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Torres Vedras de Nuno Rebelo

por jpt, em 31.05.20

Esta atividade integra o programa Emergência Cultural Torres Vedras 2020, organizado pelo Teatro-Cine de Torres Vedras, nisso cruzando esta era Covid-19. 

É um trabalho do Nuno Rebelo (Texto, video, música, sonoplastia e grafismo) - que alguns conhecerão por via do grupo musical Mler Ife Dada - em colaboração com o seu filho Igor Brncic Rebelo (voz e desenhos). Diz o Nuno: "Agora mesmo é aqui que estou é um vídeo autobiográfico da minha vida em Torres, onde nasci em 1960 e onde vivi até 1975. Faço-o a partir dos meus atuais 59 anos e do sítio em que me encontro, confinado como todos por causa do vírus, no meu caso em Barcelona."

É uma pérola. Rara. Linda. Que me encantou. Vede, que decerto gostareis.

 

Estádios, aviões e televisão

por Pedro Correia, em 28.05.20

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2 de Maio:
O transporte aéreo de passageiros vai ser limitado a dois terços da lotação normalmente prevista para cada aeronave, definiu o Governo, em portaria no Diário da República.

21 de Maio:
A partir de 1 de Junho, o transporte aéreo vai deixar de ter um limite máximo de lotação, anunciou o Ministério das Infraestruturas.

 

Comecei por não entender. Agora, até julgo que entendo. E, por isso mesmo, fiquei irritado. Refiro-me ao duplo critério que o Governo tem vindo a adoptar, distinguindo o futebol de outras actividades.

Há dias, numa das suas conferências de imprensa quase diárias, a ministra da Saúde revelou-se muito firme na contínua recusa de jogos presenciados nos estádios. «Haver as habituais concentrações em determinados espaços, por ocasião das competições desportivas, é evidente que é algo que não vai poder acontecer da forma a que estávamos habituados a assistir», declarou Marta Temido.

Atalhando neste discurso cheio de rendilhados, isto significa que todos continuaremos proibidos de frequentar os estádios. Os jogos que faltam para completar a temporada 2019/2020 ocorrerão à porta fechada. E, aparentemente, não serão transmitidos pela televisão em sinal aberto. Duas espécies de encerramento, portanto.

 

Há aqui vários erros que convém denunciar desde já.

Que imperiosa lógica sanitária leva o Governo a interditar em absoluto estádios com capacidade para largos milhares de lugares sentados, ao ar livre, enquanto acaba de dar o dito por não dito, autorizando que sejam retomadas viagens aéreas - em cubículos estreitos, com ar rarefeito e onde as pessoas estão a centímetros umas das outras por vezes durante horas - sem qualquer limite máximo ao número de passageiros?

Alegam os decisores políticos que é vital proteger e revitalizar a aviação civil. Pois esta mesma lógica pode e deve aplicar-se à chamada indústria do futebol, que gera cerca de 80 mil postos de trabalho, directos e indirectos, em Portugal e movimenta receitas que abrangem quase 1% do PIB nacional. 

É um absurdo manter as bancadas dos estádios vazias enquanto se enchem aviões, em condições sanitárias de muito maior risco. Autorizar que pelo menos um terço dos lugares sentados nos estádios fossem preenchidos - nomeadamente pelos sócios que pagaram lugares de época - seria uma opção razoável. Tanto mais que o Governo - contrariando outra intenção inicial expressa em sinal oposto - acaba de dar luz verde à utilização de 14 estádios para disputar os jogos que faltam. Na prática, só não jogará em campo próprio quem não quiser.

 

Ao contrário do que sustenta a ministra da Saúde, as concentrações de maior risco a pretexto do futebol não ocorrerão junto aos estádios, mas longe deles. Em locais públicos e numa infinidade de reuniões privadas onde irá aglomerar-se muita gente, em todos os recantos do País, para assistir aos jogos caso se mantenha a intenção de que estes só sejam exibidos em canais codificados, nada acessíveis ao actual rendimento médio dos portugueses.

E é por isto que não entendo, de todo, o sururu criado em torno de Pedro Proença, só porque o presidente da Liga se atreveu a sugerir, em carta ao Presidente da República, a intervenção do poder político para que as partidas de futebol remanescentes possam ser exibidas em canais abertos, com a devia compensação financeira proporcionada com verbas públicas aos operadores televisivos.

Caiu o Carmo e a Trindade quando afinal Proença estava cheio de razão. Como o futuro próximo demonstrará.

 

Leitura complementar:

DGS queria "o menor número possível de estádios" e entretanto foram aprovados 14. O que aconteceu? Nada, era "apenas uma indicação".

Cambada de imbecis

por Pedro Correia, em 27.05.20

 

13 de Maio:

VÍRUS PODE NUNCA DESAPARECER

Michael Ryan, director-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Emergências Sanitárias, declarou que, na pior das hipóteses, o novo coronavírus pode nunca desaparecer, passando a integrar o lote de vírus que todos os anos afectam a população mundial.

 

17 de Maio:

VÍRUS PODE DESAPARECER NATURALMENTE

Karol Sikora, director médico dos Centros para o Cancro de Rutherford e antigo chefe do programa de oncologia da Organização Mundial de Saúde, afirmou que «há uma possibilidade real de o vírus desaparecer naturalmente antes que alguma vacina seja desenvolvida».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA É IMPROVÁVEL

A directora do departamento de Saúde Pública da Organização Mundial de Saúde, Maria Neira, considerou «cada vez mais» improvável uma segunda grande vaga do novo coronavírus, Na sua perspectiva, «há muitas possibilidades, desde novos surtos pontuais a uma nova vaga importante, mas esta última possibilidade é cada vez mais de descartar».

 

25 de Maio:

SEGUNDA VAGA ESTÁ QUASE A CHEGAR

O director-executivo do programa de Emergências Sanitárias da Organização Mundial de Saúde, Michael Ryan, alertou que «não podemos supor [que os números de novas infecções] vão continuar a descer», advertindo que «temos alguns meses para nos preparamos para uma segunda vaga».

 

Bloco central, versão Covid

por Pedro Correia, em 22.05.20

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Nasceu hoje, em Ovar, de parto natural, para deleite dos progenitores e do gentil obstetra que acompanhou os procedimentos na maternidade local. Aparenta robustez e já mama vigorosamente, segundo relatam as gazetas com base em relatos fornecidos por testemunhas presenciais do feliz acontecimento. 

