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Os nossos convidados (balanço)

por Pedro Correia, em 12.09.18

 

Em Março do ano passado, quando me lembrei de pedir textos a colegas da blogosfera, das mais diversas tendências políticas, nunca imaginei que esta iniciativa durasse tanto e ultrapassasse em muito o plano inicial. A ideia era termos um convidado por mês, depois um convidado por semana. Mas rapidamente percebi, pelas respostas prontas aos convites, que não fazia sentido haver intervalos tão longos de publicação.

A passadeira vermelha do DELITO DE OPINIÃO passou a desenrolar-se de segunda a sexta - adoptando, na recta final, um ritmo mais pausado e espaçado. Recebemos convidados das mais diversas tendências políticas e com os mais diversos estilos literários. Cada qual abordando temas à sua livre escolha, como aliás ficou desde logo estabelecido: a única regra era não haver regras. Houve quem optasse por textos enormes. Ou por textos muito curtos.

Lembro aqui, ao correr da pena, os nossos dez primeiros convidados: Luís RobaloCarlos NatálioCristina Nobre SoaresAlexandre BorgesJosé Meireles GraçaRicardo António AlvesRui Ângelo AraújoLuís MilheiroJosé Augusto Leite e Joana Lopes. Convidados com personalidades diferentes, com blogues de características muito diferentes. Como diferente era também a atitude de cada um deles: houve quem estabelecesse intenso diálogo com os leitores nas caixas de comentários, outros limitavam-se a uma sucinta referência. A piada destas coisas é também verificar estas diferenças. Quase todos reproduziram os textos nos seus blogues, o que multiplicou de alguma forma o intercâmbio entre nós. Era também isso que se pretendia.

E assim passou mais de um ano: as respostas surgiam quase sempre com uma nota suplementar de simpatia. Devo confessar que a qualidade da esmagadora maioria das colaborações excedeu as minhas expectativas, que já eram elevadas. E a quantidade de respostas afirmativas também surpreendeu: foram raras as recusas e quase todas bem justificadas.

Não posso deixar de destacar, com natural emoção, o texto que nos foi enviado pelo Pedro Rolo Duarte e aqui publicado a 5 de Outubro de 2017, escassas seis semanas antes da sua morte prematura. Nesta mesma série em que viria a comparecer o seu filho António, a 16 de Abril de 2018. 

Numa confirmação de que existem elos a ligar-nos, mais fortes do que as pequenas contingências do quotidiano. Enquanto muitas modas passam, enquanto muitas tendências chegam e partem sob o signo do efémero, há rastos que perduram. Este nosso blogue - vosso também - é prova disso.

 

Agora, que terminou, deixo aqui - por ordem alfabética - os nomes dos 131 convidados que desfilaram na passadeira do DELITO entre 29 de Março de 2017 e 31 de Julho de 2018. Agradecendo a todos, uma vez mais, a colaboração que nos prestaram.

 

A

Alexandra GAlexandra MachadoAlexandre BorgesAlexandre LuzAlice AlfazemaAnaAna CabeteAna C. BorgesAnamarAndré Abrantes AmaralAndré Azevedo AlvesAntónio AgostinhoAntónio CabralAntónio de AlmeidaAntónio Pinho CardãoAntónio Rolo DuarteArmando PalavrasArnaldo GonçalvesAugusto Moita de Deus.

 

B

Beatriz AlcobiaBruno Santos.

 

C

Carla Maia de AlmeidaCarla RomualdoCarlos FariaCarlos Guimarães PintoCarlos NatálioCarolina GuimarãesCatarina DuarteCátia MadeiraCátia SamoraCristina Nobre SoaresCristina Torrão.

 

D

Daniela MajorDavid MarinhoDiogo Ourique.

 

E

Eduardo LouroEduardo SaraivaEufrázio FilipeEugénia de Vasconcellos.

 

F

Fátima MouraFernando LopesFernando Penim RedondoFilipe MouraFilipe Nunes VicenteFrancisco Carita MataFrancisco FreimaFrancisco José ViegasFrancisco Miguel ValadaFrancisco Seixas da Costa.

 

G

GabrielaGraça Canto MonizGraça Sampaio.

 

H

Helena Ferro de GouveiaHenrique Pereira dos Santos.

 

I

Inês LopesIsabel A. FerreiraIsabel Pires.

 

J

JASGJ. J. AmaranteJoana LopesJoana MarquesJoana RitaJoão Afonso MachadoJoão BrancoJoão EspinhoJoão Ferreira DiasJoão Freitas FarinhaJoão LisboaJoão MarchanteJoão Paulo CraveiroJoão TávoraJoaquim Alexandre RodriguesJosé Augusto LeiteJosé Carlos PereiraJosé CatarinoJosé da XãJosé Manuel FariaJosé Maria MontenegroJosé Meireles GraçaJosé MilhazesJosé Pimentel TeixeiraJosé Ricardo Costa.

 

L

Laura Avelar FerreiraLeonel VicenteLuís Miguel RosaLuís MilheiroLuís MoreiraLuís Novaes TitoLuís RobaloLuísa Correia.

 

M

Magda L. PaisManuel S. FonsecaMarcelo Correia RibeiroMargarida Corrêa de AguiarMargarida MourãoMaria AraújoMaria Dulce FernandesMaria GraceMaria MadeiraMaurício BarraMiss X.

 

N

Nelson Reprezas.

 

O

Octávio dos SantosOlavo Rodrigues.

 

P

Paulo FerreroPaulo GuinotePaulo SousaPedro AzevedoPedro OliveiraPedro Rolo DuartePsicogata.

 

R

Raquel Santos SilvaRicardo António AlvesRicardo Campelo de MagalhãesRita MatildeRita I CarreiraRita PiresRobinson KanesRodrigo Moita de DeusRui AlbuquerqueRui Ângelo AraújoRui Monteiro.

 

S

Samuel de Paiva PiresSara BarrosSofia Gonçalves.

 

T

Tiago CabralTiago Nené.

 

V

Vânia CustódioVera GomesVítor Cunha.

 

Z

Zélia Parreira.

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Convidada: MARGARIDA MOURÃO

por Pedro Correia, em 31.07.18

 

Crescer com as palavras

 

Desde muito pequenina fui incentivada a escrever, na escola e em casa pela minha mãe. Tive alguns diários durante uns anos valentes, houve inclusive uma altura em que achei que só conseguia desabafar a escrever. Os primeiros anos da adolescência trouxeram isso mesmo, a escrita biográfica, a escrita do “eu”, das primeiras aventuras e dos primeiros amores.

Fui crescendo e houve um dia em que me zanguei e destruí todas as páginas escritas durante anos, dessas guardei apenas as capas dos diários, que agora nem sei onde estão, se é que existem, depois das voltas da vida.
Numa parte da minha vida tive mais vontade e necessidade de escrever quando estava triste ou zangada. E tentava muitas vezes transcrever essas ideias e conversas em sujeitos inventados e em linhas invisíveis.
O conceito diário deixou de existir, começou a ser uma escrita descomprometida, hoje na folha do caderno, amanhã na capa de outro, depois num guardanapo, numa mensagem guardada num telemóvel, e sobre mim, acabei por desenvolver o hábito de falar com algumas pessoas sobre o que me apoquentava, fosse o assunto importante ou não.
Nessa altura tentei por várias vezes escrever uma história, reconhecendo agora que seria um conto-retrato.
Entre vontades, desabafos, sonhos e fantasias cheguei a escrever uma mini peça de teatro para uns pequeninos de um jardim infantil nos arredores da minha morada da altura.
As histórias são algo que ainda hoje me cativam, as histórias de vida, dos livros, dos sítios, das pessoas, reais ou não. É todo um mundo que me fascina. Como entre letras, espaços e pontuações ficamos a sonhar e a viajar em qualquer banco de jardim ou sofá de casa. A possibilidade de todas as histórias serem ou terem uma realidade e de haver esse cruzamento com o imaginário, entre o que é que “eu” vejo e escrevo e, o que é que “tu” lês e imaginas.
Entre este caminho de escritas e leituras apetecia-me escrever mais e fui à Escrever Escrever aprender a brincar com palavras. Aprender a escrever sempre, sem pensar e a deixar fluir. Aqui surpreendi-me com a facilidade com que as histórias aparecem, como os estímulos podem estar ao virar da esquina e como os desbloqueadores podem estar em perguntas e não em respostas.
O Escrescer é isto tudo, é ser o que sou, é escrever o que imagino, é crescer nas pontas dos dedos.

 

 

(Margarida Mourão
(blogue Escrescer)

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Convidado: LEONEL VICENTE

por Pedro Correia, em 06.07.18

 

Optimista

 

Podia fazer aqui uma espécie de “pot-pourri” de temas que mais me interessam: desde a “Memória”, em termos gerais, a Tomar, mais em particular; do presente e futuro do jornalismo às perspectivas sombrias que assolam a Europa; da questão dos refugiados e das migrações às incertezas sobre as saídas profissionais dos nossos filhos (a tal geração mais qualificada de sempre); em termos pessoais, do indelével elo que, desde há cerca de quatro anos, estabeleci com a Bulgária, o país mais pobre da União, onde a extrema-direita racista chegou recentemente ao poder, tendo sob mira as minorias turca e cigana, segregadas e cada vez mais intoleradas.

Enquanto “coleccionador de histórias”, podia também recordar um episódio com contornos caricatos, que, em 1998, vivi em Bissau: o de, durante a semana, ver toda a gente a olhar para a lua, procurando antecipar o início do Ramadão – e consequente dia feriado –, que, tendo chegado precisamente na sexta-feira, me impediu de confirmar o voo de regresso, numa altura em que a ligação aérea Bissau-Lisboa estava completamente lotada e a duração da reserva no hotel tinha entretanto chegado ao fim, tal como o dinheiro de que dispunha para a missão...

Eu, que me vejo, não propriamente pessimista, mas, de forma geral, mais realista, optei, porém, por deixar aqui de lado as magnas preocupações que nos envolvem nestes dias cinzentos – por outros, bastante mais abalizados para versar estes assuntos, amiúde abordadas –, preferindo expressar, por um prisma positivo, uma outra grande paixão, como é a do desporto.

E, sobretudo, o exemplo que nos é apontado por aquele que será, porventura, o maior desportista mundial de todos os tempos, especialmente na medida em que é praticante de uma modalidade individual, em que um encontro pode chegar a durar até três ou mais horas.

Reunindo características únicas de carisma e virtuosidade, talento e versatilidade, combinando estética e técnica, empenho e profissionalismo, humildade e respeito (pelos adversários e pelo público), numa longeva carreira de mais de vinte anos, praticamente sempre ao mais alto nível – cumprem-se agora precisamente 15 anos sobre a primeira das suas vinte vitórias em torneios do “Grand Slam”, em Wimbledon –, Roger Federer conta quase uma centena de competições ganhas, com mais de 300 semanas como n.º 1 do ranking mundial, somando cinco estatuetas dos “Óscares do desporto”, os prémios Laureus, sendo, paralelamente, o atleta que maiores proventos alcançou em toda a história no decurso da sua actividade desportiva.

 

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 Roger Federer: a sua primeira grande vitória ocorreu faz hoje 15 anos

 

Logo em 2003 criou a “Roger Federer Foundation”, visando apoiar crianças carenciadas e promover o seu acesso à instrução e ao desporto, intervindo fundamentalmente na região da África Austral (África do Sul, Botswana, Malawi, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe), propondo-se agora abranger, num horizonte de curto prazo, um milhão de crianças!

Ora – sendo a publicidade a “força motriz” que faz girar o mundo –, depois de mais de vinte anos como rosto da Nike, prestes a completar 37 anos de idade, o suíço aceitou passar a ser o “embaixador”, a âncora maior de divulgação, da marca japonesa de roupa UNIQLO (acrónimo para a denominação inicial de Unique Clothing Warehouse), fundada em 1984 por Tadashi Yanai, no seu trilho para se tornar uma marca global – procurando desde já notabilizar-se, gerando “buzz” ainda antes que a maior montra desportiva do planeta, os Jogos Olímpicos de 2020, chegue ao Japão –, visando suplantar gigantes mundiais como a Inditex e a H&M, tendo como ambicioso objectivo atingir, já nesse ano de 2020, os 50.000 milhões de dólares de facturação!

Percebe-se, assim, como será possível pagar a Federer – o maior “avalista” de imagens de marca do mundo, representante, entre outras, das luxuosas Rolex, Mercedes-Benz ou Moët & Chandon (só Cristiano Ronaldo e LeBron James estarão, actualmente, na sua faixa de honorários) – cerca de 300 milhões de dólares, por um contrato de dez anos (independentemente do previsto termo de carreira a curto/médio prazo) – o qual, em termos comparativos, e para se percepcionar melhor o que está em causa, acumulou, ao longo de todo o seu trajecto profissional de mais de vinte anos, um montante global de cerca de 116 milhões de dólares em prémios.

Nas palavras de Tadashi Yanai, ao anunciar esta extraordinária parceria: «Compartilhamos uma meta de operar mudanças positivas no mundo, e espero que, juntos, possamos proporcionar a mais alta qualidade de vida para o maior número de pessoas».

Ao que o grande campeão retorquiu: «Estou profundamente implicado com o ténis e com o triunfo em competições. Mas, tal como a UNIQLO, também tenho grande amor pela vida, cultura e humanidade. Partilhamos uma forte paixão por ter um impacto positivo no mundo em nosso redor, ansiando por conjugar os nossos esforços criativos».

Sem ignorar que, para a empresa, antes de preocupações a nível da sua responsabilidade social, importará, em primeira instância, o lucro – aliás, como condição determinante para a sua própria perenidade –, quero crer que não terão sido em vão as palavras de Yanai, assim como, da parte de Federer – que nem sequer teria a possibilidade física de usar em “proveito próprio” o imenso pecúlio já antes angariado (estimado em mais de 500 milhões de dólares) –, os seus actos no passado constituirão um bom garante do compromisso agora novamente expresso.

Continuo optimista que, à nossa ínfima escala individual, procurando replicar o seu exemplo, seremos capazes, cada um, de dar também pequenos contributos para uma sociedade menos desequilibrada, e, principalmente, mais solidária.

