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Venho hoje falar de um documento um pouco polémico, pois paira sobre ele o espectro da falsificação, embora actualmente se considere poder ser verdadeiro. De qualquer maneira, trata-se de um assunto em aberto e que, na minha opinião, tem a sua relevância. Estou a falar de um Pacto Sucessório secreto, que terá sido firmado entre os condes D. Raimundo e D. Henrique, à revelia do sogro Afonso VI, decidindo como dividiriam a herança depois da morte deste e por mim já aqui referido. Não se sabe a data exacta em que terá sido firmado, o historiador Charles Bishko situa-o entre 14 de Maio e 22 de Setembro de 1105, ou seja, durante o Verão. Nada melhor do que o mês de Agosto para o relembrar.

Nos arquivos portugueses, não existe cópia do documento, mas a versão que terá sido enviada ao abade de Cluny encontra-se na Bibliothèque Nationale de France. O Professor Abel Estefânio, da Universidade do Porto, publicou dois estudos sobre o assunto, na Medievalista online. No primeiro, O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, em 2011, duvida da sua autenticidade. Porém, no segundo, Proposta de aclaração do “pacto sucessório” à luz de novos dados, três anos depois, admite que possa ser verdadeiro.

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de

Manuscrito do “pacto sucessório”, Recueil de Chartes de CLUNY, Bibliothèque Nationale de France, Département des manuscrits, Colecção Baluze nº 86, f. 470.

Atentemos às palavras com que o Professor Abel Estefânio abre o segundo estudo:

«Quando o estudei pela primeira vez, pareceu-me que se tratava de um falso histórico e apresentei essa hipótese num artigo publicado em 2011 na revista Medievalista (…) Todavia, como não o pude afirmar categoricamente, não dei o assunto por encerrado. Havia, desde logo, que considerar a nota que o Professor José Mattoso elaborou sobre o meu estudo, com o contributo do Professor Arnaldo do Espírito Santo relativamente ao argumento linguístico. Perante a ausência de sinais evidentes do uso de um latim clássico que denuncie um falsário da época moderna, o Dire(c)tor da Medievalista considerou que se impunha um exame mais aprofundado».

Na minha opinião, é verosímil que os condes D. Raimundo e D. Henrique tenham firmado este pacto. Recordemos a situação! D. Afonso VI, sentindo a morte a aproximar-se e angustiado por não ter herdeiro varão, nomeia seu sucessor o filho que teve da moura Zaida, baptizando-o de infante Sancho. Podemos imaginar a revolta que sentiu a sua única filha legítima, D. Urraca, e também o genro D. Raimundo, sobretudo por, neste mesmo ano de 1105, a 1 de Março, ter nascido o filho do casal.

Raimundo terá recorrido ao abade Hugo de Cluny. A fim de conseguir guerreiros para a Reconquista, Afonso VI seguira, durante anos, uma política pró-francesa, ligada à Ordem Cluniacense, nomeando muitos prelados estrangeiros para as dioceses hispânicas, fazendo-lhes riquíssimas doações e dotando-os de privilégios, assim como aos nobres que os acompanhavam. Foi neste contexto que surgiram Raimundo e Henrique na Hispânia. O conde portucalense era inclusive sobrinho-neto do abade Hugo. Os cluniacenses introduziram, na Península, o culto romano, ditado pela reforma gregoriana, em detrimento do velho rito hispânico, ou moçárabe.

Afonso VI de Galiza, Leão e Castela Catedral Sant

Miniatura representando Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza (1047-1109). Tumbo A da catedral de Santiago de Compostela.

A fim de poder nomear Sancho seu sucessor, porém, o imperador Afonso VI executou um verdadeiro volte-face, pois o velho clero hispânico prontificou-se a baptizar a moura Zaida e a legitimar o filho desta. Alarmado por Raimundo, o abade Hugo de Cluny enviou à Hispânia um seu representante, Dalmácio Geret, na presença do qual Raimundo e Henrique terão firmado o pacto sucessório.

O documento não costuma ser mencionado na nossa historiografia. A hipótese de falsificação não é o único motivo, já que, mesmo sendo verdadeiro, há quem o considere irrelevante. Tanto Raimundo, como o infante Sancho, viriam a falecer antes de Afonso VI, o primeiro dois anos depois de ter assinado o pacto e o segundo no ano seguinte, em 1108, na batalha de Uclés.

