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Mascarados na rua

por jpt, em 26.10.20

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"Diz que" teremos de andar mascarados na rua. Se a defesa contra a pandemia a isso apela não serei eu a opor-me. E nem sequer me questiono como é que este tipo não tem a dignidade de se demitir, por "razões pessoais" ou "reforma", seria pedir-lhe demasiado face ao que é. O que me surpreende é que nenhum dos dele lhe diga para ir saindo. Septuagenário vácuo, apagável. Nulo.

Um abraço

por jpt, em 25.10.20

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Hoje, manhã de domingo, bebo um café, dois mesmo, com amiga que há muito, demasiado, não via, pois ela emigrada. Ainda tão bela, entusiasmante, até balsâmica, como o era aquando nós no liceu e no sempre depois, porventura mesmo mais se me deixar acreditar neste sentir já trôpego. Conversa larga, rápida mas larga. E diz-me que se testou com a competência necessária. E depois foi a casa da mãe, agora octogenária, já viúva: "Mãe, há quanto tempo é que ninguém a abraça?". "Há mais de seis meses, filha". E abraçaram-se, como é óbvio que deve ser.

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Em Março de 2017 o professor Jaime Nogueira Pinto, homem consabidamente de direita, viu cancelada uma conferência para qual havia sido convidado, a realizar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O motivo foi a ameaça de acção violenta feita pela Associação de Estudantes, disse-se que ligada ao BE, auto-legitimada pela ideologia do orador. A direcção da faculdade atemorizou-se e cedeu. Os organizadores propuseram pagar a protecção policial. A direcção negou-se a fazer entrar a polícia no espaço universitário, uma já saudável tradição académica, mesmo que para defender o fundamental direito de liberdade de expressão. E de associação. Então a organização propôs arranjar segurança privada. A direcção recusou, e cancelou definitivamente a acção. Seguiu-se polémica. Vários professores, dali e de outras instituições, vieram a público mentir - quem acredita que há um qualquer "Juramento de Hipócrates" vinculando os académicos à demanda da(s) verdade(s) está redondamente enganado - clamando que o objectivo da organização era convocar os holigões neo-nazis para a universidade. Em privado alguns académicos - daquele vácuo eixo MES/BE - foram-me dizendo, com desplante sorridente, "ah, também o Nogueira Pinto é muito reaccionário ...". Sê-lo-á, porventura. E depois, que interessa isso?, calei eu, já então enojado com o ambiente geringoncico desta pequena lisboa, do campo grande à avenida de berna, "do choupal até à lapa" ... Mas do episódio retive três dimensões: o aldrabismo de tantos intelectuais; a cobardia académica; que só em situações extremas é que a polícia entra nos campi, nem mesmo para defender direitos fundamentais.
 
Leio agora, através do texto do Pedro Correia, que a PSP foi chamada, por denúncia anónima, e acorreu à Faculdade de Arquitectura, com desconhecimento da Direcção académica. Que deteve e multou um professor à porta da sala de aula. Devido a ter este retirado a máscara durante um período da sua prelecção. Passaram alguns dias. Googlo e não encontro quaisquer reacções, daquela faculdade, do seu corpo docente, ou no restante mundo académico, individual ou organizacional.
 
Para além do choque com esta mentalidade delatora e com este excesso de zelo, inculto e ilegal, de uns quaisquer polícias, o que se pode retirar? Que para o mundo universitário português é normal, e até requerido, evitar a acção policial para defender as liberdades de expressão e de associação. Mas que é mais do que aceitável, até requerida, a sua acção para obrigar a usar máscaras em espaço académico. Mesmo sem permissão ou solicitação das autoridades universitárias.
 
Não haja dúvida de que se vive uma histeria sanitária, promotora de mentalidades antidemocráticas. Mas o silêncio corporativo também nos mostra outra coisa. Que naquele meio existem, como se diz na tropa, "filhos de muitas mães". E isto até para mau entendedor chega ...
 
(A latere: ao colocar este texto no blog pesquisei o logotipo da Faculdade de Arquitectura para o ilustrar. Para me deparar com uma figuração completamente .... maçónica! Como é isto possível, estes termos para a representação de uma instituição pública numa república laica? Como não se exige a depuração deste simbolismo?)

Os meios e os fins

por Pedro Correia, em 22.10.20

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O pior da sociedade portuguesa começa a vir à superfície neste oitavo mês de pandemia: refiro-me ao inaceitável clima de delação, a pretexto do combate às infecções, que ameaça deteriorar as relações humanas, enquanto cada qual se encerra no seu casulo, desconfiando de tudo e todos. E nem a malha familiar está livre disto, quando já tivemos o Presidente da República advertindo contra os habituais reencontros natalícios, enquanto milhares de velhos vivem em efectiva reclusão dentro de supostos "lares" que se tornam antecâmaras de morte. Com os entes queridos mantidos à distância, como ontem o JPT nos relatava aqui, em texto de leitura obrigatória.

Inverte-se o ónus da prova, transforma-se em letra morta a garantia constitucional: todos somos culpados até prova em contrário. 

 

O que sucedeu há dias a um professor universitário comprova isto. Este docente da Faculdade de Arquitectura, em Lisboa, foi abordado à saída de uma aula, em pleno estabelecimento de ensino, por agentes da PSP, que lhe impuseram uma coima de cem euros por não ter usado máscara durante parte da sua exposição aos alunos, em que permanecera sentado. Apesar de só haver 20 estudantes na sala, cada um estar separado dos restantes por uma distância mínima de cinco metros e todos se encontrarem afastados do professor. Apesar de este só não ter usado máscara durante a primeira das quatro horas de duração da aula.

