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The House of Cards é ficção, e mostrou ao mundo uma perspectiva maléfica e esquematizada de poder que, no mundo real, parece estar a tomar proporções extraordinárias, escrevo extraordinárias no sentido de fora do “normal”.
 

Estreia esta sexta-feira, em Portugal e nos Estados Unidos da América, em simultâneo, a sexta temporada da série House of Cards. É a temporada final, constituída por oito episódios, e à frente temos Robin Wright no papel de Claire Underwood, agora presidente dos EUA. O retomar da série, depois de um ano de interrupção, levou também ao retomar das acusações feitas a Kevin Spacey. Robin Wright diz ter mantido uma relação profissional com o actor e que não conhecia o homem, apenas o artista incrível que ele era. Além da acusação de assédio feita por Anthony Roger, uma acusação face a um episódio com 30 anos de existência, Kevin Spacey tem sido, desde então, alvo de escrutínio e outras acusações foram surgindo. Sinal dos tempos.

Mas esta não é mais uma crónica sobre o assédio e a discriminação, embora a tentação possa ser grande. Ser-me-á permitido um ligeiro desvio? O jornal The Guardian publicou esta semana um artigo que garante que para as mulheres ganharem o mesmo que os homens, o mundo terá de rodar muitíssimas vezes e, mesmo assim, a perspectiva de demora é de mais de 200 anos. Não será, por isso, no meu tempo, no tempo dos meus filhos, dos meus netos, dos meus bisnetos e por aí adiante. Robin Wright, a magnífica actriz que contracenava com Kevin Spacey em The House of Cards, não era remunerada de forma igual e, além de ter tornado o facto público, lutou pela paridade salarial. Fim de desvio.

The House of Cards é ficção, já se sabe, mas mostrou ao mundo uma perspectiva maléfica e esquematizada de poder que, no mundo real, parece estar a tomar proporções extraordinárias, escrevo extraordinárias no sentido de fora do “normal”. Não é apenas o que assistimos na Europa com a extrema-direita a retomar assentos onde os já tinha perdido, ou o 45º presidente dos Estados Unidos da América a vociferar disparates. É o Brasil que elegeu democraticamente alguém cujo discurso é perigoso. Mete medo. Se o poder se exercer com fundamentalismo e na crença de que se é “escolhido”, mesmo não sendo o mais classificado, o abuso sobre as pessoas e instituições é uma inevitabilidade. Algo que na série norte-americana está espelhado de forma brilhante. Não consigo já entender a ficção como apenas isso, o exercício da imaginação. Revejo as temporadas anteriores de The House of Cards e acho que tudo aquilo é possível: manipulação, deturpação, mentira, corrupção, assassinato. A verdade é que, como Dorothy no Feiticeiro de Oz, já não estamos no Kansas e o irreal tornou-se negro, negro como todos os retrocessos civilizacionais são negros. Onde estaremos daqui a dez anos? Talvez a seguir a The House of Cards surja outra série que nos mostra a vida real e a cores.

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As mulheres e a igreja católica é uma história longa, dura, tenebrosa até. Existem pesadelos mais suaves. Não depende do tempo, do contexto histórico, porque a sociedade evolui, mas o papel da mulher mantém-se: serve para servir, para ser perseguida ou discriminada ou viver dentro da instituição com a clareza das coisas invisíveis.

São o elo mais fraco. Leituras da Bíblia, de diversos estudiosos desta coisa da ciência das religiões, fazem interpretações várias do papel das mulheres nos evangelhos; alguns até se atrevem a questionar se Madalena seria considerada como uma discípula. Afinal, a quem aparece Jesus quando ressuscita? Pois. Para a instituição que é a igreja católica faz pouca diferença, é o mundo de homens, sempre foi. E continua a ser.

Li no Observador há dias um artigo de João Francisco Gomes – porventura um dos jornalistas da nova geração mais interessantes e ligado a estas coisas da igreja – que no Sínodo deste ano, dedicado à juventude, as resoluções contaram com votos de frades, mas não de freiras, apesar do estatuto eclesial ser o mesmo. Há sempre um certo desprezo, ou aquilo a que eu entendo como desprezo, no que toca às mulheres no centro da decisão. O Sínodo é o conselho consultivo do Papa, talvez se possa dizer que é um dos órgãos mais importantes. As sete freiras que participaram no Sínodo deste ano podem ter tido ideias, podem ter explicado cenários relevantes, podem ser possuidoras de um conhecimento elevadíssimo. Não faz diferença. Menina não vota.

Existem muitas frentes que procuram lutar por um protagonismo feminino dentro da Igreja, não são vozes de hoje, são vozes que se ouvem há muito. Não têm tido muito sucesso, apesar de 80% das pessoas, dentro da igreja católica, que consagram a sua vida à instituição serem mulheres. O superior dos frades dominicanos, o Padre Bruno Cadoré, é quem o afirma no citado artigo do Observador. Ora, 80% é uma percentagem altíssima, até para quem não aprecia a função dos números e da estatística. E o que é consagrar a vida à igreja? É, muitas vezes, abdicar de tudo em função da fé, a mesma fé que se faz representar por uma igreja que, tendo sempre sido activa no papel castrador face às mulheres, não pode continuar cega e surda no que diz respeito à luta das mulheres por mais protagonismo.

O papa Francisco, que padece do mal que afecta os governos, instituiu uma “comissão” no vaticano, coisa ambígua no meu entender, para analisar as questões do diaconado das mulheres. (Nota: O feminino de diácono diz-se diaconisa. A igreja católica não concede o Sacramento da Ordem para mulheres, apenas para homens).  A dita comissão foi composta em 2015. Até agora não encontro nenhum documento da autoria dos membros da comissão. Talvez tenham começado a analisar os séculos para trás e, como tudo na igreja, lentamente lá chegarão ao século XXI.

Historicamente, a igreja trata as mulheres como mães e santas, como servidoras ou demoníacas, neste caso acusando-as da responsabilidade do pecado original. Diria que já chega, é tempo de mudar a agulha e de entender que a igreja beneficia do feminino, sempre beneficiou, e que as mulheres são uma mais-valia que precisa de ser visível. Mulheres só nos bastidores? Freiras a carregar chapéus de senhores bispos? Administrativas? Para a limpeza? Imaginam o que aconteceria se estas mulheres decidissem fazer greve? Pois, quer-me parecer que os senhores bispos e afins também não se deitam a imaginar essas coisas.

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No estado do mundo, os mais jovens dedicam-se a pensar e a repensar na vida, são muitas horas condicionadas por cenários abstractos, catastróficos, reais ou irreais e que têm por base verdades do tempo que vivemos: os ordenados são baixos, o mercado é difícil e complexo, os estudos não garantem nada, a falta de estudos garante ainda menos, ter um projecto de autonomia, libertar âncora e sair de casa dos pais é cada vez mais complicado. Em casa até aos 30 anos? E em que circunstâncias? A verdade é que os jovens estão a começar os seus projectos de vida cada vez mais tarde, permanecendo em casa dos pais mais tempo do que gerações anteriores. Não há uma solução à vista.

Uma jovem, com licenciatura e mestrado (este com distinção) diz-me que recebe o ordenado mínimo nacional, gosta do que faz, não está na sua área de estudos, mas aceita a situação com bonomia. “O que me importa mesmo é trabalhar”, garante-me. Não sairá de casa da mãe tão cedo, acha mesmo uma missão impossível. “Tenho 25 anos, ganho o ordenado mínimo, como é que vou fazer? Como é que vou pagar renda, água, luz?” Pois, nos grandes centros urbanos não irá morar certamente, basta estar atento às notícias sobre o mercado imobiliário para percebermos que viver em Lisboa ou no Porto está muito longe de ser acessível.

Estando grata por ter conseguido estudar o que quis, mesmo que não exerça a profissão, esta jovem é o exemplo paradigmático da realidade de muitos outros jovens. Os pais, como acontece com os bons pais, empurram com a barriga e vão cuidando, pagando, fazendo o melhor que podem. No caso de terem condições, perguntarão? Pois, no caso de possuírem condições económicas para tanto.

Um estudo de investigadores do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos neste início de verão, intitulado a "Igualdade de género ao longo da vida: Portugal no contexto europeu", conclui que os portugueses são os que mais tarde abandonam o ninho dos pais. O estudo conclui que a idade média de saída de casa dos pais chega aos 29,7 para os homens e 28,2 para as mulheres. O estudo é claro: "muitas das mulheres e homens jovens que estão na casa dos pais podem já não ser dependentes economicamente destes, e estarem a trabalhar, sem terem ganhos suficientes para adquirirem autonomia residencial". Nos países nórdicos é diferente por existir um estado social mais forte e com políticas de autonomização dos mais jovens, ou seja, existem bolsas e empréstimos a longo prazo e uma realidade laboral mais estável.

Os projectos de vida, de autonomia, de abraçar a vida, a denominada vida de adulto, são adiados e trazem consequências, reflectem-se não só não só nos processos de auto-estima como na evolução individual de cada um. Um jovem licenciado, com ou sem mestrado, que ganhe o ordenado mínimo não pode viver satisfeito, mesmo que as contas sejam pagas parcial ou totalmente pelos pais. Leio que Portugal é o maior consumidor europeu de anti-depressivos. De repente, nada me admira.

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Penso na reforma, faço cenários e caio na real

por Patrícia Reis, em 17.10.18
Aceita, Patrícia, que custa menos. Faltam-me 17 anos de labor.
 

Ciclicamente faço contas à vida. Mudo a minha imagem no mural do Facebook para um frame do filme da Disney "Branca de Neve e os Sete Anões". Alguém decidiu fazer do espaço Disney e das mil personagens uma plataforma de ironia, e, nesta imagem, a Branca de Neve surge de bruços (imagino que no escuro da floresta assustadora, depois de escapar às mãos terríveis da madrasta que a quer ver longe e, preferencialmente, morta) e a legenda reza assim: cansei, quero aposentar-me. É evidente que quem inventou a Disney irónica é uma alma brasileira e, muitas vezes, temos esse gosto suplementar da língua portuguesa recheada de musicalidade brasileira.

E então cá estou eu, em versão Branca de Neve, pronta para me retirar e este assalto emocional de contemplação da vidinha dá-se com uma regularidade matemática assustadora e cada vez menos espaçada. Ando a trabalhar há trinta anos, fui confrontada com isso – trinta anos! – este ano de 2018. Desconto para a segurança social há 29 anos, estive um ano a trabalhar à borla, por isso não tinha como descontar, mas não trabalhava menos por causa dessa manobra de exploração inerente ao então estatuto de “estagiário” da redacção de um jornal.

Como vou fazer 48 anos de idade não tarda nada, achei por bem fazer uma simulação da minha putativa reforma e, qual não foi o meu espanto, quando o senhor Google nem precisa que eu escreva na íntegra a palavra simulador, dá-me logo opções de simulador de IRS, IMT, crédito à habitação e de reforma. Percebo que, além do simulador de reforma disponibilizado pela segurança social (um pouco complicado, o que me levou a recorrer à minha contabilista do coração), temos companhias de seguro e instituições bancárias com o mesmo tipo de aplicação, imagino que tenham como objectivo promover ferramentas de poupança e outras coisas que tais, dando-nos a hipótese (ou será ilusão?) de que estamos a poupar para o futuro. Nós, na velha Europa, temos a tendência para pensar no futuro e planear. Na Índia, por exemplo, referir um Plano de Reforma ou algo assim faz tanto sentido como prever a mudança de tempo súbita.

Concluí então que não tenho como, mais ironia ou menos ironia, procurando auxílio nas personagens maravilhosas do imaginário infantil ou em outras, reclamar e anunciar a minha retirada do mercado de trabalho até aos 60 anos de idade. E, com essa possibilidade, tenho uma penalização imensa, mais de 50% do valor da reforma que terei se andar a batalhar até aos 65 anos. Conclusão? Aceita, Patrícia, que custa menos. Faltam-me 17 anos de labor. Não me incomoda se pensar no que tenho aprendido, nas pessoas com quem me tenho cruzado, na imensidão de projectos que ainda gostaria de ver por aí a vingar, a fazer caminho. Incomoda-me quando sou confrontada com a falta de ética, a velocidade extrema com que os clientes querem qualquer coisa, porque se é feito no computador (pois) não implica muito trabalho, pois não?, ou ainda quando percebo que aquela pessoa ali, com quem tenho de privar durante um tempo indeterminado, é um(a) sacana do pior, mal formado(a) e sem escrúpulos. Acabo por concluir que nestes trinta anos não mudei assim tanto: não é o trabalho que me maça, são as pessoas. Não é o que me custa fazer, é o pouco que se paga (e, nesse aspecto, posso assegurar que todos os orçamentos vieram por aí abaixo, cantando e rindo, cada vez mais irrisórios, cada vez mais infelizes).

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Isto é arte, pá, pornografia é outra coisa!

por Patrícia Reis, em 27.09.18

Bem vindo ao império do politicamente correcto. Uma higiene moral imposta por quem considera que o público em geral é apenas uma criança a precisar de orientação. O retrocesso civilizacional a que assistimos é tremendo. Não respeitamos a liberdade do Outro, impomos regras, moral e puritanismo. Em nome de quê? De uma teórica civilização.

Vamos censurar uma exposição de um artista cuja obra é abundantemente conhecida? Obra cujo teor polémico tem sido amiúde debatido pelo mundo? Vamos limitar a entrada, porque - Deus proíba - há quem vá ver uma exposição com crianças de seis anos a Serralves sem se informar sobre o que está exposto? Talvez existam famílias assim, claro. Num mundo de tecnologia em permanente vertigem de informação, sendo o sexo acessível com enorme facilidade (olá sites pornográficos gratuitos), como é que nos atrevemos a fiscalizar a arte? O que é a arte senão o derrubar da norma para ver o avesso das coisas? E se arte explora o sexo desde sempre - historicamente é fácil de comprovar - por que carga de água é que agora nos dá para oferecer vendas para os olhos e estipular que o visitante de um museu tem de ser “moralmente” guiado?  

A história da suposta censura em Serralves à exposição do artista norte-americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) é uma trapalhada de todo o tamanho. Certamente que existem bastidores negros, pormenores que nunca chegarão ao grande público. O dito e o não dito: a entrevista da antiga ministra da cultura, Isabel Pires de Lima, ao Expresso; as declarações do director artístico e curador demissionário, João Ribas, ao Público. Acresce: pequena manif para destituir a administração composta por Ana Pinho (Presidente), Manuel Cavaleiro Brandão (Vice- Presidente), Manuel Ferreira da Silva (Vice-Presidente); Isabel Pires de Lima (Vice-Presidente); Vera Pires Coelho; Carlos Moreira da Silva; António Pires de Lima e José Pacheco Pereira.

A administração que começou por reagir laconicamente, a seguir corrige o tiro (ontem em conferência de imprensa, a mesma administração declara que nunca houve censura em Serralves e que as decisões foram todas da responsabilidade do curador). O curador e director artístico demissionário (então, o homem demite-se mas vai ao vernissage?!) apresenta a sua demissão por email. Porquê? Os membros do Conselho de Administração dizem que não sabem.

Também achei graça ao director do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, António Filipe Pimentel, que comentando a polémica achou por bem dizer-nos que a Fundação Serralves tem mais apoio do Estado que a maioria dos museus (“Só em Serralves [o ministério da Cultura] investe mais que em todos os museus públicos nacionais”), ou seja, 40% do financiamento da Fundação Serralves é proveniente do orçamento do Ministério da Cultura. Para quem não se recorde, o orçamento para a Cultura não chega sequer a um por cento do Orçamento de Estado. Sobre este facto – não tenho porque não acreditar nas declarações de António Pimentel – não me recordo de ler mais uma linha sequer. Mas não ficamos por aqui.

Lúcido, o director do Museu Nacional de Arte Antiga explicou que em Serralves, na exposição da Colecção Sonnabend, esteve exposta uma fotografia da artista porno Cicciolina. Não se tratava, como é bom de ver, de pornografia, era arte.

Conclusão? Uma telenovela para apimentar a nossa existência, é certo. No fim, o artista – exposto em Portugal várias vezes em anos anteriores, mesmo que não numa retrospectiva de obra – ganhou: as visitas a Serralves foram muitas, mais de seis mil pessoas em quatro dias. Vamos lá ver o que é isso de sexualmente explícito e chocante? Vamos, mas olhem que é arte, só isso, arte. O resto é politiquice e intriga.

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estou farto de não fazer nada, disse ele

por Patrícia Reis, em 23.08.18
O desabafo deu origem a várias coisas, entre elas a constatação estranha de não sabermos desligar, de termos dificuldade em descansar.
 

Um grande amigo, uma das melhores pessoas que conheço, tinha um restaurante em Lisboa e vendeu-o. Era o princípio do Verão e estava livre, sem compromissos. Com mais de 50 anos, podia – finalmente – gozar uns dias de praia, a monotonia de quem está a viver em pleno a silly season. Acontece que ao fim de poucos dias, mais de dez, menos de trinta, o meu amigo suspirou e disse: “Estou farto de não fazer nada”.

O desabafo deu origem a várias coisas, entre elas a constatação estranha de não sabermos desligar, de termos dificuldade em descansar. “Dá-te tempo”, aconselhei eu já em stress com não sei quantas coisas, a invejar o potencial fare niente do meu amigo. Rimos e aproveitámos o que nos reúne, mas concluímos que nenhuma das pessoas à mesa conta reformar-se, todas estão mentalizadas para trabalhar até “ter de ser”. Não se trata de não acreditar, como acontece a muitas pessoas, na impossibilidade de ter uma reforma do Estado. Trata-se de saber que a mesma terá condicionantes e pode não chegar para as necessidades. Os que estavam à mesa têm todos filhos, alguns netos. Não éramos um grupo de gente nova, já se vê, somos todos crescidinhos e temos a noção de que filhos ou netos ainda precisam de nós. Importa correr atrás da bola. O meu amigo podia continuar a gozar o seu momento de descanso, refazer a sua vida com calma, mas está ansioso por ter coisas para fazer, por ter um rendimento.

A jovem que nos servia um lanche primoroso composto por queijo e chouriço assado vai este ano para a faculdade. Tem dezoito anos. Em vez de aproveitar a praia e o último Verão antes dessa coisa estranha que é passar a ser universitária, decidiu que queria trabalhar e está a ajudar num restaurante. Num momento de pausa, confessou-me: “Gosto de trabalhar, mas não queria fazer disto vida, é muito duro. São muitas horas de pé e num restaurante atura-se o melhor e o pior”. É com orgulho que a vejo afastar-se com um tabuleiro em perfeito equilíbrio. Talvez o orgulho seja maior por entender que há uma satisfação tremenda em ter o nosso dinheiro, fruto do nosso trabalho, e que esta jovem está a ter essa experiência. Com a idade dela, eu já trabalhava e nunca deixei de o fazer. Pergunto-me se conseguiria estar parada.

Uma vez, há muito, muito tempo, fui a uma aula de yoga. Foi a primeira e a última. E porquê? Os últimos minutos eram de relaxamento, de alheamento de tudo, “deixar a mente ir”, dizia o professor. Eu tive o meu momento Julia Roberts e acabei por abrir os olhos (odeio que me mandem fechar os olhos!), observar aquele grupo de pessoas que, aparentemente, estavam mergulhadas numa certa paz, deu-me um frenesim, levantei-me e saí. Seria eu capaz de resolver as minhas questões profissionais e abandonar-me a uma certa letargia? Não creio.

O meu amigo riu-se e acrescentou: “O drama é que a nossa geração gosta de trabalhar, fomos educados para isso. Passámos necessidades. Conquistámos com muito esforço. As novas gerações...” Olhei para a jovem a servir um casal que acabara de lamentar a inexistência de pratos de caracóis, e tive a certeza de que as novas gerações são como a nossa. Mais coisa, menos coisa.

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Parabéns à Madonna, parabéns a todas as mulheres

por Patrícia Reis, em 16.08.18

O que é que aborrece na Madonna? Não me digam que são os 15 lugares de estacionamento, por favor. Se me disserem que são os 300 milhões que terá, fortuna estimada por revistas da especialidade, e que a inveja vos rói enquanto fazem o euromilhões desta semana, pois estou convosco.

Para muitas outras pessoas o que aborrece na Madonna é o facto de ser dona e senhora do seu nariz desde que surgiu na cena musical. Não aprendeu a dizer que não e a rebelar-se contra o sistema com a idade. Surgiu com "Like a Virgin", já a dizer que não aturaria muito do lixo machista que por aí singra. Fez uma carreira sem grande voz mas com imenso talento para parcerias e mega produções.