Na minha opinião, porém, que vejo boas razões para que seja autêntico, ele foi fundamental na política tão criticada de D. Teresa. Mas comecemos pelo princípio!

Ao casar com D. Urraca, D. Raimundo tornou-se conde da Galiza e, nas suas posses, incluía-se o condado Portucalense que, nessa altura, ia até ao Tejo, pois Afonso VI tinha recebido Santarém e Lisboa do rei mouro de Badajoz, que se pôs sob a protecção do imperador. Raimundo, porém, não conseguiu segurar Lisboa, provocando a ira do sogro. Ao casar a filha Teresa com Henrique, Afonso VI pôs nas mãos deste o condado Portucalense, confinando Raimundo à Galiza. Henrique, porém, permaneceu vassalo do cunhado, situação que o pacto confirma. A carta endereçada ao abade de Cluny começa assim:

Ao senhor e reverendíssimo abade de Cluny, Hugo, e a toda a congregação de S. Pedro, o conde Raimundo, o seu filho e o conde Henrique, seu vassalo, desejam saúde e amor em Cristo (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p. 13).

A nossa historiografia tende a divulgar a versão de que o interesse de D. Teresa pela Galiza se deveu ao seu envolvimento com a família de Trava. Ora, este pacto secreto, assinado pelo marido, sete anos antes de morrer, mostra que a Galiza fazia parte das ambições do conde portucalense. D. Teresa deu-lhe seguimento. Nas suas lutas com a irmã Urraca, ela reclamou sempre a Galiza para si. E o próprio Afonso Henriques passou os cinco anos a seguir à Batalha de São Mamede a tentar conquistar território galego. Foi essa a sua primeira medida, depois de se tornar no líder incontestado do condado Portucalense. Só depois de sucessivas derrotas, perdendo os territórios galegos conquistados, ele se virou para o Sul.

Se eu, conde Raimundo, não puder dar Toledo a ti, conde Henrique, tal como prometi, dar-te-ei a Galiza com a condição de que tu me ajudes a conquistar toda a terra de Leão e de Castela (O “pacto sucessório” revisitado: o texto e o contexto, p.22).

Esta passagem, do texto do pacto, é um pouco enigmática, pois dá a ideia de que D. Henrique teria aspirações ao senhorio de Toledo e que o cunhado não estava disposto a concedê-lo, substituindo-o pela Galiza. Ou seria o contrário? Inclino-me para a segunda hipótese. Não vejo que interesse D. Henrique pudesse ter por Toledo, tão longe das suas posses, apesar de se tratar de uma cidade de grande prestígio, antiga capital do reino visigótico. Contudo, depois da morte do imperador, Toledo nunca foi motivo de conflito com a rainha D. Urraca. Já a Galiza sim! Além disso, à data do pacto, D. Raimundo era conde da Galiza há cerca de quinze anos, não penso que facilmente abrisse mão desse território. E relembremos ainda que, dar, a um vassalo, o senhorio de uma cidade situada nas terras do suserano, era prática habitual na Idade Média. Podemos, por isso, admitir que a ideia de Toledo terá sido de Raimundo, como recompensa pela ajuda do cunhado. Henrique, porém, estaria mais interessado no reino da Galiza, criando um impasse. Com a moderação de Dalmácio Geret, ter-se-á tentado uma solução provisória, do estilo: «Toledo ou a Galiza».

Defendo, portanto, a importância do pacto, ao mostrar que a luta pela Galiza não se baseou num capricho de D. Teresa, por ter um amante galego. Fazia parte de uma estratégia política iniciada pelo conde D. Henrique, seguida pela sua viúva e também pelo filho de ambos, num primeiro momento: formar um reino na faixa oeste da Península, que iria desde a costa norte galega até onde as conquistas a Sul o permitissem.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

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Faz hoje 880 anos que se deu a Batalha de Ourique.

Batalha de Ourique Jorge Colaço.JPG

Batalha de Ourique de Jorge Colaço no Centro Cultural Rodrigues de Faria.

Ainda existe bastante mistério à volta desta batalha, o que alimenta o mito. Não há, porém, dúvida de que ela foi importantíssima para D. Afonso Henriques e a unidade portuguesa. Foi a partir desse dia que ele passou a intitular-se rei, considerando Portugal um reino. Também foi a partir desta altura que o seu nome começou a ser temido no Al-Andalus (a Hispânia muçulmana). Por outro lado, relembremos algo que muita gente não considera: D. Afonso Henriques não conquistou, a 25 de Julho de 1139, um palmo de terra que fosse!

