Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

A esplanada

jpt, 06.04.21

arcadas.jpg

(Postal de ontem, aqui)
 
Ainda que algo decadente, devido a recente mudança de proprietários e também dado o acentuado envelhecimento da clientela, esta é a "minha" esplanada lisboeta. Tem uma boa "imperial". E um bom ambiente: gente educada e gentil no serviço (uma tradição de décadas que une as quatro gerências que lhe conheci). E onde encontro amigos e (ex-)vizinhos que vêm da primária, do liceu, da adolescência. E também da juventude adulta. E até, imagine-se, feitos nesta era cinquentenária. Ali se fala de tudo: de trabalho, do ânimo - nosso e dos outros-, de política, de futebol, da saúde própria e alheia, do rame-rame, dos nossos queridos, de gastronomia e culinária, de livros, das memórias e até ainda dos anseios, e (hélas, já não) de mulheres. E durante tudo isso bebe-se...
 
Porque hoje reabriram as esplanadas li neste rossio facebook vários desvalorizando o nosso afã convivencial. Aos que aqui assim noto sei-os afectos a esse constante cerzir da pobre manta de retalhos que associa "direita" a "enfado" com o povoléu, o eunuco blaseísmo "lisboeta". Lembro então que George Steiner, que não era "marxista cultural", definiu a "Europa" como um espaço onde há ... cafés.
 
Por isso, porque sou europeu - e, matizadamente, europeísta - hoje ao fim da tarde, cruzado o Tejo irei até ao "Arcadas". Para uma ou outra imperial. E, talvez, uma abaladiça em formato uísque. Espero que estejas lá.

Fim da vaga

jpt, 05.04.21

002_Sesimbra.jpg

Finda a quarentena filial e a clausura concelhia deixaremos hoje esta enseada atlântica, norteando-nos rumo às cercanias das águas do Trancão...
 
Desde os tempos universitários que aqui não pernoitava. Velho vou mas então a vilória já não era este pitoresco feito da miséria da faina a remos e da "natureza" amanhada a enxada. Noto agora que se veio a tornar viçoso bairro social, de kebabarias e pizarias, alumínios e marquises. Antes assim!, direi realista. Porquê assim?, respondo crente, neste meu diálogo de hoje, vendo chegar a neblina matinal, enregelando a até entusiástica reabertura da esplanada fronteira ao mar, nisto da bica ainda obtida ao postigo mais o jornal "Record" para me legitimar o assento.
 
Agora? Camioneta rumo à urbe. Pois nova era, fim de vaga. E cinquentão decidido a recomeçar vida, que mo permita o Covid! Que nos permita o Covid!

"Impedidos de beber café ao balcão"

Pedro Correia, 05.04.21

thumbnail_20210405_095214[1].jpg

thumbnail_20210405_095253[3].jpg

 

Vivemos no tempo das lamúrias e das queixinhas. Que, mesmo quando não existem, são inventadas para efeitos jornalísticos.

Leio no Expresso (destaque de páginas centrais, na última edição) que alguns chineses residentes em Portugal se sentem melindrados ao ouvirem designar por "vírus chinês" esta pandemia que já provocou mais de 16 mil vítimas mortais no nosso país - o presidente da Câmara de Viseu, ontem falecido aos 59 anos, foi uma das mais recentes. 

Não entendo esta queixa. Se o vírus que tem feito paralisar o mundo - com um rasto de quase três milhões de mortos e mais de 130 milhões de infectados à escala global - começou na China, denominá-lo pela origem geográfica não é matéria de opinião: é questão de facto. Estigmatizados devem sentir-se os espanhóis, ao verem ainda baptizada de "gripe espanhola", mais de um século depois, a pneumónica que causou dezenas de milhões de vítimas entre 1918 e 1920, sem que a sua origem nada se relacionasse com Espanha.

 

Chegamos ao ridículo de ouvir contínuas alusões à "estirpe inglesa" do coronavírus, ou à "variante sul-africana", ou à "variante do Brasil", sem que isto suscite acusações de "discriminação" ou "xenofobia", enquanto se silencia o ponto geográfico inicial da Covid-19 para cumprir a etiqueta politicamente correcta. 

E ainda assim alguns chineses se queixam.

Mas queixam-se afinal de quê? E queixar-se-ão mesmo?

 

Recorro ao Expresso. "Há casos de imigrantes chineses impedidos de beber o café ao balcão, por receio de contágio dos empregados", destaca o jornal em maiúsculas. Deixando-me mais perplexo.

Então não temos estado todos impedidos de "beber café ao balcão", durante estes 14 estados de emergência?

Então os imigrantes chineses, oriundos do país que mais produz e consome chá no mundo, desatam a beber bicas ou cimbalinos mal chegam a Portugal?

E são eles que receiam ser contagiados pelos empregados, como esta "escrita automática" dá a entender, ou o contrário?

 

O semanário cita, como fonte identificada, o director de "um jornal chinês em Portugal, o Europe Weekly" (curioso nome "amaricano" para um jornal publicado por chineses no nosso país), que só admite haver "um ou dois episódios esporádicos" de alegada xenofobia. O empresário Y Ping Chow, líder da comunidade chinesa aqui radicada, assegura nunca ter havido agressões. Ao vigilante SOS Racismo "não chegou nenhuma denúncia por parte de membros desta comunidade".

Mesmo assim, o Expresso reserva duas páginas ao tema, sob o título bombástico "Pandemia desperta racismo contra chineses". E transforma um caso isolado, de um suposto estudante chinês que terá sido atingido "com excrementos na cabeça" (!), sabe-se lá por que motivo, num plural em antetítulo sob a cabeça "discriminação", também em caixa alta.

 

Viesse isto noutro periódico e estariam alguns a gritar contra o jornalismo tablóide. Mas como surge estampado nas centrais do Expresso, deve ser um louvável exemplo de "jornalismo de referência". Seja lá o que isso for.

A trapalhada das vacinas

Cristina Torrão, 31.03.21

A vacina AstraZeneca (agora parece que se chama Vaxzevria) foi lançada com a recomendação de não ser administrada a pessoas acima dos 65 anos. Desde ontem ao fim da tarde, a Alemanha estabeleceu que a mesma vacina só deve ser ministrada a partir dos 60 anos!

A polémica com a AstraZeneca começou logo no início, ao ser imposta a restrição da idade. Muita gente ficou desconfiada. Passado algum tempo, foi suspensa, por supostamente causar coágulos sanguíneos no cérebro. A Agência Europeia de Medicamentos acabou por lhe dar caminho livre, dias depois, mas, na Dinamarca, por exemplo, a sua ministração ainda não foi retomada.

