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Entre a infecção e a intoxicação

por Paulo Sousa, em 13.11.20

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Coisas que as estatísticas não revelam

por Paulo Sousa, em 08.11.20

No domingo passado regressei a um restaurante que visito desde que a nova gerência tomou conta dele.

Na primeira visita, há pouco mais de um ano, confesso que foi com esforço que entrei naquele sitio inventado há quase uma década por alguém que do alto do seu generoso orçamento autárquico e após várias semanas a vasculhar nos recantos do seu serôdio e escasso espólio de neurónios, inventou um restaurante para “rentabilizar” as piscinas municipais, de que é anexo. Infelizmente aprender a distiguir investimento de despesa não é condição de acesso a cargos autárquicos.

Olhando apenas pelo espaço que é, e sem ninguém competente para o explorar, talvez tivesse sido viável na versão inicial do Simcity, que nos anos 80 corria em Comodore 64. Como a realidade não funciona a 8 bits, acabou por andar de mão em mão, sem nunca encontrar a fórmula certa.

Ora como não é um espaço vazio que cria um negócio, mas sim alguém que o queira e saiba preencher, foram necessários demasiados episódios até que finalmente, e depois de correr meio mundo sempre à volta dos tachos, o Chef Nuno Ribeiro chegou a Porto de Mós.

Num raio de poucos quilómetros a oferta de restauração é respeitável, mas mesmo assim e desde a primeira hora que, pela elaboração e qualidade da sua oferta, o Pescatore marcou a diferença e conquistou o seu público. Se a identidade se refere a peixe, o mote – Mar à Serra – garante oferta para todos os gostos. O estacionamento cheio foi sempre um indicador do sucesso noutras paragens e também aqui se repetiu até a filha da mãe da pandemia ter entrado em cena.

Frequentar o mais possível restaurantes honestos é uma forma nobre de contrariar os nefastos efeitos do Covid. Essa é uma luta para a qual podem contar comigo.

Foi com a fúria dessa batalha em mente que no passado domingo regressei ao Pescatore. Observar a carta exige sempre uma capacidade de escolha de impulso, pois só assim se pode abdicar de Chanfana de bocheca de porco com puré de castanhas ou de Cabrito à padeiro, por outra coisa qualquer. Abracei-me ao arroz de lingueirão, e acertei pois estava divinal.

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Triste foi saber que a nossa era a segunda mesa a ser servida naquele dia.

Tendo já lançado para trás das costas a primeira vaga da pandemia, ninguém sabe o que aí vem.

Desde que os números voltaram a subir que a afluência de clientes caiu significativamente, e as medidas anunciadas pelo governo não auguram nada de bom.

Por detrás das estatísticas despejadas pela boca dos políticos e comentadores escondem-se as dores dos casos particulares, de negócios assentes em pessoas com valor e com a coragem necessária para fazerem pela vida, sem a rede que o estado dá apenas a alguns.

A SIDA e o Covid

por Paulo Sousa, em 28.09.20

Há umas décadas atrás, o vírus de que se falava era o da SIDA. Fazia capas de jornais e foi tema para filmes e músicas. O seu surgimento e propagação colocou o mundo a falar de hábitos sexuais com uma ligeireza impensável até então. Se no início era uma doença de homossexuais, de prostitutas e de drogados, acabou por contagiar figuras públicas que não pertenciam a esses grupos. Com o tempo passou a ser apenas uma doença associada a comportamentos de risco, comportamentos esses que, estando bem identificados, excluía facilmente quem os evitasse. Além de contraceptivo, o preservativo passou a ser equipamento de segurança.

Ao longo dos anos em que a SIDA foi o maior flagelo sanitário do mundo ocidental, não faltaram teorias que a associaram esta doença a castigos diversos. Para os moralistas era um castigo contra depravações várias, os simpatizantes do bloco soviético esforçaram-se por interpretar a ausência de dados oriundos das ditaduras comunistas com que se identificavam, como sendo uma doença exclusiva dos capitalistas.

