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Delito de Opinião

Vénias do Estado ao déspota cubano

Pedro Correia, 15.07.23

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«Desde o infantário até ao túmulo que nos vai calhar na rifa, escolheram tudo, sem nos perguntarem nunca nem de que doença gostaríamos de morrer.»

Leonardo Padura, Paisagem de Outono

 

Levaram-no ao Mosteiro dos Jerónimos, receberam-no com salamaleques na Assembleia da República como se fosse um estadista em vez de pau-mandado da família Castro, que tiraniza Cuba desde 1959. Marcelo Rebelo de Sousa, seu homólogo português, entoou loas ao «comandante Castro», como se estivesse na Festa do Avante! Participaram juntos numa conferência de imprensa, obviamente «sem direito a perguntas dos jornalistas»: essa modernice de ver jornalistas fazer perguntas ainda não chegou a Havana e acaba de ser replicada em Lisboa.

Miguel Días-Canel, um dos escassos aliados de Vladimir Putin na criminosa invasão soviética da Ucrânia, é recebido com todo o aparato oficial português como se fosse pessoa apresentável. Marcelo implora-lhe médicos, que funcionam como mercadoria de exportação do regime comunista de Havana enquanto o Estado lhes confisca quase 80% do salário no estrangeiro e os proíbe de viajarem com as famílias para ter a certeza de que não desertam.

Em vez de baixar a cerviz como anfitrião do déspota, o Presidente português devia pedir-lhe que abrisse o país e deixasse os cubanos licenciados em Medicina (com salário médio equivalente a 35 euros mensais) viajar livremente para onde lhes apetecesse em vez de viverem enclausurados na ilha-prisão.

Não me admirava que Marcelo agraciasse o ditador com a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Afinal já fez o mesmo à mulher de Lula da Silva, banalizando de tal maneira esta condecoração que hoje vale quase nada.

 

Enquanto as instituições democráticas portuguesas se inclinam em vénia a Díaz-Canel, 1047 presos políticos sufocam nas masmorras cubanas. Grande parte deles condenados a 30 anos de prisão por ousarem protestar pacificamente contra a tirania. Alguns com menos de 18 anos. Todos sofrem torturas. Como o artista Luis Otero Alcántara, o veterano opositor Félix Navarro, o activista pelos direitos humanos Armando Gómez de Armas e o líder da União Patriótica de Cuba, José Daniel Ferrer (incomunicável, numa cela solitária, desde 14 de Agosto de 2021).

Vítimas da mais velha ditadura do continente americano - um regime que espezinha os direitos fundamentais e escraviza o povo que prometeu libertar nos idos de cinquenta. Pobre iIha-cárcere hoje povoada por «pessoas indiferentes mesmo à vacuidade da morte, sem vontade de memória nem expectativas de futuro», como Leonardo Padura - um dos "exilados do interior" - tão bem a descreveu.

Constituições do Mundo (10)

Cuba: Constituição de 2019

Pedro Correia, 17.02.23

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«Cuba é um Estado socialista de direito e justiça social, democrático, independente e soberano, organizado com todos e para o bem de todos como república unitária e indivisível, fundada no trabalho, na dignidade, no humanismo e na ética dos seus cidadãos para o exercício da liberdade, da equidade, da igualdade, da solidaridade, do bem-estar e da prosperidade individual e colectiva.»


«O nome do Estado cubano é República de Cuba, o idioma oficial é o espanhol e a sua capital é Havana. Os símbolos nacionais são a bandeira da estrela solitária, o Hino de Bayamo e o escudo da palmeira-real. A lei define as características que os identificam, o seu uso e conservação.»

 

«Na República de Cuba a soberania reside intransferivelmente no povo, do qual emana todo o poder do Estado. O povo exerce-a directamente por intermédio das Assembleias do Poder Popular e demais órgãos do Estado das quais derivam, no modo e segundo as normas fixas na Constituição e nas leis.»

 

«A defesa da pátria socialista é a maior honra e o dever supremo de cada cubano.»