Entretanto, na Alemanha, já se contam mais de trinta casos de trombose cerebral relacionados com a toma da AstraZeneca. Nove dessas pessoas morreram. A maior parte dos casos deram-se com mulheres abaixo dos 55 anos, daí a resolução, ontem, de só ministrar a vacina a partir dos 60 anos. Porém, pessoas com mais de 70 também não a deverão tomar! Todos estes percalços põem as pessoas ainda mais inseguras, principalmente, professoras e enfermeiras que já tomaram a primeira dose desta vacina.

Em 2020, a Alemanha geriu bem a pandemia, mas, este ano, quando se pensava que tudo entraria nos eixos, veio o caos. Procedeu-se a um “lockdown light”, logo no início de Novembro (só fecharam cafés e restaurantes), mas, como os casos continuaram a aumentar até meados de Dezembro, decidiu-se o lockdown total, com fecho de cabeleireiros e todos os estabelecimentos não imprescindíveis. Dizia-se que assim o ano de 2021 começaria bem, até porque já se contava com as vacinas.

A gestão das ditas, porém, tem sido uma catástrofe. Organizaram-se grandes centros de vacinação, que acabaram por ficar às moscas, ao não haver vacinas suficientes, e alguns já começaram a ser desmantelados (a ministração das vacinas passará a ser feita pelo médico de família, depois da Páscoa). Tudo isto causou mal-estar na população. Junte-se a polémica da AstraZeneca e o facto de o número de casos ter vindo novamente a aumentar, de há três semanas para cá, apesar de todos os sacrifícios e restrições (cafés e restaurantes estão fechados desde o início de Novembro).

Na manhã de 23 de Março, os alemães não acreditavam nas notícias: o governo federal tinha resolvido decretar uma Páscoa em recolhimento total, que se deveria iniciar logo na Quinta-feira Santa, considerada feriado. Era certo e seguro o fecho dos supermercados. Mas… e o resto? Era feriado para todos? Os funcionários públicos deveriam trabalhar? E quem tinha consulta marcada no médico, ou hora no cabeleireiro? Foi tal o caos, que, ainda nesse mesmo dia, a chanceler Merkel veio pedir desculpa pela resolução, cancelando-a, assumindo toda a culpa e reconhecendo que tinha sido tomada muito em cima da hora.

Com tudo isto, o partido da chanceler, CDU, vem caindo a pique nas sondagens. A escolha do novo líder, no início do ano, não tem ajudado (Merkel há muito anunciara que não se recandidataria nas eleições deste ano). Armin Laschet, Ministro-presidente do estado da Renânia do Norte-Vestfália e considerado uma pessoa ponderada, tem falhado em posicionar-se como novo candidato a chanceler, com tendência para o dislate, pondo as pessoas embasbacadas, assim ao estilo do nosso Rui Rio. Pelos vistos, não conhece o modelo Costa, que faz muitos disparates, mas tem jeito para falar ao povo, bonacheirão e consensual.

Por acaso, calha-me bem que o governo federal tenha decretado a AstraZeneca para pessoas dos 60 aos 69 anos. Sou cismática e já tinha resolvido recusá-la, quando chegasse a minha vez, arriscando ir para o fim da fila. Com 55 anos, e apesar de já ser velhota para o Sr. Carlos Moedas, vejo-me, de repente, inserida no grupo das “mulheres mais jovens”. Isto, claro, se não se cumprir a profecia do meu marido: pelo andar da carruagem, quando eu for chamada, já devo ter atingido os tais sessenta...

HILFE!!!

Estado de Não-direito

José Meireles Graça, 23.03.21

Eduardo Maximino faz aqui um bom diagnóstico do covidismo, começando por contar a história de um velho que foi incomodado pela polícia por estar sentado num banco de jardim a comer uma sanduíche.

O mesmo Eduardo chama hoje a atenção para esta reportagem do Correio da Manhã, com vídeo: um velho é detido por estar a beber na rua e resistir à ordem da polícia para ir para casa.

Nada de novo: aquando da primeira vaga circulou um vídeo em que uma velha sozinha numa rua de Guimarães destratava uns polícias que, sem vestígios de respeito, a intimavam para se fechar em casa. E são dezenas as notícias das pessoas que são incomodadas nos jardins, nas praias e nos calçadões, inúmeras acabando detidas por não evidenciarem os adequados sinais de veneração pela autoridade que muitos agentes estimam a farda lhes dever garantir.

A comunicação social noticia com satisfação, periodicamente, o número de detenções, mas não temos quase nunca direito a saber quem são as vítimas, o que fizeram, e quais as decisões dos tribunais, salvo no caso de prepotências mais escandalosas, como nos Açores, cujos autores ficaram, como sempre ficam, impunes.

Não há mistério nisto: os jornalistas, hoje, têm ainda mais falta de discernimento do que de gramática; e a denúncia, o protesto, não excedem os limites da luta partidária. Ora, esta quase não existe no âmbito da Covid: os partidos que se opõem ao delírio das medidas nem são veementes, nem convincentes, nem consistentes – têm medo da opinião do eleitorado. E este é condicionado pela exposição permanente a números descontextualizados, silenciamento das vozes desalinhadas, dramatização dos internamentos e mortes e promoção de “cientistas” cuja notoriedade depende exclusivamente de cavalgarem o susto epidémico, que querem prolongar para não regressarem à obscuridade de onde nunca deveriam ter saído.

A Covid é, entre outras coisas, uma pescada de rabo na boca: a comunicação social, falida pela maior parte, não hostiliza o Poder do qual depende para apoios e, exangue nos meios, publica notícias que vendem e são, invariavelmente, de copy/paste; o Poder não quer desagradar a uma população que está, ainda, aterrorizada, e, no caso português, conta com as costas largas do combate à Covid para explicar todos os desastres, os que ele mesmo provocou e os que já vinham de trás; os partidos não arriscam quebrar o consenso; e parte da população, a saber os que perderam o modo de vida em nome da quebra das cadeias de contacto, e que estão no mato sem cachorro, são a minoria que já percebeu que há algo de podre nesta história. A isto se soma a infelicidade, que seria desnecessária, de o mais alto magistrado da nação calhar ser um hipocondríaco da linha de Cascais, sem a mais remota noção da vida que têm os que estão na base da pirâmide social.

Quando vi o vídeo, acima referido, do velho algemado enquanto o filho gritava, comentei: A continuarmos a tolerar abusos é apenas uma questão de tempo até os polícias começarem a usar tasers, a americanização dos costumes é no que dá. Mas mesmo assim encontro-lhes desculpa: quando as leis torpedeiam elas próprias direitos constitucionalmente protegidos, as chefias se atribuem a missão de "educar" o cidadão, os autarcas se comportam como tiranetes, o "mais alto magistrado da Nação" é o mais alto hipocondríaco, e não faltam eleitores a subscrever mais poderes para as polícias e maiores rigores penais, não é razoável esperar que os agentes reprimam a sua pulsão para o autoritarismo.