A banalização do preservativo, juntamente com os programas de troca de seringas, acabou por ser uma forma efectiva de, arredando os juízos morais da equação, travar a propagação da doença. Por motivos culturais, financeiros e também religiosos este tipo de medidas não foram adoptadas nos países mais pobres e isso explica também porque é que o epicentro da doença se deslocou para África.

Foi nos países ocidentais, onde mais agitadamente se viveu o espírito do flower power do anos 60, que a liberdade sexual, muito ou pouco promiscua, foi mais refreada. Sendo uma doença associada aos referidos comportamentos de risco, acabou por motivar mudanças de comportamentos.

Nessa perspectiva o Covid, sendo menos mortífero é muito mais abrangente e impactante. É a fragilidade prévia de cada indivíduo que o coloca, ou não, no grupo de risco. Por mais banais que sejam as suas rotinas, o contacto com o vírus pode ocorrer com a maior naturalidade durante actos banais da vida social. Por comparação, este novo vírus já está a ter, e terá ainda mais consequências nos comportamentos de todos nós, do que o vírus da SIDA.

Depois do debate sobre as fronteiras de linguagem despoletado aquando da proibição do piropo, depois dos excessos que resultaram do movimento MeToo, o Covid é sem dúvida mais um duro golpe na forma como duas pessoas se podem aproximar e se envolver emocional e fisicamente, com especial relevo para quem esteja à procura de um relacionamento. Como cidadão amante da liberdade acho que estas repetidas e cumulativas restrições são perturbadoras.

Até o governo britânico, que normalmente consegue manter alguma sobriedade e mostrar alguma sabedoria, estabeleceu há uns meses atrás limitações ao contacto físico entre casais com relacionamento estabelecido, casados inclusive, que não residam juntos. Desde há poucos dias, essas limitações foram aliviadas e desde então já se podem beijar e tocar. No entanto, avisam as autoridades, parceiros em estágio inicial de relacionamento devem tomar especial cuidado. As expressões usadas foram “test the strength of his relationship” e logo depois “Test really carefully your strength of feeling”.

As reacções não se fizeram esperar. Quando um governo ou regime se propõe a regular detalhes tão pessoais como estes da vida dos seus cidadãos, a pergunta que se coloca é onde fica a fronteira entre esses dois conceitos? O que distingue um relacionamento estabelecido de outro em estágio inicial? Quais os critérios que se devem usar para se saber a que categoria se pertence? Claro que a resposta acaba sempre por ser: Usem o bom-senso, o que sendo uma resposta aceitável mostra também que a regra é toda ela desnecessária, pois o bom-senso, e por definição, não carece de ser legislado.

Faltou ainda que alguém lhe perguntasse se é legal ter um caso de uma noite só, ou o que recomenda a quem aspira simplesmente a ter sexo recreativo com alguém conhecido, ou mesmo desconhecido. Será que a Deputy chief medical officer pode sugerir alguma posição específica que considere mais segura para o acto? E, além do preservativo, existe algum outro equipamento de segurança que recomende?

A actual pandemia é um cenário de sonho para quem esteja colocado na posição de decidir pelos outros e que goste de o fazer, assim como para quem não consegue tomar decisões e prefira ser instruído. Para os demais, os que têm a ilusão de ter controle sobre a própria vida, para esses, tudo isto é de facto um pesadelo.

