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Delito de Opinião

Queres vacina? Toma

Pedro Correia, 17.05.21

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A pressa em inocular os portugueses é tanta que na sexta-feira cheguei a receber três chamadas diferentes propondo-me hora e local para receber a primeira dose da vacina. Perguntei qual era, em qualquer dos casos. Pfizer, responderam-me.

Da primeira vez, um cavalheiro identificando-se como funcionário civil solicitava-me que comparecesse na Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica - a mesma do Estádio da Luz, em flagrante violação dos meus princípios religiosos. Felizmente esta proposta ficou sem efeito: uma hora depois outro cavalheiro, identificando-se como militar, sugeriu um local mais aprazível: o pavilhão junto do Estádio Universitário, onde muito namorei quando frequentava a faculdade. E como não há duas sem três atendi ainda a chamada de uma menina, identificando-se como membro da Administração Regional de Saúde (ARS), pedindo-me que ali comparecesse dez minutos depois da hora que me fora indicada, dada a "grande afluência ao local" entretanto prevista.

Fui e voltei ontem a pé, cruzando o jardim do Campo Grande e a alameda da Cidade Universitária, onde vi plantadas novas gravílias - uma das minhas árvores preferidas. Lá no pavilhão, muita gente. Mas tudo bem organizado. Dois corredores - uns para aqueles que se estreavam nesta vacina, como eu; outros que acorriam à segunda dose, incluindo muitos professores, que preferem intitular-se "docentes".

Ninguém furava a fila, nem era necessário: aquilo fluía com rapidez. A única espera, de alguns minutos, ocorreu quando uma das assistentes comunicou ao responsável que tinha "o recobro cheio". Algumas pessoas aproveitavam para ler um livro, mais mulheres que homens, vá para onde for encontro sempre mais mulheres que homens. E questiono-me onde se meterão eles - alinharão em movimentos anti-vacinas?

 

Comuniquei à médica que nos últimos 15 dias havia estado em contacto indirecto com uma colega entretanto infectada. Ela perguntou-me se usava máscara no local de trabalho. Resposta: sim. E quis saber se me sentia febril ou tinha qualquer outro sintoma. Resposta: não. "Recebe a vacina à mesma, não há problema."

Assim foi. Mal tive tempo de levantar o braço esquerdo e "relaxar os músculos", já a gentil enfemeira estava a pôr e a tirar a agulha. Sugerindo-me que aplicasse ali gelo caso inchasse e doesse nas 48 horas seguintes. Nas imediações andava um repórter da CMTV com ar de ser muito mal pago para a função. Ouviu o responsável da ARS congratular-se com a eficácia daquela operação sanitária. "Há que olhar para os aspectos positivos e não mostrar só desgraças", afirmou o senhor, em diálogo com alguns de nós, já estava o jovem repórter à distância.

Logo se levantaram vozes a  estabelecer o contraditório: que nem tudo tem corrido bem, etc. E não faltou quem comunicasse que não queria ser exibido na televisão. "Descansem que o direito à privacidade é salvaguardado", tranquilizou o funcionário. De facto, levamos a pica em condições que respeitam esse princípio.

Lá fiquei meia hora no recobro, como mandam as regras. Dão-nos um pacote com bolachinhas, uma peça de fruta, meio litro de água. Com os cumprimentos da Câmara Municipal de Lisboa, juntando o útil ao agradável em ano de eleições autárquicas. 

 

Enquanto aguardava o momento de sair, pensei nas vacinas que já levei na vida. Em miúdo, a da tosse convulsa, da pólio e do BCG - estas obrigatórias, para impedirem doenças sinistras que assombraram as gerações anteriores à minha: a tuberculose e a poliomielite. Também a do tétano, que convém receber de dez em dez anos. Já na adolescência, quando fiz a primeira viagem intercontinental, fui vacinado contra a cólera, a varíola (entretanto erradicada) e a febre amarela. Reincidi nesta última em viagens posteriores. E em dois Invernos mais recentes vacinei-me contra a gripe, numa época em que ela andava assanhada e ninguém usava máscara na via pública mesmo em tempo de epidemias respiratórias.

Quando éramos garotos, compáravamos as marcas das vacinas nos respectivos braços, como sucedâneos de medalhas conquistadas na guerra. Havia uma que os recém-nascidos recebiam no pé - lá fiquei com a cicatriz durante largos anos. Outra, já não me lembro qual, era administrada em gotas. 

Na hora da pica, no dispensário médico, formávamos filas para enfrentar a agulha. E ai de quem choramingasse ou gemesse ou chamasse pela mãe: era gozado à bruta pelos restantes e ainda podiam passar a chamar-lhe "maricas", sobretudo se também não costumasse jogar à bola no recreio.

 

Regressado mentalmente a esses tempos, foi com algum orgulho que confessei à enfermeira já ser veterano de muitas vacinas.

É para mim incompreensível a proliferação de tantos movimentos anti-vacina agora em voga por aí. Outro movimento de importação "amaricana", impulsionado por incontáveis tontos nas redes sociais.

Vem outra a caminho: recebi um cartão que funciona como convocatória para a segunda dose, em dia de Santo António. Fui bebendo a água ao longo do dia e comi as bolachinhas à hora do jantar. Não sei se a vacina produziu efeito: a verdade é que ainda não senti qualquer vontade de votar no doutor Medina. Resta aguardar pelas próximas 24 horas.

Bom jornalismo

Pedro Correia, 19.04.21

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Poucas coisas me agradam tanto como valorizar bons trabalhos jornalísticos. É o caso do impressionante depoimento do psiquiatra Daniel Sampaio, 74 anos, divulgado na última edição do Expresso que justificou merecido destaque na capa do semanário. O irmão mais novo do antigo Presidente da República viu a morte de perto quando permaneceu internado durante 50 dias, com Covid-19, na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria. Duas semanas ventilado, em coma induzido. Quando lhe retiraram os tubos sentiu-se paralisado de pernas e braços. «Estava um corpo completamente inerte. Só mexia as mãos.»