Este último aspecto foi aliás motivo de discussão sobre o local da Batalha: se Portugal acabava a algumas dezenas de quilómetros a sul de Coimbra (embora não houvesse fronteira definida entre Coimbra e Santarém; o castelo de Leiria situava-se em território hostil, constantemente ameaçado) como se foi dar uma batalha entre portugueses e muçulmanos em pleno Alentejo?

Hoje, parece ponto assento que a batalha terá surgido na sequência de um fossado com grande raio de acção. Era costume a realização de fossados de parte a parte, as tropas avançavam devastando e depredando, reunindo espólio, incluindo pessoas (que serviriam como escravos) e animais. Reunindo as suas forças em Coimbra, o rei português avançou em direcção ao Tejo, que cruzou a leste de Santarém, e continuou a avançar, atravessando o Guadiana e aventurando-se até perto de Sevilha. Por onde passava, deixava um rastro de destruição atrás de si. E não encontrou praticamente resistência, o que pode explicar o ter-se aventurado tão longe.

Em Abril, Afonso VII, o primo de Afonso Henriques, iniciara um cerco a Oreja, a nordeste de Toledo. Os governadores almorávidas de Córdova e de Sevilha reuniram um grande exército, a fim de lhe fazer frente, o que explica que os portugueses pudessem avançar facilmente e levando o Professor Miguel Gomes Martins (De Ourique a Aljubarrota, A Esfera dos Livros 2011) a considerar que os dois primos tivessem combinado as suas acções.

De Ourique a Aljubarrota.jpg

Fosse como fosse. No regresso, Afonso Henriques terá cruzado o Guadiana perto de Mértola, continuando depois para oeste, a fim de evitar a cidade de Beja. Os danos provocados pela sua ofensiva devem, porém, ter sido de tal ordem, que o governador de Córdova decidiu afastar-se de Toledo, a fim de ir cortar o caminho aos portugueses. E assim se defrontaram os dois exércitos no Campo de Ourique, «uma vasta área delimitada pelas serras do Cercal e de Grândola a oeste, pela serra algarvia a sul e pelo Guadiana terminal a leste» (Miguel Gomes Martins, na obra citada).

Pouco se sabe sobre a constituição das duas hostes. As fontes portuguesas são escassas e, o que também é estranho, esta campanha não é mencionada em qualquer fonte muçulmana. Parece, no entanto, que o exército mouro era muito maior do que o cristão, a «Vita Theotonii» (Vida de S. Teotónio) refere que Afonso Henriques «derrotou cinco reis dos infiéis». Os historiadores actuais vêem algum exagero nestas palavras, se bem que, muitas vezes, os almorávidas se intitulavam de reis, sendo meros governadores de pequenas cidades.

«Terá sido nos momentos que antecederam a batalha que teve lugar o célebre episódio (…) da aclamação de Afonso Henriques (…) Erguido de pé sobre o seu escudo - à maneira germânica - pelos seus guerreiros, o príncipe, então com 30 anos, convertia-se, aos olhos dos que iriam lutar a seu lado, em rei». Este episódio (considerado “coerente e verosímil” por José Mattoso) teve certamente «um efeito profundamente moralizador no seio dos combatentes portucalenses» (Miguel Gomes Martins 2011).

Quanto à táctica, Miguel Gomes Martins é de opinião de que a cavalaria pesada cristã (em contraste com os ginetes, os cavaleiros leves e ágeis dos muçulmanos) deve ter conseguido romper e desorganizar as linhas inimigas com grande sucesso. A derrota terá tido um grande impacto no seio dos almorávidas, já que o mesmo governador de Córdova, no ano seguinte, levou a cabo um fossado, no âmbito do qual atacou e arrasou o castelo de Leiria. E, em 1144, foi a vez de Soure.

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Cavaleiros muçulmanos representados na capa de Reconquista Cristã, de Pedro Gomes Barbosa (Ésquilo 2008).

 

A verdade é que Afonso Henriques não mais deixou de se intitular rei, obtendo, em 1143, a confirmação do primo, em Zamora, embora não devesse ter sido quebrado o laço de vassalagem (que aliás nunca foi oficializado em cerimónia, permanecendo ambígua a relação entre os primos). A verdade é que o nosso primeiro rei enviou, dois meses depois da Conferência de Zamora, uma carta dirigida ao papa, prometendo-lhe vassalagem e solicitando que o libertasse do jugo do imperador da Hispânia.