Tornou-se incontornável, assumiu-se como um porta-estandarte da causa feminista e fez um pouco mais: disse alto e bom som que gosta de sexo, de prazer, de fazer o que lhe dá na real gana e que não deve explicações a ninguém. Incómoda? Faz-me lembrar um marido a dizer à mulher que ela precisa de aprender a não ser tão acintosa. Madonna grita-nos há mais de trinta anos que o podemos ser: acintosas, barulhentas, refilonas, capazes, poderosas, livres.

 

A artista expôs a sua vidinha muito tempo antes de andarmos a brincar às vedetas e as vidas felizes nas redes sociais. Expôs o bom e o mau, o corpo e as emoções, os desgostos de amor e esta mania terrível de dizer que ser mãe é ser também feliz (embora seja a profissão mais difícil do mundo).

Devemos à Madonna - como a tantas outras, bradarão para aí e com razão - uma ideia de mulher mais livre e isso faz de nós, mulheres, parte integrante desta chegada aos 60 anos da cantora. Sim, ela que não se importa de não pintar as raízes do cabelo, que deve ter feito um ou outro ajuste à cara e que tem o corpo pelo qual muitas mulheres (e homens) suspiram, também é condenada pela passagem do tempo.

Não há nada de simpático nessa inevitabilidade biológica - tudo a cair, tudo a enrugar -, mas o que importa verdadeiramente? Talvez seja o dia de hoje, o momento. Madonna parece estar bem consigo, com os filhos pequenos que adoptou, com a cidade onde escolheu viver, esta Lisboa que será impressa obrigatoriamente no próximo disco da super mega estrela.

Ela vende mais discos do que qualquer outra mulher e tem vários recordes. Chateia muita gente o facto de ainda cá estar, já o disse publicamente em diferentes situações, mas não creio que seja a idade a vergar a vontade absoluta de engolir o mundo, percebê-lo antes de tempo e reinventar-se a si mesma para pasmar o mundo e a todos nós.

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Fui à faculdade entregar um papel e falar com o meu orientador de mestrado tendo ficado dentro de uma maré de estudantes ávidos de apresentarem as suas candidaturas ou apenas impacientes para ter respostas às mil perguntas. Sentei-me na cafetaria, lugar genial para quem gosta do exercício observação sociológica. Sim, sentei-me a ouvir as conversas dos miúdos à minha volta, sem qualquer pudor, dirão, e eu concordo.
 

“Eu nem sei se vale a pena...”, suspira uma jovem de telemóvel em punho, naquela atitude semi distraída em que anda meio mundo, entre a realidade e as redes sociais. “Eu safava-me se fosse trabalhar”. E a amiga, cabelo comprido, sorriso meigo, responde-lhe com rapidez: “Sim, sim, vais parar a uma loja, trabalhas que nem uma escrava e ganhas uma miséria para todo o sempre”. E a partir deste mote, os outros rapazes sentados à mesma mesa, três miúdos com 18 ou 19 anos de idade, fungam e explicam que trabalhar não deve ser tão mau assim, pior mesmo é pensar que em outubro voltam aos estudos. “Eu cá dispensava ter mais professores e mais livros”, diz o moço à direita, chupando um cigarro com afinco. E a conversa mantém-se neste tom, sem grande entusiasmo, sem alegrias excessivas. Uma das raparigas interroga-se: “Inscrever na faculdade... Para quê?”

O meu lado maternal podia entrar em acção e contar-lhes como a vida é dura e tal, como o mercado de trabalho é cada vez mais árduo e a importância extrema de uma formação digna desse nome. Podia, mas fiquei calada. Um dos rapazes apanhou um livro que deixei cair, sorri, agradecendo. “Vida de estudante...”, comento, pegando em mais livros para abandonar a mesa do café.

Ficaram a olhar para mim, a ver-me ir à vidinha. Terão ficado a pensar que já não tenho idade para estas andanças e eu a pensar que não sabem a sorte que têm. Podem ainda desfrutar deste tempo. Muitos dos novos universitários terão o entusiasmo que faltava a estes com quem me cruzei. E terão trabalhado muito para chegar a este momento de inscrições. Ainda bem. Conheço adolescentes que roeram unhas à espera da nota dos exames nacionais, que fizeram melhoria de nota, que querem muito – com empenho e compromisso – estudar, fazer uma licenciatura e a seguir mestrado (muitos sabem que não irão a lado algum somente com uma licenciatura). É o tempo deles, de se prepararem, de perceber que o futuro se constrói com estratégia e que tomar decisões nesse sentido é o maior acto de inteligência que existe.

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Não basta comentar o estado do mundo. Importa saber como organizar uma resistência eficaz e combativa face ao início desta realidade drástica: existem países cujo modelo político adoptado é fascista. Não existe outra palavra: fascismo. Não podemos assistir em transe, como se estivéssemos numa máquina de viajar no tempo, o reviver de situações similares às que vivemos nas décadas de 30 e 40 do século XX.
 

Os Estados Unidos da América, na sua política de tolerância zero à imigração, é um país que coloca crianças em jaulas, separa-as dos pais, algumas são dadas como desaparecidas. Tal como nos campos nazis, esses contra-monumentos, como lhes chamou Vergílio Ferreira depois de visitar Dachau, os funcionários são instruídos para se absterem de contacto físico com as crianças. Não há espaço para o afecto. O que os move não é o consolo e a rápida solução para estas crianças, com dignidade, é o racismo. Não há outra forma de entender.

Jornalistas como Raquel Maddow choram em directo na televisão ao receber notícias sobre estas crianças enjauladas e ficam incapazes de continuar a ler o que lhes acabou de chegar. Os comentários nas redes sociais sobem de tom. A mulher de Donald Trump reclama como se tivesse espaço ou credibilidade para o fazer e o seu marido, tão amigo do senhor Putin, assobia para o lado e manda retirar os Estados Unidos do Conselho dos Direitos Humanos a pretexto de não fazerem justiça àquilo que deveriam representar. A sério?

A resistência durante a segunda guerra mundial fez-se em vários palcos, mais ou menos organizados. Importa que a Europa possa fazer resistência ao que se passa do outro lado do Atlântico? Importaria se a Europa fosse forte, consolidada nos mesmos princípios e valores, unida e coesa, como foi o sonho dos fundadores da união europeia. Não é.

Infelizmente, alguns países europeus caminham para o mesmo tipo de política que se pratica sob a batuta do senhor Trump. Racismo, xenofobia, discriminação. Itália, Hungria e quais serão os países que se seguem?

Portugal, no seu esquema eterno de brandos costumes, não tem voz política para liderar qualquer resistência, bem sei, mas é pena. Não creio que a diplomacia seja a chave para resolver o nosso futuro. A pergunta impõe-se: que futuro queremos? Um futuro de gente branca para um lado e o resto em jaulas? Não vimos já o resultado destas políticas?

Numa entrevista ao Jornal de Negócios, Franco Berardi, o filósofo italiano, afirma: “A solidariedade é a maior ameaça para o capitalismo financeiro. A solidariedade é o lado político da empatia, do prazer de estarmos juntos. E quando as pessoas gostam mais de estar juntas do que de competir entre si, isso significa que o capitalismo financeiro está condenado. Daí que a dimensão da empatia, da amizade, esteja a ser destruída pelo capitalismo financeiro”.

Na vertigem do mundo, é urgente parar, pensar e agir para nos salvar, para nos restituir a dignidade, para que o século XXI não seja mais um século de horror na História.

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engana-me que eu gosto

por Patrícia Reis, em 14.06.18

Esta semana deparei-me, numa rede social, com uma publicação patrocinada de mais uma aplicação de localização de pessoas. A mesma é vendida com a palavrinha “safe” associada. Ora, bem sei que vivemos tempos negros e que as questões de segurança são hoje mais pesadas do que em tempos idos, mas há algo de imoral e pouco ético nesta ideia de que possuímos o direito de “seguir” as pessoas de quem gostamos.

Seguir por amor? Não, por controlo. E controlar o outro, localizá-lo minuto a minuto no seu dia-a-dia, ter acesso ao histórico dos seus movimento (promessa da dita cuja aplicação) é uma forma de censura e não um princípio saudável. Confiar no outro é crucial? Para alguns de nós sim, para outros nem tanto.

Se fizermos um bom exercício de memória e formos honestos, sabemos que todos temos, filhos ou parceiros(as), certas coisas que são só nossas. Precisamos de autonomia, de silêncio, de privacidade e de certos segredos, por ser inerente à nossa condição humana. Quem não mentiu aos pais? Quem não omitiu? Esse processo de conquista de autonomia fez-se sempre, creio, destes caminhos, porventura menos “limpinhos”, mas urgentes para alcançarmos o outro lado da vida. Chama-se crescer.

Andar atrás de saber o que os filhos fazem, a toda a hora, muitas vezes sem o conhecimento dos mesmos, controlando com uma ferramenta digital que garante que é para a sua segurança é uma bizarria e é desonesto. O mesmo se aplica aos maridos e mulheres que, em vez de praticarem de forma veemente a confiança, vão para o outro lado das coisas.

Há uns anos, uma mulher que era idiotamente controlada pelo marido (ele via os seus sms, lia os seus emails, controlava os seus gastos tendo acesso à sua conta bancária) disse-me: “Como ele não confia em mim, vou arranjando outras formas de fazer as minhas coisas. O princípio de funcionamento do nosso casamento é o 'engana-me que eu gosto'. Se ele não gostasse de ser enganado não fazia estas coisas”. O casamento terminou há uns meses. Eu não me surpreendi.

Que moral existe na perseguição do outro? Como se pode legitimar essa perseguição e controlo invocando conceitos amorosos, palavrinhas que derivam do tal “safe”, de amor e cuidados constantes? Não se pode.

Parece que a dita aplicação, que se apregoa como sendo muito melhor do que um sistema sinistro de invasão e espionagem, é um sucesso de vendas. Perante estes dados, admito que fico surpreendida. Talvez seja ingenuidade minha, aceito que o seja.

Que mundo é este? Não o reconheço. E quando os discursos se inflamam sobre a privacidade, a intimidade, os direitos básicos de cada um, pelo menos por padrões ocidentais, parece que vivemos numa bipolaridade ou numa esquizofrenia: queremos liberdade para nós, não damos liberdade aos outros. Que é como quem diz: não faças o que eu faço, faz o que eu digo, porque a teoria que se apregoa é lindinha e sustentada em bons princípios. A prática? Ah, muito haveria a dizer sobre isso mas não há tempo.

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eu sei que vou te amar

por Patrícia Reis, em 12.06.18

Não é uma música do Chico Buarque, tão pouco este a cantou nos concertos de há dias em Lisboa e no Porto, mas foi assim, a cantarolar a canção de Tom Jobim, que saí do Coliseu dos Recreios depois de duas horas da melhor música do mundo. Passaram-se dias, e não me sai da cabeça.

Em vez de nos esmagar com canções que sabemos cantar menos bem, aquelas que compõem o novo disco ou o seu percurso mais longínquo, o artista optou por um alinhamento musical tecido com inteligência e cuidado. E houve tempo para as novidades, para os clássicos, para os ultra clássicos e para a homenagem ao grande Wilson das Neves, a quem o concerto é dedicado.

Houve alegria e comoção de Chico Buarque que foi também a nossa alegria e comoção.

É preciso amar um artista que nos dá o seu melhor e, nesse aspecto, Chico chegou inteiro para se entregar.

E o público português aplaudiu, assobiou, elogiou, atirou cravos para o palco e bateu com os pés nos estrados de madeira, provocando aquele som único que só o Coliseu permite. Sim, o público português quando é generoso é muitíssimo generoso.

Amamos o Chico. Por parecer pouco vedeta, por ser o homem que compõe canções que enriquecem a nossa banda sonora de vida, por escrever aqueles versos que, de repente, são nossos, contam a nossa história, ou nos fazem pensar que talvez seja possível cair “na contramão atrapalhando o tráfego".

Não é possível viver sem música. E a música brasileira tem - sempre teve - um lugar especial para nós. Não é só país irmão, a aproximação da língua (até porque a riqueza do português do Brasil é, tantas vezes, surpreendente), é por termos assim o condão de garantir um gingado que, naturalmente, não possuímos e que a música popular brasileira nos oferece sem regras. Mexemos o corpo (sim, não chegamos a sambar, mas mexemos o corpo), cantamos a plenos pulmões mesmo que seja ingrato acompanhar alguém como o Chico.

Para mim, a música brasileira é a minha mãe, ela que ouvia o disco em vinil do concerto ao vivo do Chico com o Caetano, de 1972, como quem respira, sempre em loop; ela que sabe as letras todas; ela que não desafina; ela que pede emprestado às letras pequenas graças que aplica no dia a dia. Há uns anos, num outro concerto, a minha mãe desatou a chorar. A minha mãe chora pouco, portanto a minha aflição foi imensa. Não chorava de tristeza, chorava de alegria pela música, por estar ali, por aplaudir vários músicos absolutamente excelentes.

No concerto do Chico Buarque, no fim de semana passado, chorámos as duas um bocadinho. Creio que a maioria das pessoas no Coliseu chorou um bocadinho e, nessa união, quase que pedimos para que o Chico não "deixe em paz meu coração", porque é todo dele.

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assim vale a pena ser deputado

por Patrícia Reis, em 08.06.18

No início de maio, a RTP, numa reportagem exclusiva, confrontou alguns deputados (de partidos à esquerda e à direita) sobre o facto de terem residência em Lisboa, viverem na capital, mas terem como morada oficial uma outra, longe bem longe de Lisboa, possibilitando incorporar no seu rendimento um subsídio de deslocação. Pese o escândalo da situação e da pouca ética demonstrada, a verdade é que não se ouviu dizer mais nada sobre o assunto. Esta questão dos deputados e das respectivas deslocações já tinha estado em debate por causa de viagens de avião.

O que a reportagem da RTP provou é que existem 159 deputados com subsídios de deslocação e, muitos deles, moram em Lisboa. Há mesmo quem more a 500 metros da Assembleia da República. Os subsídios dão, nos casos abordados pela reportagem, uns confortáveis, decerto bem vindos, dois mil e tal euros de acréscimo ao salário. Portanto, os deputados, com esta manobra, ganham mais, muito mais, do que seria de esperar e, pior ainda, os ditos subsídios não estão sujeitos a tributação.

Sempre defendi que os deputados, como representantes eleitos, deveriam ganhar o melhor possível. Uma das razões que leva a que algumas pessoas se afastem da política é precisamente a questão financeira. Mudei de ideias. Porque uma coisa são os salários e outra, completamente diferente, é a realidade que se reflecte em cada recibo de vencimento do deputado ou deputada que considera que ainda vive no norte do país, porque tem aí uma mãe com 95 anos e é aí que se desloca quando a agenda permite.

Qual é ordenado de um deputado? Tomem nota: 3.624, 42 euros. A este valor acresce uma maquia se não trabalharem em mais lado algum, outra por serem deputados, só porque sim, e ainda o tal subsídio de deslocação se, claro, tiverem mandado dizer que moram em Viseu, em Braga, em Faro e outro abono ainda por estarem eventualmente longe de casa, da família.

 

 

O subsídio de deslocação não é igual, calcula-se ao quilómetro. São 69,19 euros por dia para quem more fora de Lisboa; 23,05 euros para quem more na capital. A mim não me pagam para ir da minha residência para o meu emprego, mas claro que eu não fui eleita e tal e não conto para este campeonato.

Além da remuneração principal que recebem por serem eleitos, os deputados recebem também uma quantia para exercerem essa função na Assembleia da República, em Lisboa (a ver se não desmoralizam, coitados, um incentivo para um entusiasmo extra, será?); recebem outra parcela caso não trabalhem em mais nenhum sítio (o regime de exclusividade vale um abono fixo de 370,32 euros mensais) e ainda recebem outra parcela fixa simplesmente por serem deputados da Nação e “representarem todo o país”. A tudo isto acrescem subsídios com deslocações que variam consoante o local de residência e a sua distância até ao Parlamento e por se deslocarem ao respectivo círculo eleitoral. Estes valores somados estão isentos de impostos. Um deputado ou deputada, assim, pode ter um salário e cinco abonos? Pois pode.

Querem-me explicar como se fosse mesmo muito burra ou temos aqui um problema? Talvez seja de pedir ao Presidente da Assembleia da República que tome os deputados como alunos na escola e faça o favor de fiscalizar quem é que tem mais dinheiro por mês por morar ficcionalmente numa outra ponta do país, embora mantenha residência em Lisboa, faça aqui a sua vida, tenha família com vínculos vários a empresas, a escolas, a instituições. De resto, lamento, um esquema é um esquema, a falta de ética comportamental não atinge apenas o comum dos mortais, é praticada pelos grandes da nação.

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Quanto tempo o tempo tem

por Patrícia Reis, em 24.05.18
Vivemos na absurda velocidade furiosa, não temos tempo. Não temos para a família, para os amigos, para pensar em estratégias, não temos tempo para nós. A vertigem das redes sociais, do estar permanentemente ligado, incapazes da solidão, é um dos maiores males do século XXI. Porquê? Porque tudo é feito pela rama, num esquema superficial que garante a sobrevivência, mas não dá felicidade, mergulhando em ilusão de sabedoria, sem ler com concentração, sem espaço de debate construtivo.

Enchemos os horários das crianças. Creio que a maioria já não brinca o que eu brinquei. Outros tempos, dizem-me. Não são tempos para as coisas básicas, sendo que uma delas é a leitura. Diz-se que os jovens lêem, não deixaram de ler. Lêem com o dedo a deslizar pelos ecrãs, a luz branca a garantir ligação ao universo. Não lêem "O Jogador" de Fiódor Dostoiévski, não mergulham com entusiasmo na "Tragédia da Rua das Flores" ou nos "Maias". Os Maias podem ser entendidos através de um pequeno livro de apoio à leitura que resume a história e personagens. Como ninguém entende o que quer dizer “apoio à leitura”, por isso serve perfeitamente.

Não temos tempo para ler, porque não temos condições para aguentar o silêncio. Precisamos de barulho. Precisamos de verificar o nosso smartphone com frequência, talvez tenhamos perdido alguma coisa. Como aquelas pessoas que abrem o frigorífico sabendo que não foram ao supermercado, mas na esperança de que alguma coisa se materialize. E, por isso, estamos atentos a esta ligação constante ao mundo, lemos as gordas, conseguimos a proeza de ver pequenos vídeos já sem som. E o som é crucial por ser o maior condutor emocional que temos, mas também isso parece não importar muito. Diz-se que os livros são caros. São menos caros que jogos, que bilhetes de festivais e, para mais, encontram-se verdadeiras pechinchas em alfarrabistas e há ainda livros à borla nas bibliotecas. É difícil promover a leitura. Existe um pretexto permanente que diz sim-importa-mas-agora-não-dá.

Se considera que a educação é cara, experimente a ignorância, afirmou Derek Bok, antigo presidente da universidade de Harvard. Ora, tentem substituir a palavrinha educação por cultura e o resultado é o mesmo.

Isaac Asimov, um dos mais importantes escritores de ficção científica de sempre, escreveu: “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los”. Não conseguir ler, não ter tempo, é uma forma de não conhecimento, logo de fracas soluções. Tudo isto vem a propósito do quê? Vem aí a feira do livro de Lisboa, em Setembro teremos a do Porto.

Vá lá comer uma fartura, pois é a tradição, mas vá também comprar livros para si, para as suas crianças, para oferecer no natal. Para ler. Com tempo. Desligado do resto, na certeza de que os livros são o melhor bilhete de viagem que existe. Podemos ir ao espaço, ao século XIX, à lua, andar de submarino, subir às pirâmides, enfrentar uma guerra. O livro é a melhor forma de entendermos o mundo e de reflectirmos. Para reflectir, lá está, é preciso tempo. E quanto tempo tem o tempo que temos nos dias que correm? Parece que é curto. Demasiado curto para o que é manifestamente urgente.

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Um grupo de homens armados com objectos que causam danos concretos entraram num local onde estão homens sem os mesmos objectos. Foi isto, não foi? Chama-se terrorismo. E não vale a pena dourar a pílula. O infeliz episódio na academia do Sporting não tem outra classificação.
 