 

 

Leonel Vicente
(blogue MEMÓRIA VIRTUAL)

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Convidada: MARIA GRACE

por Pedro Correia, em 14.06.18

 

De jornalista... a telefonista

 

Estávamos em Setembro de 2001. Uma jovem recém-licenciada em Comunicação Social acaba de sair de uma das melhores universidades, a nível internacional, com um sorriso no rosto. Acabara o seu curso. Tinha atingido mais uma meta, na sua ainda tão curta vida. Saía daquela, onde até aí tinha passado grande parte do seu tempo, trabalhando arduamente, com a esperança de vir a encontrar o seu lugar na sociedade.

 

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 Foto retirada de. www.pexels.com

 

Como jornalista, como escritora, como voz das notícias, fossem elas escritas ou faladas. Mas nem imaginava que o mundo real não ia ser tão colorido como idealizava. Mal sonhava que ia entrar na maior selva que existe. Uma selva agreste, cinzenta, tempestuosa. A selva do mercado de trabalho, onde a concorrência não perdoa.

E nem os cinco anos de noites mal dormidas, nem a experiência adquirida num jornal diário conceituado, lhe valeram de nada, pois a resposta ao rol de curriculuns enviados era sempre a mesma: «Agradecemos a sua comunicação, mas de momento não estamos a necessitar...» ou «...Procuramos alguém com mais experiência na área.»

Que decepção! Cinco anos fatigantes e uma formação que não ia ver tão cedo a sua realização. Vidas trocadas, destinos cruzados, cursos mal tirados. Os desgraçados estudam, iludindo-se com um futuro prometedor (pensam eles), para acabarem numa sala escura e fria, onde impera o som dos telefones. Pois é! O seu primeiro trabalho, porque não podia ficar sem nada fazer, foi num call-center de uma operadora de comunicação. E deixem-me dizer-vos,que muitas pessoas nem imaginam sequer o que lá se passa dentro. Como é o funcionamento destes trabalhos temporários. Durante sete horas consecutivas a jovem atendia centenas de clientes, com apenas uma hora de almoço, cronometrada, quinze minutos de pausa, de manhã e à tarde, e se lamentavelmente tivesse uma dor de barriga que a obrigasse a ir à casa de banho, e a demorar mais tempo, já estava a ser repreendida. Ah, pois é! Até para ir à casa de banho tinham que pedir... e esperar pela aprovação. E, claro, não posso deixar de referir a pressão que sofria continuamente, pois as chamadas tinham um tempo médio de três minutos e meio, e nem podia pensar em deixar o cliente a ouvir música mais de um minuto. Já se ouvia lá do fundo uma voz que gritava “ VAI À LINHA!”. E este pedido não era um “Vai à linha... por favor”, mas mais próximo de “Vai à linha... JÁ!!!!”

Se é que me estou a fazer entender!

E quando se lembravam de dizer “Despacha-me esse cliente”, nem sonham a vontade que a jovem tinha de desligar automaticamente a chamada, algo proibidíssimo, com direito a despedimento por justa causa. A sua revolta crescia a cada dia que passava, quando devia ser a sua satisfação. Até que caiu a última gota de água, que fez a jovem “peixinha” saltar fora do aquário, quando pediu a um cliente para aguardar, pois estava a analisar o problema colocado, e do outro lado apenas ouviu o indivíduo para outro, na gozação:

 

- Esta não percebe nada do que está a fazer! Ah! É só uma telefonistazinha.

 

Nem consegue bem descrever o que sentiu naquele momento. Uma espécie de bola que lhe ficou entalada na garganta. As lágrimas a quererem sair, e um desejo de responder, mas não podia.

TELEFONISTA? TELEFONISTA? E obstinada como era, fez questão de ir ver:

 

TELEFONISTA: Funcionário de determinada empresa ou instituição cuja função é atender telefonemas, estabelecendo as ligações externas ou internas pretendidas.

 

A rapariga estava a resolver uma situação. Não ia passar o cliente para ninguém!!! Não! Efectivamente, o senhor não sabia a diferença entre telefonista e assistente de apoio.

Nem sei como aguentou tanto tempo. Ainda lá esteve uns longos meses.

Infelizmente a realidade com que se deparou foi aquela, há uns anos atrás. A verdadeira sociedade revelou-se nas respostas das várias empresas à sua apresentação. Experiência... Experiência… Experiência… Mas afinal onde se encontrava a suposta assistência que poderiam e deveriam dar aos jovens ex-estudantes?

Com muita pena minha, constato que ainda continua a ser assim, pois se lermos os classificados dos jornais, ou mesmo nos sites de emprego, a maioria das empresas pede um ou mais anos de experiência, para fazer isto ou aquilo. E logo aí muitos jovens, e até mesmo graúdos, ficam bloqueados perante tal requisito. E possivelmente são possuidores de excelentes qualidades, mas vão continuar incógnitos, quem sabe a atender telefones, pois as entidades só pedem pessoas experientes.

 

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Foto retirada de Google Imagens

                                                          

Infelizmente, para muitos, a experiência tantas vezes pedida pode levar à desistência. Como não têm nenhuma, pois acabam de sair das universidades, e não encontram, muitas vezes quem lhes dê a mão, acabam por desistir de uma realização profissional que estava destinada a eles, e para a qual estudaram durante anos, acomodando-se a um trabalho fatigante e sem hipótese de subida, pois as despesas começam a ser uma prioridade, e nem pensam na possibilidade de lutar pelo seu lugar ao sol.

Hoje, não sou jornalista, por minha opção, mas sinto-me bem com com o trabalho que exerço, e considero isso o mais importante. O segredo? Acho que, mais do que lutar por um cargo ligado obrigatoriamente ao curso tirado, é lutar por uma profissão que nos faça sentir bem, profissionalmente e pessoalmente.

Mas, claro, continuo a gostar imenso de escrever e de descrever. O meu pai costumava dizer, ao ler as minhas histórias, que eu fazia música com as palavras, em qualquer texto escrito, fosse uma crónica, um conto, uma notícia. E eu nunca desisti de continuar a compor a minha música em forma de palavras.

 

 

Maria Grace
(blogue HISTÓRIAS DA ALMA)

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Convidada: ANA CABETE

por Pedro Correia, em 04.06.18

 

Cismar

 

Perdeu-se o cismar.

Activos, produtivos e exaustivos, deixámos de cismar para o céu, cismar à janela, cismar para um livro, cismar ao sol, cismar para dentro.

Ninguém se encarrapita; sofre-se de síndrome vertiginoso e não se olha o Alto; para conhecer os segredos da “máquina do mundo”, basta inclinar a cabeça para o ecrã que jaz nas mãos.

Desapareceram os esgrouviados; civilizadamente inconformados, já se pesquisou tudo e não é um verso que vai ensimesmar ou transviar a estrutura.

Não se cita Camões: “Bem céu fica a terra/ que tem tal estrela”; teme-se a rejeição e espreita-se a SMS da adolescente: “És bué a minha cena!”.

 

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 Imagem: fotógrafa Sofia Colvin

 

Chega de arrecadar; não há cartas de amor ridículas, postalinhos ou seixos do mar para os segredos do baú.

Macambúzios e com tanglomanglo, nunca mais; pílulas de todas as cores para resistir ao “desconcerto”.

Ao demo a cordialidade; esquece-se a origem “cor, cordis” e amarram-se as cordas do coração. O salamaleque, a saudação “a paz esteja convosco”, é para os balconistas das lojas chiques. Muita educação revela insegurança ou, pior, falta de personalidade.

Hoje, sofre-se de burnout, distúrbio psíquico resultante de vertigem, não daquela decorrente do cismar em cima do telhado, mas da vertigem que resulta da velocidade, da entrada abrupta no futuro, sem recolher o que é precioso e ficou retido no passado.

 

 

Ana Cabete
(blogue FRASCO DE MEMÓRIAS)

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Convidada: ANA C. BORGES

por Pedro Correia, em 14.05.18

 

Viajar devagar

 

Aqui há tempos li um artigo sobre um casal que visitou 60 países num ano. 60 países??? Em 12 meses??? Isso dá uma média de 5 países por mês, o que significa menos de uma semana em cada um. É certo que o elemento feminino do casal refere no blogue que só esteve um dia no Cairo (aqui sobraram-lhes alguns dias para estarem mais tempo noutro lado…) – e eu até concordo que o Cairo não é das cidades mais agradáveis para uma estadia demorada mas… um dia??? E mais: conseguiram ver nesse dia os três locais que se propunham visitar: a Esfinge e as Pirâmides de Gizé, o Museu Egípcio e o mercado de Khan el-Khalili. A prová-lo lá está uma foto muito gira da jovem, lindamente vestida, com as Pirâmides em fundo – uma foto perfeita para o Instagram ou qualquer outra rede social.

Bom, eu acredito que só lá tenham estado um dia. Até acredito que tenham visitado o que dizem – mas terá sido certamente entrada por saída, com pouco mais de tempo do que o suficiente para tirarem umas fotos bonitinhas e “instagramáveis”. Para o Museu é preciso pelo menos meio dia, mesmo não vendo tudo ao pormenor; outro tanto gasta-se à vontade em Khan el-Khalili; e Gizé também não se visita em quinze minutos, mesmo sem contarmos com o tempo da deslocação.

 

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Cada vez me faz mais confusão esta forma de viajar. Percebo que se queira aproveitar ao máximo o tempo para ver tudo o que for possível – há tantos lugares para visitar, e as horas passam tão rápido… – sobretudo se temos apenas alguns dias ou semanas de férias até regressarmos à rotina diária. Mas quando se trata de pessoas que largaram o trabalho fixo para andarem pelo mundo, não consigo entender de maneira nenhuma esta necessidade de correria.

Vivemos demasiado depressa nos dias de hoje. Contra mim falo, que ando constantemente a tentar esticar as horas do dia para nelas caberem tudo aquilo que quero ver, ler, escrever, conversar, aproveitar, e ainda descansar. Também eu já fiz viagens de carro de 12 horas seguidas, circuitos turísticos com jornadas de percorrer 600 quilómetros em autocarro – com paragens pelo meio para ver isto ou aquilo durante meia hora, uma hora no máximo – cruzeiros em que se chega de manhã a uma cidade para de lá sair ao fim da tarde e acordar no dia seguinte num outro lugar. Já fiz, sei como é e, muito francamente, não é a forma de viajar de que eu mais gosto.

 

Quando comecei a viajar regularmente para fora de Portugal, ainda antes da era dos telemóveis e da internet, tudo era marcado através das agências de viagem. E, apesar de todas elas terem pacotes fixos de viagens pré-feitas, era perfeitamente possível organizarem-nos uma viagem por medida. Consegui por isso arranjar sempre viagens mais ou menos de acordo com as minhas preferências de tempo. No mínimo cinco dias para uma cidade grande, e nunca menos de duas semanas para umas férias de praia e passeio num qualquer país mais distante.

Quando as agências passaram a praticamente só oferecer pacotes de uma semana, comecei eu própria a organizar as minhas viagens, de forma a aproveitar ao máximo o (pouco, sempre pouco…) tempo que tenho disponível para viajar, mas ao ritmo a que eu gosto.

Viajar devagar tem outro sabor. Não é viajar sem destino, porque organizo previamente um roteiro com aquilo que não quero deixar de ver; e é claro que tenho de marcar passagens e fazer eventualmente algumas reservas – porque não me apetece chegar à meia-noite a uma cidade e ainda ter de ir procurar alojamento, por exemplo, ou querer alugar um carro e não ter porque é época alta e estou num sítio onde a oferta é reduzida. Mas na minha “organização” reservo sempre tempo para poder conhecer com calma os lugares que vou visitar, e deixo espaço para o imprevisto e para a vontade de ficar mais tempo aqui ou ali, para passear com calma, para alterar o percurso se me apetecer.

 

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Viajar devagar é também um estado de espírito. Gosto de andar sem grande rumo numa cidade, fazer uma caminhada de vários quilómetros em vez de ir de carro, descobrir uma praia fantástica numa qualquer aldeola ainda fora dos roteiros turísticos, olhar para um mapa e decidir que em vez de ir para sul vou para leste. Gosto sobretudo de ser surpreendida – dar por acaso com algum sítio de que nunca ouvi falar e pelo qual me apaixono a ponto de querer ficar mais tempo, conhecer os seus recantos, comer num qualquer restaurante despretensioso mas onde a comida é deliciosa, falar do meu país com quem me pergunta de onde sou, e em troca ficar a saber alguns segredos que só conhece quem ali vive.

Viajar devagar permite-me criar uma ligação maior ao lugar que visito. Ao terceiro dia em Londres já olho automaticamente primeiro para a direita antes de atravessar uma rua, ao terceiro dia em Veneza já me oriento nalgumas ruelas sem precisar do mapa, ao terceiro dia em Annecy já conheço dois restaurantes onde se come bem e os empregados são conversadores. Ao fim de alguns dias numa cidade ou numa região começa a instalar-se um sentimento de familiaridade que, longe de me entediar, faz-me sentir mais relaxada e confortável. Começo a reconhecer algumas palavras na língua e escrita locais, já sei onde é o frigorífico das bebidas frescas no supermercado e não preciso de perguntar novamente se um determinado prato típico local leva queijo ou é picante. Começo a sentir-me em casa, mas numa casa nova que estou excitantemente a descobrir aos poucos.

Viajar devagar consolida as minhas futuras memórias do que vivi em cada lugar onde estive. Na voragem da correria o cérebro só vai conseguindo reter uma coisa aqui, outra acolá. Tenho uma memória sobretudo visual e olfactiva, preciso de estar efectivamente num local para absorver o seu ambiente, observar os pormenores, sentir as emoções que ele me desperta – ou não! Só assim consigo mais tarde reviver as experiências que tive, e ao revivê-las transporto-me para lá, é quase como estar a viajar novamente.