Ingenuidade minha: logo Telmo Azevedo Fernandes, outro cidadão antissocial, veio informar que no site onde se listam contratos públicos figuram compras de tasers, como segue:

Objeto do contrato 

Adjudicante

Adjudicatário

Preço contratual 

Publicação 

 

Aquisição de acessórios e cargas para Dispositivos de Imobilização TASER e Coletes anti faca, para a Polícia Municipal de Lisboa

Município de Lisboa

Antero Lopes Lda

48.553,55 €

20/10/2020

 

Aquisição de consumíveis para arma menos letal (Taser X2)

Polícia de Segurança Pública

ANTERO LOPES LDA

9.400,00 €

23/06/2020

 

Aquisição de dispositivos eletrónicos de imobilização - Tasers.

Município do Porto

ANTERO LOPES LDA

19.932,60 €

27/01/2020

 

Proc. 39/DPIE/2019 - Aq. Taser X2 para a GNR

Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna

Antero Lopes, Lda

52.500,00 €

29/10/2019

 

Aquisição de 30 (trinta) Dispositivos de Imobilização TASER, com respetivas cargas e acessórios para a Polícia Municipal de Lisboa

Município de Lisboa

Antero Lopes, Lda

62.592,60 €

23/09/2019

 

Há mais compras, e mais antigas, de modo que estou desactualizado, além de abananado. E é claro que a compra deste tipo de equipamentos para guardas pretorianas, como são as polícias municipais, virá a prazo a dar lugar a situações que seriam cómicas se não envolvessem a segura violação de direitos fundamentais: amanhã uma discussão sobre estacionamento, ou sobre uma chapada de cimento que um munícipe atirou a um muro, pode dar lugar à imobilização por disparo de taser. Vivam os Rambos e os filmes americanos.

Eduardo acabava o seu texto assim: “… hoje somos condicionados a ver a liberdade como sendo egoísmo”.

Uma boa definição de um Estado de Direito ferido – um dano colateral da Covid, como os doentes que deixaram de ser assistidos por o SNS ter sido mobilizado quase em exclusivo para sossegar as pessoas.

Vacinas, cegueira e desorganização

João André, 16.03.21

Nestas discussões sobre vacinas acaba por se ver um nível de discussão que me confunde. Quando se fala da vacina contra o sarampo, poliomielite ou tosse convulsa, a questão dos (idiotas) anti-vacinas é apenas sobre "a vacina", não sobre a origem dela. Ninguém pergunta qual a empresa que a fornece. Aceitamos que foi aprovada e que oferecerá protecção directa ou indirecta (quando entendemos a diferença). No caso do COVID-19 discutimos sobre o tipo de vacina que receberemos. AstraZeneca, Pfizer, Moderna ou "a russa" ou "a chinesa". Não entendemos os princípios nem como funcionam, mas queremos ou não queremos só porque.

Claro que isto começa com os governantes que também não entendem nada disto e, apesar de serem instruídos por quem o entenda, acabam a dizer asneiras de tempos a tempos. Isto só resulta na população a acumular confusão. Se os políticos não entendem, como o conseguiremos nós? (não é irrazoável). Isto estende-se às negociações sobre a compra de vacinas. Os governantes parecem ter ouvido da AstraZeneca a frase «Temos capacidade para produzir e entregar X milhões de doses por mês» e aceitaram tal declaração como uma promessa. Pessoalmente entendo que terá sido esse o problema com as entregas da vacina na Europa: governantes que não entendem que ter "capacidade" não implica que essa seja atingida de forma regular. O meu carro poderá ter capacidade para atingir 200 km/h na autoestrada sem trânsito e com descidas, mas isso não significa que conduzirei de Lisboa ao Porto a essa velocidade média.

Claro que isto pode ser resolvido se existir uma administração pública com pessoas suficientes para ter especialistas nestas áreas ou, em alternativa, possam contratar consultores para estas áreas (desde que identifiquem tal necessidade). A Comissão Europeia terá muitos especialistas em cotas de peixe ou regulamento para queijos, mas provavelmente nunca terão tido uma única negociação para entrega de medicamentos.

Esta situação vem também demonstrar como este semi-confederalismo da UE não oferece nada. Nem a independência dos estados nem as sinergias dos federalismos. Os EUA têm uma administração federal repleta de especialistas em diversas áreas que trabalham nas suas competências independentemente do partido na Casa Branca ou que domina o Capitólio. A Europa tem especialistas em meia dúzia de áreas e falha nas outras. É uma área mais onde se aprender.

A culpa é de Passos Coelho

jpt, 12.03.21

emig.jpg

Estes são dados do Observatório da Emigração. Aproveito para recordar um postal - "O Milagre das Rosas" - de 2010, no qual ecoei um artigo do Libération (o qual deixou de estar disponível). Portugal fora na década então finda o 3º país mundial com menor crescimento económico e tinha 350 mil emigrantes naquele quinquénio. E para não deixar resumir isto da estrutural emigração portuguesa a dichotes advindos das querelas partidárias, recomendo este artigo de 2019, "Portuguese emigration today", do sociólogo Rui Pena Pires. O qual será insuspeito de simpatias pela "direita".

Há muito a reflectir e mais ainda a fazer para obstar a este constante (e histórico) drenar. Mas há algo mais imediato que poderia ser feito, para melhorar essa necessária actuação. Há um mês aqui deixei nota sobre a execrável afirmação televisiva de Ana Drago, no afã de salvaguardar o actual governo: a disseminação do Covid-19 após o Natal deveu-se às visitas dos emigrantes em Inglaterra, fluxo acontecido durante o governo de Passos Coelho. Os números, consabidos, mostram bem a indecência da formulação. Drago nem sequer é (por enquanto) militante do PS, a vil patacoada não foi uma fidelidade conjugal mas apenas um episódio de prostituição política. 

A questão é a da expressão pública televisiva e sua influência. Já nem falo desta pantomina de haver políticos no activo a fazerem de comentadores, em contextos que lhes encenam poses algo "neutrais", como se autónomos dos seus partidos - o caso mais risível é o da secretária-geral adjunta Mendes, ali ombreando com os aparentes "senadores flanantes" Pacheco Pereira e Lobo Xavier. Ou este Medina, que nos cabe como presidente de Lisboa, também "comentador" a tempo parcial, como se não estivesse a "full-time" em campanha. Mas a questão é para além disso, que pelo menos esses os espectadores reconhecem de imediato como "a voz do partido". A questão é a da pertinência das televisões se encherem destes Drago, simulando "olhares distanciados", analíticos e mesmo críticos. E que nada mais são do que "vozes de dono", cartilheiros.

E este caso, constante, da utilização da emigração portuguesa como invectiva a um governo - que geriu, mal ou bem, uma situação herdada - é um exemplo típico do aldrabismo de gente que é paga para nos "fazer a cabeça". Para baixar a emigração será melhor começar por melhorar a locução. Expugar-nos de cartilheiros, venham de onde vierem. E depois fazer o resto...