Denúncia anónima e cobarde. Incentivo à bufaria, vício de péssima memória na sociedade portuguesa. Inaceitável intromissão da PSP em instalações universitárias para punir comportamentos de professores ou alunos. Tudo isto devia causar indignação. Mas, a pretexto do respeitinho absoluto pelas normas sanitárias, que aliás vão mudando ao sabor das circunstâncias, acabamos por tolerar todas as prepotências, todas as arbitrariedades, toda a desproporção de meios sempre justificados pelos fins.

Começam assim, com casos isolados e em pequena escala. Mas sabemos muito bem onde podem desembocar. 

O Sequestro da Minha Mãe

por jpt, em 21.10.20

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(A Mãe de Franz Marc, 1902)

A minha mãe Marília tem 94 anos. Há pouco mais de uma década que vive numa "residência". Foi ela e o meu pai António que nos anunciaram a sua opção de assim continuarem, suprema forma de consciência e, mais do que tudo, coragem. Alguns anos depois o meu pai morreu. Ela seguiu, continua. Cada vez mais só, desaparecida a sua geração, familiares, amigos, colegas, até alunas. Valem-lhe os bons cuidados "residenciais". E a estremosa filha, genro e noras. E tanto também o meu mano-velho, que o Atlântico apenas fisicamente aparta. Não tanto o meu angustiado descuido. E alguns lampejos de netos e bisnetos, em família carregada de emigrantes.

Desde Março que dela nos apartámos, em precauções até anteriores às normas estatais. Pois família informada e racional, e também de médicos, de gente nada negacionista dos cuidados face à gravidade disto que passamos. Depois, meses passados, já na alvorada do Verão, passámos a ter direito a visitá-la. Um visitante por semana, meia hora apenas, no exterior das instalações, no aprazível jardim. E em grupos íamos vê-la, alguns apenas à "paliçada" do jardim, saudávamos, a mostrarmo-nos, e falávamos breves minutos. Depois um de nós entrava para o breve período, conversando sob as árvores e junto ao lago onde tartarugas fazem as vezes da fauna bravia.

Há mais de dois meses surgiu um surto de Covid-19 na residência. Infecções em vários funcionários e em metade dos residentes, estes octogenários e nonagenários. Mas não na minha mãe. As visitas foram canceladas, mesmo aos residentes que não haviam sido infectados. Como é óbvio sem qualquer razão sanitária para a estes se lhes vedar as visitas, nos moldes sanitários vigentes. Mas compreendemos a angústia da instituição e a escassez de recursos humanos que adveio - e mesmo sabendo nós, até profissionalmente, que este isolamento nos idosos acelera, e muito, os síndromes demenciais.

Os residentes foram recolocados, apartando os infectados dos outros. E confinados aos aposentos. A minha mãe - pela primeira vez desde os seus tempos de estudante - passou a partilhar um quarto com uma "vizinha". Lamentou-se-me um pouco, dessa partilha de espaço e de ao quarto estar confinada. Bisneta de militar, neta e sobrinha-neta de militares, filha e sobrinha de militares - de oficiais da Flandres a cadetes do 28 de Maio, tantos depois coronéis que in illo tempore o meu pai, algo civilista, dizia que aqueles almoços de família lhe faziam pensar que estava na Grécia -, irmã de militar, mãe de militar, mãe, sogra, tia de vários mobilizados para as "guerras d'África", diante desse seu lamento, eu, o benjamim estapafúrdio apesar de já neste estado, mobilizei-a para a guerra: "Mãe, a senhora ao seu lado não é sua colega ou vizinha, é uma camarada, isso não é um quarto é uma camarata! Esta é a sua campanha, a guerra contra os Covid-19!". Numa réstia de força riu-se, de lá, num "é isso, filho, esta é a minha guerra!". Mas à minha irmã confessou-lhe, em visceral ironia, "aqui fechada no quarto estou a cumprir uma pena?".

Entretanto passaram meses, nenhum dos residentes infectados adoeceu. E cumpridas foram as sucessivas rondas de testes requeridas. E há já três semanas que não há qualquer razão para que se impeçam as visitas. A não ser as delongas burocráticas - dizem-me que as autorizações da Administração da Saúde, uma qualquer absurda "desinfecção do edifício", sei lá o que mais.  Entenda-se bem, a única razão para que não possamos visitar a minha mãe é o pânico institucional, a histeria. E a modorra burocrática. Uma mescla que é apenas crueldade. Inconsciente crueldade. E assim está a minha mãe sequestrada! Apenas isso, tudo isso. E, tão audivelmente, a definhar. Tão dolorosamente a definhar.

"Escreve", dizem-me, autorizam-me ... "escreves sobre tudo, escreve sobre isto", sobre o sequestro da minha mãe. E, decerto, o das mães e pais de tantos outros. Há semanas que o ensaio. Mas que dizer?, pois quando o começo só ouço Brel, o Brel do meu pai que me faz falta, o Brel do meu pai com a minha mãe. Porque ele cantou tudo isto, nisso dizendo o que era necessário. E cantou que fossemos homens. Sede-o, sejamo-lo. Conscientes mas sem esta absurda, disparatada, crueldade.