 

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Embora nem sempre me seja possível viajar tão devagar quanto de facto gostaria – ah, esta incapacidade de multiplicar para o dobro os dias de férias e os fins-de semana…! – tenho vindo cada vez mais a escolher a qualidade em detrimento da quantidade. Não quero simplesmente coleccionar lugares, não quero vangloriar-me de que visitei quatro cidades numa semana, não quero chegar de uma viagem com a sensação de que vi muita coisa mas não conheci quase nada. Quero viver plenamente cada experiência, sentir o local onde estou, desacelerar, ter tempo, aproveitar o tempo.

E é por isso que, sempre que posso, viajo devagar.

 

 

Ana C. Borges

(blogue VIAJAR. PORQUE SIM)

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Convidado: RUI MONTEIRO

por Pedro Correia, em 24.04.18

 

Litoral é Lisboa e o resto é paisagem

 

Portugal é um país com fortes assimetrias territoriais de desenvolvimento económico e social, ponto final parágrafo. É assim que o tema da coesão nacional é apresentado: uma afirmação sem explicação. Há sempre um subtexto, o “vocês sabem do que estou falar”. O subtexto, o que todos damos como adquirido, é que o litoral se opõe ao interior, o urbano ao rural, as áreas metropolitanas às cidades médias, dando origem a diferentes jogos de soma nula. A dicotomia entre Lisboa e o resto do país também faz parte do subtexto, mas as razões são mais ideológicas do que de facto, resulta do centralismo para uns e da inveja dos caciques da província para outros, não existindo unanimidade ou a unanimidade é que tudo se resume a um Porto-Benfica.

Como os antecessores, este Governo também decretou que a dicotomia justa era entre o litoral e o interior e criou uma Unidade de Missão para o Interior para a dirimir.

 

Procura-se analisar essa dicotomia através do Produto Interno Bruto (PIB) por habitante. Parafraseando Winston Churchill, é o pior indicador de análise da convergência real, com excepção de todos os outros. Por razões compreensíveis, retiram-se os Açores e a Madeira desta análise. Por simplificação e dada a ausência de informação com outro recorte espacial, admite-se que o litoral é constituído por todas as regiões NUTS III que fazem fronteira com o Oceano Atlântico, por mais pequena que seja, e o interior pelas restantes. O litoral apresenta um PIB por habitante superior em 8 pontos percentuais (p.p.) à média do Continente, enquanto essa diferença relativamente ao interior ascende a -22 p.p.. Analisadas assim as assimetrias, este diferencial de 30 p.p. permite afirmar que o litoral e o interior apresentam níveis de desenvolvimento diferentes.

Se se retirar a região NUTS III da Área Metropolitana de Lisboa do litoral, as comparações permitem conclusões diferentes. O litoral e o interior apresentam um PIB por habitante inferior à média do Continente de, respectivamente -7 p.p. e -22 p.p., enquanto essa relação da Área Metropolitana de Lisboa é precisamente inversa de +31 p.p.. A diferença entre o interior e a Área Metropolitana de Lisboa (53 p.p.) é cerca de três vezes e meia superior à diferença entre o interior e o litoral (15 p.p.). Não parece que a dicotomia entre o interior e o litoral explique as assimetrias de desenvolvimento ou, se explica, como muitos afirmam, incluindo o Governo, então é porque só a Área Metropolitana de Lisboa faz fronteira com o Oceano Atlântico.

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Esta é uma análise positiva, do que é, não permitindo um juízo normativo, do que deve ser.

Depois da correcção dos principais desequilíbrios macroeconómicos decorrentes da negociação entre o Estado português, por um lado, o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, por outro, do Programa de Assistência Económica e Financeira, a principal preocupação da política económica continua a ser a do endividamento externo globalmente e de cada um dos sectores institucionais (Estado, famílias e empresas). Qualquer juízo normativo deve ser efectuado tendo em consideração esta preocupação, procurando tirar lições de experiência para o futuro, dado que ninguém pretende regressar ao passado recente.  

A balança de mercadorias (exportações-importações) das diferentes regiões NUTS II do Continente expressa em percentagem do PIB é a seguinte: no Norte é de +11%, no Centro de +9%, no Alentejo de +6%, no Algarve de -1% e na Área Metropolitana de Lisboa de – 26%.

Um dos factos estilizados da economia portuguesa é o seu persistente défice da balança comercial. Embora não se disponha de informação regionalizada relativamente à balança de serviços e ao comércio inter-regional, pode-se afirmar, mesmo assim, que em termos absolutos e relativos a Área Metropolitana de Lisboa é o principal território responsável por esse défice persistente da economia portuguesa. Sendo a região mais rica do país, também se admite que apresente um défice da balança de rendimentos e transferências. Os dois défices só podem ser compensados por uma posição superavitária nas balanças de capitais e financeira. Estas posições têm o seu simétrico nas outras regiões do país e, em particular, nas suas regiões mais pobres (Norte e Centro).

Não se trata de qualquer juízo moral, de que os lisboetas vivem acima das suas possibilidades, mas tão-só de constatar que as necessidades de investimento da Área Metropolitana de Lisboa não são financiadas pelas poupanças dos seus residentes, sendo oriundas não só do exterior do país como das regiões mais pobres, minando o seu potencial de crescimento futuro e tornando a execução dos fundos europeus pouco eficaz na correção de assimetrias de desenvolvimento e na convergência real.

Esta é uma situação comum em países pouco desenvolvidos ou de desenvolvimento intermédio, mas não em países mais desenvolvidos com os quais nos queremos comparar no contexto da União Europeia.

 

O facto estilizado que marcou a economia portuguesa durante o processo de convergência nominal que antecedeu a criação do Euro e após a instituição da moeda única foi o excesso de investimento em sectores produtores de bens e serviços não transacionáveis, muito dele assente no simples rentismo (“rent-seeking”) e em rentistas (“rent-seekers”), aos quais não é indiferente a concentração em Lisboa e na sua área metropolitana do poder político. Este investimento inflacionou os respectivos preços dos bens e serviços, alterando a sua relação com os preços dos bens e serviços transacionáveis, apreciando a taxa de câmbio real, reduzindo a competitividade externa e aumentando o endividamento, público e privado.

Procurou-se explicar que as assimetrias de desenvolvimento estão associadas ao endividamento externo e vice-versa, num processo que se autoalimenta e se amplifica, gerando um círculo vicioso. A identificação e a caracterização de um problema não transportam em si mesmas a solução. Não há, nunca há uma só solução. Nos países mais desenvolvidos da OCDE uma parte da solução tem passado pela distribuição territorial do poder político de acordo com o princípio da subsidiariedade, sujeitando-o a maior escrutínio público e democrático, para se evitarem problemas do rentismo. A esta solução chama-se descentralização. É condição necessária mas não suficiente.

 

É necessário canalizar também o investimento para sectores produtores de bens e serviços transacionáveis, que, por estarem expostos à concorrência internacional, apresentam maior potencial de aumento da produtividade e de transformação estrutural da economia portuguesa. Esta aposta não é neutra em termos territoriais e depende da orientação a dar aos fundos europeus no atual e no próximo período de programação. Não se alteram os perfis produtivos dos territórios do dia para a noite. Uma aposta desta natureza não pode dispensar as regiões com maior orientação exportadora e conhecimento dos mercados internacionais e que, simultaneamente, apresentam PIB por habitante mais reduzido (Norte e Centro).

Se foi em nome desta solução que recentemente o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD) fizeram dois acordos, então estaremos em presença de um pacto de regime, porque o regime nunca mais será o mesmo.

 

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“Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”, todos o dizemos e, aparentemente, teria sido o Eça de Queiroz a dizê-lo primeiro. Ao reler o capítulo VI de Os Maias não encontrei referência à paisagem que constitui o entorno de Lisboa e o resto do país, mas deliciei-me com o retrato irónico e cruel de uma elite decadente que sempre se considerou superior ao povo a que pertence. Esta frase permanece no nosso imaginário colectivo e dos principais decisores. A ideia que lhe subjaz é poderosa: o que é bom para Lisboa é bom para Portugal, dado que as duas realidades se confundem, um pouco à imagem da relação entre a General Motors e os Estados Unidos. É poderosa mas não é verdadeira. A correcção das desigualdades, isto é, o crescimento económico mais robusto das regiões mais pobres, permitirá um crescimento económico mais sustentável de Lisboa e de Portugal, um crescimento menos exposto a problemas de endividamento externo.

É necessário concentrar a atenção nas assimetrias que importam e não noutras que pouco ou nada importam nos termos em que são apresentadas, como se, num país com pouco mais de 200 km de largura e nas actuais condições de mobilidade de pessoas, de capitais, de bens, de conhecimento e de tecnologia, o desenvolvimento dependesse predominantemente do meridiano que ajuda a referenciar cada lugar.

 

 

Rui Monteiro

(blogue A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE LIEDSON)

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Convidada: ISABEL A. FERREIRA

por Pedro Correia, em 18.04.18

 

O mundo é um lugar sinistro

 

Vivemos num mundo onde a morte de seres humanos e de seres não-humanos (a destes muito mais) se banalizou a tal ponto que a essência da Humanidade se afundou no pântano da iniquidade.

 

Até onde nos levará esta loucura colectiva?

 

O mundo afunda-se num abismo imenso, e ainda há quem se divirta com a depravação de actos e de factos consumados por indivíduos sem dignidade, sem palavra, sem consciência, sem respeito por si próprios.

Impera uma ignorância obscura, assente numa mentalidade estagnada, que nos faz retroceder ao tempo em que dominavam os brutos, lançando o caos e espalhando a morte à sua passagem, pilhando, exterminando povos, violando mulheres, raptando crianças...

 

Isto soa a passado?

Não, não soa.

Ainda hoje vi, ouvi e li notícias tão semelhantes a estas de tempos idos... Hoje, precisamente ainda hoje, um dia do ano de 2018 depois de Cristo.

 

O que aconteceu?

Existirá uma idiotice congénita que é transmitida através do Poder, e a partir desse poder, essa idiotice rasteja até aos mais perversos indivíduos, e estes vão espalhando o terror, a morte e a miséria mental pelo mundo?

 

Vejamos o que temos:

Guerras “santas” e menos santas; terrorismo; fome; sede; doenças misteriosas; novas bactérias; novos vírus; poluição; tráfico de drogas; tráfico de armas; tráfico de seres humanos; tráfico de animais não-humanos; escravatura infantil; pedofilia; violações de mulheres novas, idosas e crianças; assassinatos; lutas fratricidas; mortes gratuitas; roubos; lapidações; condenações à morte; mutilações; massacres; prisões arbitrárias; tortura de seres não-humanos para divertimento “humano”…

 

Novas mentes velhas andam por aí.

 

Na verdade, este mundo é um lugar sinistro, cheio de gente sinistra que odeia e ri-se dos seres humanos que tentam semear girassóis nos campos onde jazem os que morreram às suas mãos.

São eles, os comedores de carne putrefacta e ossos, que se riem, mostrando uns dentes apodrecidos pelo tempo antigo que neles estagnou...

 

 

Isabel A. Ferreira
(blogue O LUGAR DA LÍNGUA PORTUGUESA)

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Convidado: ANTÓNIO ROLO DUARTE

por Pedro Correia, em 16.04.18

 

Herdar amigos

 

Existem heranças de toda a espécie. Há quem herde muito dinheiro. Há quem herde peças valiosas. Há quem herde cargos políticos ou administrativos. Felizmente, posso dizer que o meu Pai não me deixou nada disso. Eu só herdei a melhor coisa do mundo: amigos.

Com alguns deles, a amizade já estava reservada. Por exemplo, um amigo com quem o meu Pai tinha um almoço marcado para todas quartas-feiras, “quer estejamos, quer não”, passou a ser meu companheiro de almoços a que só podemos faltar “por força maior”. Com outros, foi amizade à primeira vista. Começou com um olá nervoso, um abraço a medo, e quando demos por ela... éramos amigos e não havia nada a fazer.

Certas amizades já existiam em segundo grau e foram promovidas. Por exemplo, herdei uma amiga que me passou a convidar para jantar em casa dela, ao domingo, de três em três semanas, garantindo assim matematicamente a subida de escalão. Mas outras vão fazendo o seu caminho, qual navegação à vista, por entre surreais coincidências. É o caso de uma amiga que, no dia de se processar a herança, estava a ler o mesmo livro que eu (mal sabe ela que esse livro me chegou às mãos através do meu Pai. É quase como se ele soubesse que íamos criar laços em volta dele).

Há amizades herdadas de um luxo fora do comum. Uma das amigas mais importantes que herdei foi herdada com amor, além de amizade. Essa é monumental e difícil de explicar. Mas outras são simples e igualmente boas. Por exemplo, herdei um amigo que atende sempre o telefone, responde sempre às mensagens e está sempre disponível para jantar um dia destes – e outro que não faz nada disso. Ambos já eram assim com o meu Pai, pelo que foi uma maravilhosa transferência directa de bens.

Não é nada complicado herdar amigos. Qualquer local serve: um restaurante, uma esplanada, uma biblioteca, uma casa acolhedora... Cada amizade pode ser herdada a seu tempo, sem preocupações e de maneiras diferentes. Não há obrigatoriedade de declarar os amigos herdados às Finanças. A pessoa pode mesmo tornar-se rica em amigos, todos eles herdados, sem ter de preencher nenhum formulário.

Herdar amigos é sempre uma surpresa. É impossível prever com antecedência quais os amigos que vamos herdar. Nenhuma amizade deve pressupor obrigações (muito menos para com os descendentes), pelo que até é comum nenhum amigo ser herdado. É preciso ser muito sortudo, como eu, para herdar vários.

É uma sorte do tamanho do mundo, porque herdar amigos é mesmo bom. Não se pense que os amigos herdados não estão à altura daqueles que são nossos por aquisição própria. É verdade que só se tornaram nossos por amizade à pessoa que nos deixou, mas são ainda melhores por causa disso, pois têm, nas suas memórias, partes dela que mais ninguém tem. Os amigos que herdei não substituem o meu Pai. Mas acrescentam. E de que maneira.

Sempre soube que é muito bom fazer amigos. Agora sei que também é óptimo herdá-los. Há até amigos que se herdam via blogue. Haverá coisa mais bonita?