Rasgões no tecido

José Meireles Graça, 12.03.21

Anteontem foi dia da renovação presidencial, por mais 15 dias, do estado de emergência, e ontem da apresentação, com trombetas e fanfarras, do plano de desconfinamento.

Nos próximos dias choverão as críticas às contradições, incongruências, descasos e omissões do segundo dos documentos; o primeiro é apenas a reedição dos anteriores, com uns retoques; a abstenção e voto contra de alguns partidos honra-os, ainda que seja de suspeitar que as motivações não sejam as melhores; é provável que venha uma nova revoada de anúncios de apoios a pessoas e empresas, sem que a comunicação social se dê ao trabalho de escarafunchar a taxa de execução dos anteriores; e nas notícias os que ainda podem recuperar os negócios mancos e crivados de dívidas procurarão ansiosamente saber se fazem parte da primeira, segunda ou vigésima gota – o desconfinamento é a conta-gotas, a miraculosa solução encontrada para dar a impressão de que tudo o que ficou para trás era necessário e sensato e que os pais da pátria estão à cabeceira do cidadão velando por ele.

Suspeita-se – eu suspeito – que o instinto de Costa já lhe deve ter dito que os chamados cientistas, pela maior parte, estão às aranhas com o problema, e que não pode seguir a opinião de quem tem realmente experiência, isto é, alguns epidemiologistas não deslumbrados com o súbito estatuto de oráculos, porque ela choca com aquilo em que a opinião pública acredita.

Enfim, não se pode ter razão contra a opinião pública; a meta dos 70% de vacinados até fim de Setembro não será cumprida mas, à medida que a vacinação avança com os seus vagares europeístas, os seus efeitos acumular-se-ão com os do bom tempo e o do número de recuperados da infecção; e quando a situação clarear uma boa dose de propaganda, a falsificação do passado, a ajuda da comunicação social e a bonanza dos dinheiros europeus talvez sejam suficientes para que os responsáveis não caiam logo abaixo do poleiro.

Resta que nem todos precisam de ser reeleitos. E, por infelicidade trágica, o único responsável político que podia ter alguma independência da opinião pública, porque arrumará as botas daqui a cinco anos, é o campeão da histeria covidesca.

Fica para memória, ao menos da minha, o que escrevi no Facebook mal soube da renovação:

O decreto presidencial é obsceno, porquanto: i) O estado de emergência não deve ser prorrogado todos os quinze dias porque isso esvazia por completo de sentido a limitação temporal que a Constituição estabelece – não estamos em guerra; ii) Há muito que se sabe que a maior parte das pessoas que não viram os seus rendimentos diminuídos está a favor do confinamento, e a maior parte dos que os viram diminuir ou desaparecer, ou ainda os que têm filhos em idade escolar e com eles se preocupam, estão contra, mas não lhes adianta nada porque estão em minoria; iii) O Governo é hipócrita porque se atrela à popularidade esmagadora do hipocondríaco que se senta em Belém, quaisquer que sejam as reservas que tem sobre este estado de coisas, e timorato porque tem medo de que se houver, mesmo que pouco provável, alguma derrapagem, ela será imputada por uma comunicação social acéfala e ignorante a quem tomou a decisão de aliviar; iv) Os partidos políticos sofrem da mesma cobardia, enfermam da mesma ignorância, e estão tolhidos do mesmo medo.

Conclusão: o Presidente é desprezível, os partidos abomináveis, as elites um nojo e o povo, esse, merece que o céu lhe caia em cima da cabeça quando chegar a hora de pagar esta loucura. É triste que os que mais sofrem por esta ausência de sentido do bem comum sejam igualmente chamados a remendar o tecido no qual esta mole de egoístas não cessa de abrir rasgões.

Covidabuso

José Meireles Graça, 05.03.21

1024.jpg

Está tudo errado: 1. A polícia dirigir-se a um velho sentado num banco de jardim, quaisquer que fossem as razões dele, é um abuso de autoridade em si, o velho não tem de apresentar justificações e a desobediência seria legítima; 2. A fotografia publicada nas redes não deturpa o que aconteceu, o texto que a acompanhava é que sim; 3. Quem determinou que os bancos de jardim estão interditos, rodeando-os de fitas poluidoras dos oceanos, precisava de umas canadas metafóricas nas orelhas peludas. Se isso decorre da lei (não fui verificar, não tenho interesse em escabichar prepotências), convirá lembrar que a leis iníquas não é devida obediência; 4. A PSP, ou qualquer outra polícia, não tem de "alertar os cidadãos para a importância das medidas de prevenção contra a pandemia" porque os agentes não têm competência para serem professores de saúde pública nem de coisa alguma. O chefe Magina, que tem esse entendimento, talvez devesse concorrer a um lugar em Beijing; 5. Os partidos políticos, ao coonestarem os abusos como fazendo parte da ordem natural das coisas, degradam a democracia, o que é natural sendo de esquerda, e asqueroso sendo de direita.

A carta aberta às televisões e o sindicato dos jornalistas

jpt, 26.02.21

carta aberta.jpg

Será, até estatisticamente, pacífico dizer que as estratégias estatais para enfrentar o Covid-19 neste corrente Inverno foram um fracasso. Estamos confinados, com os custos económicos e sociais gigantescos presentes e futuros. Mas andámos qual "ilha no topo do mundo" devastado pela doença. E isto depois do "milagre que é Portugal", o sucesso (enfim...) da Primavera passada. Um caso óbvio de "tarde piaram" os possidentes. Nesse âmbito o que acontece? Um conjunto de "cidadãos muito respeitáveis" (como são definidos num editorial algo incomodado de um jornal de "referência"), um feixe da "nobreza de toga", por assim dizer, faz uma "Carta Aberta" insurgindo-se contra: a) a extensão dos telejornais (matéria bem antiga, inscrita na concorrência por audiências, como todos sabem); b) o estilo confrontacional dos entrevistadores televisivos (bem, pelo menos já José Sócrates, aquele político que nenhum destes "cidadãos respeitáveis" criticou em carta pública, manipulava pressões políticas, financiamentos públicos e empresariais para afastar alguns destes "confrontacionistas"); c) a tendência para criticar governo e administração pública, que vem sendo dita antipatriótica. E terminam com: d) a denúncia de agendas políticas subterrâneas e inditas, quais "mão invisível", ligadas ao capital privado mas capazes de poluir o serviço estatal, manipuladoras do jornalismo.