A Antígona e o covid

por Paulo Sousa, em 26.07.20


Antígona condenada à morte por Creon,  Giuseppe Diotti

Há cerca de 2500 anos, Sófocles escreveu a Antígona.
Pelo que sei, esta foi apenas uma de sete outras representações teatrais que chegaram aos nossos dias. Muitas outras terão sido perdidas pela voracidade do esquecimento.
Esta obra relata a defesa apresentada por Antígona perante um coro de anciãos de Tebas, que representam a polis.
Depois de inúmeras maldições que lhe fulminaram a família, os seus irmãos, Etéocles e Polinices, combateram e morreram em lados opostos numa luta que levou o tirano Creonte ao poder.
O cadáver de Etéocles, por vontade do novo soberano, foi tratado de acordo com a justiça e a lei, sendo homenageado honrosamente e recolhido a um sepulcro.
Polinices, pelo contrário, seria deixado por enterrar. Seria um tesouro bem-vindo para as aves de rapina. Por ordens de Creonte os cidadãos ficaram impedidos de o lamentar e até o facto de o seu cadáver ter sido coberto com pó, fez o guarda que assegurava o cumprimento da sentença correr risco de vida .
A outra irmã deles, Ismena, teme a lei tirânica e tenta dissuadir Antígona dos seus planos.
Durante a representação diz Ismena:
- Sou incapaz de de actuar contra o poder da cidade.
E responde-lhe Antígona
- Eu por mim vou erguer um túmulo ao meu irmão tão querido.
- Ai desgraçada como temo por ti!
- Não temas por mim. Assegura a tua vida. (…) Mas deixa-me a mim e à minha loucura, a sofrer este mal terrível. Eu por mim, não creio que haja outro tão grande como morrer sem honra.

 

Não quero ser spoiler e não vou revelar o desenrolar do drama, até porque se trata de uma obra que se lê num dia. E merece ser lida.
Perante isto, perante a sabedoria dos clássicos, questiono-me sobre que causas na actualidade levariam um cidadão a ir contra a polis a ponto de arriscar a própria vida.
A tecnologia permitiu-nos alargar a duração da vida e a resposta ao “até quando vale a pena viver?” tem diversas formas. A polis vacila entre a defesa da eutanásia e a proibição do tabaco. No geral privilegia-se o prolongamento da vida, o que é um bom critério.
Mas questiono-me se, apenas porque é possível, é motivo suficiente para prolongar a vida?
A Covid trocou-nos a voltas em muitos detalhes do dia a dia e, entre outras coisas, colocou os anciãos da actualidade num isolamento que mais não é que um ensaio para o além.
As residências de idosos, especialmente neste tempo de pandemia, não são mais do que antecâmaras da casa velório.
Quantos dos nossos, que para lá estão emprateleirados, não trocavam três ou quatro meses mais de uma existência asséptica, com cortinas de acrílico, com cheiro a desinfectante e habitada por andróides de máscara e viseira, por uma dúzia de abraços sentidos, por um passeio à beira mar, por uma sardinhada ou uma matança do porco, a ouvir crianças aos gritos, com o sol a bater na testa, com os pássaros a cantar, com vinho tinto entornado na toalha da mesa, com uns bafos de cachimbo e, no final, com o esterno enxaguado por uma aguardente velha?
Já nem é de honra que falo, mas apenas de propósito.

PS:
O coro de anciãos de Tebas, do além, deixou um recado para os animalistas:
- Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem.

Esplanadas

por José Meireles Graça, em 10.07.20

De regresso de uma curta ausência, voltei à minha pista pedestre/ciclística, para o habitual passeio de pouco mais de 6 km, ao fim da tarde. Há a meio uma zona de descanso, com um bebedouro e bancos. Nestes nunca me sentei porque são bancos com design, isto é, de betão e desprezando a função, o que faz com que, como estão à torreira do sol, devam estar a escaldar, e como são mal desenhados devam ser desconfortáveis.

O conjunto, projectado decerto por um desses arquitectos contemporâneos cujo sonho é reinventar a roda, estava há muito rodeado de fitas e grades por causa do extremoso cuidado da edilidade com a Covid, que hoje já estavam removidas. Compreende-se: um dos frequentadores podia surpreender uma das frequentadoras descansando de suas corridas e, enternecido pelo aspecto afogueado da jovem, e pelos seus shorts e top reveladores, entabular amigáveis conversações que, não sendo seguro que desembocassem na produção de um novel munícipe, e portanto potencial contribuinte, poderiam ainda assim espoletar um novo surto de infecção.

