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O postal que aqui deixei sobre a monográfica de Joaquín Sorolla no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem um post scriptum sobre o término de funções da direcção daquele museu. Ontem, o Diário de Notícias publicou uma entrevista ao director cessante, António Filipe Pimentel, interessantíssima para compreender as razões da direcção, o comportamento da tutela e as necessidades da Cultura em Portugal. Merece ser lida.

A entrevista dá para longas páginas de análise. Cinjo-me a dois pontos. Primeiro, o Ministério da Cultura prevê agora atribuir um NIF aos museus, passo elementar para um módico de autonomia, uma reivindicação antiga de Pimentel que S. Exa. a Ministra da Cultura terá recusado sempre – aparentemente, a reivindicação tornou-se atendível após a direcção do MNAA ter manifestado a sua indisponibilidade para continuar em funções.

Segundo, nos museus, como em tantos outros domínios públicos, a austeridade não só se mantém como é hoje mais intensa. Pior, e porventura reflexo de posicionamento ideológico, a tutela trata como iguais coisas que são manifestamente diferentes. Para efeitos de enquadramento do assunto, note-se que a colecção do MNAA é a “única coleção de relevância internacional existente em Portugal. Não é por acaso que, no ano passado, estiveram emprestadas 150 peças e 450 outras de toda a parte do mundo que vieram para exposições nossas.”

A par da sua importância estritamente cultural, os museus e as instituições culturais podem ser armas potentes na projecção externa de um país. Pimentel refere, e bem, o papel desempenhado pelo Museu do Prado na “marca Espanha”. Aliás, sem entrar no debate público vs privado, instituições como o Prado, o Thyssen-Bornemisza, o Reina Sofia e o Caixaforum Madrid mostram de maneira muito tangível como se cria e divulga uma imagem positiva de  Espanha no mundo.

Em 2014, os habituais vultos da cultura pátria e os intelectuais de ocasião congregaram-se em torno a António Costa, pois só ele poderia acabar com a austeridade e com a "falta de visão" no sector. A Cultura apoia António Costa, lia-se no cabeçalho do manifesto com cerca de 600 subscritores. Salvo o erro, nenhum se pronunciou ainda sobre o estado de coisas no MNAA, nem mesmo o inefável e antes muito activo António-Pedro Vasconcelos – o mesmo Vasconcelos encabeçou o protesto contra a privatização da TAP e agora, com a companhia aérea novamente na esfera de influência do Estado, nada tem a dizer sobre o facto de esta liderar o ranking mundial de atrasos.

Vale o que vale, mas à direcção cessante do MNAA desejo as maiores felicidades. Já a nós, os que fruímos de bens culturais, desejo paciência. Estamos condenados aos caprichos de uma tutela errante que se vê imbuída de uma missão civilizadora e, claro, aos inconsequentes vultos da cultura nacional.

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Lamento

por Pedro Correia, em 09.01.19

Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou "para inventário", como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.

Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem "depilação total nas axilas e nas virilhas" em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.

Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias - que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas - irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

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Sorolla em Lisboa

por Diogo Noivo, em 07.01.19

Joaquín Sorolla (1863-1923) é um nome maior da pintura espanhola, celebrizado pela reprodução magistral da luz nas praias mediterrânicas. A luminosidade, na sua infinita complexidade, e os reflexos tortuosos do brilho são retratados com uma qualidade fotográfica que não se limita ao real e apela à imaginação.

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Corriendo por la playa (Valência, 1908)

 

São igualmente admiráveis os retratos por ele traçados, uns por agradecimento a mecenas, outros por curiosidade, e outros por profunda ternura e amor – Clotilde García del Castillo, mulher de Sorolla, é uma constante nas várias fases do trabalho do pintor. Ficou para a História o retrato de D. Alfonso XIII, pintado ao ar livre na lindíssima Granja de San Ildefonso, na província de Segóvia. O monarca não é de boa memória – cedeu o passo a Primo de Rivera e enterrou o regime da Restauración –, mas o quadro é dos mais emblemáticos da época.

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Retrato del Rey Don Alfonso XIII con el uniforme de husares de Pavía (Segóvia, 1907) e fotografia do processo de pintura.