Fez uma finta à traiçoeira doença e felizmente voltou para relatar esta experiência duríssima. Ainda muito debilitado, no aspecto físico e até na voz, como relata Christiana Martins, que com ele falou. Era para ser uma entrevista, em formato clássico de pergunta e resposta, mas a opção acabou por ser outra. Ao verificar o profundo impacto daquela declarações, a jornalista - que foi uma das mais prestigiadas profissionais do Público antes de transitar para o Expresso - assumiu a melhor opção: retirou-se de cena e deixou o entrevistado falar, sem interrupções, na primeira pessoa do singular. 

«Mais frágil, chegou a pensar desistir, mas também dono de uma resistência de que nunca se sonhou capaz. Agarrou-se à família e agradece a quem por ele rezou a um Deus que ele, não crendo, respeita», escreve a Christiana numa breve introdução. 

Eis um testemunho arrepiante. De que destaco alguns trechos, com a devida vénia a Daniel Sampaio e à jornalista que tão bem o entrevistou.

 

«Tenho de assumir que fui displicente. (...) Descuidei-me, é preciso dizê-lo, porque é necessário respeitar as regras.»

«Fiquei sozinho em casa durante cinco dias. Com o apoio dos filhos que traziam a comida. Fiquei a ler, mas já devia estar com o oxigénio muito baixo porque não me lembro de nada, apaguei essa fase da minha vida.»

«Quando olhei [para o oxímetro], estava em 90 e à noite com 88 [é perigoso estar abaixo de 95]. Avisei os meus filhos que, chamaram o INEM. A 28 de Janeiro, fui para as urgências de Santa Maria. (...) Ainda ouvi dizerem que tinha de ir para os cuidados intensivos, onde acabei por ficar 15 dias ventilado, em coma induzido.»

«Na segunda semana comecei a ficar muito lúcido, a ler, a fazer fisioterapia e a melhorar, e passei para a enfermaria. Negativei da Covid-19 ainda nos cuidados intensivos. Mas antes apanhei uma bactéria hospitalar. Foi grave porque comecei a ter febre alta, confusão mental e senti-me mesmo muito mal.»

«Estive na enfermaria de 26 de Fevereiro a 19 de Março. No total foram 50 dias de internamento, foi brutal.»

«Éramos quatro naquela enfermaria e foi muito difícil quando um de nós morreu. Todos percebemos a meio da noite que ele iria morrer. A morte está sempre presente na covid grave.»

«A doença é muito ameaçadora. Uma ameaça difusa. Eu não tinha dores nem me sentia mal, mas não podia largar o oxigénio. Tínhamos de lutar para que o pulmão funcionasse melhor e sabíamos que em muitos casos não se consegue.»

«Demorei cerca de três semanas até ter algum controlo sobre o meu corpo. Só comecei a andar uma semana antes de sair do hospital. Cheguei a temer nunca recuperar.»

«À noite só dormia com medicação e mesmo agora o meu sono ainda está alterado. Também fiquei com uma arritmia no coração, que dizem que será reversível.»

«Estive quase destruído. A infecção bacteriana quase me derrubou, pensei que ia morrer. Mas eu não queria morrer, pensava que ainda tinha alguns anos de vida, que queria fazer muita coisa e que tinha família, bons amigos. Sabia que, se não fosse destruído, ia ficar uma pessoa melhor.»

«Eu tenho muito respeito pela ideia de Deus, não sou crente, mas confesso que muitas vezes pensei em Deus e se ele me podia ajudar. Tive imensa gente a dizer que estava a rezar muito por mim, eu agradecia e foi muito reconfortante.»

"Impedidos de beber café ao balcão"

Pedro Correia, 05.04.21

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Vivemos no tempo das lamúrias e das queixinhas. Que, mesmo quando não existem, são inventadas para efeitos jornalísticos.

Leio no Expresso (destaque de páginas centrais, na última edição) que alguns chineses residentes em Portugal se sentem melindrados ao ouvirem designar por "vírus chinês" esta pandemia que já provocou mais de 16 mil vítimas mortais no nosso país - o presidente da Câmara de Viseu, ontem falecido aos 59 anos, foi uma das mais recentes. 

Não entendo esta queixa. Se o vírus que tem feito paralisar o mundo - com um rasto de quase três milhões de mortos e mais de 130 milhões de infectados à escala global - começou na China, denominá-lo pela origem geográfica não é matéria de opinião: é questão de facto. Estigmatizados devem sentir-se os espanhóis, ao verem ainda baptizada de "gripe espanhola", mais de um século depois, a pneumónica que causou dezenas de milhões de vítimas entre 1918 e 1920, sem que a sua origem nada se relacionasse com Espanha.

 

Chegamos ao ridículo de ouvir contínuas alusões à "estirpe inglesa" do coronavírus, ou à "variante sul-africana", ou à "variante do Brasil", sem que isto suscite acusações de "discriminação" ou "xenofobia", enquanto se silencia o ponto geográfico inicial da Covid-19 para cumprir a etiqueta politicamente correcta. 

E ainda assim alguns chineses se queixam.

Mas queixam-se afinal de quê? E queixar-se-ão mesmo?

 

Recorro ao Expresso. "Há casos de imigrantes chineses impedidos de beber o café ao balcão, por receio de contágio dos empregados", destaca o jornal em maiúsculas. Deixando-me mais perplexo.

Então não temos estado todos impedidos de "beber café ao balcão", durante estes 14 estados de emergência?

Então os imigrantes chineses, oriundos do país que mais produz e consome chá no mundo, desatam a beber bicas ou cimbalinos mal chegam a Portugal?

E são eles que receiam ser contagiados pelos empregados, como esta "escrita automática" dá a entender, ou o contrário?

 

O semanário cita, como fonte identificada, o director de "um jornal chinês em Portugal, o Europe Weekly" (curioso nome "amaricano" para um jornal publicado por chineses no nosso país), que só admite haver "um ou dois episódios esporádicos" de alegada xenofobia. O empresário Y Ping Chow, líder da comunidade chinesa aqui radicada, assegura nunca ter havido agressões. Ao vigilante SOS Racismo "não chegou nenhuma denúncia por parte de membros desta comunidade".