 

 

 António Rolo Duarte

(blogue DORMINHOCO)

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Convidado: JOSÉ MILHAZES

por Pedro Correia, em 11.04.18

 

Putin, Trump e a crise no Sporting

 

A situação em torno da Síria agrava-se de hora a hora. Os Estados Unidos parecem mesmo dispostos a bombardear lugares estratégicos, incluindo Damasco. Moscovo ameaça responder, mas, por enquanto, ressalva que só no caso de serem atingidos alvos e militares russos.

A situação poderá atingir o nível de perigo da Crise das Caraíbas, em 1962, mas com uma nova interrogação. Serão os dirigentes dos EUA e da Rússia sensatos ao ponto de travarem a tempo a escalada? Há linhas vermelhas que já foram ultrapassadas, mas falta a fundamental: a continuação da existência do ser humano. Ambos os países têm armas suficientes para rebentar com o globo terrestre.

 

P.S. Ironia à parte, espero que a crise no Sporting termine o mais rápido possível, pois, em termos de tempo de antena, Bruno de Carvalho está claramente a bater Putin e Trump. Talvez, no futuro, os livros de história universal venham a rezar: "A crise na Síria, que ocorreu no tempo em que BC era Presidente do Sporting, em 2018, terminou com uma cimeira russo-americana."

 

 

José Milhazes

(blogue DA RÚSSIA)

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Convidada: RITA MATILDE

por Pedro Correia, em 09.04.18

 

A forma como (não) lemos

 

"Não tenho tempo" é o que dizemos quando confrontados com hábitos de leitura. No entanto arranjamos sempre um tempinho para navegar nas inúmeras redes sociais disponíveis, para fazer scroll, ver séries ou para fazer zapping apenas para nos mantermos "ocupados". A internet e a televisão são as principais justificações para a "falta de tempo para ler", mas são antes disso as principais culpadas pela forma como lemos ou, devo antes dizer, como não lemos.

A massiva quantidade de informação com que somos diariamente confrontados leva-nos a simplesmente passar os olhos pelas palavras, o que vulgarmente chamamos de ler na diagonal. Estudos concluem que só lemos 20% do conteúdo que visualizamos, passamos os olhos, ignoramos parágrafos, saltamos de uma página para outra sem realmente mergulharmos na leitura. 

Os investigadores afirmam que o cérebro humano, em particular o daqueles que pertencem à geração millennials da qual também faço parte, está a perder as "ligações" que levaram centenas de anos a ser construídas, ligações essas fomentadas por actividades que estimulam a abstracção e imaginação. Há quem diga que a internet está a tornar-nos estúpidos, não acho que assim seja, no entanto estou certa de que a internet está a afastar-nos de uma das pouquíssimas actividades que nos levam simultaneamente a relaxar, abstrair da realidade e dar azo à imaginação.

No contexto europeu, Portugal surge no fim da lista quando se fala em hábitos de leitura, no entanto o número de portugueses que procura e utiliza apps de meditação e relaxamento aumenta exponencialmente, palavras como mindfulness, ansiedade e depressão fazem parte do vocabulário diário e adquirem lugar cativo nos media. Coincidência?

 

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Desde criança que oiço a expressão ler faz bem, mas só durante a adolescência consegui reflectir sobre o que significa fazer bem. Ler é talvez um dos melhores e mais benéficos hobbies, não importa se lemos ficção, não-ficção, poesia, o jornal ou artigos técnicos, ler é simultaneamente estimulante e relaxante. Vários estudos publicados nas últimas décadas confirmam que tem inúmeros benefícios. Ler reduz o stress, abranda o ritmo cardíaco e a pressão arterial. Está provado que ler estimula a memória e a concentração, cria ligações cerebrais e aumenta o nível de empatia, torna-nos melhores seres humanos.

Ora, se todos sabemos que ler faz bem, então porque é que não lemos? A resposta está na primeira frase deste artigo (leia-se reflexão): porque não temos tempo. Será realmente assim?

Suponhamos que um leitor assíduo é aquele que lê um livro por mês. Suponhamos agora que uma pessoa lê à velocidade média de uma página por minuto e que os livros que lê têm em média 300 páginas. Estimamos que essa pessoa terá dedicado cerca de 300 minutos do seu mês à leitura. Parece muito? Aqui ficam alguns exemplos que nos ajudarão a compreender o que esse tempo representa: 3 jogos de futebol completos e ainda 30 minutos de um outro jogo, caminhadas numa extensão total de 25 kim, 3 filmes ou 2 maços de tabaco. Tudo isto num só mês!

 

 

Então como poderemos “arranjar tempo” para ler? Os truques são mais do que conhecidos: definir um objectivo diário ao nível do número de páginas ou tempo de leitura, escolher um tema e/ou estilo que nos agrade, começar por ler livros com poucas páginas, manter a motivação através de leituras em grupo ou com o parceiro. Ler é relaxante, é sonhar, é como uma viagem pela abstracção e tão poucos de nós o fazem realmente. Em vez de mergulhar na leitura e saborear as palavras, passamos os olhos, não por não termos tempo mas antes por já não controlarmos o nosso tempo.

 

 

Rita Matilde

(blogue CLARO COMO ÁGUA)

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Convidado: JOSÉ MILHAZES

por Pedro Correia, em 23.03.18

 

Um bom exemplo para Portugal

 

Um jovem de 28 anos foi condenado por um tribunal da distante Sacalina, península no Extremo Oriente russo, a 300 horas de trabalho obrigatório por ter dado aulas de História sem ter competências para isso.  

Segundo a página Astv.ru, o jovem foi condenado por “falsificação de documentos” e teria comprado o diploma de “historiador” pela Internet.

Se a justiça portuguesa seguisse o mesmo caminho, não haveria dúvida de que Portugal arranjaria mão de obra suficiente para limpar as matas e, desse modo, prevenir incêndios.

Mas, tal como no nosso país, a justiça na Rússia não é igual para todos. Vladimir Medinski, actual ministro russo da Cultura, foi acusado de plagiar parte da sua tese de doutoramento, mas, até agora, sem consequências na sua carreira.

 

José Milhazes

(blogue DA RÚSSIA)

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Convidada: INÊS LOPES

por Pedro Correia, em 16.03.18

 

Em defesa das livrarias de rua

 

Nas últimas semanas têm-se multiplicado as notícias sobre o fecho de livrarias independentes, como a Pó dos Livros, em Lisboa, a livraria Leitura, no Porto e a Miguel de Carvalho, na cidade de Coimbra. Se não é segredo para ninguém que estas livrarias não têm como competir com grandes livrarias como a fnac e a Bertrand, também é certo que nos últimos anos têm ganhado ainda mais concorrência, com a venda de livros em hipermercados, as vendas online em sites como a wook e até os livros em segunda mão à venda no olx e na bibliofeira. Também é difícil não associar a estas livrarias o caso da Lello que, apesar de ser uma das livrarias mais visitadas do país, optou por criar uma taxa de entrada para continuar de porta aberta.

Para quem gosta destas livrarias, há uma cultura que se está a perder e que vai muito além dos livros. Quando vivia em Benfica, descia todos os dias a Avenida do Uruguai e espreitava a montra da livraria Ulmeiro (que fechou no final do ano passado). Quando ia à baixa passava invariavelmente na livraria Aillaud e Lellos na rua do Carmo (que fechou em Janeiro). E quantas vezes lá comprei livros? Muito poucas, para ser sincera. Porque é mais barato aproveitar as promoções dos grandes espaços e mais cómodo comprar os livros online.

O que me leva a crer que ter pena que estas livrarias fechem não chega, escrever este texto também não chega. Se queremos continuar a ter espaços que se dedicam exclusivamente aos livros e que permanecem inalterados com o passar dos anos, onde encontramos livros que já não estão à venda, onde podemos pedir opiniões sinceras, ou simplesmente percorrer as estantes, entre o cheiro de livros novos e velhos, organizados de forma independente, e não a favor das tabelas de venda, então temos de fazer um esforço para entrar mais vezes nas livrarias de rua e sair de lá com um livro na mão.

 

Inês Lopes

(blogue MAR DE MAIO)

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Convidada: FÁTIMA MOURA

por Pedro Correia, em 14.03.18

 

Cozinha e criação - imitar, adaptar e criar

 

Ao longo da história de algumas culturas encontramos sempre determinados períodos em que a cozinha é espectáculo para as elites e resulta de um verdadeiro processo criativo, quer a nível de técnicas quer de conceitos.

Na Roma clássica, as aves que, quais matrioskas, saíam a voar de dentro umas das outras para, no final, comerem ao vivo, e para gáudio dos banqueteadores, uma enguia-eléctrica, ou a vitela que encerrava um porco, um cordeiro, uma galinha, um coelho e um rato, os de fora devidamente cozinhados, os de dentro ainda vivos. Uns séculos mais tarde, foi a vez da pastelaria produzir verdadeiras instalações pelas mãos de Carême, cujas pièces montées eram obras de arte que pareceria iconoclasta destruir para comer.

No fim do século XX, assistimos a nova emergência da cozinha como processo criativo artístico com o aparecimento da cozinha tecno-emocional, pela mão de Ferran Adrià e da escola espanhola. O espectáculo torna-se experiência, aproxima-se do comedor e populariza-se. A criatividade situa-se ao mais elevado nível, o da criação de novos conceitos e de técnicas originais. Esta cozinha influenciou a emergência da cozinha portuguesa contemporânea e, como passou a ser ensinada nas escolas de hotelaria, continua ainda hoje a influenciá-la. A semelhança dos produtos portugueses e espanhóis, e até de inúmeros pratos e formas de confecção, terá sido relevante nessa influência, facilitando o trabalho aos cozinheiros lusos, mas embaçando-lhes também a criatividade.

Podemos considerar a existência de vários níveis de criatividade na cozinha.

As cozinhas regionais e tradicionais, áreas em que os cozinheiros se limitam a reproduzir as receitas, são as consideradas menos criativas e os únicos cambiantes que as podem elevar são os elementos de amor e paixão usados pelo cozinheiro na sua produção. No início do século XXI, os cozinheiros reproduziam frequentemente o estribilho da cozinha feita com paixão como o «segredo» do seu trabalho.

 

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 Bacalhau à Brás recriado

 

Em Portugal, podemos marcar o início da vontade de uma cozinha contemporânea criativa nos princípios de 1990, com quatro cozinheiros: Joaquim Figueiredo, Vítor Sobral, Fausto Airoldi e Miguel Castro e Silva. Os portugueses seguiram de perto o movimento da cozinha espanhola, por exemplo na introdução de algumas modificações estéticas ou a nível das texturas em pratos tradicionais. No restaurante Cais da Avenida, actual Adlib, Vítor Sobral trouxe-nos uma nova aproximação à cozinha tradicional portuguesa dando-lhe o estatuto de fine dining. Assim, a cabidela era apresentada em porções individuais, no interior de pequenos embrulhos individuais. Airoldi fez uma cabidela de pato com geleia de moscatel e serviu-a num copo de Martini. O «à Brás» do bacalhau transformou-se num modo de confecção, sendo o peixe substituído, por exemplo, por frango ou por legumes (Fausto Airoldi). A alheira ganhou um recheio de bacalhau ou de vegetais. Estas micro-adaptações dos pratos tradicionais transportam-nos para um nível mais elevado da reflexão através da introdução de um qualquer twist, seja na apresentação, seja na confeção. Estes twists ainda continuam a praticar-se largamente nos dias de hoje: ao rissol junta-se-lhe o ingrediente que estiver na moda, seja malagueta, ou melhor ainda, sriracha, o recheio de sapateira ganha algas, e a salada de polvo adorna-se de kimchi (exemplos retirados da actual ementa do Bairro do Avillez). Estamos num nível de criatividade ainda básico, mas que já implica reflexão.

 

Num terceiro nível deste processo situa-se a criação de uma receita, seja ela baseada noutra já existente na cozinha tradicional ou contemporânea, seja ela original. No exemplo do primeiro caso, a receita diz-se desconstruída, uma vez que se pretende manter os sabores, mas recorrendo a outras técnicas e até a outros produtos. O inventor da desconstrução foi Adrià com a sua tortilha, processo que aplicou também ao gaspacho e a inúmeros pratos clássicos. Como pressuposto da eficácia deste método, o comedor tem de conhecer o prato original, caso contrário perde-se o objectivo. Exemplo do primeiro caso, temos o “bacalhau à Brás do Flores”, do chef Bruno Rocha (2016), em que o bacalhau surge em posta com batata palha, azeitona desidratada, ou o de João Rodrigues (2016), o mesmo bacalhau apresentado como uma emulsão de sames e línguas de bacalhau, com a gema panada com pó de azeitona, mais uma vez a batata palha a surgir na versão original. «Bica, cheirinho, guardanapo e sombrinha» é um exemplo do segundo caso, uma receita original e irreverente para o fim da refeição. O seu autor é Aimé Barroyer (Tavares, 2011): a bica como parfait de café, a aguardente em espuma, o guardanapo como bolo com este nome e um cone de chocolate a relembrar a sombrinha da Regina.

 

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 Sound of the Sea: visão, ouvido, paladar e tacto

 

Num nível superior de criatividade, encontra-se o processo que implica a criação de novas técnicas, ou a apropriação de técnicas só usadas noutras áreas, e de novos conceitos. A cozinha tecno-emocional criou uma parafernália de aparelhos (ver aqui) que, por sua vez, possibilitaram a aplicação de conceitos originais, que permitem abrir o caminho a uma infinidade de pratos, revolucionando a cozinha. Entre estes, surgiu, por exemplo, o conceito de que a cozinha é uma experiência completa para todos os sentidos (o prato Sound of The Sea, do inglês Heston Blummenthal, foi, em 2007, no Fat Duck, um dos primeiros a contemplar a visão, o ouvido, o paladar, e, se quisermos, o tacto).

Algumas dessas técnicas e desses aparelhos continuarão a ser usados durante muito tempo, assim como permanecerá a ânsia de conceptualizar a cozinha.

Entretanto, no princípio do século XXI, parte do mundo, onde se incluía Portugal, limitava-se a adaptar ou simplesmente a copiar a cozinha espanhola.

