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Tantos que não servem para nada

por Pedro Correia, em 23.10.20

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1

Existe em Portugal, desde 2016, uma coisa chamada Conselho Nacional de Saúde (CNS). 

Serve para quê?

Segundo a página oficial deste organismo, para «apreciar e emitir pareceres e recomendações sobre temas relacionados com a política de saúde», por iniciativa própria a solicitação do Governo. «Produz e apresenta ao ministro da Saúde e à Assembleia da República um relatório sobre a situação da saúde em Portugal, formulando as recomendações que considerar necessárias». E visa «promover uma cultura de transparência e prestação de contas perante a sociedade» . 

É composto, espantosamente, por 30 membros. Reunindo em plenário pelo menos duas vezes por ano e sempre que for considerado necessário, por decisão do presidente deste mesmo órgão ou de um terço dos seus membros, ou em qualquer ocasião a pedido do Governo. Beneficia do apoio permanente de um conjunto de peritos.

Fui à página oficial do CNS, cliquei em "a[c]tas das reuniões plenárias": a mais recente remonta a 4 de Julho. Podia ser pior: ainda não se cumpriram quatro meses de intervalo. Menos actuais são os  "relatórios de a[c]tividades": a contabilidade parece ter parado em 2018.

Enfim, senti curiosidade em perceber que notícias tinha produzido este órgão de consulta do Governo durante todo o Verão pandémico. Nada. Lembrou-se há dois dias de dar sinal de vida, interrompendo um pesado sono para parir uma "reflexão" em dez pontos. Em forma de decálogo e com a linguagem solene e desajustada da realidade a que os burocratas nos habituaram.

Lá surgem inanidades como esta: «Definir e implementar urgentemente um plano nacional de retoma da prestação de cuidados de saúde, que contemple estratégias de resposta à epidemia de COVID-19, assim como estratégias dirigidas ao cuidado das outras doenças agudas e crónicas e da promoção da saúde. Este plano deverá ser inclusivo e ter especial atenção às pessoas mais afe[c]tadas pela pandemia e às em situação de maior vulnerabilidade.» Ou esta: «Reforçar e investir em estratégias de promoção da saúde física e mental e de prevenção da doença, contribuindo para a literacia em saúde e a resiliência da população, envolvendo os recursos disponíveis em entidades governamentais, profissionais de saúde, media e redes sociais para a criação de espaços seguros e promotores de saúde, nomeadamente em escolas, lares e locais de trabalho.»

Fiquei esclarecido: isto não serve mesmo para nada.

 

2

Já havia este Conselho Nacional de Saúde. Mas o Governo, não satisfeito com isso, decidiu criar em Janeiro um Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP). Outro organismo de consulta, este especificamente destinado a emitir recomendações «no âmbito da prevenção e do controlo das doenças transmissíveis». 

Segundo o despacho ministerial que o criou, na tal linguagem pastosa e burocrática que menciono acima, o CNSP «integra representantes dos se[c]tores público, privado e social, incluindo as áreas académica e científica, pretendendo-se eclé[c]tica e abrangente, mas operacional e a[c]tuante».

Não fazem a coisa por menos: este órgão integra 20 membros, aqui enumerados - incluindo um pleonástico assento destinado ao presidente do Conselho Nacional de Saúde. 

O CNSP existe, fundamentalmente, para «análise e avaliação das situações graves, nomeadamente surtos epidémicos de grande escala e pandemias». Pensaríamos, portanto, que teria reunido diversas vezes desde que o surto epidémico em curso provocou a primeira vítima mortal no nosso país, a 16 de Março. Pura ilusão: não reuniu vez nenhuma.

Esta galeria de sumidades juntara-se apenas uma vez, antes dessa triste data, e manteve-se posta em sossego - como a doce Inês de Castro nos versos de Camões - até agora. Mais de seis meses depois, volta a reunir-se esta tarde com a ministra, por vídeo-conferência, para analisar a «implementação de medidas de saúde pública». A anterior reunião havia ocorrido a 11 de Março. E produziu uma inútil recomendação, que o Governo fez bem em não seguir, pronunciando-se contra o encerramento das escolas no âmbito do combate à pandemia.

 

3

Balanço de tudo isto: já havia um órgão inútil, criado por este Governo. Desde Janeiro, passou a haver dois. Enquanto a pandemia alastra a um ritmo avassalador, já com mais de três mil infecções diárias, esta gente nem se dá ao incómodo de fingir que mostra serviço.

Estão lá para quê?

Os meios e os fins

por Pedro Correia, em 22.10.20

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O pior da sociedade portuguesa começa a vir à superfície neste oitavo mês de pandemia: refiro-me ao inaceitável clima de delação, a pretexto do combate às infecções, que ameaça deteriorar as relações humanas, enquanto cada qual se encerra no seu casulo, desconfiando de tudo e todos. E nem a malha familiar está livre disto, quando já tivemos o Presidente da República advertindo contra os habituais reencontros natalícios, enquanto milhares de velhos vivem em efectiva reclusão dentro de supostos "lares" que se tornam antecâmaras de morte. Com os entes queridos mantidos à distância, como ontem o JPT nos relatava aqui, em texto de leitura obrigatória.

Inverte-se o ónus da prova, transforma-se em letra morta a garantia constitucional: todos somos culpados até prova em contrário. 

 

O que sucedeu há dias a um professor universitário comprova isto. Este docente da Faculdade de Arquitectura, em Lisboa, foi abordado à saída de uma aula, em pleno estabelecimento de ensino, por agentes da PSP, que lhe impuseram uma coima de cem euros por não ter usado máscara durante parte da sua exposição aos alunos, em que permanecera sentado. Apesar de só haver 20 estudantes na sala, cada um estar separado dos restantes por uma distância mínima de cinco metros e todos se encontrarem afastados do professor. Apesar de este só não ter usado máscara durante a primeira das quatro horas de duração da aula.

Denúncia anónima e cobarde. Incentivo à bufaria, vício de péssima memória na sociedade portuguesa. Inaceitável intromissão da PSP em instalações universitárias para punir comportamentos de professores ou alunos. Tudo isto devia causar indignação. Mas, a pretexto do respeitinho absoluto pelas normas sanitárias, que aliás vão mudando ao sabor das circunstâncias, acabamos por tolerar todas as prepotências, todas as arbitrariedades, toda a desproporção de meios sempre justificados pelos fins.