Não que interessasse muito: a própria pista esteve encerrada enquanto durou o confinamento, com a adequada vigilância da Polícia Municipal, não fosse algum munícipe, dos poucos que por lá andam, lembrar-se de ir fazer exercício e, pior, pôr em causa o claríssimo abuso de autoridade dos senhores edis. Que evidentemente não têm competência para impedir a circulação por causa de manias da vereação e terrores de uma população atordoada pelo massacre obsessivo da comunicação social, que reclama proibições, multas, interditos e toda a sorte de abusos – porque a causa parece justa, o medo é muito, e a ignorância ainda mais.

Quando se fizer a história que vale a pena, isto é, não a da Covid, mas a da vasta reacção de pânico injustificado que tomou conta do mundo, haverá lugar para pôr em contexto o poderoso impulso que a doença deu a toda a casta de estatismos, toda a sorte de intervenções e estupidezes das grandes e pequenas autoridades, todo o reforço injustificado de poderes das polícias, todo o desnecessário dano para a economia, e toda a dificuldade para fazer regressar esses monstros para dentro das respectivas caixas.

Entretanto, e para a pequena história, houve inesperados benefícios. Na minha cidade, havia falta de esplanadas: a Câmara local sempre teve uma palavra a dizer, porque o espaço é público, e essa costumava ser não.

Não porque o poder se mostra em todo o seu esplendor quando rejeita a pretensão do requerente; não porque os engenheirozinhos, os arquitectozinhos, os vereadorzinhos têm a sua tradição, e essa não é a de facilitar, anuir, concordar, mas a de colocar obstáculos que lhes justificam a importância.

Sucede que as regras de afastamento que ditaram a redução do número de lugares nos restaurantes levaram a que quem pudesse tivesse pedido para fazer uma esplanada, e quem a tinha para a aumentar. E foi permitido.

No centro da cidade (o novo, essencialmente do séc. XIX) a praça é periodicamente sujeita ao capricho e à moda, ou à ideia que dela fazem os parolos locais: Já teve jardim e coreto, o jardim já teve uma cerca e portões, já teve uma estátua, a fonte que lá está substituiu outra (embora não exactamente no mesmo local) que foi exilada, e em 2011 houve uma requalificação, que consistiu em tornar o espaço insusceptível de ser um lugar de convívio: quase não há sombra, o piso empedrado (desenhando uma planta do centro da cidade, utilíssima para quem vier de helicóptero) reverbera o calor, e de um dos lados colocaram um extenso e dispendioso gradeamento dourado separando o nada de coisa nenhuma, uma obra de arte de uma tal Ana Jotta que em devido tempo irá para a sucata (a obra, não a artista, que felizmente não conheço), seu destino natural.

Nos passeios alargados, onde aliás circula menos gente do que em tempos pretéritos porque a cidade cresceu, tem outros polos e outros hábitos, cabem à vontade esplanadas. E começam-se a ver, não por causa do senso, que não costuma ser atributo inerente à condição de autarca, mas da Covid.

Donde, concluo filosoficamente que Deus, às vezes, escreve direito por linhas tortas, e a Covid também.

Há quem viva dentro de uma bolha

por Paulo Sousa, em 30.06.20

Perante os números que desmentem os cartazes que há uns meses mandaram fazer às crianças, nem tudo está a correr bem, nem a caminho disso.

A correlação entre os novos casos de covid na região de Lisboa e os transportes públicos superlotados apareceu há mais de um mês nas noticias através dos empregados da Sonae da Azambuja. Depois disso voltei a ouvi falar da lotação dos comboios de linha de Sintra através de uma publicação de um familiar no Facebook. Entretanto já entendemos que o actual problema do (des)controlo da pandemia no nosso país resulta exactamente do facto de existirem pessoas que não se podem dar ao luxo de estar confinadas em casa, porque assim arriscar-se-iam a morrer não pela doença mas pela cura.

Quem tem a sorte, ou o mérito, de na actual situação poder trabalhar a partir de casa, consegue assim o melhor dos dois mundos, uma vez que continua a produzir riqueza e a manter a economia em movimento, e ao mesmo tempo resguarda-se de ser infectado nos transportes e nos espaços públicos.