Mesmo assim, o Expresso reserva duas páginas ao tema, sob o título bombástico "Pandemia desperta racismo contra chineses". E transforma um caso isolado, de um suposto estudante chinês que terá sido atingido "com excrementos na cabeça" (!), sabe-se lá por que motivo, num plural em antetítulo sob a cabeça "discriminação", também em caixa alta.

 

Viesse isto noutro periódico e estariam alguns a gritar contra o jornalismo tablóide. Mas como surge estampado nas centrais do Expresso, deve ser um louvável exemplo de "jornalismo de referência". Seja lá o que isso for.

Locais infectos

Pedro Correia, 16.03.21

Desde Março de 2020, estivemos cerca de seis meses submetidos a "estado de emergência" - algo inédito em Portugal fora de situações de guerra, impondo drásticas restrições aos direitos, liberdades e garantias consagrados no texto constitucional de 1976.

Sempre em nome do combate à pandemia. Desde o tempo em que ninguém podia comparecer "mascarado" à sala de sessões do Parlamento por ordem expressa de Ferro Rodrigues, em que havia municípios a regar as ruas com desinfectante para afugentar o vírus e em que a directora-geral de Saúde, com manifesto receio, abria garrafas de água munida de lenços de papel nas conferência de imprensa em que comparecia a um metro da ministra, estando ambas sem máscara.

 

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Houve decisões acertadas, outras erradas e muitas absurdas. Ou simplesmente ridículas.

Para mim, nenhuma tão disparatada como aquela que proibia alguém de sentar-se num mero banco de jardim. O mesmo Governo e as mesmas autarquias que nos impunham o dever coercivo de permanência entre quatro paredes domésticas, indiferentes aos brutais custos em saúde mental de tais medidas, interditavam-nos algo tão inócuo como permanecer uns minutos num banco, isoladamente, em repouso ou contemplação da paisagem. 

Entre as boas notícias que o tímido "desconfinamento" de ontem nos trouxe, destaco esta: Suas Excelências devolveram o exercício da cidadania aos bancos de jardim, deixando de considerá-los infectos, potenciais transmissores de vírus. Aquelas fitinhas que pretendiam selá-los, como se fossem cenários de crime, podem ser rasgadas.

Falta saber se permanecem noutros locais, públicos ou privados, como este que a imagem de baixo documenta. Esperemos por novas mensagens de Suas Excelências para ficarmos esclarecidos.

 

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Os 25 mais infectados

Pedro Correia, 11.03.21

Um mês depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus no planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora quase 2,6 milhões de mortos e 118,7 milhões de infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. 

Um registo que me leva a ordenar os países com registo oficial de infecções da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

República Checa: 127.367 casos por milhão de habitantes

Eslovénia: 94.931

EUA: 89.854

Israel: 88.229

PORTUGAL: 79.790

Panamá: 79.401

Lituânia: 75.668

Barém: 73.734

Suécia: 69.202

Geórgia: 68.789

Bélgica: 68.356

Espanha: 67.963

Holanda: 66.049

Suíça: 65.289

Reino Unido: 62.158

Estónia: 60.979

Eslováquia: 60.711

Croácia: 60.685

França: 60.624

Catar: 59.962

Líbano: 59.581

Arménia: 59.414

Sérvia: 57.236

Áustria: 53.630

Brasil: 52.462

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior:

A pandemia reforça a tendência para se consolidar na Europa: 68% dos 25 países onde se registam mais casos acumulados estão situados neste continente. Nos vinte com maior número de infecções pelo novo coronavírus não constam Estados do Extremo Oriente, de África e da América do Sul. 

Portugal mantém um desonroso quinto posto nesta preocupante estatística. Sendo o terceiro país da União Europeia onde o Covid-19 mais tem progredido, per capita, ao longo deste ano. Pior que nós, só a República Checa, ainda no topo, e a Eslovénia, que em Fevereiro já ocupava o segundo lugar. 

Destaque, também pela negativa, para os EUA, incapazes de abandonar este pódio nada invejável.

As variações entretanto decorridas são mínimas. Merecem registo apenas a progressão da Suécia, que salta quatro lugares, do 13.º para o nono posto. E a regressão de Espanha, que abandona enfim a lista dos dez mais, recuando do nono para o 12.º lugar.

Em Novembro, Portugal era o 25.º país na proporção entre o número de contágios por Covid-19 e o número de habitantes - muito abaixo, portanto, do lugar que agora ocupa. E em Outubro estávamos em 34.º.

O Brasil vem recuando. Em Novembro era o 16.º com mais infecções per capita, em Janeiro havia descido para 21.º e acaba de cair mais quatro lugares, para o fundo deste quadro dos 25 Estados com maior registo acumulado de novos casos. Descida considerável também da Argentina, que era 13.ª em Novembro e hoje se situa num já distante 31.º posto.

Em termos comparativos, à mesma escala, Portugal regista o dobro dos infectados por Covid-19 existente em países como Peru, Costa Rica, Albânia, Dinamarca e Bulgária. Triplicamos os números de Omã, Paraguai e África do Sul. Registamos quatro vezes mais casos do que Grécia, Turquia, Irão e Paraguai. E dez vezes mais infectados do que a Índia.

 

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Deixo também novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes, destacando os 20 países com mais mortos:

 

República Checa: 2110

Bélgica: 1922

Eslovénia: 1880

Reino Unido: 1834

Hungria: 1711

Itália: 1699

Bósnia-Herzegovina: 1648

PORTUGAL: 1633

EUA: 1631

Bulgária: 1591

Espanha: 1539

Eslováquia: 1509

México: 1482

Peru: 1452

Croácia: 1376

França: 1370

Panamá: 1366

Suécia: 1290

Brasil: 1268

Lituânia: 1247

 

Na relação entre os óbitos por Covid-19 e o número de habitantes, torna-se ainda mais claro o predomínio do Velho Continente. Entre os dez países com mais mortos, em termos proporcionais, nove estão na Europa. Um quadro bem diferente em comparação com o de Novembro, quando sete destes dez se situavam no continente americano.

A República Checa ascende em Março ao topo da lista, sucedendo à Bélgica neste cenário macabro: algo inimaginável há uns meses, quando era apontada como uma das nações mais bem sucedidas no combate ao coronavírus. Esta subida dos checos do quarto ao primeiro posto é o facto mais relevante no quadro de óbitos deste mês.