Não elaborarei muito sobre este documento. Pois cada cabeça sua sentença. Mas lembrou-me que, em 2018, o peculiar presidente do Sporting Clube de Portugal, dr. Bruno de Carvalho, na efervescência de uma Assembleia-Geral do clube, lançou o repto a associados e adeptos (o agora dito "Universo Sporting") para que não comprassem jornais nem vissem as televisões (ou seja, não lhes consumissem a publicidade). As reacções foram indignadas, em particular da "classe" (ou "corporação") jornalística. O próprio Sindicato de Jornalistas contestou as declarações desse presidente de uma colectividade desportiva considerada instituição de utilidade, dizendo-as um atentado à liberdade de imprensa. Entenda-se bem, o presidente de um clube disse: "não vejam as estações generalistas, não comprem jornais". E o sindicato notou um atentado à liberdade de imprensa. Isabel Nery, da revista Visão e dirigente sindical, anunciou que o Sindicato recorreria às entidades tutelares em defesa dos profissionais do sector, até mesmo juridicamente, soube-se depois. Explicitando que essa é uma posição estrutural do sindicato pois "estamos a falar de desporto mas se estivéssemos a falar de outra coisa qualquer a posição do sindicato seria idêntica".

Passaram três anos. Surge esta posição intrusiva sobre o jornalismo, que intenta cercear e moldar o espírito crítico, de forma muito mais aguda do que fez o peculiar Carvalho havia feito, e até explicitando serem os jornalistas agentes de agendas inditas, falhos de deontologia. Gente galardoada (Carvalho e Horta são prémio APE, Alice Vieira - viúva de Mário Castrim, caramba, a prestar-se a uma coisa destas! - já tem escola com seu nome, Lourenço é oficial superior e Benavente foi governante, como exemplos). Mas muito mais significativo que isso, alguns dos signatários dirigem actualmente instituições estatais ou articuladas com o Estado - que eu saiba pelo menos Bebiano, Silva, Rodrigues e a "directora do Museu do Aljube que não sabe o que é o Gulag", Rato. Ou seja, altos quadros da administração pública e da sociedade civil convocam alterações no livre-arbítrio jornalístico e explicitamente põem em causa deontologia de largos sectores da classe. E exigem a cessação de críticas ao Governo e à Administração Pública. Enquanto especulam sobre interesses clandestinos aos quais os jornalistas estarão algemados.

E que diz o Sindicato dos Jornalistas sobre estas acusações? Nada! Pois o respeitinho pelo governo é muito bonito. Mesmo...

Remover Padrão e afins...

jpt, 24.02.21

fmp (1).jpg

Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra "as perguntas do Correio da Manhã", apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo - entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado "corajoso" Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões "à esquerda", constatam - talvez antipatrioticamente - o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma "devastada armada" e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham...

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima "questão colonial" veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do "team" governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam "racista" essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da "moldura humana", em épocas transactas dita, e temida, "eleitorado volátil".

É no âmbito desta "operação racial" que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário - e não meramente pessoal - desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político - e não meramente "questão cultural", como alguns resumem - logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a "Pátria" de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enfim, desabafo feito, digo ao que venho. Será curial mas não muito elegante aproveitar este blog para chamar a atenção para textos no meu blog pessoal, o discreto Nenhures. Mas faço-o hoje. Pois a propósito deste "bota-abaixo o Padrão" o meu amigo Tiago Matos Fernandes - que conheci há décadas em Moçambique, onde trabalhou como voluntário e depois investigou para a sua excelente tese de mestrado -, botou um belíssimo texto no facebook, "o mundo num postal de facebook" como lhe disse. O Tiago pouco ou nada concordará com o ditirambo que eu aqui acima coloquei. Mas ainda assim deixou-me colocá-lo lá no Nenhures. Não o coloco aqui pois é algo longo para um blog colectivo e generalista. Mas muito o recomendo e por isso convido os leitores do DO a lerem-no: Enquanto Vasco da Gama dormia.

 

Vasco Pulido Valente e a Covid

José Meireles Graça, 23.02.21

Passou-me isto. Tenho desculpa, que agora que as neves nas minhas fontes se acumulam, como ao conselheiro Acácio, o tempo passa muito depressa.

Se perguntado, diria que foi aí há uns quatro ou cinco meses que VPV morreu. Mas não. E se houve época, desde há muitos anos, em que faz falta a sua maneira única de ver o mundo e nós nele, é esta – morreu pouco antes de um vento de loucura começar a soprar, no ano que passou.

A loucura consiste nisto:

Há uma pandemia benigna, excepto para os muito velhos, originada segundo tudo leva a crer na China. Os internamentos levam semanas e podem exigir tratamento em unidades especializadas, com o risco de entrarem em ruptura. O contágio pode dar-se, parece, também por infectados que não sabem que o estão por não terem sintomas.

Mas: O vírus requer condições para se transmitir, e um bom texto sobre que condições são essas, com base nos conhecimentos actuais, e as políticas públicas a seguir para manter a doença dentro de limites aceitáveis (isto é, sem que ninguém morra por falta de assistência), poupando os danos demenciais que têm sido infligidos à economia, é por exemplo este.

Não faltam cientistas com as mais diversas formações (a maior parte das quais, aliás, irrelevantes para abarcar na sua totalidade o fenómeno na sua dimensão patogénica), a ignorar quase sempre as consequências, inclusive de saúde pública, da sua fixação mórbida na Covid, soprando portanto insensatamente as brasas do pânico; e muitos outros com a mesma categoria académica e prática a tentar parar o estouro da boiada. Mas os primeiros ocupam a quase totalidade do espaço mediático, aqui e em toda a parte. E isto levou a que o poder político fizesse, e continue a fazer, tudo e o seu contrário para sossegar o eleitorado, confiante em que isso lhe reforça a popularidade; e que, quando a pesada factura do desemprego, da pobreza, da miséria, das falências, das mortes por outras patologias não tratadas (que vão de metade a mais do que as mortes por Covid, dependendo de quem faz os cálculos), até mesmo dos suicídios e danos na formação de crianças e jovens, chegar, a desculpa da necessidade das medidas para combater um mal maior fará esquecer a irresponsabilidade de quem tomou uma litania de decisões nefastas.

Entre nós, há quem sustente há muito uma guerra sem quartel à maluqueira instalada, e com bons argumentos. Mas como o medo se generalizou, e vários mandarins da opinião o cavalgam com larga audiência; como os danos ao tecido económico ainda não afectam a maior parte da população, que vive à sombra do Estado ou de empresas que este ajuda quando põem os trabalhadores em casa, como se toda a dívida daí resultante não fosse para pagar; como os vencidos são para já os mais mal pagos, por estarem em sectores mais duramente atingidos: as medidas, por irracionais que sejam, têm apoio maioritário.

Chega de Covid, excepto para lembrar o seguinte: Anteontem, a notícia era que os EUA tinham ultrapassado os 500.000 mortos, credo. Pois tinham: 0,154% da população, menos que a Bélgica, o recordista (0,188%), o Reino Unido (0,177%), a Itália (0,159%) e… Portugal (0,157%). Mas 500.000 é um número redondo, bom para atirar para a fogueira das descontextualizações, antes do anúncio dos detergentes.