Mas claro que existem sempre aqueles que vivem num mundo pequenino e cuja visão não vai além do seu próprio umbigo.

Não chegassem todos os privilégios que têm em relação a quem trabalha no privado, os Sindicatos da função pública vem agora exigir mais dinheiro pelo privilégio de poder trabalhar a partir de casa.

O governo se estivesse de facto a negociar com eles deveria terminar com o tele-trabalho e assim contar com eles no seu posto de trabalho à hora habitual. Mas o que está é apenas a tentar garantir o seu voto nas próximas eleições. O interesse do país é um detalhe.

Ele e a avó

por Teresa Ribeiro, em 20.05.20

Se fosse uma criança, ninguém estranharia tanto desvelo com a senhora sua avó, uma simpática anciã que completou recentemente 89 primaveras. Mas ele passa dos 40. É um homem feito, com uma vida. Tem muitos amigos, conquista-os facilmente, pois é uma pessoa naturalmente empática. E tem uma veia artística, que se transformou na base de muitas actividades em que não raras vezes é o elemento aglutinador: ele canta, toca, faz teatro, não pára quieto e no entanto tem sempre tempo para visitar, mimar, cuidar, daquela avó.

Podia ser um segredo bem guardado, esse amor desmedido que lhe dedica, mas não há qualquer espécie de pudor na sua atitude. Ele adora-a publicamente. Nas redes sociais lá estão selfies dos dois, notícias dos passeios e das patuscadas onde a leva em família.

Em tempo de pandemia, como seria de esperar, tornou-se de uma vigilância tão obsessiva, que me faz sorrir: “Não saias, é perigoso!”, “Não vás, eu vou!”, “Fulano quando te foi visitar usou máscara?”, “Não abras a porta a ninguém!”, diz-lhe quando lhe telefona do escritório.

Derreto-me com este amor tão fora de moda. Com a naturalidade que ele coloca em todos estes pequenos gestos. Como se fosse normal… (Será normal?) Olho à volta, procuro e não encontro exemplos que se aproximem sequer desta vontade de desfrutar até ao limite do possível a companhia de alguém que se sabe ter o tempo contado. Desta espécie de respiração boca a boca que ele lhe faz para a conservar motivada, bem-disposta, contente com a vida.

Em tempo de coronavírus, quando o que está a ganhar força em certos sectores da sociedade é esta miserável onda de darwinismo social que defende como um mal menor o sacrifício dos velhos em prol dos demais, este amor do Hugo pela avó parece, mais que nunca, um adorável anacronismo.

O barbilho social

por Paulo Sousa, em 20.05.20

Os camponeses, depois do trabalho, sentam-se junto do balcão, apoiam os cotovelos no mármore da mesa, e ouvem. As palavras fatigam.

Já há duas horas a despejar copos de vinho, o Barbaças olhando para os demais, todos envergando a máscara dita social, abriu a goela e disse a rir:

- Agora andam todos com um barbilho!

(...) um homem que saiba atirar com uma frase bem recheada e oportuna preenche uma hora de cogitações.

 

Os excertos são parte d'O trigo e o joio de Fernando Namora. O Barbaças, além de personagem dessa obra, é aqui a designação fictícia de um meu conterrâneo que além de recusar usar a máscara dita social, insiste em gozar com quem a usa.

Importa acrescentar que o barbilho, o original, é um objecto em vias de extinção usado nas vacas para as impedir de comer durante o trabalho, e cujo nome e utilidade apenas é conhecida pelos mais antigos.

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Pronto, pronto, já passou

por José Meireles Graça, em 18.05.20

Costa apela ao regresso à rua, a mesma que com empenho fez o possível para esvaziar.