Associamo-nos às congratulações generalizadas que têm emanado do Minho ao Algarve, sem esquecer as ilhas adjacentes, augurando desde já ao rebento uma vida longa, próspera e repleta de bênçãos terrenas e celestes.

A bem da Nação.

O Covid-19 em Portugal

por jpt, em 20.05.20

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, Sete Rios, Lisboa, Abril de 2020; inscrição recente no prédio arruinado que foi sede da escola da PIDE-DGS, incidência quase certamente inintencional dado que essa memória não está sinalizada no local.)

Aquilo do estar confinado foi uma era insone. Aqui em Nenhures deu-me para escrever sobre o que se passava alhures. Por isso escrevi um texto sobre o Covid-19 em Portugal, a minha versão. Uma desnecessidade de 42 páginas. Agora como parece que tudo já é passado, nos disseram para regressarmos à vidinha, botei o que escrevi, para o caso de alguém ter paciência para o ler. Aqui fica a ligação para o texto: 

“P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19"

 

Uma vitória da cidadania

por Pedro Correia, em 17.05.20

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Tribunal de Ponta Delgada

 

Passo por aqui só para louvar uma vitória da cidadania neste tempo de acelerada compressão de direitos, liberdades e garantias em que muitos confundem a utilização de máscara por imperativo sanitário com o uso de açaimo ou mordaça. Como se a legalidade democrática estivesse de quarentena.

 

Refiro-me à corajosa decisão da juíza de turno no Tribunal Judicial de Ponta Delgada que aprovou o habeas corpus a um cidadão português, confrontado em território português com uma medida de confinamento ilegal, mais chocante ainda por vir com chancela oficial a pretexto do combate à pandemia. Considerando que esta quarentena viola a liberdade individual - conforme determina o artigo 27.º da Constituição, que consagra o direito à liberdade e à segurança. Segundo este artigo, o confinamento compulsivo sob pretexto sanitário só pode abranger o «portador de anomalia psíquica em estabelecimento terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente».

Louvo esta magistrada, e o advogado Pedro Gomes, que desafiou o poder político insular ao invocar o habeas corpus, e naturalmente também o cidadão que se sentiu lesado e accionou os direitos constitucionais que lhe assistem. E que nos assistem a todos, é bom que não esqueçamos. Mesmo em tempo de Covid-19.

Direi até: sobretudo em tempo de Covid-19.

 

Acontece que o Governo açoriano tinha imposto a 14 de Março uma quarentena obrigatória a quem desembarcasse em São Miguel, forçando estes cidadãos à reclusão numa unidade hoteleira de Ponta Delgada. Mas sem possibilidade sequer de abandonarem o quarto de hotel durante 15 dias.

Se isto já seria absolutamente contestável, pior foi a decisão posterior do Executivo liderado por Vasco Cordeiro de assumir as despesas deste confinamento para todos os residentes na região enquanto os restantes portugueses - com residência no continente - se viam obrigados a pagar do seu bolso este encerramento compulsivo num quarto de hotel que não escolheram. Em flagrante e grosseira violação do direito à igualdade consagrado no nosso texto constitucional.

 

Vem agora o Tribunal de Ponta Delgada considerar ilegal estas medidas. 

Cordeiro foi obrigado a acatar o veredicto judicial, mas protestou, admoestando a juíza em tom de inaceitável descortesia institucional, procurando novamente refugiar-se no combate ao coronavírus para justificar esta prepotência: «Estamos perante um duro revés na estratégia regional de combate a esta doença cujas consequências não se circunscrevem ao risco para a saúde e potencialmente para a vida dos açorianos.»

 

A uma decisão inaceitável, seguem-se palavras inadequadas. Só lamento, em tudo isto, o silêncio do Presidente da República e do seu representante na região autónoma, além do aparente alheamento da Provedora de Justiça, a quem o caso havia sido igualmente remetido.

Se a partir de agora se pronunciarem, já será tarde. De qualquer modo, mais vale tarde que nunca.

Os modelos "lá de fora"

por João Pedro Pimenta, em 15.05.20
 

Muito se tem discutido o "modelo sueco" de relaxamento face à pandemia, para mais depressa adquirir imunidade de grupo e manter parte da economia a funcionar. Não pondo em causa a legitimidade das autoridades científicas e políticas locais, tenho sérias dúvidas quanto a esse modelo, não só por sabermos pouco ainda sobre a imunidade a um vírus novo e porque as economias nunca têm grandes resultados se o resto do mundo está a meio gás, mas sobretudo porque até agora os números da letalidade têm sido pouco encorajadores. Com mais ou menos o mesmo número de contagiados oficiais que Portugal, a Suécia tem três vezes mais óbitos. Até agora, a experiência não parece ser de grande sucesso.

É verdade que os próprios admitem alguns erros. Mas mesmo que o modelo fosse usado noutros países (o que os seus vizinho nórdicos se recusam a fazer), é preciso tomar em devida conta as diferenças culturais nas diferentes sociedades, coisa que parece esquecida em prol da "economia", globalização, etc. E isso não significa necessariamente maior civismo ou "adiantamento" da parte dos suecos. Como as relações familiares e sociais, por exemplo.

Sei do episódio por conversas de família, embora já fosse nascido. Resumidamente, numa altura perto do Natal, uma parente da nossa saudosa prima Eivor (a prima sueca, de geração mais velha) veio a Portugal e ficou maravilhada com as reuniões familiares, os encontros, a preparação para a consoada, etc. Na Suécia, dizia, nada daquilo tinha lugar. Os laços familiares eram completamente diferentes e muito mais distantes. Claro que o Natal existe na Suécia, como em boa parte do Mundo, mas de uma forma mais distante, sem que a grande maioria tenha festas de família, num país já de si frio, o que pode justificar o elevado número de suicídios.

É por isso que importar um determinado modelo, já de si discutível no país de origem, pode não fazer qualquer sentido e trazer males maiores. A natureza humana pouco muda, o Mundo é global, a Europa é unida, mas as diferenças culturais, ainda que esbatidas, permanecem e acabam sempre por vir à superfície. É bom que quando olhamos para o que vem "lá de fora" não pensemos que é tudo melhor e que os nossos hábitos são necessariamente "incivilizados". Para isso já basta essa velha e perniciosa mania dos portugueses de dizerem constantemente mal do próprio país.