A minha avó, que tem 85 anos e sempre foi leoa no seu coração, não merecia isto. Nenhum adepto merecia. Mas sobretudo a equipa técnica e os jogadores, de que clube forem, não merecem nada disto, porque ninguém merece um acto de terrorismo.

Não faço ideia se a equipa terá condições psicológicas para jogar este fim-de-semana, um jogo importante que, afinal, será assombrado por esta violência e pela controvérsia em volta do presidente. Mesmo que o dito cujo presidente seja uma espécie de ditador – há quem lhe chame o Kim Jon-un-Carvalho – o clube não tem condições para manter esta situação e polémica.

O clube não é apenas um clube, é uma instituição, são mais de cem anos de história. Isso exige respeito de qualquer um. Podem dizer-me que o senhor foi eleito, que ninguém pode garantir que os terroristas tenham sido mandatados para aquele ataque, sim, sim, ataque, leram bem, mas continua a ser insustentável ter um presidente que diz e faz o que diz e faz.

Sou insuspeita nesta matéria, quem me conhece sabe que não aprecio futebol, digo que sou do Belenenses por me parecer um clube simpático, ter um estádio bonito e um logótipo invencível. Dito isto, não sou imune aos ataques de terrorismo e não consigo dizer que a minha vida seja isenta de futebol, tenho marido, filhos, amigos e uma avó adepta do desporto-rei.

O que aconteceu deve ser denunciado, deve ser punido e alvo de muita reflexão. O futebol, como outros desportos, serve muitas vezes de exemplo aos mais novos. Estes terroristas podem dizer às famílias que fizeram o que fizeram pelo clube, pelo amor à camisola, para mim será o mesmo que o Estado Islâmico dizer que fazem o que fazem porque têm uma religião que sustenta as suas acções.

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São quase 2,4 milhões de pessoas em risco de pobreza, assim o atesta o Inquérito às Condições de Vida realizado pelo Instituto Nacional de Estatística. Menos 196 mil pessoas que em 2016. Eu nunca gostei de números por não terem, na minha opinião, sensações, caras, olhares. São uma espécie de coro de vozes, mas vozes invisíveis.

O ditado diz que olhos que não vêem, coração que não sofre, e a estatística toma esta verdade por boa, quase que nos protege de entendermos a realidade.

Este número - 2,4 milhões - é esmagador e inadmissível e conta histórias reais. Deste número, 18,8% refere-se a crianças ou jovens, menores. Quantos são? 451 mil, diz quem sabe de números. Quase meio milhão de menores que vivem sem o básico.

Ninguém se pode orgulhar destes números e tão pouco das histórias envolvidas: pessoas que não conseguem emprego, que perderam o emprego, que abdicaram dos estudos para ajudar os agregados familiares. Sim, Mário Centeno diz-nos todas as semanas que estamos muito melhores.

Uma das coisas boas dos números é que podem ser interpretados e virados ao contrário. Podem mesmo ser atirados como areia para os olhos. Estes números, de um inquérito que começou em 2004 com entrevistas pessoais, prova que temos muito para andar, porque, caramba, não podemos ser festa e glamour, não podemos ser cumpridores face à Europa e as suas regras, e depois descartar esta informação concreta sobre a forma como as pessoas vivem. Pessoas para quem o rendimento de inserção social chega? Não chega? Encaixam nos critérios, não encaixam?

Com esta realidade bem viva na minha cabeça, fui hoje à farmácia e assisti a uma cena de partir o coração. Um casal já com alguma idade não tem como pagar a medicação toda e a senhora, vestida de forma muito modesta, diz: "Não faz mal, este mês tomas tu, para o próximo mês tomo eu".

Saíram dali com a dignidade de quem enfrenta todos os dias um limiar de indignidade. Podia escrever mais vinte linhas sobre isto, mas não adianta. Este mês, a saúde do marido é a que vale. No próximo mês é a dela.

Fala-se muito de acção e responsabilidade social. Fazem-se muitos inquéritos, até se fazem comissões parlamentares todas as semanas, parece-me. Há uma queixa constante face ao sensacionalismo de alguns órgãos de comunicação social que, afinal, espelham o que é o país, para o bem e para o mal. A pobreza e a exclusão social são questões apartidárias, e precisam de ser combatidas. Com eficácia. Não através de um quadro com curvas ascendentes e descendentes que provam que estamos muito melhor.

Podemos estar muito melhor, mas não estamos bem.

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A violência no namoro não é uma ficção espelhada pela sétima arte em filmes e afins, com contornos mais ou menos perversos. É uma realidade e portuguesa. A ideia de que a pessoa com quem se namora é propriedade, logo está presa a padrões de comportamento e de discurso que devem, obrigatoriamente, cumprir os desejos do outro é, dir-se-á, retrógrada, não se discute. Temos de discutir e de formar pessoas para o futuro das relações que serão, não só familiares e profissionais, mas também amorosas.
 

Um rapaz que tenha visto a mãe submeter-se ao pai talvez vá replicar o comportamento e exija da namorada o que nenhum ser humano deve exigir seja a quem for.

“Eu dou-te a liberdade para fazeres...” Há frases que são mortais e esta é reveladora do posicionamento face ao outro/a. Significa que aquela pessoa considera que, por estar envolvida numa relação amorosa, pode aprisionar e condicionar comportamentos, “certas liberdades”. Neste discurso cabe muitas vezes a palavra respeito e, como se sabe, o respeito implica liberdade, a tal que não se dá a ninguém e tão pouco se autoriza.

Ainda hoje conheço casais cuja relação não é paritária. Na maioria dos casos que conheço, são as mulheres que são desfavorecidas. Conheço maridos que controlam o smartphone da sua cara metade ou até mesmo a conta bancária. Conheço jovens que entendem que o namoro implica obrigações e até um dress code. “Vais assim à rua? Comigo não”. Também existe a variante do amuo que se presta muito a esta afirmação: “Tu é que sabes”.

Assim ​se fragiliza alguém, assim se destrói a auto-estima, assim se desvaloriza e diminui uma pessoa.

Uma relação amorosa digna desse nome impõe a ideia de compromisso, mas isso não significa deixar de se fazer o que se gosta e, muito menos, limitar a outra pessoa. Podia citar a tal canção do Sting, mas não vale a pena. Parece uma coisa óbvia. Insisto: não é.

“Tu não percebes que estás errada?” Talvez em tempos alguém entendesse a frase com candura. Não tenho como.

Importa educar os jovens na forma como se relacionam amorosamente. Importa dizer que o ciúme não é prova de amor, mas sim de posse.​ Que um namoro não é um ferro em fogo quente queimado no braço, como uma marca. Um casamento também não​. As pessoas que se amam, confiam.

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Esta é uma crónica para quem gosta de desporto. Para quem, perante uma vitória, grita Portugal, divulga nas redes, diz-se orgulhoso, não se cansa de ver o feito.
 

É uma crónica sobre um menino açoriano que subiu ao pódio da Taça do Mundo no Open Internacional de Ginástica no escalão juvenil. Ganhou a competição com 19.250 pontos. Ao lado de Tomás estavam Damir Manacof da Rússia, com 19.200 pontos e Leonor Manta da Roménia com 18.600 pontos.

O sorriso de Tomás Amaral na vitória é quase comovente, diz tudo. Está ali o seu momento, é grande, é imenso, é o seu nome, o hino do seu país, os pais a morrer de orgulho, de certeza, a treinadora, Alexandra Barroso, de lágrimas nos olhos, os amigos a torcer para que tudo tenha valido a pena. Um corpo de rapazinho, pequeno e esguio, a voar num tapete de dez por dez metros. Vence o ouro para Portugal e deveríamos estar histéricos de felicidade, deveríamos abençoar o século XXI e a evolução dos nossos atletas e respectivas condições de trabalho.

Tomás Amaral só pode treinar duas vezes por semana, porque não há condições em Ponta Delgada para este ou outros campeões e, apesar disso, como a estrada em tempos para Rosa Mota, os atletas persistem. O Tomás Amaral treina no Clube de Actividades Gímnicas de Ponta Delgada. A treinadora diz que as condições que têm são más, que precisa de uma área oficial de 10 metros por 10 metros mais do que duas vezes por semana.

Quem nasceu a ver Nadia Comăneci e afins a voar nos tapetes, com o arco, a bola, a fita, nas paralelas assimétricas, só pode dizer: incrível, ganhámos, ganhámos aos russos, aos outros, aos do costume. Nós, o povo de feitos incríveis em tantas áreas, sim, nós, mas caramba na ginástica e sem condições.

O sorriso de Tomás Amaral fez o meu dia, fez o dia de muita gente, mas não de um país. Há modalidade e modalidades, já se sabe. As atenções estavam no futebol, dizem-me. Vão dizer isso ao Tomás, sim? Talvez até seja do adepto ferrenho de futebol este o nosso campeão, mas isso nem interessa para nada.

O que importa mesmo dizer é que precisamos de dar condições aos nossos atletas, jovens ou menos jovens, olímpicos ou paralímpicos (e se formos para o universo dos paralímpicos, pois devíamos ter vergonha como país, porque as medalhas chegam-nos em barda, mas esses são os atletas do não-apoio). E em Ponta Delgada estas condições não existem. O que existe é uma enorme vontade de vencer, de ser melhor.

Depois de escrever estas linhas, soube que Diogo Ganchinho é campeão da Europa de Trampolim. Ok, não tem o glamour de outras coisas, pois, mas parabéns Diogo, parabéns Tomás! E parabéns Portugal.

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Joãozinho ou as perguntas que as crianças fazem

por Patrícia Reis, em 12.04.18

Faltam 22 milhões de euros para as obras na unidade pediátrica do Hospital de São João no Porto. Digo que faltam porque estão aprovadas há um ano e nunca apareceram, portanto estão em falta.

O Parlamento e a Oposição caíram – e bem – em cima do Governo; o Governo, na pessoa de Mário Centeno, o todo-poderoso ministro das Finanças, esteve no Parlamento, numa audição conjunta das comissões de Saúde e Finanças, solicitada pelo PSD e pelo CDS a propósito do sector da saúde e da cativação de verbas para o sector.

Mário Centeno disse muita coisa, revelou números atrás de números, afirmou que a unidade pediátrica hospitalar tinha sido anunciada pelo Governo anterior sem verba para tal e bateu-se  - ferozmente - para explicar aos senhores deputados que, afinal, está tudo bem e que eles é que parecem não entender o que lhes é dito.

Bom, sobre o Hospital de São João e crianças com cancro a serem tratadas em corredores e contentores, o senhor tem razão para dizer que o anterior Governo tem responsabilidades concretas. E este governo? Também.

Não está tudo bem, é evidente, e não deixou de estar tudo bem no início desta semana quando as palavras de um responsável  daquele hospital classificaram as condições  existentes como miseráveis e indignas. Há muito tempo que não está tudo bem.

O Governo assegura que a verba, os tais 22 milhões de euros, será libertada e que as obras se farão. Ninguém perguntou, mas deveriam ter perguntado: então, quando Pedro Passos Coelho foi inaugurar a primeira pedra de uma unidade pediatria oncológica em 2015, sem verba, apoiando-se numa associação que iria angariar mecenas dispostos a levar a carta Garcia, era só para fazer parangonas de jornais? Good press? E o que aconteceu à dita cuja associação liderada por um tal de Pedro Arroja?

E, já agora, depois deste Governo ter assumido funções ninguém se ralou com o que estava a acontecer no dito hospital? Tantas perguntas, eu sei.

Acrescento outras para a realidade do dia de hoje: uma vez chegado o guito a quem de direito, que trâmites burocráticos faltam resolver? O orçamento de 22 milhões de euros tem um ano, mantém-se? O concurso para as obras afinal é válido? Ainda há mecenas? Onde foi parar a Somague, por exemplo, que assumiu que doaria uma quantia anual por dez anos? Quem não quer ajudar as crianças com cancro? Eis uma pergunta que o responsável pelo mecenato nos tempos do governo de Passos Coelho fazia certamente com um sorriso.

Enfim, talvez alguém tenha perguntado estas minudências e procedimentos e eu não tenha visto na televisão, não tenha lido nos jornais. Pode ser. O que me faz assaz confusão é que, como todos sabemos, as obras tendem a perpetuar-se, nunca são o que se espera, raramente se cumprem os prazos inicialmente previstos quanto mais o orçamento. Ninguém fiscalizou? Desde 2015?

Bom, e agora chegámos aqui. Uma vez em obras, que condições tem o Hospital de São João do Porto para dar respostas aos tratamentos de oncologia? Para onde irão estas crianças? Para outros corredores? Qual é a logística? Não consigo descortinar respostas para questões singelas.

Um pai de um doente diz que há outros espaços no hospital, que os contentores onde estão as crianças com cancro não são uma fatalidade. Diz mais, diz que tentou convencer a administração que era possível encontrar uma solução imediata e o interesse foi nulo. O Presidente do Hospital, que veio dizer que as condições eram miseráveis e indignas, pois não deve querer deslocar a administração do hospital para os contentores.

Não ouvi, nem ouvirei, um qualquer responsável dizer algo idiotamente básico e que as famílias com crianças com doença oncológica mereciam ouvir: pedimos desculpa. O pedido de desculpa, se existisse decência, seria do Governo actual e do anterior.
Esta situação não se gerou espontaneamente esta semana, tem muito, muito tempo. Mas neste país não se pede desculpa por nada, porque  seria a admissão de uma qualquer culpa e isso não é, politicamente, aceite como de bom tom, por isso faz-se o costume, culpa-se o anterior governo. Neste caso, está certo atribuir culpas, mas não chega.

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista juntam-se aos protestos, exigem que a luta pelo queda do défice seja mais branda e que o dinheiro seja aplicado onde é preciso. No Hospital de São João? Pois, por exemplo. Recordam que a maioria governativa não existe sem o seu apoio.

Está bem, de acordo, mas, de novo, além de se matarem com retórica uns aos outros no Parlamento e nos jornais, quem é que está a tratar de arranjar uma solução para as crianças da unidade Joãozinho enquanto as ditas cujas obras começarem? Quem é que efectivamente se preocupou com as crianças e respectivas famílias desde a operação mediática do lançamento da primeira pedra? Pois, parece que ninguém.

Não é uma pouca vergonha, é uma imensa vergonha.

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para acabar de vez com a cultura

por Patrícia Reis, em 05.04.18
Não sei se é intenção deste governo assumir que, afinal, o partido socialista agradece o apoio de artistas e agentes culturais em campanhas e afins, mas não está nada interessado em mudar o panorama nacional e entender que a cultura é a identidade do país e, por isso, merecedora de muito mais do que 0,02 por cento do Orçamento de Estado. Não sei se será politicamente correcto dizer que esta gente da cultura, afinal, é uma grande chatice, mas certamente que passará algo de semelhante pela cabeça de quem governa estas matérias.
 

O ministro da Cultura e respectivo secretário de Estado têm prestado pouco, pouquíssimo, para garantir que, por fim, num governo liderado por António Costa, a cultura tem o que na verdade merece. A dupla terrível sofre de um mal, ou de vários, e não tem qualquer salvação. Quando a coisa corre pior para o seu lado perde a autoridade e os agentes culturais, artistas, gestores, etc., batem a porta, e apelam directamente ao primeiro ministro.

Foi assim com o cinema, é assim com o resultado do concurso da Direcção das Artes para apoio financeiro para a área do teatro, música, circo contemporâneo e artes de rua, artes visuais e cruzamentos disciplinares.

Numa carta aberta a António Costa, a tal gente da cultura que, na verdade, deveríamos ser todos nós, diz que a política cultural do Governo “falhou por completo e de forma transversal”. O Governo, perante tanta lamúria, manda dizer que afinal há reforço financeiro: tomem lá mais dois milhões de euros. A ver se a coisa acalma.

O secretário de Estado, que demorou muito tempo a definir os moldes deste concurso e que perante a sua ineficácia mantém a ideia de que o modelo de concurso é bom, pasme-se, parece dizer que ainda há espaço para rever algumas coisas. E, de repente, é uma coisa juvenil, ou mesmo uma disputa infantil: ah, os meninos querem mais e vão fazer um grande alarido? Esperem, esperem que nós mandamo-vos doces.

Desta vez, doces não chegam, as manifestações estão marcadas para amanhã em Lisboa, Porto (o presidente da Câmara Municipal do Porto tem esfregado as mãos com esta polémica e posiciona-se para ficar num pódio de solidariedade e cultura como nenhum outro dirigente), Évora, Coimbra (cidade que ficou sem nenhuma estrutura cultura apoiada pelo concurso para financiamento) e Funchal, às 18h00.

Nunca entenderei a razão que faz com que a cultura seja o parente pobre do governo, deste ou de qualquer outro, sendo que este nem consegue assegurar algumas das condições do passado e mete os pés pelas mãos com o duo fantástico que preside a estes destinos.

O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda mostram-se acérrimos defensores dos queixosos. Até há quem volte a dizer que a Cultura deveria beneficiar de um por cento do PIB do país. Há cronistas que pedem a demissão de Castro Mendes, o ministro diplomata e poeta, e de Miguel Honrado. Para mim, vale pouco.

Importa dizer ao primeiro-ministro que não pode contar com os artistas para fins meramente políticos, é preciso dar-lhes condições para servirem melhor o país, enriquecendo a nossa identidade, mostrando como não somos iguais a mais nenhum povo deste planeta. A Cultura como parente pobre num país que tem níveis aclamados de turismo ainda faz menos sentido.

Bom, estou a magicar coisas: imagine-se o que seria uma aposta concertada na Cultura como investimento económico. Isso é que era. Mas não será com este governo, nem com qualquer outro governo. Não importa realmente a ideologia, o mecanismo de funcionamento face à cultura repete-se e é, no mínimo, triste.

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A América que muda

por Patrícia Reis, em 29.03.18

Milhares de pessoas, em especial jovens, saíram à rua e fizeram uma revolução. Não foi apenas um acto isolado, e isso é evidente para quem ouviu os diferentes discursos nas diversas cidades.

Este movimento veio para ficar e para mostrar a Donald Trump que talvez seja derrotado por quem é mais jovem, por quem é capaz de pisar um palco e, com tão pouca idade, dizer de sua justiça, invocando palavras sábias, relatando episódios traumáticos de violência, exigindo que os políticos sejam melhores. É uma revolução.

“É um novo Maio de 68”, disse a escritora Inês Pedrosa no twitter. É é verdade. Um Maio de 68 em Março de 2018 cujo enfoque não é apenas a questão da venda de armas, a falta de controlo (os jovens exigem a proibição da comercialização de armas de fogo, da venda livre de carregadores para armas semiautomáticas e o reforço dos controles de antecedentes das pessoas interessadas em comprar armas). É uma revolução pela vida, pela segurança, pelos direitos elementares, pela liberdade de expressão. Não são “jovens corajosos”, como refere o comunicado da Casa Branca, de forma condescendente. Nada disso: são jovens com voz, com ideias, com discurso, com capacidade de mobilização, com ideias, com objectivos. Tal e qual como eram os estudantes que mudaram o mundo à sua maneira em 1968.

A geração das redes sociais, do século XXI, não é comodista e preguiçosa, é informada, articulada e tem coisas para dizer, em especial quando se sente ameaçada. Estes jovens norte-americanos estão fartos, cansados de ter medo de quem possa ter uma arma e atacar. Os ataques a liceus não são ocasionais, são constantes. O poder que o negócio das armas detém nos EUA reside no esquema mafioso de benefícios financeiros para políticos para quem os eleitores, na verdade, são um pormenor de somenos na equação da democracia. Estes milhares de jovens de provenientes de diferentes meios sócio-culturais, de ambos os sexos, habitantes de vários estados norte-americanos, não querem mais conversas e subterfúgios, querem uma solução. Não podem – nem devem – ser encarados com condescendência. É a eles que o futuro pertence, são eles os leitores que Trump deve temer.

Estes jovens pensam pelas suas cabeças e não são, como explicou Naomi Wadler, de 11 anos de idade, “manipulados por adultos”. São capazes de perceber a diferença entre o certo e errado e não têm medo de enfrentar o mundo para dizer de sua justiça.