Voltando ao princípio: Que diria Vasco Pulido Valente de tudo isto? Não era pessoa para emprenhar pelos ouvidos, mas era dono de uma memória prodigiosa e um leitor voraz – ao ponto de, anos a fio, ler aí umas 5 ou 6 horas por dia. Clássicos da literatura e da história, além de ensaios, revistas e jornais, tanto portugueses como ingleses, autores contemporâneos, pesquisa… Disto me pude aperceber nos anos, infelizmente poucos, em que pude conhecê-lo e ao seu feitio condescendente e bem-educado à moda antiga, sem  vestígio do sarcasmo corrosivo com que toda a vida cobriu os podres e insuficiências do país e dos seus contemporâneos de relevo e que, no trato, reservava apenas para idiotas.

A viúva, minha amiga desde 2011, que me perdoe este exercício, em boa parte abusivo, de querer associar a minha insignificância ao merecido prestígio de quem já cá não está, pondo-lhe na cabeça ideias que talvez não viesse a ter.

É que duvido que lhe escapasse a imensidão de testemunhos e opiniões cépticas sobre o bem-fundado da maré confinamentista e do seu corolário de medidas avulsas, mais irracionais umas do que outras. E imagino que com a sua intuição, de que não deixou herdeiros, fundada numa vasta cultura histórica, não deixaria de encontrar paralelismos e contrastes com outras epidemias, outras loucuras colectivas e outros desenlaces dramáticos.

Disse eu, no dia em que morreu, que não iríamos pensar melhor. Pois não, mas temos de tentar. E se não podemos ter a mesma cultura, e ainda menos a mesma lucidez, ao menos alguns de nós não hesitam em afastar-se do cortejo maria-vai-com-as-outras. Ele nunca hesitou.

Um descalabro

Sérgio de Almeida Correia, 17.02.21

IMG_8012.jpg

O gráfico ontem publicado pelo Diário de Notícias que ilustrava uma notícia com o título "Portugal é o segundo país mais mortal da UE e o segundo do mundo" é bem o espelho do estado a que o país foi conduzido.
Se, por um lado, o Governo confiava na responsabilidade dos portugueses quando se predispôs a abrir a "janela" do Natal e do Fim do Ano, não é menos verdade que foram esses mesmos portugueses que mais contribuíram com a sua irresponsabilidade para a presente situação.
Depois, talvez tenha havido um excesso de confiança por parte das autoridades, que a somar-se a uma gestão errante e à emissão de sinais contraditórios por parte de alguns dirigentes, contribuíram decisivamente para o descalabro que se lhe seguiu.
A correcção do actual quadro e um regresso à normalidade possível continuam por isso, e não obstante todos os recados dos especialistas, a ser no mínimo problemáticos.
O país e os portugueses empobreceram muitíssimo mais do que aquilo que seria expectável com uma gestão mais conservadora, mais impopular e mais previdente desde o início, que tivesse antecipado sempre os piores cenários e houvesse sido acompanhada de medidas mais duras que não contemporizassem com a rua e os comentadores do "sistema".
Sei que de pouco ou nada vale o que por aqui se opina. Até porque não sendo especialista na matéria me limito a observar a realidade e a procurar a informação que está ao alcance de todos para me ir esclarecendo e pensando nos problemas que nos afligem.
Espero, posto isto, que o processo de vacinação possa avançar e concluir-se o mais depressa possível, sem novos atropelos, facilitismos e "golpes baixos" como aqueles que têm sido relatados.
Essa é uma das vertentes impostas pelo Covid-19 ao nosso quotidiano futuro e até que seja possível um regresso o mais parecido possível com a liberdade de que antes desfrutávamos.
A outra decorre dos resultados da “excursão” que a OMS promoveu a Wuhan.
Pensar que alguma vez, mais de um ano depois do que aconteceu, seria possível chegar a alguma conclusão sobre a origem do vírus seria pouco mais do que pura ilusão.
Com o terreno devidamente limpo, com o anfitrião a esconder os dados em bruto, com toda a gente amestrada, sem que quem investiga tivesse liberdade de se poder deslocar e contactar com quem queria e como queria sem o espartilho dos controleiros da praxe, o mais natural era que os resultados fossem inconclusivos. E não passassem das boas intenções.
Outra coisa, ademais, não seria de esperar da organização da "excursão". Estava-se a ver que a forma condescendente, para não dizer subserviente, como a OMS admitiu ser tratada, e participar numa encenação, para poder entrar no país, já trazia em si e antecipava que o objectivo principal da empresa seria ilibar o anfitrião, mais o regime, de qualquer responsabilidade no que aconteceu.
Ao admitirem que esse seria o caminho – a meu ver errado – para o “sucesso”, esqueceram que ficaria sem resposta a principal razão para que só depois de muita insistência internacional e na sequência dos acontecimentos do ano passado fosse proibido o comércio de espécies selvagens nos mercados.
E aí cometeu-se um erro de julgamento. A China ignorou que a falta de transparência e de resultados conclusivos funcionariam contra si, e não só a estigmatizam ainda mais aos olhos da opinião pública mundial, como tornam mais claro que o caminho a percorrer para a credibilidade e respeitabilidade internacional ficaram mais estreitos, com o consequente aumento, daqui para a frente, do escrutínio internacional das suas acções. De todas.
Uma pseudo-investigação como a que a OMS conduziu no país, sujeita às baias impostas pelo regime, se internamente pode responder às necessidades de propaganda e afirmação, funcionará externamente sempre contra si e contra a imagem internacional do país e dos seus dirigentes, o que se agrava quando se vê que o inquilino da Casa Branca mudou e o desanuviado clima político em Washington limita hoje, como nunca, a margem de manobra da liderança chinesa.
Sem sabermos o que o Ano Lunar do Boi nos reserva, pouco mais haverá do que confiar nas vacinas e na providência, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para sairmos do vergonhoso lugar em que as estatísticas do Covid-19 nos colocaram.

Ambiente de trabalho VI

Teresa Ribeiro, 15.02.21

Tudo começou com a democratização do ensino. Algo que urgia, mas que esbarrou num mercado de trabalho impreparado. Num país sem investigação nem iniciativa empresarial nas mais diversas áreas, não havia lugar para muitos licenciados. Por isso no fim da linha tantos passaram a desembocar no desemprego, na emigração, ou na precariedade. A desvalorização do trabalho intelectual inicia-se assim, em meados dos anos 80, rumo à proletarização das mais diversas profissões, sobretudo na área de humanidades, mas não só.

Hoje é comum um empresário pagar mais à empregada que lhe limpa a casa do que aos licenciados que emprega no seu escritório. Isto porque as empregadas domésticas, ao contrário  destes novos proletários, beneficiam da lei da oferta e da procura. 