Começam assim, com casos isolados e em pequena escala. Mas sabemos muito bem onde podem desembocar. 

A vizinha de António Costa

por Pedro Correia, em 19.10.20

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«Noutro dia uma vizinha minha vinha de máscara e disse-me: "Então o senhor primeiro-ministro não anda de máscara?!" Eu disse: não é obrigatório. Ela disse: "Não é mas devia usar." E eu fiquei a pensar nisso.»

 

Com esta risonha declaração aos jornalistas, António Costa desvendou o segredo do processo de decisão política no seu governo. Nomeadamente na recente intenção de tornar obrigatório o uso de máscara na generalidade dos espaços públicos ao ar livre.

A sagaz vizinha de Costa funciona como conselheira. É quanto basta. Para quê ouvir epidemologistas, virologistas e especialistas em saúde pública - entre outras sumidades da medicina - em chatíssimas  reuniões tantas vezes inconclusivas, se é possível beber sabedoria num simples encontro de vão de escada?

Convém "rastrearmos" os jornais

por Pedro Correia, em 18.10.20

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Ontem, no auge da polémica sobre a geringonça (refiro-me à aplicação Covid, não à defunta coligação governamental), quase todos os jornais a destacavam em falsas primeiras páginas com patrocínio do Governo. Este encarte publicitário terá custado balúrdios ao erário.

Até os diários desportivos A Bola, o Record O Jogo receberam este brinde - o que deve dar imenso jeito ao conjunto dos periódicos, vários dos quais têm salários em atraso enquanto outros têm despedido dezenas de trabalhadores.

Fica um teste à perspicácia dos leitores. É interessante "rastrearmos" as posições editoriais destes jornais sobre o controverso tema "app Stayaway" nos tempos que vão seguir-se. Aposto desde já que alguns não tardarão a bater palminhas.

 

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O pregador recém-convertido

por Pedro Correia, em 15.10.20

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O primeiro-ministro que permitiu um 25 de Abril sem máscaras na Assembleia da República (dispensáveis por a cerimónia oficial decorrer num «edifício grande», na assombrosa definição da doutora Graça Freitas), a celebração ritual do 1.º de Maio pela CGTP em pleno estado de emergência e a Festa do Avante!, entre muitos outros "eventos", vira agora pregador evangélico dizendo aos portugueses que «temos o dever de nos proteger e de proteger os outros».

Convém não sermos ludibriados por esta pose de recém-convertido aos rigores sanitários, entre ameaças de coimas pesadíssimas e da tentativa de imposição obrigatória (obviamente inconstitucional), em contexto laboral, de uma aplicação digital gerida por multinacionais da recolha de dados. Trata-se do mesmo chefe da mesma equipa governativa que, pela voz da directora-geral da Saúde, antecipava em Janeiro que «não há grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal» e em Março desaconselhava o uso de máscaras por incutirem «falsa sensação de segurança». É o mesmo que em Junho "vibrava" entre duas mil pessoas que assistiram a um concorrido show humorístico no Campo Pequeno.

Soaram entretanto as doze badaladas da meia-noite e eis-nos imersos em nova quarentena social. Decretada por um governo que carece em absoluto de autoridade moral para o efeito. Fazem-se desde já prognósticos sobre as próximas excepções às novas regras - e a cor política que terão.

Natal virtual

por Pedro Correia, em 13.10.20

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Quase em uníssono, numa verdadeira demonstração de unicidade institucional, o Presidente da República (nas linhas) e a ministra da Saúde (nas entrelinhas) vieram alertar-nos: o Natal, este ano, não será Natal.

Será um Natal virtual, à distância, com a brigada anti-contágios sempre vigilante. Contra o novo coronavírus, enquanto os portugueses vão morrendo (mais seis mil do que a média dos cinco anos anteriores) sobretudo com as velhas doenças. Mas morrem entre as quatro paredes domésticas, solitários como nunca, cada vez mais fechados em casa por terem medo de frequentar os hospitais.

Como não recear a nova peste se todas as noites, serão após serão, somos brindados com horas de noticiário em exclusivo sobre a pandemia, criando-se assim a ilusão de que todas as outras causas de infecção e morte foram banidas do planeta?

 

Deixou de haver doenças cardíacas, deixou de haver doenças oncológicas, deixou de haver acidentes vasculares cerebrais. Já não há homicídios, já não há suicídios, já não há "sinistralidade rodoviária" (eufemística alusão aos assassínios no asfalto), já não há violência doméstica. Ninguém mais ouviu falar de tudo isto, que antes dominava os telediários.

Nem sequer uma palavra, nos dias que vão correndo, sobre os riscos do aquecimento global, o degelo no Pólo Norte e a desmatação da Amazónia. Até a menina Greta se eclipsou do mapa mediático. "Vinte-vinte" é o ano do vírus. E 2021 ameaça repetir a dose, sem fim à vista.

 

Entretanto os centros comerciais vão fazendo pela vida nesta era de incertezas. Num deles, vi há uma semana exacta o cartaz que ilustra este texto - prova evidente de que o Natal se tornou mera abstracção, alheio às contingências do calendário. Falta pouco para começar na Páscoa. Ou no Carnaval.

Natal partilhado à distância de um clique no ilusório aconchego do zoom. Com distância física de tudo, excepto de um ecrã de computador.

O passo seguinte será a instalação de barreiras de acrílico em todas as divisões dos apartamentos domésticos, sob minuciosa fiscalização das brigadas sanitárias. E depois outras, a dividir cada divisão. Até cada um de nós se encerrar, devidamente "higienizado", no metro quadrado tumular que lhe couber em sorte ainda em vida.

 

Prendas para a quadra? Façam desde já a vossa lista: máscaras com símbolos natalícios, luvas da cor da barba do Pai Natal, álcool gel com aroma de rena nórdica - tudo made in China, o país de origem do vírus. Deve ser isto a que alguns chamam "economia circular".

Feliz Natal, portanto. Seja lá o que isso for.

Os 35 mais infectados

por Pedro Correia, em 12.10.20

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 1,1 milhões de mortos e 37,8 milhões de infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. Neste período, o número de óbitos aumentou cerca de 20%, enquanto os novos casos entretanto detectados subiram por volta de 30%.