Subida também da Hungria, que em Fevereiro figurava na nona posição e agora se encontra no quinto lugar. Outro antigo exemplo de sucesso que redundou em fracasso.

Algo semelhante pode ser dito de Portugal, ausente em Outubro da lista dos 30 com mais óbitos por milhão de habitantes. Regressámos em Novembro, em 28.º, e agora estamos em oitavo - na mesma posição do mês anterior. Pior ainda do que em Maio, quando ocupámos o 12.ª lugar.

De Fevereiro para Março, fomos ultrapassados pela Hungria mas vimos os EUA baixarem dois lugares, do sétimo para o nono, o que nos leva a manter o oitavo posto.

Subida ligeira do Brasil, que há um mês era o 21.º com mais óbitos na proporção com o número de habitantes e hoje figura em 19.º.

Nenhum país de África ou Ásia consta deste quadro.

Infelizmente as estatísticas demonstram que, em termos proporcionais, temos em Portugal o dobro dos óbitos por Covid-19 ocorridos em países como Malta e Líbano. Quadruplicamos o registo da Dinamarca e da Guatemala. E acumulamos cerca de dez vezes mais vítimas mortais do que a Jamaica e a Arábia Saudita.

Capas que fazem tremer diáconos

Pedro Correia, 04.03.21

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Vejo as capas de ontem dos dois mais prestigiados diários brasileiros, aqui reproduzidas, e questiono-me o que dirão delas os diáconos de lá ao depararem com manchetes dedicadas à tragédia do Covid-19: «No maior salto da pandemia, país perde 1.726 em 24 horas», titula bombasticamente a respeitável Folha de S. Paulo. «País tem recorde de mortos e SP [São Paulo] deve entrar em fase vermelha», escreve com estrondo o conspícuo O Estado de S. Paulo

Como os diáconos costumam alinhar pelas mesmas cartilhas, dirão certamente algo muito semelhante ao que já afirmou o nosso Diácono Remédios em recente carta aberta no Público. Coisas como esta: «Não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo.» Ou esta: «Não podemos aceitar a ladainha dos números de infetados [sic] e mortos que acaba por os banalizar.»

A propósito disto, aproveitei para me actualizar consultando os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde referentes a Estados com mais de um milhão de habitantes. Portugal, infelizmente, é o quinto com mais casos do novo coronavírus e o sexto com mais óbitos à escala planetária. O Brasil surge em 25.º na primeira estatística e em 22.º na segunda. Por mal que eles estejam, e estão, em termos proporcionais estamos pior. Porque a população do Brasil é 20 vezes superior à portuguesa.

Razão suficiente - e acrescida - para continuarmos a fazer cá o que a Folha e o Estadão fazem, com a competência que lhes é reconhecida.

O método Costa

Pedro Correia, 03.03.21

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País legal e país real: uma vez mais, percebi como pode ser abissal a diferença entre uma coisa e outra. No sábado, que amanheceu soalheiro, as ruas, praças e jardins do meu bairro - Alvalade, em Lisboa - encheram-se de gente. A conviver, a "apanhar ar", a deter-se nos passeios, a espreitar as montras. A passear cães sem trela e trelas sem cães.

Acumulavam-se pessoas à porta dos mais diversos estabelecimentos: hipermercados, frutarias, papelarias, charcutarias, restaurantes a vender para fora, lojas de produtos para animais. Em ambas as entradas que dão acesso ao mercado, o melhor da capital, as filas agigantavam-se. 

O trânsito automóvel era contínuo. E frenético. Como numa vulgar manhã de fim de semana antes da pandemia. 

Uma amostra bem ilustrativa do que se passou no conjunto do País: nesse dia, cerca de quatro milhões de portugueses saíram à rua. Na véspera, tinham sido seis milhões.

Mandando às malvas o "dever cívico de recolhimento".

 

Enfim, um perfeito contraste entre o Portugal da propaganda e o Portugal que teima em antecipar-se ao Governo. Há um ano, enquanto António Costa hesitava sobre o rumo a seguir, as pessoas fechavam-se em casa, os pais retiravam os filhos das escolas, muitas empresas incentivavam os trabalhadores a optar pelo teletrabalho. Agora, fartos do "confinamento" pseudo-obrigatório, os portugueses saem de casa e deambulam por aí sem que ninguém os trave.

Ninguém diria que estávamos - e ainda estamos - em estado de emergência. Isso é pura ficção para entreter incautos e emitir mensagens "tranquilizadoras" nos telejornais. 

Dentro de dias, o Executivo fará o que fez em Março de 2020: ir a reboque da população. Desta vez em sentido inverso. Limitando-se a pôr chancela oficial no facto consumado.

É um método de governar. O método Costa.

 

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Pânico no supermercado

Pedro Correia, 15.02.21

Início da tarde, num dos supermercados do bairro de Lisboa onde moro. Estou na fila para pagar. Uma fila composta só por duas pessoas. Lá adiante, na caixa, um terceiro cliente. Paro a quase três metros da mulher que se encontra antes de mim. Tem quarenta e muitos. 

Ela vira-se de imediato e dispara, em tom agressivo:

- Não se importa de chegar mais para trás?

Respondo perguntando, como sempre faço:

- Recuar para quê?

- Ainda pergunta? Não está a cumprir a distância de segurança. 

- Estou, estou. Mas já que se sente tão incomodada, avance. Tem imenso espaço aí à sua frente.

Ela começa a falar quase aos gritos, atraindo atenções.

- Outro atrasado mental! É por isto que quase não saio de casa, para não aturar estes atrasados mentais!

De máscara na cara, como a etiqueta sanitária impõe, mantenho-me impávido. E só lhe digo, em tom normalíssimo:

- Não baixe o nível. E fale pouco, para não espalhar o vírus.

Ela solta uma espécie de grito e abandona o carrinho que empurrava. A caixa fica desimpedida. Avanço para lá sem mais demora.