Com a crise pandémica esta vulnerabilidade aumentou. Sei de gente que esteve seriamente doente e que nunca parou de trabalhar. Isto de o trabalho intelectual poder ser feito à distância tem sido - para muitos doentes COVID e não só - uma dificuldade acrescida. Porque a entidade empregadora presume que em casa, mesmo doente, dá para ir trabalhando.

Esta pressão verifica-se sobretudo junto dos que trabalham em PME's. Como estas constituem, como se sabe, a esmagadora maioria do tecido empresarial português, estamos a falar de muita gente. De profissionais cujas equipas se resumem, tantas vezes, a eles próprios. Em cujas funções sabem ser insubstituíveis. Circunstância que não os beneficia, pelo contrário. Pois se não podem parar, se porventura um dia o fizerem, pode significar o fim de um contrato de trabalho.

Mas entre os profissionais que não podem trabalhar à distância também vejo muitos a arriscar todos os dias um possível contágio, porque aceitam trabalhar sem condições de segurança e o motivo é sempre o mesmo: a precariedade endémica que os faz ceder a cumplicidades que lhes são impostas, de forma abusiva, a bem dos interesses da empresa. E cedem porque estão na base da cadeia alimentar que há muito vive da exploração impudica do talento. Esse bem que tantos agora gostam de louvar mas que hipocritamente, no segredo dos seus escritórios, tratam como lixo.

Agora é que é altura de falar

José Meireles Graça, 11.02.21

Quem tiver esperto no cabeço sabe que a história da Covid não vai acabar bem. Não a doença em si, que vai juntar-se ao catálogo, em lugar modesto, das que levam os mais velhos e fracos. Mas a tentativa de suicídio económico que, por causa da Covid, se espalhou pelo mundo como um incêndio fora de controlo.

A tentativa não teve grande sucesso naqueles países que puderam, por causa dos seus regimes, controlar manu militari a doença em níveis abaixo do radar da comunicação social – o caso mais evidente é o da China. E só o teve moderadamente naqueles casos em que os danos económicos foram menos autoinfligidos e vieram mais do exterior, por a generalidade das economias não serem autárcicas – o caso mais evidente é o da Suécia.

Nos outros, a diferença virá do corpanzil mais ou menos sólido para aguentar as medidas. Porque, por cínico que pareça e seja, os danos vêm pouco da doença, que afecta sobretudo a parte da população que já abandonou a vida activa, e muito da paralisação forçada induzida pelo terror. E a este, que a comunicação social alimenta, os poderes públicos reagiram em todo o lado com travagens bruscas da actividade económica como forma de impedir os contágios, frequentemente de forma errática e contraditória, mas sempre sob o manto do que diz a ciência.

Sucede que a ciência não diz nada, quem diz são os cientistas. E como a compreensão do vírus implica virologistas, imunologistas, intensivistas, pneumologistas e mais catorze variedades de istas, e boa parte destes nunca se viu noutra de se poder repoltrear no cadeirão da notoriedade, toda esta gente fala pelos cotovelos.

Fala pelos cotovelos mas não a uma voz: o que diz Anders Tegnell não é a mesma coisa que Anthony Fauci, o que diz Jorge Torgal não é a mesma coisa que Graça Freitas e o que dizem as sumidades que assinaram a Grande Declaração de Barrington não é a mesma coisa que a generalidade dos especialistas que vemos na televisão e lemos nos jornais – uns estão no ramo do senso, da experiência e da humildade, outros no do drama e espavento.

Temos então que estes istas todos criam uma nuvem que cega o cidadão atarantado. E, talvez por isso (exagero um pouco, é retórica), a comunicação social simplifica as coisas: se vamos todos morrer de hoje a oito há microfone e coluna no jornal; e se não, não. O que tudo dá uma pescadinha de rabo na boca: os especialistas vêm ao proscénio aterrorizar a população, que exige medidas que o Governo ejacula freneticamente, que são censuradas por insuficientes e tardias, que têm de ser substituídas por outras à medida que a infecção acelera e abranda sem que se perceba bem porquê, o que conserva o terror, embora cada vez menos porque ter medo cansa.

As coisas têm sido em Portugal piores do que na maioria dos países. Não surpreende: os governantes são há muito uma casta ocupada na dança das cadeiras e no atirar periódico de ossos às suas clientelas, cuja massa lhes garante, com o voto, que podem tranquilamente continuar a capatazear (sim, sei que o verbo não existe) a quinta comum, e enxundiar as camadas superiores, e até as inferiores, da administração pública com uma mole de ineptos.

Esta inépcia tem no caso uma componente criminosa, que consiste em não se terem reforçado suficientemente os meios do SNS, incluindo sem complexos o sector privado, em parte por preconceitos ideológicos e em parte por espírito de poupança. Que seria louvável se a alternativa não fosse, como é, uma quebra do PIB que excede em muito o sobrecusto do SNS para lidar com a pandemia.

Pode ser que, em parte, não fosse possível por carência de pessoal médico com a formação adequada em tempo útil. Nunca o saberemos com detalhe: o Governo falhou, a DGS, um serviço condensado de tudo o que a administração pública tem de mais ronceiro e inane, também, e a bem oleada máquina do situacionismo, somada a uma comunicação social de cócoras, omite tudo o que é atro para enaltecer o brilho da quinquilharia socialista.

Isto tem porém um preço. O óbvio, para quem lê mais do que os jornais do regime, que são quase todos, é o deslizar para os últimos lugares do desenvolvimento; e o menos evidente é este labelo (ou será epitáfio?), em que Helena Matos nos apresenta magistralmente a crua realidade do nosso declínio.

Não incluí deliberadamente, nos istas de que acima falava, os economistas, porque estes têm dado provas de grande contenção opinativa a respeito da Covid. É natural: costumam, com suficiência, preopinar sobre assuntos económicos, reclamando-se da imaginária autoridade que as respectivas albardas académicas lhes conferem. Sentem-se portanto inibidos porque o ramo é outro, e deixam a coisa para uns moços frequentemente com acne ou barbichas, ou uns velhos que julgam que o mundo gira à volta do seu serviço, que calha serem especialistas nos arcanos dos microrganismos e sua propagação.

Mas não deviam porque os seus colegas matemáticos não têm esses pudores, embora o respectivo palavreado, de ático, não tenha nada. E como estes últimos se têm distinguido por abundarem no asneirol, a abstinência dos economistas resulta ainda mais chocante.

Do que temos ouvido, as melhores vozes vêm dos que acham que o esforço de protecção dos que continuam a trabalhar porque não têm outro remédio; dos que não têm trabalho nem apoios; dos que perderam os seus negócios; dos que não os perderam mas talvez os percam quando acabarem as moratórias; dos pais que têm de ficar em casa com os miúdos que têm de fingir que aprendem aquilo que lhes fingem ensinar através de meios tecnológicos que muitos não têm: tem sido umas vezes inexistente, outras insuficiente, e quase sempre anárquico e desonesto.