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Admirável mundo velho

por José Meireles Graça, em 14.05.20

Na homilia de hoje proferida pela senhora oficialmente nomeada para a importante função de mãezinha da Nação, ficaram os crentes cientes de que “as medidas de desconfinamento decretadas pelo Governo não tiveram impacto na curva epidemiológica”.

Olha que bom. E, do quadrante confinocéptico, que com grande tolerância as autoridades consentem ainda exista desde que sem acesso relevante aos grandes meios de comunicação, Henrique Pereira dos Santos sossega-nos: as medidas tomadas não nos garantiram a imortalidade, uma falha difícil de engolir, mas caminha a Europa para a normalidade.

Não há falta de gente que, com ou sem a albarda das competentes credenciais académicas, previu que o desconfinamento não teria efeitos deletérios apreciáveis: é a mesma escumalha infecta e antissocial que achou que o confinamento repleto de medidas arbitrárias, tributárias apenas da imaginação de burocratas autoritários para sossegar o pânico que a comunicação social induziu em leitores e espectadores crédulos, apenas poderia atrasar a evolução da pandemia. Objectivo nobilíssimo, decerto, mas que poderia ser atingido sem causar o alucinante processo de destruição de riqueza cujos custos, incluindo em vidas humanas, ainda nem começaram a ser estimados.

Alguns fizeram-no muito cedo, como André Dias, diligentemente ignorado e por isso reduzido a falar para tribos de selvagens que têm o tique original de pensarem pela própria cabeça, e um respeito excessivamente moderado pela autoridade do discurso oficial. E o moço nem sequer se pode gabar de ter falta de companhia: são legião os académicos e especialistas em virologia, epidemiologia, pneumologia e ciências correlatas e ancilares que navegam nas mesmas águas negacionistas da “maior pandemia desde há cem anos”.

Uma legião não é o exército. E a corrente principal, em Portugal e em quase toda a parte (a excepção mais conhecida é a da Suécia) juntou-se à procissão histérica dos malagridas do fim dos tempos.

Não vale muito a pena tentar fazer o esquisso das razões de uns e outros: são demasiados os argumentos, alguns herméticos por fazerem apelo a conhecimentos especializados, e no fim, como no princípio, as pessoas acham bons aqueles que ilustram o seu parti-pris, e maus os outros. Resta que, quando a Covid se juntar às doenças que no curso das nossas vidas apanhamos ou não, quer exista ou não vacina, quer se encontrem anti-virais eficientes quer não, alguém terá tido razão, e não podem ser todos: houve muitos que tentaram suster o estouro da boiada e houve quem gritasse fogo! quando havia apenas umas chamazinhas que se podiam maneirar.

Nada do que foi, e continua a fazer-se, apelou à compreensão, inteligência e boa-vontade das pessoas. Antes às polícias foram dados poderes majestáticos, durante o estado de excepção, e se torpedearam direitos constitucionais, durante o de calamidade, um e outro deixando nas consciências e nos hábitos a ideia perniciosa de que os direitos de cidadania podem ser comprimidos sempre que o poder político de serviço, e o longo braço das agências que o servem, invoque a Saúde – como noutro tempo e lugares, ainda que com diferença de grau, se invocou a Raça, ou a Pátria, ou a construção da sociedade socialista.

Exagero, claro. Mas ainda hoje a DGS (um nome adequadamente evocativo) pariu um manual com 35 páginas sobre “Saúde e Actividades Diárias”, que é apenas o primeiro tomo de uma série. TODOS SOMOS AGENTES DE SAÚDE PÚBLICA, diz-se no Prefácio, assim, grafado com maiúsculas (o resto não li, por uma questão de sanidade). Aguardam-se ansiosamente os manuais em que, nas aulas de educação cívica, as crianças serão industriadas a fiscalizarem o comportamento sanitário dos pais iletrados; os do INATEL para os trabalhadores ocuparem o seu tempo livre de forma socialmente responsável, abstendo-se de espirrar e de bebidas perniciosas; e da Ordem dos Urologistas, se existe, para acabar com a anarquia na forma como se aparta o pénis após micção, para evitar a disseminação pelo ambiente de gotículas carregadinhas de micro-organismos potencialmente patógenos.

Mas são só os poderes formalmente públicos que se rebolam com prazer no esterco das normas arbitrárias e minuciosas, e no ambiente velado (quando não é descarado) de intimidação de qualquer comportamento desviante do padrão que com desvelo, ignorância criminosa e despudorado abuso as autoridades estabelecem como obrigatório?

Que nada, a procissão ainda vai no adro. Ainda há pouco vi um “Código de Boas Práticas de Higiene e Segurança Alimentar Para a Pequena Restauração e Bebidas” da AHRESP, com 64 páginas. Extraordinário: inúmeros pequenos restaurantes e bares não vão reabrir, por não poderem sobreviver cumprindo as regras oficiais, e muitos outros tentarão funcionar e serão assolados pela ASAE e outras polícias, que os soterrarão em multas, interditos, notificações e processos. E os sócios daquela agremiação, com incompreensível pusilanimidade, não atiram com o Código à cabeça da Direcção, como adjuvante dos merecidos pontapés com que a expulsem do miserável poleiro?

A Covid tem menos de 200 nanómetros de diâmetro. Mas tem as costas largas.

Isolamento a levantar

por João André, em 10.05.20

Uns tempos sem tempo para nada, que isto de ter a prole em casa complica a vida a dois pais que têm de trabalhar, especialmente com as reuniões a aumentar em relação ao normal.

Mas vá que amanhã reabrem as escolas e creches. Na Holanda e noutros países. E isso leva-me a pensar nas diferenças. Na Holanda há já muito que os isolamentos têm sido softs. A vizinha de baixo tem a cada 3 dias um jantarzinho no pátio com amigos. Separação de metro e meio? Pois claro. Os supermercados têm entradas e saídas separadas com fitas, porque se sabe que as fitas impedem a passagem do vírus, isto é país de gente cumpridora. Até os corredores de supermercado têm as fitinhas nalgumas zonas a obrigar-nos a seguir um determinado percurso, género IKEA. Se nos esquecermos de alguma coisa lá atrás? Vamos em contramão porque não podemos ir à volta, a fita não deixa. As lojas dão todas o cestinho à entrada, é para contar as pessoas lá dentro. Vem com criança porque não a pode deixar com ninguém? Leve mais um cesto.