Um registo que me leva a ordenar os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 45.582 casos por milhão de habitantes

Barém: 44.028

Israel: 31.729

Panamá: 27.763

Koweit: 25.913

Peru: 25.661

Chile: 25.121

EUA: 24.105

Brasil: 23.922

Omã: 20.727

Argentina: 19.735

Arménia: 15.291

Espanha: 19.041

Colômbia: 17.857

Costa Rica: 17.121

Moldóvia: 15.417

Bélgica: 13.987

Bolívia: 11.827

África do Sul: 11.635

França: 11.253

República Checa: 10.930

República Dominicana: 10.891

Emirados Árabes Unidos: 10.705

Holanda: 10.186

Iraque: 9.942

Singapura: 9.872

Suécia: 9.731

Arábia Saudita: 9.703

Bósnia-Herzegovina: 9.358

Rússia: 8.991

Reino Unido: 8.880

Bielorrússia: 8.841

Irlanda: 8.586

PORTUGAL: 8.506

Honduras: 8.452

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia mantém-se em ritmo muito elevado no continente americano e no Médio Oriente - com destaque, neste caso, para o alarmante caso de Israel, que num mês duplicou a cifra oficial de contágios, passando a ocupar o terceiro posto deste pódio. Em Setembro era o décimo país com maior número de infecções.

Subidas muito acentuadas também em países europeus. Espanha persiste em liderar as estatísticas negativas no nosso continente, tendo quase duplicado o número de casos detectados durante este período e agora troca de posições com a Colômbia. Más notícias também na Bélgica (ocupava o 25.º posto há um mês, é 17.º agora), em França (estava em 35.º lugar em Setembro e regressa aos vinte mais infectados), Holanda (ausente dos 35 que encimavam a lista anterior e hoje na 23.ª posição) e Reino Unido (sobe de 37.º para 31.º).

Em sentido inverso, a Suécia: baixa do 23.º ao 26.º posto, apesar de continuar a ser o país europeu onde menos se fazem sentir as medidas restritivas ou de confinamento. Um caso que merece ser seguido com atenção.

E Portugal? A boa notícia é que recuamos um lugar, relativamente a Setembro. A má notícia é que continuamos entre os Estados membros da União Europeia com mais contágios registados por cada milhão de habitantes. 

Em termos comparativos, à mesma escala, temos o dobro dos infectados por Covid-19 em países como Eslovénia, Marrocos, Hungria, Sérvia e Turquia. Triplicamos os números da Noruega, Estónia e Tunísia. Registamos cinco vezes mais casos do que na Grécia ou na Finlândia. E oito vezes mais do que no Egipto ou na Austrália.

.........................................................................

 

Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez 31 para incluir a estatística portuguesa:

 

Peru: 1006

Bélgica: 878

Bolívia: 709

Brasil: 707

Espanha: 704

Chile: 695

Equador: 688

EUA: 663

México: 648

Reino Unido: 630

Itália: 598

Suécia: 583

Panamá: 575

Colômbia: 545

Argentina: 527

França: 500

Holanda: 384

Irlanda: 369

Moldóvia: 362

Arménia: 346

Irão: 339

África do Sul: 299

Roménia: 285

Bósnia-Herzegovina: 283

Canadá: 254

Honduras: 253

Iraque: 243

Suíça: 241

Israel: 216

Costa Rica: 211

PORTUGAL: 204

 

O destaque continua a ser ocupado, em níveis cada vez mais intensos, por nações do continente americano. Permanecendo o Peru no topo desta lista negra. Subidas acentuadas de países como a Bolívia (há um mês era sexto, agora é terceiro), o Brasil (sobe do oitavo ao quarto lugar), México (em Setembro estava no 12.º posto, entra hoje nos dez mais) e Argentina (com o maior salto proporcional, do 23.º ao 15.º).

Cifras negras também na Europa: a Bélgica mantém-se como segundo país do mundo com mais óbitos por milhão de habitantes e a Espanha figura ainda entre os cinco primeiros (embora desça da terceira posição registada em Setembro). Descida também do Reino Unido (era o quarto com mais mortos, proporcionalmente, agora é o décimo). 

A Itália - que já esteve em primeiro - situa-se hoje na 11.ª posição: há três meses surgia em quarto. Destaque igualmente para a Suécia, que entre Julho e Outubro baixou do 5.º para o 12.º lugar. 

Portugal sai pela primeira vez da lista dos 30 países com mais mortos por milhão de habitantes. Confirma-se assim a tendência para a descida já verificada em Julho, quando estávamos em 21.º. Em cinco meses, caímos 19 lugares: convém recordar que no início de Maio ocupávamos a 12.ª posição. 

Infelizmente ainda figuramos entre os dez países da União Europeia neste quadro nada invejável. Com o dobro dos óbitos por Covid ocorridos na Dinamarca, Hungria e Áustria. Triplicando o registo da Finlândia. E com cerca de cinco vezes mais vítimas mortais do que a Grécia.

Sem cinema nem futebol

por Pedro Correia, em 07.10.20

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Jeanne Moreau em La Baie des Anges, de Jacques Demy

 

O nosso João Campos deu-me uma boa notícia: o cinema sem pipocas vai resistindo como pode no circuito de exibição em Lisboa, mesmo em tempo de pandemia.

Eu há sete meses que não o frequento.

Desde o ciclo Carta Branca 2020 a Jorge Silva Melo, na Cinemateca, no início de Março.

 

Ainda o aproveitei como pude.

No dia 2, revi a fabulosa Carmen Jones (1954), de Otto Preminger.

No dia 5, vi pela primeira vez um interessantíssimo filme de Carol Reed passado em Belfast, com o conflito anglo-irlandês em fundo: Odd Man Out (de 1947, com James Mason), já com muitos elementos estéticos que prenunciavam o magnífico O Terceiro Homem, rodado em Viena dois anos depois.

Vi ainda La Baie des Anges (1963), de Jacques Demy, com a magnética presença de Jeanne Moreau. Extraordinária actriz que sempre me fascinou.

 

Foi a 9 de Março, uma segunda-feira. Na véspera, tinha ido ao futebol, no estádio do meu clube, ver o Sporting-Aves - estreia do treinador Rúben Amorim em Alvalade.

 

As escolhas de Silva Melo pareciam excelentes, o ciclo prometia muito: infelizmente, ficou amputado pela pandemia.

Deixei de frequentar salas de cinema, até agora. E continuo impedido de frequentar estádios de futebol.

 

Tanta coisa tem mudado nas nossas vidas desde então. Também isto. Parecem detalhes, mas não são.