Da cozinha tecno-emocional ficou-nos na massa do sangue o conceito da refeição enquanto experiência e a sua vocação de surpreender. Anteriormente, frequentávamos os restaurantes em função dos pratos que já conhecíamos e de que nos tornáramos apreciadores, ansiando por que não houvesse surpresas, que significariam a supressão desses pratos ou a sua alteração, sempre uma péssima ideia.

Ainda me lembro com grande desgosto do dia em que, no restaurante onde eu comia as minhas costeletas de borrego favoritas, me «surpreenderam» substituindo o esparregado por salada.

Hoje, a ideia da cozinha-espectáculo tem vindo a desvanecer-se com a perda de força da cozinha tecno-emocional, substituída pelo minimalismo naturalista da cozinha nórdica. Contudo, permanece a necessidade que o comensal tem de continuar a ser surpreendido, apesar de hoje, por influência desse minimalismo, os pratos terem menos ingredientes, serem mais simples em termos de técnicas e com menos «efeitos especiais». Continuamos a querer cozinhas e ingredientes exóticos e passam pela moda os peruanos e os coreanos. Entregamo-nos nas mãos do chef, para que este escolha por nós e nos surpreenda. Queremos menus de degustação, em que tudo está escolhido por outros, até a conjugação com os vinhos. O cliente não tem escolha senão comer e falar. Falar do que se comeu, colocar fotos no Instagram, comer pratos que possam originar bons momentos instagramáveis, razão que leva a que o processo criativo, mesmo o mais básico, continue a virar-se para a estética do prato.

 

Porém, hoje começam a surgir em Portugal dois movimentos fortes. Um, de reforço das cozinhas regionais, enriquecidas com ingredientes de melhor qualidade. Outro, nas grandes cidades, capitaneado pelos novos chefs que trabalham sobre os nossos melhores produtos, tentando afastar-se o menos possível deles e construindo pratos com os nossos sabores, não copiando o que vem de fora, mas usando a sua criatividade. Penso que o caminho está nestas duas tendências.

 

Fátima Moura

(blogue CONVERSAS À MESA)

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Convidado: FRANCISCO CARITA MATA

por Pedro Correia, em 12.03.18

 

Portalegre, Cidade da Poesia

 

“Portalegre, porto ou porta / Na encosta, ridente alegria…”, escrevi, há alguns anos, sobre a Cidade de Régio.

 

E, nem de propósito, “Momentos de Poesia”, evento já com foros de Cidadania, da responsabilidade de Drª Deolinda Milhano, subordina-se no próximo Dia 21 de Março a uma visita guiada e poética sobre as “Portas da Cidade”.

Sendo Portalegre um burgo de raiz medieval, ainda mantém parte da sua estrutura muralhada e algumas das portas que lhe davam acesso, estruturadas sob a forma de arcos de volta inteira, com maiores ou menores alterações epocais.

 

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 Cidade de Portalegre, vista do "Passadiço"

 

Para sabermos se Portalegre é uma Cidade de Poesia, nada como palmilhar as ruas do povoado.

Mas eu atrevia-me a sugerir algo mais inusual… Um passeio, a pé, subindo pela “Estrada da Serra”, até ao miradouro (estrutura que me atrevi a baptizar de “Passadiço”.) Pouco a pouco, contemplando a urbe, o seu enquadramento paisagístico, o seu casco construtivo, não tenho dúvidas de que ali proporciona uma visão muito mais poetizada da sua mole urbana, num soberbo cenário, englobando serra e campina alentejana… Perdendo-se nas lonjuras, quase se confundindo céu e terra. Sempre sem se perder o recorte da Cidade e de alguns dos seus monumentos mais icónicos.

Retornando à Poesia. É sintomático que, na Cidade, logo duas escolas tenham escolhido, como patronos, dois Poetas: Cristóvão Falcão e José Régio. É indubitavelmente uma prova da estima de Portalegre pelos seus Poetas, não querendo esta afirmação dizer que eles são, em contexto natural, devidamente apreciados e lembrados pela sua Poesia. Que não são!

 

Mas em Portalegre há grupos de resistentes que não esquecem a Poesia. Há “Momentos de Poesia”, evento pioneiro, a que tive o grato prazer de assistir e constatado o trabalho altamente meritório já desenvolvido.

Existe na Cidade um outro grupo, designado “Amigos da Poesia”!

Haverá assim tantas cidades no País, na dimensão e com as características de Portalegre, em que a Poesia seja celebrada regularmente em eventos poéticos?

Não sei, não.

Voltando ao périplo pelas “Portas da Cidade”, irão ser calcorreadas as vetustas ruas, iniciando-se a ronda pela Porta da Devesa, Portas do Crato, ainda existentes; pelas de Elvas e Évora, de que só já resta a memória. Pela de Alegrete, terminando na Porta do Postigo, hoje desestruturada do seu local primitivo e encastrada na antiga muralha, alguns metros mais a sul.

 

Irei voltar a “Momentos de Poesia”, após a concretização do evento.

E, nem a propósito: porque não institucionalizar “Portalegre como Cidade de Poesia”?

 

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 Carvalho negral em Portalegre

 

Já agora… calcorreando a Cidade. Metem dó, tantos prédios, pelo casco antigo, ameaçando ruína. (Algo tristemente comum a muitas aldeias, vilas e cidades deste nosso Portugal.)

Paralelamente construiu-se, na Rua 1º de Maio, um “business center”, só o nome(!), entaipando-nos, da Cidade, a vista espantosa da Serra da Penha; e a partir do IP2, a visão das muralhas. (E tão perto, quase se esboroando, o prédio da antiga loja do Sr. Hermínio, prestes a implodir!)

E que tanques, aqueles da Corredoura?! Saudosa, a lembrança do antigo lago e do cisne.

Para quando replantar de árvores autóctones, carvalhais, aquele espaço? E umas manchas de amendoeiras, como embelezariam aquelas encostas desprovidas de coberto arbóreo!

 

Francisco Carita Mata

(blogue AQUÉM TEJO)

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Convidado: LUÍS MIGUEL ROSA

por Pedro Correia, em 07.03.18

 

Silêncio, solidão

 

Na leitura sinto a carícia do silêncio. O livro torna-me toupeira: escavo, entoco-me na solidão da concentração. Milénios após a sua invenção, e por mais que o suporte mude, a leitura continua a ser um dos maiores produtores de silêncio no mundo. Nem sequer a transformação do livro em aparelho electrónico lhe acrescentou um decibel: o ebook é mudo e discreto como um mordomo; haver alguém ao meu lado a usá-lo é como não haver. O livro, mudem-lhe o formato, não abdica deste temperamento basilar: ele é sempre algo que ajuda a combater o ruído.

 

Se o livro nunca contribuiu para o triunfo do ruído, já a tecnologia prossegue sádica em sabotar o silêncio. Começou aos poucos: comboios atravessando paisagens onde antes havia só o chilreio de aves e o gorgolejar de ribeiros; mas não fez mal porque os comboios começaram a levar todos para a cidade ao seu encontro. O ruído veio ter connosco, mas no fundo éramos nós que andávamos à coca dele. Entretanto foram chegando carros, autocarros, eléctricos, o metropolitano. Pelo menos parecia haver paz em casa; depois ouviu-se a grafonola, a telefonia, o televisor, o subwoofer do vizinho. Em tempos, para se ouvir música, ia-se a salas de concerto; agora, para meu desconcerto, a música é ouvida a tempo inteiro. Na rua estrondeiam altifalantes, que tocam quer eu queira ouvi-los quer não; e os condutores, motivados por uma fátua afirmação de estatuto, competem para adquirir colunas cada vez mais potentes que alcançam todas as ruas: som para ser visto. Nos transportes públicos zangarreiam telemóveis, iPads, iPhones e leitores de MP3, muitos sem fones porque esses melómanos julgam que tenho o dever de lhes conhecer os gostos ou falências musicais. (Eis um enigma: porque é que o pissitar do estorninho no galho não me incomoda tanto como o kuduro ou o Beethoven no piso de cima?) Aos outros, que não a mim, pois procuro cantos e esconsos nas traseiras do progresso, o centro do ruído seduz. Em vão procuro os calmos subúrbios do ruído; ele já chegou a todo o lado: há, no meio de Lisboa, uma Biblioteca Nacional exactamente por baixo da rota que os aviões, uma avenida acima, usam para descolar e aterrar. É um lugar privilegiado para se testemunhar o efeito Doppler.

 

A leitura compraz-se de solidão e silêncio, dois estados em extinção. Outrora, podia-se estar entre estranhos, numa carruagem de comboio, e sorver a solidão sadia. Tornou-se lugar-comum dizer que a literatura serve para nos sentirmos menos sozinhos. Talvez essa propriedade comunal realmente exista, mas quando leio estou na presença de pessoas mortas que amavam o silêncio ainda mais do que eu. Não, a leitura nem me arrasta para a multidão nem me torna tolerante dela; pelo contrário, deixa-me quezilento, sensível como as orelhas de um gato: rabujo a cada barulhinho. O livro foi uma maneira que o silêncio inventou para domesticar os humanos e pô-los a trabalhar para ele. O livro é o esqueleto do silêncio, é ao longo dele que cresce e se adensa e ganha existência plena de sentido.

 

O silêncio, a custo, sem subsídios, vai subsistindo hoje em dia. Os que não o apreciam associam-no a ideias desagradáveis: a igreja, o velório, o cemitério, em suma a morte. O que é mais solitário do que a cama de hospital após a hora de visitas? Nós deitados nela com medo de gemicar porque, afinal de contas, é um hospital e não se deve falar alto. E depois aquele caixão feito à nossa medida, monolugar. Numa mesa de café cabem sempre dois. Portanto as pessoas ajuntam-se e cavaqueiam, pensando que por isso provam que estão vivas. O silêncio não é algo que dê para associar ao hedonismo, é o oposto do divertimento, e por isso os Departamentos de Marketing das grandes multinacionais não sabem o que fazer com ele senão exterminá-lo. Quer dizer, conseguirias tu vender carros e álcool com silêncio?

 

O silêncio, qualquer animal o sabe, significa que não queremos ser vistos. O silêncio é anónimo, mas agora odeia-se o anonimato; busca-se em vez disso a performance, o estrelato, os aplausos. Por isso o silêncio e a solidão adquirem conotação negativa, anti-social, secretista, elitista. Lugares pedantes como a casa de ópera e o museu exigem-no. A tirania, diz-se, gosta de calar as pessoas. Pelo contrário, as ditaduras desdenham o silêncio: nelas há marchas, megafones, discursos, palavras de ordem, operáticos rituais de auto-engrandecimento público, testes de mísseis estrondosos que ribombam pelos media fora. Nem sequer as câmaras de tortura se calam. Numa ditadura nunca se está dentro do silêncio, embora, valha a verdade, vivamos na ditadura do ruído.

 

A sociedade agora dá bastante valor à expressão artística; isso é óptimo, não me sinto ameaçado como outros artistas se sentem por todos agora quererem pintar, escrever, filmar, cantar. Só pode ser um bom sinal que hoje em dia sejamos, desde cedo, encorajados a expressar a nossa criatividade. Mas como a sociedade também sobrevaloriza a fama e a popularidade, e porque a solidão não parece conducente à fama, essa expressão far-se-á comunitariamente, será ruidosa porque ruído e popularidade forjaram uma aliança. Se queres ser famoso, cantas no Youtube, não escreves poesia num bloco quadriculado.

 

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Procurar livros, lê-los, não expressa nada porque não o estás a expressar a ninguém. Ler, sei-o muito bem, nunca foi uma das expressões artísticas predilectas dos outros; enchem-se teatros, coliseus, cinemas, discotecas, óperas, mas não bibliotecas. Há visitas de grupo a museus e monumentos, mas quem é que quer ter alguém a reboque numa livraria? Esse é o mal dos livros, tornam-me rude: diante das estantes, perco noção dos outros, deixo de me preocupar que alguém esteja à minha espera. Eis um paradoxo: ler requer concentração, mas não há nada mais casual do que navegar pela livraria; o museu segue um plano, o filme tem uma duração, fotografar um retábulo tem de ser rápido porque há outro turista à espera de uma aberta, mas os leitores adoram perder tempo a tirar e arrumar livros; essas multidões parecem coesas, mas cada um está ocupado demais para reparar no outro, ao passo que o leitor sozinho na livraria nunca se sente solitário.

 

O silêncio tem má reputação, porém é um grande amigo meu, não porque eu seja um ludita, mas porque sou um leitor. Hoje em dia, o silêncio é uma decisão importante; requer megalomania heróica porque diz que somos bons o suficiente para falarmos connosco próprios, que nos bastamos a nós mesmos, que não buscamos aceitação ou validação. Se calhar buscamos, mas mais devagar, com menos espalhafato. O lugar-comum talvez seja verdadeiro, o livro talvez nos faça sentir menos sozinhos; mas, para mim, o que o livro faz é dizer-me que eu não tenho de ter medo de estar sozinho comigo próprio, por mais que isso desagrade aos Departamentos de Marketing que me querem convencer que só sou normal se estiver a vomitar vodka já pago numa noitada ‘divertida’ em que estarei bêbado demais para fazer dela uma recordação importante. Ainda me lembro de frases de livros que li há 20 anos.

 

A reclusão diz também que temos pensamentos que não precisamos de partilhar, que realizamos tarefas obscuras de que não temos de nos gabar. Não sei se o silêncio, uma das facetas do recato, pode sobreviver. Artistas recatados, introvertidos, não gostam de dar entrevistas, de falar de si, de criar espectáculo. Mas o recato tornou-se desacato ilegal, e o silêncio anátema, condenado à amnésia. Os aprendizes de solidão, por falta de aptidão, escassearão no futuro. Concentração requer abnegação, ler solicita silêncio, mas o rádio ronca, o motor tosse, o carro chocalha, as colunas ladram, o telemóvel de peões dinamita os ouvidos, invade-os com conversas vácuas, varre para a sombra a concentração. O silêncio tem clemência; o ruído não respeita. O silêncio convive com o mistério, mas queremos tudo revelado, partilhado e discutido no programa de opinião.