 

Artigos 1.º, 2.º, 3.º e 4.º da Constituição da República de Cuba

O salto de Pichardo para a liberdade

Pedro Correia, 06.08.21

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Pedro Pichardo tornou-se ontem no quinto português a conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Mas este é um português especial, nascido em 1993 em Santiago de Cuba e naturalizado em Dezembro de 2017. Porque, como tem acontecido com tantos desportistas do seu país de origem, decidiu dar um salto sem retorno para a liberdade. Fugindo do opressor regime cubano, que transformou a ilha num gigantesco cárcere.

 

O principal noticiário da RTP chamou-lhe ontem "desertor", adoptando a linguagem militar da ditadura em Havana, onde o Partido Comunista exerce o poder total desde 1959 - sem imprensa livre, sem sindicatos livres, sem eleições livres - o que já conduziu ao exílio mais de dois milhões de cubanos desde a instauração do actual regime.

Pichardo é apenas mais um entre tantos. O seu exemplo foi seguido no mês passado por Jordan Díaz: este jovem de 20 anos, um dos mais promissores talentos do atletismo cubano, abandonou o estágio em Espanha, pedindo asilo político. Foi um rude golpe para a ditadura, que transforma cada proeza desportiva em peça de propaganda. Jordan tem a melhor marca mundial no triplo salto para menores de 18 anos.

Aconteceu o mesmo com o basquetebolista Raudelis Guerra, que em Junho aproveitou uma escala da selecção cubana da modalidade no aeroporto de Barajas, em Madrid, para solicitar também asilo às autoridades espanholas. 

No mesmo mês, três elementos da selecção cubana de basebol que fazia uma digressão nos EUA decidiram permanecer lá, recusando regressar a Havana: César Prieto, Lázaro Blanco e Andy Rodríguez.

 

Trocam honrarias e medalhas pelo maior dos bens: a liberdade. Num país oprimido há 62 anos pelos tentáculos do partido único, cada vez mais militarizado e entrincheirado num obsoleto e demencial slogan político: o hiper-nacionalista "Pátria ou morte". Como se este disjuntivo fosse a coisa mais normal do mundo.

A juventude rebelde em Cuba responde com uma canção que se tornou num hino da novíssima geração: "Pátria e vida". Algo que faz muito mais sentido. Sobretudo num país com «hospitais em colapso, centros de acolhimento em péssimas condições, recordes diários de casos activos de covid-19, escassez de medicamentos», como relata um despacho da agência EFE, desmentindo a propaganda oficial que exalta as conquistas do regime em matéria sanitária. 

«Com 1.441 casos por cada cem mil habitantes, Cuba é actualmente o país com maior incidência de covid-19 no continente americano e um dos primeiros do mundo», lê-se nesta peça da prestigiada agência noticiosa espanhola. «Nas localidades mais afectadas do país surgem imagens de hospitais superlotados pelo elevado número de doentes, uma situação agravada pela escassez de medicamentos e produtos básicos.» Num país onde há nove meses o salário mínimo mensal era equivalente a 13 euros e um médico recebe, em média, 30 euros por mês.

Reflexos óbvios de uma economia descapitalizada e de um modelo estatal centralizado totalmente ineficaz. Que asfixia a sociedade e condena ao desterro muitos dos seus melhores filhos. Outros estão na prisão. «As autoridades continuam a reprimir todas as formas de dissidência, incluindo a detenção de artistas independentes, jornalistas e opositores políticos», sublinha o mais recente relatório da Amnistia Internacional.

Por tudo isto se entende o gigantesco salto de Pichardo para a liberdade. Um salto de campeão, que merece a maior de todas as medalhas: a de um homem que não se verga perante a tirania. Orgulho-me de que seja nosso compatriota, com ouro ou sem ele.

 

ADENDA: Inqualificável, o ex-eurodeputado comunista Miguel Viegas, ao afirmar que a medalha de ouro a Pichardo «não é 100% portuguesa». Mesmo gerada pelo mais rasteiro sectarismo político, não deixa de ser uma expressão xenófoba e contaminada de racismo. O Chega certamente aplaude.