Desistiu das compras, vejo-a falar com um segurança à entrada do supermercado, gesticulando imenso e apontando na minha direcção antes de desaparecer no horizonte. Ele ouve-a sem esboçar a menor reacção.

Pago e arrumo as escassas compras. Passo pelo segurança e pergunto-lhe:

- Algum problema?

Diz ele, com um esgar em jeito de sorriso:

- Todos os dias aparece aqui gente muito nervosa. Cada vez mais. Pessoas que passam muitos dias fechadas em casa e ficam em pânico quando vêm à rua.

 

 

Portugal, mês XII da pandemia: retrato do nosso triste quotidiano. Nada de bom sairá daqui.

Os 20 mais infectados

Pedro Correia, 12.02.21

Três meses depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus no planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora quase 2,4 milhões de mortos (cifra que praticamente duplicou neste período) e 108,4 milhões de infectados (mais do dobro em relação ao registo anterior) por Covid-19, oficialmente reconhecidos. 

Um registo que me leva a ordenar os países com registo oficial de infecções da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

República Checa: 100.172 casos por milhão de habitantes

Eslovénia: 85.200

EUA: 84.294

Israel: 77.916

PORTUGAL: 76.473

Panamá: 75.768

Lituânia: 70.281

Geórgia: 66.425

Espanha: 65.036

Barém: 65.553

Bélgica: 63.086

Suíça: 62.054

Suécia: 59.634

Holanda: 59.289

Reino Unido: 58.712

Croácia: 57.881

Arménia: 56.909

Catar: 55.524

França: 55.120

Eslováquia: 50.154

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior

A pandemia reforça a tendência para se consolidar na Europa: 70% dos países onde se registam mais infecções estão situados neste continente. E é aqui que se verificam também os aumentos mais preocupantes, evidenciados neste intervalo de três meses. Com destaque pela negativa para Portugal, que salta do 25.º posto registado em Novembro para o quinto lugar actual. Quadruplicando os números anteriores.

É uma tendência ocorrida noutros países europeus. A Eslovénia sobe 16 lugares neste quadro: em Novembro figurava em 18.º O salto da Geórgia acompanha o português, ao passar de 28.º para oitavo. E a Lituânia, agora em sétimo, não figurava sequer entre os 30 países com mais infecções há três meses.

À frente de Portugal, além da Eslovénia, estão apenas a República Checa (sobe de quarto para primeiro), os EUA (antes oitavo, agora terceiro) e Israel (dois lugares acima do que estava em Novembro). Mas há subidas igualmente sombrias na Suécia (que estava fora do anterior quadro dos 30 países com mais casos acumulados e figura agora em 13.º lugar), Reino Unido (de 26.º para 15.º), Croácia (de 27.º para 16.º) e Itália (de 29.º para o 22.º posto actual). A Holanda, onde têm ocorrido protestos violentos contra o recolher obrigatório, cresce ligeiramente (de 17.º para 14.º).

Espanha e Suíça mantêm as posições. No continente europeu, só há recuos significativos na Bélgica (anterior terceiro, agora em 11.º lugar) e França (baixa de 11.º para vigésimo).

Fora da Europa, destaque para os recuos no Brasil (de 16.º para o 21.º posto actual) e na Argentina (que desce dez posições, de 13.º para 23.º).

Recordo que Portugal figurava em 34.º lugar no quadro de Outubro, quando éramos o nono país da União Europeia na proporção entre o número de contágios por Covid-19 e o número de habitantes. Em Novembro estávamos em sétimo. Agora subimos a este pódio que ninguém inveja.

Em termos comparativos, à mesma escala, temos em Portugal o dobro dos infectados por Covid-19 existente em países como Roménia, Estónia ou Dinamarca. Triplicamos os números de Chipre e Alemanha. Registamos quatro vezes mais casos do que Bolívia, Paraguai e Tunísia. E dez vezes mais infectados do que a Índia ou a Malásia.

 

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Deixo também aqui novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes:

 

Bélgica: 1855

Eslovénia: 1769

Reino Unido: 1696

República Checa: 1670

Itália: 1535

Bósnia-Herzegovina: 1490

EUA: 1466

PORTUGAL: 1462

Hungria: 1404

Bulgária: 1382

Espanha: 1373

México: 1320

Peru: 1294

Croácia: 1287

Panamá: 1279

França: 1236

Suécia: 1220

Lituânia: 1126

Suíça: 1119

Colômbia: 1113

 

Na relação entre os óbitos por Covid-19 e o número de habitantes, torna-se ainda mais claro o predomínio do Velho Continente. Entre os dez países com mais mortos, em termos proporcionais, nove estão na Europa. Um quadro bem diferente em comparação com o de Novembro, quando sete destes dez se situavam no continente americano.

A Bélgica mantém-se no topo da lista. No segundo posto está agora a Eslovénia, que há três meses figurava num discreto 27.º lugar. Tendência ascendente acompanhada pela República Checa (era 18.ª, agora está em quarto), Itália (sobe de 12.º para quinto) e Bósnia-Herzegovina (de 19.º para sexto).

O mesmo sucede em Portugal, ausente em Outubro da lista dos 30 com mais óbitos por milhão de habitantes. Regressámos em Novembro, no 28.º posto, e agora estamos em oitavo. Um dos aumentos mais significativos - e nada lisonjeiros - não apenas no quadro da União Europeia, onde somos hoje o quinto país mais enlutado, em termos proporcionais, mas à própria escala mundial. Pior ainda do que em Maio, quando ocupámos a 12.ª posição.

Em tendência inversa estão Espanha (terceiro com mais óbitos em Novembro, agora em 11.º) e França (baixa de 13.º para 16.º). O mesmo ocorre em vários países americanos: Brasil (cai de quarto para 21.º), Argentina (outra queda abrupta, de quinto para 22.º), México (antes oitavo, agora 12.º), Peru (era segundo em Novembro) e Colômbia (baixa de 14.º para 20.º). 

Nenhum país de África ou Ásia figura neste quadro.

Infelizmente as estatísticas demonstram que, em termos proporcionais, temos em Portugal o dobro dos óbitos por Covid-19 ocorridos em países como Alemanha, Irlanda, Letónia ou Irão. Quadruplicamos o registo da Estónia ou da Dinamarca. E acumulamos cerca de dez vezes mais vítimas mortais do que Chipre, Uruguai ou Finlândia.