(Les Deux Fauteuils, original de 1953)

J'ai retrouvé deux fauteuils verts / Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père / Et le fauteuil de grand-maman // L'un est usé jusqu'à la corde / Souvent l'on dormit dans ses bras / Il est lourd de la sueur qu'il porte / C'est le fauteuil de grand-papa // L'autre presque neuf n'a de-ci de-là / Que quelques tache d'argent / Sur le dossier et sur les bras / Grand-mère y a pleuré dedans // Tout petit home de grande joie / Vous les connûtes encore amants / Se tenant tendrement les doigts / Disant les mots qu'on aime tant // J'ai retrouvé deux fauteuils verts /Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père /Et le fauteuil de grand-maman
 
 
E por isso prossigo: 
 
 
(Les Vieux, original de 1963)
 
Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux / Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux / Chez eux, ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan / Que l'on vive à Paris, on vit tous en province quand on vit trop longtemps / Est-ce d'avoir trop ri, que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier? / Et d'avoir trop pleuré, que des larmes encore leur perlent aux paupières? / Et s'ils tremblent un peu, est-ce de voir vieillir la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui dit: "Je vous attends"?
 
Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés / Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter / Les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit / Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit / Et s'ils sortent encore, bras dessus, bras dessous, tout habillés de raide / C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide / Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", et puis qui les attend
 
Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps / Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant / Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère / Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer / Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin / Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin / Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui leur dit: "Je t'attends" / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non" et puis qui nous attend
 
E termino com o que é necessário:
 
 
 
(Le Bon Dieu, original de 1977)
 
Toi / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu f'rais valser les vieux / Aux étoiles / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu allumerais des bals / Pour les gueux // Toi / Toi, si t'étais l'Bon Dieu / Tu n's'rais pas économe / De ciel bleu / Mais / Tu n'es pas le Bon Dieu / Toi, tu es beaucoup mieux / Tu es un homme // Tu es un homme / Tu es un homme

O recuo

por Cristina Torrão, em 20.10.20

Governo recua e retira proposta para app Stayaway Covid obrigatória.

Oh, que pena!

Mas ninguém deve ficar triste. A eficácia da App deixa muito a desejar. Na Alemanha, calcula-se que cerca de 50% dos utilizadores infectados com o vírus não actualizam os dados na "Corona-Warn-App" (assim se chama a aplicação, por aqui), dando falsas informações a quem se acha muito seguro, por presumivelmente não ter contactado com ninguém infectado.

Mas Costa não seria Costa se não desse o tal nó no ponto:

Verifiquei que das duas propostas que fizemos houve uma razoavelmente consensual - estranhamente, para mim: a obrigatoriedade do uso da máscara na rua e outra que houve muitas dúvidas e rejeição.

O PSD prontamente apresentou uma proposta apenas relativa às máscaras e Costa garante: Nas máscaras há um consenso grande (...) e vamos resolver já o problema das máscaras.

Impagável, o nosso Primeiro...

 

Nota: na Alemanha, a instalação da App não é obrigatória, nem nunca ninguém por aqui pôs essa hipótese (fosse do governo ou da oposição).

Viajar em tempos de Covid

por Cristina Torrão, em 18.10.20

Faz hoje duas semanas que regressámos à Alemanha, depois de uma estadia de três semanas e meia em Portugal. Não fomos obrigados a fazer quarentena, mas confesso que, enquanto não passaram estes quinze dias, não me quis pronunciar. Afinal, atravessámos meia Europa de carro, com quatro noites dormidas em França (duas na ida e outras duas na volta).

Não foi fácil decidir viajar. Mas há dois anos que não via os meus pais, de 83 e 78 anos. Por motivos pessoais, não pudemos viajar, em 2019. Contávamos poder compensar a falha em 2020. E, depois de termos cancelado, em cima da hora, os planos de uma Páscoa passada na aldeia, confraternizando com parentes e amigos que raramente vejo, ficou difícil prescindir das férias em Setembro.

Em fins de Agosto, como se sabe, a situação começou a piorar, se bem que os números diários de novas infecções fariam inveja aos de agora: a Alemanha registava cerca de 1.200, Portugal andava pelos 300/400. Fizemo-nos à estrada e passámos cinco fronteiras sem qualquer controlo: Holanda, Bélgica, França, Espanha, Portugal.

Como acima referi, pernoitámos duas vezes em França. Confesso que, quando chegámos ao primeiro hotel, em Compiègne (cerca de 50 km a norte de Paris), senti um certo receio, até porque Paris já se encontrava em situação complicada. Mas todas as regras de higiene eram cumpridas: uso de máscara, lotação do hotel a menos de metade (com quartos vazios entre os ocupados), bom arejamento, desinfectante à disposição, distância social respeitada, etc. Além disso, íamos prevenidos com toalhinhas desinfectantes para superfícies, interruptores e maçanetas. Mas ficam sempre dúvidas: pairavam ainda aerossóis perigosos no quarto? Alguém infectado teria dormido naquelas camas? (Noutros lençóis, é claro, mas sabe-se lá do que o vírus é capaz…).

Enfim, como em tudo, o que custa é começar. Confesso que, depois de mais um dia na estrada, não senti tanto receio na segunda noite, em Bayonne (País Basco). Acresce dizer que, durante toda a viagem, não fomos ao restaurante, nem comprámos nada para comer, ou beber. Levámos de casa tudo o que precisávamos.

Chegados a Portugal e, depois de constatar que a situação piorava de dia para dia, decidimos ficar na nossa região transmontana e cancelámos vários planos, que incluíam uma ida ao Porto, com visita à Feira do Livro. Mesmo condicionados, adorei estar finalmente em Portugal, ouvir falar português e, claro, poder enfim conversar pessoalmente com os meus pais, embora com alguns cuidados. Valeu-nos o bom tempo, que nos permitia instalar-nos no jardim, achando, ainda assim, conveniente cumprir as distâncias. Os meus pais encontram-se bem de saúde e esperemos que assim continuem.