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Batalha de São Mamede. Óleo de Acácio Lino, 1922

 

Hoje, dia de São João Baptista, celebra-se o 891º aniversário da Batalha de São Mamede.

Foi na sequência desta refrega, às portas de Guimarães, que D. Afonso Henriques atingiu a liderança sobre o condado Portucalense. O nosso primeiro rei tinha à volta de vinte anos e estava ainda longe de ser o Conquistador que conhecemos da nossa História. Na verdade, não passava de um jovem inexperiente, mas os barões portucalenses, que repudiavam a influência da família galega de Trava, apoiavam-no em peso. As famílias mais poderosas eram as de Ribadouro (à qual pertencia Egas Moniz), da Maia, de Sousa, de Baião e de Bragança (os Braganções medievais nada têm a ver com a dinastia actual de Bragança).

Não há certezas quanto ao número exacto de guerreiros envolvidos, as fontes, como sempre, são contraditórias. Afonso Henriques estaria, porém, em larga vantagem, pensa-se que teria à volta de seiscentos homens, contra cerca de trezentos do lado de sua mãe.

Apesar de muito contestada no Norte do condado, D. Teresa tinha apoios a sul do Douro, principalmente, em Viseu e Coimbra. O Entre Douro e Minho era, porém, muito mais povoado, possuía mais força de armas. D. Teresa juntou os seus vassalos e demais apoiantes, que incluíam os homens de armas galegos afectos a Fernão e Bermudo Peres de Trava e a Gomes Nunes de Barbosa, os cavaleiros vilãos de Viseu, Coimbra e Seia e alguns nobres, como os de Grijó.

Não penso que, à altura da Batalha de São Mamede, D. Afonso Henriques teria já a intenção de fundar o reino português. Ele teria, sim, receio que nascesse ainda um filho da relação de sua mãe com Fernão Peres de Trava, o que poria a sua herança em perigo. D. Teresa tentou aliás transformar o condado em reino (ela apelidava-se de rainha), mas juntando-o ao território galego. Recordemos que a Galiza tinha já estatuto de reino. Podemos mesmo perguntar-nos se Afonso Henriques teria a mesma intenção, pois, nos cinco anos que se seguiram à Batalha de São Mamede, tentou, por todos os meios, conquistar território galego. Só depois de várias derrotas, ele se virou para as conquistas a Sul.

Derrotada em São Mamede, D. Teresa preferiu o exílio. Morreria cerca de dois anos depois, Herculano refere o dia 1 de Novembro de 1130.

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A 18 de Junho de 1116, o papa Pascoal II emitiu a bula Fratrum Nostrum, em resposta a queixas do bispo de Coimbra, ordenando que fosse restituído à igreja de Coimbra tudo o que lhe tinha sido tirado, inclusive a igreja de Lamego que fora concedida à igreja do Porto. Esta bula foi enviada aos arcebispos de Toledo e de Braga, aos bispos de Tui e de Salamanca e à «rainha D. Teresa».

06 - Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoa

Bula Fratrum Nostrum emitida pelo papa Pascoal II em 18 de Junho de 1116

Foi este um reconhecimento oficial do título real de D. Teresa, ou apenas um tratamento especial dado à filha do «imperador Afonso» (Adefonsi imperatoris)? Tudo indica que este fosse um tratamento habitual entre os portucalenses. A nossa historiografia realça os últimos três a quatro anos da regência de D. Teresa, ou seja, a partir do momento em que os barões portucalenses entraram em conflito aberto com ela e, nos últimos dois, o próprio filho. No entanto, D. Teresa regeu cerca de dezasseis anos sobre o Condado Portucalense, a maioria dos quais em perfeita sintonia com os seus barões. Estes reconheciam-lhe a competência, a «rainha» exercia um controlo total sobre o território, mediando conflitos, dando opinião, ouvindo, fazendo alianças, retribuindo lealdades, castigando quem a infligisse e afirmando-se com grande autoridade.

Além disso, os barões terão admirado o comportamento de D. Teresa à altura do ataque a Coimbra, a 7 de Julho desse mesmo ano de 1116. Na sequência de uma investida almorávida, caíram os castelos de Santa Eulália (concelho de Montemor-o-Velho) e de Miranda do Corvo, enquanto o de Soure foi abandonado e incendiado pelos próprios habitantes, que se refugiaram em Coimbra. Os sarracenos fizeram então grande mortandade ao redor das muralhas desta cidade e D. Teresa terá mostrado coragem, aguentando o ataque, sem fugir, embora estivesse acompanhada dos filhos (D. Afonso Henriques, o mais novo, tinha à volta de oito anos).