Com uma organização exemplar, a Marcha pelas Nossas Vidas foi uma iniciativa de estudantes sobreviventes do tiroteio numa escola em Parkland, na Florida, um tiroteio que ocorreu no mês passado, durou seis minutos e vinte segundos e resultou na morte de 17 pessoas. Emma González, uma das estudantes sobreviventes, de origem cubana, assumidamente bissexual, surgiu no palco principal do evento em Washington, com um casaco a lembrar o universo militar, cabelo rapado, e tornou-se o rosto de uma geração, de uma geração com direitos e exigências, uma geração que exige que sejamos melhores enquanto sociedade, na forma como nos comportamos, como lidamos uns com os outros. Emma Gonzalez anteve-se em silêncio durante quatro minutos e vinte segundos, um tempo infinito, as lágrimas a espreitarem, a rosto cerrado. Podia ser uma cena de um filme de Hollywood a puxar ao sentimento, mas é a vida real e é impossível ouvir e ver esta jovem sem qualquer comoção, é obrigatório chorar com ela.

Cameron Kasdy, outro estudante de Parkland, disse: “Desde que o movimento começou, as pessoas perguntam-me: ‘Pensas que isto vai provocar alguma mudança? Olhem à vossa volta. Nós somos a mudança”.

Christopher Underwood, de 11 anos de idade, falou sobre o irmão, baleado em 2012. Tinha 14 anos. “Na altura, eu tinha apenas cinco anos. Transformei a minha dor e raiva em acção (...) As nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecermos em silêncio sobre as coisas que importam”. A citação de Martin Luther King é exemplar do que acontece(u) na Marcha Pelas Nossas Vidas. A neta de Martin Luther King, de nove anos de idade, Yolanda Renne King pediu "um mundo sem armas". Tem o mesmo sonho do avô. Não está sozinha.

Em Los Angeles, Edna Chavez, também ela estudante de 17 anos, declarou: “Sou uma sobrevivente. Vivi no centro de Los Angeles a minha vida toda e perdi muitos dos meus entes queridos por causa da violência. Isto é o normal. (...) Eu perdi mais do que o meu irmão naquele dia, perdi o meu herói. Também perdi a minha mãe, a minha irmã e a mim mesma para o trauma e ansiedade”.

Desde Janeiro deste ano foram registados 49 tiroteios, já morreram 3 mil 159 pessoas em incidentes com armas nos Estados Unidos. Destes, 737 tinham menos de 17 anos de idade. Os jovens gritaram: “Já chega!”

A História mostrará que têm a capacidade para mudar o mundo e que nada os deteve.

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carneirada? sim, somos nós

por Patrícia Reis, em 22.03.18
Lembra-se daquele filme no qual Dustin Hoffman fabricava uma guerra porque o negócio da guerra é apetecível e porque politicamente era interessante para certas pessoas? Não tem importância se não se recorda, o que importa realmente é que a ficção foi largamente ultrapassada pela realidade, facto inegável perante notícias como as que dizem que o Facebook permite que os dados dos seus utilizadores sejam manipulados.
 

Há empresas especialistas em manipulação e propaganda política que, não apenas nos filmes com teorias de conspiração, prevêem comportamentos e tendências e encaram a população como... não há outra forma de o dizer, portanto aí vai, uma carneirada capaz de se deixar enganar com os engodos mais simples. Todos achamos que somos inteligentes, bem formados, temos bom gosto e somos moralmente corajosos e esclarecidos e, por isso mesmo, iremos negar essa possibilidade de manipulação.

Ontem alguém me dizia: “eu uso as redes sociais mas não embarco naquilo”. A mesma pessoa, há cerca de duas semanas, lamentou a morte de Umberto Eco, a circular por aí como uma novidade, apesar de ser uma postagem com mais de um ano. Não abriu a informação, leu as gordas e lamentou a morte do autor de O Nome da Rosa. Desde que frequento as redes sociais, o Vasco Granja já morreu uma dez vezes. Há sempre quem se comova e apresente as condolências com um sentido de oportunidade digamos que estranho.

Estes episódios são exemplos quase que inocentes de como não filtramos nem analisamos a informação distribuída nas redes sociais. Lemos as gordas e comentamos. Publicamos fotografias da nossa vidinha feliz e partilhamos notícias que nos importam e que podem ajudar a criar um perfil de quem somos, do que gostamos, no limite, daqueles em quem podemos votar. Se nos atirarem areia nem coçamos os olhos. Aceitamos.

Assim mesmo se explica que a campanha para a Presidência dos Estados Unidos tenha conquistado tantos adeptos, os mesmos milhões que votaram no senhor Trump. Teriam as pessoas a noção exacta daquele em quem estavam a votar? O mais certo é a resposta ser: não. Só assim se entende a percentagem de latinos e afro-americanos que votaram neste 45º Presidente dos EUA. É inegável que o senhor não é fã de nenhuma destas componentes da sociedade.

O Parlamento Europeu convidou Mark Zuckerberg a explicar como se podem – ou não – manipular os dados pessoais dos cerca de 500 milhões que utilizam o Facebook. Até ao momento em que escrevo esta crónica, o senhor todo-poderoso das redes sociais não deu uma resposta. O convite surge por causa das notícias (divulgadas pelo London Observer e pelo New York Times) que correram mundo rapidamente: uma empresa com sede no Reino Unido, a Cambridge Analytica, usou informação do Facebook para auxiliar a eleição de Donald Trump, em Novembro de 2016. Há uma violação clara dos direitos das pessoas? Pois.

A dita cuja empresa que, alegadamente, terá manipulado os dados, recusa as acusações (Então? Estavam à espera do quê?) e afirma-se disponível para ajudar em qualquer investigação. A verdade é que existem relatos – embora indirectos – de que a empresa se especializou em criar situações online com objectivos específicos, seja fazer ganhar eleições, seja fazer cair políticos corruptos. As investigações levarão a eternidade do costume, entretanto, as redes sociais - e outras empresas às quais damos os nossos dados, bancos, lojas, etc, etc - continuarão a dar-nos de comer e nós iremos comer às suas mãos, obedientes e de olhos fechados.

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É do inimigo? Raul Solnado ainda está aqui

por Patrícia Reis, em 15.03.18
Há quase uma década que não rimos com Solnado. Telmo Ramalho aprendeu muito com Raul Solnado e sempre quis fazer a sua homenagem, dizer os seus textos mais acarinhados e reconhecidos pelo público. E é isso que acontece no palco do Auditório dos Oceanos em Lisboa até ao fim deste mês.
 

A história é quase comovente. Telmo Ramalho não tinha imaginado ser actor. Natural de Figueira de Castelo Rodrigo (não precisa de ir ao mapa, é no distrito da Guarda), Telmo Ramalho viu a sua vida transformada por uma cassete (uma espécie de CD mas um pouco mais primitivo, ver referências na internet, por favor) que o pai comprou numa estação de serviço. A cassete trazia os monólogos de Raul Solnado. Não o entusiasmou à primeira, precisou de um pouco de tempo, e depois rendeu-se ao poder quase hipnotizante de Solnado, a sua capacidade única de dizer um texto.

Vou contar-lhes a história da minha ida à Guerra de 1908.
Eu trabalhava numa fábrica de produtos farmacêuticos, e, um dia sem querer, parti um comprimido e despediram-me. Fui então lá para casa sentar-me numa cadeira que nós lá temos para quando somos despedidos. Estava-me a baloiçar, quando entrou o meu tio Gustavo com o jornal que trazia o anúncio da guerra.
Precisa-se de Soldado que mate depressa!
E diz a minha tia:
Porque é que tu não respondes a esse anúncio?
E diz a minha mãe:
Isso, isso o que era preciso era comprar-lhe um cavalo!
e diz a minha tia:
Mas eles na guerra dão cavalos.

A vida de Telmo Ramalho prosseguiu, com um novo morador no coração, mas sem grandes vontades de palco ou de representação. Estudou turismo e animação turística, foi para o Porto e, em 2002, ingressou no Corpo de Vigilantes da Natureza. Estava nisto de ver a Natureza, de prevenir fogos e mirar animais selvagens quando, em janeiro de 2007, participa no concurso televisivo Aqui Há Talento na RTP1. Não ganhou o concurso, já se sabe, mas acabou por conhecer o mestre. E o bicho ficou cada vez maior dentro de si que isto de ser actor não é um dado conquistado tão somente, é uma coisa que nasce dentro das pessoas. Decide estudar, fazer um curso de teatro e descobre que Raul Solnado dá aulas.

Fomos para casa, e a minha mãe preparou me umas papas de sarrabulho para o caminho, tomei um táxi e fui para a guerra. Cheguei à guerra eram sete horas da manhã, estava ainda fechada. Estava também uma mulherzinha a vender castanhas à porta da guerra e eu perguntei:
“Minha senhora, faz favor? Diga-me, aqui é a guerra de 1908?”
E a senhora disse-me:
Não! É mais acima! Aqui é a guerra de 1906.
Repliquei um
Muito obrigado.
Subi dois anos. Cheguei lá cima, e estavam já a abrir as portas onduladas da guerra, eram já nove e tal, e o sentinela perguntou-me se eu vinha ao anúncio, e eu, disse que sim, e perguntou ele:
E matas depressa?
E eu disse,
Por enquanto ainda mato assim-assim… preciso de treino.”
Respondeu-me:
Então, anda ao capitão.
Fomos ao capitão, e o capitão perguntou-me se eu trazia a espingarda ao que eu disse:
Não, pensei que a ferramenta davam cá vocês. O que eu trago é uma bala, que um vizinho meu guardou como recordação da guerra dos cem anos.
E diz o tenente:
Como é que você mata só com uma bala?
E eu expliquei:
Disparo a espingarda, e depois, vou lá a correr buscar a bala.

Telmo Ramalho aprendeu muito com Raul Solnado, ouviu-o atentamente, entendeu as críticas, as sugestões e, fascinado pelo grande actor, sempre quis fazer a sua homenagem, encarnar Raul Solnado, dizer os seus textos mais acarinhados e reconhecidos pelo público. E é isso que acontece no palco do Auditório dos Oceanos em Lisboa até ao fim deste mês. Depois, se o resto do país perceber este tesouro que temos em palco, talvez o espectáculo chegue a outras paragens.

Aqui o humor é único, com sub-texto, sem nada de brejeiro. O actor segue o mestre e está lá tudo, os tiques, as mãos a dançar, as pausas típicas de Solnado e uma história para contar que é, afinal, a história de todos nós com o actor que nos deixou fará, para o ano, uma década. Há uma década que não rimos com Solnado, apesar disso temos incorporado algumas das suas saídas, algumas partes do que disse em palco, pequenas tiradas que importámos para a nossa vida.

Fui ver o espectáculo com a minha mãe. Há muito que não a ouvia rir tanto. Voltou atrás no tempo e antes do Telmo Ramalho dizer o texto, em surdina, com imenso gozo, a minha mãe completava-lhe as frases.

Bem, fizeram uma conferência e deram-me seis balas, mandaram-me depois matar. Estava então eu, a matar, muito quentinho, quando veio o capitão e mandou-me ir vestir de espia. Deram-me um vestido de orgândicos com uns laços cor-de-rosa na cabeça e mandaram-me de espia. Cheguei à guerra do inimigo, bati à porta e o sentinela espreitou pela frincha e perguntou:
Quem é?
E eu:
Sou a Maria Albertina, malandrice!
Ele disse:
O que é que queres?
E eu disse:
Eu venho cá buscar os planos da pólvora.
E ele disse:
Trabalhas de espia há muito tempo?
E eu disse:
Trabalho desde as 11!

Há nove anos que não rimos desta forma, que não somos tocado pela magia de Raul Solnado. Obrigada Telmo Ramalho por nos devolveres um bocadinho do Raul.
* As partes reproduzidas pertencem ao sketch "A minha ida à Guerra de 1908", passou na censura e subiu ao palco em 1961 integrado na revista "Bate o Pé", em cena do Teatro Maria Vitória.

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Podia debitar as estatísticas sobre CEO de empresas mulheres, mulheres sem ordenados equiparados, progressões de carreira a sofrer de lentidão e afins, mas não vale a pena maçar-vos com informação que é, nos dias que correm, dado adquirido e que, tantas vezes repetida, provoca, em algumas mentes estafadas de profundo cansaço, certa irritação. 

Não conto pelos dedos as vezes que me disseram que “isso já se está a tornar cansativo”. Não conto pelos dedos por não os ter em número suficiente. Confesso que o meu feminismo não é pop, nem fundamentalista, é talvez básico, mas atento. A minha luta, e a de muitas mulheres e homens de boa vontade, é pela paridade, pelo tratamento equiparado, pelo ordenado igual.

Uma coisa é certa: se eu fosse homem teria feito uma carreira no jornalismo - e na literatura! - com maior ligeireza e sem tantas provas de esforço. Não podem dizer que peco por excesso, podem apenas dizer que falo por mim, tendo em conta os meus 30 anos de vida profissional. Seja, falo de mote próprio, afinal é o meu nome no cabeçalho, a minha fotografia aqui especada. Se quiserem cingir o que vos escrevo à minha pessoa e vidinha, pois estão apenas a enganar-se, mas vamos lá a isto.

Em 2017, José Luís Peixoto, num encontro na feira do livro do Porto, disse: “A minha vida é mais fácil do que a vida da Patrícia, não sou mulher”. Sorri e comecei a pensar nas histórias que tenho acumulado ao longo da vida: a Maria Teresa Horta a dizer que coloca um alarme quando está a cozinhar para ter a certeza de que não deixa queimar nada, ela a tentar escrever poesia e a fazer comida para a casa; a Sophia de Mello Breyner que terá dito que escreveu muitos poemas enquanto fazia bacalhau com batatas; a Agustina Bessa-Luís a rir, os homens não são para levar a sério; a Inês Pedrosa a explicar que, como reivindicou Virginia Woolf (leiam o livro Um Quarto Só Para Si, edições Relógio d’Água, é maravilhoso), é preciso ter liberdade financeira e um quarto só nosso, um escritório como têm tantos homens.

A estes grandes vultos da literatura posso juntar quase todas as escritoras com quem me cruzei em Portugal e fora de portas. A nossa vida não é fácil. Ser escritora mulher significa ser uma mulher de sete ofícios, pela simples razão de termos inúmeros afazeres que, por uma razão quase estranha e maléfica, nos impedem de fechar a porta do escritório e dizer: vou escrever, não me perturbem, não me interrompam.

Não. É certo que a porta do “quarto só nosso” mantém-se aberta e corremos o risco de ter um filho a berrar lá ao fundo da casa: Mãeeeeee, preciso de papel higiénico! Tens 50 cêntimos? O que é o jantar? Ou outra coisa qualquer, porque a uma mulher não passa pela cabeça fechar a porta e dizer que vai escrever e está desligada para o resto do mundo. Sim, teria sido mais fácil ser homem enquanto criava os meus filhos, decerto que teria conseguido ir a festivais literários e sessões em bibliotecas com maior frequência.

Hoje sou uma privilegiada, sou uma mãe-livre, no sentido em que os meus filhos são adultos e, portanto, posso escrever e ouvir músicas estranhas, posso fugir para dentro de casa sem ter de me preocupar com escolas e actividades. E ainda tenho, cereja no topo do bolo actual, um marido que me diz: vai, vai escrever, eu trato. Ah, de que me queixo eu?

Se tivesse nascido rapaz e me chamasse João ou Manuel ou Francisco ou António ou Xavier, eu seria uma escritora com pergaminhos. Podia manter uma dose de mistério, mas os meus livros venderiam muito mais. Sim, está provado que os melhores compradores de livros são as mulheres e está igualmente provado que compram maioritariamente livros escritos por homens. E, lá está, peço desculpa pela repetição, mas é já um fetiche: se uma mulher escreve uma história que tenha um enredo amoroso, é somente uma história de amor; se um homem escreve uma história de amor, ah, é sobre a condição humana.

Mas há mais: se eu fosse um homem e escrevesse umas coisas lamechas, quem sabe?, podia vender mais livros e atingir o céu em termos de números de fãs (ou devo dizer, adeptos? fiéis?). Não, nada disso. Se estivesse numa televisão a apresentar qualquer coisa e fosse um rapaz garboso de fato azul escuro e bela gravata grená, podia escrever mistérios e até episódios eróticos de mau gosto, ninguém se importaria, sobretudo a minha conta bancária.

Sim, bem sei que estou a ser irónica e mazinha, mas o que querem? Parece que este é o nosso dia, o da mulher, porque o dos homens será todos os outros e nós, criaturas frágeis a precisar de protecção, temos de aproveitar este dia para falar alto e bom som das nossas dores tamanhas.

Ora, nós não precisamos de protecção, o que não significa que não possamos apreciar os gestos cavalheirescos, precisamos que nos encarem com a mesma seriedade com que encaram o sexo oposto, reconheçam o nosso valor, nos paguem os mesmos salários, nos dêem oportunidade de chegar aos mesmos cargos. Precisamos ainda que nos oiçam e percebam que o que se fez anos a fio, práticas seculares, não justificam o que continua a passar-se.

São vários os movimentos que tentam chamar a atenção para a causa feminina, já se sabe. Infelizmente, não são suficientes e, por isso, eu, cansativamente feminista, repito e volto a repetir as informações que cansam tantas mentes estafadas de ouvir estas mulheres que não sabem senão queixar-se. Um estudo da Deloitte demonstra que apenas 13% dos cargos de direção no nosso país são ocupados por mulheres. E quantas mulheres detêm e lideram conselhos de administração? Apenas 2%.

Portanto, pergunta para queijo: acham que nos temos queixado o suficiente? Olhe que não, caro colega, olhe que não.

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Num jantar de pais livres, como gosto de lhes chamar (pais com filhos em idade para ter vida social própria), falava-se de sexo. Será que os nossos filhos viram, ou vêem, pornografia? Não queremos falar de sexo com os nossos filhos e tão pouco pensar que têm acesso a pornografia com a maior facilidade do mundo, mas é um facto, real, fácil de comprovar, estudado e analisado.
 

Com acesso a smartphones ou tablets, os jovens podem aceder a sites pornográficos gratuitos com uma facilidade quase, digamos, obscena. Os pais não têm como saber? Não têm. Uma das mulheres que jantava naquela mesa de gente crescida disse que via o histórico do computador dos filhos (eu seria incapaz, confesso), mas que não tinha como aceder ao dos telemóveis sem “dar nas vistas”.

Os pais continuaram a conversar animadamente: os homens a recordar uma publicação de nome Gina e os lugares onde a podiam comprar (algumas eram herdadas dos irmãos); as mulheres a confessar como informações sobre sexo tinham chegado via amigas, e não pela família e, na sua maioria, concordavam que a informação chegara tarde demais. Hoje, os adolescentes ainda não iniciaram a sua vida sexual e já podem ter visto tudo. E o tudo é, muitas vezes, pornografia, sexo entre duas ou mais pessoas, tantas vezes com posições de dinâmica de poder favorecendo os homens, com práticas e discurso que podem surgir como “naturais” para quem é menos informado.

Para saber um pouco mais, leiam o artigo do The New York Times de Maggie Jones, traduzido Luís M. Ferreira e que foi publicado na última revista do semanário Expresso. São seis páginas muito elucidativas e preocupantes. Eu sei que são seis páginas de texto, sem qualquer imagem, porém garanto-vos que o artigo vale todos os vossos minutos, em especial se são mães ou pais.O sexo faz parte da vida, é saudável e de louvar, não tem discussão. Implica, numa prática saudável, reciprocidade, um princípio de prazer mútuo que é totalmente esquecido na maioria dos filmes pornográficos.Há uns anos, ouvi – procurem na internet – uma Ted Talk de Erika Lust, realizadora de filmes porno, que me ensinou em 15 minutos algumas coisas e aniquilou uns tantos estereótipos. Erika Lust gere um negócio porno altamente rentável. A diferença? A procura de uma narrativa sexual que não diminua a mulher, que possa ser entendida de outra forma, para, diz a realizadora, se perceber que nem todas as mulheres têm mamas gigantes nem os homens são todos dotados de pénis com 30 ou mais centímetros.

No tráfego de consumo de pornografia, Portugal está no 41º lugar, portanto não podemos dizer que não é um assunto. É um assunto. A maioria dos consumidores de pornografia são homens (78%), as mulheres ficam nos 22%. Estes dados são da Pornhub que, há três anos, decidiu analisar o mercado português. Chegaram a conclusões interessantes, então partilhadas pelo Jornal de Negócios. Um dado a reter: como o acesso aos sites porno antes dos 18 anos é ilegal, os dados sobre o consumo não contemplam idades inferiores. Outro dado a ponderar são as categorias de palavras mais procuradas em Portugal neste âmbito. A saber: “teen” e “milf” (Mother I want to fuck).