Para o regresso, tornámos a levar de casa comida e bebida suficientes para dois dias e meio. Apesar de a situação ter piorado (entretanto, a região da Grande Lisboa era já considerada de risco, na Alemanha, assim como toda a Espanha e várias regiões de França), pareceu-nos haver menos cuidado nos hotéis (que eram diferentes dos da ida). Dormimos a primeira noite nos arredores de Bordéus, num hotel muito frequentado, não se verificando quartos livres entre os ocupados. O quarto também nos pareceu pouco arejado e, numa altura em que o meu marido foi à recepção, deparou com uma enorme nuvem de fumo, por detrás do vidro protector. O funcionário fumava lá o seu cigarro electrónico!

Na manhã seguinte, partimos debaixo da tempestade Alex. Felizmente, não sentimos a sua máxima força, embora, durante cerca de 200 kms, debaixo de chuva e vento fortíssimos, a visão fosse uma desgraça e a auto-estrada se encontrasse completamente alagada, obrigando-nos a uns míseros 60 a 70 km/h. Cheguei a pensar que bem podíamos escapar ao vírus, mas seríamos levados na enxurrada. Valeu-nos avançar em direcção a Paris, enquanto a tempestade seguia outro rumo. Ao serão, em Valenciennes (perto da fronteira belga), vimos o noticiário da TF1 e pasmámos com a destruição nos Alpes franceses e italianos, havendo inclusive vítimas mortais a lamentar. No fundo, tivemos sorte…

Tornámos a passar todas as fronteiras sem o mínimo de controlo e, chegados a Stade, sem saber bem o que fazer (quarentena, teste?), resolvemos ligar para a linha de saúde local. Apesar de termos atravessado várias zonas de risco, explicaram-nos que só se aplicam medidas especiais, caso se passe mais de 48 horas numa dessas zonas (ou país).

Demos, então, início à nossa vida normal, continuando a respeitar as regras básicas: máscara, distanciamento, lavagem frequente das mãos. Estamos bem e esperamos assim continuar.

E vocês, aí desse lado, fiquem igualmente bem!

Convém "rastrearmos" os jornais

por Pedro Correia, em 18.10.20

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Ontem, no auge da polémica sobre a geringonça (refiro-me à aplicação Covid, não à defunta coligação governamental), quase todos os jornais a destacavam em falsas primeiras páginas com patrocínio do Governo. Este encarte publicitário terá custado balúrdios ao erário.

Até os diários desportivos A Bola, o Record O Jogo receberam este brinde - o que deve dar imenso jeito ao conjunto dos periódicos, vários dos quais têm salários em atraso enquanto outros têm despedido dezenas de trabalhadores.

Fica um teste à perspicácia dos leitores. É interessante "rastrearmos" as posições editoriais destes jornais sobre o controverso tema "app Stayaway" nos tempos que vão seguir-se. Aposto desde já que alguns não tardarão a bater palminhas.

 

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A sensação de falsa segurança

por jpt, em 15.10.20

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Nesta coisa da cidadania verbal (da análise densa ao "amandar bocas", nisso a cada um como a cada qual, e cada dia é um dia ...) o mais importante é o conforto, a demansa do estado reconfortado. Obtém-se este por "pertença", "ser" do clube e holigar em sua defesa. Ou seja, "ser" do partido (do governo) ou "ser" de um qualquer partido/grupo contra (o governo ou outra coisa). Seja lá a propósito do que for. 

Ontem li imensa gente a clamar contra as medidas/propostas anunciadas pelo governo. Francamente, são palavras loucas. Leio agora este seu resumo, em forma de declaração do PM que anuncia a vontade de "abanar" os cidadãos, e não lhe encontro nenhuma falta de senso comum: os funcionários públicos, e adjacentes, serão convocados - se tiverem disponibilidade material para tal, e grande percentagem decerto que a terá - a usar uma aplicação securitária que não lhes viola os direitos individuais, e que o poder político considera útil para este momento de crise sanitária. E a sociedade civil será convocada para estender a céu aberto o uso de máscaras, quando isso for espacialmente recomendável. Qual o problema, qual a irracionalidade?

Por outro lado, isto - este pretendido "abanão" nos cidadãos - permite repensar. Não o futuro Natal mas as práticas do poder político neste 2020. Lembrar a descarada modorra intelectual que antecedeu o confinamento (o vírus que nunca chegaria; a oportunidade de exportar para a China; as fronteiras que não se podiam fechar; a urgência em visitar os lares de terceira idade; a superficialidade do "gozo fininho" da semi-quarentena presidencial - essa série de dislates ditos por dignitários do PR para baixo). Mas acima de tudo, deveria lembrar a mediocridade do discurso que reclamava, em Março e Abril, contra "a sensação de falsa segurança" - contra as máscaras, há século sabidas como boa medida para este tipo de praga; contra os testes (e esta alarvidade, então, foi inenarrável, demonstrativa da mediocridade das autoridades sanitárias). Porque estas medidas de agora são, a um nível imediato, praticamente nada mais do que promotoras da tal "falsa segurança".

