação de D. Dinis, houve divergências graves entre ele e sua mãe. Tendo o jovem rei apenas dezassete anos, o falecido D. Afonso III determinara a criação de um conselho de regência, a fim de auxiliar o filho nos primeiros tempos. Além da própria D. Beatriz, que chefiava esse conselho, dele faziam parte o mordomo-mor D. João Peres de Aboim e o chanceler D. Estêvão Anes, ambos amigos de infância do falecido rei e envolvidos no governo do reino, desde que D. Afonso III subira ao poder.

Ninguém tinha, porém, contado com a hipótese de o jovem D. Dinis não apreciar ser controlado por um conselho de regência. Passado cerca de um mês do falecimento do pai, aboliu-o e destituiu D. João Peres de Aboim e D. Estêvão Anes das suas funções, nomeando mordomo-mor e chanceler próprios. Repudiou igualmente a ingerência de sua mãe no seu governo.

D. Dinis revelava, com apenas dezassete anos, possuir poder de resolução e vontade de caminhar pelo próprio pé. Todos sabemos que não se saiu mal. Porém, o afastamento tão rápido de figuras que, naquele tempo, eram verdadeiras instituições, não caiu bem a toda a gente. Muito menos a sua mãe, ela própria repudiada. D. Beatriz acabou mesmo por se afastar da corte portuguesa, indo para Sevilha e levando com ela as filhas, as infantas D. Branca e D. Sancha.

Assim assistiram elas o pai e avô, D. Afonso X, que se quedava doente e amargurado. Outrora um rei poderoso, admirado em toda a Cristandade e ainda hoje considerado um dos melhores e mais cultos monarcas ibéricos da época medieval, caíra em desgraça, por desavenças com o seu herdeiro e grande parte da nobreza castelhana. Afonso X acabou deposto, passando o seu exílio  de cinco anos em Sevilha. Valeu-lhe precisamente essa filha e as netas portuguesas.

D. Beatriz haveria igualmente de acusar o filho D. Dinis de não ter apoiado o avô, nesses seus anos difíceis. O Lavrador manteve-se um rei prático, apoiando o sucessor, seu tio Sancho IV, com quem estabeleceu relações amigáveis. A atitude não deixa de revelar uma certa frieza, que se costuma perdoar num homem de Estado, mas que nos deixa pensativos quanto à sua indiferença em relação ao sofrimento de membros familiares próximos.

A situação adquire um tom ainda mais amargo, ao constatarmos ter sido D. Dinis beneficiado com ela. E também o reino. Agradecido pela assistência da filha, Afonso X deixou-lhe em testamento as vilas de Moura, Serpa, Noudar e Mourão. Assim acabaram estas localidades por serem incluídas em Portugal.

Depois da morte de D. Afonso X e do regresso da rainha-mãe de Portugal à corte lisboeta, criei esta cena, entre mãe e filho, no meu romance:

Dinis quis saber:

- As vilas de Moura, Serpa, Noudar e Mourão continuam em vosso poder, não é verdade?

- Sim, com todos os seus termos, castelos, rendas e direitos. Foi essa a recompensa de vosso avô, por eu lhe haver prestado assistência.

- Presumo então nada terdes contra o facto de integrá-las no reino de Portugal.

Beatriz fixou-o pensativa e, assim pareceu a Dinis, um pouco acusadora. Na verdade, o rei receava que ela dissesse ele não merecer tal, por ter abandonado o avô. Mas ela acabou por retorquir:

- Longe de mim contrariar vosso pai nessa questão.

- Meu pai?!

- Fosse ele vivo, não tenho a menor dúvida de qual seria a sua vontade.

Uma vitória para Dinis, mas de sabor amargo. Sua mãe concordava em alargar a fronteira portuguesa para leste do Guadiana, mas, pelos vistos, não porque ele merecesse, ou por ela lhe querer dar esse gosto.

 

D. Beatriz faleceu a 7 de Agosto de 1300 e foi sepultada em Alcobaça, onde já repousava o marido. Detinha senhorios que foram transferidos para a nora D. Isabel.