Já a Bélgica é mais misteriosa para mim. Fecharam a fronteira e eu não posso entrar. Sabe-se bem que os holandeses são uns contaminadores e não podem entrar nesse paraíso sem COVID-19 que é a Bélgica. Já uma loja que atravessa a fronteira entre Holanda e Bélgica? Metem-se as tais fitas dentro da loja a separar (isto foi há semanas, não sei como está agora). Mais uma vez, o vírus é boa gente, não vai atravessar.

Na Alemanha levei um choque no supermercado quando lá fui fazer compras. Nada de problemas na fronteira, mas toda a gente no supermercado estava de máscara, que parece ser obrigatório. Até pensei que não me deixassem entrar, mas nem por isso. As caixas tinham a protecçãozinha de plexiglass e de resto os contactos eram minimizados. Claro que usar a máscara parecia boa ideia até as pessoas as irem tirando no parque de estacionamento, porque o vírus não gosta de carros, já se sabe, é ambientalista. Dentro do supermercado as pessoas eram mais disciplinadas a usar as máscaras - que às vezes eram apenas golas puxadas sobre a boca - e até as arranjavam a cada 5 minutos, mexendo nas bochechas e no nariz. Também coçavam os olhos. E mexiam no telemóvel. Porque aquela radiação do telemóvel, se causa cancres, também deve matar vírus, ou bactérias, ou bacilos, ou micróbios ou lá o que é o bicho.

O melhor são as pessoas que usam as luvinhas e as máscaras e depois de mexaer em tudo o que encontram, puxam do telemóvel e encostam-no ao ouvidinho, trazem perto da cara. E depois arranjam a máscar constantemente, ajustam óculos de sol, coçam o naríz e comem a comida com as luvas que não lavaram ou trocaram. Lá está, o vírus é simpático, não vai para a comida - eu também não ia para alguma desta comida que se compra na rua.

Mas está tudo bem. O isolamento levanta-se e os miúdos regressam à escola. Só dois dias por semana que as classes são divididas a meio. A entrada é proibida a pais, que apenas terão de se concentrar à porta da escola na rua apertada. E na creche só quatro poderão entrar ao mesmo tempo, que há apenas 4 peças de um objecto para entrar. Claro, os pais lá terão que esperar pela sua vez, com a sua prole, à entrada num corredor exterior com metro e meio de largura. Tudo lógico, obviamente. Nos parques? Vamos a um piquenique. As mantas estão a metro e meio das outras, por isso está tudo bem, não é?

É tudo muito bonito. Vamos a ver a beleza em Setembro. Não gostamos do isolamento? Esperemo pelo próximo Inverno. Espero enganar-me. Mas o isolamento (e não, não é a quarentena,isso é outra coisa) está a levantar. Para já.

O Dia da Vitória

por jpt, em 09.05.20

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75 anos sobre a derrota alemã. A pior das guerras da História, o fim dum regime que foi realidade e símbolo da "colectivização do mal". E uma data tão simbólica - bodas de diamante com a paz, se se quiser. E ainda, cada vez mais raros, alguns veteranos combatentes (há algum tempo, em 2008, morreu o último "poilu", combatente francês da outra demência europeia de XX, a I GM. E no ano a seguir o último britânico). Que dia tão simbólico, que celebração! E, por toda a Europa, da Rússia de Putin à G-B de Johnson, e mesmo lá fora, com o nada confinável Trump, que contenção cerimonial. Numa data destas! Que mensagem...

Quando há duas semanas tantos se indignaram por cá com o perfil das "celebrações" das datas simbólicas em Portugal, logo o coro habitual se levantou, gritando "salazarentos". Pois era preciso, disseram, e disse-o Rodrigues, uma animação colectiva para mostrar que não viria aí nenhum "fascismo".

As formas cerimoniais por esse mundo afora, ontem e hoje, da celebração do dia da Vitória contra o pior dos fascismos reais, e de aversão às suas hipotéticas reanimações, foi a maior demonstração da mediocridade, tétrica, patética, destas figuras gradas que elegemos, deste Sousa e deste Rodrigues. E dos que os rodeiam.

Eu iria dizer que "só não viu isso quem não quis", só não percebeu o significado da diferença entre estas celebrações gerais do Dia da Vitória e as dos dias 25.4 e 1.5., quem realmente não o quer fazer.

Mas não seria verdade. Porque a abissal mediocridade que Sousa, Rodrigues et al mostraram neste pequeno episódio é a mesma que nós temos. Pois só uma população medíocre elege isto e gosta.

Os vinte mais infectados

por Pedro Correia, em 08.05.20

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. 

Chamo especial atenção para a proporção entre o número de infectados e cada milhão de habitantes dos países que constam deste quadro incompleto (a Coreia do Norte, por exemplo, está ausente).

Um registo que me leva a ordenar assim os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

Espanha: 5.494 casos por milhão de habitantes

Irlanda: 4.533

Bélgica: 4.437

EUA: 3.906

Singapura: 3.579

Itália: 3.570

Suíça: 3.481

Reino Unido: 3.045

França: 2.678

PORTUGAL: 2.620

Holanda: 2.438

Suécia: 2.438

Bielorrússia: 2.134

Alemanha: 2.022

Israel: 1.893

Panamá: 1.824

Peru: 1.775

Áustria: 1.749

Dinamarca: 1.741

Canadá: 1.720

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a impressionante subida da Irlanda, que ascende do décimo posto ao segundo lugar; entrada da Bélgica neste pódio nada invejável; a subida de cinco lugares dos EUA, que há um mês estavam em nono; entradas directas de Singapura e Reino Unido nos dez mais; descidas acentuadas de Itália (era terceira), França (estava em quinto) e Alemanha (a 8 de Abril ocupava a posição sete). 

Portugal baixa ligeiramente, passando de oitavo a décimo. Ainda assim, baixamos menos do que a Áustria (era sexta, agora está em 18.º) ou a Alemanha (que desce sete lugares). A Noruega, que há pouco mais de um mês figurava no oitavo posto, agora nem entra nos vinte mais.

