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Delito de Opinião

O culto dos paradoxos

Pedro Correia, 07.09.21

«Uso de máscaras ao ar livre deixa de ser obrigatório a partir da próxima semana», noticiaram ontem alguns órgãos de informação. Assim mesmo, como se estivessem a descobrir a pólvora.

Disparate. Nunca o uso de máscaras «ao ar livre» foi de uso obrigatório. Nem poderia ser. "Livre" e "obrigatório" na mesma frase é algo que não faz qualquer sentido.

Uma enorme contradição

Pedro Correia, 24.08.21

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Parece-me haver aqui uma enorme contradição. Mais uma. O Governo mantém fortíssimas restrições à presença de público nas bancadas dos estádios - onde só um terço dos lugares podem ser preenchidos - enquanto decretou a partir de ontem o fim dos limites da lotação dos transportes públicos, que voltam a andar à pinha após ano e meio de drástica contenção. 

Tenho dificuldade em descortinar um fio de lógica entre duas medidas tão díspares. Será mais provável alguém - mesmo exibindo certificado digital à entrada - ser contagiado com Covid-19 num espectáculo desportivo do que se for entalado entre dezenas de pessoas num transporte público onde ninguém pergunta a ninguém se já tomou vacinas?

Enfim, a meu ver isto apenas confirma o preconceito do Executivo relativamente ao desporto. Nada a que não estejamos habituados.

Madre superiora e a castidade sanitária

Pedro Correia, 20.08.21

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Um país inteiro fechado, a nível nacional, por ali ter sido detectado um só caso do novo coronavírus em seis meses. Eis a Nova Zelândia actual - espécie de cruzamento do Admirável Mundo Novo de Huxley com o domínio do Rei Ubu. Hoje coutada da senhora Jacinda Ardern, que as bempensâncias de turno tanto enaltecem pela suposta visão estratégica e pela presumível estatura de estadista. 

Parece decisão de madre superiora. Como uma noviça pecou, Madre Jacinda - suprema guardiã da castidade sanitária - ordena que todas as freiras fiquem de castigo lá no convento.

Faça o que fizer, tem hossanas garantidos, Deus seja louvado por tão virtuosa senhora.

 

Uma falsa sensação de segurança

Graça Freitas

Pedro Correia, 17.08.21

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A autoridade sanitária parece existir em Portugal para carimbar decisões políticas. O que perverte a sua lógica. Matérias do domínio científico deviam ser deixadas ao critério dos especialistas, não desses técnicos de ideias gerais que são os políticos.

O que tem sucedido entre nós justifica as mais sérias reservas. Basta verificar o que aconteceu no processo de vacinação dos adolescentes entre os 12 e os 15 anos: bastaram onze dias para a Direcção-Geral de Saúde mudar radicalmente de posição. Foi a reboque das declarações do Presidente da República, do desejo indisfarçável do primeiro-ministro e até dos palpites de comentadores televisivos que no domingo antecipavam o que a directora-geral viria a tornar público na terça-feira.

Maria da Graça Gregório de Freitas, 63 anos, lidera desde 2018 a autoridade de saúde nacional, organismo que vem preenchendo manchetes desde que foi declarada a pandemia. Nem sempre por bons motivos. Nos primeiros meses, tornou-se notícia pelas contradições exibidas. Várias das quais em discurso directo. A 15 de Janeiro do ano passado, assegurava que havia «fraquíssima possibilidade» de transmissão do novo coronavírus de pessoa para pessoa. A 28 de Fevereiro, quando já todos os alarmes soavam, voltou a pronunciar palavras incongruentes, como se estivesse a ver o filme errado: «Não nos devemos beijar todo o dia e a toda a hora.» A 22 de Março, chegou ao ponto de emitir reservas em relação ao uso de máscaras, por transmitirem «falsa sensação de segurança».

Assim se foi caminhando em ziguezague. A cada percalço comunicacional, o prestígio da DGS diluía-se mais um pouco. Nenhum tão grave, talvez, como este mais recente. A 30 de Julho, Graça Freitas anunciou ao país sérias restrições à vacinação dos 410 mil jovens dos 12 aos 15 anos, concedendo luz verde apenas àqueles que tivessem doenças crónicas. Foi repetidamente desautorizada. Desde logo, pelo Governo Regional da Madeira, que no próprio dia começou a vacinar cerca de 20 mil adolescentes a partir dos 12 anos. Do Brasil, onde estava em visita oficial, Marcelo Rebelo de Sousa fazia uma interpretação muito própria da norma sanitária, considerando que tudo seria deixado à «livre escolha dos pais». A 5 de Agosto, pressionava já sem disfarces, recomendando que o modelo madeirense fosse adoptado no conjunto do país.

«Novas evidências científicas», nunca especificadas, levaram a directora-geral a mudar de posição. Agora já recomenda a vacinação universal naquele escalão etário sem necessidade de indicação médica. Com o primeiro-ministro a esclarecer de imediato que «tudo está a postos» para garantir as vacinas antes de começar o ano lectivo. Fazendo crer que a ciência oscila ao sabor da agenda política.