Em vários documentos régios e particulares, num período compreendido entre 1105 e 1126, com destaques para as cartas de doação ou de escambo, D. Teresa surge com o título de rainha: «Tarasia regina». Alguns destes documentos exibem mesmo o selo real de D. Teresa em redor da cruz de Cristo.

02 - Carta de doação da igreja de Soure a D. Gon

Carta de doação da igreja de Soure a D. Gonçalo Pais bispo de Coimbra (1109-1127) datada de 10 de Outubro de 1111. Pode ler-se numa passagem assinalada no centro, em baixo: "Ego Tarasia Regina".

10 - Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, d

Carta de doação de Souto Seco e Pombeiro datada de Janeiro de 1126. 
No fim do documento, observa-se o selo real com os dizeres "Tarasia Regina" (Teresa Rainha). 
Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Gavetas.
 

11 - Pormenor do selo real de D. Teresa no final d

Pormenor do selo real de D. Teresa no final da carta de doação de Souto Seco e Pombeiro, Janeiro de 1126.

12 - Carta de confirmação dos foros concedidos

Carta de confirmação dos foros concedidos à Sé de Viseu, datada de Maio de 1123. Também aqui se encontra assinalada a passagem: "Ego Tarasia Regina".

13 - Carta de doação do castelo de Soure à orde

Carta de doação do castelo de Soure à ordem dos Templários, 29 Março 1128. Mais uma vez, o selo real de D. Teresa.

Relembremos que D. Afonso Henriques agiu exactamente da mesma maneira. À semelhança de sua mãe, começou a usar o título de «rei», antes de este ser oficializado por seu primo D. Afonso VII e pela Santa Sé. Além disso, ainda antes de assumir o governo do Condado Portucalense, D. Afonso Henriques era tratado por (e assinava como) «infante», título dado a filho de rei (o que continuou a fazer, depois da Batalha de São Mamede, em 1128, até à Batalha de Ourique, em 1139). Ora, sabemos que seu pai, D. Henrique, permaneceu conde até à sua morte. O título só se justificava por sua mãe ser rainha.

A página do Facebook Lisbon’s Heritage (de onde copiei os documentos) chegou a colocar a questão: Terá Sido Portugal Fundado Por Uma Mulher?

Talvez seja ir longe demais. Afinal, apesar do título de «rainha», D. Teresa regeu sobre um condado. Por outro lado, ela marcou indubitavelmente a independência em relação a sua meia-irmã D. Urraca, a única herdeira do imperador D. Afonso VI. Recusou-se terminantemente a prestar-lhe vassalagem, assim como ao sobrinho (depois da morte de D. Urraca, em 1126). Mesmo não aceitando D. Teresa como a fundadora de Portugal, temos de admitir que, muito mais do que o conde D. Henrique, ela foi a preparadora do caminho que seu filho haveria de percorrer.

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Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos.

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Faz hoje 872 anos que chegou à cidade do Porto a armada de Cruzados que haveria de ajudar D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa.

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Foto © Horst Neumann

Esta minha paixão pela História Medieval leva-me, muitas vezes, a desejar viajar no tempo. E, tendo eu vivido quase duas décadas muito importantes da minha vida (dos 10 aos 27 anos) em Vila Nova de Gaia, perto da Igreja da Serra do Pilar, de onde se tem uma vista extraordinária sobre o rio Douro e a cidade velha do Porto (e de onde foi tirada a fotografia acima), o dia 16 de Junho de 1147 seria um dos meus momentos de eleição. Mas, mesmo sem viajar, não será difícil imaginar a sensação que terá sido a chegada à Ribeira do Porto das 150 a 200 embarcações que constituíam a frota dos Cruzados.

Calcula-se que o contingente contasse cerca de 10.000 homens, distribuídos por várias nacionalidades, não havendo, assim, um líder único. Germânicos e Flamengos rondariam os 5.500 efectivos, capitaneados, respectivamente, pelo conde Arnoldo de Aerschot, um lotaríngio, sobrinho de Godofredo de Bulhão (que fundara o reino de Jerusalém na sequência da Primeira Cruzada) e por Cristiano, senhor de Gistelles, habitualmente apontado como um vassalo do conde Thierry da Flandres. Incluído neste grupo, estariam os contingentes do condado de Boulonge, igualmente vassalo do conde da Flandres.