 

Não tenho especial sensibilidade ou apetência por artes plásticas, mas o fascínio pela obra de Sorolla já me fez correr meia Espanha e, naturalmente, levou-me ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, à exposição “Terra Adentro”, a primeira monográfica do pintor em Portugal. O acervo exposto é menos célebre, porque mais telúrico. É, ainda assim, uma mostra a não perder: está bem organizada, a escolha das obras é cuidada e inteligente. Permite conhecer algumas das fases do prolífico Sorolla, pintor inexplicavelmente desconhecido por estas paragens.

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(os quadros são notáveis, o fotógrafo é que nem por isso)

 

Para saber mais sobre Sorolla e sobre esta monográfica, que pode ser visitada até ao dia 31 de Março, recomendo a leitura deste artigo no Público e de este outro no Babélia, o suplemento cultural do jornal El País, escrito por Antonio Muñoz Molina.

 

Post Scriptum – lamento a demissão da direcção do Museu Nacional de Arte Antiga, cujo desempenho foi francamente positivo. A direcção cessante não pedia mais dinheiro, apenas mais autonomia. Parece que o Governo de turno, que se arroga o direito de definir o que é civilização e cultura, pretende dar continuidade a lógica omnipresente e omnipotente (e fortemente subsidiada) da gestão centralizada.

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Post-it

por Fernando Sousa, em 22.11.18

Primeiro foi o Halloween, agora é o Thanksgiving. A seguir será o Mamby on the Beach na praia de Carcavelos, o Bay to Breakers na Ponte 25 de Abril, o Fun Fun Fun Fest no Meco, o Saint Patricks Day, e, por fim, o 4 de Julho e majoretes na Avenida da Liberdade? Que país tão poroso, raios!...

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O meu "Cinema Paraíso"

por Fernando Sousa, em 06.08.18

Os restos do Sintra Cinema, o meu "Cinema Paraíso". Abbot & Costello, Jerry Lewis, Cantinflas, Tarzan, por Johnny Weissmuller, Robin, segundo Errol Flynn, uma vez ou outra Chaplin, sempre antecedidos das chatíssimas Actualidades e da propaganda do regime. E, pelo meio, cortes e mais cortes, evidentemente assobiados e pateados. No seu lugar vai ser construído um hotel com 54 quartos. 

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Um país onde se lê pouco e mal

por Pedro Correia, em 19.06.18

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Portugal é dos países da Europa onde menos se lê: só compramos, em média, 1,3 livros por ano. Estes péssimos índices, que não merecem qualquer tipo de censura social, ajudam a explicar por que motivo 45% dos alunos do 5.º ano de escolaridade são incapazes de identificar Portugal no mapa da Europa Ocidental - algo que se justifica pelo facto de o ensino, entre nós, estar cada vez mais desprovido de exigência, privilegiando-se o carácter "lúdico" da aprendizagem, que deve merecer a "adesão emocional" das crianças enquanto o esforço se ausenta das salas de aula.

Há tempos, num grupo de cerca de dezena e meia de pessoas da chamada classe média-alta reunidas em Lisboa, perguntei a cada uma delas se tinha comprado algum livro no ano anterior. Excepto num caso, as respostas foram todas negativas. A nossa chamada elite vive divorciada de leituras: é incapaz de comprar um romance ou um jornal, por exemplo. Sai de casa para abancar num restaurante, mesmo caro, mas nem lhe ocorre deslocar-se a um teatro ou um cinema, a um concerto ou a uma exposição.

 

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Em Novembro de 2013, fechou em Lisboa o cinema King. Foi durante anos o que mais frequentei. Lá vi alguns filmes inesquecíveis - vários de Pedro Almodóvar, por exemplo. Em diversas ocasiões não havia praticamente mais ninguém na sala: era fácil antever que acabaria por encerrar. Como encerrara o Londres, em Fevereiro desse ano - outro cinema da capital de que fui visitante assíduo. Nos últimos meses o seu estado de degradação tornara-se de tal modo evidente que não custava antecipar-lhe o fim.

Depois de fechado, muitos do que o votaram ao abandono lembraram-se de pôr a circular um abaixo-assinado entre os moradores da zona exigindo à câmara que não autorizasse a abertura de uma loja chinesa no seu lugar. Ainda me lembro do ar de espanto da senhora que me pôs o papel à frente, pedindo a minha assinatura, quando lhe respondi que me recuso a subscrever petições xenófobas. A loja abriu em 2014 e lá está, sempre cheia, no preciso local onde existia o antigo cinema, quase sempre vazio. Os mesmos que viraram as costas à sala de espectáculos passaram a acorrer ao estabelecimento comercial - incluindo ex-promotores do tal abaixo-assinado prontamente esquecido.