Há que concluir sem paliativos: Graça Freitas sai de tudo isto com a credibilidade ferida. Foi-nos transmitindo uma falsa sensação de segurança. Mantém uma certa aura de simpatia, mas a autoridade que lhe resta tornou-se residual.

 

Texto publicado no semanário Novo

Os 25 mais infectados

Pedro Correia, 02.08.21

Cinco meses depois, trago aqui novamente o quadro detalhado da evolução do novo coronavírus no planeta, com base em mais de duas dezenas de fontes consultadas e confrontadas - desde logo, a Organização Mundial de Saúde. Quando à escala global existem agora mais de 4,2 milhões de mortos e 199 milhões de infectados por Covid-19, oficialmente reconhecidos. 

Um registo que me leva a ordenar os países com registo oficial de infecções da seguinte maneira, excluindo micro-estados e nações com menos de um milhão de habitantes:

 

República Checa: 155.976 casos por milhão de habitantes

Barém: 152.512

Eslovénia: 124.696

Uruguai 109.365

Holanda: 108.747

Suécia: 108.194

Argentina: 108.006

EUA: 107.311

Geórgia: 106.054

Lituânia: 105.558

Estónia: 100.764

Panamá: 99.284

Bélgica: 96.591

PORTUGAL: 95.522

Espanha: 95.074

Israel: 93.885

França: 93.643

Brasil: 92.991

Colômbia: 92.977

Koweit: 91.695

Croácia: 89.203

Reino Unido: 86.137

Hungria: 84.026

Chile: 83.809

Sérvia: 83.021

 

Notas a destacar, em comparação com a estatística anterior:

A pandemia continua centrada na Europa, mas revela alguma tendência para rumar em força ao continente americano. Como se comprova pelo facto de países como Uruguai, Argentina, Colômbia e Chile - que não figuravam no quadro anterior - se encontrarem agora entre os 25 mais infectados por Covid-19 à escala mundial. Impressionante, a escalada do coronavírus no Uruguai, agora o quarto nesta tabela. Embora seja um país que nunca é referido nas notícias que circulam em Portugal.

A República Checa mantém-se no topo, com números preocupantes. Mas a vizinha Eslováquia abandona o quadro dos 25 países com maior registo de infecções. Tal como aconteceu com a Suíça e a Áustria, também no continente europeu. Além de Catar, Líbano e Arménia.

Nos cinco mais figuram este mês o Barém (subida de oitavo para segundo) e a Holanda (era 13.º, encontrando-se agora no quinto posto). Também sobem a Suécia (de nono para sexto), a Estónia (de 16.º para 11.º), França (de 19.º para 17.º) e Brasil (de 25.º para 18.º). A Eslovénia - país que neste semestre assume a presidência do Conselho da UE - sobe do terceiro ao segundo posto.

Os EUA descem cinco lugares, abandonando o pódio. Também a baixar, de forma ainda mais acentuada, está o Reino Unido: em Março era o 15.º país com maior número de infecções por milhão de habitantes, agora é o 22.º.

Tendência de descida igualmente para Portugal: estávamos em Março num nada honroso quinto posto, descemos entretanto para a 14.ª posição. Ainda assim, figuramos em oitavo lugar entre os 27 Estados membros da União Europeia. Tendo a Espanha imediatamente abaixo.

Em termos comparativos, à mesma escala, Portugal regista o dobro dos infectados por Covid-19 existente em países como Grécia, Albânia e Tunísia. Triplicamos os números da Malásia e República Dominicana. Registamos quatro vezes mais casos do que Índia e Islândia. E dez vezes mais infectados do que a Tailândia e Timor-Leste.

 

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Deixo também novamente o registo da relação entre o número de óbitos confirmados e a população de cada país, por milhão de habitantes, destacando os 20 países com mais mortos:

 

Peru: 5867

Hungria: 3117

Bósnia-Herzegovina: 2973

República Checa: 2831

Bulgária: 2643

Brasil: 2598

Colômbia: 2346

Argentina: 2316

Eslováquia: 2296

Bélgica: 2168

Eslovénia: 2130

Itália: 2122

Paraguai: 2073

Croácia: 2026

Polónia: 1991

Reino Unido: 1980

EUA: 1889

México: 1848

Chile: 1841

Roménia:1795

Equador: 1764

Espanha: 1742

Uruguai: 1710

França: 1710

PORTUGAL: 1709

 

Também na relação entre óbitos por Covid-19 e número de habitantes é claro o predomínio do Velho Continente. Entre os 25 países com mais mortos, em termos proporcionais, quinze estão na Europa. A novidade é a ascensão do Peru ao primeiro lugar, ocupado em Março pela República Checa - agora em quarto. Uma subida impressionante: há cinco meses o Peru figurava na 14.ª posição.

Tendência ascendente igualmente para Hungria (estava em quinto, agora em segundo), Bósnia-Herzegovina (de sétimo para terceiro) e sobretudo para o Brasil, que sobe do 19.º ao sexto lugar. 