Vá lá, podia ser pior. Talvez, se não fosse pedir demasiado, pudessem dedicar-se a, tentativamente, ir pensando em como diabo se vai pagar a dívida monstruosa, que já estava na estratosfera antes e agora vai a caminho da mesosfera. Há dias, Portugal emitiu dívida a 30 anos em óptimas condições, que bom. Mas não têm netos?

E, já que estão com a mão na massa, quem sabe não podiam ir metendo umas taliscas no edifício do consenso suicidário covidesco, a ver se abre brechas? Afinal, a parte da populaça que se preocupa com a coisa pública está habituada a achar que os professores Louçã e Mamede sabem o que dizem. E isso é reconfortante, trata-se de um capital de confiança cega que não pode ser abalado por nenhuma tese, absurda seja ela. Pensem, senhores economistas, pensem fora da caixa, mesmo que não seja a Geral de Depósitos.

Ponto zero

João Sousa, 09.02.21

Ouviu-se há dias um leve rumor de indignação (e gozo) por um gráfico tuitado (e entretanto apagado) por uma das centrais de propaganda do PS:

gráico original.jpg

Uma tempestade num cálice de licor, é o que vos digo. Em vez de censurarmos a falta de vergonha do partido, louvemos a sua contenção por não ter publicado algo assim:

também consigo sem valores.jpg

Nota: àqueles que sintam a tentação de justificar com habilidades semelhantes feitas pelo PSD, CDS, BE ou até pelo Clube de Chinquilho de Freixo de Espada à Cinta, respondo antecipadamente que as canalhices não se anulam - somam-se.

Sem comentários

Rui Rocha, 09.02.21

Ontem, ultrapassámos os USA em nº de mortos Covid acumulados desde o início da pandemia/milhão de habitantes. Depois de superar o Brasil do criminoso Bolsonaro, a Suécia da estratégia falhada, a Espanha da tragédia na Primavera de 2020, ultrapassámos os USA do boneco laranja negacionista que propunha injecções de lixívia. Sem mais comentários.

usa.png

 

A culpa é do Passos Coelho

jpt, 04.02.21

Ana Drago teve alguma celebridade no advento do BE parlamentar. Alguma verve, cara jovem e laroca. Saiu do Parlamento há oito anos, ingressou no LIVRE, passo que foi insuficiente para que os quadros desse neo-MES ascendessem na orgânica estatal. E algo desapareceu da vida política. Mas mantém, sabe-se lá devido a que critérios, estatuto de comentadora política no serviço público televisivo. Representatividade política? Não pode ser, dada a contínua exiguidade de comentadores associáveis a partidos com assento parlamentar como PCP e PAN, e mesmo o IL e o CHEGA. Estatuto intelectual, advindo de obra publicada? Não me parece, pelo que o google anuncia. A cara laroca? Não é argumento aceitável nestes tempos. Ter sido deputada? Não o foram, nas últimas décadas, algumas centenas de portugueses?

Vejo isto ontem. No momento da maior crise social, sanitária e económica que o país conhece desde o final do Estado Novo, com hospitais cheios, incremento da mortalidade, o que se requer a quem comenta no serviço público? Alguma densidade interpretativa, claro que sempre subjectiva. E alguma seriedade. O que vem esta velha cara laroca dizer? Explica o incremento exponencial das infecções pela disseminação da "variante inglesa" - conhecida bem antes do Natal, ao invés do que o nosso primeiro-ministro mentiu. E que esta disseminação se deve à "emigração no tempo da troika" e de Passos Coelho. O atrevimento é tão grande que a comentadora não se contém e ri-se ao proferir a mariolagem. Friso neste momento gravíssimo é este tipo de gente, este tipo de argumentação chocarreira, que a RTP, serviço público, convoca para "informar" o país. Sob que critérios, a que propósitos? Para que "serviço público"? O de elidir quaisquer responsabilidades do actual poder político, é óbvio.

E de seguida, se formos afectados pela "variante brasileira", que virá a ex-laroca Drago dizer? Apontar a culpa de algum rei constitucional, incapaz de afrontar o tráfico de "escravatura branca",  a assim dita emigração portuguesa em XIX, ou a recente "abrilada" que a alguns fez partir para o Brasil? Se nos chegar a "variante sul-africana" (que me parece estar a devastar Maputo) virá ela clamar que a responsabilidade é dos colonialistas Afonso Costa ou Salazar - ou mesmo de Rosa Coutinho e de Almeida Santos, como apontariam logo tantos dos ex-colonos?

Enfim, a questão é esta: a que propósito é que o serviço público convoca esta miséria moral e intelectual para comentar tamanha crise? De viçosa nada tem. Segue apenas sabuja. No afã de encapuçar este miserável estado das coisas.

A "colaboração" alemã vs o Covid-19

jpt, 04.02.21

alemanha.jpg

O governo estará exaurido. E é óbvio que perdeu o tino, neste escandaloso descalabro face à pandemia - mesmo que se deva reconhecer o evidente, que a disseminação viral muito independe de medidas executivas. Vive, como sempre, da propaganda - dominante na imprensa, via jornalistas e académicos, economicamente dependentes e sociologicamente próximos deste PS. E reproduzida nestas redes sociais, muito pelo universo clientelar da função pública (como abaixo referi, académicos do Estado a promoverem em Janeiro de 2021 a ministra da Saúde como "Super-Marta" é do mais sabujo que se pode ver na história pós-25 de Abril).
 
O governo sobrevive, mascara a sua tibieza incompetente, no pulsar propagandístico, no controlo da informação, no moldar das sensibilidades. Este caso da forma como é noticiada a ajuda alemã ao combate ao Covid-19 - morto que está o mito do "milagre que é Portugal", da quase-imunidade por via da vacina da BCG, de Champions League, Formula 1 e múltiplos jantares de Natal feito - é típico. E gritante.
 
O que o governo anuncia? Não que solicitou ajuda a um país aliado para debelar um momento extremamente gravoso. O que é perfeitamente curial, até obrigatório. Mas que aceitou a colaboração de um outro país, deixando entender que a iniciativa é até mesmo alheia.
 
Isto é execrável. É a gente que governa.
 

Prognósticos só no fim do jogo

João Sousa, 03.02.21

Quando, no início da pandemia em Portugal, pessoas que me são próximas apontavam para a desgraça que assolava países civilizados e papagueavam o "milagre português" titulado pela comunicação social e propagandeado por responsáveis(?) políticos, eu respondia, cauteloso, com um "prognósticos só no fim do jogo" e recordava-os de que, há anos, o Sporting foi ao estádio da Luz ganhar 3-0 na primeira volta - e depois foi o que se viu. É o que se vê: por milhão de habitantes, o Covid já matou mais em Portugal do que em Espanha. O Reino Unido e a Itália, como a Espanha destacados desde o início, ainda estão desconfortáveis na liderança mas, se mantivermos este sprint, a Itália está perfeitamente ao nosso alcance.