Mas estas medidas têm uma outra dimensão, menos efectiva pois menos material: convocam-nos, mobilizam-nos, apelam a um maior cuidado individual/familiar nos núcleos de sociabilidade, de interacção, e também nos contactos episódicos. Melhor dizendo, reconvocam-nos ... Alertam-nos para não baixarmos a guarda, e será essa a sua grande qualidade. E, se assim é, seria interessante que os adeptos deste poder e sua geringonça capitaneada pela dupla PR/PM, repensassem as atoardas que vieram dizendo ao longo de meses. Quando em pleno confinamento tantos (em poucos dias 100 000 pessoas assinaram um documento!) apelaram para uma redução das comemorações do 25 de Abril, pela sua dimensão simbólica para afirmar o estado de concentração tão necessário? Eram adversários da liberdade e da democracia, quiçá adeptos do Chega. Quando o boçal Ferro Rodrigues clamou que não se iria mascarar e tantos o apuparam? Éramos fascistas ... (o homem nem tem a dignidade de se demitir, apesar de ter passado ao lado da maior crise da sua carreira política). Idem para o 1º de Maio, idem para a Festa do Avante, idem para as festividades anti-história de Portugal. E quando Sousa veraneou em bamboleios sob trajes menores, saracoteando-se pelas praias em campanha presidencial, e tantos de nós nos torcemos diante de tamanha indecência histriónica? Fomos ditos da extrema-direita, zangados com este histérico presidente porque não afronta o PS.

Talvez agora este "abanão" que Costa quer dar possa abanar alguns dos seus adeptos palavrosos. E que assim possam perceber que muito do que foi dito e feito por esta incompetente elite política foi contraproducente, de facto criando uma efectiva sensação de "falsa segurança" ao longo de meses. Que desconcentrou, descentrou. Estará na altura de sairem do tal "conforto". A administração desta crise pandémica tem sido errática, com coisas boas e más, mas muito longe de qualquer "milagre português" que a imprensa patrioteira (e muita dela avençada) propalou. E só os "cobardes", para falar a la Costa, os adeptos holigões, tão timoratos que avessos à (auto-)crítica, é que são incapazes de ver isso. Não precisam de pedir outro poder, de passar à oposição. Pois, lá está, cada um como qual. Mas podem, e devem, pedir, exigir, melhor.

Repensando o Natal

por jpt, em 15.10.20

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São Martinho

por jpt, em 11.10.20

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Urge repensar o São Martinho ...

 

"Há baixíssima probabilidade de vírus em Portugal. A OMS está a exagerar um bocadinho."
Graça Freitas 

 

"Apelo para que visitem os lares: sejam solidários."
Graça Freitas 

 

"Não usem máscaras. As máscaras dão falsa sensação de segurança."
Graça Freitas 

 

"Testes? Testes negativos dão falsa sensação de segurança."
Graça Freitas 

 

"Esta semana chegam 500 ventiladores. Outros tantos após a Páscoa."
Lacerda Sales 

 

"Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?"
Ferro Rodrigues 

 

"Não é necessário usar máscara. A AR é um edifício grande."
Graça Freitas 

 

"Admito a possibilidade de celebração do 13 de Maio."
Marta Temido 

 

"Já tenho um esquema para ir à praia."
Marcelo Rebelo de Sousa 

 

"Senhor Presidente, isso não é permitido."
Elemento da segurança de Marcelo Rebelo de Sousa 

 

"Não vai haver austeridade."
António Costa 

 

"Tracei as linhas gerais para um plano a 10 anos em 2 dias."
António Costa e Silva 

 

"Comigo ninguém falou sobre qualquer plano."
Mário Centeno 

 

"Nos aviões não é necessário distanciamento porque as pessoas só olham para a frente."
Graça Freitas 

 

"A realização da fase final da Champions em Lisboa é um prémio para os profissionais de saúde."
António Costa 

 

"O que nós queremos é que venham muitos estrangeiros."
Graça Freitas 

 

"Que bom que foi poder ver o Algarve sem as filas e as enchentes de sempre."
António Costa 

 

"A pandemia pode ser uma oportunidade para a agricultura portuguesa."
Maria do Céu Albuquerque 

 

"Que cada um de nós recorra à horta de um amigo. Não açambarquem."
Graça Freitas 

 

"Admitimos retaliar contra países que impedem entrada de portugueses."
Augusto Santos Silva 

 

"Aparecem mais casos porque estamos a testar mais."
António Costa 

 

"A Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, como forma de proteger as crianças que regressaram esta segunda-feira ao jardim de infância, criou um dispositivo que ajuda a manter sempre o distanciamento social. A solução surgiu sob a forma de um chapéu com quatro héllices."
CMAV 

 

"A Junta de Freguesia de São Martinho do Porto levou a cabo uma acção de desinfecção do areal da praia com um tractor e uma solução que continha hipoclorito, no início de Maio."
JFSMP 

 

"Vá, dentro do elevador cada um virado para o seu lado."
Graça Freitas 

 

“Até agora não faltou nada no SNS e não é previsível que venha a faltar.”
António Costa 

 

"É muito difícil fazer previsões quando o mundo mudou em 360 graus em dois meses"
António Costa 

 

"População menos educada e mais pobre poderá estar a potenciar uma maior incidência da epidemia no norte."
TVI 

 

"Existe, de facto, um produto muito eficaz, um produto que mata todos os micro-organismos e, portanto, bactérias e vírus, e que consegue durante um mês essa mesma segurança. Há uma película que é formada em torno das superfícies onde ele for aplicado."
Matos Fernandes

 

“Estou aqui sem nenhuma proteção porque tenho a certeza que nem a Cristina nem nenhum dos adjuntos que estão aqui, que aliás são muitos, não representam qualquer tipo de problema para a minha saúde. Sei disso olhando para eles.”