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Embarcação do tipo coga, característica do Norte da Europa

Os ingleses totalizavam perto de 4.500 homens, divididos em quatro grandes grupos, cada um deles sob o comando de um «condestável». Hervey de Glanville (que teria algum ascendente sobre os outros comandantes) liderava as forças do condado de Norfolk, Simão de Dover liderava os combatentes do Suffolk, André de Londres estava à frente das forças da capital do reino e Saher de Archell liderava um grupo de escoceses e franceses.

A armada transportava ainda vários clérigos, sendo os mais conhecidos Gilberto de Hastings (o inglês que viria a ser escolhido por D. Afonso Henriques para primeiro bispo de Lisboa), o presbítero Raul e os germânicos Winando, Arnulfo e Duodequino de Lahnstein. Os relatos e as cartas destes últimos quatro clérigos constituem as fontes mais importantes sobre o decorrer do cerco de Lisboa.

Não é igualmente de excluir a presença de mulheres, fossem esposas ou companheiras de alguns dos homens, fossem prostitutas, como era habitual nos exércitos medievais.

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Imagem que em tempos usei no meu blogue, sem indicação de origem, mas, como está assinada, resolvi usá-la novamente.

Os representantes dos Cruzados foram recebidos pelo bispo do Porto, D. Pedro de Pitões, que, no dia seguinte, 17 de Junho, fez a sua pregação no terreiro junto à Sé, a fim de os convencer a ajudarem D. Afonso Henriques no seu empreendimento. Nada ficou decidido, mas os estrangeiros anuíram em viajar até Lisboa, a fim de ouvirem o que o rei português tinha para lhes dizer.

A frota partiria a 27 de Junho em direção a Lisboa, ou Lušbuna, mas os Cruzados não foram os únicos a viajar. Na verdade, deve ter-se verificado um verdadeiro êxodo, a partir do Norte do reino. O exército de D. Afonso Henriques contava cerca de 3.000 efectivos, o que, juntando aos 10.000 Cruzados, perfaz 13.000 combatentes. Já vimos, porém, que a frota transportava mais gente. Além disso, calcula-se que, no cerco a Lisboa, se encontravam cerca de 30.000 pessoas, do lado cristão, indiciando que muito povo decidiu rumar a Sul, considerando-se peregrinos em missão de fé. Na verdade, muita gente iria na esperança de uma vida melhor, confiando nas riquezas arrebanhadas aos pagãos e nas terras que D. Afonso Henriques haveria de distribuir, a fim de segurar a conquista.

Penso que este é um momento crucial para a coesão do reino acabado de formar. Estamos efectivamente a falar dos primeiros portugueses da História. D. Afonso Henriques conseguiu mobilizar todo o povo no mesmo objectivo, gente vinda desde a margem esquerda do rio Minho e da região transmontana, passando pelo Porto e pela região duriense até às terras à volta do rio Mondego. Portugal deixava de ser apenas Braga, Guimarães, Porto, Lamego, Viseu e Coimbra, para passar também a ser Leiria, Santarém, Lisboa e Sintra (havia cerca de dez anos que D. Afonso Henriques mandara construir o castelo de Leiria, mas, até 1147, situava-se em pleno território de fronteira indefinida).

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Nota: quem se interessar por este tema, não encontra melhor leitura do que este livro de autoria do Professor Miguel Gomes Martins, do qual tirei muitas das informações publicadas neste texto. 1147 A Conquista de Lisboa - Na Rota da Segunda Cruzada contém tudo o que, até ao momento, é conhecido sobre o Cerco e a Conquista de Lisboa, dando ainda um retrato da situação europeia da época e o papel das conquistas portuguesas nesse contexto.

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Bula Manifestis probatum. Imagem Wikipedia

 

Completam-se hoje 840 anos sobre a emissão da bula Manifestis probatum, pelo papa Alexandre III, reconhecendo oficialmente a independência de Portugal. Muitas vezes se assinala o dia 5 de Outubro de 1143 como sendo o da criação de um reino independente, mas o assunto não é pacífico. Na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007), um livro de mais de 400 páginas, o Professor Mattoso reserva apenas um pequeno parágrafo à conferência de Zamora, aqui transcrito na sua totalidade:

“Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal [Guido de Vico] dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto (p. 212)”.