O discurso da ditadura

Pedro Correia, 15.07.21

Em Cuba não há opositores. Há "dissidentes", como lemos e ouvimos a toda a hora em Portugal. É espantoso como o léxico oficial da mais velha ditadura do hemisfério ocidental, feroz repressora dos direitos humanos, consegue contaminar o discurso jornalístico dos países com liberdade de imprensa. Pela mesma lógica, um Álvaro Cunhal ou um Mário Soares, por exemplo, nunca teriam sido opositores a Salazar: não passariam afinal de "dissidentes" do regime.

“Abajo los perros comunistas”

Paulo Sousa, 12.07.21

Decorrem em Cuba as maiores manifestações de sempre contra o regime comunista.

Da mesma forma que terá sido a subida dos preços dos cereais a desencadear a chamada Primavera Árabe, poderá ser a pandemia que irá desencadear o fim o regime castrista?

Será desta que os cubanos poderão vir a ter uma democracia burguesa, tão burguesa como aquela em que o PCP se passeia? Se for essa a vontade dos cubanos, o que dirá o PCP? Aceitará que eles “descem” a um “martírio” como aquele que os comunistas portugueses têm de suportar?

Todo está atado y bien atado

Pedro Correia, 20.04.18

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Ah, como é cómodo "proclamar" um Presidente da República em vez de ter a maçada de eleger um. Como é sensato ter uma sucessão antecipadamente garantida durante décadas - primeiro de irmão mais velho para irmão mais novo, depois de vice-presidente para presidente, confirmando assim as virtudes do sistema monárquico, mesmo quando se intitula "republicano". Como é reconfortante verificar que o quadro político é tão aberto que permite aos jovens alcançar o poder - tanto assim que um líder de 86 anos cede o lugar a um quase adolescente de 57 anos. Como é inspirador ter uma "revolução" que petrifica as estruturas do poder em vez de transformá-las.

Ah, como é sábio autorizar a existência de um só partido "condutor da sociedade" para impedir a inaceitável bagunça dos sistemas multipartidários. E como é tranquilizador saber que à frente do partido único e das forças armadas se manterá pelo menos até 2021 o Presidente da República cessante, um general que constitui a garantia suprema de pôr travão antecipado a eventuais irresponsabillidades da juventude quinquagenária, sempre tão irrequieta e irreverente. Assim se mantém tudo "atado e bem atado", como ensinou outro general, Francisco Franco, esse visionário da grande Espanha que inspirou os seus discípulos das Caraíbas a conquistar e conservar o poder. Um caudilho tão galego como Fidel Castro.

 

Natal: uma memória cubana

Pedro Correia, 25.12.16

«A finales de la década de 1960 la celebración de las Navidades fue postergada o eliminada en Cuba, no solo por ateísmo cientifico militante sino además porque, en lugar de empeñarse en celebraciones y libaciones, se decidió que la gente debía dedicarse durante aquellas jornadas a los cortes de caña en los dias en que más altos rendimientos de azúcar podian conseguirse. Por si fuera poco, junto a los simbolos navideños por esos tiempos también habían desaparecido los turrones y la cidra española que, unidos a lo cerdo asado, los frijoles negros y a la yuca con mojo de naranjas agrias (no totalmente desaparecidos pero también esquivos) conformaban los elementos más característicos para alimentar la celebración.»

Leonardo Padura (ontem, no El Mundo)

Um país que mata os seus heróis

Pedro Correia, 28.11.16

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  Huber Matos (à direita) com Fidel Castro em 1959

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 Arnaldo Ochoa (à esquerda) com Fidel Castro em 1961

 

Nenhum ser humano bem formado se congratula com a morte de outro ser humano. Mas um democrata alegra-se sempre perante a expectativa de um fim próximo de um regime autocrático.

Na morte de Fidel Castro - que por ironia mencionou Cristo na sua última reflexão pública, difundida a 9 de Outubro - penso nos inúmeros perseguidos pela ditadura implantada há quase 58 anos em Cuba. Todos, ou quase, acreditaram nas promessas de liberdade, traídas pelo novo tirano que envelheceu no cargo sem nunca ter abdicado da menor parcela do seu poder absoluto.