Francisco George

 

"Por que é que aquilo só afeta os chineses?"
Cristina Ferreira 

 

“Se isto é um milagre, o milagre chama-se Portugal."
Marcelo Rebelo de Sousa 

 

"Não é patriótico atacar agora o governo."
Rui Rio 

 

"Confinamento é para manter diga a Constituição o que diga”
António Costa 

 

“Nesta guerra, ninguém mente nem vai mentir a ninguém. Isto vos diz e vos garante o Presidente da República.”
Marcelo Rebelo de Sousa 

 

"É menos perigoso do que a gripe".
Jorge Torgal 

 

"Vai ficar tudo bem."
Sem autor atribuído 

 

"Quero felicitar o Senhor Presidente da República neste 4º aniversário da sua tomada de posse, com votos de que o ano que agora se inicia seja assinalado pelo mesmo nível de sucesso, aproveitando para o congratular pelos resultados negativos no teste efetuado."
António Costa 

 

"As Câmaras Municipais do Porto e de Vila Nova de Gaia informam que a noite de São João se comemora a 23 de junho, ontem."
CMP/CMVNG 

 

“Cerca sanitária no Porto? Neste momento, e provavelmente hoje será tomada uma decisão nesse sentido, a ser equacionada entre a autoridade de saúde regional e nacional e o Ministério da Saúde, obviamente.”
Graça Freitas

 

"É mentira, é mentira."
António Costa 

 

"Se o primeiro-ministro puxou as orelhas à ministra teria certamente razão."
Marta Temido 

 

"A falsa frágil como as orquídeas que ama.”
Fernanda Câncio 

 

“Existe nas últimas semanas uma ligeira subida numa tendência que é de estabilização da descida.”
Marcelo Rebelo de Sousa 

 

"No se trata de Lisboa, sino de algunos barrios de municipios vecinos. No existe ninguna relación con el centro de la ciudad de Lisboa donde se celebrará la Champions."
António Costa 

 

"O antibiótico é para combater o vírus."
António Costa 

 

“Temos uma enorme dificuldade em pronunciar o nome das pessoas, uma enorme dificuldade em comunicar.”
Rui Portugal 

 

"Ir assim para a rua mamar copos sem máscara sem nada, hum..., não é boa ideia."
Marta Temido

 

"As vacas não deixaram de existir e a poluição baixou."
Maria do Céu Albuquerque 

 

"Um dia será o Reino Unido a precisar de quem agora está em baixo."
Marcelo Rebelo de Sousa 

 

"Com maus chefes e pouco exército não conseguimos ganhar esta guerra."
Fernando Medina 

 

"Ministério da Saúde não se pode deixar capturar pela crítica fácil e pela má-língua."
Marta Temido 

 

"Pandemia pode ser oportunidade para resolver problemas no acesso à habitação em Lisboa".
Fernando Medina 

 

"A questão do Estado de Direito não deve ser relacionada com as negociações sobre o plano de recuperação".
António Costa 

 

“Nós não estamos aqui para festas de anos de ninguém.”
Mark Rutte

 

"Ponto mais crítico da contração económica já ficou para trás."
Siza Vieira

 

"Vamos beber o drink de fim de tarde."
Graça Fonseca 

 

"A melhor forma de dar a volta a esta crise é o crescimento económico."
Siza Vieira 

 

"O meu objetivo não é apurar a responsabilidade de surtos nos lares."
Ana Mendes Godinho 

 

"Não o li, mas a Ordem dos Médicos fez-me chegar o relatório e já pedi que o analisassem."
Ana Mendes Godinho 

 

"É fácil ficar no nosso consultório e passar o dia a falar por videoconferência para as televisões."
António Costa 

 

"É que o presidente da ARS mandou para lá os médicos fazerem o que lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram.”
António Costa 

 

“O Senhor Primeiro-ministro não reproduziu integralmente e fielmente aquilo que minutos antes tinha reconhecido à Ordem dos Médicos.”
Ordem dos Médicos 

 

"Diga aos portugueses para votarem noutro Governo."
Marcelo Rebelo de Sousa 

 

"Nunca pensei que chegássemos a cinco dias da Festa do Avante sem conhecer as regras do jogo."
Marcelo Rebelo de Sousa 

 

“O encerramento das escolas não se devem ao facto de as escolas serem um local de contaminação mas pelo contrário a escola deve-se ao facto de a escola ser um local de contacto ser um local que favorece naturalmente a contaminação.”
António Costa 

 

"A escola, em si, não transmite o vírus."
António Costa 

 

"O estudo do Instituto de Saúde Pública UPorto concluiu que não existe ligação direta entre as infeções da covid-19 e utilização do transporte ferroviário na Área Metropolitana de Lisboa.”

Pedro Nuno Santos

 

“É altura de deixarmos de pôr o país nas bocas do mundo, dizendo que a informação não é boa. Isso até nem é patriótico.”
Graça Freitas

 

“Uma vez que estive na reunião do Conselho de Estado a aplicação STAYAWAY COVID devia-me ter alertado. E não alertou.”

Rui Rio

 

"De acordo com estudo preliminar, o excesso de mortes em 2020 poderá dever-se à temperatura elevada."

António Costa

 

A liberdade e os outros

por Teresa Ribeiro, em 07.10.20

Sofia foi este fim de semana a um casamento onde estiveram 200 convidados. Eu não conheço a Sofia, mas por causa dela durante 14 dias vou evitar algumas pessoas e reforçar os cuidados no convívio com aqueles que tenho de contactar diariamente. Custa-me condicionar assim a minha vida, mas não quero ser um risco para ninguém. Mal sabe a Sofia, que nunca vi, mas que está todos os dias em contacto com a minha filha - que vive comigo - o trabalho e preocupação que o seu programa de fim de semana me está a dar. Podia agir como se nada fosse? Podia. Mas dei cálculo de probabilidades na escola e uma festa para 200 pessoas, onde se come e se dança durante horas, é um risco. Se apanhar o bicho através da minha filha, ao menos sei que fiz o possível para o não transmitir a ninguém.