«É a pior situação que vivemos»

Pedro Correia, 29.01.21

 

«A versão inglesa do vírus surgiu e propagou-se vertiginosamente, abarcando mais de 50% dos casos em áreas como a Grande Lisboa.»

 

«O número de mortes cresce a um ritmo há meses inimaginável. E, com ele, cresce a perigosa insensibillidade à vida e à morte.»

 

«É preciso agir depressa e drasticamente.»

 

«Temos de estar preparados para confinamento e ensino à distância mais duradouros do que se pensava antes desta escalada.»

 

«Temos de, na medida do necessário, usar o controlo de fronteiras à entrada e à saída.»

 

«Não vale a pena esconder a realidade, fazer de conta, iludir a situação. Porque esta situação é mesmo a pior que vivemos desde Março do ano passado.»

 

Marcelo Rebelo de Sousa, em mensagem ao País, ontem à hora do jantar

 

Os negacionistas bolsonarescos

Pedro Correia, 28.01.21

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Faz amanhã um ano: foi a primeira menção ao novo vírus que vinha da China registada no meu diário.

Revisito hoje essas linhas que escrevi em 29 de Janeiro de 2020: 

«Epidemia de gripe, já conhecida como coronavírus, começou na China, onde já provocou dezenas de mortos, e vai alastrando para outro países.

A palavra CORONAVÍRUS, desconhecida até agora, incorpora-se no vocabulário comum.»

 

Tão simples como isto. Cinco linhas escritas num caderno sem imaginar como estava a começar o maior pesadelo da nossa vida colectiva. 

Esse era um tempo em que ainda imperava em Portugal o negacionismo oficial, em que sucessivos responsáveis emitiam declarações boçais negando as evidências, em que abundava por cá o bolsonaresco «é só uma gripezinha». E havia até quem vislumbrasse na desgraça dos chineses uma despudorada oportunidade de negócio para os exportadores nacionais.

 

Foi um tempo em que Graça Freitas - então, como agora, responsável máxima da Direcção-Geral da Saúde - declarava: «A natureza é assim, aparecem novos vírus. (...) Não há grande probabilidade de chegar a Portugal: mesmo na China o surto foi contido.» Enquanto tranquilizava os compatriotas quanto à «fraquíssima possibilidade» de transmissão do vírus de pessoa para pessoa. «Neste momento não há nenhum motivo para alarme nem sequer para alerta», assegurava a directora-geral a 15 de Janeiro.

Foi um tempo em que Maria do Céu Albuquerque - então, como agora, ministra da Agricultura - apareceu com ar jubiloso perante os jornalistas dizendo acreditar que as exportações portuguesas poderiam beneficiar muito com a crise registada na China, numa altura em que o vírus já ali havia provocado pelo menos 500 mortos. O coronavírus «pode ter consequências bastante positivas» para o nosso sector agro-alimentar, declarou a ministra a 5 de Fevereiro.

Foi um tempo em que Jorge Torgal - então, como agora, porta-voz do Conselho Nacional de Saúde Pública e nessa qualidade um dos principais conselheiros da ministra que tutela o sector - declarava sem rodeios que o novo coronavírus era «menos perigoso do que o vírus da gripe». Palavras proferidas numa entrevista ao Jornal de Notícias a 28 de Fevereiro. Quando já havia 2800 mortos e 82 mil pessoas infectadas em mais de 40 países.

Era um tempo em que João Matos Fernandes - então, como agora, ministro do Ambiente - dedicava uma das habituais acções de propaganda do Governo a apregoar as virtudes higiénicas de um produto no metro de Lisboa com a graça e o garbo de um charlatão de feira. «Existe um produto muito eficaz, um produto que mata todos os micro-organismos e, portanto, bactérias e vírus, e que consegue durante um mês essa mesma segurança. Há uma película que é formada em torno das superfícies onde ele for aplicado», declarou o governante a 15 de Março, perante um batalhão de cordatos jornalistas.

Era um tempo em que António Costa - então, como agora, primeiro-ministro - nos tranquilizava garantindo solenemente que «até agora não faltou nada no SNS e não é previsível que venha a faltar nada». Palavras com data de 23 de Março, portanto muito antes da situação actual, em que o Governo já admite enviar doentes portugueses para hospitais estrangeiros.

 

Estas declarações - nuns casos vergonhosas, noutros simplesmente caricatas - foram pouco depois varridas para debaixo do tapete. Como se nunca tivessem existido. Mas existiram - e influenciaram muitos de nós nessas semanas iniciais. Todas procurando desvalorizar a tempestade que aí vinha. Por irresponsabilidade, ignorância ou estupidez.

A ética da responsabilidade

Pedro Correia, 27.01.21

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Portugal continua a ser o país do mundo com mais mortes e mais novos casos de Covid-19 por milhão de habitantes.

Vivemos num filme de terror - adiando decisões urgentes que acabam por ser tomadas tarde e a más horas. Em questões tão diversas como o encerramento das escolas, o fecho das fronteiras ou a retirada de circulação das chamadas máscaras comunitárias, que - elas sim - incutem uma falsa sensação de segurança perante as novas estirpes do coronavírus, ao ponto de já terem sido proibidas em países como Alemanha, França e Áustria.

 

Devemos questionar-nos: se chegámos a este triste primeiro lugar mundial, quem falhou?

Terão sido os especialistas técnico-científicos, que aconselharam mal, ou os decisores políticos, que não os escutaram devidamente e não agiram em conformidade? 

Se foram os primeiros, porque continuam a ser consultados? 

Se a falha vem dos decisores políticos, porque se mantêm em funções?

 

Impressionante, esta negação absoluta da ética da responsabilidade.

Com 11 pessoas a morrer por hora de Covid-19, questiono-me se uns e outros conseguirão dormir todas as noites.

 

 

ADENDA - Um abraço comovido e solidário ao José Meireles Graça.