 

Somos assim: deixamos encerrar jornais, cinemas, livrarias. No momento em que fecham, logo surge o habitual coro de carpideiras lamentando o sucedido. Em regra, quem mais chora é quem menos contribui para evitar em tempo útil que o deserto cultural vá alastrando entre nós numa escalada galopante.

Quantos pais, incluindo na petulante Lisboa, nunca oferecem um livro aos filhos? Quantos já os levaram a visitar um monumento ou um museu? Quantos reagem com um resignado encolher de ombros à notícia de que um filho de dez anos é incapaz de apontar Portugal no mapa?

Que modelo de exigência estamos a proporcionar à geração que vai seguir-se?

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Calinada "cultural"

por Pedro Correia, em 07.04.18

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O primeiro-ministro assinou uma "carta aberta" ao sector da cultura, publicada no Portal do Governo.

Leio essa carta.

Logo na primeira linha, um erro de palmatória: "Nos últimos dias, vários criadores culturais têm-me contatado..."

Assim mesmo.

Um iliterado escreveu, o primeiro-ministro assinou e mandou publicar.

Ninguém reparou, ninguém detectou o erro logo na linha inicial, ninguém quis saber da calinada.

Assim anda a "cultura" com chancela oficial neste país.

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More or less

por Pedro Correia, em 27.03.17

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A falta de cultura exibida como flor na botoeira é uma das características dominantes nestes dias em que quase tudo se nivela forçosamente por baixo. O sábio e o burro vivem irmanados à mercê de um clique digital. Razão tem o pai da Internet, Tim Berners-Lee, em mostrar-se  preocupado com a desinformação galopante, potenciada pelo seu invento.

Lembrei-me disto ao ouvir há dias num canal televisivo o jovem curador da "primeira exposição-manifesto” no novíssimo Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa, intitulada Utopia/Distopia. Dizia ele que este evento se destina a "celebrar os 500 anos da Utopia de Thomas "Moore" (pronunciando "Múa"). E adulterou duas vezes o apelido de sir Thomas More para que ninguém ousasse duvidar da sua falta de conhecimentos na matéria.

"Estamos mais desinformados que nunca", reconhecia amargamente Berners-Lee na sua carta publicada há dias no blogue da Fundação World Wide Web. Tem motivos de sobra para concluir isto, quando a Utopia de More é atribuída por alguém com supostas responsabilidades culturais a um tal Moore. Presumivelmente da família do ex-007. Moore, Roger Moore.

São sinais dos tempos: verdade ou mentira, rigor ou imprecisão, More or less. Tanto faz. E siga a banda.

 

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O declínio do pensamento

por Pedro Correia, em 09.02.17

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“Fui professor e garanto-lhe que os meus primeiros alunos podiam agora ser catedráticos. Saber pensar e raciocinar está em declínio.” Palavras do escritor espanhol Félix de Azúa, em recente entrevista ao jornal El Mundo. Palavras certeiras, que ilustram a erosão cultural a que vamos assistindo nos mais variados domínios. Erosão que começa no vocabulário, cada vez mais comprimido: a cada década que passa, milhares de palavras vão morrendo por falta de utilizadores. A capacidade de decifração de textos escritos há meio século, para não recuar mais no tempo, vai-se reduzindo. Vocabulário exíguo gera pensamento estreito e dicotómico, que pretende expurgar toda a complexidade e só busca respostas simplistas, potenciadas pelo maniqueísmo da chamada democracia digital, pronta a colocar o ignorante no pedestal antes reservado ao sábio.

O erudito está hoje condenado ao ostracismo pela ululante multidão de “utilizadores” das chamadas redes sociais, dispostos a substituir o pensamento racional por emoções avulsas, inflamadas com muitos likes.

 

Voltei a reflectir em tudo isto ao ver ontem uma cena de uma série televisiva, aliás excelente, rodada em Paris por alturas do Natal. Um americano encontra-se com uma francesa numa brasserie e ela pede ao empregado: “Mon ami voudrait bien un verre de vin.” Tradução, na legendagem: “O meu amigo gostaria de um vinho verde.”

O copo de vinho [verre de vin] transforma-se num inverosímil vinho verde [sem tradução, mas que à letra seria vin vert]­, por obra e graça sabe-se lá de quê, transportando a frescura das adegas de Penafiel ou Mondim de Basto para o aconchego natalício de uma brasserie parisiense.