No artigo de Maggie Jones, encontramos o subtítulo: tudo começa aos 13. E a afirmação é sustentada por um estudo da Escola de Media da Universidade do Indiana (EUA) que aponta para que o consumo de pornografia em adolescentes comece aos 13 anos, no caso dos rapazes, e aos 14 anos, no caso das raparigas. A mesma universidade fez um inquérito a pais e filhos e concluiu que mais de metade dos pais não acredita sequer que os filhos vejam pornografia. Já 93% dos inquiridos masculinos e 62% femininos, no âmbito de um estudo da Universidade de New Hampshire (2008), admitem ter visto pornografia online antes dos 18 anos.

A pornografia como educador ou guia de orientação pode ter servido, ao longo dos tempos, vários propósitos. Nos dias de hoje, além de todas as questões relacionadas com sexo seguro e doenças sexualmente transmissíveis, importa que os adolescentes entendam as limitações do negócio que é o sexo. Um filme pornográfico não implica prazer, muitas vezes apresenta gestos de violência (asfixia, para dar um exemplo), linguagem mais agressiva e, classicamente, ejaculação para o rosto da parceira.

Replicar o que se vê não é boa opção na vida real. Vamos, então, falar sobre sexo com os nossos filhos? É capaz de ser ajuizado.

 

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Tenho dois cães. Não vão a restaurantes.

por Patrícia Reis, em 22.02.18

Gosto muito de animais, sempre gostei. Já tive gatos, agora tenho cães. Em tempos que vão, tive uma égua. Esforço-me muito por não impor os meus animais a terceiros. Não vou de elevador com eles à rua, vou de escadas. Se alguém vai jantar lá a casa, pois faço por não os ter em casa, vão ali passar umas horas com alguém que os trate bem. Apanho dejectos na rua e não os solto nunca. Esforço-me para os educar e nunca, nunca mesmo, vou dizer a uma criança (ou adulto) com medo de cães: não sejas parvo, ele não morde. Respeito o medo dos outros.

Não vou levar os meus bichos para os restaurantes, da mesmo forma que não os levo para a praia, para o bar, para a piscina, para os jardins cheios de crianças. Não gosto menos dos meus bichos por causa disto. É uma forma de estar. Sei que muitas pessoas considerarão que a nova lei é uma boa coisa. Ficará ao critério de cada um, já se sabe, e também dos donos de restaurantes.

Há, contudo, um aspecto crucial que creio não ser de somenos: os animais sofrem em espaços nos quais não se podem movimentar e sofrem mais ainda com cheiro de comidas que lhes estão interditas. Este é, como dito de início, o meu entendimento e ajo de acordo com esta ideia. Da mesma forma que, pese o amor que lhes tenho, reconheço-lhes a origem, logo não os visto, não lhes meto ganchos ou roupinhas e lenços à Xutos & Pontapés. São animais. São bons animais e excelente companhia, mas não são comparáveis com seres humanos. É que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Dirão que há animais que são tão importantes – ou mais – que muitos familiares. De acordo. Mas há mínimos olímpicos de higiene que me afligem nas idas aos restaurantes e afins. A minha cadela larga mais pelo quando se deita do que aquele que a cabeleireira atira para o chão sempre que me corta o cabelo. Os cães largam pelo. É um facto. Então, caso encontre um restaurante que o permita, com tanta fiscalização e afins, vou levar o meu animal e conspurcar o sítio? Ou vamos pensar que os donos de restaurantes têm de estar preparados para tal? E, já agora, para necessidades fisiológicas inesperadas?

Enfim, sei que para muitas pessoas esta questão é sensível e, decerto, alguém se encarregará de me colocar na ordem. Eu sou teimosa e vou manter os meus cães em lugares onde possam ser felizes e farei por ser o mais civilizada possível, apanhando dejectos da rua com um saco para o efeito, afastando os cães de crianças e idosos, de sítios que possam ser perigosos (cuidado com os vidrões, por perto estão inexplicavelmente vidros mínimos que se enfiam nas patas) e nunca os deixando andar a vaguear livremente. Não sei o que pode acontecer, creio que tudo pode acontecer e é para isso que existem trelas e, por outro lado, espaços específicos para cães correrem.

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vivemos num país só para jovens? parece que sim

por Patrícia Reis, em 15.02.18

Vivemos num país deslumbrado pela juventude. O que é novo é bom, logo pode ser arrogante e até mal-educado. Pasmo perante a quantidade de gente nova que masca pastilhas elásticas com a boca aberta; jovenzinhos foliões que não dizem bom dia ou boa noite, obrigada ou se faz favor; gente com menos de trinta anos incapaz de entender que serão, não tarda, parte desta outra metade do mundo: os mais velhos.A juventude aguerrida é de louvar. Nem todos tiveram educação esmerada, logo é aconselhável optar por observar, aprender e replicar. Não me comovem os argumentos de que cresceu sem isto ou sem aquilo. O que aconteceu na nossa infância ou na adolescência pode ser revisto na idade adulta. Convém que o façam para que, uma vez traídos pela passagem do tempo, possam chegar aos trinta, quarenta, cinquenta e por aí fora sem se sentir postos de lado, nomeadamente no mercado de trabalho.

Sim, a juventude é boa para os potenciais empregadores e não se premeia a experiência. É triste, mas é a nossa realidade, o que leva a que muitas pessoas com 50 anos de idade e mais tenham perdido o emprego e não consigam arranjar soluções no mercado. De repente, tudo o que fizeram não tem qualquer importância? Parece que não.

Muitas pessoas que trabalharam uma vida inteira, muitas vezes em condições indignas, envelhecem sem qualquer abrigo ou protecção. As famílias não são os álbuns das festas com sorrisos e roupas engalanadas. As famílias também podem ser autênticos infernos a portas fechadas. E, perante a velhice, os mais novos preferem não ver, nem ouvir. E há ainda quem prefira abandonar ou agredir.

Há cinco anos, um estudo brasileiro indicava que a cada cinco minutos um idoso era agredido no país-irmão. Em Portugal, mais de um terço da população tem 65 anos de idade ou mais. O que significa que somos o quarto país mais envelhecido da Europa, ultrapassado apenas pela Grécia, Alemanha e Itália. Mas vamos um pouco mais longe. Sabe quantos octogenários temos? Pois são 5,84% da população. Estudos apontam para que daqui a 50 anos existirão cerca de 300 velhos para cada 100 jovens.

E tudo isto importa porquê?

Importa que o envelhecimento activo se torne uma prioridade. Não só para evitar a discriminação de quem quer manter-se no mercado de trabalho apesar de não ter uns gloriosos 20 anos de idade, mas também por ser melhor.

Portugal terá de se redefinir, elaborar estratégias de forma inteligente, porque a população não está a rejuvenescer, não vivemos numa série de ficção científica, logo temos de dar resposta à questão da idade de outra forma. A maioria das empresas parece preferir ter dois empregados a ganhar ordenado mínimo do que um sénior com um ordenado adequado ao seu percurso e experiência. Diz-me a experiência que não é necessariamente a melhor opção. Conheço quem faça tudo para continuar a trabalhar e se mantenha activo, apesar de se ter visto no desemprego ou na reforma por razões alheias à sua vontade.

Uma equipa que integra gente mais velha possui algo que muitos desconsideram e que é fundamental: a formação. Não é apenas ter alguém mais velho que pode saber mais, é alguém que tem outra memória, que pode ajudar a contextualizar.

Quando comecei a trabalhar nos jornais, há 30 anos, aprendi muito, muitíssimo, com jornalistas veteranos. Bebia o que me ensinavam com fervor e fui acarinhada de forma inimaginável por sentir que apostavam em mim, que queriam que eu fosse mais longe.

Hoje, perante um vídeo que se tornou viral e que faz uma paródia do que é uma entrevista a um millennial, tenho de me rir. Quando fui à minha primeira entrevista de trabalho não me passou pela cabeça estar em permanente contacto com ninguém a não ser com o meu sistema nervoso. Queria muito aprender, sabia o meu lugar e, como o poeta, se falhasse pois voltaria a tentar e, porventura, falhava melhor. Ter alguém ao meu lado com uma enorme experiência serviu para muito.

As empresas não reconhecem o valor dos mais velhos num país que só quer jovens, mas que não os tem em número suficiente? Não. Nem as empresas, nem o Estado.

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A minha morte é um assunto meu

por Patrícia Reis, em 08.02.18
A eutanásia nunca será um tema consensual? Porquê? Parecem perguntas simples, mas não o são.
 

A sociedade gere-se por regras e as mesmas são impostas por uma maioria forte, predominante e, muitas vezes, cingida a uma moral que deriva da religião. Fala-se muito em amor, em vida, direito à vida e ainda outras coisas como a invocação divina. Estamos no século XXI, há coisas que já perderam validade. Ora, em Portugal, alguns partidos políticos elaboraram, ou estão no processo de elaborar, projectos de lei de legalização da eutanásia. Só pecam por ser tão tarde. Sou completamente a favor. Haverá quem seja contra, não tenho a menor dúvida.

Dirão que serão necessárias limites e fronteiras, pois seja. Até porque importa acautelar a possibilidade de familiares demasiado ansiosos por eventuais heranças, ou desejosos de se verem livres do peso daquela pessoa doente, se apressarem a antecipar a sua morte. É, portanto, crucial que a lei seja claríssima e eficazmente explícita quanto aos mecanismos de confirmação inequívoca do desejo do doente. É um caso em que não podemos permitir que a lei tenha zonas cinzentas? Absolutamente. E é para isso que votamos e temos partidos a pesquisar para produzir decretos-lei com pés e cabeça.

O que me importa, contudo, é a possibilidade de ver eliminada esta indignidade que a evolução da medicina permite: estendemos a vida do corpo sem qualquer preocupação com a dignidade individual, com a qualidade de vida de cada um. Há sempre o argumento do instinto de sobrevivência, ninguém quer morrer (ora pois, então!), não sabemos ao que vamos e, mesmo os mais religiosos, com promessas de céu e salvação, virgens e outras coisas, têm grande dificuldade em digerir este momento biologicamente inevitável.

A morte não é simpática, mas a vida faz-se com alegrias e percursos mais árduos, numa presunção de que vamos envelhecendo, mas não ficamos apenas ali num canto a dizer que estamos vivos sem capacidade para nos mexer. Se não quero cá estar, se o corpo me trai, por que será que não posso colocar fim à minha vida?

Em casos de sofrimento, devo dizer que não tenho qualquer reticência. Os fundamentalistas dos movimentos pró-vida, irão invocar argumentos que não tenho como entender: e se um adolescente se quiser matar com assistência? Bom, a adolescência é uma espécie de construção e destruição diária, os adolescentes pensam na morte e os que se querem matar, matam-se, não será para isso que servirá um decreto-lei certamente. Existe sempre também quem veja o aspecto financeiro da coisa. Em tempos, noutra matéria sensível, ouvi um argumento contra o referendo do aborto que era surreal: se matamos as crianças por nascer, não estamos a garantir contribuintes para o futuro, logo estamos a lesar as pensões (sem comentários). Portanto, também teremos quem pergunte porque razão deverá o Estado financiar a morte.

Ora, todos os dias, em todos os hospitais do mundo, existem pessoas que viveram vidas cheias, umas melhores do que outras, não tenho dúvida, e que chegaram ao fim para estar no tal canto que a medicina proporciona, com comprimidos para o coração, para a tensão, para dormir, para ter fome, para o colesterol, para a insuficiência cardíaca, para ... e para.... Valerá a pena? Os moderados irão reclamar e bradar aos céus que cada caso é um caso.

No dia em que a minha vida for exclusivamente uma visão de caixas de comprimidos, sem trabalho, sem capacidade de leitura, de apreciar música, de sair à rua, pois não quero cá estar. Podemos concordar que discordamos, mas a minha morte é um assunto meu.

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O génio de Ursula K. Le Guin

por Patrícia Reis, em 01.02.18
Na semana passada, morreu Ursula K. Le Guin. Confesso-vos já que fiquei com lágrimas nos olhos e, por isso, se acham que é lamechas, mais vale não ler esta crónica. Nunca conheci a autora de fantasia que me mudou a forma de ver o mundo era eu ainda adolescente, mas li tudo o que escreveu e tenho-a como uma amiga. Morreu-me. Como só nos morrem as pessoas que amamos. 

O meu primeiro encontro com Ursula K. Le Guin deu-se com o livro Feiticeiro Terramar e depois nunca mais parei. Aprendi imensas coisas com ela ao longo da vida. Sobre a forma de estar, sobre a escrita, sobre a importância dos dragões. Para mim, nunca foi uma autora de ficção científica, embora seja esse o rótulo no mercado dos livros e dos leitores. Sempre entendi que os seus livros eram reflexões sobre a vida e os relacionamentos. Reflectir é um dos bens maiores da Literatura e a razão pela qual acusamos a falta de pensamento prende-se com essa preguiça no exercício de ler e de pensar. Ler e interrogar, ler e entender, ler e incomodar. Agustina Bessa-Luís disse muitas vezes que escrevia para incomodar.

A autora norte-americana, casada com um francês, filha de antropólogos, mãe de três filhos, dispôs-se a fazer-nos pensar e construiu histórias que ficarão para sempre com quem as leu. Uma das suas leitoras, acredito que devota, será J.K. Rowling, a autora do famoso entendedor de serpentes, Harry Potter de ser nome. Se Ursula K. Le Guin bebeu em J.R.R.Tolkien, Rowling foi beber à obra de Ursula e sempre que me cruzo com Harry Potter penso em Gued, o Gavião de Terramar, ele que falava com dragões, a língua mais antiga do mundo. A autora afirmou: “Escreva o que deseja escrever. Adicione tantos dragões quanto quiser”.

Imaginar o possível, ou o impossível, para pensar a humanidade é um talento de génio que poucos possuem. E claro que ainda hoje se diz que H.G. Wells, autor da Guerra dos Mundos, é o pai da ficção científica. O pai parece importar sempre mais do que a mãe, vá-se lá saber porquê. Eu, que sou cansativamente feminista, pois torço por Mary Shelley e pelo seu Frankenstein. Coisas minhas, já se sabe.

Uma das facetas de Ursula K. Le Guin era o seu feminismo num mundo manifestamente dominado por homens. Ela dizia que não tinha gostado de ficção científica ou de fantasia imediatamente. O facto de a maioria das histórias terem como protagonistas homens bélicos com desejos de invadir ou conquistar algo pareceu-lhe redutor. Assim, como lhe pareceu redutor ser apenas mãe e esposa. “Não há motivo para que uma mulher casada com filhos não possa ser uma artista comprometida. (Isso parece evidente, mas não foi imediatamente claro para mim)”. E, assim, entendendo o universo ao seu redor e o domínio do patriarcado, a escritora tornou-se feminista acima de tudo, mesmo quando os personagens centrais das suas histórias eram do sexo masculino. “Os valores do patriarcado estão enterrados em muitos dos enredos das nossas histórias. São necessários novos enredos”.

Frontal. Bem-disposta, capaz de se manter num certo anonimato para preservar a sua vida privada, Ursula K. Le Guin foi convidada para a Academia de Letras Americana em 2017 e terá, de acordo com declarações suas, perdido ou deitado a carta para o lixo. Meses depois da formulação do convite, sem resposta, a Academia decidiu interrogar a agente da escritora e é assim que fica a saber do convite. Escreve a agradecer e a aceitar, dizendo que não recebeu nada por escrito, não “estava a dar numa de Dylan”, aludindo ao silêncio de Bob Dylan à Academia Sueca aquando do Nobel da Literatura. O seu sentido de humor pode ser apurado em alguns vídeos na internet. Os livros, a sua maioria não está traduzida para português, são procurados pelo mundo inteiro. Não apenas a ficção, mas também a poesia, a literatura infantil e, claro, o guia para escritores. O mesmo livro onde afirma que ler é mais importante do que qualquer outra coisa e, por isso, os outros escritores não são concorrência, são sustento. É aí também que se pode ler que o arrependimento faz parte do crescimento enquanto escritor e que corrigir é bom, mesmo que os erros anteriores sejam eternos e possam estar a um “Google de distância. Não há nada vergonhoso em se tornar uma pessoa melhor, uma pessoa mais sábia”.

Morreu Ursula K. Le Guin. Ela que estudou o taoismo e o budismo, na busca permanente de equilíbrio, e que teimava na ideia de que o trabalho diário era o mais importante porque, afinal, “a imortalidade nunca funcionou bem para ninguém”, acrescentando: “Evite isso a todo custo”. Não creio que tenha conseguido atingir este objectivo. Quem leu os seus livros irá passá-los a outros e, de geração em geração, a escritora será única e, portanto, imortal.

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Tem algum Nobel da Literatura no seu país?

por Patrícia Reis, em 25.01.18
Todos os anos, temos a saga do Nobel e, como um bom relógio suíço, há quem torça por António Lobo Antunes e quem recorde José Saramago. O Nobel da Literatura é porventura um dos poucos prémios Nobel sobre o qual as pessoas discutem com à-vontade, discutem e criticam.
 

Afinal, de literatura sabemos todos um pouco? Parece que sim. Ora, a opinião pública conta pouco – ou mesmo nada – para esta corrida já que os putativos vencedores devem ser nomeados por antigos laureados, instituições e academias cujo perfil seja indiscutível.

A Academia Sueca, na sua sabedoria imensa, gere uma pequena fortuna do senhor Alfred Nobel e tem alguns objectivos a cumprir. Não se rala com a opinião dos meros mortais, é preciso ser especial.

A corrida para os prémios de 2018 já começou. Podemos torcer por este ou aquele, pouco adianta. A Academia Sueca segue as suas normas e, apesar da maioria ignorar, existem candidaturas designadas por outras academias (não vinculativas) e requisitos que são inultrapassáveis. Um exemplo? Não estando traduzido para sueco, nenhum escritor(a) terá hipótese de ganhar. E não basta um livro, terão de ser dois no mínimo. No caso de Bob Dylan, que ganhou o Nobel da Literatura em 2016 por obra e graça da sua poesia, não foi preciso mais. Dois livros traduzidos para sueco e uma obra inteira que faz parte da banda sonora de muitos milhões de pessoas. Muitos ficaram boquiabertos. Poesia? Música? E isso é literatura?

O que é literatura? A pergunta impõe-se, porque anteriormente o prémio já tinha sido atribuído, em 2015, a Svetlana Alexiévitch, jornalista e escritora bielorussa. Muitas vozes identificaram a obra de Alexiévitch como jornalismo ficcional ou ficção a partir de jornalismo e a polémica durou o tempo que tinha de durar. E a literatura?

Bom, o Nobel não foi entregue a Jorge Luis Borges, a Virginia Woolf, a Marguerite Yourcenar, e por aí fora, a lista é extensa. Tem sido entregue a muitos, mesmo muitos autores, de que nunca mais ouvimos falar. Autores que ganharam o Nobel, mas não ganharam um lugar na História.

Desde 1901, o início da atribuição deste prémio, cujo valor financeiro é muito elevado e a projeção internacional é garantida, os diferentes prémios foram atribuídos 834 homens e 48 mulheres. Quando olhamos para o Nobel de Economia existe apenas uma mulher agraciada. No Nobel da Paz temos 16 mulheres e na Literatura temos 14 vencedoras (a primeira foi a sueca Selma Lagerlöf, em 1909, e a última a bielorrussa Svetlana Alexijevich, em 2015). 
A partir dos dados oficiais é possível perceber outras pérolas: 94 % dos vencedores são brancos, 88% são homens e 69% europeus. Negros e asiáticos? Representam 3% respectivamente. But who’s counting?

Discretamente, saiu a notícia de que a Academia Sueca terá pedido formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura. Assina a carta de pedido Per Wästerberg, o presidente do comité Nobel. «Em nome da Academia Sueca [...] temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018».

Perante o convite, os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram dois nomes: Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre. Ora, o eterno candidato, Lobo Antunes, não terá apreciado grandemente este gesto, mas terá de o aceitar, porventura terá sido indicado no passado. Eu fico a torcer por Agustina Bessa-Luís. A Academia Sueca irá surpreender-me decerto e o gesto será entendido, outra vez, como um “sinal de abertura”.