Este quadro regista a progressão do vírus de Oriente para Ocidente com o claro aumento de casos de infecção em países como Panamá, Peru e Canadá. E confirma os sérios riscos do laxismo sanitário com a entrada para os vinte mais infectados da Bielorrússia, a última ditadura da Europa, onde o tirano Lukachenko qualificou a pandemia de "psicose", não decretou medidas de restrição para prevenir o alastramento dos contágios e até recomendou umas bebedeiras como forma de deter o vírus. Dele, no entanto, ninguém fala por cá.

 

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Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Continuando a seleccionar quinze:

Bélgica: 726

Espanha: 558

Itália: 495

Reino Unido: 451

França: 398

Holanda: 309

Suécia: 301

Irlanda: 284

EUA: 232

Suíça: 209

Canadá: 117

PORTUGAL: 108

Equador: 94

Dinamarca: 89

Alemanha: 88

 

Destaco aqui a dramática subida ao topo da Bélgica (um país de que se fala muito pouco em associação com a pandemia, apesar de quase todos os órgãos de informação portugueses terem correspondentes em Bruxelas). Neste caso por troca com a Espanha, enquanto a Itália - que já esteve em primeiro - ocupa agora o último lugar deste lamentável pódio. 

Destaques, também aqui, para as subidas oriundas do continente americano: desde logo o EUA (que saltam de sétimo para quarto), além das entradas directas do Canadá e do Equador. Tendência ascendente para o Reino Unido (que era sétimo há um mês) e a Irlanda (anterior décimo).

Portugal, infelizmente, sobe um lugar. Há um mês estávamos em 13.º, com números muito semelhantes aos da Dinamarca (agora em 14.º) e da Áustria (actual 17.º e que portanto já nem integra este quadro). Tínhamos também à nossa frente o Irão, que entretanto caiu para 16.º. E somos agora o oitavo país da União Europeia com mais óbitos por milhão de habitantes: também aqui subimos um posto.

Oxalá

por Teresa Ribeiro, em 07.05.20

À medida que a torre de escritórios onde trabalho volta a ganhar vida, começam a surgir situações como a de ontem: quando ia a entrar, uma rapariga preparava-se para sair, de modo que avancei, segurando na porta, que tem uma mola forte, para ela passar. Acto contínuo a menina passa e quando está bem em cima de mim, prega-me com um sorridente "obrigada" nas bochechas. Nem eu, nem ela tínhamos máscara. Hoje, pelo sim, pelo não, usei uma.

Imagino que incidentes destes começam agora a acontecer, aos milhares, todos os dias. A par das mais variadas manifestações que expressam a euforia do desconfinamento. Na segunda-feira, quando descia a pé o jardim do Campo Grande, topei uma miúda que conheço bem. Estava com um grupo de amigos, todos num alvoroço, ao colo uns dos outros, a matar saudades da vida. Por acaso sei que a mãe dela tem um grave problema de saúde que a coloca na primeira linha para... Enfim, tudo isto é inevitável, mas confesso que esta sensação de me encontrar à mercê da consciência cívica dos outros, me está a causar bastante desconforto.

Vamos, é claro, surfar uma segunda onda em grande estilo, lá mais para o Outono. Nessa altura, ainda hei-de ver muita desta gente que agora tanto se alvoroçou contra as abusadas interferências do Estado, a correr para o SNS a gritar pela mãe. Oxalá me engane...

O que mudou?

por Paulo Sousa, em 02.05.20

Quando estamos a sair de uma doença ou lesão, é normal dosearmos gradualmente o regresso ao dia-a-dia, de forma a acompanhar e estimular o nosso aumento de capacidades.

Ora, se o vírus do momento não passou a ser menos contagioso, e se ainda não estamos imunes, esta abertura gradual baseia-se em quê?

Temos apenas como certo que, se forem cumpridos alguns procedimentos de resguardo, o risco de contrair a doença não é anulado mas é reduzido significativamente. E isto é tão válido hoje como há seis semanas atrás.

Se a nossa vida confinada, com um risco de contágio próximo de zero, era apenas 50% normal, aceitamos agora um risco de 5% para ter uma vida 80% normal? Claro que estas margens de risco são apenas intuitivas e não têm qualquer base estatística ou científica, mas traduzem a forma como interpreto esta nova fase. Cada um de nós terá uma resposta diferente para a mesma questão, assim como cada um de nós atribuirá diferentes ponderações a estas variáveis.

Existem naturalmente outros factores que contarão também para a avaliação individual da situação. Um deles será o facto de se pertencer ou não a um grupo de risco, e o outro resulta da respectiva situação profissional e/ou financeira.

Quem tiver estabilidade financeira que lhe permita manter o isolamento poderá fazê-lo, mas como nem todos o podem ou querem fazer, é normal que o país passe a funcionar a diferentes velocidades.

O actual estado de espírito da sociedade já não é igual ao que levou ao auto-confinamento generalizado, que foi até anterior à declaração do estado de emergência. A incerteza e o medo continuam presentes mas enquanto cenário de pandemia global… concluímos que os números da letalidade não são assim tão graves, que justifiquem o impacto económico decorrente de uma paragem demasiado longa.

Assim, e apesar de objectivamente não estarmos imunes nem o vírus ser menos perigoso, decidiu-se iniciar o regresso faseado à nova normalidade, não pela alteração da situação epidemiológica mas simplesmente pela digestão que já fizemos da realidade.

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Não foi assim há tanto tempo que assistíamos ao debate sobre o uso da nikab nos espaços públicos e sobre a ameaça cultural e até de segurança que este consubstanciava. Agora, o uso de máscara é obrigatório nos transportes públicos.

Temos de ter capacidade de rir de nós próprios.

Taça Covid-19?

por jpt, em 02.05.20

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Acaba hoje o mês e meio de "estado de emergência" proclamado pelo presidente Sousa. O qual foi decidido sem pedido governamental e mesmo com o relativo desacordo do PM, que implicitou a sua desnecessidade. Convém recordar que Sousa tomou essa iniciativa para "recuperar terreno" na popularidade, depois da sua patética clausura, durante a qual se entreteve no "gozo fininho" da lida doméstica. Veio depois para o "gozo grosso" de exagerar a suspensão de direitos, num querer mostrar-se. E este inaceitável final, culminado ontem, mostra bem o vácuo que (des)anima esta presidência.