Eutanásia social

por Pedro Correia, em 29.09.20

Está em curso uma autêntica eutanásia social. O morticínio que tem acontecido nos chamados "lares de idosos" - muitos dos quais clandestinos, perante a criminosa indiferença de tantas autoridades autárquicas, de norte a sul do País - é algo que devia chocar todos os portugueses. Das quase duas mil vítimas mortais por Covid-19 oficialmente já registadas, cerca de 40% ocorreram naqueles antros. Vitimando gente indefesa, que na grande maioria dos casos nem pode sair daquelas instalações, onde na prática vigora um regime de reclusão forçada desde que foi declarada a pandemia.

Só em Reguengos de Monsaraz, como num filme de terror, morreram 18. Nunca a bela palavra lar foi tão conspurcada e pervertida.

Infelizmente este assunto, como se tornou hábito, vem sendo tratado apenas enquanto dado estatístico na generalidade dos órgãos de informação. E siga para bingo, pois tristezas não pagam dívidas e há que continuar a promover "spots da moda" e inserir publirreportagens nos telediários recomendando "passeios inesquecíveis" (com gel e máscara).

E colar mais um arco-íris na janela com a frase "vai ficar tudo bem". Num país em que mais de 12 milhões de consultas e cirurgias permanecem por fazer.

Não quero médicos a mandar

por Pedro Correia, em 23.09.20

Há por aí alguns responsáveis autárquicos a exorbitar das funções que lhes são atribuídas, torcendo as normas legais: a pretexto da epidemia em curso, querem impor o uso obrigatório da máscara aos munícipes em todos os espaços públicos, incluindo ao ar livre. Algo que as autoridades centrais nunca decretaram - nem sequer quando o País se encontrava sob estado de emergência, com números de infecções e mortes mais preocupantes do que os actuais. Por um motivo muito simples: nada no nosso ordenamento constitucional autoriza tal medida.

Este excesso de zelo autárquico - e refiro-me concretamente, pelo menos, aos presidentes das câmaras municipais de Guimarães, Arruda dos VinhosCastro Marim e Vila Real de Santo António - é aplaudido por alguns talibãs do sistema sanitário que percorrem os telejornais, serão após serão, em defesa aberta de tal medida. Acontece que estes clínicos não foram eleitos para tomar decisões em nome do interesse público. É para isso que existem os governantes, sujeitos à legalidade democrática. No dia em que os médicos tomassem o poder e os políticos exercessem medicina estaríamos todos bem pior.

Três em um

por Pedro Correia, em 15.09.20

1

Foi impressão minha ou nesta Feira do Livro que anteontem terminou em Lisboa as jovens que atendiam nos pavilhões das editoras foram escolhidas pela beleza ocular? Nunca vi tantos olhos azuis e verdes, ainda mais em evidência devido à máscara obrigatória que todos ali usávamos, vendedores e clientes. Pode ser coincidência, claro. Mas há muito que deixei de acreditar em coincidências.

 

2

Reparo num número crescente de mulheres, ainda jovens, exibindo cabelos brancos sem constrangimentos nem complexos. Efeitos do confinamento, do teletrabalho, das longas semanas com salões de cabeleireiro encerrados. Fazem muito bem. É tempo de todos descobrirmos (a começar por elas) que os cabelos brancos nada afectam a sensualidade feminina. E podem até acentuá-la. 

 

3

Comprei já não sei o quê, numa loja em Lagos, e reparei na jovem que me passava o troco: sorria com os olhos. Felicitei-a por isso: cada vez menos gente partilha sorrisos - e, nesta circunstância, ter a capacidade de sorrir com os olhos é um dom precioso. Um dom que devíamos desenvolver nestes dias de rostos ocultos pela uniforme expansão das máscaras. Custa menos do que parece.

De improviso em improviso

por Pedro Correia, em 11.09.20

image.jpgFoto: Tiago Petinga / Lusa

 

Para não variar, a directora-geral da Saúde voltou a fazer uma declaração inaceitável. Em que, uma vez mais, menospreza e subalterniza o desporto. Como se uma sociedade em que a prática desportiva organizada, promovida por agremiações clubísticas, não fosse parte iniludível da saúde, tanto na componente individual como colectiva.

 

A mesma responsável que autorizou viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, a mesma alta funcionária governamental que deu luz verde às manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, a mesma senhora que permitiu eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão continua a vetar o regresso do público aos recintos desportivos.

Com argumentos sem pés nem cabeça, confundindo aquilo que não deve ser confundido e até fazendo alusões demagógicas ao início do ano escolar, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as modalidades colectivas em geral e o futebol em particular.

 

«Público nos estádios e reabertura das discotecas não será certamente nos próximos tempos. Temos de ver esta grande experiência que é o retorno às aulas e qual será o seu impacto nos números», afirmou anteontem Graça Freitas. Equiparando assim as bancadas de um estádio - onde os lugares estão marcados, é muito fácil estabelecer limite máximo de entradas e o espectáculo decorre ao ar livre - ao interior de uma discoteca, onde o espaço é fechado, as pessoas estão sempre em trânsito e não há possibilidade de assegurar distanciamento físico.

Pior: ao englobar na mesma frase bancadas de estádios e discotecas nocturnas, Graça Freitas confirma ter absurdos preconceitos contra o futebol e não fazer a menor ideia sobre a importância do desporto no "desconfinamento" cada vez mais urgente da sociedade.

Como aqui assinalei, futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas - e as receitas de lugares nas bancadas ou camarotes, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de agremiações desportivas que põem centenas de milhares de portugueses a fazer exercício físico. Porque uma sociedade onde não se pratica desporto é uma sociedade doente.

Não compreender isto é nada compreender de essencial.

 

Noutras circunstâncias, eu recomendaria que Graça Freitas se aconselhasse com o secretário de Estado do Desporto. Mas não o faço porque João Paulo Rebelo já demonstrou ser tão insensível e tão ignorante na matéria como ela. Só isso explica que, numa recente entrevista, este governante tenha desvalorizado o facto de largos milhares de jovens continuarem impedidos de treinar ou competir sem restrições, dando-se até ao luxo de fazer uma graçola com a brutal quebra de receitas das agremiações desportivas: «Não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas.»

Seria simplesmente ridículo se não fosse grave.

 

Uma directora-geral que mete estádios e discotecas no mesmo saco, um secretário de Estado totalmente alheado do dramático quotidiano do sector confiado à sua tutela: assim vamos, seis meses após a declaração da pandemia.