Contraditoriamente, as agências governamentais continuam a parir manuais e normas e as polícias repoltreiam-se no seu papel de anjos armados da comunidade. Vejo, porém, agora, pessoas com tino e discernimento escandalizadas com o regulamento das praias, os semáforos e os outros delírios. Mas são as mesmas que não pestanejaram enquanto o Governo metodicamente cerceou liberdades e direitos sem as afectar directamente porque estavam em casa tolhidas de medo

Para quem estiver atento, o passeio de Costa, a as suas eructações piedosas, significam que a pandemia acabou. Que alguns regedores do PS ainda não estejam ao corrente do facto, e tripudiem em cima de direitos básicos com a impunidade que lhes dá um eleitorado que aprecia pouco a democracia, e nutre uma secreta atracção pela vergasta, não muda nada. Mesmo que um tribunal tenha lembrado a um desses que, mesmo numas ilhas perdidas no Atlântico, o regime ainda não é exactamente o de Odorico Paraguaçu.

As pessoas que tiveram exames, consultas e operações adiadas por causa do esvaziamento dos hospitais e centros de saúde, à espera do tsunami covidiano, têm três motivos para estarem gratas: o primeiro é que o seu sacrifício não ajudou, mas podia ter ajudado, no caso de as autoridades terem tido razão; o segundo é que houve profissionais de saúde que foram assoberbados, mas em compensação muitos outros puderam gozar um merecido descanso; e o terceiro é que, no caso provável de morte antecipada, têm direito a indulgências, por acordo que a ICAR, com o precedente do 13 de Maio em Fátima, não deixará de celebrar com o Governo com que a Divina Providência nos abençoou.

E, reconfortados por esta ideia, talvez pudéssemos imaginar que, da próxima, porque a Covid não foi o último vírus, ou bactéria, ou fungo, a irromper pelo mundo, estivéssemos todos um pouco mais cépticos e menos receptivos a acolher todo o cientista vidrado na sua especialidade, todo o político disposto a destruir o Estado de Direito em nome da popularidade, e todo o burocrata salivando pelo reforço do seu poder.

Não vai ser fácil: o spin vai ser que o vírus foi dominado pelas medidas, e que a calamidade das mortes por falta de assistência tempestiva, o desemprego, as falências, o crescimento da dívida, e o mais que se verá, são danos colaterais.

Mas as pessoas, que o diabo as leve, só têm que se queixar de si mesmas: Julgam que se pode alimentar crocodilos sem correr o risco de perder um braço? E imaginam que é fácil enjaular o leão depois de o deixar sair?

Consultas médicas

por José Meireles Graça, em 05.05.20

Na etiologia da infecção pela Covid há um factor estranho, mal estudado pela doutrina e pela comunidade científica, e que vem a ser a influência que o vírus exerce em pessoas que dele não são portadoras, em particular médicos, e que os faz ter opiniões arrogantes e suficientes sobre a forma de lidar com a pandemia, que não é um assunto exclusivamente médico (nem exclusivo aliás de nenhuma formação específica, a ideia de que há formações específicas para lidar com problemas complexos que envolvem conhecimentos científicos de índole vária mas têm uma dimensão social gravosa é em si uma simplificação ingénua, para não dizer primária).

O médico é essencial para tratar doenças, como o mecânico é essencial para reparar automóveis, mas nem a um se deve tolerar que seja muito mais do que um conselheiro do doente nem ao outro que decida como o cliente deve conduzir.

Portanto, aconselharia à população malcriada que anda nas redes do alarido (foi lá que originalmente publiquei este desabafo) a destratar quem, sobre as políticas públicas para lidar com a pandemia, tem opiniões cépticas, que se aconselhasse junto de especialistas, no caso psiquiatras, para o efeito de terapêuticas calmantes que carecem de receita médica.

Mas atenção, convém não entabular conversas demasiado extensas com o facultativo sobre o assunto do dia, não vá ele não ser um exemplo típico da espécie, caso em que se requer uma visita ao médico de família, para verificar a tensão.