 

De certa forma admiro o ruído: na sua sede de normalização, multiplicou-se por novos aparelhos, colonizou estilos de vida. Não há abismos nem píncaros onde me possa esconder; o ruído nivelou tudo como uma vasta planície, ao longo da qual o som se propaga ledo e livre. Sim, provavelmente é hoje a entidade mais livre do mundo: criam-lhe tecnologias, dão-lhe direitos, gastam fortunas nele; é intocável, invencível; fracassam em legislar contra ele porque é difícil fiscalizar a transgressão de leis que o limitam. Tem todas as qualidades que oxalá os livros em Portugal tivessem: é leve, é barato, é portátil, é bem distribuído.

 

Pouco ou nada posso contra os artesões do ruído. Resigno-me, aturo; não mudarei o mundo, luto por que ele me não mude. Apesar de tudo, acredito que um livro ainda consegue escavar novos veios de silêncio, descobrir jazigos de solidão contemplativa e enriquecer-nos, se formos receptivos. Continua a ser o melhor remédio contra o ruído. Hoje em dia vivo grato pela inesperada, efémera aparição do silêncio. É difícil programá-lo como se põe um alarme para tocar, pelo que o valorizo muito, como sangue nas veias.

 

Esta jeremiada fará cada vez menos sentido para os outros. Na sociedade de consumo simplificadora, moedora de nuances, vai-se perdendo noção de que há vários tipos de silêncio. Os essenciais estão misturados nos que o culto da euforia colectiva quer extirpar com toda a vitalidade de um tirano. Alguns silêncios são bastante alegres, mais do que multidões. Mas o espalhafato venerando não quer saber; há que escoar todo o ruído das prateleiras. Resta-nos preparar um funeral para a solidão. Dela ainda teremos saudades.

 

Luís Miguel Rosa

(blogue HOMEM-DE-LIVRO)

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Convidado: JASG

por Pedro Correia, em 05.03.18

 

Abaixo a popularidade

 

Qualquer indivíduo sem pretensões a um cargo público está mais livre de criticar as idiossincrasias dos tugas. O que revela logo uma fragilidade grande, porque o tuga tem a singularidade de não aceitar a crítica sem o contra-ataque ad hominem. Esquece rapidamente a mensagem filando o mensageiro. 

Com frequência o tuga exige de imediato algo muito urgente, servindo-se do predicado de cliente e como tal da autoridade, para o dia seguinte que irá levantar decorrida uma ou mais semanas desse dia seguinte. Mesquinho, não há espectáculo de borla que não aproveite, reclamando depois dos magotes de gente que partilham com ele o espaço. 

 

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Ainda recentemente houve um exemplo notório — ao mais alto nível — de como um tuga justifica a incompetência com a dedicação: quando a ex-ministra da Administração Interna revelou publicamente que não tinha gozado férias em plena tragédia dos incêndios.
O tuga também não reclama por convicção, reclama por interesse. Censura, critica, mas se for beneficiado também se cala com o argumento de que todos fazem o mesmo. Mesquinho, entope as urgências à segunda-feira para não estragar o fim-de-semana. Confunde confiança com vaidade, presunção, prepotência ou arrogância.
 
Enquanto para um nórdico o bem comum é considerado de todos, para o típico tuga o bem comum não é de ninguém. É pessoa para estar quinze minutos numa fila a soprar de impaciência e, quando chega finalmente a sua vez, gasta vários minutos à procura dos documentos necessários à resolução do assunto que o trouxe ali. 
 
Um dia, ao chegar à sede da Nokia, ainda de madrugada, à boleia de um finlandês, estranhou o carro ter ficado estacionado tão longe da porta da entrada com o parque de estacionamento completamente vazio. Retorquiu o anfitrião que os lugares mais próximos da porta da entrada eram propositadamente deixados livres para os que se possam atrasar. 
 
De consciência se evitou de falar na inveja tuga neste texto, já cliché. Está bem, o tuga também tem muitas virtudes. Mas essas o professor Marcelo, actual Presidente da República, com popularidade recorde, já as descobriu todas.
 

JASG

(blogue QUEM OUSA, VENCE)

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Convidado: RICARDO C. MAGALHÃES

por Pedro Correia, em 02.03.18

 

A questão mais importante

 

1. A catástrofe

Imaginemos que todos os meses, no dia 1, colocamos 100€ num mealheiro.

Imaginemos também que todos os meses, no dia 25, retiramos 100€ do mealheiro e deixamos no seu lugar um papel com a mensagem: “Título de Dívida. Valor: 100€.”

Pergunta: Quanto teríamos no mealheiro ao fim de 30 anos?

 

A questão pode parecer trivial, mas quando Vítor Gaspar autorizou a que 50% do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) estivesse “investido” em dívida do próprio Estado, e Teixeira dos Santos depois aumentou esse valor para 90% (!), torna-se preceptível a sua relevância.

Caro leitor, se eu lhe devesse dinheiro, isso para mim era um passivo e para si um activo. Se eu dever dinheiro a mim próprio, isso anula e não vale nada. Alternativamente, eu passava um cheque de 1 milhão a mim próprio e tornava-me milionário – o que como bem compreende não acontece.

 

Quando o Ministro das Finanças ordenou a venda de activos com valor e a sua troca por dívida comandada pelo próprio ministro, isso foi uma catástrofe. À beira destes negócios de quase 10 biliões, os 30 milhões alegadamente oferecidos a Sócrates são um detalhe, irrelevante no grande esquema da sociedade. Para mim, os grandes crimes da última década em Portugal, maiores ainda que os do sector bancário, foram aqueles dois aumentos ordenados pelos ministros e mal noticiados.

O FEFSS está assim quase vazio. Mais: o Relatório OE2017, na sua página 248, diz textualmente: “Ainda que se projetem saldos negativos do sistema previdencial em meados da década de 2020 sendo nessa altura simulada a utilização anual do FEFSS para fazer face a esses défices, o esgotamento do FEFSS projecta-se para o início da década de 2040.” Isto mesmo com o factor de sustentabilidade e o aumento faseado da idade de reforma já previsto na lei.

 

 

2. O porquê

Marcelo Caetano criou a Segurança Social numa época (1970) em que a Esperança Média de Vida (EMV) era cerca de 67,1 anos. Com uma idade de reforma de 65, isto significava que muitos portugueses nunca iriam receber a reforma – cerca de metade da população “abrangida”. E refiro “abrangida” porque na altura quem não contribuía não recebia, o que excluía grupos na altura numerosos como domésticas, agricultores e pescadores.

Hoje, a idade de reforma subiu de 65 para 66 e 6 meses. Mas a EMV subiu de 67,1 para 80,6 anos (continuando a usar dados PorData). O número de anos na reforma passou assim de 2,1 para 14,1. Inversamente, em 1970, 14 pessoas activas pagavam 1 pensão – hoje 2,15 activos pagam 1 reforma (4 379 000 a pagar, 2 036 000 a receber reforma). Isto para já não contar pensões de invalidez (238 000) e sobrevivência (720 000), senão o rácio seria 1,46 (!) activos a pagar cada pensão (4 379 000/2 994 000).

 

Para se chegar aqui, a demografia teve algum “apoio” da classe política. Depois de nacionalizar diversas caixas de pensões no pós-25/Abril, o Estado resolveu atribuir pensões aos não-contributivos (como já referido, domésticas, agricultores e pescadores) – sem lá colocar um cêntimo. Sucessivos governos criaram diversos subsídios (doença, abono de família, desemprego...) – sem lá colocar um cêntimo. Estes subsídios culminaram em 1997 na criação do RSI – sem lá colocar um cêntimo.

Devo também sublinhar que muitos funcionários públicos estavam na expectativa de pagar 34,75% durante 32 anos e receber 100% durante quase 30 anos.

 

Quanto é o buraco? Ou seja, se o fundo fosse vendido com as suas obrigações actuais, quanto teria o Estado de entregar, para além do constante no FEFSS, ao novo proprietário? O livro branco de 1998 colocava o valor em 7 300 milhões de contos/ 36 500 milhões de euros. Hoje há quem fale num défice de 70 000 milhões de euros. Mas uma coisa é certa: existe e é na ordem de grandeza de dezenas de biliões (na numeração americana).

Mas o pior nem é isso: devido à baixíssima natalidade (caiu para quase 1/3 desde 1970), a evolução futura é para pior, quer nos rácios contribuintes/beneficiários, quer a nível do saldo negativo.

 

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3. A solução

A minha maior surpresa quando falo de política com qualquer pessoa não é o seu posicionamento ideológico, a sua opinião sobre os temas da actualidade, ou o tema político que para ela é mais importante e portanto define o seu voto. É a irrelevância que a população confere a este tema. Consecutivamente, como o tema não é importante, se me perguntarem a solução em termos políticos, é simples: não há.

 

As soluções preconizadas pela classe politica genericamente passam por colocar um limite máximo às reformas (possivelmente entregando a outros a gestão do excedente, obrigando o estado a contrair dívida imediatamente para fazer essa transferência, o que torna esta solução politicamente impossível).

Outra solução seria estabelecer a teoria dos três pilares: público, empresarial (fundo de pensões) e pessoal (previdência privada) – quem quiser uma reforma digna terá de poupar por si junto de uma seguradora.

Uma última solução consistia simplesmente em aumentar impostos especificamente para este fim – situação que prefiro nem desenvolver, dada a já elevadíssima carga fiscal em Portugal.

Nenhuma das soluções é fácil de implementar politicamente e assim a paralisia deverá imperar até a situação se degradar até ao limite. Por isso dificilmente a solução nas próximas décadas será política.

 

Ora, se em termos de policy makers nada há a fazer nesta fase, a nossa acção deve ser por agora confinada aos policy takers. Ou seja, como não há peso político para alterar a trajectória do estado neste tema, adaptemo-nos nós os dois (eu e o leitor). David Ricardo propôs a Equivalência Ricardiana (grande nome, se me é permitido) segundo a qual a despesa pública exagerada apenas gera impostos futuros e, portanto, as famílias responderão a este exagero com aumento da poupança.

E a solução passa exactamente por aqui: poupar.

 

Imaginemos que o leitor se reforma aos 70. Quanto anos vai estar reformado? Ora, se a EMV for subindo até aos 85, isso quer dizer que estará reformado 15 anos ou 180 meses. Se quiser ter 1000 euros de complemento à parca reforma estatal (que será cada vez menor e com mais tectos máximos), terá, portanto, de ter de lado 180 000 euros. O que pode parecer muito dinheiro hoje, mas recordo que na data da sua reforma o dinheiro valerá bem menos do que vale agora.

 

Para conseguir isso, há várias soluções: rendimentos passivos (ex: tirar fotografias ou escrever pequenos livros para gerar dinheiro passivamente), viver numa casa que se possa pagar em metade da carreira (para aos 50 estar livre para se focar na poupança), evitar comprar passivos cuja compra só trazem novas despesas (melhor exemplo: um carro caro), e de forma geral evitar ter um nível de vida muito próximo – ou acima! – dos seus rendimentos.

A este propósito, recomendo o livro Rich Dad, Poor Dad, de Robert T. Kiyosaki.

 

Deixe-me sublinhar isto porque é importante: se o leitor neste momento não tem dívidas - ou tem uma dívida muito pequena à banca por conta da casa e, portanto, acredita estar quase no equilíbrio financeiro – tem na verdade uma grande dívida implícita ao seu alter ego futuro e é importante começar logo que possível a poupar para essa dívida.

Falhar em poupar é cair num tipo especial de invalidez, em que a impossibilidade de sair de casa não é por motivos físicos (como na invalidez física), mas por motivos financeiros: a invalidez financeira. E ao contrário da primeira, esta é evitável.

 

 

4. Conclusão

Eu não vejo televisão. E não vejo quer porque nada do que lá se fala é muito relevante, quer porque não vejo muito interesse em mudar isso. Nada contra Fátima, Futebol e Fado. Nada contra Prós & Contras enviesados à partida a favor do campo preferido pela RTP. Nada contra uma RTP2 supostamente mais cultural, mas fixada em artes performativas cujo significado profundo é inexistente ou então há muito esquecido – sendo assim ocas na sua essência.

 

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Sou contra é a falta de reflexão sobre os temas mais importantes da contemporaneidade. E a literacia financeira em geral e esta análise de ciclo de vida em particular creio ser um deles.

 

Deixo aqui a referência a um estudo noticiado aqui, e disponível aqui, em que participei, precisamente no capítulo III sobre a Segurança Social, e em que Luís Paes Antunes sugere algumas vias possíveis para ultrapassar este imbróglio.

 

Caríssimo leitor, estamos tramados é o que lhe digo. Garanta rendimentos passivos e poupe: o seu eu futuro agradecerá.

 

 

Ricardo Campelo de Magalhães

(blogue O INSURGENTE)

 

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Convidada: SOFIA GONÇALVES

por Pedro Correia, em 16.02.18

 

Sai um crime ambiental para a mesa 6!

 

Aquele ditado, “mais vale prevenir que remediar”, é mais um “olha para o que te digo e não para o que faço”. Embora exista a intenção de minimizar problemas, a política ambiental em Portugal não existe. Existem obrigatoriedades e preceitos europeus e internacionais impostos, mas também existem umas quantas sub-leis, entrelinhas, e outras entidades em que essas mesmas directrizes não se aplicam. Somos um povo de excepções.
A economia verde foi criada por capitalistas. Foi só uma forma de embelezar um capitalismo, com um mote mais carismático para o povo que agora já não é tão ignorante e começa a preocupar-se com o fim da vida como a conhecemos. As lâmpadas que poluem menos, o combustível que tem menos impacto, o filtro de água para evitar comprar garrafas de plástico e toda uma panóplia de objectos e acções do dia a dia que nos foram sendo incutidas com o intuito de contribuir para um planeta mais limpo e salvar o mundo no final do dia. Comprar um filtro de mês em mês não deixa de ser uma forma de consumismo? Gastamos menos plástico, mas não deixamos de produzir resíduos se pensarmos em todo o processo que está na criação daqueles filtros desde o plástico, como o próprio filtro interior, como o revestimento de plástico e cartão para estar nas prateleiras do supermercado, como o transporte que foi necessário até chegar à nossa mão. E depois, quando queremos separar e dar um final correcto a esses materiais? Já tentaram ir a um local de recolha de resíduos vender “lixo”? Recebem dinheiro por cartão, e plástico mole, e aço, e ferro, e sucata, etc. Mas também têm de pagar para ficarem com entulho de obras, por exemplo, para ficarem com plástico duro, e outras formas. Ou seja: no final, temos de pagar para ficarem com o nosso lixo (isto como se já não pagássemos nas facturas da água). Na minha humilde opinião, o nosso problema não está em arranjar soluções para destruir o nosso lixo, mas arranjar formas de deixar de criar tanto material.
Mas onde cabia aí o capitalismo?
Posso falar-vos noutra forma de capitalismo ambiental, que já todos conhecíamos, mas foram precisos anos de incêndios e a perda de vidas de vários portugueses para abrirmos os olhos: o nosso ordenamento territorial.