De improviso em improviso, de disparate em disparate.

Os 35 mais infectados

por Pedro Correia, em 10.09.20

Dois meses depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 908.434 mortos e 28.050.208 infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. Neste período, o número de óbitos quase duplicou, enquanto os novos casos entretanto detectados subiram cerca de 130%.

Um registo que me leva a ordenar assim os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 43.039 casos por milhão de habitantes

Barém: 33,553

Panamá: 22.886

Chile: 22.302

Koweit: 21.502

Peru: 21.258

EUA: 19.765

Brasil: 19.729

Omã: 17.140

Israel: 15.553

Arménia: 15.291

Colômbia: 13.471

Espanha: 11.621

Argentina: 11.315

África do Sul: 10.806

Bolívia: 10.539

Moldóvia: 10.204

Costa Rica: 10.038

Singapura: 9.767

República Dominicana: 9.287

Arábia Saudita: 9.251

Suécia: 8.493

Bielorrússia: 7.768

Bélgica: 7.732

Emirados Árabes Unidos: 7.665

Rússia: 7.170

Quirguistão: 6.828

Bósnia-Herzegovina: 6.793

Iraque: 6.779

Honduras: 6.603

Equador: 6.339

Irlanda: 6.096

PORTUGAL: 6.039

Casaquistão: 5.663

França: 5.269

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia continua em progressão acelerada na zona do Golfo Pérsico e na América Central e do Sul. Em ritmo galopante em países tão diversos como o Panamá (era sétimo em Julho e agora é terceiro), Peru (estava em nono, agora é sexto), Colômbia, Argentina, Bolívia e Costa Rica (que nem figuravam entre os 25 mais infectados). O Brasil sobe de décimo para oitavo.

Pelo contrário, há um claro abrandamento da escalada comparativa de infecções na generalidade dos países europeus. Com destaque para a Suécia (baixa de 13.º para 22.º, Bielorrússia (desce de 14.º para 23.º), Bélgica (era 18.º, agora está em 24.º) e a Irlanda (que passa do vigésimo posto para 32.º). 

Evolução positiva também no Reino Unido (que em Junho era o 15.º país proporcionalmente mais infectado e agora é o 37.º) e em Itália (que baixa de 25.º para 42.º).

Tendência seguida igualmente em Portugal: nestes dois meses, passámos de 23.º para 33.º. Mesmo assim, em termos relativos, somos ainda o quinto país da União Europeia com mais casos de Covid-19 por milhão de habitantes.

Excepção à regra é a nossa vizinha Espanha, que teima em manter-se no pelotão da frente. Pelos piores motivos. Em Julho, estava no 15.º posto desta lista nada invejável e desde então subiu ao 13.º lugar. Neste momento é o único país europeu que figura entre os vinte primeiros.

 

.........................................................................

 

Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez 30 para incluir a estatística portuguesa:

Peru: 915

Bélgica: 855

Espanha: 634

Reino Unido: 612

Chile: 611

Bolívia: 611

Equador: 605

Brasil: 604

EUA: 589

Itália: 589

Suécia: 578

México: 535

Panamá: 489

França: 472

Colômbia: 433

Holanda: 364

Irlanda: 360

Arménia: 306

Moldóvia: 272

Irão: 269

África do Sul: 255

Canadá: 242

Argentina: 235

Suíça: 233

Roménia: 209

Bósnia-Herzegovina: 206

Honduras: 206

Iraque: 191

PORTUGAL: 181

República Domicana: 176

 

O destaque pela negativa, desta vez, cabe ao Peru: um salto dramático do 11.º lugar ao primeiro posto nestes dois meses. A mesma tendência ascendente verifica-se noutros países sul-americanos: Chile (de nono para quinto), Equador (de 13.º para sétimo) e Brasil (de 12.º ao oitavo lugar). Além da Bolívia, que em Julho nem figurava entre os vinte com mais óbitos em termos proporcionais. 

Na América do Norte, regista-se um sinal inverso já patente no Canadá (que desce do 15.º ao 22.º posto) e nos EUA (ainda entre os dez mais, mas agora em nono, tendo baixado dois lugares). Só o México contraria esta tendência: subiu do 14.º ao 12.º lugar.

A Itália - que já esteve em primeiro - situa-se hoje na décima posição: há dois meses surgia em quarto. Destaque igualmente para a Suécia, que baixa do 5.º para o 11.º lugar. 

Em rumo inverso, a Espanha troca com o Reino Unido no nada invejável terceiro posto.

 

Ao contrário do que vinha ocorrendo nos meses anteriores, esta lista deixa de ter maioria europeia: neste momento situam-se no Velho Continente apenas quatro das dez nações mais enlutadas, na proporção entre mortos por Covid-19 e a população de cada país. Em Julho, eram oito: Suécia, França, Holanda e Irlanda deixaram de figurar no top ten deste macabro rol dos óbitos mundiais por Covid-19.

Para Portugal, a melhor notícia é a queda para o 29.º posto, confirmando a tendência para a descida já verificada em Julho, quando estávamos em 21.º. Em quatro meses, caímos 17 lugares: convém recordar que no início de Maio ocupávamos a 12.ª posição. A instável Roménia, que na contabilidade anterior tinha cerca de metade do número de óbitos registados em Portugal, está agora à nossa frente.

A má notícia é que ainda figuramos entre os dez mais da União Europeia em número proporcional de mortos. Duplicando os números da Áustria. Apresentando cerca do triplo registado em nações como Polónia, Finlândia e Hungria. E com cerca de seis vezes mais óbitos do que a Grécia, nossa concorrente directa na captação de receitas turísticas internacionais.

Heróis

por Pedro Correia, em 06.09.20

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«Vem aí a segunda vaga ou a segunda onda de medo. A segunda oportunidade para a coragem e para conhecer os verdadeiros heróis. Ouvi que Mário Nogueira já começou a colocar entraves aos professores nas aulas, que os magistrados do Ministério Público acham que ainda não há acrílicos suficientes nos tribunais para os proteger, que os médicos estão reticentes em voltar aos hospitais e que os funcionários públicos que não ficarem de baixa mas sim em teletrabalho querem aumento de ordenado pelos "custos acrescidos" de trabalhar em casa. Sim, tivemos muitos "heróis" na primeira vaga. Professores em casa, tribunais fechados meses a fio, médicos e enfermeiros (tirando os que, de facto, atendiam os doentes covid, uma minoria) resguardados em casa enquanto lhes batiam palmas às janelas. Mas os verdadeiros heróis foram outros: os trabalhadores dos supermercados, os camionistas e os trabalhadores dos armazéns que traziam os produtos para os supermercados, os pescadores e os trabalhadores agrícolas, a maior parte deles imigrantes, vivendo em contentores, trabalhando sem máscaras nem distanciamento social. Enquanto todos estiveram trancados em casa, foram eles que garantiram o confinamento, foram eles os ignorados heróis. Agora, que vamos ensaiar a normalidade, vamos ver como se portam os outros.»