Dia de reflexão

Pedro Correia, 23.01.21

 

«O lar dos Cerejais, em Alfândega da Fé, tem um surto com 50 casos positivos do novo coronavírus, pouco dias após ter recebido a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Foram ali detectados 31 casos positivos entre os 40 utentes e 19 entre cerca de 40 funcionários.»

Lusa, 19 de Janeiro

 

«Quase todos os utentes e alguns funcionários testaram positivo ao novo coronavírus, totalizando 35 infectados num surto no lar Conceição Cabral de Vila Flor. São portadores do vírus 27 dos 30 utentes, assim como oito dos 20 funcionários.»

Lusa, 19 de Janeiro

 

«Um surto de Covid-19 no lar da Santa Casa da Misericórdia das Caldas da Rainha já infectou 107 pessoas, entre utentes e funcionários da instituição. Neste concelho foi detectado outro surto, no lar do centro paroquial de Santa Catarina, registando-se 18 casos de infecção entre os 55 utentes.»

Lusa, 19 de Janeiro

 

«O número de óbitos no surto de Covid-19 num dos edifícios do Lar da Misericórdia de Viana do Alentejo aumentou de quatro para oito. Este surto infectou já um total de 62 idosos, incluindo os oito falecidos.»

Lusa, 20 de Janeiro

 

«O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Mirandela alertou hoje para a forma "galopante" como os contágios estão a ocorrer nos lares de idosos, com uma dimensão superior a fases anteriores da pandemia. No lar Nossa Senhora da Paz 62 dos 84 utentes estão infectados.»

Lusa, 20 de Janeiro

 

«O concelho de Vila Franca de Xira regista surtos activos de Covid-19 em quatro lares, estando infectados 176 utentes e 78 funcionários. Na Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca testaram positivo 75 utentes e 34 funcionários. Na Fundação CEBI, em Alverca, estão infectados 59 utentes e 28 funcionários.»

Lusa, 20 de Janeiro

 

«Dez doentes internados na Unidade de Cuidados Continuados Integrados do Hospital da Confraria de Nossa Senhora da Nazaré estão infectados com Covid-19. O surto, detectado no início da semana, resultou num total de 17 casos positivos - dez utentes e sete funcionários.»

Lusa, 20 de Janeiro

 

«O número de pessoas infectadas com Covid-19 no surto detectado num lar do concelho de Arraiolos aumentou para 39 e já se registaram dois óbitos no Hospital do Espírito Santo de Évora. Em quase duas semanas, os casos no lar da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos de Igrejinha passaram de 28 para 39.»

Lusa, 20 de Janeiro

 

«O surto de Covid-19 no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Cuba já provocou a morte de sete utentes, num total de 96 pessoas infectadas. Seis dos 62 utentes infectados encontram-se internados no Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja.»

Lusa, 21 de Janeiro

 

«A Câmara de Tondela alertou hoje que os surtos de Covid-19 que se têm registado em lares de idosos estão a deixar estas estruturas sem profissionais de saúde em número suficiente.»

Lusa, 21 de Janeiro

 

«Cinquenta e um utentes e 15 funcionários do lar da Santa Casa da Misericórdia de Redondo estão infectados com o novo coronavírus devido a um surto detectado no Lar António Manuel Fernandes Piteira, depois de uma funcionária ter apresentado sintomas da doença.»

Lusa, 21 de Janeiro

 

«A Santa Casa da Misericórdia de Tarouca registou esta semana um surto na residência de Nossa Senhora do Socorro, estrutura na qual 56 de 60 utentes testeraram positivo ao novo coronavírus.»

Lusa, 21 de Janeiro

 

«Um novo surto de Covid-19 com pelo menos 40 infectados, entre residentes e funcionários, foi detectado no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Grândola. Entre os infectados estão 34 utentes e seis funcionários daquela estrutura residencial para idosos.»

Lusa, 21 de Janeiro

 

«Trinta e dois utentes e dez funcionárias do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Aljustrel estão infectados com o novo coronavírus devido a um surto na instituição.»

Lusa, 22 de Janeiro

 

«Um surto de Covid-19 no Lar Maria Luísa, em Vila Nova de Cerveira, já provocou a morte de seis utentes, estando outros seis idosos hospitalizados em estado grave.»

Lusa, 22 de Janeiro

 

«Os cinco surtos activos em lares de Torres Vedras já causaram 20 mortos e mais de duas centenas de pessoas continuam infectadas, segundo o mais recente boletim epidemiológico deste concelho.»

Lusa, 22 de Janeiro

 

«Portugal registou mais 15.333 novos casos de infecção com o novo coronavírus e 274 mortes relacionadas com Covid-19, segundo a Direção-Geral da Saúde. Este é o maior número de óbitos em 24 horas desde o início da pandemia e o novo máximo diário de infecções.»

Lusa, 23 de Janeiro

 

Dez meses, nove mil mortos

Pedro Correia, 19.01.21

Dez meses de COVID-19 provocaram mais mortes em Portugal do que as baixas militares que sofremos em três palcos de guerra em África, entre 1961 (ano do início do conflito armado em Angola) e 1974.

Segundo as estatísticas de óbitos divulgadas pela Direcção-Geral da Saúde, desde Março de 2020 até ontem faleceram 9020 pessoas vitimadas pelo novo coronavírus no nosso país. O que já supera os 8830 militares portugueses mortos, de causas diversas, naqueles 13 anos em Angola, Guiné e Moçambique.

Cifras que falam por si. Com mais expressão dramática do que mil discursos. Contrariando as frases pias do género "vai ficar tudo bem", o folclore delicodoce das palminhas à varanda ou as bravatas do segundo vulto na hierarquia do Estado português armado em macho man: «Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?»

São tempos de calamidade, que necessitam de governantes realmente à altura das circunstâncias, sem venderem ilusões como a do putativo "milagre português" que em dois tempos nos devolveria às praias, às plateias dos espectáculos e a festivos "drinques" ao pôr-do-sol.