Um ano com D. Dinis (35)

Levantamento do interdito

Cristina Torrão, 19.06.25
A 19 de Junho de 1263, o papa Urbano IV, atendendo às solicitações do clero português, levantou o interdito que imperava sobre o nosso reino desde 1255 e legitimou o consórcio de D. Afonso III.

 

À data do seu casamento com Beatriz de Castela, o pai de D. Dinis era ainda casado com Matilde de Boulogne. Foi acusado de bigamia pelo papa Alexandre IV, que, dois anos mais tarde, lançaria o interdito sobre Portugal. Um reino sob interdito estava proibido de celebrar missas e sacramentos (incluindo casamentos e baptizados).

A complicada situação resolveu-se com a morte inesperada de Matilde.

Apenas quatro anos mais tarde, porém, devido aos conflitos entre o mesmo D. Afonso III e o clero, o papa lançaria novo interdito sobre Portugal (assunto a tratar numa outra ocasião).

Nota: ler aqui sobre os casamentos de D. Afonso III.

 

Um ano com D. Dinis (34)

A investidura de D. Dinis

Cristina Torrão, 03.06.25

Terá sido no mês de Junho de 1278 que D. Afonso III armou cavaleiro o infante D. Dinis, seu filho e herdeiro, de dezasseis anos. De seguida, atribuiu-lhe "casa autónoma". D. Afonso III estava já bastante doente e não viveu muito mais tempo.

Dom Afonso III tratara da entrega do testemunho durante todo aquele ano de 1278. Dinis fazia parte de uma comissão que regia o reino e onde figuravam o mordomo-mor João Peres de Aboim e o chanceler Estêvão Anes, sob a supervisão da rainha Dona Beatriz. O velho rei armara o filho cavaleiro, oferecendo-lhe uma belíssima espada, enfeitada no punho com duas esmeraldas e dois cristais e contendo na bainha dezasseis rubis e catorze safiras. Atribuíra-lhe igualmente casa autónoma, ou seja, cavaleiros vassalos próprios, assim como vários escudeiros, copeiro-mor, escanção-mor e reposteiro-mor, este último, responsável pelo património do príncipe.

(…)

Dinis recebeu ainda joias, pedras preciosas, tecidos finos e objectos de prata, como escudelas, trinchantes, pichéis, vasos e copos.

Do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram O Lavrador

Dom Dinis Papel (2).JPG

 

Um ano com D. Dinis (26)

Casamento de D. Afonso III

Cristina Torrão, 04.05.25
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Representação de D. Afonso III na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira 2015

 

Há três dias, mencionei aqui o casamento de D. Afonso IV. Hoje, é a vez do avô, D. Afonso III, cujo segundo consórcio se realizou em 1253, cinquenta e seis anos antes do do neto, que aliás nunca conheceu. É curioso verificar haver três pontos em comum entre os dois enlaces. Também o pai de D. Dinis casou no mês de Maio, também no caso dele não se sabe o dia e a sua noiva ostentava os mesmos nome e estatuto: infanta D. Beatriz de Castela. A diferença de idades entre os nubentes era, porém, muito maior: a noiva teria apenas onze anos, o noivo ia pelos quarenta.

Este casamento surgiu na sequência de um Tratado de Paz entre Portugal e Castela por causa da questão do Algarve. Mas D. Afonso III foi acusado de bigamia pelo papa Alexandre IV, que, dois anos mais tarde, lançaria o interdito sobre Portugal. Um reino sob interdito estava proibido de celebrar missas e sacramentos (incluindo casamentos e baptizados), situação que durou quase dez anos.

A razão para medida tão severa: à altura do seu casamento com D. Beatriz, D. Afonso III era ainda casado com Matilde de Boulogne. O pai de D. Dinis passou a sua juventude na corte francesa, durante a regência de sua tia Branca, antiga infanta de Castela. Em 1239, a tia arranjou-lhe casamento com a viúva Matilde de Boulogne, bastante mais velha do que ele, mas filha única da condessa Ida e herdeira daquele condado.