 

Miguel Sousa Tavares, ontem, no Expresso

De boca bem tapada

por Pedro Correia, em 28.08.20

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Passeio nas ruas de Lagos, onde me desloco pela segunda vez neste Verão. Mais gente por estes dias, mas confirma-se a tendência: muito menos turistas do que no ano passado. Tanto em terra como sobre as águas, fluviais ou marítimas.

Cruzo-me com um número crescente de pessoas, na rua, usando máscaras. Devem confundir o Algarve com a Madeira, onde - aí sim - as autoridades forçam a utilização permanente de máscara em todos os locais públicos ao ar livre, exceptuando (por enquanto) praias e piscinas.

 

Não falta, no entanto, quem utilize aquilo só como enfeite. Transportando-a na testa, no queixo, na orelha, no ombro, no pulso, no cotovelo, onde calha. Para andar assim, não será melhor ficar guardada?

No passeio público, junto à ribeira de Bensafrim, cruzo-me com um pai e dois filhos pequenos: vão todos de máscara encarnada, com o símbolo do Benfica. Sinto-me como espectador de um Carnaval antecipado.

 

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Bem à portuguesa, na hora de comer, formam-se filas. Todos acorrem à mesma hora aos mesmos locais. Largas dezenas de pessoas - sem manterem distância de segurança - amontoam-se, aguardando vez, à porta de estabelecimentos como a Casa do Prego e a Adega da Marina.

Chegam a esperar mais de uma hora por um lugar em espaços apinhados, onde a comida é de uma banalidade confrangedora, quando existem, ali bem perto, muitos restaurantes com melhor ementa e espaço disponível.

 

Nunca hei-de entender estes comportamentos. Mais risíveis só as pessoas que vou vendo, de toalha estendida no areal da Meia Praia, também de máscara posta: devem imaginar que a brisa marítima transporta o vírus.

Reparo num par de namorados caminhando de mão dada à beira-mar. Vão ambos mascarados, como se receassem contaminação mútua. Até o amor cede passo à disciplina sanitária, mesmo na idade em que a líbido comanda a vida.

Também se beijarão de máscara? Não me custa imaginar tal coisa. Em tempo de pandemia, todas as precauções são poucas.

 

O maior dilema ocorre na hora de comer. Creio ter chegado a hora de o Presidente da República fazer um apelo aos criativos da indústria portuguesa, incentivando-os a conceber uma máscara com fresta removível na zona labial para permitir a rápida ingestão de alimentos sem necessidade de retirar o famigerado adereço. Portugal registaria a patente e mostraria ao mundo como se faz.

Poderia chamar-se Máscara Marcelo, em merecida homenagem ao cidadão português que transporta aquilo há mais tempo e durante mais tempo. Foi, aliás, o primeiro a correr sagazmente para casa, encerrando-se durante duas semanas em voluntária quarentena doméstica, enquanto quase todos andávamos por aí, à vontadinha, expostos à codícia do Covid.

Ele é que a sabe toda, vou pensando entre dois mergulhos. A praia continua desafogada - sinal evidente de que o inquilino de Belém permanece longe daqui.

 

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Férias sem testes nem máscaras

por Pedro Correia, em 13.08.20

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Praia de Burgau

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Na praia do Camilo

 

Enfim "desconfinado" (um dos nossos habituais eufemismos em jeito português suave), escolhi local de férias.

Dei prioridade aos Açores: quero conhecer a ilha de Santa Maria, antigo sonho meu, reforçado pela leitura recente de Crime em Ponta Delgada, romance (que recomendo) do meu amigo Francisco José Viegas. Azar: logo se lembrou o Governo Regional presidido pelo socialista Vasco Cordeiro de decretar testes obrigatórios ao novo coronavírus a todos os passageiros desembarcados do continente. Alguns destes supostos "empestados" chegaram a permanecer três dias compulsivamente encerrados em quartos de hotel em Ponta Delgada, sem possibilidade de rumar a outras ilhas, enquanto aguardavam os resultados dos testes.

Mudei de planos. E olhei então para a Madeira, mais concretamente para Porto Santo - onde existe uma das cinco ou seis mais belas praias portuguesas. Só lá estive uma vez, há mais de uma década: seria a ocasião ideal para regressar. Mas também aqui tudo se alterou: o Governo Regional presidido pelo social-democrata Miguel Albuquerque lembrou-se então de decretar o uso obrigatório da máscara nos espaços públicos do território insular, incluindo os que desfrutamos ao ar livre. Alguém com um módico bom senso vai de férias para andar o tempo todo de máscara arriscando pagar multas de 30 euros por ser visto sem ela? Não conheço ninguém, com excepção do Presidente da República, mesmo que tal medida - nunca aplicada no continente - suscite polémica entre os constitucionalistas.

 

Desisti, portanto. Vim para o Algarve, sem testes nem máscara ao ar livre. Um Algarve muito mais "desconfinado" do que o de 2019. Com muito menos turistas estrangeiros, alguns quase de todo ausentes - como os ingleses, os norte-americanos ou os canadianos. Mas, até por isso, com preços mais convidativos e mais espaço para manter distância física (não "distanciamento social", expressão absurda, que não é nem jamais pode ser regra sanitária) em relação a vizinhos de hotel, de apartamento, de praia ou de piscina. 

Fixei-me em Lagos. E tenho andado pelas praias das imediações, com destaque para a belíssima Burgau, que nos sugere um recorte da costa adriática. Mas também a praia do Camilo, com restaurante acoplado. E, claro, a icónica Meia Praia, onde há sempre lugar para todos - é de uma extensão só comparável a Montegordo ou ao quase vizinho Alvor.

Isto sim, é "desconfinamento". Enquanto o senhor Cordeiro e o senhor Albuquerque, regedores das ilhas, desesperam com falta de turistas, incluindo os continentais: só podem queixar-se deles mesmos. Que lhes faça bom proveito.