Inversamente, baixam a Bélgica - que em Fevereiro figurava na primeira posição desta lista nada invejável. Agora desce para o décimo posto. Acompanham-na nesta tendência descendente Itália (de sexto para 12.º), México (de 13.º para 18.º) e França (de 16.º para 24.º). 

Três países justificam menção especial. Desde logo os EUA, que em Fevereiro eram o terceiro país do mundo com mais mortos por milhão de habitantes, em Março desceram para 13.º e agora estão em 18.º Mas também o Reino Unido (baixa de quarto para 16.º nos últimos cinco meses) e Espanha (estava em nono em Fevereiro, desceu para 11.º em Março e surge hoje na 22.ª posição).

Melhor ainda estão países como Suíça, Suécia e Holanda: há meio ano integravam a lista dos 14 com mais óbitos em termos proporcionais e agora não se incluem sequer nos 25 primeiros.

Tendência inversa revelam Colômbia, Argentina, Paraguai, Polónia, Chile, Roménia e Equador, ausentes há cinco meses do grupo com 20 mais óbitos.

Portugal, felizmente, prossegue a rota descendente após um período muito preocupante. Ausentes em Outubro da lista dos primeiros 30, regressámos em Novembro, na 28.ª posição, e em Fevereiro e Março estávamos em oitavo. Agora encerramos o rol dos 25 primeiros.

Nenhum país de África ou Ásia consta deste quadro.

Só agora?

Pedro Correia, 01.08.21

«Temos de assumir de uma vez por todas que a população é responsável e adulta e portanto não é o Estado que tem de andar a definir a régua e esquadro qual é o número de pessoas com quem é preciso usar máscara.»

 

António Costa em conferência de imprensa (29 de Julho). Depois de ter andado mais de um ano a tratar todos os portugueses como se fossem irresponsáveis e crianças grandes

A Madeira já é independente?

Pedro Correia, 31.07.21

«A Organização Mundial de Saúde pediu que os países que estão a vacinar crianças e adolescentes contra a Covid-19 deixem de o fazer e entreguem essas doses ao sistema Covax, para que possam ser distribuídas por países mais necessitados, como a África do Sul, onde nem o pessoal médico foi ainda completamente vacinado.»

Organização Mundial de Saúde, 15 de Maio

 

«A Organização Mundial de Saúde divulgou um vídeo explicando por que não recomenda que a vacinação de crianças seja uma prioridade neste momento da pandemia do novo coronavírus.»

Organização Mundial de Saúde, 11 de Junho

 

«Tudo está preparado para, nos fins-de-semana entre 14 de Agosto e 19 de Setembro, serem administradas as duas doses de vacina às cerca de 570 mil crianças e jovens entre os 12 e os 17 anos.»

António Costa, primeiro-ministro, 21 de Julho

 

«DGS recomenda vacinar crianças dos 12 aos 15 anos só com co-morbilidades.»

Notícia do Eco, 30 de Julho

 

«Decidimos aguardar por mais informação, nomeadamente a nível da União Europeia [sobre a vacinação generalizada de adolescentes entre os 12 e os 15 anos].»

Graça Freitas, directora "geral" da Saúde, 30 de Julho

 

«Madeira começa a vacinar no sábado 20 mil jovens a partir dos 12 anos.»

Notícia do Jornal de Notícias, 30 de Julho

 

«[Vacinar cerca de 20 mil adolescentes entre os 12 e os 18 anos] é uma decisão política do Governo [regional da Madeira] que segue aquilo que são as orientações da Direcção Regional da Saúde, da task force regional da vacinação e que segue no fundo aquilo que são as linhas orientadoras da Organização Mundial da Saúde.»

Miguel Albuquerque, presidente do Governo regional da Madeira, 30 de Julho

O estilo Costa

Pedro Correia, 22.07.21

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Bem ao seu estilo, António Costa anunciou a «libertação total da sociedade» no final do Verão. Medida que coincidirá em absoluto com o calendário eleitoral: as autárquicas realizam-se a 26 de Setembro.

Preparemo-nos para a propaganda que aí vem. Ele nunca dá ponto sem nó.

 

O chefe do Governo adora ser portador de boas notícias. Quando as novidades são más, encarrega dessa tarefa alguns dos seus ministros. Designadamente a pobre Mariana Vieira da Silva, que já aparece nas conferências de imprensa com cara de quem suplica para a tirarem desse filme.

Foi ela que a 18 de Junho anunciou uma das mais inacreditáveis medidas alguma vez paridas num Conselho de Ministos: o "encerramento" da Área Metropolitana de Lisboa entre as 15 horas de sexta-feira e as 6 da manhã de segunda-feira. Quase três milhões de portugueses confinados dentro de parte do território nacional, sem proclamação do estado de emergência, para «impedir contágios». Como se o coronavírus só atacasse aos fins-de-semana.