Belém, para adornar o seu percurso, gaba-se agora de um telefonema laudatório de Trump. E reina por aí uma saudável descompressão, pois "isto" não correu tão mal como o tememos. Até já se foi para a Alameda, ainda que sem patrocínio da Sagres. Mas convirá lembrar algo que acabo de ler: somos o 12º país com mais de meio milhão de habitantes com mais mortos; somos o 10º país da UE com mais mortos per capita. Ou seja, por meneios que queiram fazer convém lembrar: a taça Covid-19 que nos querem fazer crer ser nossa? Nada disso. Muito infelizmente.

É certo que muitos quererão gozar com o exemplo, por pobres razões clubísticas, por politiquice ou, aqui no DO, por lavourismo. Mas dou-vos um exemplo, para ilustrar o que realmente se passou: no dia 5 de Março o Sporting contratou o treinador do Braga pagando para isso uma quantia milionária, algo que foi motivo de grande polémica (ainda se falava em tais coisas, na imprensa e entre o público). A Itália estava já devastada, a Espanha começara o seu purgatório. Mas o Estado português calava-se, de tal maneira que os grandes agentes económicos seguiam como se nada fosse, a imprensa falava da "bola" e o povo assistia. Insisto, pode-se pegar neste exemplo e gozar com o clube, seus dirigentes, etc. Mas se se deixar esse rasteiro estatuto, se se ascender a cidadão? Então lembra-nos-emos que o Estado (e o seu palrador presidente) estava calado sobre a matéria, atarantado. Não foi capaz de sinalizar os cidadãos e os grandes grupos económicos do que se aproximava - e este exemplo, tão mediático, da excêntrica e polémica contratação de Amorim é grande mostrador disso mesmo. 

A memória é curta, e está a sê-lo. Estou confinado numa quinta, num grupo de famílias amigas. Eles encerraram-se a 6 de Março, no dia seguinte ao anúncio de Amorim no Sporting. Eu vim depois pois esperava a minha filha, que estuda em Inglaterra. Ou seja, estes meus amigos encerraram-se - apenas abrindo portas para nos acolher, o que nunca esquecerei, ainda para mais por ter sido naquela época tão angustiante - exactamente no dia em que Espanha fechou os lares de terceira idade e a nossa directora geral da saúde nos aconselhou a "ser solidários" e a visitar esses mesmos lares. Lembrai-vos disso? Se sim eu pergunto: quem morreu e onde vivia?

Assim, Taça Covid-19? Trump telefonou? Deixemo-nos de coisas, estes tipos estiveram a dormir na forma. Poupem-nos aos auto-elogios.

(E espero mesmo que a comentadora "Graça" aqui regresse para me chamar "energúmeno" de novo. E eu desta vez responder-lhe-ei. Num mero "quem morreu? onde?") 

 

Vidas amputadas

por Pedro Correia, em 01.05.20

A 3 de Abril, os danos provocados pela pandemia à escala mundial adquiriam uma configuração muito expressiva: ultrapassava-se a barreira das 50 mil vítimas mortais. Eram exactamente 51.500.

Decorrido menos de um mês, esta dramática estatística agiganta-se: são agora acima de 230 mil mortos. Os óbitos causados pelo novo coronavírus quadruplicaram em apenas 22 dias. E o número de pessoas infectadas triplicou em 25 dias: subiram de um milhão a 3 de Abril para três milhões na passada terça-feira. Ontem eram 3,4 milhões.

Mas as vidas humanas perdidas neste duro combate ao Covid-19 são muito mais do que dados estatísticos: a BBC, no exercício do jornalismo de qualidade a que nos habituou, revela aqui nomes e rostos de vários destes mortos registados pelas autoridades sanitárias britânicas num único dia. Vidas amputadas pela implacável propagação de um vírus que continua a ser letal, por mais que alguns pareçam ignorar tal facto.

A morte, essa perigosa socialista

por Teresa Ribeiro, em 28.04.20

A turma do resfriadinho está a ficar nervosa. Quer o povo na rua, a bulir, que é para isso que o povo serve, mas o mundo continua paralisado. Muito religiosa, esta seita sempre sacrificou tudo ao seu deus todo poderoso. O deus universal a quem na América chamam dólar e por cá é conhecido por vários nomes: massa, carcanhol, pilim, papel, taco, pastel, graveto, caroço, bago, guito... Quase tudo designações carinhosas, pois como diz a canção, "money makes the world go around".

De facto não há quem o possa negar, até os corações mais empedernidos, que teimam em colocar a vida humana acima da vida empresarial, admitem que não se pode viver muito tempo sem facturar. E é neste equilíbrio de prioridades que agora se está a jogar tudo. Só que não é fácil, pois estamos a falar de uma quadratura do círculo, em que ir trabalhar pode ser um perigo, apesar de ser perigoso não ir trabalhar. Mas já divago...

A turma musculada do resfriadinho considera que já se perdeu demasiado tempo com este choradinho. A Covid-19, afirmam a brandir estatísticas, mata menos que uma gripe vulgar. De facto os números, esses sonsos, servem para provar tudo e o seu contrário, portanto quando a turma do resfriadinho apresenta as suas contas, bate tudo certo.

O problema é quando a senhora da foice chega e lixa tudo. Contra factos não há estatísticas que valham e na pantalha nunca se viu nada assim. Gatos pingados sem mãos a medir, valas comuns abertas em Nova Iorque (dá para acreditar?). No Brasil já se viu familiares enterrar os seus próprios mortos por falta de coveiros disponíveis e até já houve defuntos a sair da pista em hora de ponta e a aterrar no funeral errado. Itália, Espanha, França, Reino Unido, o mundo dito civilizado ficou de joelhos e tudo por culpa dessa senhora que se veste de negro, mas cuja lingerie só pode ser vermelha.

Essa perigosa socialista que - já se percebeu - tem ligações óbvias ao lobby dos ambientalistas, com a sua foice (onde será que pôs o martelo?!), anda a gozar com quem só quer voltar ao business as usual, desacreditando a sua versão dos factos. Mas que estúpida!

Último reduto

por Cristina Torrão, em 26.04.20

Em mais um dos meus passeios solitários, dei com uma inscrição a giz, no passeio. Uma passagem da Bíblia, mais propriamente, do Evangelho segundo São Mateus.