Haverá quem considere isto excesso de zelo, ou até mesmo histeria. A questão é que não tenho bola de cristal. As estatísticas que alguns gostam de brandir, revelam que o novo coronavírus faz poucas baixas e afecta seriamente pouca gente, mas nunca poderei saber, em antecipação, se todas as pessoas que pertencem ao meu inner circle vão reagir bem a uma investida do bicho. Daí as minhas cautelas e caldos de galinha. Daí ter também dificuldade em perceber aqueles que fazem questão de continuar na sua vidinha de sempre, reivindicando o direito a viver como querem e lhes apetece.

Ao fazê-lo, ao desprezar as normas de segurança sanitária, todos os dias atentam contra a liberdade dos outros, pois  expõem-se e, pior,  impõem-se a terceiros. Incluindo familiares, colegas e amigos. Mas esta é a parte da liberdade individual que não lhes interessa discutir: a que afeta os outros. 

 

Vírus de Estado

por José Meireles Graça, em 06.10.20

Lobo Xavier, a quem desejo rápidas melhoras (desejo mesmo: não se deve querer o mal dos outros e além do mais aprecio quase tanto a pessoa como detesto a personagem política) apanhou a Covid. Hoje soube-se que, aparentemente, não infectou ninguém na reunião do Conselho de Estado de 29 de Setembro, um órgão criado para o presidente da República fingir que ouve várias correntes da sociedade civil e da elite, e os teóricos representantes desta para fingirem que sabem o que uma é e que pertencem à outra.

A reunião foi na terça-feira passada e nela estava Ursula von der Leyen para dizer coisas pias, uma etapa no seu tour da União com aquele meritório propósito.

Lobo Xavier soube que era pestífero no domingo dia 4, disso informou a Presidência, e os presentes na reunião, avisados, correram a fazer testes. Marcelo não, que já tinha feito. Cidadãos preocupados, aliás, cientes de que Marcelo é hipocondríaco, suspeitam que é pouco provável que apanhe a Covid, sortudo como é, mas não é de excluir que à força de esgaravatar as fossas nasais ainda venha a ter um problema do foro otorrinolaringológico.

A menos que ainda venha a aparecer outro infectado tudo acabou portanto em bem.

Ontem porém era dia de a classe política abrileira se comemorar e às imaginárias conquistas do republicanismo e Marcelo, pela quarta vez, orou as mesmas irrelevâncias dos três anos anteriores, com o costumeiro discurso cheio de mensagens e recados para os outros pastores da grei. O autarca da capital achou que também tinha coisas a comunicar (uma impossibilidade ontológica – Medina é capaz de falar mas não de dizer seja o que for que valha a pena ouvir) e os partidos políticos, dentro da tradição, censuraram ou aplaudiram o discurso com o paleio de chacha que usam para estas marés.

Sucede que a assistir à elocução marceliana estava o PM, o presidente da AR, os quatro presidentes dos tribunais superiores e cinco vereadores da Câmara de Lisboa, tudo gente estimável que desperdiçou a oportunidade de não pôr ali os pés.

Ursula não estava nem tinha de estar (coitada – que estopada deve ter sido a reunião de terça com o incontinente Marcelo) mas, se calhasse fazer sentido participar das cerimónias, não compareceria porque, segundo os regulamentos em vigor, se isolou até hoje – diz a própria.

Temos portanto regulamentos em vigor que se aplicam a toda a gente, Frau Ursula incluída, mas não ao nosso Presidente, nem ao nosso Primeiro-ministro, nem ao presidente do Tribunal Constitucional.

Não os censuro. Eles sabem, eu sei, e toda a gente com um mínimo de discernimento percebe que quem fez um teste com resultados negativos não tem, senão por um excesso de cuidado, de se autoisolar à espera de fazer um segundo.

E depois, se as autoridades acham que os direitos constitucionalmente garantidos podem ser torpedeados em homenagem ao cagaço que induziram nas pessoas comuns, não parece excessivo que leis e regulamentos possam sofrer um ligeiro entorse se quem as faz se exime ao seu cumprimento em nome da festa do regime.

Dito de outro modo:  quem pode o mais pode o menos. Ursula, provavelmente, não entenderia o raciocínio. Diabo de alemã.

Uma Educação

por Ana Cláudia Vicente, em 13.09.20

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[Izusek/Getty Images]

"Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão."

Agostinho da Silva, Considerações e outros textos (Assírio & Alvim, 1988).

 

Os que ainda não (re)começaram a escola estão ao rés disso. Este é um Setembro menos espontâneo, menos lento e menos leve. Há hesitações, receios; há também determinação, muita ânsia de reencontro. Viver meio ano fisicamente distante dessa comunidade - para muitos, a maior constante na primeira fase da vida - foi coisa que até agora, nesta zona do mundo e nas gerações mais recentes, poucos tiveram de suportar. O que não significa que se não tenha aprendido.

Ao longo destes meses, os que decidiram continuar a aprender e a trabalhar com quem aprende aceitaram a empreitada substancial de manter viva uma realidade que não é um conjunto de edifícios, campos e canteiros. Da Primavera ao Verão, dias houve em que foi pesado o esforço de crianças e jovens, famílias, professores e outras entidades no desemaranhar de questões que obstavam à escola: subsistência em contexto de desemprego; reorganização de casa e rotinas de trabalho; adaptação de espaços; investimento em material; assistência à família. Houve maior franqueza sobre o estudar e as suas dificuldades, a pouca literacia, a frágil relação com os livros. E houve cansaço, e tensão, e disrupção, e deslizamento. 