Foi ela também que a 1 de Julho anunciou o "recolher obrigatório" entre as onze da noite e as seis da manhã em 45 concelhos do País, incluindo Lisboa e Porto, de novo sem estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse à luz da Lua.

Foi ainda ela - desta vez acompanhada pelo ministro da Economia - que a 8 de Julho anunciou outra medida ainda mais estapafúrdia do que as anteriores: a exigência de apresentação de certificados de vacinação ou realização de testes rápidos nos restaurantes e na hotelaria aos fins-de-semana, a partir do jantar de sexta-feira nos concelhos de maior risco e nos alojamentos turísticos em todo o território continental. Medidas que nem existiram quando Portugal ficou em estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse quando estamos a descansar e nunca quando estamos a trabalhar.

 

Nestas ocasiões, que cobrem de ridículo os portadores das novidades, Costa nunca aparece. Manda sempre qualquer outro ocupar o palco. Ele só comparece em contexto positivo, de preferência com palavras associadas à verba da bazuca, oriunda de Bruxelas. Anuncia 252 milhões de euros de investimento na investigação e economia do mar. Anuncia 244 milhões de euros para a área da cultura. Anuncia 465 milhões de euros em respostas sociais para infância, idosos e deficientes. Anuncia 900 milhões de euros para o «sucesso escolar». Numa cadência incessante, incansável. É raro ver um político assim: está em permanente campanha eleitoral.

Ainda a procissão vai no adro. Nos meses que vão seguir-se, teremos isto a um ritmo quase diário: o primeiro-ministro a pronunciar a palava milhões. Com o dinheiro dos outros. Sem o menor assomo de pudor num pais que em 2020 registou uma queda do PIB de 7,6% - superior à média de 6,2% do conjunto da União Europeia - e já neste primeiro trimeste viu o PIB português contrair 5,4%, o que constitui o pior desempenho de uma economia no espaço comunitário.

 

Nada que desencorajasse o chefe do Executivo de ter aproveitado ontem o debate do final do ano parlamentar para sugerir que «só ele saberá salvar o País da pandemia e da crise económica», na feliz definição - não isenta de ironia - da jornalista Rita Dinis no semanário Expresso.

Na divisão de tarefas no Governo, cabe-lhe em exclusivo o papel do bom da fita. Os erros, os disparates e as medidas inaceitáveis ficarão sempre a cargo de outros. E até o outrora «excelente ministro» Cabrita ficou mais isolado que nunca: deixou de poder contar com o aconchego do antigo colega de faculdade. 

É um estilo de governar. O estilo Costa.

Ainda existe oposição neste país?

Pedro Correia, 10.07.21

Três semanas depois, justamente confrontado com acusações de violação dos direitos constitucionais vindas dos mais diversos sectores, o Governo apressou-se a deixar cair a absurda "cerca sanitária" à Área Metropolitana de Lisboa, com recolher obrigatório e proibição de circulação entre concelhos - prontamente denunciada aqui - que visava deter a chamada "variante delta" entretanto espalhada em todo o País e até já dominante na Europa.  

Agora, com a ministra Mariana Vieira da Silva novamente transformada em mensageira de más notícias (António Costa nunca está presente nestes momentos complicados), o Governo faz pior ainda: transforma cada proprietário de restaurante e cada gerente de hotel em polícia e agente de saúde pública. Isto na "época alta" do pobre turismo que nos resta. Totalmente inaceitável.

Neste contexto, o que faz o PSD? Defende as liberdades ameaçadas? Não: apresenta uma proposta de revisão constitucional. Totalmente alheado da realidade, como se vivesse no país das maravilhas.

O colaboracionismo de Rui Rio com o Executivo socialista deixou de ser apenas danoso para o partido. Ameaça tornar-se danoso para a democracia em Portugal.

Quem não sai à rua faz a festa em casa

Pedro Correia, 10.07.21

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Tudo quanto há de relevante na vida pública portuguesa passa pela televisão. Para o bem e para o mal. Nos últimos dias assistimos a uma deriva autoritária raras vezes vista desde a implantação da democracia no nosso país. A propósito da pandemia, que vai servindo de pretexto para inéditas restrições aos direitos e liberdades.

Na quinta-feira da semana passada, a titular da pasta da Presidência revelou: «Nos concelhos de risco elevado ou muito elevado passará a existir limitação da circulação na via pública.» Em momento algum aludiu a interdição ou proibição.

A resolução do Conselho de Ministros publicada nesse dia – e que mereceu ampla repercussão nos telediários – optou também pelo tom suave. «Entre as 23 horas e as 5 horas os cidadãos devem abster-se de circular em espaços e vias públicas e permanecer no respectivo domicílio.»

Tudo claro? Não, tudo obscuro. A tal ponto que o Governo sentiu a necessidade de fazer a interpretação autêntica desta resolução. Para o efeito, no serão de sábado, avançou o secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro. À RTP 3, Tiago Antunes comunicou que vivemos na prática em estado de emergência, embora sem decreto presidencial nem escrutínio parlamentar: «É um dever jurídico, o que significa obrigação. Em linguagem jurídica, dever e obrigação são sinónimos.» Falou em multas e detenções.