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jornalismo à portuguesa

por Patrícia Reis, em 18.01.18
A maioria dos jornalistas do país está nos centros urbanos e, a maior percentagem, em Lisboa. Não há nenhum problema com esta realidade, é assim há muito tempo e talvez seja o mais natural. Dito isto, os jornalistas a trabalhar em Lisboa estavam convictos de que Pedro Santana Lopes ganharia as eleições para presidente do Partido Social Democrata e foi um enorme desaire a vitória de Rui Rio.
 

O problema? Sentir o pulso do país com os dedos da capital é um erro crasso. Muitos jornalistas e fotógrafos ficaram em Lisboa e aguardaram a vitória daquele que seria, ouvi dizer amiúde por aí, um presidente do PSD que iria tornar “a cena mais divertida”. A cena é a cena política.

Um militante de Viseu conta-me que votou no Rui Rio por saber que este não se coibirá se fazer governo com o Partido Socialista e que isso é um regresso à forma antiga, antes das maiorias Cavaco e de Sócrates, e o fim da chamada geringonça.

O facto de os militantes terem trocado a volta aos jornalistas deu origem a alguns incidentes sem relevância e a perplexidade estendeu-se gloriosamente até às direcções de órgãos de comunicação social. Facto consumado, a vida anda para a frente. Há uma tragédia em Tondela e a maioria dos jornalistas a trabalhar em Lisboa interroga-se: Tondela? Perto de Coimbra? Não, distrito de Viseu. E lá vão à cata de como contar a história, tal como fizeram com Pedrogão Grande cuja localização seria, para muitos, igualmente desconhecida até aos incêndios.

Conhecemos o nosso país através da comunicação social mais generalista e com maior impacto ao nível nacional. Existem terras e terrinhas sobre as quais nunca ouvimos falar e, consequentemente, militantes de partidos vários que desconhecemos. A realidade da política é distinta.

Não é o Pacheco Pereira a pontificar na televisão ou os 30 segundos de discurso crispado na Assembleia da República. O mundo faz-se de outra forma quando é visto com olhos que não os de um lisboeta. Não é um problema do jornalismo, é um problema de todos nós.

O que consideramos normal e adequado em Lisboa pode ser o inverso para a realidade do Samouco ou de Marco de Canaveses. Os exemplos são mais do que muitos e convém não esquecer que a capital, ou o Porto, reflectem apenas os gostos e atitudes, comportamentos e vontades de uns tantos, não da totalidade.

Os jornalistas aceitaram a vitória de Rui Rio com espanto, mas já estão a organizar-se. As pessoas a norte não se surpreenderam grandemente. Santana Lopes não percebeu nada.

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Boas intenções

por Patrícia Reis, em 04.01.18
Todos os anos, faço uma lista com decisões tomadas. A cada ano que passa, a lista fica mais curta. Já percebi que posso fazer mil planos, a vida encarrega-se de os destruir e de colocar novos no meu caminho. Não tenho, por isso, desejos que cheguem para as doze passas da praxe, à meia noite de 31 para 1 de Janeiro. Vou repetindo as mesmas coisas básicas que posso resumir em saúde, amor e alegria e a coisa dá-se.
 

Dito isto, no dia 6 de Janeiro há algo que muda na minha forma de estar e estou pronta para fazer a simpatia dos Reis. Reunimos amigos à volta da mesa – a melhor forma de estar com os amigos, diria – e munidos de uma nota de cinco euros e de bagos de romã vamos dizendo e embrulhando três bagos: Melchior, Gaspar e Baltazar eis uma semente para ter e para dar.

A dita nota, no meu caso, está velha e seca, é sempre a mesma. Fica enrolada e bem apertada dentro da minha carteira durante o ano e tenho a certeza que nunca terei os 117 milhões de Cristiano Ronaldo, mas terei para ter e para dar. Todos os anos, o ritual repete-se. Depois de dobrar a nota três vezes com três bagos de romã, dou-me conta que ter e dar é apenas uma extensão do afecto gigantesco de quem partilha a mesa comigo.

Os amigos permitem-nos ter e dar. Estão cá para nós. São uma família lógica, distinta da família biológica, são a família que escolhemos.

O meu núcleo familiar é cada vez mais curto. As famílias não se praticam com os primores de outrora. No meu caso, o Natal mudou consideravelmente depois da morte do meu avô paterno que, na verdade, era um perpétuo Pai Natal, sempre de sorriso no rosto, capaz de dançar de andarilho e de não se chatear com nada. Faz falta o meu avô. Muita falta.

Contudo, olhando à minha volta, ouvindo as histórias mil vezes repetidas (amigos antigos também têm essa coisa da repetição), as gargalhadas, as exclamações de alegria e de espanto; observando a forma ternurenta como os meus amigos se abraçam, se tocam enquanto conversam, assegurando-se da importância de cada um, sei que estou bem entregue.

O meu avô apreciaria esta dádiva de amizade que me aconteceu na vida e, é claro, riria da minha lista de boas intenções. Para ele, um dia de cada vez era mais do que uma opção, era um mote. E eu, avô, estou a aprender, um dia ainda chego lá.

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Parece um guião para um filme de série B, com alegações relativas à segurança nacional, porventura envolvendo as secretas (agora dirigidas por uma mulher, saliente-se) e interesses ocultos. Não é. Trata-se tão somente de política à portuguesa, mal feita, indecorosa, ofensiva.
 

Que os partidos queiram tratar da sua existência financeira e fiscal com melhores opções não me espanta grandemente; que os partidos o façam à porta fechada, em sessões sem actas ou qualquer registo escrito (nem que seja para a posterioridade) é, no mínimo, suspeito. Nove reuniões à porta fechada decorreram entre abril e outubro deste ano. Nove reuniões, repito, para discutir, digamos, interesses próprios (fim do limite para a angariação de fundos, a possibilidade de pedir restituição do IVA pago na totalidade de aquisições de bens ou serviços, e ainda a possibilidade de pessoas singulares pagarem despesas de campanhas a título de adiantamento).

Podia ser um erro, uma inocência, mas nada disso: quando emails trocados mostram que há um encobrimento de quem propôs o quê, designando-se os partidos envolvidos pelas letras do alfabeto, pois não temos como acreditar na ingenuidade de nada, seja de ideias ou de processo.

O CDS e PAN foram os únicos partidos que não votaram a nova lei de financiamento, uma lei aprovada no dia 21 de Dezembro, vésperas de natal. Será que alguém, iluminado por luzinhas de fraca potência, pensou que a época permitiria que isto não viesse à tona? Terá sido essa a hipótese levantada naquelas cabeças, da esquerda à direita? A isto chamo eu um atestado de estupidez passado à sociedade portuguesa sem qualquer vergonha ou embaraço.

Resta-nos, portanto, que Marcelo Rebelo de Sousa leia com atenção o que é proposta de lei, perceba o processo de construção desta nova lei e faça o que é preciso ser feito: vetar a lei. Mas não pode ficar por aí. Terá de dar um puxão de orelhas a todos aqueles com assento na Assembleia da República e que dizem representar Portugal e os portugueses.

Marcelo Rebelo de Sousa redesenhou o nosso conceito de Presidência da República. Não pode ser comparado a nenhum dos presidentes anteriores. Cavaco era demasiado distante e rígido; Sampaio era diplomático e contido; Soares gostava de uma presidência inspirada na realeza e por aí fora. Marcelo Rebelo de Sousa apostou nas pessoas, na proximidade, na humanidade. Dizem que é o Presidente dos afectos e que está em todo o lado.

No caso desta lei de financiamento dos partidos e devolução do IVA, o Presidente terá de esquecer os afectos e tratar os partidos como merecem, alunos armados em espertos que não cumpriram com as regras de transparência que o exercício das suas funções obriga. Não deverá ser apenas uma reprimenda, terá de ser uma valente reprimenda. Não só porque a nova lei levanta questões variadas sobre as quais o Presidente tem uma opinião formada e conhecida (Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto líder do PSD, considerava que os partidos deveriam ser financiados pelo Estado na totalidade, retirando empresas e pessoas individuais do processo), mas sobretudo por ser evidente que em democracia não se aprovam leis desta forma.

No presente caso, espero que se recorde vivamente da sua profissão de professor e tenha a capacidade de dizer aos partidos o que é preciso ser dito: não brinquem com o poder que têm, sff.

 

P.S.: Como bom professor, Marcelo Rebelo de Sousa dá oito dias aos partidos para voltar atrás com a lei do financiamento. Resta saber se os “alunos” merecem ou estão ao nível.

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o moralismo que vai matar o consolo e o sexo

por Patrícia Reis, em 20.12.17
Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Até a pergunta é perigosa de se fazer nos tempos que correm.
 

Ando a combater com esta mania de querer dizer as coisas como as penso em vez de as dizer dentro de uma forma que se pode classificar, nos dias que correm, como “politicamente correcta”. Sou acusada de ser frontal e bruta muitas vezes, é um karma como outro qualquer, assim fico com a fama e o proveito. O que me atormenta é o moralismo em que vivemos. Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Não, esta não é uma crónica sobre o Kevin Spacey, o Harvey Weinstein e afins. Nada disso. O que me preocupa é uma situação como esta que passo a descrever.

Na sala de aula de uma universidade decorre, num silêncio perturbado pelo choro, um exame. O professor, constrangido, aflito com a aflição da aluna, aproxima-se da mesa da rapariga e pergunta, em sotto voce, se há algum problema (bom, é evidente que há!), e a estudante continua a soluçar. O professor pede para o acompanhar e saem da sala, com o objectivo de não perturbar o resto da turma.

A rapariga lá começa a desbobinar o filme trágico que é a sua existência, perdeu o emprego, as chaves de casa, o gato teve um ataque cardíaco e mais não sei quantas coisas deprimentes e avassaladores que podem ocorrer na vida das pessoas. Está um caco. O professor tenta o consolo e uma solução: “Bom, nesse caso, se não está em condições de fazer o exame, o melhor será fazer na amanhã na outra turma...”.

A moça continua em prantos, são sete da tarde, a universidade não está a borbulhar de gente, não há testemunhos deste encontro, e o professor consola a aluna, coloca-lhe (ó meu Deus!) uma mão no ombro. Lá se consegue chegar a uma certa calma, regressam à sala de aula e a aluna recupera forças e ânimo e faz o exame. O professor conta este episódio a outros professores que o olham chocado: tu tocaste numa aluna sem testemunhas? Tu sabes que isso agora é assédio?

É triste que gestos de consolo possam ser confundidos desta forma, ou não é? Eu acho que é. Se tocar nas pessoas começa a ser pretexto para uma acusação, vamos viver amarrados, contidos, vigilantes uns dos outros e, pior ainda, vamos condenar as próximas gerações a terem uma sexualidade muito infeliz. Sim, a sexualidade deve ser vivida de forma saudável, de acordo, mas com tanto fiscalismo agora temos de perguntar: posso tocar-te? Posso beijar-te? Posso colocar a mão no teu corpo? É isto que os jovens devem fazer uns com os outros, para que estejam isentos dessa coisa perigosa que é a acusação?

Se assim é, só posso dizer uma coisa: ainda bem que nasci em 1970. O que sinto é um retrocesso civilizacional em termos de comportamento, uma obsessão pela vigilância, um discurso pelo politicamente correcto que cai constantemente num moralismo que ninguém sabe quem define ou comanda. Será isto saudável?

Uma coisa é certa, este professor nunca mais consolará aluna alguma. E os meus afilhados mais novos, quando chegarem à adolescência, e se questionarem sobre o seu próprio corpo e o dos outros ou outras, terão de fazer um percurso deveras complicado e, antevejo, perigoso.

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"Minha querida" juíza

por Patrícia Reis, em 15.12.17
Então, analisemos de forma muito simplista: se a juíza diz “Professor” para se dirigir a Manuel Maria Carrilho e opta pelo “Bárbara” ou "minha querida" para falar com a apresentadora de televisão Bárbara Guimarães, isso é ...? Não é normal.
 

A notícia de que Manuel Maria Carrilho foi ilibado no processo de violência doméstica do qual é acusado pela ex-mulher foi um vento mau que apareceu hoje de manhã. Não consigo entender várias coisas, mas há uma que me espanta mais do que qualquer outra: uma juíza que Bárbara Guimarães considerava incapaz de imparcialidade e tendo, por isso, pedido a sua escusa, mantém-se no caso e é capaz de dizer coisas como: “Causa-me alguma impressão a atitude de algumas mulheres." A mim também, sobretudo se são juízes.

A lei não confere poder a uma juíza para proferir semelhante frase e as implicações que possam ter, em especial junto da opinião pública. Ainda há quem venere os juízes com o mesmo fervor com que em outros tempos se venerava a opinião do padre ou do médico. Vivemos numa aldeia global, bem sei, mas os juízes deveriam perceber que existem limites e deveriam ter em conta que observações sobre o carácter das pessoas não são do seu pelouro.

No caso presente, seria ainda de ter em conta o vasto curriculum do acusado, com um conjunto de processos perdidos, de multas aplicadas, e ainda com uma constante presença nos meios de comunicação social a difamar a ex-mulher e familiares.

Bárbara Guimarães manteve uma elegância ímpar e tem sido enxovalhada da pior maneira. Sobre isto a juíza não tem nada a dizer? Tem, pois, tem para dizer uma pérola que, espero, possa ser analisada em aulas no Centro de Estudos Judiciários ou objecto de processo no Conselho Superior de Magistratura. Diz a juíza, Joana Ferrer de seu nome, que Bárbara Guimarães é uma mulher determinada e auto-suficiente do ponto de vista financeiro, que deveria ter ido ao Instituto de Medicina Legal mostrar como foi vítima de maus tratos.

Portanto, posso concluir que para esta espécie de juiz, garante da boa manutenção de uma sociedade, todas as vítimas de abuso estão a correr para o dito Instituto. Nunca leu, coitada, nada sobre o perfil psicológico de vítimas de abuso. Deveria ler. É pena que a justiça não sirva para ser justa. Mas, lá estamos, um é um professor e a outra é apenas a Bárbara.

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Não acontece só aos outros

por Patrícia Reis, em 15.12.17

A reedição do livro de Maria Antónia Palla, "Só acontece aos outros - histórias de violência" é uma radiografia de uma sociedade portuguesa que, afinal, em 40 e tal anos pouco ou nada mudou. Lançado há uma semana, pela novíssima editora Sibila da escritora Inês Pedrosa, este livro de Maria Antónia Palla tem agora uma segunda vida e permite que qualquer leitor possa descobrir uma grande jornalista através das reportagens que fez ao longo da sua vida. São peças de antologia, como descreve a editora, mas são também uma radiografia da sociedade portuguesa, que mudou muito e mudou quase nada. As reportagens de Maria Antónia Palla descrevem situações que ainda hoje perduram, violências sucessivas com crianças, mulheres e idosos. Histórias portugueses, muitas delas escritas na década de 70, algumas antes do 25 de Abril, espelham a vida de certas pessoas e de como a dor, a desilusão, a fraqueza ou o heroísmo podem ser, demasiadas vezes, penalizadoras. Uma menina que aparece morta; uma anciã violada por um jovem; ex-amantes que combinam espancar e torturar a mulher com quem andaram; uma mulher mata o filho recém-nascido; um rapaz português aparece morto numa cadeia espanhola; uma mulher, cansada de maus tratos, envenena o marido. Estas são algumas das histórias reais que serviram de mote para a investigação da jornalista Maria Antónia Palla. No prefácio, Helena Matos, também ela jornalista, escreve que este livro “mostra-nos como para lá da espuma do que enche as primeiras páginas dos jornais – os planos salvíficos para o país, as declarações dos governantes, os programas que vão resolver definitivamente os problemas inadiáveis [...] – estava e está a vida das pessoas. Porque a Maria Antónia, acima de tudo, conta-nos as pessoas”. O livro, há tanto esgotado, é agora reeditado com a inclusão de duas reportagens inéditas, uma delas escrita na década de 80 do século passado e outra já este ano. Comprova-se assim que a jornalista, de 83 anos de idade, mantém o seu interesse contínuo na sociedade portuguesa. Na biografia "Viver pela Liberdade" (edições Matéria-Prima), Maria Antónia explica-se com facilidade: uma vez jornalista, para sempre jornalista. E é essa forma de olhar o mundo que lhe permitiu, em 2017, voltar à reportagem, desta vez para abordar a questão da adopção e das instituições de acolhimento. Existem milhares de crianças nas instituições, abandonadas, retiradas à família. O mundo da adopção é visto agora por Maria Antónia Palla numa reportagem única, na qual não pretende atingir qualquer imparcialidade, já que não considera possível que um jornalista envolvido nas coisas do mundo possa ser imparcial. O facto de permanecer activa e sempre jornalista, confere a Maria Antónia Palla um olhar sobre o Outro que é raro, que é coincidente com o jornalismo que aprecia: aquele que implica pesquisar, ouvir, estar atenta. As histórias sobre as quais escreve são fortes e são, apesar de terem um tempo cronológico de escrita, intemporais. Infelizmente, a violência permanece mesmo que possamos nomear um certo avanço civilizacional. “Nem toda a mudança dependeu da vontade de mudar. E essa vontade, quando existiu, ficou muitas vezes aquém da necessidade, em particular no que se refere às mulheres, aos jovens e às crianças. Faltou à 'revolução' o rasgo de inventar o futuro. A voz do cidadão comum permanece silenciada. A dor da gente não chega aos jornais, o diz o poeta na canção”, escreve a jornalista.

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quer saber a dieta da Adele?

por Patrícia Reis, em 06.12.17
Se é mulher, de qualquer idade, provavelmente quer. Se tem mais de 40, a probabilidade de querer é ainda maior. E porque todas-temos-de-ser-magras, há publicidade a receitas milagrosas a cada esquina das redes sociais - e parece que é tudo normal.
 

Então, a coisa dá-se. Chegamos aos 40 anos de idade e cada quilo que engordamos chega, generoso, com a família mais chegada, pai, mãe, filhos, instala-se naquilo a que a minha mãe designa como a faixa de Gaza, barriga, coxas, peito, cara, rabo. É um quilo, nada de grave. Vamos suar as estopinhas e caminhar ou frequentar o último ginásio genial com uma estratégia complexa e milagrosa. Sabemos, por termos a idade que temos, que estamos a viver uma ilusão.

Depois fazemos 45 anos de idade. A coisa piora um bocadinho – a vários níveis – e ver as revistas de moda só pode ser um exercício que se faz com descontração, cientes de que ninguém tem corpos assim, pelo menos ninguém feliz, a comer um bom queijo alentejano e a beber um copo de vinho tinto. Os nossos quilos a mais são nossos, logo não faz qualquer diferença a nossa melhor amiga ou a senhora a lavar a cabeça na calha ao lado no cabeleireiro, dizerem: ah, que disparate, estás óptima. Se uma pessoa sabe que já não entra numas calças 36, pois não entra numas calças 36 e já entrou, não há conversa.

Pessoalmente, aos 47 anos, não me posso queixar, admito. Vivo bem com o corpo que tenho, mesmo que me possa atraiçoar aqui e ali, e não vista um 36. O pior é a perpetuação do fascínio com a magreza e com as dietas mais estrambólicas. Como estamos todos dominados pelas redes sociais – eu só conheço duas pessoas que não têm facebook e uma delas é a minha avó – somos bombardeados com as informações mais diversas, basta serem publicações patrocinadas e nas quais nós nos inserimos, ou seja, fazemos parte do grupo alvo: mulheres, entre os 35 e os 55.

E estas publicações repetem-se todas as semanas e, todas as semanas, me perguntam: Sabe como Adele emagreceu? Veja como Julia Roberts se mantém. E por aí fora. Tudo isto com as fotografias das senhoras cuja imagem e nome é usado e abusado para vender uns comprimidos ( à base de umas plantas de que eu nunca ouvi falar, mas eu não sou especialista em plantas), que só se vendem online, e nesta semana, maravilhoso!, em promoção, encomende já, estamos com 30% de desconto.

Nada disto é bom, já se sabe, e há quem vá cair na canção do bandido por acreditar que a Adele ou Angelina Jolie (que está claramente feia de magra na minha opinião, mas isso agora não interessa nada) tomou aquelas coisas à base de Hoodia Gordonii ou Garcinia ou outra coisa qualquer que, afinal, depois de tudo, porque carga de água é que não se experimenta mais uma coisa? Depois da dieta do paleolítico, da dieta das maçãs, da dieta com produtos que parecem comida de astronauta, pois vamos lá experimentar estes comprimidos.