Quem participou desta realidade também teve ocasião de observar muitos dos mais novos chamarem a si a responsabilidade de adaptação tecnológica das condições de comunicação com os mais velhos, incluindo pais, avós, professores. Viu direcções, coordenações e autarquias organizarem plataformas de distribuição e estruturas digitais com não muitos recursos. Viu empenho pessoal e cooperação. 

Se os meses de Março a Julho tiverem realmente sido uma educação, as gerações que viveram este período talvez não deixem esquecer que, para existir escola, tem de haver uma comunidade educativa em que ninguém é espectador.

Heróis

por Pedro Correia, em 06.09.20

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«Vem aí a segunda vaga ou a segunda onda de medo. A segunda oportunidade para a coragem e para conhecer os verdadeiros heróis. Ouvi que Mário Nogueira já começou a colocar entraves aos professores nas aulas, que os magistrados do Ministério Público acham que ainda não há acrílicos suficientes nos tribunais para os proteger, que os médicos estão reticentes em voltar aos hospitais e que os funcionários públicos que não ficarem de baixa mas sim em teletrabalho querem aumento de ordenado pelos "custos acrescidos" de trabalhar em casa. Sim, tivemos muitos "heróis" na primeira vaga. Professores em casa, tribunais fechados meses a fio, médicos e enfermeiros (tirando os que, de facto, atendiam os doentes covid, uma minoria) resguardados em casa enquanto lhes batiam palmas às janelas. Mas os verdadeiros heróis foram outros: os trabalhadores dos supermercados, os camionistas e os trabalhadores dos armazéns que traziam os produtos para os supermercados, os pescadores e os trabalhadores agrícolas, a maior parte deles imigrantes, vivendo em contentores, trabalhando sem máscaras nem distanciamento social. Enquanto todos estiveram trancados em casa, foram eles que garantiram o confinamento, foram eles os ignorados heróis. Agora, que vamos ensaiar a normalidade, vamos ver como se portam os outros.»

 

Miguel Sousa Tavares, ontem, no Expresso

O novo (e surpreendente) discípulo da China

por João Pedro Pimenta, em 05.09.20

Lê-se e não se acredita, nesta altura do campeonato pandémico. O estado de Victoria, na Austrália, vai prolongar o estado de emergência por seis meses. Não é semanas, é meses, e só porque o parlamento chumbou a vontade do executivo que era de MAIS um ano. Isso depois de vermos cenas de cidadãos a serem selvaticamente presos pela polícia por terem tido de sair de casa por algum motivo, ou de, há poucos dias, uma mulher grávida ser detida na sua própria casa por escrever comentários contra o lockdown vigente.

Na Austrália tanto criticaram a China no início e agora têm uma política ainda mais restritiva. A diferença é que na China vigora um regime totalitário, e na Oceania um (suposto) regime democrático, o que torna as coisas ainda mais graves. Já é suficientemente mau que o bloqueio continue por meio ano (e se antes disso não houver mais casos? Prolongá-lo-ão?). A retaliação contra quem se lhe opõe é digna de qualquer regime autoritário. Ao mesmo tempo, sabe-se agora que o país vai enfrentar a sua maior recessão dos últimos sessenta anos, com uma queda brutal do PIB. Ainda assim, a segunda região mais populosa, com algumas dezenas de casos de covid pelo meio, pretende andar mais meio ano em estado de emergência. A China está mesmo a ganhar a parada e não é na economia: é no modelo político.

 

A mão americana na desestabilização das relações China-Austrália |  AbrilAbril

Proposta de leitura

por jpt, em 03.09.20

Presidência-da-Republica.jpg

Um excelente, mesmo imperdível, texto do co-bloguista José Meireles Graça, publicado no "Observador": "Nada de Novo". 

 

"Can't touch this"

por Cristina Torrão, em 05.08.20

O Dr. Quentin J. Lee, Diretor de um liceu no Alabama, fez um vídeo à volta do clássico "Can't Touch This", de MC Hammer, a fim de sensibilizar os estudantes para as regras de higiene, a propósito da pandemia.
Eu, se fosse professora, divulgava-o na minha escola, até porque também se aprende inglês.

Os rangers da COVID-19

por Teresa Ribeiro, em 27.07.20

A intrépida dona da frutaria, onde costumo abastecer-me, esteve desde o começo da pandemia a fazer o seu statement diário. Sempre muito atarefada, movimentava-se na loja sem máscara - enquanto tal foi permitido - e a espalhar olhares de desdém por quem lá passava, devidamente protegido. É claro que com esta atitude levou vários dos seus funcionários a inibirem-se de usar máscara. A balda era tanta que deixei de lá ir. Há dias reparei que tinham a porta fechada e nela colado o aviso: "Encerrados por motivos de COVID-19". Seis infectados, soube entretanto. De uma equipa de 12.

Na tasca perto do escritório, o ambiente que se via da rua era igualmente descontraído, com o dono a aviar copos ao balcão de máscara ao pescoço, a um friso de clientes, na sua maioria idosos, sem protecção. Também fechou. E vão dois.

Há gente que todos os dias se arrisca, mas não tem alternativa. Gente obrigada a deslocar-se em transportes públicos em hora de ponta e pessoal de saúde, entre muitos outros. Estes, que agora estão de molho, tinham. Mas preferiram mostrar ao vírus quem era mais macho. Agora já sabem.


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