Janeiro negro: retrato do País em opiniões no "Expresso"

Pedro Correia, 17.01.21

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«É provavelmente a maior operação de branqueamento na política a que já assistimos. Quiseram "salvar o Natal" e agora morrem 150 pessoas a cada 24 horas... É como se um avião caísse todos os dias. Salvou-se o Natal e perdeu-se Janeiro, perdeu-se Fevereiro e não sabemos o que esperar de Março... Perderam-se vidas humanas, mortes que podiam ter sido evitadas. (...) A 14 de Janeiro somos o quinto país em todo o mundo com mais mortes por milhão de habitantes. Atingimos o tenebroso recorde de 156 vítimas diárias e há seis dias consecutivos que estamos acima das cem mortes.»

João Vieira Pereira

 

«Quando 10 mil portugueses morreram a mais no ano passado de outras doenças porque o SNS não conseguiu tratá-los, quando as enfermarias e as UCI estão à beira do colapso e quando é facil antecipar que os centros de saúde não terão capacidade para administrar vacinas a todos quando elas estiverem disponíveis em quantidade, insistir em recusar a utilização "a preço justo" da capacidade instalada do sector social e do sector privado é mais do que obsessão ideológica, é um atentado contra a vida dos portugueses.»

Miguel Sousa Tavares

 

«Os dois melhores retratos dos nossos erros são a app StayAway Covid e a absurda batalha "ideológica" sobre público e privado numa pandemia. A primeira, porque explica que é inútil criar tecnologia quando ninguém a alimenta (a percentagem de casos inseridos é ridícula); a segunda, porque mostra o vazio das nossas discussões políticas, que se arrastaram para os debates das presidenciais. Em vez de se montarem sistemas de resposta robustos, fazem-se guerras ideológicas. Depois, a realidade bate-nos à porta.»

Ricardo Costa

 

«Na frente sanitária, o que começou por ser apresentado como um milagre ("o milagre português") transformou-se nos dias de hoje num dos piores resultados do mundo, no que se refere ao ritmo de progressão das infecções, a que se seguirá o aumento do número de ambulâncias com doentes à espera de vaga nos hospitais superlotados e o aumento do número de mortos. Por muito que relevem, e relevam, razões exteriores, e objectivas, que talvez nada nem ninguém conseguiria superar, estão à vista de toda a gente os resultados da imprevidência, da falta de planeamento, da infantilização de um povo inteiro, que se quis deixar ser tratado como uma criança, para celebrar o Natal.»

Daniel Bessa

Janeiro negro: retrato do País em títulos do "Expresso"

Pedro Correia, 16.01.21

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«Governo preparado para manter restrições até à Primavera»

Nos próximos dois meses vão morrer tantas pessoas como nos últimos dez.

 

«Lisboa no limite, Centro e Alentejo mal e Norte a piorar»

Situação de pré-rotura de muitas unidades do Serviço Nacional de Saúde está a agravar-se devido à pandemia.

 

«Hospital de campanha fechado há meses por falta de médicos»

Unidade de contingência, com 58 camas, está no estádio Universitário desde Junho e nunca foi utilizada.

 

«DGS selecciona cancros que não podem ficar por operar»

Documento define prioridades entre doentes com intervenções inadiáveis face ao fecho de blocos operatórios.

 

«Portugal é o quarto país da Europa com as casas mais frias»

Nesta lista, só Bulgária, Lituânia e Chipre estão pior que nós.

 

«Aquecer a casa na vaga de frio: são 36 cêntimos por hora»

Consumo global de electricidade cresce 10% este mês, mas subida do consumo doméstico pode ser ainda maior.

 

«Imigração cai 9% em ano de pandemia»

Em 2019, estrangeiros haviam contribuído para 12% dos nascimentos em Portugal, atingindo um peso inédito na natalidade.

 

«Investimento público foi a grande vítima do défice zero»

Milhões de euros gastos pelo Estado não chegam sequer para compensar o desgaste das infra-estruturas.

 

«PIB pode cair até 7% este trimestre»

Caso as estimativas se confirmem, a economia portuguesa terá encolhido 8,2% no ano passado.

 

«Marcelo volta à rua sob tutela da DGS»

Presidente da República já fez mais de 80 testes à Covid-19.

 

«Assembleia da República reduz trabalhos»

Parlamento volta a realizar apenas dois plenários por semana, mantendo a redução do número de deputados por sessão.

 

Facto internacional de 2020

Pedro Correia, 04.01.21

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PANDEMIA DE COVID-19

Um obscuro vírus surgido no final de 2019 num mercado da República Popular da China - em contexto de péssimos hábitos de higiene, práticas arcaicas, deficiente supervisão e total falta de transparência política e administrativa - transbordou das fronteiras do país e contaminou o mundo. Exibindo a face mais negra da globalização: a que aproxima populações inteiras e une continentes pelos piores elos: os da doença e da morte.

Chegada em final de Janeiro à Europa, a pandemia de Covid-19 - assim declarada, de forma tardia, pela Organização Mundial de Saúde só a 11 de Março - causou até ao fim do ano 85 milhões de infecções e provocou 1,8 milhões de mortos. Deixando evidente o péssimo tratamento que países supostamente evoluídoas dão aos seus cidadãos mais velhos, recolhidos em depósitos a que só por ironia macabra podemos chamar "lares".

Tem sido este, de longe, o segmento social mais atingido pelo novo coronavírus - pessoas que se situam à margem dos discursos oficiais e das respostas dos governos, tratadas como se já sobrassem na sociedade ainda em vida.

 

Este foi o Acontecimento internacional de 2020, assim considerado por 16 dos 21 autores do DELITO DE OPINIÃO que participaram nesta escolha. 

Mesmo outros temas também destacados acabam por se relacionar com este. Foi o caso da descoberta da vacina anti-Covid, que mereceu três votos do colectivo "delituoso". Aprovada e difundida «num prazo inacreditavelmente curto», comprova a existência de uma «maciça cooperação científica mundial», como sublinhou um dos colegas de blogue.

 

Houve ainda votos isolados na "bazuca" europeia - espécie de Plano Marshall aprovado na UE para tentar reerguer as economias abaladas pelo coronavírus no espaço comunitário - e na redução abrupta das ligações aéreas, à escala global, no ano em que o mundo voltou a ser composto por lugares longínquos e distantes. Algo inimaginável a 1 de Janeiro de 2020, comprovando como é sempre arriscado o exercício de fazer previsões.