Em 48 horas, passou-se do menos a mais, sempre num crescendo autoritário. Invertendo o salutar princípio básico das democracias liberais: tudo quanto não é expressamente proibido é permitido.

Coube assim a um elemento de segunda linha do Governo – numa simples entrevista – especificar que quase quatro milhões de portugueses, residentes em 45 concelhos considerados de alto risco, regressavam ao sistema de confinamento compulsivo, seis horas por dia, além de sofrerem restrições à circulação entre o princípio da tarde de sexta-feira e a manhã de segunda. Ignorando-se o que determina a Constituição, no artigo 44.º: «A todos os cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e fixarem livremente em qualquer parte do território nacional.»

De tudo isto nos falou a televisão por estes dias. E nos foi mostrando também simbólicos actos de resistência a normas que vários juristas consideram desproporcionadas e até inconstitucionais. Vimos, por exemplo, jovens enchendo praias algarvias, não apenas de dia mas também à noite, em desafio às autoridades. Muitos são estrangeiros: fazem parte do contingente de turistas que há escassas semanas o Governo queria atrair para Portugal.

A imagem mais emblemática que pudemos vislumbrar sobre este assunto durou breves segundos mas foi muito reveladora ao ser exibida na RTP: uma varanda cheia de jovens num domicílio privado no Porto, bem depois das 23 horas.

Tem vindo a ser assim em todo o país: quem não pode sair à rua faz a festa em casa. Não há polícia nem brigadas dos bons costumes que cheguem para tanta gente. Diga Tiago o que disser.

 

Texto publicado no semanário Novo

Sair à rua dá cadeia: cheira a ditadura

Pedro Correia, 05.07.21

O Governo já veio ameaçar com medidas repressivas. Incluindo cadeia. Em causa está o crime de desobediência, com moldura penal de prisão até um ano ou 120 dias de multa. Neste caso agravado em um terço - podendo passar a um ano e quatro meses de prisão ou 160 dias de multa a quem circule pelas ruas confinadas sem proclamação do estado de emergência em 45 concelhos do País. Abrangendo toda a Área Metropolitana de Lisboa e a cidade do Porto, o que afecta quase quatro milhões de portugueses.

É curioso: a pretexto do corona, este Governo já libertou mais de dois mil presos. Agora, também a pretexto do corona, ameaça prender uns largos milhares. Só por se atreverem a sair de casa após as 23 horas.

Constitucionalistas como Jorge Miranda, Teresa Violante e Paulo Otero alertam: estas medidas de séria limitação de liberdades fundamentais, impondo "cercas sanitárias" e recolher obrigatório à revelia do escrutínio do Parlamento e apenas a coberto da Lei de Bases da Protecção Civl, estão feridas de ilegalidade. Lesando a lei das leis: a Constituição da República. Algo próprio de ditaduras.

«Tomaram-se medidas discricionárias e perigosas, aplicaram-se critérios contraditórios a eventos idênticos, gerou-se uma confusão que desautorizou o Estado e aumentou a distância entre governantes e governados» , escreveu o filósofo José Gil na última edição do Expresso. Concluindo, sem hesitação: «A pandemia em Portugal está a minar o espíríto da democracia.»

Convém recordar aos mais esquecidos o que estipula o artigo 44.º, n.º 1, da Constituição portuguesa: «A todos os cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e fixarem livremente em qualquer parte do território nacional.»

António Costa, amparado pelo coro dos comentadores amigos, encolhe os ombros e não quer saber. Só lhe interessa verificar se o PS mantém uma liderança confortável nas próximas sondagens.

 

ADENDA. Por uma vez, totalmente de acordo com o PCP: o recolher obrigatório «é próprio de um estado de excepção»,  estamos num cenário de grave lesão de direitos e liberdades.

Merkel critica Costa

Pedro Correia, 22.06.21

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Angela Merkel puxa as orelhas a António Costa, por motivos óbvios: o Governo português escancarou as portas ao turismo britânico na pior altura. E convém lembrar que tanto Costa como Augusto Santos Silva ainda reclamaram quando Boris Johnson pôs fim à via verde turística entre Londres e Lisboa. 

A história vem no Político: a chanceler alemã censura Portugal por ter permitido a entrada de turistas britânicos com a variante Delta. Eis a voz do bom-senso a falar. Infelizmente é necessário surgir alguém de fora para apontar com clareza o que está errado aqui. Como se não houvesse oposição em Portugal. 

Andam a brincar connosco

Pedro Correia, 20.06.21

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«Velocidade do contágio atira o País todo para o vermelho», titula hoje o Jornal de Notícias, certamente com fontes bem informadas no Governo. Especificando: «Variante indiana explica subida e faz soar alarmes sobre descontrolo da pandemia». Isto quando se acentuam notícias sobre a iminente saída de cena da ministra da Saúde, que aliás delegou sexta-feira no seu secretário de Estado Lacerda Sales a defesa das posições do Governo no debate parlamentar sobre a gestão da pandemia. Como se já estivesse a tratar da passagem do testemunho no ministério.