 

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Lagos ao anoitecer

O editorial que vai faltando cá

por Pedro Correia, em 10.08.20

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El País, o jornal mais influente de Espanha, publicou ontem um editorial que já é uma peça de antologia. Um texto demolidor para o Governo liderado por Pedro Sánchez, que tem revelado uma incompetência capaz até de causar indignação àquele diário, que nunca escondeu afinidades com o PSOE, principal partido do actual Executivo do país vizinho.

 

Seguem-se alguns excertos deste editorial, com tradução minha:

«O balanço das infecções é tudo menos tranquilizador. Os focos activos aproximam-se dos 600, o que converte Espanha no país da Europa Ocidental com maior número de contágios acumulados de coronavírus. As reuniões familiares ou sociais e os locais de lazer já superam em importância, como fonte de infecção, os precários alojamentos dos trabalhadores sazonais do sector agrícola. Os indicadores básicos da epidemia vão aumentando - isto inclui os diagnosticados, os hospitalizados, os internados em unidades de cuidados intensivos e os mortos. Neste quadro, é difícil entender o discurso sem autocríticas feito esta semana pelo presidente do Governo, Pedro Sánchez. Houve erros, que continuam a existir. É imperioso identificá-los e corrigi-los perante uma segunda vaga que cada vez parece mais próxima, se é que não está já entre nós.

Desde a chegada da pandemia a Espanha, os falecimentos por Covid-19 estão certamente mais perto dos cerca de 44 mil sugeridos pelo excesso de mortalidade registada do que dos 28 mil confirmados pela autoridade sanitária; mais de 50 mil trabalhadores da área da Saúde foram infectados e 20 mil pessoas morreram em lares de recolhimento de idosos. Estas cifras situam o país entre os mais afectados do mundo. A preparação do sistema sanitário revelou-se obviamente deficiente, e em aspectos importantes assim continua. (...) A gestão dos dados tem sido desastrosa, com disparidade de critérios entre comunidades autónomas e mudanças de rumo a meio do processo. O país não pode ficar à mercê da repetição destes erros no caso de uma segunda vaga. É compreensível que o Governo não queira afugentar ainda mais o turismo, mas não enquanto desvaloriza a gravidade da situação. Há vidas em jogo.

Se o Governo não vê motivos para críticas à sua própria actuação, terão de ser os especialistas a encontrá-los. (...) Os cientistas questionam como é possível que Espanha, que supúnhamos dotada de um dos melhores sistemas sanitários do mundo, tenha sofrido o golpe do coronavírus com tanta intensidade e identificam os factores mais prováveis que originaram isto. O país carecia de um plano de preparação antipandémica, com sistemas de vigilância insuficientes, reduzida capacidade para fazer testes e uma generalizada escassez de equipamentos de protecção individual. As autoridades centrais e autonómicas reagiram tarde e os processos de decisão foram lentos.»

 

Porque transcrevo estas linhas? Pelo mais simples dos motivos: porque gostaria que houvesse editoriais destes na imprensa portuguesa. 

Infelizmente, procuro mas não os encontro. Se existem, estão bem escondidos. O que se vai lendo por cá é conversa mole, cheia de rodriguinhos e de complacência perante os decisores políticos e sanitários. O que é sintoma da profunda crise em que mergulhou a nossa imprensa.

PCP "festeja" em tempo de luto

por Pedro Correia, em 26.07.20

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O PCP decalcou a sua badalada Festa do Avante! da Fête de l' Humanité, aludindo ao jornal L' Humanité, órgão central do Partido Comunista Francês (PCF). A tal ponto que até copiou o título, embora este resulte bem melhor em francês (Festa da Humanidade) do que em português.

O festival comunista por terras de França é uma tradição bastante mais enraizada: a edição inaugural do evento ocorreu em 1930, muito antes de Jerónimo de Sousa ter nascido e quando o próprio Álvaro Cunhal - líder histórico do PCP - contava apenas 16 primaveras.

 

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Apesar disso, o PCF não hesitou: acaba de anunciar o cancelamento da 85.ª edição da sua "Festa da Humanidade", invocando o que qualquer pessoa ou qualquer organização partidária responsável têm a obrigação de reconhecer em nome do mais elementar bom senso: o «contexto sanitário actual». Isto apesar de, no momento actual, França registar menos casos de infecção pelo novo coronavírus por milhão de habitantes do que o nosso país: 2.765 lá, 4.900 casos cá.

Sabendo-se ainda por cima que o festival dos comunistas portugueses se realiza na Área Metropolitana de Lisboa, precisamente a que tem sido mais fustigada por novos surtos da pandemia, é cada vez mais incompreensível a obstinação dos dirigentes do PCP, que teimam em levar a sua avante. À revelia de todas as recomendações sanitárias e da solidariedade que é devida não apenas aos familiares das vítimas mas aos profissionais da saúde que se mantêm firmes no duro combate à doença.

É caso, além do mais, para questionar o PCP: o que haverá para "festejar" num país onde todos os dias surgem novas famílias enlutadas pelo Covid-19 e numa sociedade tolhida pelo medo crescente de novas infecções?

Como é possível?

por Pedro Correia, em 13.07.20

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Não sei se já repararam, mas as notícias agora são dadas ao contrário. Ontem, no estreito espaço que vai sobrando nos telediários cada vez mais preenchidos pela agenda governamental, disseram isto: "Não morre ninguém há três dias em Reguengos de Monsaraz."

Como se estivessem a debitar mais uma trivialidade antes de fazerem a habitual ronda das praias e dos pinhais. Quando a notícia que se impõe é a resposta a esta pergunta angustiante mas crucial: como é possível que tenham morrido 16 pessoas por Covid-19 em Reguengos? Não diziam, nessa onda de optimismo que se tornou moda para temperar factos incómodos nos telediários, que o Alentejo parecia praticamente imune à expansão do coronavírus? Não garantiam muito recentemente que a doença ainda sem cura estava quase só circunscrita à Área Metropolitana de Lisboa?

Dezasseis pessoas num concelho rural onde ninguém se lembrou de aplicar "cercas sanitárias" como em Câmara de Lobos (onde não se registou qualquer morte) ou Ovar. Não há responsáveis locais ou regionais que respondam por estes óbitos? Ainda existirá a Administração Regional de Saúde do Alentejo?