 

Penso no general Arnaldo Ochoa, que foi o oficial mais graduado do exército, proclamado Herói da Revolução e líder das operações militares em Angola, de que Castro se serviu para a sua propaganda “internacionalista”: acusado de traição à pátria, foi detido em Junho de 1989 pela polícia política e condenado sumariamente à morte por um tribunal fantoche e logo executado, sem lhe ser reconhecido o direito a uma defesa minimamente justa.

Penso em Guillermo Cabrera Infante, um dos melhores escritores latino-americanos do século XX, forçado em 1965 a um exílio perpétuo que o levou a trocar o sol caribenho pelas brumas de Londres, onde sucumbiu de nostalgia, por ter ousado gerir com irreverência o Conselho Nacional de Cultura e o Instituto de Cinema nos primeiros anos da era pseudo-revolucionária.

Penso em Heberto Padilla, poeta encarcerado em 1971 pelo “crime” de pensar e escrever como um homem livre, atirado para os cárceres castristas na sequência de um recital de poesia em Havana considerado “subversivo” – ele que escreveu estes versos corajosos: “Muerte, / no te conoszco, / quieren cubrir mi patria / con tu nombre.”

Penso em Huber Matos, combatente na Sierra Maestra e revolucionário da primeira hora, o primeiro crítico da deriva autoritária do novo regime. “Es bueno recordar que los grandes hombres comienzam a declinar cuando dejan de ser justos”, escreveu ele numa desassombrada carta a Fidel Castro que em Outubro de 1959 lhe valeu 20 anos de prisão, seguido da expulsão de Cuba, onde nunca foi autorizado a regressar.

 

Penso em muitos outros cubanos, uns já desaparecidos outros ainda vivos mas condenados à morte cívica e ao banimento vitalício em sucessivas purgas promovidas pelas patrulhas ideológicas do castrismo ou vítimas dos anátemas políticos lançados pelo regime: Antón ArrufatArturo Sandoval, Bebo Valdés, Belkis Cuza Malé, Cachao López, Carlos Alberto Montaner, Carlos Franqui, Celia Cruz, Eliseo Alberto, Eloy Gutiérrez Menoyo, Gustavo Arcos, Jesús Díaz, Néstor AlmendrosNorberto Fuentes, Olga Guillot, Orlando Jiménez Leal, Paquito d' Rivera, Pedro Luis Boitel, Raúl Rivero, Reinaldo Arenas, Severo Sarduy, Virgilio Piñera, Willy Chirino, Zoe Valdés.

Sob a mão de ferro dos irmãos Castro, Cuba tornou-se um país que "mata os seus heróis", na definição lapidar de Cabrera Infante. País de suicidas e desterrados, onde a luz da esperança se foi tornando cada vez mais precária e vacilante.

Blogue da semana

Pedro Correia, 27.11.16

É um blogue feito em condições duríssimas, num país onde a liberdade de imprensa ainda é uma utopia e a liberdade de expressão sofre severas restrições. Mas a jornalista Yoani Sánchez não desiste: a sua Generación Y continua a ser de leitura obrigatória para quem quer conhecer o quotidiano de Cuba para além das trombetas da propaganda. Vai ficar na montra do DELITO ao longo desta semana marcada pelo rescaldo da morte de Fidel Castro.

Felizmente em Havana há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.

O acaso vira a vida do avesso

Pedro Correia, 27.11.16

Herbert L. Matthews com Fidel Castro 

 

E se Adolf Hitler, quando saiu da sua Linz natal para concretizar o sonho de ser pintor, não tivesse chumbado na admissão à academia de belas-artes de Viena? A pergunta, para quem gosta de fazer leituras psicológicas da história universal, tem razão de ser: um Hitler reconhecido como artista pela elite vienense jamais teria precipitado a II Guerra Mundial.
E se James Dean não tivesse desaparecido tragicamente, ao volante de um Porsche prateado, com apenas 24 anos, em 1955? Imaginemo-lo disforme e grotesco como o Brando crepuscular ou destruído pela sida, como aconteceu a Rock Hudson: não sobraria espaço para o mito, só possível porque os deuses o levaram tão jovem para o seu Olimpo.
Uma porta que se fecha na cara, um pouco mais de pressão sobre um pedal: um quase-nada capaz de mudar o mundo. “O acaso é uma parte da realidade. O inesperado acontece nas vidas de todos nós com uma regularidade quase entorpecente.” São palavras de Paul Auster, um dos autores contemporâneos que mais têm sublinhado a importância do acaso na viragem de qualquer vida. Quantas vezes a realidade não supera os mais assombrosos cenários de ficção?