 

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Vale a pena recordar. Este é o mesmo Governo que há escassas semanas fazia declarações públicas de crítica às autoridades britânicas por terem retirado Portugal da lista verde de países a que os súbditos da Rainha poderiam deslocar-se sem necessidade de medidas especiais de precaução.

Este é o mesmo Governo cujo chefe máximo anunciava, a 2 de Junho: «Estamos em condições de prosseguir o processo de desconfinamento». Baixando a matriz de risco e fixando o dia 28 como última etapa.

Este é o mesmo Governo cujo ministro dos Negócios Estrangeiros, em entrevista à RTP, puxava dos galões para declarar isto: «O argumento quanto à taxa de positividade não colhe. A situação pandémica em Portugal é bastante razoável. Cada vez vejo menos lógica na decisão britânica.»

 

Devem andar a brincar connosco, numa espécie de jogo do esconde-esconde que acaba de impor uma "cerca sanitária" de sexta a segunda em toda a Área Metropolitana de Lisboa, onde reside quase um terço da população do País. Depois de todas as garantias que nos transmitiram, ponderam agora fechar todo o País novamente? E como? Sem proclamação do estado de emergência nem estrito controlo do Parlamento, o que constitui manifesta inconstitucionalidade, como já alegou o nosso Luís Menezes Leitão?

Falando no Funchal, a 6 de Junho, Costa atreveu-se a dar um puxão de orelhas ao Governo de Londres: «É importante termos estabilidade neste período turístico, porque, havendo avaliações de três em três semanas, é muito difícil para a indústria do turismo estar a adaptar-se a este elevadíssimo grau de incerteza. Hoje verdes, depois amarelos... Admito que eles [britânicos] sejam menos sensíveis aos danos que causam na nossa economia. Mas espero que ao menos sejam sensíveis aos graves prejuízos à liberdade de circulação dos seus cidadãos.»

 

Estão a brincar. Só pode ser isso.

Era como se, há 15 dias, o primeiro-ministro falasse sobre si próprio duas semanas depois.

Queres vacina? Toma

Pedro Correia, 17.05.21

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A pressa em inocular os portugueses é tanta que na sexta-feira cheguei a receber três chamadas diferentes propondo-me hora e local para receber a primeira dose da vacina. Perguntei qual era, em qualquer dos casos. Pfizer, responderam-me.

Da primeira vez, um cavalheiro identificando-se como funcionário civil solicitava-me que comparecesse na Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica - a mesma do Estádio da Luz, em flagrante violação dos meus princípios religiosos. Felizmente esta proposta ficou sem efeito: uma hora depois outro cavalheiro, identificando-se como militar, sugeriu um local mais aprazível: o pavilhão junto do Estádio Universitário, onde muito namorei quando frequentava a faculdade. E como não há duas sem três atendi ainda a chamada de uma menina, identificando-se como membro da Administração Regional de Saúde (ARS), pedindo-me que ali comparecesse dez minutos depois da hora que me fora indicada, dada a "grande afluência ao local" entretanto prevista.

Fui e voltei ontem a pé, cruzando o jardim do Campo Grande e a alameda da Cidade Universitária, onde vi plantadas novas gravílias - uma das minhas árvores preferidas. Lá no pavilhão, muita gente. Mas tudo bem organizado. Dois corredores - uns para aqueles que se estreavam nesta vacina, como eu; outros que acorriam à segunda dose, incluindo muitos professores, que preferem intitular-se "docentes".

Ninguém furava a fila, nem era necessário: aquilo fluía com rapidez. A única espera, de alguns minutos, ocorreu quando uma das assistentes comunicou ao responsável que tinha "o recobro cheio". Algumas pessoas aproveitavam para ler um livro, mais mulheres que homens, vá para onde for encontro sempre mais mulheres que homens. E questiono-me onde se meterão eles - alinharão em movimentos anti-vacinas?

 

Comuniquei à médica que nos últimos 15 dias havia estado em contacto indirecto com uma colega entretanto infectada. Ela perguntou-me se usava máscara no local de trabalho. Resposta: sim. E quis saber se me sentia febril ou tinha qualquer outro sintoma. Resposta: não. "Recebe a vacina à mesma, não há problema."

Assim foi. Mal tive tempo de levantar o braço esquerdo e "relaxar os músculos", já a gentil enfemeira estava a pôr e a tirar a agulha. Sugerindo-me que aplicasse ali gelo caso inchasse e doesse nas 48 horas seguintes. Nas imediações andava um repórter da CMTV com ar de ser muito mal pago para a função. Ouviu o responsável da ARS congratular-se com a eficácia daquela operação sanitária. "Há que olhar para os aspectos positivos e não mostrar só desgraças", afirmou o senhor, em diálogo com alguns de nós, já estava o jovem repórter à distância.