2020-04-23 Bíblia no Passeio (1).JPG

Traduzido à letra: “Vinde a Mim, quando tudo se torna pesado (ou difícil) demais”.

Fui procurar a versão portuguesa, pois todos sabemos como são problemáticas as traduções da Bíblia. Tive inesperada dificuldade em encontrar a passagem, só com a ajuda da internet lá fui, devido a um pequeno erro na inscrição. Não se trata de Mt 11,18, mas de Mt 11,28. E, como tenho duas Bíblias portuguesas, deparei com duas versões diferentes (uma da Difusora Bíblica, na sua 15ª edição, de 1991; outra intitulada “a Bíblia para todos”, tradução interconfessional, publicada entre nós pela Sociedade Bíblica de Portugal, numa edição de 2009):

“Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei”.

“Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso”.

No fundo, estas diferenças não são relevantes. O importante é aquelas palavras me terem feito parar, olhar para elas durante momentos, fotografá-las. Quando me resolvi a continuar, não imaginava que depararia com mais duas citações bíblicas (a qualidade das fotografias não é boa, as condições sol/sombra não facilitaram). Desta vez, vou usar apenas a tradução da publicação mais recente. Da primeira Epístola de São Pedro:

2020-04-23 Bíblia no Passeio (3).JPG

“Confiem-Lhe todos os vossos problemas, porque Ele se preocupa convosco.”

1 Pe 5,7

E a passagem bem conhecida do Salmo 23 (que até estava ilustrada):

2020-04-23 Bíblia no Passeio (6).JPG

“O Senhor é meu pastor, nada me falta”.

Deus é o nosso último reduto. Perante situações que nos ultrapassam, é a Ele que apelamos. E a verdade é que regressei a casa mais calma, com menos receio de que não ultrapassássemos esta crise. Como se tivesse encontrado pelo caminho alguém que me garantisse que Deus está connosco.

Deus não é uma máquina de resolver problemas, nem é o génio saído da garrafa que nos satisfaz desejos. Ele apenas nos ampara, nos dá força. Em vez de pedirmos a Deus que nos tire os obstáculos da frente, devemos pedir-lhe força para lidar com eles. E, quando as adversidades nos ultrapassam, ajuda pensar que a solução talvez não esteja nas nossas mãos. "Eu dou o meu melhor, o resto é com Deus" - por vezes, basta este pensamento para nos sentirmos mais aliviados e corajosos.

Vírus socialista

por José Meireles Graça, em 24.04.20

De entre as muitas incógnitas que rodeiam a Covid19 uma não tem recebido praticamente nenhuma atenção, e essa é se a repugnante coisa é de esquerda, de direita ou do centro. Proponho-me dilucidar esta dúvida excruciante.

As medidas tomadas para garantir o afastamento social implicaram a suspensão de direitos constitucionalmente garantidos, o reforço dos poderes policiais, banalizando a detenção (o nome púdico que se inventou para qualificar a prisão sem julgamento) sob pretextos fúteis, a redução dos trabalhos parlamentares ao mínimo, o encerramento compulsivo de empresas, o encerramento total ou parcial de estabelecimentos que, podendo teoricamente funcionar, deixaram de o fazer por falta de clientes, a redução ou eliminação dos proveitos de trabalhadores independentes e profissionais liberais, o avolumar das dívidas do sector privado (que já eram de 191% do PIB em 2019, excluindo o sector financeiro, a que acrescem 150% do sector público não financeiro), o avolumar da dívida pública (que estava, no mesmo ano, mais ou menos em 250 mil milhões), o aumento demencial do risco de imparidades nos bancos e nas empresas que sobreviverem… a lista é infinita.

Tudo isto tem consequências na vida do Estado, que verá as suas receitas afundarem por depressão da actividade económica e as suas despesas crescerem por efeito do aumento da quantidade de desempregados com subsídio e de gente a necessitar de apoio, e na das pessoas, sobretudo, de imediato, daquelas (pequenos patrões, independentes) cuja vida depende de a ganharem todos os dias com o que vão fazendo…

Uma hecatombe. Importa perceber se é um mal menor, por que razão se aceitou, até agora pacificamente, uma tão inclusiva operação de suicídio colectivo, e o que explica a relativa tranquilidade da classe política, mormente a da parte dela que governa.

Do que se sabe da Covid, parece que a taxa de mortalidade é, se for, apenas ligeiramente superior à da gripe, ou seja, 0,1%; que, de forma muito mais acentuada que a gripe, atinge os velhos, sobretudo se maiores de 70 anos, mas poupa os jovens; que é mais contagiosa, incluindo por assintomáticos; que talvez deixe sequelas que a gripe não deixa, ao menos em alguns recuperados; e que requer um internamento mais longo, quando ele é necessário, incluindo naqueles casos que chegam aos cuidados intensivos.

Nunca se pararam países por causa de um risco de morte de 0,1%; e menos ainda se o principal grupo de risco, isto é, os maiores de 70 anos, representa, mesmo numa sociedade envelhecida como a nossa, 16% da população, convindo também não perder de vista que a média de idades dos que morrem pela Covid é superior à da esperança de vida (a confirmar, ignoro se é assim por toda a parte). E, antes que se me venha dizer que, estando a falar de morte, é insensível pôr a vida das pessoas num prato da balança, e no outro a economia, lembro que eu próprio estou muito perto daquele grupo de risco, e que as recessões causam, além de quantidades imensuráveis de sofrimento, mortes por suicídio, falta de assistência médica, subalimentação, e todo o cortejo de misérias que afligem os que não têm voz e estão longe da asa protectora do Estado e dos holofotes da opinião pública. De resto, uma das razões porque o SNS estava tão mal equipado para responder aos picos de afluência era a contenção de despesas, necessária por se ter optado por outras afectações da despesa pública, e isso por causa… da economia, a tal que agora devemos ignorar.