O contexto, a circunstância, o enquadramento cultural – tudo isto importa tanto como a carpintaria da língua quando se traduz seja o que for. Mas raciocinar é uma velharia em declínio. Para quê desgastar os neurónios se não tarda muito teremos um qualquer robot multilingue a desempenhar tão cansativa função por nós?

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 A fotografia acima foi retirada de um post no LinkedIn. A legenda conta a história:

«Wolf pack & strategy: The first 3 are the older or sick & they set the pace of the group. If it was on the contrary, they would be left behind and lost contact with the pack. In ambush case they would be sacrificed. The following are the 5 strongest. In the center follow the remaining members of the pack, & at the end of the group the other 5 stronger. Last, alone, follows the alpha wolf. It controls everything from the rear. That position can control the whole group, decide the direction to follow & anticipate the attacks of opponents. The pack follows the rhythm of the elders & the head of command that imposes the spirit of mutual help not leaving anyone behind.»

 

Infelizmente a história é falsa e completamente inventada. A fotografia foi tirada por outro fotógrafo (Chadden Hunter) que não o citado (Cesare Brai) e faz parte da série de David Attenborough Frozen Planet. Não vou explicar muito sobre a foto e a história em si. Para tal, mais detalhes aqui.

 

A foto pareceu-me desde o início excessivamente limpa, clara e perfeita para a explicação. Por isso investiguei se seria verdadeira. Depois de explicar a realidade no post, fui atacado por não perceber o valor simbólico da metáfora e foi-me dito, incrivelmente, que a exactidão da história não era importante.

 

Isto é para mim difícil de entender: como é possível que a exactidão, a veracidade de um relato não seja importante? Se queremos histórias inspiradoras e didácticas podemos refugiar-nos em parábolas ou fábulas. São criadas para tal e, apesar da falta de fotografias que se partlhem na net, estão habitualmente muito melhor escritas.

 

A minha dificuldade é que, perante a falta de compreensão da fotografia, e mesmo aceitando a descrição como real, eu poderia virar a história ao contrário: os mais velhos existem para ser sacrificados, o/a alfa (figura que na realidade não existe) merece que se morra por ele/a e pode e deve controlar tudo. Interpretando a história falsa de outra forma pintamos uma imagem bastante desagradável. Especialmente quando a realidade basta: o líder segue na frente, usando a sua força para abrir um caminho que os restantes - que não são subordinados - seguem.

 

A net é uma fonte de informação mas a maioria usa-a como fonte de desinformação. Uma forte parte do problema é a incapacidade de usar alguma medida de espírito crítico que permita questionar o que nos chega às mãos (ou olhos). Não é, na minha experiência, exclusivo de nenhuma sociedade ou cultura, mas tende a ser tanto mais pronunciada (de novo, de acordo com a minha experiência) quanto menor for a formação científica.

 

O método científico, com todas as suas falhas, ensina antes de mais a questionar observações e a formular hipóteses que devem ser testadas. Isto é válido para um laboratório e para o cientista que faz as suas culturas num disco de Petri, mas também para o leitor genérico que vê um post no Reddit ou LinkedIn ou Facebook. A ignorância nunca é um pecado nem um defeito (todos somos vastamente mais ignorantes que conhecedores), mas a falta de espírito crítico ou de vontade de pensar é um dos maiores males modernos.

 

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Só esta citação para terminar. Lincoln sabia da poda.

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Um poeta com os pés na terra

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.16

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Dos melões costuma-se dizer que só se sabe se são bons depois de abertos. De um cidadão, de um funcionário, de um servidor do Estado conhecem-se as suas atitudes, os seus comportamentos públicos, o mérito ou demérito das suas acções. Da escrita de um poeta é, por vezes, possível conhecer a sua intimidade, o seu modo de pensar, nem sempre a sua circunstância. Mas de um ministro só será possível analisar a sua acção no fim, embora se possa sempre dizer que não raro na política há males que vêm por bem. Em todo o caso, não posso deixar de pensar que a chamada de Luís Filipe Castro Mendes ao Ministério da Cultura me parece uma decisão sensata e acertada. A entrevista que deu à RTP revela antes de mais a ponderação e a serenidade do escolhido, uma abertura de espírito e uma predisposição para o exercício do cargo pouco habituais na nossa vida pública. E ideias.