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Ainda era eu uma estudante universitária de biologia, em 2013, quando a agora líder de um dos maiores partidos portugueses, Assunção Cristas, criou uma lei sobre a plantação do eucalipto. Diziam os defensores desta lei que a ideia não era estragar a floresta portuguesa, mas sim acabar com a burocracia da florestação. Pois é, só faltou mencionar que é permitido plantar livremente um eucalipto praticamente em qualquer lado, mas é necessário notificar as autoridades caso queiram plantar um carvalho, que seria o mais normal, tendo em conta toda a história e evolução biogeográfica do nosso país.

É possível que tais directivas sejam impostas, quando já ouvi profissionais da área mencionarem que em áreas desflorestadas, para evitar a erosão, o melhor era plantar eucaliptos e acácias, mesmo depois de contrapostos por colegas meus a sugerir que a melhor opção seria plantar arbustos autóctones, como ericas, ou azinheiras.
O eucalipto é uma planta exótica. Como várias outras espécies exóticas, que se adaptaram ao nosso ambiente, proliferaram e podem tornar-se espécies oportunistas, galgando terreno facilmente. O eucalipto foi um bom oportunista porque parasitou o melhor vector que podia encontrar: humanos. Dá-nos jeito, cresce rápido e fornece madeira. E quando uma coisa faz o mesmo efeito em menos tempo isso geralmente é sempre mais dinheiro para a carteira de uns. Neste caso, falamos do interessado final: os madeireiros. As percentagens de eucaliptos e pinheiro bravo em Portugal são muito próximas. Estas duas espécies são das mais usadas pelas principais madeireiras. Numa discussão com um técnico desse tipo de indústria, afirmei que o problema dos incêndios em Portugal não reside só nos eucaliptos, mas também nas monoculturas, na inexistência de barreiras, nas extensões de um só tipo de matéria-prima. Ele contrapôs que não era esse o problema e questionou como é que eu resolvia a diferença de crescimento entre espécies diferentes e a falta de espaço para cortar uma árvore sem cortar a do lado. Eu admiti que é um problema, mas quilómetros e quilómetros de terrenos queimados e pragas difíceis de controlar, como acontece agora no eucalipto, não são melhores escolhas.
A liberalização do eucalipto foi uma grande ajuda para a industria madeireira, como os OGM foram uma ajuda para empresas como Monsanto. Assim vamos deixando na mão de alguns o que é de todos, deixando-os estragar o pouco de bom que ainda sobra deste mundo. O Tejo é só mais um reflexo disso: um bem público passa a ser usufruto de entidades privadas, que passam intactas pois as entidades que deviam gerir e punir estão compradas. Acham mesmo que o Estado não faz ideia da qualidade das águas? Acham mesmo que os estudos são feitos como deve ser? Basta eu dizer que tenho X por cento deste elemento químico na água, que aparece uma empresa que pertence a alguém muito importante primo de outro alguém importante no Governo que mostra que com as directivas delas esse X por cento do elemento não faz mal. E já nem disserto acerca do impacte ambiental que tem uma só barragem numa comunidade.

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Gosto de pensar, na minha mente sonhadora “hippie”, que os biólogos um dia ainda vão ser os super-heróis deste mundo: tantos agora sem trabalho e daqui a uns anos não vão chegar para os problemas ambientais. Gosto de pensar que ainda vamos conseguir colocar a mão na consciência e, como chegou a moda das vidas zen e hygge, chegará a onda da consciência ambiental forte. Gosto de pensar que vamos desacelerar a nossa forma de viver, que vamos usar o bom conhecimento que temos para realizar o verdadeiro BEM. Que a energia renovável vai ser melhor e que o que é de todos passará a ser respeitado e conservado.
O meu medo é que um dia, ao acordarmos, todos os nossos rios sejam o Tejo e todas as nossas florestas sejam Pedrógão.

 

Sofia Gonçalves

(blogue THE DAILY MIACIS)

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Convidada: GRAÇA SAMPAIO

por Pedro Correia, em 14.02.18

 

Exageros e fundamentalismos

 

O último quartel do século XX deixou a marca de que aquele foi o século da imagem. Para quem não é historiador – que é o nosso caso – o século não se vai medindo pelo tempo cronológico, ou seja, os cem anos, mas tão-somente por aquele em que nos movemos, aquele que mais nos marcou.

Há e sempre houve o ser e o parecer. Ora, pelo menos que me lembre, as pessoas de bem que antecederam o tempo da ditadura da imagem, sempre sobrepuseram o ser ao parecer. [esqueçamos agora o ter, que esse daria para escrever mais um ror de linhas..] Porém, desde que os fazedores (ou manipuladores?) de ideias descobriram a imagem e começaram a vendê-la – e não estou a falar do cinema ou da televisão – o parecer sobrepôs-se e nunca mais deixou o ser respirar livre.

Como fiquei chocada quando ouvi da boca de um professor de uma universidade de renome onde andava a fazer uma pós-graduação nos idos de 90 que «atualmente mais vale parecer que ser.»

Mas se o século passado terminou subjugado à tirania da imagem, já o atual, que está agora a entrar na maioridade, não se livra da canga dos fundamentalismos e dos enormes exageros. Culpa desta comunicação inculta, oca e falha de pensamento e de leituras, ou das redes sociais que pululam e se multiplicam em opiniões ignaras? Culpa nossa que nos deixamos arrastar e subverter pelas primeiras frases sem erros de sintaxe que se nos deparam.

Nem é preciso chegarmos ao exemplo terrível dos fundamentalismos religiosos que nos têm entrado pela casa dentro com as guerras decorrentes das ditas «primaveras árabes» com que o ocidente se deixou deslumbrar. Se quisermos pensar em exemplos de fundamentalismo religiosos nem precisamos de sair do país. De Lisboa. Basta atentarmos nos dislates que o seu inclemente cardeal tem bolçado.

Fundamentalismos políticos de uma direita fechada e ressentida contra governantes mais visionários que mostram ou mostraram preocupações sociais. Fundamentalismos de quem tem obrigações constitucionais e institucionais de defesa dos cidadãos contra os mais fracos, os menos poderosos, contra as mulheres ou simplesmente – o que é pior – contra quem não milita nos seus cânones da moral, da política, da visão do mundo, da religião (meu deus!). Fundamentalismos facciosos.

Não menos inquietantes os exageros que mostram, esses sim, como somos seguidistas e nem sempre pensamos pelas nossas cabeças. Quem já não se lembra do exagero que foi a importância dada aos livrinhos azuis e rosa da Porto que “menorizavam” – diziam – as meninas “e constituíam uma enorme ofensa à igualdade de género”? E o exagero acerca dos piropos? E o exagerado sururu em torno das posições da Catherine Deneuve e da Brigitte Bardot sobre o caso dos assédios trazidos a lume pelas atrizes hollywoodescas – em que também se tem exagerado…

Já para não falarmos do «politicamente correto»…

 

 

Graça Sampaio

(blogue PICOS DE ROSEIRA BRAVA)

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Convidada: LAURA AVELAR FERREIRA

por Pedro Correia, em 12.02.18

 

One from the heart

(ou a paixão materializada em cinema)

 

O cinema cresceu comigo, como um familiar chegado e imprescindível: deu-me a mão, ainda a minha mão era pequena e mal sabia falar.

Embalou-me adormeceres, escoltou-me em paradigmas, escolhas e decisões e ajudou-me a esboçar, com inequivoca distinção, uma exaltação ardente e longa, que nunca se cansa e nunca se arrepende.

O cinema povoou a minha vida de momentos nos quais o tempo se escoava, vagarosa e languidamente como num qualquer plano apertado de um filme europeu.

O cinema beliscou-me, arremessou-me contra o bonito, despertou-me quase tudo o que hoje sei e materializou-se em (quase) tudo, à minha volta: nas ruas ondulantes e apertadas do meu Porto e na maré vaza dos entardeceres das férias intermináveis da adolescência; nas viagens de carro com a vida lá fora, a passar veloz; nas portas dos elevadores que se fecham e deixam entrever qualquer coisa que podia ter sido e não foi; nos caminhares poéticos de algumas mulheres; na música do silêncio de alguns planos de uma viagem a Paris; nas gotas de chuva que correm, com vida própria, nos vidros e… nuns olhos resgatados, por acaso, num qualquer fim de tarde, num qualquer retrovisor.

 

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 Les Uns et les Autres, de Claude Lelouch (1981)

 

Nas músicas dos filmes que a minha mãe trauteava e nas músicas dos filmes que o meu pai fazia tocar, primeiro nos cartuchos e depois nos LPs: “Música no coração”, “Lawrence da Arábia”, “Les uns et les autres”, “Os sete magníficos”, “E tudo o vento levou”, “The bang wagon”, “Gilda”, “Esplendor na relva”, e tantos, tantos outros.

O cinema também me levou pelo caminho da rendição absoluta às mulheres bonitas. Ensinou-me a gostar de pontos de luz espalhados pela casa, de genéricos feitos antes de jantares, do risco preto de eye-liner nos olhos e de um baton rubro e mate, numa boca entreaberta.

Cresci, pois, com musicais, policiais, canções imortais, vestidos esvoaçantes e coreografias da Broadway. Lembro-me, em miúda, de fazer o rol de tudo aquilo que um dia gostaria de ter: o cabelo da Gilda, a voz sensual da Lauren, o decote da Sofia Loren e a beleza imaculada da Marilyn; a tez branca da Jean Harlow, o mistério gracioso da Lana Turner e a elegância indistinta da Audrey Hepburn; o corpo da Cyd Charisse, a musicalidade da Julie e a irreverência e a sensualidade precoces da Natalie Wood.

E, à minha maneira, filmava, realizava e interpretava: fumava palitos para imitar a Lauren Bacall e cantava para os espanadores do pó o “My favorite Things”.

Deitava-me na alcatifa do chão da sala e imaginava conversas com o Warren Beatty. Via-me dentro do Vertigo ou a fugir de pássaros e via-me dentro de um filme noir a esconder-me da sombra de um assassino.

Via-me agarrada à cintura do Charlton Heston numa corrida desenfreada de cavalos ou debaixo do guarda-chuva do Gene Kelly e beijava, apaixonadamente, as paredes da sala ou do quarto, à procura da boca do Cary Grant.

 

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 One From the Heart, de Francis Ford Coppola (1982)

 

Estes resquícios moram em mim como a idade ou as rugas de expressão. Ainda hoje sei de cor frases, respirações, pausas dramáticas e cores.

Sei o quanto sinto na pele o azul do “Bonjour Tristesse” ou o quanto me toca a música do “One from the Heart”. O calor absurdo do “Body Heat” e a magnificiência do Rutger Hauer, no final do “Blade Runner”. Sinto como se fosse minha a terra, de Tara, que a Scarlett o’Hara segura numa das mãos e sei de cor o cheiro da pele do Capitão Von Trapp.

Hoje já não ponho toalhas na cabeça para fazer de conta que tenho o cabelo comprido ou fumo palitos a imaginar que são cigarros.

Mas ainda me imagino, muitas vezes, a correr na erva fresca de uma qualquer montanha da Áustria e adivinho, entre cordas e pássaros, uma câmara de filmar, colossal e veloz, a aproximar-se de mim, num plano picado, como se fosse um pássaro e sei… sei que a deixa é minha.

Sei o tom, a roupa, os braços abertos, o vento a bater-me no rosto e o som, o som da música e do (meu) amor.

Cresci, de facto, com o cinema na minha vida. E tenho, na privacidade dela, um bocadinho de todas estas coisas – flmes, mulheres, música, planos, luz, fotografia, genéricos - e todos os bocadinhos de cinema que elas me ensinaram. Para toda a vida.

 

 

Laura Avelar Ferreira

(blogue O SÍTIO DAS PEQUENAS COISAS)

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Convidada: ALEXANDRA MACHADO

por Pedro Correia, em 08.02.18

 

Deus nos livre das feministas

 

Tentei construir este texto inúmeras vezes na minha mente a caminho do trabalho, nas pausas do trabalho, a caminho de casa, antes de dormir, a sonhar. Tempo para concretizar as frases que se formaram nestes momentos: zero. Receio de o fazer: infinito. Esqueci-me da maior parte dos termos e particularidades que queria abordar e cheguei a pensar que não seria capaz. Detesto falhar prazos, mas detesto ainda mais entregar coisas feitas à pressa e que não são aprovados com distinção pelo meu crivo perfeccionista. Acabei a escrevê-lo no telemóvel enquanto esperava que me tirassem uns tubinhos de sangue para análise. Este texto não tem o patrocínio da CUF, mas quase podia ter.

 *

Qualquer coisa que se faça/escreva/fale e que use as palavras mulheres ou feminismo está condenada à partida. Há muito preconceito envolvido. Há quem ache disparatado. Desnecessário. Ridículo. Só lê livros escritos por mulheres? Só pode ser louca, histérica. Feminista. Deus nos livre das feministas. Então os homens não merecem ser lidos? Que bonita é a igualdade de géneros!