Esta semana atingimos o pináculo da perfeição, para citar Miguel Araújo, com um post patrocinado que anuncia uma dieta que não se deve fazer porque emagrece de imediato. Carregando então no botão que diz saber mais, fico eu, pobre alma inocente, horrorizada com a venda de outros comprimidos, que está provado que emagrecem de um dia para o outro, mas que os nutricionistas não recomendam. Mostram imagens do antes e depois que, para sermos honestos, são imagens da senhora A e da senhora B, nunca a senhora B podia ser o depois da senhora A pela simples razão que não são a mesma pessoa. O texto e as imagens mostram que é possível emagrecer num ápice, mas não o façam. É uma forma doentia de promover uns comprimidos (esta coisa dos comprimidos é uma mania?) que, no desespero, alguém menos sensato pode encomendar. Porventura com promoção especial desta semana.

Eu denunciei este post, um post patrocinado, algo que alimenta financeiramente o senhor Mark Zuckerberg e esta invenção extraordinária que une a aldeia global. Não sei se terei alguma sorte com a minha denúncia, o mais certo é ver isto outra vez daqui a duas semanas. O pior de tudo, penso eu que tenho sobrinhas a sair da adolescência, raparigas que vêem as tais revistas de moda e atrizes perfeitas em filmes românticos que Hollywood fazia na temporada antes-do-assédio-ser-assunto, são as jovens com problemas de peso que vão cair nesta esparrela.

Moral e eticamente, o senhor Mark Zuckerberg não deveria aceitar estas coisas, mesmo que lhe dê mais uns trocos. O mesmo tipo de posts é colocado no Instagram, criado pelo senhor Mike Krieger, com promessas de dietas milagrosas que vão mudar a vida de quem quer perder peso. Querer perder peso é, muitas vezes, uma questão estética, muitas vezes de saúde e bem estar e implica necessariamente com a auto-estima das pessoas. Não deveria ser possível enganar as pessoas deste modo. Dirão que só é enganado quem quer. Será?

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frames da vida

por Patrícia Reis, em 25.11.17

O Pedro a cortar um texto na Grafinova, em pé, com o x-acto na mão, concentrado. Foi a primeira vez que o vi, fazia ele parte daquele grupo especial do Caderno 3 de O Independente.

Não nos tornámos amigos com rapidez, eu era apenas a estagiária. Foi o tempo. Pedimos desculpa um ao outro num certo almoço de bacalhau num restaurante de que o Pedro gostava em especial.

Rimos os dois às gargalhadas com recordações da vida amorosa de cada um de nós.

Mostrámos o orgulho devido com as conquistas dos nossos filhos, filhos com Maria no nome.

E depois pequenos frames da vida.

O Pedro a discutir músicas com o João Gobern.

O Pedro abraçado à Cila. À Ana Teresa. À Margarida.

O Pedro sério. Na televisão, na rádio, por escrito.

O Pedro com a Helena a rirem os dois, a grupeta reunida, num jantar ali ao lado, num restaurante, e eu a invejar tanta partilha e alegria.

Bolas, Pedro, podias ter avisado que isto ia ser tão curto. Podíamos ter feito aquela coisa estranha para a Egoísta, ou aquela proposta igualmente estranha a uma fundação.

Podíamos ter feito tanto, e agora não há tempo. Tu fizeste muito e quem te conheceu só pode mesmo chorar-te. Desculpa se não te respondi com mais pressa, desculpa se a vida nos atrapalhou em algum momento.

Agora resta-me dizer, até já. Ficamos mais pobres sem ti.

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querido, mudei a casa

por Patrícia Reis, em 16.11.17
Na secretaria da existência surgem coisas distintas, pois ele é impostos, modelos com nomes estranhos para preencher, dados que nos solicitam a todas as horas e em todos os sítios, assinamos de cruz, dizemos que aceitamos as condições e seja o que Deus quiser. Despachar.
 

De repente, quando é preciso fazer obras, a vida muda totalmente. Ao fim de dois meses fora de casa, regresso com alguma melancolia e apreensão. Estava eu cheia de energia para limpar e arrumar, abrir caixotes, seleccionar e mandar para o lixo, quando percebi que, afinal, ainda não está bem tudo pronto. Portanto, tenho de esperar para tirar as coisas do caixote. E não posso usar a cozinha. Apenas o frigorífico. Um dia, talvez, consiga usar o resto.

Há pó laranja por todo o lado (já disse que a cozinha está laranja? Pois, mas, por favor, não tirem conclusões políticas desta opção estética!), uma penumbra de pó acinzentado que cobre tudo e vários sacos com ferramentas diversas, algumas com aspecto terrífico, outras simplesmente incompreensíveis, há garrafas de água e papelões, cartões e plásticos.

Tudo se atrasa, obras são uma loucura, tu não te metas nisso. Ouvi eu estes meses, já com a obra começada e, consequentemente, sem hipótese de desistir. E uma cozinha parte-se num instante, fica mesmo como um cenário de guerra em meia dúzia de horas, o pior é a reconstrução. Para colocar armários e pedra, cubas e máquinas, ah, isso é todo um processo estranho e estamos sempre quase, mas falta o quase e o quase é avassalador. A vida é dominada pelo quase.

E o que dizer daquele dia em que se visita a obra e – surpresa! – não há lugar para a máquina da roupa? A solução é simples, parte-se um pouco aqui, um pouco ali, e o quase foi-se.

O desespero é de tal ordem que considero nunca mais desencaixotar seja o que for. Quando isto terminar, vou deixar a cozinha impecável, super limpa, com os mega armários vazios por incapacidade de os encher. A minha cozinha cabe em trinta caixotes, a minha cozinha não tem 15 metros quadrados, nós acumulamos tanto que é quase anedótico.

Espreitando para dentro de um caixote descubro uma coisa verde de plástico que não sei para que serve. Do outro lado, está um livro de cozinha, em mandarim, oferta de uma amiga cheia de graça e boa disposição. Que grande chuto na tola! E ainda não sei qual é a conta final desta magna obra, mas não digam à minha mãe que ela é capaz de ter um ataque e deserdar-me (ela tem uns tachos de cobre maravilhosos que cobiço há anos, mas que nunca caberão no paraíso reformulado que é a minha bela-quase-cozinha-laranja). Para quê pensar no que isto vai custar? Prefiro admirar a minha existência e abrir uma pilha de correio.

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prostituta por acaso

por Patrícia Reis, em 14.11.17
Diferentes religiões cristãs insurgiram-se publicamente. O uso indevido da Bíblia e das suas narrativas para cumprir acórdãos de justiça é, no mínimo, um abuso.
 

Volto ao caso do acórdão do Tribunal da Relação do Porto sobre a mulher violentada pelo amante e pelo marido. O entendimento radical que se pode fazer da Bíblia é também algo que está datado. Estamos numa outra era. Entendemos melhor a Bíblia, as questões dramáticas da tradução, das diversas traduções (excelente trabalho de Frederico Lourenço, acaba de sair o terceiro volume da sua tradução a partir dos textos gregos). Sabemos hoje factos históricos que colocam em causa muito do que tomámos por certo ao longo de séculos.

A iniciativa de reunir várias vozes de líderes cristãos partiu da academia, da Universidade Lusófona, onde existe um mestrado - há 20 anos – dedicado às Ciências da Religião. O mestrado é um espaço de aprendizagem e de estudo, de partilha e aquisição de conhecimento e, nessa perspectiva, inscrevi-me há um ano e pouco, tendo cumprido os dois primeiros semestres. Aprendi muito, li o que de outra forma não leria, reanalisei os meus mitos, conferi histórias e, sobretudo, entendi a enorme importância da religião na história da Humanidade, mesmo para quem se diz ateu ou agnóstico. Porque a religião não é exclusivo do intelecto, é da dimensão do emocional.

Eli Wiesel, ele que recebeu o prémio Nobel da Paz, escreveu: “Podemos não ser a favor de Deus ou contra Deus, mas não podemos ser sem Deus”.

Ora, a Bíblia, que reúne textos importantes para as três religiões monoteístas, nunca foi a melhor plataforma para ajudar a causa das mulheres. Pelo contrário. Mas existem crenças colectivas extraordinárias que não correspondem à verdade e uma delas, exemplo máximo de como um texto sagrado pode ser desvirtuado e usado para manipular as mentes, é a questão de Maria Madalena.

Se perguntarmos,  numa sala cheia de pessoas de diferentes proveniências e condições sócio-económicas, qual a profissão de Maria Madalena, a resposta é: prostituta. Não há qualquer dúvida sobre esta matéria, é fazer o teste. Eu fiz, este ano, na feira do livro do Porto, numa conversa com José Luís Peixoto sobre o Sagrado e o Profano.

Ora, não há nada da Bíblia que nos indique claramente que esta mulher exercia a mais velha profissão do mundo. Nenhum versículo, nenhum evangelho. Há uma mulher, Maria Madalena, liberta de demónios (Lucas 8:2) que podem ser interpretados de várias formas; que acompanha Jesus, que esteve perto da cruz (Mateus 27.56; Marcos 15.40; Jo 19.25), que pode ser entendida como discípula até por ser aquela a quem Jesus aparece depois de ressuscitar (Mateus 28.9; Marcos 16.9; Jo 20.11-18).

Para o comum dos mortais, em Portugal ou em outro país, em pleno século XXI, Maria Madalena era uma prostituta. Porquê? A Igreja encarregou-se de dividir as mulheres em três figuras centrais: Eva, a tentadora demoníaca; Maria, a mãe silenciosa e cumpridora; Madalena, a devassa. Esta construção foi feita pelos homens e a virtude de Maria Madalena foi violada e vilipendiada ao longo dos tempos por causa de um papa: Gregório ( 540-604 d.C), que achou por bem afirmar que sabia de fonte segura que a senhora, afinal, era uma prostituta. E até hoje, o mito mantém-se.

Não é só errado invocar os textos sagrados e a religião, com o seu manancial de subjectividade e contexto histórico tantas vezes perdido, para reclamar boas acções ao nível da prática da Justiça, como  também  é terrível perceber que os homens o fazem há séculos e séculos e as maiores vítimas são sempre as mulheres.

Por isso, esta iniciativa do departamento de Ciências da Religião da Universidade Lusófona não é de somenos, é uma grande conquista. São as religiões de inspiração cristã em defesa das mulheres. Este gesto que, para muitos, pode ser simbólico, é uma porta que se abre com a força de uma ventania a que podemos chamar justiça.

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Essa mulher somos nós

por Patrícia Reis, em 31.10.17
O Conselho Superior da Magistratura portuguesa pronunciar-se-á no dia 7 de Dezembro do ano da graça de 2017.
 

Só nesse dia, véspera do antigo dia da mãe (quando estas coisas eram programadas por questões teológicas e não comerciais), é que os senhores podem avaliar a conduta do juiz desembargador Neto de Moura e da senhora juíza desembargadora que deveria ser destituída de funções no momento exacto em que diz que, enfim, isto é uma maçada, mas eu só li na diagonal.

Eu conheço muita gente que só leu na diagonal o código da estrada e foi penalizada por isso. Ainda bem.

Conheço muita gente que não leu o código deontológico do jornalismo mas passa a vida a mastigá-lo como se fosse pastilha Gorila e a fazer balões para que o mundo possa reparar em tanta sapiência.

O que eu não conheço é alguém que venha dizer: meus senhores, o que aconteceu no Tribunal da Relação do Porto é infame, indigno da profissão que exercem, portanto tomem lá com a devida punição.

Não, vamos esperar até dia 7 de Dezembro, dia em que pode chover ou fazer sol, e até lá, enfim, são tantos dias, existirão outras mulheres que podem ser vítimas de violência e acusadas a partir da lógica da Bíblia ou de uma lei de há um milhão de anos.

Que importância é que isto tem? Tem muita. Tem mais importância, por exemplo, do que discutir na televisão, durante duas horas!, a entrevista do primeiro ministro que durou meia hora. Dirão que exagero, pois talvez. Para mim tem mais importância por saber que a questão das mulheres parece ser apenas um rolo de tinta que sobe e desce e nada acrescenta, uma coisa cansativa, mas o que querem?, dá-me para aqui.

Essa Mulher Somos Nós é o nome da petição que circula para que possamos mudar a Justiça e a forma como a Justiça é praticada em Portugal no que toca às mulheres. Porque a pergunta é: quem fiscaliza os juízes? São os tais senhores que se vão pronunciar no dia 7 de Dezembro? E quem fiscaliza esses? A petição visa repor a justiça e entender se é possível ultrapassar este estado de graça de impunidade que alguns juízes parecem gozar com um à-vontade ofensivo. Eu assinei, porque também sou esta mulher, esta vítima. E vocês?

 

P.S. - The Guardian e o The Independent já fizeram uma notícia sobre este caso. Ficámos bem no retrato, como podem imaginar.

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Mulheres portuguesas, deixai hoje de trabalhar

por Patrícia Reis, em 15.10.17
Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.


Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.

As mulheres, ao longo da História, tiveram de cumprir apenas duas quotas: ou são umas Evas – logo demoníacas e tentadoras, perversas e afins – ou são Marias – a mãe, beatificada e calma, sempre cumprindo a tradição e, acima de tudo, o silêncio. Desde o chamado pecado original que temos esta avaliação extrema das mulheres seja em que situação for.

No caso dos ordenados ou promoção nas carreiras, andámos muito, conseguimos muito, mas falta bastante para chegar à famosa e pouco cumprida paridade.

O Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social aponta como diferença ao nível dos salários dos tais 21,8% (dados de 2016) e releva que 28,9% das mulheres recebem o ordenado mínimo nacional. O mesmo ordenado mínimo vai para 18,5% dos homens.

Como combater esta desigualdade? Mantendo ferozmente a convicção de que os direitos são iguais. Por favor, não me falem em mérito.

As mulheres portuguesas trabalham muito. Todas as mulheres trabalham muito, dirão. Sim. A tradição pesa e a cultura também. E, se existem filhos, cabe por regra à mulher tratar dos infantes, da casa, dos mais velhos, desdobrar-se. Considerando que esta situação, em pleno século XXI, parece perpetuar-se, talvez seja mesmo bom irmos para casa fazer o que nos apetece, ou passear, já que para muitas de nós o que fazemos não vale o mesmo do que aquilo que é feito por homem.

Depois dizem-me que ser feminista é uma coisa datada? Tenham paciência.

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Cortar os pulsos

por Patrícia Reis, em 24.09.17

Viver numa aldeia às portas de Lisboa durante o verão é bom. Fugir para uma aldeia às portas de Lisboa num fim de semana de inverno é bom. O pior mesmo é ir e vir todos os dias para uma aldeia às portas de Lisboa.

 

Por razões que agora não interessam para nada, vim viver para uma aldeia, na margem sul, a 40 minutos de Lisboa. Não vim de férias, nada disso, vim para estar e viver até Lisboa me ter de volta, que é como quem diz, até voltar a ter casa digna desse nome.

Eu nasci em Lisboa, sempre vivi em Lisboa e, como todas as pessoas das grandes cidades, tenho da aldeia a ideia idílica que me ajuda a pensar que, um dia, sabe-se lá quando, vou conseguir reformar-me (só esta afirmação dá logo vontade de rir) e viver num sítio mais tranquilo.

Estou na aldeia e a cortar os pulsos.

Sim, adoro aqui estar no pique do verão, quando a animação é mais que muita – numa única rua temos dois bares e um salão de jogos, é uma festa –, quando o peixe ainda chega vivo à peixaria, as pessoas acotovelam-se para comer gelados e temos um território bem demarcado na praia do costume.

Ou então, em pleno inverno, de lareira acesa, sem sair de casa, vivendo na ilusão de que o descanso se pode fazer num único fim de semana.

Tudo isso está muito bem, mas experimentem ter de passar a ponte (25 de Abril ou Vasco da Gama) todos os dias. Façam contas: quilómetros de gasolina, portagens, minutos perdidos no pára-arranca.

Sim, estou a queixar-me e algum de vós estará a pensar por que carga de água é que não vais de transportes públicos, certo? Pois, quem tem uma vida profissional como a minha dificilmente se adapta aos transportes públicos, porque às dez da manhã é preciso estar em Queluz, às duas da tarde no Saldanha e às quatro em Cascais.

Não será todos os dias, mas a verdade é que ando de um lado para o outro como os pombos andam por aí a conspurcar estátuas. Não tenho onde pousar verdadeiramente, não tenho um emprego das nove às seis. Portanto, a única solução é esta: ir e vir. E o que é agradável e quase consolador nas férias é agora uma tortura. A mercearia está fechada por estes dias. A gasolina acabou? Bom, talvez a bomba a três quilómetros de distância esteja aberta. Não sabes como atinar com o forno a gás ou ficaste sem gás? Respira fundo.

Depois deste desabafo, posso dizer que existem coisas boas: o café onde nos tratam como se fossemos realeza, o restaurante maravilhoso dos amigos que se mantém aberto já em modo fim de verão, a tabacaria onde os jornais podem ser guardados para quem ainda lê jornais em papel (eu!), o silêncio imprescindível, e quase estranho, dos carros que não passam, dos autocarros que não travam. Enfim. Por estes dias, viver na aldeia e trabalhar em Lisboa é um sacrifício. E ainda não fez um mês que aqui estou. Já disse que estou a cortar os pulsos?

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Para acabar de vez com a democracia

por Patrícia Reis, em 16.09.17

Em vésperas de eleições é muito fixe conspirar e mandar bitaites como se isto fosse, o que parece ser tantas vezes, a República das Bananas.

 

Eu tenho amigos de direita. Tenho um filho de direita. Não tenho nada contra quem segue esta linha política, mas tenho tudo contra a politiquice da treta. Temos para todos os gostos: se o/a candidato/a comprou uma casa é por ter comprado uma casa; se o/a candidato/a sabe fazer contas é por sabe fazer contas; e por aí fora.

Mas também temos este registo à esquerda. Não tenho a menor paciência para o argumento de que alguém não tem como governar uma cidade por não saber quanto custa um bilhete de metro (que não é uma empresa municipal, a última vez que verifiquei, e existem múltiplos tarifários).

Ataques e mais ataques, sem grande mérito para quem os começa, sem grande mérito para quem os decide combater. Na verdade, trata-se da canseira habitual em vésperas de eleições e que tem o condão de comover muito pouco o eleitor que estará entretido com o último reality show ou com a bola (talvez possamos inverter isto, porque a bola é evidentemente quem mais ordena).

Portanto, grande parte do debate político é entre políticos e os políticos, já se sabe, alimentam-se disto como os pombos no Chiado se alimentam de qualquer coisa que caía das mãos dos turistas ou dos locais.

Ideias? Ouço nos debates entre candidatos que existem ideias e estratégias, mas não há – quase nunca – um esmiuçar das mesmas. Para ver se eu, e qualquer outro eleitor, concordamos com as mesmas, e se apostamos no senhor ou senhora A por ter um plano com o qual possamos concordar. Não, nada disso. Temos umas coisas a que chamamos debates, temos os habituais com engajamento político e com palas nos olhos e pouco ou nada passa disto.

Acresce ainda que a direita tem feito um pobre serviço à democracia, por não ter candidatos que sejam – vá, vou ser querida e fofa - carismáticos. Não, a direita tem candidatos que são “mais ou menos”, são os “possíveis”, o que é preocupante porque fragiliza o processo democrático e a possibilidade de qualquer debate. Como o primeiro-ministro carrega no bolso das calças as duas esquerdas que podiam fazer alguma oposição, o cidadão que seja como eu, esperaria da direita mais política e menos politiquice. Não acontece.

O que é mesmo bom é fazer alvo aos patos, tiro para aqui, para acolá e a grande máquina do mais-do-mesmo vai rolando.

A minha fé na política é cada vez menor e, tenho cá para mim, estou cada vez menos sozinha nesta convicção. Por outro lado, espanta-me que existam pessoas que ainda queiram servir o país ou exercer qualquer tipo de serviço público, porque o escrutínio é absurdo, a maldade e a deficiência de alguns jornalistas é crónica e, por fim, nem sequer é bem pago.

Talvez eu esteja errada, pode sempre acontecer, mas temo muito pelo futuro da nossa democracia que, afinal, ainda nem tem 50 anos.

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erotismo 0 - tecnologia 2

por Patrícia Reis, em 21.08.17

Há uns anos, Agustina Bessa-Luís revelou, numa crónica de jornal, que nada é mais anti-erótico do que a praia, a praia onde metade do país se encontra de momento. Também escreveu, numa outra circunstância, que uma mulher para parecer inteligente só precisa de usar um vestido preto e ficar calada. É uma ironia, e é uma verdade, se considerarmos o quadro mental. Mas não vamos por aí.