Herbert L. Matthews foi um daqueles homens cujas vidas mudaram para sempre num só dia, que para ele constituiu simultaneamente o apogeu da sua carreira de jornalista e uma data fatídica que jamais o largou. Era um repórter que se distinguira ao serviço do New York Times na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial antes de o instalarem, durante uma década, num gabinete de editorialista. Naquele dia, 17 de Fevereiro de 1957, conseguiu o furo da sua vida: entrevistou Fidel Castro na Sierra Maestra.
Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro, uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem.
O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.


Matthews, antes tão louvado pela sua proeza, passou a ser contestado nos Estados Unidos à medida que Castro revelava a sua face de autocrata sem escrúpulos. Considerado um herói em Cuba, país que continuou a visitar quase até à morte, em 1977, recebeu críticas contundentes dos seus próprios colegas, que o consideraram um peão ao serviço do comunismo castrista.

Depois de se reformar do New York Times, em 1967, radicou-se na Europa e na Austrália. Obstinado até ao fim, nunca denunciou o carácter ditatorial da “revolução” nem admitiu ter-se enganado quando assegurou aos leitores que Castro era um democrata genuíno que só pretendia instaurar a democracia na ilha. Em 1969, ainda o considerava “um dos homens mais extraordinários do nosso tempo”, dando razão aos seus críticos: o jornalista que denunciara a ditadura de Batista era incapaz de denunciar a ditadura de Castro.


Outro repórter do New York Times, Anthony De Palma, disseca este caso num livro brilhante, editado em Portugal pela Bizâncio: O Homem que Inventou Fidel. Tese: Matthews tornou-se prisioneiro da sua manchete. Reconhecer os erros do ditador “teria diminuído a sua própria importância” enquanto jornalista que o deu a conhecer ao mundo. Conclusão: por vezes é muito ténue a linha que separa a verdade do mito e mesmo um jornalista experimentado pode cair nas malhas da propaganda.

A vida de Matthews teria sido bem diferente se não tivesse subido à Sierra Maestra naquele dia, escapando à monotonia do trabalho de gabinete em busca, mais do que de uma notícia, do “reconhecimento” que, segundo Hegel, é uma característica inerente à espécie humana.

Sem esse golpe do acaso, perderia uma cacha mundial mas mantinha incólume a sua reputação, que assim foi de algum modo manchada para sempre.

 

Texto reeditado

No le tengo miedo

Diogo Noivo, 26.11.16

Hoje e nos próximos dias suceder-se-ão as análises sobre a vida e o papel político de Fidel Castro, uma das personalidades mais fortes e marcantes do século XX. Porém, a morte do líder cubano deve convidar-nos também a relembrar todos aqueles que, com prejuízo para a sua parca liberdade e segurança, se atreveram a denunciar o regime ditatorial que submeteu um país inteiro à indigência.
Conhecemos relativamente bem os opositores das gerações mais velhas, gente como Guillermo Fariñas, Elizardo Sánchez, e o colectivo Damas de Branco. Mas existe uma ala jovem, tão ou mais activa. Los Aldeanos, um duo formado por Bian Oscar Rodríguez Gala "El B" e por Aldo Roberto Rodríguez Baquero "El Aldeano", estão na vanguarda da nova dissidência. Usam como instrumento de acção política um dos poucos 'produtos' que conseguiu furar o embargo: o hip hop.
Formado em 2003, o duo Los Aldeanos deixa claro ao que vem nos títulos dos álbuns que editou e no nome dos projectos que integrou: o primeiro trabalho recebeu o título “Censurado”; o segundo intitula-se “Poesia Esposada” (Poesia Algemada); e, em 2007, integram o colectivo “La Comisión Depuradora”.
As letras têm um propósito claro. Contudo, e em linha com a tradição da música de intervenção feita sob o jugo de ditaduras, os versos estão pejados de subtilezas que tornam os textos ambivalentes – e que mantêm os autores fora da prisão. “No le tengo miedo” é porventura um dos melhores exemplos da capacidade de criticar frontalmente o regime de Castro através de uma letra cujo valor facial não é político. O que, à primeira vista, é uma ode à vida e à superação das dificuldades quotidianas, esconde um apelo à resistência e à liberdade.