Passados seis anos, porém, D. Afonso regressou sozinho a Portugal, a fim de tomar conta do reino mal governado por seu irmão D. Sancho II. Oito anos mais tarde, já coroado rei, e no intuito de pôr fim ao conflito com o monarca castelhano por causa do Algarve, casou com Beatriz, ignorando Matilde por completo, de quem vivera separado todo este tempo.

D. Afonso III chegou ao ponto de ignorar uma ordenação papal para se apresentar em Roma, a fim de ser julgado por bigamia. O problema resolveu-se, contudo, por si, pois Matilde morreria inesperadamente. Mas só em Junho de 1263, passados cinco anos sobre a morte da malograda condessa,  um novo papa, Urbano IV, legitimou o segundo consórcio do monarca, levantando o interdito sobre o reino.

À altura do seu nascimento, a 9 de Outubro de 1261, D. Dinis era, no fundo, ilegítimo e este argumento foi usado por seu irmão Afonso, quando, pela terceira vez, se revoltou contra o rei, em 1299, obrigando D. Dinis a montar cerco a Portalegre. D. Afonso alegava ter mais direito ao trono por ter nascido numa data mais próxima da legalização do casamento dos pais (6 de Fevereiro de 1263).

D. Afonso III e D. Beatriz tiveram sete filhos:

Infanta D. Branca, nascida em Fevereiro de 1259

D. Dinis, nascido a 9 de Outubro de 1261

Infante D. Afonso, nascido a 6 de Fevereiro de 1263

Infanta D. Sancha, nascida a 2 de Fevereiro de 1264 (faleceu com cerca de vinte anos)

Infanta D. Maria, nascida em Fevereiro ou Março de 1265 (faleceu com pouco mais de um ano)

Infante D. Vicente, nascido a 22 de Janeiro de 1268 (falecido ainda criança)

Infante D. Fernando, nascido em 1269, falecendo pouco tempo depois.

Um ano com D. Dinis (5)

Aclamação de D. Dinis e a questão do Algarve

Cristina Torrão, 16.02.25

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D. Dinis foi aclamado rei de Portugal há 746 anos. Tinha apenas dezassete.

A aclamação deu-se depois da morte de seu pai, nesse mesmo dia. D. Afonso III foi sepultado em São Domingos de Lisboa. Dez anos mais tarde, foi trasladado para Alcobaça.

Também a 16 de Fevereiro, mas doze anos antes, foi assinado em Badajoz o documento que legitimou para sempre a integração do Algarve em Portugal.

D. Afonso III conquistara as praças do Algarve com a ajuda da Ordem de Santiago, cujos cavaleiros portugueses estavam dependentes do Mestre castelhano. Por isso se sentia o rei Afonso X de Leão e Castela com direito a exigir vassalagem ao monarca português por esse território.

Conquista de Loulé.jpgConquista de Loulé, Luís Furtado

Os primeiros passos para a resolução do problema foram dados em Maio de 1253, quando D. Afonso III, ignorando o seu casamento com Matilde de Bologne, desposou a filha mais velha do rei castelhano (ilegítima) D. Beatriz. Depois do nascimento de D. Dinis, Afonso X de Castela enfeudou o Algarve ao neto, a fim de acabar com a situação de vassalagem do rei português ao castelhano, causadora de mal-estar em Portugal.

Porém, se ele aliviou a situação, não a resolveu. Uma vez chegado ao trono, D. Dinis deveria igualmente prestar vassalagem ao rei castelhano por aquele território. Iniciou-se uma acção diplomática e, no dia 16 de Fevereiro de 1267, em Badajoz, Afonso X concordou em renunciar a todos os seus direitos sobre o Algarve, recebendo em compensação as povoações de Aroche e Aracena, conquistadas por Afonso III em 1251. O Guadiana ficou a demarcar a fronteira entre Portugal e Leão, a partir da foz do Caia para sul. Essa fronteira seria modificada trinta anos depois, pelo próprio D. Dinis, no Tratado de Alcañices (12 de Setembro de 1297).