Logo se levantaram vozes a  estabelecer o contraditório: que nem tudo tem corrido bem, etc. E não faltou quem comunicasse que não queria ser exibido na televisão. "Descansem que o direito à privacidade é salvaguardado", tranquilizou o funcionário. De facto, levamos a pica em condições que respeitam esse princípio.

Lá fiquei meia hora no recobro, como mandam as regras. Dão-nos um pacote com bolachinhas, uma peça de fruta, meio litro de água. Com os cumprimentos da Câmara Municipal de Lisboa, juntando o útil ao agradável em ano de eleições autárquicas. 

 

Enquanto aguardava o momento de sair, pensei nas vacinas que já levei na vida. Em miúdo, a da tosse convulsa, da pólio e do BCG - estas obrigatórias, para impedirem doenças sinistras que assombraram as gerações anteriores à minha: a tuberculose e a poliomielite. Também a do tétano, que convém receber de dez em dez anos. Já na adolescência, quando fiz a primeira viagem intercontinental, fui vacinado contra a cólera, a varíola (entretanto erradicada) e a febre amarela. Reincidi nesta última em viagens posteriores. E em dois Invernos mais recentes vacinei-me contra a gripe, numa época em que ela andava assanhada e ninguém usava máscara na via pública mesmo em tempo de epidemias respiratórias.

Quando éramos garotos, compáravamos as marcas das vacinas nos respectivos braços, como sucedâneos de medalhas conquistadas na guerra. Havia uma que os recém-nascidos recebiam no pé - lá fiquei com a cicatriz durante largos anos. Outra, já não me lembro qual, era administrada em gotas. 

Na hora da pica, no dispensário médico, formávamos filas para enfrentar a agulha. E ai de quem choramingasse ou gemesse ou chamasse pela mãe: era gozado à bruta pelos restantes e ainda podiam passar a chamar-lhe "maricas", sobretudo se também não costumasse jogar à bola no recreio.

 

Regressado mentalmente a esses tempos, foi com algum orgulho que confessei à enfermeira já ser veterano de muitas vacinas.

É para mim incompreensível a proliferação de tantos movimentos anti-vacina agora em voga por aí. Outro movimento de importação "amaricana", impulsionado por incontáveis tontos nas redes sociais.

Vem outra a caminho: recebi um cartão que funciona como convocatória para a segunda dose, em dia de Santo António. Fui bebendo a água ao longo do dia e comi as bolachinhas à hora do jantar. Não sei se a vacina produziu efeito: a verdade é que ainda não senti qualquer vontade de votar no doutor Medina. Resta aguardar pelas próximas 24 horas.

Bom jornalismo

Pedro Correia, 19.04.21

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Poucas coisas me agradam tanto como valorizar bons trabalhos jornalísticos. É o caso do impressionante depoimento do psiquiatra Daniel Sampaio, 74 anos, divulgado na última edição do Expresso que justificou merecido destaque na capa do semanário. O irmão mais novo do antigo Presidente da República viu a morte de perto quando permaneceu internado durante 50 dias, com Covid-19, na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria. Duas semanas ventilado, em coma induzido. Quando lhe retiraram os tubos sentiu-se paralisado de pernas e braços. «Estava um corpo completamente inerte. Só mexia as mãos.»

Fez uma finta à traiçoeira doença e felizmente voltou para relatar esta experiência duríssima. Ainda muito debilitado, no aspecto físico e até na voz, como relata Christiana Martins, que com ele falou. Era para ser uma entrevista, em formato clássico de pergunta e resposta, mas a opção acabou por ser outra. Ao verificar o profundo impacto daquela declarações, a jornalista - que foi uma das mais prestigiadas profissionais do Público antes de transitar para o Expresso - assumiu a melhor opção: retirou-se de cena e deixou o entrevistado falar, sem interrupções, na primeira pessoa do singular. 

«Mais frágil, chegou a pensar desistir, mas também dono de uma resistência de que nunca se sonhou capaz. Agarrou-se à família e agradece a quem por ele rezou a um Deus que ele, não crendo, respeita», escreve a Christiana numa breve introdução. 

Eis um testemunho arrepiante. De que destaco alguns trechos, com a devida vénia a Daniel Sampaio e à jornalista que tão bem o entrevistou.

 

«Tenho de assumir que fui displicente. (...) Descuidei-me, é preciso dizê-lo, porque é necessário respeitar as regras.»

«Fiquei sozinho em casa durante cinco dias. Com o apoio dos filhos que traziam a comida. Fiquei a ler, mas já devia estar com o oxigénio muito baixo porque não me lembro de nada, apaguei essa fase da minha vida.»

«Quando olhei [para o oxímetro], estava em 90 e à noite com 88 [é perigoso estar abaixo de 95]. Avisei os meus filhos que, chamaram o INEM. A 28 de Janeiro, fui para as urgências de Santa Maria. (...) Ainda ouvi dizerem que tinha de ir para os cuidados intensivos, onde acabei por ficar 15 dias ventilado, em coma induzido.»