Y yo sé que yo
a la vida no le tengo miedo
y aquí no se rinde nadie no
seguiré de pie levantando mi voz
Y yo sé que yo... Y yo sé que yo...

 

Los años no engañan, el tiempo puede estar bravo
que yo sigo siendo yo, y a los falsos caso no hago, no!
trabajo diariamente, no soy creyente ni vago
ni me rindo, ni me paro, ni me canso, ni me apago

 

Destruir la poesía de fe con podrida prosa
es como ver encajada en un clavo una mariposa
a la luz la creación, a lo oscuro, el facilismo
tu podrás ser quien tu quieras fiera, que yo soy yo mismo

 

Lo más importante es la visión real que tengas
que nadie te meta un cuento y la mente te la entretenga
en mierda, basura, drogas, dinero y prostitución
porque todo eso, no es más que perdición

 

Voy en dirección contraria, el agor lleva muchos
porque escucho a mi corazón y con mi corazón lucho
son tiempos de ahogo espiritual, de idas absurdas
la gente dobla en lo reto y coge reto en la curva

 

Em Portugal, país apaixonado por cantautores como Zeca Afonso, os projectos musicais como Los Aldeanos deveriam ser venerados. Hoje é um bom dia para começar.

O principal legado de Castro

Pedro Correia, 26.11.16

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«El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros.»

Fidel Castro, Setembro de 2010

 

A morte física de Fidel Castro - o autocrata que permaneceu mais tempo em funções na era moderna - tem desencadeado expressões de idolatria lacrimosa nos circuitos mediáticos: "Pai da revolução cubana", "comandante chefe", "líder histórico", "figura carismática".

Nem uma só vez escuto a palavra ditador.

"Não se pode dizer que Fidel Castro deixou Cuba como país próspero e desenvolvido. O povo cubano tem sofrido muito - e tem sofrido não só por causa do bloqueio mas pelas políticas que foram realizadas pelos próprios dirigentes cubanos. E não nos podemos esquecer que em Cuba não há democracia." Palavras do jornalista José Milhazes na SIC Notícias - um dos raros que navegaram contra a corrente, pondo os factos acima da ladainha hagiográfica.

 

Na sua fabulosa Autobiografia de Fidel Castro, Norberto Fuentes - que foi um dos funcionários de mais elevada patente do castrismo antes de se ver forçado a rumar ao exílio, como aconteceu com centenas de milhares de cubanos - escreveu estas palavras, supostamente concebidas pelo próprio autocrata: "Hei-de morrer a ruminar a satisfação imensa de que terão de me julgar à revelia. E quando decorrerá tamanho processo? Dentro de quinhentos anos? Dentro de mil? Quando é que a história julga de maneira definitiva e sem apelo nem agravo?"

Nesse aspecto, Fidel Castro pode ser apresentado como um triunfador da História - alguém que sobreviveu à derrocada do mundo comunista e recorreu às bravatas nacionalistas para se perpetuar no poder até a fatalidade biológica impor a sua lei suprema.

Para ele, só a razão de Estado existia. E o Estado confundiu-se durante mais de meio século com a sua pessoa. Neste contexto, o povo funcionava como substantivo abstracto: compunha as manifestações de apoio ao Governo, as únicas autorizadas, e servia de vocativo permanente na retórica oficial.

 

O que vigora na Cuba dos nossos dias?