Afonso X.jpg Afonso X, "o Sábio", avô materno de D. Dinis

D. Leonor de Portugal, Rainha da Dinamarca

Cristina Torrão, 19.04.22

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À semelhança de sua tia D. Berengária, a infanta D. Leonor de Portugal foi igualmente rainha da Dinamarca, embora o marido nunca tenha reinado por conta própria. Valdemar the Young foi uma espécie de “rei júnior”, ao lado do pai. Era o filho mais velho, fruto do primeiro casamento de Valdemar II com Dagmar da Boémia. Dois anos depois de enviuvar, Valdemar II casou com D. Berengária de Portugal e teve mais três filhos e uma filha.

Em 1215, Valdemar II reuniu-se com os seus magnatas, que juraram fidelidade ao seu filho homónimo e, passado pouco tempo, o jovem Valdemar foi eleito rei, ao lado de seu pai, um estatuto estranho, mas que parece ter sido usado noutras monarquias europeias. Seria a fim de assegurar o seu futuro como rei da Dinamarca, já que o pai casara pela segunda vez? O certo é que, três anos mais tarde (já tinha nascido, pelo menos, um dos seus meios-irmãos), em nova cerimónia, que reuniu quinze bispos e três duques, o jovem Valdemar foi untado com os santos óleos e coroado “co-rei”.

D. Leonor de Portugal, Rainha da Dinamarca.png

D. Leonor de Portugal, rainha da Dinamarca

António de Holanda, Public domain, via Wikimedia Commons

Interessante é verificar que Valdemar II escolheu, para sua nora, uma sobrinha da sua segunda esposa: a infanta D. Leonor, única filha de D. Afonso II. É possível que o consórcio tenha sido negociado em Paris. A infanta D. Leonor talvez tenha ido com o irmão D. Afonso para a corte francesa, onde este se faria conde de Bolonha, graças à tia materna Branca, rainha de França. D. Afonso acabaria por se tornar rei de Portugal, como Afonso III, por suposta incapacidade do irmão Sancho II, ficando conhecido por o Bolonhês.

D. Leonor casou com Valdemar the Young no dia de São João Baptista de 1229. No entanto, o matrimónio pareceu amaldiçoado quase desde o seu início: no ano seguinte, houve um eclipse solar, logo seguido de uma epidemia pestilenta, o que causou grande impacto numa sociedade supersticiosa, como o era a da época medieval. E, passado mais um ano, a maldição parecia confirmar-se: D. Leonor morreu de parto, em Maio de 1231, e o bebé também não sobreviveu. Como se tudo isto não bastasse, o jovem Valdemar foi ferido por uma flecha, numa caçada, acabando por sucumbir ao ferimento, com apenas vinte e dois anos, escassos seis meses depois da morte da esposa. Na historiografia, ele é, por vezes, referido como Valdemar III (assim está escrito no seu epitáfio, em latim), mas nunca chegou a reinar sozinho, pois morreu antes do pai. E a designação Valdemar III é também usada para designar um outro rei que viveu no século XIV (1314–1364).

Sankt Bendts Kirke , Ringsted, Dinamarca.JPG

Igreja de São Bento, Ringsted, Dinamarca By Mariusz Paździora - Own work, CC BY-SA 3.0

Assim como a tia Berengária, D. Leonor de Portugal ficou sepultada como rainha da Dinamarca, na Sankt Bendts Kirke (Igreja de São Bento), em Ringsted, perto de Copenhaga. Porém, segundo Anabela Natário, ela está identificada como tendo sido «filha do rei de Espanha» (p. 204)! Devia o governo português solicitar a correcção deste epitáfio? Ou será por estar escrito em latim, referindo Hispânia, em vez de Espanha? Há uma grande diferença entre os dois termos, mas não me parece que os dinamarqueses a conheçam.

Lista de reis e rainhas sepultados em Ringsted.jpg

Placa com a lista de reis e rainhas sepultados na Igreja de São Bento, em Ringsted, Dinamarca. Berengária surge como Beengjerd, falecida 1220; Leonor surge como Eleonora, falecida 1231.

Imagem CC BY-SA 3.0