Um discurso directo, claro, frontal, eminentemente livre e bem articulado, revelador de uma capacidade de análise e de abertura para a aprendizagem indispensáveis a um bom exercício do cargo. Longe dos excessos verbais, do umbiguismo, da má educação e indisfarçável pesporrência de que padeciam alguns dos seus antecessores, capaz de olhar o seu interlocutor nos olhos sem fugir às questões, Castro Mendes apresenta-se à partida como o homem certo para o lugar no momento adequado.

Sem pressas, genuíno, consciente da sua missão, caloroso q.b., a sua primeira entrevista serviu, para já, para nos apresentar o homem. E elevar a fasquia. Muito. Oxalá tenha sorte, e que não nos desiluda, porque quanto ao resto não me parece que lhe falte alguma coisa para o exercício do cargo.

Ninguém lhe pede que transforme um país de versejadores natos e humoristas de vão de escada numa terra onde os Camões, os Pessoa, os Cardoso Pires ou os Lobo Antunes se reproduzam aos pontapés. Ou que dê novos fados ao nosso Fado. Nem mesmo que ensine regras básicas de civilidade e princípios de cidadania aos muitos que ainda os não têm. Mas apesar de tudo, e sem que eu saiba qual a atitude que adoptará em relação ao novo Acordo Ortográfico de 1990, é reconfortante pensar – e este é um bom princípio –, que na Cultura está um homem de cultura. Um homem civilizado. Um poeta com os pés na terra.

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Um Ministro Poeta

por Isabel Mouzinho, em 12.04.16

Sou tudo menos socialista, já se sabe. Mas ter um poeta como Ministro da Cultura, parece-me bem, confesso. Porque terá, pelo menos, um peculiar entendimento das coisas, uma sensibilidade maior. E isso é muito importante.

De Luís Filipe Castro Mendes conheço pouco. Mas à esquerda e à direita todos lhe tecem os maiores louvores. Segundo a minha amiga Helena, que o conhece bem, (...) iremos ter como Ministro da Cultura um homem muito inteligente, muito culto, e cuja profissão de origem, a diplomacia, lhe permitiu correr mundo e contactar com culturas muito diversas.

Humanamente é um homem caloroso, cujo olhar sereno mas directo só pode tranquilizar aqueles que, na área que vai conduzir, ponham parte do destino profissional nas suas mãos.

A Helena tem certamente razão. Há uns três anos estive no lançamento de um livro do futuro Ministro e gostei muito. Pude testemunhar a serenidade calorosa de que fala a Helena e tocou-me sobretudo a simplicidade com que pegou no seu livro e leu alguns poemas, que é no fundo a melhor maneira de os apresentar.

Vamos ver como se sai na política, mas lá que promete, disso não restam dúvidas...

 

Para a solidão nascemos. Outras vozes

nos chamam e invocam, outros corpos

se perfilam radiosos contra a noite.

Nós não somos daqui. Num intervalo

de campanhas esquecidas nos dizemos,

abrindo o coração aos de passagem.

Mas quando a manhã chega nós partimos,

mais livre o coração, longa a viagem.

 

                                                          (Luís Filipe Castro Mendes)

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Michel Giacometti e o Plano de Trabalho e Cultura - Serviço Cívico Estudantil

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Há 40 anos começou a acabar | 04. Casa para todos

por Tiago Mota Saraiva, em 26.11.15

Continuar a viver - Índios da Meia Praia de António da Cunha Telles

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Há 40 anos começou a acabar | 03. Reforma Agrária

por Tiago Mota Saraiva, em 25.11.15

Torre Bela de Thomas Harlan

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Há 40 anos começou a acabar | 01. Operações SAAL

por Tiago Mota Saraiva, em 23.11.15

Trailer do Filme AS OPERAÇÕES SAAL de João Dias 


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Lá, como cá!

por Helena Sacadura Cabral, em 23.03.15

UN APERÇU DE LA CULTURE DES ADOS :

 

Quel est le plus grand navigateur au monde ?

- Internet Explorer !

 

Quelle est la capitale de Taïwan ?

- Made-In

 

De quelle œuvre est issue la phrase "To be or not to be" ?

- De "Questions pour un champion".

          

Pourquoi dit-on de Jules César qu'il était un dictateur ?

- Car il savait dicter plusieurs lettres à la fois ; il était très rapide.

 

Quelle est la taille de Hong-Kong ?

- 10 m, peut-être plus ; il est très grand !