As "celebrações" do 1º de Maio

por jpt, em 01.05.20

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Hoje, 1º de Maio e manifestações por aí. Tal como houve celebrações "em sala grande" e sem "mascaradas" no 25 de Abril. Então é dia para recordar esta postura de Mattarella, o presidente italiano, celebrando nesse mesmo 25 de Abril o 75º ano (número ainda mais simbólico) sobre a libertação italiana na II Guerra Mundial. Ou seja, o dia da liberdade, da democracia, do fim do jugo nazi-fascista. E da paz. Fazendo-o de modo tão mais simbólico, tão mais solidário, tão mais cidadão, tão mais democrata. Tão mais respeitador. E tão mais inteligente. Do que este paupérrimo duo Rodrigues-Sousa na festa chocha de São Bento e nas arruadas de hoje.

Porque precisa esta "esquerda" instalada, cinquentona, sexagenária, septuagenária, destas festividades? É um potlatch de incúria intelectual. Revivem um panteão risível, entre louvores aos múltiplos itens do "movimento comunista" e aquilo a que se chamava "terceiro-mundismo", agora dito "pensamento abissal". Utilizando como matéria-prima um grupo seleccionado, pouco orgânico, de militares apolitizados na sua maioria, e que pensaram consoante as suas circunstâncias de época. Disso amputando outros, que não correspondem aos desejos desta gente de agora, já apenas afectivos pois, de facto, mera disfunção ideária. É um ritual que serve para reforçar a "amnésia organizada" sobre a revolta de Abril e a revolução que se lhe seguiu. Manobra que lhes permite dizer, nas outras 51 semanas, todos os que não se revêm nesse vetusto imaginário de radicalismo marxista como "fascistas", "inimigos da democracia", "salazaristas". Não há outra razão para a parvoíce cerimonial desta semana. 

Assim a "vacinada" e "desmascarada" boçalidade de Rodrigues, acolhida pelo pusilânime Sousa, não só se contrapõe a esta simbólica grandeza de Mattarella, ali só a celebrar a queda final de Mussolini/Hitler. De facto, as patéticas manifestações (ditas, hipocritamente, celebrações) de hoje e a cerimónia de 25 de Abril servem para nos dizer, aos imunes ou convalescidos do apego totalitário, como "fascistas". A fronteira é fluída, mas cruza ali ao PS, puxada à "esquerda". 

Este ritual, falsificador da vida portuguesa, sobrevive nos dislates. Sempre desculpados pelo "afecto memorialista" com a "liberdade", com a (nossa) "juventude". Todos os anos se revive essa parvoíce. Nem falo da absurda capa de hoje do "Público", que é onde leva a patetice misturada com uma inenarrável candura, e a querer-se interventiva ...  Agora um bom e antigo amigo enviou-me um filme associando o novo líder do partido demo-cristão, um puto de 30 anos, com o salazarismo. Respondi-lhe, entre homens, invocando genitálias e "imoralidades" sexuais. Uma querida amiga chamou "Sua Excelência" ao abjecto terrorista assassino Carvalho, fui suave na reacção (e nem falei na piroseira) mas presumo-a ofendida. E pelas redes sociais abundam os dislates louvaminheiros do mesmo tipo. E não só cá: no mural de um intelectual moçambicano que, recorrendo a codiciosas demagogias textuais, entende dever ensinar-nos como viver,  um demo-cristão português é invectivado de fascista, neo-nazi, homossexual, (voz de) colono. E, para abrilhantar a festa, de branco. E comunistas portugueses - brancos, já agora, - vão lá aplaudir. Tal como o dono da casa o faz, ainda que muito democrata, como por cá o consideram os libertários. 

Celebrar o 25 de Abril é celebrar a Paz (que todos esquecem pois julgam secundária) e a Liberdade. E o 1º de Maio é celebrar os direitos laborais. Não é mistificar a história, falsificar o presente. E impensar. 

Assim sendo, com a imagem de Mattarella, vai daqui de Nenhures a minha saudação à UGT e aos sindicalistas do BE, que decidiram celebrar o dia dos trabalhadores como, neste momento, manda a ética de cidadania. E sei que muitos deles, ali na rapaziada bloquista, queimam incenso e mirra a uns totens execráveis. Mas portaram-se muito bem neste dia. Ao invés de outros, com mais responsabilidades institucionais. E de outros, profissionais intelectuais com obrigações analíticas.


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