Se isto é assim, porquê então o fervoroso apoio inicial às medidas de contenção? A explicação encontra-se, simplesmente, no medo. Medo do desconhecido, medo do que nos toque pela porta, senão directamente ao menos a familiares queridos, medo de raciocinar no meio do estouro da boiada. E medo induzido pela histeria interesseira da comunicação social: esta não venderia um chavo se noticiasse tempestades dizendo que não levantaram telhados, não provocaram sérias inundações nem arrancaram árvores pela raiz. Daí que não vejamos quase nunca a taxa de mortalidade nem os contextos, e vejamos todos os dias opiniões de médicos e outros profissionais exaustos, cientistas sortidos a aproveitar a boleia para promoverem as suas disciplinas e as suas relevantes pessoas, e cidadãos com minúsculas cátedras de influência a juntarem-se à procissão da moda, que é a dos salvadores da pátria cheia de febre e tremuras, tolhida de pavor. Para não falar dos políticos que, se forem de esquerda, recebem de braços abertos o maná do reforço dos poderes do Estado e da sua importância na vida da colectividade e, se forem de direita, querem cavalgar a onda da opinião pública e não parecerem menos aflitos com a gestão da crise.

A boiada estoura mas pára pelo cansaço. E a razão pela qual está a diminuir de velocidade mas ainda não parou é que reformados e pensionistas são três milhões e seiscentos mil; funcionários públicos 683.000; trabalhadores em layoff (que ganham dois terços do salário mas poupam em deslocações e refeições fora de casa) à volta de um milhão; desempregados com subsídio aí uns 160.000, a crescer todos os dias; e trabalhadores ainda no activo serão não muito longe de 4 milhões.

Toda esta gente acha que o preço de não ir a concertos nem restaurantes, e ficar em casa a aturar a canalhada, não é demasiado alto para evitar riscos que lhe dizem ser descomunais. E teria razão se não fosse ela a pagar, a prazo, o custo da paralisia.

E decerto os funcionários públicos, reformados e pensionistas, o principal fonds de commerce do socialismo pátrio, só pagarão sob a forma de aumentos protraídos; os outros que se desenvencilhem quando a factura chegar.

O Governo aposta que não virá factura nenhuma, confiante em que a EU fará o que for preciso para não deixar desmoronar o edifício, sapado pelo estado calamitoso das finanças italianas e dos outros países do sul da Europa. E não só não virá factura, e portanto não haverá austeridade, mas inclusive a economia vai finalmente modernizar-se através do digital, do combate às alterações climáticas e da substituição de importações do Oriente, tudo sob a lúcida orientação de Siza ou doutro capitão socialista da indústria de perdigotos que estiver de turno.

Se a Europa vai cair nesta arola não sei – é possível que arranje umas meias tintas de bodo aos pobres (o nome técnico é subvenção) e empréstimos a pagar à la longue. Mas lá que vem arame, vem. Tanto que o patrão dos patrões do encosto ao Estado e da economia dirigida já esfrega as mãos.

É provável que a malta em casa se incline a inundar as ruas, mal o vírus seja notificado que o estado de emergência acabou; que as medidas de regresso à normalidade não sejam excessivamente respeitadas porque parte delas não tem outro propósito que não seja fingir que as anteriores foram razoáveis; que haja um estremecer de cidadania em relação a proibições absurdas, como a de limitação do acesso a praias, ou à forma desumana como se pretende decretar a prisão domiciliária sine die dos velhos, para o efeito de os proteger deles próprios; e que fique um rasto de reforço de estatismo porque seremos submergidos pela propaganda da imensa sorte que tivemos em atravessar esta fase sob a esclarecida, e benevolente, direcção das autoridades.

E então, a maldita Covid, sempre é da direita anacrónica, da esquerda progressista ou da outra nem tanto, do centro… como é que fica?

Ora bem, não é uma coisa boa, portanto deve ser de direita. Mas a verdade é que nasceu num país de retórica comunista, logo deve ser de esquerda. Porém, as medidas tomadas em múltiplos países implicaram diminuição das liberdades, e portanto tanto poderia ser fascista como comunista. O caso é difícil, mas não creio que seja necessário recorrer ao polígrafo: o vírus reforçou os poderes do Estado, veio com doses massivas de propaganda, infantilizou os cidadãos, provocou grande estragos na economia que vão ser corrigidos com dinheiro da Europa para promover himalaias de corrupção, amiguismo, e elefantes brancos. Donde, só pode ser socialista.

 

«Acabei de ler mais um daqueles textos virais nas redes sociais que juntam na mesma frase palavras como “covid-19” e “gratidão” e confesso que estou, neste exacto momento, a martelar em fúria as teclas do computador. Já dei dezenas de voltas à cabeça e continuo sem conseguir perceber como é que alguém pode achar que devemos estar gratos por estar a viver uma situação de pandemia que nos obriga a medidas de isolamento social extremas.»

 

«A infecção por covid-19, para a esmagadora maioria da população, é uma experiência essencialmente de medo e há milhares de pessoas a braços com uma terrível e angustiante ansiedade. E não, o mundo não está a meter nada no lugar quando há cidades italianas onde os mortos são tantos que os caixões têm de ser recolhidos em camiões do exército. É verdade que a poluição atmosférica diminuiu e que os canais de Veneza estão mais limpos mas, pergunto eu, a que custo?»

 

«Depois lemos que devemos agarrar esta oportunidade para olhar para dentro e crescer… Como é que se olha para dentro numa altura destas é coisa que não faço ideia, confesso desde já. Pessoalmente só tenho olhado para fora, para lá dos muros do meu quintal, para lá das fronteiras do meu país. E tenho medo do que vejo e daquilo que ainda vou ver. Mesmo sem perceber nada de economia tenho medo do que aí vem, tenho medo do aumento do número de desempregados, tenho medo dos pequenos empresários que vão levar a estocada final com esta pandemia que outros parecem querer fazer-nos acreditar que chegou para bem da humanidade.»

 

Carmen Garcia, Podem parar de romantizar a pandemia? (excertos) 

Público, 21 de Março

Bolsonaro & Covid-19

por jpt, em 19.04.20

bolsonaro.jpg

A onda viral no Brasil cruza um conflito político, não entre Bolsonaro e o PT, como nós o vimos, mas derivado da fragmentação do feixe de anteriores apoiantes do presidente - potenciada pela polémica sobre a estratégia de combate ao covid-19. Bolsonaro manifesta-se hoje com os seus apoiantes (o magma das milícias que lhe são agora o apoio fundamental) explicitamente também contra o confinamento - algo que já o fez substituir o ministro da Saúde. Mas também contra a hierarquia militar, e contra a pluralidade de governos estaduais que se lhe vêm opondo. Bem como contra a assembleia. Algo vai quebrar no Brasil. E não me parece que vá ser por via eleitoral.


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