 

Qui était Léonard De Vinci ?

- Un très grand écrivain ; son œuvre principale est Da Vinci Code.

 

Qui était Galilée ?

- Un grand savant. Avant lui, la terre ne tournait pas.

 

Qui était le Général de Gaulle ?

- Un homme dans le dictionnaire. Il fut un protestant très pratiquant, catholique même. C'est pourquoi il a été enterré dans un village avec deux églises, à Colombay.

 

Expliquez-moi la règle des probabilités.

- C'est une règle mathématique mais on ne sait si elle existe ou pas.

 

Vous êtes certain ?

- Eh non, puisqu'elle n'est que probable !

 

Quelles sont les trois grandes périodes de l'humanité ?

- L'âge de la pierre, l'âge du bronze et l'âge de la retraite. Ce dernier est le plus court.

 

Comment est mort Napoléon ?

- Il a été décapité, comme Bonaparte et tous les rois, d'ailleurs.

 

Parlez-moi des croisades.

- C'est un voyage organisé. Il a été organisé par le Pape pour que les chrétiens se rencontrent et discutent entre eux.

 

Pouvez-vous me parler de l'âge de pierre ?

- Oui, Pierre avait entre 30 et 35 ans ; c'était un apôtre du Christ.

 

Parlez-moi de la Révolution française.

- Les Français s'insurgent ; ils prennent la Bastille. Cela se termine le 14 juillet avec des feux d'artifice.

 

Parlez-moi des capacités du cerveau

- Le cerveau a des capacités tellement étonnantes que, aujourd'hui, presque tout le monde en a un.

“Je n'en suis pas persuadé !” a répondu le professeur

 

Qui a inventé le zéro ?

- Personne ne le sait. On peut dire que devant, il ne sert pas à grand-chose mais il est très utile car c'est le seul chiffre qui permet de compter jusqu'à 1. Sans lui, on aurait commencé à 2.

 

Et encore:

 

- La solidarité sociale a poussé l'Etat français à construire des H&M.

 

- Un ovale est presque rond mais quand même pas.

 

- La décolonisation est quelque chose de nécessaire car on ne peut laisser les enfants en colonies de vacances toute l'année.

 

- Si De Gaulle n'apparait pas sur les photos de la conférence de Yalta c'est parce que c'est lui qui les a faites... évidemment!            

 

-  Pendant la guerre, les gens étaient très occupés par l'occupation

 

Ah, que c'est bon de savoir que les ados ont de l'humour.

 

Podiamos pensar que exemplos destes só se passavam em Portugal. Afinal estamos bem acompanhados pela sabedoria dos adolescentes franceses que nasceram na terra da cultura...

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Um festival da diplomacia cultural dirigido aos sentidos

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.05.14

Em 1993, o Consulado Geral de França em Hong Kong e Macau deu início a um conjunto de iniciativas que se têm vindo a repetir anualmente e são actualmente conhecidas como "O Maio Francês". Em rigor, Le French May é bem mais do que um simples festival porque não só não se esgota em Maio como consegue prolongar-se por todo o mês de Junho, com extensão, num caso pelo menos, até Setembro, congregando exposições, cinema, música e gastronomia. Este ano terá lugar a vigésima segunda edição e o que aí vem é um verdadeiro festim para os sentidos, celebrando os 50 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre a França e a China.

Deixo aqui para os leitores do DO uma pequena ideia dos eventos, mas gostaria em especial de sublinhar a exposição de doze obras primas da pintura mundial, que estará patente no Museu de Arte de Macau, e que justificou o maior seguro alguma vez feito por estas bandas, isto é, qualquer coisa como o equivalente a € 300.000.000,00 (trezentos milhões de euros). Entre as obras que estarão à vista de quem nisso tiver interesses sublinho Le Balançoire, de Renoir, Le Verrou, de Fragonard, o retrato de Francisco I, de Clouet, e Pintor e Modelo em Estúdio, de Pablo Picasso. As obras virão directamente para Macau do Museu D'Orsay, do Louvre, de Versailles e do Centro Pompidou. 