Um regime de partido único, profundamente hierarquizado, em que as hostes partidárias se confundem com as forças armadas (que embolsam 60% das receitas turísticas) e o aparelho de Estado. Um regime em que a cúpula do poder permanece nas mãos de membros da mesma família há 57 anos. Um regime que destruiu o tecido produtivo do país e hoje se vê forçado a importar 80% do que ali se come. Um regime mergulhado num irreversível e penoso crepúsculo, confundindo o seu destino com o do país.

Há meio século, a palavra de ordem era "socialismo" - a toda a velocidade. Agora a palavra que paira nas mentes de todos é "capitalismo" - o mais devagar possível. Com mais de dois milhões de cubanos forçados a viver fora da ilha e milhão e meio à beira do desemprego porque o Estado-patrão deixou de ter verba para pagar os magros salários - os segundos mais baixos do hemisfério ocidental - e as esquálidas pensões de reforma.

"Agotados de tanta trinchera y demasiadas alusiones al enemigo, nos preguntamos si no sería más coherente usar todos esos recursos para aliviar los problemas cotidianos. Revertir las crónicas dificultades del transporte urbano, la calidad del pan del mercado racionado o el abastecimiento de medicamentos en la farmacias de la Isla, serían mejores destinos para lo poco que contienen las arcas nacionales." Palavras escritas há dias pela jornalista Yoanis Sánchez no seu blogue.

 

Cuba é hoje uma nação envelhecida, sem esperança, com a segunda mais larga população de idosos da América Latina: 46% da população tem mais de 40 anos. Os jovens tudo fazem para abandonar um país onde o partido-Estado persiste em oprimir a sociedade.

Este foi, para azar dos cubanos que mal sobrevivem hoje com o equivalente médio a 15 dólares diários, o principal legado de Fidel Castro.

Em nome da "liberdade", o que torna tudo ainda mais trágico.

Com a voz embargada de emoção

Pedro Correia, 28.10.16

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Os enviados das mesmas televisões que preenchem o tempo a perorar sobre os presos de consciência em Angola desembarcam em Cuba e desdobram-se em salamaleques perante o "líder histórico" que ali instaurou uma das mais ferozes e persistentes ditaduras do planeta, denunciada em todos os relatórios de organizações como a Amnistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras. Nem um aludiu à existência de dezenas de presos políticos na ilha-prisão, governada há quase 58 anos por dois irmãos que controlam com mão de ferro o aparelho do Estado, submetendo ao seu ditame todas as instituições políticas, a magistratura e as forças armadas. Nem um fez o mais remoto reparo à inexistência de partidos políticos, de uma imprensa livre, de manifestações contra o Governo e de qualquer outro direito cívico e político - começando pelo épico direito à greve tão idolatrado pelos émulos castristas cá do burgo.

A palavra ditadura foi banida do discurso jornalístico dominante. Ou só é utilizada quando dá jeito, com uma chocante duplicidade lexical em função de indignações muito selectivas. Quando tanto se fala em crise de jornalismo, eis mais um factor que a justifica: a persistente incapacidade dos jornalistas de chamar as coisas pelos seus nomes.

Imaginam um repórter estrangeiro a visitar Portugal nos anos 60, embargado de emoção, a chamar "líder histórico" a Salazar? Pois. É precisamente isso.

Dez anos depois

Pedro Correia, 31.07.16

O general Raúl Castro recebeu o poder do seu irmão mais velho, Fidel, faz hoje dez anos. E mantém-se como senhor absoluto de Cuba.

Uma década depois, eis uma devastadora panorâmica do quotidiano comunista: salários congelados, rede de transportes em colapso, apagões constantes, edifícios públicos sem ar condicionado, carências de todo o género, dependência das "dádivas" petrolíferas da exangue Venezuela, contínua repressão política, novos recordes migratórios: 44 mil cubanos radicaram-se nos últimos 12 meses nos Estados Unidos e muitos milhares mais preparam-se para fazer o mesmo.

Com quase 20% de população idosa, Cuba é o país mais envelhecido do continente americano. A "revolução" tornou-se tão decrépita como os líderes que lhe restam.