D. Afonso VII reconheceu, em Zamora, a dignidade régia de D. Afonso Henriques (que utilizava o título de «rei» desde 1139), mas não há provas de que tenha prescindido da condição de vassalo do primo, já que se intitulava «imperador de toda a Hispânia», o que lhe dava o direito de ter reis como vassalos - algo que, muitas vezes, é esquecido, ou ignorado, na nossa historiografia. O certo é que D. Afonso Henriques teve necessidade de enviar, a 13 de Dezembro de 1143 (apenas dois meses depois de Zamora) a carta Claves regni ao papa, declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido de Vico, como cavaleiro de São Pedro, solicitando, assim, a sua libertação do poder central hispânico.

É, por isso, difícil de atribuir uma data para a independência de Portugal, mas acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo esta se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português (desenvolverei este assunto num próximo post).

D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e debilitado. Tinha cerca de setenta anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos fracos. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo, na época, um caso raro de longevidade, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos quinze anos.

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Afonso Henriques, escultura em bronze (pormenor); Ourique, 1979

 

Tendo em conta as viagens morosas daquela época, a chegada da bula Manifestis Probatum à corte portuguesa só se terá dado na segunda quinzena de Julho. Segurar nas próprias mãos este importante documento deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca, que aspirava à independência do seu reino havia quase cinquenta anos.

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Cidade de Zamora, nas margens do rio Douro/Duero. Imagem Sapo Viagens

 

Embora se conheça o local, não se conhece bem a data em que D. Afonso Henriques foi armado cavaleiro. Há consenso, por parte dos historiadores, que tenha sido num Dia de Pentecostes, uma data muito usada para este efeito, na época medieval, e o Professor Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (Temas e Debates 2007) situa a cerimónia nos anos 1125 ou 1126, preferindo, no entanto, a primeira hipótese.

O Pentecostes, no ano de 1125, foi no dia 17 de Maio. Penso, por isso, que podemos assinalar hoje o 894º aniversário da investidura de D. Afonso Henriques.

A História teve, no passado, a tendência para afirmar que este teria sido um acto de rebeldia do jovem infante em relação a sua mãe, por D. Teresa estar ligada ao conde galego Fernão Peres de Trava. Porém, o Professor Mattoso dá-nos uma versão diferente. Em primeiro lugar, diz-nos, na referida biografia, que, a partir de 1120, D. Afonso Henriques

“passou a viver na corte, e a ocupar nela uma posição de destaque, pois algumas vezes é mencionado como outorgante de documentos juntamente com sua mãe ou confirma-os em posição superior à do conde Fernão Peres. Até 1127, não se pode apontar nenhum indício seguro de qualquer conflito entre ele e a «rainha» [D. Teresa] (p. 54)”.

O professor Mattoso reforça esta sua tese com o local escolhido: Zamora.

“Se alguma investidura houve, porque não se escolheu Braga, Guimarães, o Porto, Coimbra ou Viseu? (…) Não se esqueça que Zamora pertencia ao senhorio de D. Teresa desde que lhe fora concedida por D. Urraca durante o cerco de Peñafiel em 1111. Se aceitarmos a veracidade da referência ao lugar, teremos, logicamente, de admitir que a cerimónia se teria realizado com o acordo de D. Teresa e, dadas as suas relações com Fernão Peres, também com o seu consentimento (p. 56)”.

Tudo isto nos dá outra visão dos acontecimentos: em vez de um acto de rebeldia do jovem infante, por instigação dos barões portucalenses revoltados, teria sido antes uma tentativa de D. Teresa de apaziguar esses mesmos barões, apresentando-se ao lado do filho.

A cerimónia terá decorrido na basílica de São Salvador de Zamora, pois não existia ainda a catedral. Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses (redigidos à volta de 1185), dizem-nos o seguinte:

“O ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso (…) tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar como é costume fazerem os reis”.

A ser verdadeiro, este relato reforça a tese de que D. Teresa promoveu a investidura do filho, pois intitulava-se «rainha», por isso, o seu filho era um infante tal como o primo. D. Teresa pretendia mostrar à meia-irmã D. Urraca e ao sobrinho D. Afonso Raimundes que continuava a reclamar para si uma parte da herança de seu pai, ou seja, o governo independente do reino da Galiza, no qual era apoiada pelos Trava.

 

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