«Na segunda semana comecei a ficar muito lúcido, a ler, a fazer fisioterapia e a melhorar, e passei para a enfermaria. Negativei da Covid-19 ainda nos cuidados intensivos. Mas antes apanhei uma bactéria hospitalar. Foi grave porque comecei a ter febre alta, confusão mental e senti-me mesmo muito mal.»

«Estive na enfermaria de 26 de Fevereiro a 19 de Março. No total foram 50 dias de internamento, foi brutal.»

«Éramos quatro naquela enfermaria e foi muito difícil quando um de nós morreu. Todos percebemos a meio da noite que ele iria morrer. A morte está sempre presente na covid grave.»

«A doença é muito ameaçadora. Uma ameaça difusa. Eu não tinha dores nem me sentia mal, mas não podia largar o oxigénio. Tínhamos de lutar para que o pulmão funcionasse melhor e sabíamos que em muitos casos não se consegue.»

«Demorei cerca de três semanas até ter algum controlo sobre o meu corpo. Só comecei a andar uma semana antes de sair do hospital. Cheguei a temer nunca recuperar.»

«À noite só dormia com medicação e mesmo agora o meu sono ainda está alterado. Também fiquei com uma arritmia no coração, que dizem que será reversível.»

«Estive quase destruído. A infecção bacteriana quase me derrubou, pensei que ia morrer. Mas eu não queria morrer, pensava que ainda tinha alguns anos de vida, que queria fazer muita coisa e que tinha família, bons amigos. Sabia que, se não fosse destruído, ia ficar uma pessoa melhor.»

«Eu tenho muito respeito pela ideia de Deus, não sou crente, mas confesso que muitas vezes pensei em Deus e se ele me podia ajudar. Tive imensa gente a dizer que estava a rezar muito por mim, eu agradecia e foi muito reconfortante.»

"Impedidos de beber café ao balcão"

Pedro Correia, 05.04.21

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Vivemos no tempo das lamúrias e das queixinhas. Que, mesmo quando não existem, são inventadas para efeitos jornalísticos.

Leio no Expresso (destaque de páginas centrais, na última edição) que alguns chineses residentes em Portugal se sentem melindrados ao ouvirem designar por "vírus chinês" esta pandemia que já provocou mais de 16 mil vítimas mortais no nosso país - o presidente da Câmara de Viseu, ontem falecido aos 59 anos, foi uma das mais recentes. 

Não entendo esta queixa. Se o vírus que tem feito paralisar o mundo - com um rasto de quase três milhões de mortos e mais de 130 milhões de infectados à escala global - começou na China, denominá-lo pela origem geográfica não é matéria de opinião: é questão de facto. Estigmatizados devem sentir-se os espanhóis, ao verem ainda baptizada de "gripe espanhola", mais de um século depois, a pneumónica que causou dezenas de milhões de vítimas entre 1918 e 1920, sem que a sua origem nada se relacionasse com Espanha.

 

Chegamos ao ridículo de ouvir contínuas alusões à "estirpe inglesa" do coronavírus, ou à "variante sul-africana", ou à "variante do Brasil", sem que isto suscite acusações de "discriminação" ou "xenofobia", enquanto se silencia o ponto geográfico inicial da Covid-19 para cumprir a etiqueta politicamente correcta. 

E ainda assim alguns chineses se queixam.

Mas queixam-se afinal de quê? E queixar-se-ão mesmo?

 

Recorro ao Expresso. "Há casos de imigrantes chineses impedidos de beber o café ao balcão, por receio de contágio dos empregados", destaca o jornal em maiúsculas. Deixando-me mais perplexo.

Então não temos estado todos impedidos de "beber café ao balcão", durante estes 14 estados de emergência?

Então os imigrantes chineses, oriundos do país que mais produz e consome chá no mundo, desatam a beber bicas ou cimbalinos mal chegam a Portugal?

E são eles que receiam ser contagiados pelos empregados, como esta "escrita automática" dá a entender, ou o contrário?

 

O semanário cita, como fonte identificada, o director de "um jornal chinês em Portugal, o Europe Weekly" (curioso nome "amaricano" para um jornal publicado por chineses no nosso país), que só admite haver "um ou dois episódios esporádicos" de alegada xenofobia. O empresário Y Ping Chow, líder da comunidade chinesa aqui radicada, assegura nunca ter havido agressões. Ao vigilante SOS Racismo "não chegou nenhuma denúncia por parte de membros desta comunidade".

Mesmo assim, o Expresso reserva duas páginas ao tema, sob o título bombástico "Pandemia desperta racismo contra chineses". E transforma um caso isolado, de um suposto estudante chinês que terá sido atingido "com excrementos na cabeça" (!), sabe-se lá por que motivo, num plural em antetítulo sob a cabeça "discriminação", também em caixa alta.

 

Viesse isto noutro periódico e estariam alguns a gritar contra o jornalismo tablóide. Mas como surge estampado nas centrais do Expresso, deve ser um louvável exemplo de "jornalismo de referência". Seja lá o que isso for.