 

Para quem é apreciador de Rameau, tantas vezes esquecido e aqui há uns anos justamente homenageado no CCB, num programa da Festa da Música, destaco  Le Concert d'Astrée com Emmanuelle Haïm, a soprano Katherine Watson e o tenor Anders Dhalin. Por ser uma das minhas obras favoritas, espero que seja possível escutar Rondeau des Indes Galantes. Mas também virão Philippe Jaroussky & The Venice Baroque Orchestra, Roland Dyens, O Fausto, de Gonot, numa co-produção da Ópera de Nice Côte d’Azur, da Ópera de Avignon e do Théâtre de Saint-Étienne, dirigida por Paul-Emile Fourny, Sons d'Auvergne pela Filarmónica de Hong Kong e a mezzo-soprano Clara Mouriz.

Muito mais haveria a dizer, como haverá depois a contar, mas convém que para os lados da Gomes Teixeira e das Necessidades se reflectisse também sobre se não fará mais sentido uma ofensiva da nossa diplomacia cultural, em larga escala, que atrás dela levará a diplomacia económica, do que andar a vender apartamentos com títulos de residência acoplados, a preços inflacionados e sem verdadeira criação de riqueza.

De qualquer modo, deixando estas considerações para outra altura, se o leitor está a começar a planear as suas férias de Verão, tem uma deslocação prevista para estas bandas ou está simplesmente indeciso, talvez não fosse mau começar a pensar na hipótese de aproveitar a viagem e gozar os prazeres de Le French May. Ao contrário de outras saídas, em que o risco é nosso e a gestão por conta dos outros, esta seria uma saída limpinha. Pode ter a certeza de que tudo aquilo que puder ler, ver, ouvir e degustar por estes lados, nunca ninguém lhe poderá tirar.

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Barrete

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.02.14

Um tribunal escreve no respectivo acórdão que a expedição de um conjunto de obras de Miró foi "manifestamente ilegal". E para que não haja dúvidas acrescenta "não ser necessário argumentação sofisticada para concluir que a realização do leilão pela leiloeira Christie's das obras de Joan Miró comprometeria gravemente o cumprimento dos deveres impostos" pela Lei de Bases do Património "e reduziria a nada a concretização dos deveres de protecção do património cultural" (socorro-me da citação do Público).

Que o presidente do Conselho de Administração da Parvalorem olhe para as obras e em vez de arte e património veja notas de euros, parece-me normal tratando-se de um economista, tendo em atenção as funções que exerce e as tarefas que lhe foram cometidas de espremer as tetas de uma vaca exaurida. Menos curial será a posição do secretário de Estado da Cultura, que depois de atirar para o Governo anterior as culpas do País ter "herdado", contra vontade, é certo, uma colecção de excepção, ainda se permitiu, quando questionado sobre a manifesta ilegalidade do seu despacho que autorizou a exportação das obras, perguntar se "seria normal que por causa de uma questão deste género eu pondere a demissão?".

Pois a mim parece-me que fazendo Barreto Xavier parte de um executivo liderado por uma organização juvenil do PSD, afinal o mesmo executivo de onde saiu o senhor Relvas depois de uma fantástica conferência de imprensa, de onde se demitiu "irrevogavelmente" o dr. Portas e de onde fugiu o dr. Vítor Gaspar, depois de um acto de contrição que durou meses a ser preparado, não seria nada normal que ponderasse sequer a hipótese de demissão. Qual demissão qual quê, pá, está tudo doido? Nem por uma "questão deste género" nem por nenhuma outra. O senhor Barreto Xavier ainda se arriscava a ser praxado e não seria bonito vê-lo de gatas com aqueles tipos e aquelas tipas que querem ter "o direito à humilhação" a mandá-lo fazer "béubéu". Nem pense nisso.

O senhor Barreto Xavier deve continuar onde está. Se possível indefinidamente. E se alguma vez tiver a triste ideia de ponderar a hipótese de sair, o melhor é só fazê-lo depois de garantir, pelo menos, um louvor e a imprescindível condecoração do Prof. Cavaco. Hoje em dia, como sabe, esses ornamentos são fundamentais para a apreciação do mérito de um funcionário, até mesmo dos piores, e o senhor não é menos do que estes. Dava-lhe jeito e teria o efeito dos portugueses já não estranharem na hora da promoção. Fique onde está, homem, tente continuar sempre assim, marimbe-se (esta é do saudoso Azevedo) para a ilegalidade e para essa trampa dos "mirones" e vai ver que chega ao fim do mandato. É limpinho. Fazer figura de parvos, aplaudir filósofos baratos, comer gato por coelho e enfiar barretes, vindos sabe-se lá de onde, tudo isso é connosco. Siga para bingo, sem crise.

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