 

Isto acontece, note-se, quando "temos autoridades de saúde que estão a seguir as melhores práticas", segundo assegurava o primeiro-ministro a 23 de Março, numa entrevista à TVI em que declarou: "Vamos aguentar as coisas o melhor possível até ao final de Maio. Em Junho teremos dados mais sólidos."

Pois Junho já passou, entrámos em Julho e os "dados mais sólidos" que temos indicam isto: estamos impedidos de entrar em oito países do chamado espaço comunitário e o chamado "milagre português" dissolveu-se em definitivo na poeira das publirreportagens que o apregoavam. Temos hoje o segundo posto europeu em número de casos activos de Covid-19 por cem mil habitantes, logo após a nada exemplar Suécia.

E, no entanto, continuamos a ver exposto por aí o risonho dístico com o arco-íris assegurando que "vai ficar tudo bem" entre cantorias e palminhas às varandas - exemplo supremo de notícia dada ao contrário, derrotada pelos mecanismos da propaganda. Infelizmente, o vírus não se combate com frases nem com aplausos: para os 16 mortos de Reguengos, e muitos dos seus familiares, já nada poderá ficar bem.

Os 25 mais infectados

por Pedro Correia, em 09.07.20

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus por todos os países e territórios do planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora 552.438 mortos e 12.187.474 infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos.

Chamo especial atenção para a proporção entre o número de infectados e cada milhão de habitantes dos países que constam deste quadro incompleto (a Coreia do Norte e o Turquemenistão, por exemplo, estão ausentes).

Um registo que me leva a ordenar assim os países com registo oficial de Covid-19 da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações extra-europeias com menos de um milhão de habitantes:

 

Catar: 36.168 casos por milhão de habitantes

Barém: 18.174

Chile: 15.852

Koweit: 12.175

Arménia: 10.240

Omã: 9.829

Panamá: 9.558

EUA: 9.544

Peru: 9.488

Brasil: 8.073

Singapura: 7.763

Luxemburgo: 7.426

Suécia: 7.312

Bielorrússia: 6.797

Espanha: 6.408

Arábia Saudita: 6.322

Islândia: 5.509

Bélgica: 5.367

Emirados Árabes Unidos: 5.362

Irlanda: 5.172

Rússia: 4.847

Moldóvia: 4.579

PORTUGAL: 4.400

Reino Unido: 4.227

Itália: 4.405

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior: a pandemia continua em progressão acelerada na zona do Golfo Pérsico (que os telediários portugueses nunca reportam) e na América Central e do Sul. No Brasil, mais do que duplicaram os registos de infecção ao longo deste mês, no Chile duplicaram e no Panamá quase triplicaram. 

Os países europeus deixaram pela primeira vez de figurar entre os dez mais infectados. Agora o mais próximo de nós que integra este quadro é a Arménia, já situada na Ásia Menor. Vale a pena acentuar o caso de Espanha, que há 30 dias estava no 6.º lugar e agora caiu para 15.º, em evidente regressão comparativa. Ao contrário da Suécia, que sobe ligeiramente (de 14.º para 13.º).

Em queda estão também o Luxemburgo (antes em 5.º, agora em 12.º), a Bélgica (baixa de 11.º para 18.º), a Irlanda (cai de 12.º para vigésimo), e sobretudo a Itália (há dois meses era a quinta mais infectada, há um mês figurava em 18.º lugar e agora ocupa o último posto destes 25). Igual tendência verifica-se no Reino Unido (baixa de 15.º para 24.º).

Mantém-se a ausência neste quadro de países europeus como França, Holanda e Suíça, que já estiveram em lugares cimeiros. Nos dez mais, destaca-se a entrada do Brasil, onde a progressão de novos casos de coronavírus segue em aceleração contínua: basta recordar que há um mês estava oficialmente atrás de Portugal, na 23.ª posição.

O nosso país continua entre os 25 mais infectados, tendo recuado apenas um posto: a nossa queda comparativa é muito inferior, por exemplo à do Reino Unido, que há 30 dias estava em 15.º lugar e passou a ter menos infectados por milhão de habitante do que nós. Em termos relativos, somos hoje o sexto país da União Europeia com mais casos de Covid-19, o que explicará, em larga medida, o facto de integrarmos várias listas de nações a evitar pelos turistas no âmbito comunitário.

 

.........................................................................

 

Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes. Seleccionando desta vez vinte e um para incluir a estatística portuguesa:

Bélgica: 844

Reino Unido: 656

Espanha: 607

Itália: 577

Suécia: 543

França: 459

EUA: 407

Holanda: 358

Chile: 344

Irlanda: 352

Peru: 338

Brasil: 320

Equador: 276

México: 254

Canadá: 231

Suíça: 227

Panamá: 190

Arménia: 181

Luxemburgo: 176

Rep. Dem. Congo: 172

PORTUGAL: 160

 

Destaco aqui a permanência no topo da Bélgica (um país de que se fala muito pouco em associação com a pandemia, apesar de quase todos os órgãos de informação portugueses terem correspondentes em Bruxelas). A Itália - que já esteve em primeiro - mantém-se agora fora do pódio. E a Espanha cede pelo segundo mês consecutivo ao Reino Unido o nada invejável segundo posto.

Destaques, também aqui, para os óbitos registados no continente americano: desde logo os Estados Unidos da América (que sobem de sétimo para oitavo), o nada badalado Canadá (que cai do 11.º para o 15.º posto) e o preocupante Chile (pela primeira vez na lista dos dez países com mais óbitos por milhão de habitantes, ultrapassando até Brasil e Peru). 

Mesmo assim, esta continua a ser uma lista predominantemente europeia, com oito em dez nações nesta proporção entre mortos por Covid-19 e a população de cada país. 

Para Portugal, a melhor notícia é a nossa ausência da macabra lista dos vinte com mais óbitos. Saímos à tangente, estando agora em 21.º lugar, devido à entrada de um país africano, a República Democrática do Congo. Em dois meses, caímos nove lugares: no início de Maio, convém recordar, ocupávamos a 12.ª posição.

A má notícia é que ainda integramos este triste top ten da União Europeia. Com cerca do dobro de óbitos ocorridos em países como Áustria ou Roménia. Ou cerca do triplo registado em nações como Noruega, Finlândia e Hungria. E quatro vezes mais do que na Polónia, Sérvia ou Bulgária. E cerca de oito vezes mais do que a Grécia, nossa concorrente directa na captação de receitas turísticas internacionais.


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    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D