 

O calor faz-se sentir e eis-nos na praia, esse cenário de tristes paisagens em que estamos no nosso melhor ou nosso pior. O tal anti-erotismo prevalece.

À minha volta, no fim de semana de dolce fare niente, vejo famílias ruidosas, os gestos do costume - "Pedro, vem aqui já, não te chamo outra vez"; "Maria, tens de meter protector", "Tens sandes, come uma sandes, já comeste um gelado" - e um outro que é perturbador, embora comum e, portanto, expectável: poucos livros protegidos por leitores ávidos de uma boa história (eu terminei o romance de Paul Auster, 4,3,2,1, que recomendo, embora possa compreender que o número de páginas assuste os menos experientes), jornais por ler encostados a mochilas e sacolas da moda e, pois claro, muitos telemóveis a emitir a luz da salvação e eternidade.

Para quê falarmos se posso estar no Facebook? Recordo-me das grandes conversas na praia, jovens em bando, partilhando histórias, reclamando levemente do horror que foi a escola, sem querer falar disso; piscadelas, início de namoros, jogos e cartas. A sedução fazia parte do verão e o tal anti-erotismo de Agustina ainda não me tinha assaltado como uma verdade fatal, ou seja, não tinha dois filhos, não passara a barreira dos 45 anos de idade.

Tudo era uma festa e conhecer pessoas novas uma promessa de verão que se cumpria religiosamente, alguém que trazia uma prima que vivia no interior do país; um melhor amigo de há dois meses.

Agora, depois de pousar o livro, de ter lido os jornais e as revistas, a esconder-me na sombra desde as onze da manhã - aguentando heroicamente até às seis da tarde por amor, e só mesmo por amor -, eis que percebo que não são apenas os corpos que se degradam com o tempo. É o tempo que nos traz a tecnologia para dentro da vida, mesmo com água e areia, e não há espaço para conversas.

Foi-se a sedução. Não há nenhum bando na praia de adolescentes à espera de crescer mais em dois meses do que em um ano lectivo intenso: há telemóveis para todos os gostos. E, sim, corpos massacrados por essa realidade básica: com a idade vem o peso e cada quilo traz uma família inteira com ele, avó, tia, primo, e custa muito mais a perder esses excessos, ocupantes indesejados.

Porque não lemos, não conversamos, não andamos em grupo, mas, caramba, temos de comer uma bola de berlim.

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Eles têm as costas largas

por Patrícia Reis, em 02.08.17

As generalizações são tramadas, mas — tendo consciência ou nem por isso — mantemos essa necessidade de assumir o rótulo, de catalogar, de definir em bando para concluirmos coisas, em teoria, pertinentes e que devem algo à inteligência.

 

Os portugueses assumiram há muito tempo que existe essa figura de papão que os trama e designam o mesmo bicho mau e careca de uma forma quase incolor: eles.

Eles comem tudo e não deixam nada, pois lá diz a canção. O drama é que o Eles — vamos colocar em maiúscula para lhes dar um pouco mais de corpo, solidez, pertinência — não existem enquanto criaturas reais que tomam decisões. São apenas os que prejudicam, os que nos tiram os dias de sol, os que falharam, os que podiam ter feito melhor, mas  que não fizeram porque nunca fazem. Quase como uma versão castigadora da professora de matemática que prolonga o tempo de aula para massacrar os alunos que anseiam pela aula de português. Ou como uma entidade que procura vingar-se da Humanidade e que tem um desígnio maléfico que nos inflige um fado que, afinal, é apenas um fardo.

Seja qual for a metáfora usada, uma coisa é certa: a culpa é toda Deles. E Eles não se acusam, por não ser nomeados, e quando o são, já se sabe, estão no governo ou no partido A ou B.

Prezamos a democracia, já cá andamos há uns anos e sabemos que é  infinitamente melhor do que tínhamos antes da revolução dos cravos em 1974, mas será que ainda sabemos apreciar o sabor dessa democracia e a valorizar a importância do debate público?

Ah, Eles tratam, mesmo mal, resolvem, pensam e fazem com que a máquina se tenha instalado, criado raízes e se mantenha no seu movimento perpétuo. Ora, Eles, sejam lá quem forem, podem muito, têm as costas largas e não se importam com as críticas.

Alguns fazem parte dessa massa anónima do Eles há tanto tempo que encaram as críticas com a placidez com que algumas pessoas vivem uma hora de boca aberta para desvitalizar um dente. Não se importam nada com as críticas, as queixas, os comentários de fel nas redes sociais, os factos, isto ou aquilo. E estão instalados a ver a paisagem e a dormir sossegados porque são Eles e sendo Eles não são como Nós, os deste lado que, apesar da queixa, não queremos ir para ali.

Eu, para a política? Eu, ter de votar? Eu, ter de perceber a função exacta de um vereador, deputado, ministro? Eles comem tudo e não deixam nada, têm o poder.

O Nós não entendeu ainda que Eles têm o poder por lhes ter sido dada essa oportunidade. Ninguém quer fazer parte do Eles.

A fragilidade da democracia é a maior falha do Nós que, assobiando e cuscando o vizinho para o maldizer, está muito entretido a olhar para o seu umbigo em detrimento do Outro. O Outro é o bem comum. Nem Eles, nem Nós percebemos isso.

Por isto, e mais umas tantas coisas, vem aí a silly season e teme-se o pior. Ou então sou eu que estou especialmente pessimista. A culpa é Deles.

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a forma mais preguiçosa de ver o mundo

por Patrícia Reis, em 27.07.17

Esquerda, direita, volver. Ou porque é tão difícil abrir a discussão pública a novas pessoas, novas ideias, diferentes formas de pensar.

 

Dividir o mundo entre a esquerda e a direita é a forma mais cómoda de se viver, a mais preguiçosa e também a menos interessante. Mas é assim que vivemos. Na dicotomia que faz com que tudo tenha esta divisão categórica. Olhamos para os intervenientes em qualquer programa de televisão ou de rádio e lá estão os senhores mais assim, os senhores mais assado (escrevo senhores porque, objectivamente, as senhoras não aparecem com tanta frequência). O que muda em termos de pensamento? Nada. Existe uma agenda e um pensamento condicionado, logo é bastante previsível o que vai ser dito, ou dado a ouvir para que o público em geral possa processar e pensar.

Olhar para o mundo através deste binóculo bipolar parece-me redutor. Dirão que existem várias esquerdas e outras tantas direitas, clivagens, diferenças, actualizações, que existe um centro e os liberais e talvez, porque não?, neo liberais, e tal. Pois seja. Nasci antes da revolução, poucos anos antes, sou, por isso, também produto das conquistas de Abril. Cresci em democracia e, passados mais de 40 anos, pasmo com realidades que limitam a possibilidade de se pensar o mundo de uma forma que não seja partidarizada. E estou um pouco cansada de mais do mesmo, que é como quem diz dos comentários dos agentes informadores mais assim, ou mais assado.

Temos poucos académicos a escrever nos jornais, a falar na televisão. Temos uma mão cheia de politólogos, mas deixámos de ter historiadores, sociólogos, filósofos em contacto com o grande público. O que temos? Mais do mesmo. Os senhores do costume. Há décadas.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que fez campanha sem outdoors, manifestações e outras acções típicas de uma campanha presidencial, esteve anos e anos a entrar pela casa das pessoas através da televisão. O poder que tem a pequena caixa que mudou o mundo é real e contribui para muito. Não sei se, em Portugal, nesta altura do campeonato, contribui para se pensar o país, o mundo, as questões que afectam as pessoas. O que importa é equilibrar as intervenções entre os agentes de esquerda e os da direita.

Nos jornais, durante muito tempo, os escritores – que pensam o estado do mundo e são uma forma de consciência do seu tempo – escreviam crónicas, eram chamados a apresentar ideias. Hoje, são raros os escritores que se envolvem nas matérias sociais. Não por não quererem, simplesmente por não terem esse espaço. Tudo o que envolve a sociedade é político e, portanto, é evidente que tudo se passa à volta da esquerda e da direita? Sim, tudo o que envolve a polis é político, todos nós temos gestos e discursos que formam uma ideia política, mas não precisa de estar engajada numa agenda de partido que, para tornar as coisas ainda mais pobres, resulta em “picar” os potenciais adversário e outras variantes pouco dignificantes.

Disseram-me, há uns meses, que não se pode deixar de ir buscar para intervir nas televisões, rádios e jornais pessoas cujo reconhecimento é imediato. Todas elas eram desconhecidas numa determinada fase da vida, certo? Certo. Portanto, podemos apostar em pessoas cujo discurso é diferente e que ninguém conhece. Ah, as audiências sofrem com isso, com o facto de ninguém saber quem é o académico que vem explicar coisas importantes, digamos, sobre o Islão. A solução é colocar alguém cujo rosto se multiplica em vários cantos da comunicação social, tornando-o um agente de comunicação. E, mesmo que não saiba nada sobre o Islão – que perspectiva de direita, que perspectiva de esquerda, pode existir nesta matéria não sei dizer, mas que importa muito que se saiba mais sobre o Islão não tenho a menor dúvida -, pois alguma coisa se arranjará para pontificar e fazer o contraponto, ou seja, o descascar no vizinho do lado, à esquerda, ou à direita. Do outro lado do ecrã, alguém irá dizer: este tipo é de direita/esquerda.

Perde-se muito quando se divide a realidade apenas desta forma e, acima de tudo, perde-se a possibilidade de abrir horizontes, de aprender, de formular ou reformular pensamento. E, caramba, precisamos tanto de pessoas que pensem bem, diferente, que nos empurrem para lugares melhores. Não dará audiências, mas talvez contribuísse para dar a volta ao estado do país.

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É uma ilusão que alimentamos há mil anos: somos um país integrador, com boa vontade, tolerância e outros predicados de correcção extrema. Somos bonzinhos. Conquistámos o mundo, uma boa parte do mundo, e, nos tempos de glória, não fomos tão maus quanto... Eis o busílis: a comparação.

Nunca somos tão maus quanto A ou B, outros povos, outros colonizadores, outros intolerantes, racistas, xenófobos. Mas não é suficiente. Não temos no parlamento representação de outras etnias que, é bom que se entenda de vez, não têm se ser integradas na sociedade portuguesa, fazem parte da sociedade portuguesa.

Não se trata de dar lugar aos recém chegados. As comunidades africanas a residir em Portugal estão por cá há tempo suficiente para terem um lugar em funções de representatividade, nos órgãos de comunicação social (creio que temos, salvo erro, apenas uma pivot de origem africana e numa estação de televisão privada), na política, enfim, em todos os sectores da vida pública.

Em muitos casos, vivemos num gueto, tal como é a Cova da Moura. Será difícil ignorar ou desvalorizar os acontecimentos de discriminação e violência por parte dos 18 polícias da esquadra de Alfragide, na Amadora, acusados pelo Ministério Público de crimes diversos. Um dos polícias é acusado de cerca de 20 crimes. Os relatos são medonhos e não podemos simplesmente fingir que não sabemos, ou que o racismo não existe, que o índice de violência não é brutal.

O meu marido, nascido em Angola, não tem a cor certa para este mundo de falsos brandos costumes. Os meus filhos sofreram várias agressões verbais por causa da cor de pele do padrasto. Ainda hoje, com mais de uma década de casamento, há quem olhe, há quem comente, há quem não consiga conter um esgar. Já ouvi frases como “coitadinha, ela é tão branquinha”. O meu marido lida bem com isto. Eu, tenho os meus dias.

Aprendemos a ignorar, mas não nos surpreendemos com relatos de violência física ou verbal. Triste? Sim, mas não é apenas isso. É um retrocesso crescente ao nível civilizacional, dirão alguns. Também não é verdade. Nunca fomos um país isento de racismo, logo a ideia de retrocesso é relativa. Deveríamos denunciar mais? Sim. Mas importa perceber o medo e a ideia de inutilidade de denúncia, por existirem muitos casos em que as vítimas encolhem os ombros e dizem: "não queremos mais chatices".

Dos 18 polícias acusados - finalmente uma acusação real e adequada – podemos esperar que se faça justiça? Infelizmente, não tenho fé na justiça portuguesa, ou melhor, tenho tanto quanto nos bons e brancos costumes nacionais.

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eles não sabem, nós também não

por Patrícia Reis, em 14.07.17

Mais uma semana de exames, desta vez com a publicação das notas. Mais uma semana de ansiedades e de incertezas. para pais e filhos.

 

E saíram as notas dos exames. Os miúdos atropelavam-se para chegar às pautas, um burburinho nervoso persistia e alguns pais esperavam com ansiedade, braços cruzados, atentos. Os telemóveis memorizaram as notas. Os rostos dos finalistas do 12º, nas diferentes áreas, são uma palete confusa que abrange a totalidade do espectro emocional. Há riso, choro, aflição, mutismo, mãos a arrepelar cabelos.

Os jovens com a alegria conquistada pela visão da pauta agrupam-se naturalmente. Os menos felizes encolhem-se, o corpo em curvatura. Os rapazes contêm-se, as raparigas começam no frenesim de perceber a média, faz contas, corrige, liga à mãe que não está presente. Há duas miúdas que discutem se têm de se inscrever já para a segunda fase dos exames, ambas com 10 a História. Não sabem o que fazer. Uma delas pergunta: "Mas tu já sabes o que vais fazer? Que média precisas para entrar na faculdade?" E a resposta chega veloz: "Não sei. Não faço ideia. Talvez eu não devesse ir para a faculdade, mas a minha mãe..."

Afasto-me deste cenário com o coração apertado por todos os que ali ficaram contristados com os resultados. Sei de quem tenha pago explicações caríssimas e tenha de enfrentar a realidade: o filho traz notas negativas a ambos os exames. Sei de quem não quer pensar mais no assunto.

Vou com as boas notas do meu filho mais novo pela rua e penso que ele também não faz ideia do que será o futuro. Há uns anos, ainda criança, o mais velho sentenciou que o futuro é um país lá longe. E agora que parece mais próximo, mais assustador, não é possível ter a certeza de que estejamos a ser correctos.

 

Pressionamos os miúdos para decidirem? Escolham um curso, sff, depois logo se vê? Valerá a pena ficar a morder o lábio de nervosismo perante a decisão que diz: não quero ir para a faculdade? Ser pai não é ter um livro de receitas certas, nem garantias de eficácia como os pequenos electrodomésticos que por aí se vendem.

Ser pai é complicado. Ser filho é igualmente complicado.

Num mercado cada vez mais exigente, acreditamos que uma licenciatura é uma ferramenta básica e lutamos para que os nossos filhos adiram com empenho e alegria. Não saber o que se quer fazer é paralisante e, ao mesmo tempo, frustrante. Mas pior será pensar que estamos a depositar nos nossos jovens todas as esperanças de um mundo melhor, sabendo de antemão que o que importa verdadeiramente é encontrar algo de que se goste. A paixão importa.

Para muitos miúdos, esses que estudaram aqui por casa para os exames nacionais, o que parece ser mais urgente é "ter um emprego". Eu vou dizendo que o mais importante é fazerem algo de que gostem, algo que possa proporcionar conhecimento, mas também uma gratificação pessoal.

Levo as boas notas do meu filho para casa e sei que ele se inscreverá na faculdade sem saber nada do futuro. Eu sou mãe dele e também não tenho o direito de saber do futuro dele. Será uma presunção muito grande continuar a decidir o que quer ou não quer, o que deve e o que não deve. Ou não será?

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estes senhores não viajam separados

por Patrícia Reis, em 08.07.17

Comunicar é muito mais do que falar ou ouvir. Comunicar é tornar comum, o que implica esforço, atenção, proximidade e sobretudo interesse pelos outros. No aeroporto, há uns dias, um grupo de surdos mudos embarcava para Itália. Na algazarra típica dos aeroportos, chamadas para o voo internacional XPTO, viam-se pessoas a atropelar pessoas com trolleys desajeitados, crianças a dormir, ou a ser simplesmente crianças, este grupo de pessoas - a maioria adultos, dois casais de meia idade, dois adolescentes - manteve-se perto. E na sua Língua Gestual, formando uma roda, conversava e ria. Conversar, usando a Língua Gestual, implica também a capacidade de observar o outro. Na expressão facial, no corpo que se movimenta. Na semana passada, a propósito do concerto no Meo Arena de solidariedade para com as vítimas do incêndio de Pedrogão Grande, pudemos assistir, naquele quadrado no canto inferior direito, a uma tradução para Língua Gestual que assumia o ritmo, a música, o entusiasmo. E a dança do corpo e das mãos era simplesmente maravilhosa de ver. No aeroporto o que mais me comoveu foi perceber que o casal mais velho, mais de 65 anos, não precisa de muito para comunicar, como se os olhos dissessem tudo. Aquela mulher e aquele homem conhecem-se dentro de uma espécie de silêncio que obriga ao reconhecimento permanente do outro. Não se deixam de olhar por um segundo. Não precisam mais do que esboçar algum gesto. Sabem. Conhecem-se. De todos os casais que conheci ao longo da vida, nunca vi nenhum com aquele nível de intimidade. Dentro do avião, impossibilitados de ouvir os diferentes anúncios sonoros e com tripulação estrangeira (era um avião de uma abençoada companhia low cost) incapaz de os entender, o casal é separado. A senhora para a fila vinte e tal, o senhor deve ficar na fila quatro. Não é possível não ouvir estes pormenores, a hospedeira fala em inglês com sotaque italiano e fala alto. Talvez porque os senhores sejam surdos mudos, o que é ridículo. O senhor recusa sentar-se e tenta, sempre com um sorriso, explicar, aponta para a mulher, para a aliança, para o lugar ao lado. São salvos por um técnico português que fazia um controle qualquer ao avião e estava pronto para sair. O técnico vai ao fundo do corredor do avião, traz a senhora, pede licença ao senhor do lado e explica que é preciso trocar de lugar, "estes senhores não viajam separados". Pareceu-me justa está frase. O casal sentou-se por fim, fila quatro, lugares A e B. Deram as mãos.

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saber viver custa muito

por Patrícia Reis, em 01.07.17

Numa sociedade a sofrer de ansiedade, palpitante, impulsiva, temos cada vez mais dificuldade em viver bem. O que é viver bem?

 

Aprendi há algum tempo que existe uma máxima que me permite conquistar alguma tranquilidade: se tem solução é um problema; se não tem solução, pois siga, andemos para a frente. Podemos ficar a congeminar em muita coisa, construir cenários, projectar o que teríamos dito a A ou B se tivesse havido tempo, ou agilidade mental, naquele momento específico. Tudo isto é uma enorme tanga, já se sabe, o tempo não volta para trás, não conseguimos repor a verdade.

Ficamos agarrados a muitos preconceitos e somos minados de tal forma que o nosso quadro mental revolta-se e esquece o bom senso. Dentro do bom senso está a nossa capacidade de parar e reflectir. Como o avô de um amigo que dizia que antes de comprar qualquer coisa precisava de um período de reflexão. Só partia efectivamente para a comprar depois de perceber se esse objecto de desejo espontâneo fazia mesmo falta.

Parar permite também escolher. E torna-se mais fácil perceber quem são as nossas pessoas. Nem todas as pessoas fazem parte do nosso clã. Sim, convivemos, mas existem pessoas que nos pertencem, com quem temos afinidades, projectos, possibilidades de crescer, de partilhar. As outras não são da nossa equipa, vestem um equipamento distinto, fazem juízos e validações que nos são incompreensíveis. Até aqui, tudo bem. Não temos de gostar de todas as pessoas; nem todas as pessoas têm de gostar de nós.

O maior drama de tudo é quando nos deparamos com uma das características nacionais mais danosas: a inveja. Podemos utilizar o cliché e dizer que a inveja mata. Enquanto mata por dentro os invejosos(as), atinge de forma extrema o alvo da inveja. E, em vez de termos armas para combater que assentem na seriedade e intelecto, ficamos estarrecidos a ver como a inveja se propaga como um gás mortal. As redes sociais são pródigas neste capítulo. Os mass media divulgam online títulos bombásticos que, tantas vezes, não correspondem à verdade. A exposição é hoje uma constante e como não lhe vejo solução, creio que terei de seguir a tal máxima e seguir em frente, ignorar o que se diz levianamente sobre A ou B. Enquanto sigo para a frente, paro.

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