Vamos por partes: ao longo dos meus anos enquanto leitora, diria que cerca de 90% dos livros que li foram escritos por homens. Porquê? Porque a minha estante era maioritariamente constituída por estes livros. Nunca tive uma biblioteca cheia de livros em casa, os meus pais não tinham hábitos de leitura, e só na faculdade comecei a construir a minha própria biblioteca e a sentir um verdadeiro amor pelos livros. Mais vale tarde do que nunca, não me julguem. Procurei pelos clássicos, li muitas opiniões, formei os meus gostos. Durante muitos séculos, as mulheres poucas e raras vezes se aproximaram de uma pena, pelo que é óbvio que a maioria dos livros, clássicos ou não, que andam nas bocas dos leitores sejam escritos por homens. A tendência tem vindo a mudar, mas há um histórico de peso para equilibrar. No último ano comecei a ganhar uma consciência a respeito desta discrepância porque, de facto, há muitos livros escritos por mulheres para ler. Felizmente, aproximei-me de plataformas que pretendiam enaltecer as mulheres na literatura e esta causa fez-me muito sentido, acreditem que não foi propositado, simplesmente aconteceu e deixou uma forte marca em mim.

Fiz contas à minha estante e assustei-me. Tinha uma base muito fraca para começar o meu caminho. Na Feira do Livro de Lisboa de 2017 mudei radicalmente as minhas escolhas em termos de aquisições e tem sido assim desde então. Tenho muitos e bons livros escritos por homens, lidos e para ler, pelo que há que equilibrá-los com o universo literário feminino. Desde Julho de 2017 que tenho feito óptimas descobertas e tem sido incrível identificar-me com a escrita das mulheres em geral e com algumas autoras em particular. Não me arrependo do caminho que tomei e, para sossegar as almas mais inquietas com as minhas escolhas literárias, posso adiantar que este ano escolhi 10 grandes livros escritos por homens para intercalar com as minhas restantes leituras e estou maravilhada com o primeiro volume destes dez que escolhi.

 

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Voltando então aos preconceitos. Assim que um dos meus primeiros textos (sobre o livro As Coisas Que os Homens Me Explicam, de Rebecca Solnit) recebeu um destaque do Blogs do Sapo, recebi o seguinte email:

-

«Ai Alexandra, Alexandra,

Já enjoa este discurso feminista que tenta dar a ideia de que um homem que seja a favor da igualdade deve ser também ele feminista.
O feminismo tornou-se numa espécie de associação a favor dos direitos das mulheres. Têm esse direito, mas não nos venham vender a ideia de que querem igualdade de género. O feminismo não se preocupa minimamente com os direitos dos homens, certo?

O feminismo preocupa-se com o facto de os homens assumirem tradicionalmente profissões de maior risco e por isso terem muito mais acidentes de trabalho? Tenta equilibrar o acesso a essas profissões? Não. É só um exemplo. O feminismo preocupa-se apenas com a parte que prejudica as mulheres. É disso exemplo o acesso a cargos de gestão de topo. Por isso não procuram igualdade de género. Procuram melhorar a posição das mulheres na sociedade. Ponto.

Um beijinho (ou um abraço).»

-

Na altura, este senhor andava ainda indignado com a polémica dos cadernos de actividades da Porto Editora e resolveu mandar este email em tom de desabafo (disse ele) porque queria perceber o fenómeno do feminismo. Não considerei, nem considero, o tom deste email como um desabafo, mas adiante. Resumidamente, decidi dar-lhe resposta, ele ainda fez uso de mais alguns lugares comuns para criticar o feminismo durante mais alguns emails (os do primeiro aparentemente não chegavam), mas lá acabámos por concordar que a vertente radical e tóxica do feminismo pode ser tão má como o machismo e cada um foi à sua vida. Apesar deste desfecho, todo aquele episódio mexeu profundamente comigo. Confesso que fiquei receosa, adivinhando que aquele fosse tornar-se o pão nosso de cada dia. Não se tornou. Até à data não voltei a receber mais emails deste género, mas adivinho que depois de ter usado neste texto as palavras “vertente radical e tóxica do feminismo” talvez chegue um ou outro.

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Uma das coisas que soube que queria abordar neste texto, desde o momento em que recebi o convite do Pedro Correia, consiste precisamente na luta frequente que, aparentemente, temos (alguns de nós) de travar à custa de quem deturpa a causa feminista. Deixa-me profundamente triste todo o aproveitamento e radicalização que algumas pessoas, pelo mundo inteiro, associaram ao feminismo. O feminismo é essencial para mudarmos enquanto civilização, mas tem uma tendência auto-destrutiva absurda. Uns lutam para construir, outros para gerar o caos e entropia. Há dias em que não quero ser feminista. Não quero ser feminista nos dias em que há mulheres que se aproveitam de um movimento fundamental, como é o incentivo para que se denunciem comportamentos abusivos e se perca o medo de falar, para denegrir a imagem de alguns homens pelos mais variados motivos. Há histórias ridículas que atingem proporções e consequências demasiado graves para serem tratadas tão levianamente em praça pública. Assisto incrédula ao que se tem vindo a passar, dando voltas e voltas à cabeça numa busca incessante por uma solução que termine com este aproveitamento. Busca utópica, clichê, infantil, bem sei, mas que não me abandona, mesmo nos dias em que não quero ser feminista.

Um dos documentários mais interessantes que assisti sobre feminismo foi She’s Beautiful When She’s Angry (2014) e gostava muito de o recomendar a quem ainda não o viu. Além de conter informação preciosa sobre o movimento feminista nos Estados Unidos na década de 60 e 70, relatada por algumas das intervenientes, mostra como também naquela altura houve dúvidas, erros, lutas inglórias, oportunistas. É deveras importante interiorizar que tudo aquilo que se passou na época e se volta a passar agora faz parte disto, de sermos humanos. Que é natural, que nunca vai ter solução, mas que vale a pena continuar a lutar pela igualdade, por mais que os desvios nos consumam. Lutar lado a lado, mesmo nos dias em que perco a esperança e não quero ser feminista.

 

 

Alexandra Machado

(blogue MAIS MULHERES, POR FAVOR)

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Convidada: CAROLINA GUIMARÃES

por Pedro Correia, em 06.02.18

 

Casa do Cais: retrato real ou forçado de uma geração?

 

Foi com enorme surpresa que, aqui há uns tempos, vi um anúncio na RTP a uma série que claramente pretendia chamar a atenção de um público mais jovem: chamava-se Casa do Cais e tinha como “actores” vários youtubers portugueses, com um guião inspirado na história real acerca da vinda de um desses youtubers para Lisboa, após ter saído da sua terra natal, o Entroncamento (detalhe que só vim a descobrir mais tarde).

Fiquei logo em estado de alerta depois de ter visto o anúncio e pensei: “onde raio é que a direção de programas da RTP está com a cabeça?!” Sosseguei um pouco quando percebi que a série iria ser transmitida apenas online (mais uma vez, à procura dos jovens, que agora ignoram a televisão e só vêem youtube – e, por outro lado, fugindo de todos os Velhos do Restelo que, quando vissem a série, não só não conseguiriam parar de dizer impropérios e insultos sobre as gerações mais novas como provavelmente cairiam para o lado só de pensar aquilo que os seus netos fazem quando estão longe dos olhares mais responsáveis).

Não é preciso ser uma mente brilhante para perceber, vendo apenas o anúncio publicitário, qual a temática da série: como se diria há dois anos, é sobre a “vida loka” da malta nova. Copos, ressacas, festas, droga... e sobre todas as consequências que (quase) tudo isso traz na manhã seguinte.

 

 

Não me fiquei pela promo: vi mesmo os três episódios disponíveis até agora na RTP Play. Não fiquei chocada, nem admirada. Na verdade, fiquei com o estado de espírito igual ao de sempre no que diz respeito a este assunto: preocupada, triste e eternamente desintegrada.

Preocupada porque se aquilo que ali vemos é o padrão da minha geração, isso significa que por um lado nós não conseguimos viver sem substâncias adictivas para nos divertirmos e que por outro o nosso sentido de responsabilidade está bem abaixo do que é suposto; triste por reconhecer que há tanta juventude a seguir um padrão de vida com o qual não me identifico minimamente, quer nos princípios quer na forma de viver; e desintegrada porque sou jovem e não me revi num único acto daquela série – porque não fumo, porque não bebo, porque não vou a festas em que as pessoas ficam bêbadas e pedradas de caixão-à-cova, porque nunca fumei drogas, porque nunca fui de ressaca a uma entrevista de emprego, entre tantos outros exemplos que podia dar. E ainda bem. Não é que, em alguns dos casos, me tenham faltado possibilidades de experimentar – mas nunca o fiz, porque sempre agi de acordo com a minha consciência e por sempre ter tido uma opinião muito própria sobre todo o tipo de substâncias que nos deixam fora de nós e alteram os nossos comportamentos.

 

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Já não chegava eu ver a minha geração representada daquela forma, numa antítese completa daquilo que é a minha forma de viver e de estar, quando, há umas semanas, ouvi na rádio algo que me deixou estupefacta. Dois dos protagonistas desta série foram falar sobre a mesma a uma estação e acabaram por dizer que já era a altura dos grupos jovens e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgéneros) estarem representados na televisão, para que os jovens com características semelhantes se pudessem identificar, uma vez que, na sua opinião, ainda hoje são poucas as personagens gays ou lésbicas presentes em telenovelas, por exemplo.

Dos quatro protagonistas na Casa do Cais, uma é heterossexual, outra é lésbica e os outros dois são gays – com várias características que os fazem identificar com os devidos grupos, como a masculinidade da personagem lésbica ou o facto de um dos gays se maquilhar ou o outro ter trejeitos mais femininos, entre outras coisas. E é importante eu deixar algo claro: apoio abertamente os grupos LGBT onde quer que esteja. Não vou a manifestações, porque não é o meu estilo, mas festejo de cada vez que um país legaliza o casamento gay ou que, por exemplo, vejo gestos de carinho entre pessoas do mesmos sexo serem aceites normalmente na sociedade. Mais: tenho amigos gays. E, adivinhe-se!, não têm nada com o estereótipo representado na série. Os gays não têm de se maquilhar, não têm de fazer “workshops de garganta funda” (citado da série!), não têm de estar sempre a falar de outros homens. Da mesma forma que nem todos os jovens têm de beber, fumar ou vomitar para dentro de um forno depois de beberem uma garrafa de vodka (também retirado da série).

 

Há quem seja assim, há quem não seja. Todos devem ser respeitados por igual. Mas preocupam-me as generalizações. Não gosto que digam que aquilo que se vê na Casa do Cais é uma representação fiel da juventude de hoje – porque não sou assim (e penso – e espero - não ser excepção), porque não quero que me incluam num grupo com estas características e porque tenho vergonha. Não gosto que digam que ali se vê o mundo LGBT (do qual nem sequer faço parte), porque também não acho que um bando de rebeldes meio-desgovernados represente o todo. Mas, dada a minha posição eternamente desintegrada, tenho medo que tudo isto me tenha passado ao lado.

Será que esta série é a representação fiel de uma geração que eu claramente não quero perceber? Ou será a hipérbole de uma série de comportamentos que, de facto, acontecem cada vez com mais frequência e aceitação na nossa sociedade, mas que ainda não chegou ao ponto de serem a regra? Apesar de tudo, estou a torcer para que a segunda opção seja a resposta certa.

 

 

Carolina Guimarães

(blogue ENTRE PARÊNTESIS)

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Convidado: ANTÓNIO CABRAL

por Pedro Correia, em 30.01.18

 

A história não se repete! Não?

E a infelicidade das pessoas e dos povos?

 

Tenho as minhas dúvidas de que a história não se repita, aqui e acolá. Tenho dúvidas que, em certas sociedades, determinados traços, determinados “fados” não se prolonguem por séculos, ainda que com matizes ligeiramente diferentes. Não se repetirão a papel químico certas situações, mas temo que, tendências, um certo fio condutor, sim, se repitam. 

Olho para os últimos 35 anos e vejo, não só muito do que não devia ter acontecido, como sinais crescentes de inquietação. 

Globalmente estou satisfeito com o regime. É o regime que perfilho. 

Estou feliz? Pessoal e egoisticamente sim, olhando para o que tem sido a minha vida, directa, familiar, profissional, de reformado. Agradeço o que a vida me tem dado.

Mas, enquanto concidadão, muito preocupado com o futuro.

Em resposta a um honroso convite de Pedro Correia, no meio de atribulações familiares diversas, levei alguns dias a pensar que texto poderia submeter à consideração do DELITO DE OPINIÃO.

Resolvi dar uma olhadela a algumas fases do nosso passado e fixei-me particularmente em pequenos episódios de um período de 200 anos, a começar em 1700. 

 

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 Terreiro do Paço, durante o reinado de D. João V

 


1700 - chegada às minas do Brasil dos colectores de impostos
1701 - decreto sobre a mendicidade
1706 - aumento de impostos por D. João V (reinou a partir de 9 de Dezembro)
1708 - entra no Tejo frota do Brasil, com carga avaliada em 54 milhões de cruzados: ouro, diamantes, etc
1708 - fome generalizada a todo o reino
1712 - os procuradores dos mesteres apresentam à Câmara de Lisboa um quadro negro da situação económica e financeira do País
1712 - entra no Tejo frota do Brasil, com carga estimada em 50 milhões de cruzados
1720 - exploração de jazidas de ouro na Baía e em Mato Grosso
1734 - descobertas novas jazidas de ouro em Mato Grosso
1753 - alvará estabelecendo monopólio régio para os diamantes do Brasil
1763 - grave crise económica, prolongando-se até 1770
1793 - lei visando o estabelecimento de um cadastro do País
1796 - alvará lançando empréstimo de 10 milhões de cruzados ao juro de de 5%
1797 - alvará lançando empréstimo de 12 milhões de cruzados ao juro de de 6%
1801 - novo empréstimo de 12 milhões de cruzados, constante de 20 000 acções de 240 reis cada
1834 - lei da liberdade de imprensa
1834 - prolongando-se até 1836, uma gravíssima situação das finanças públicas
1891 - lei aprovando contrato de trabalho de 25 de Fevereiro, garantindo a jornada de 8 horas, e fixando tarifa de salários mínimos
1892 - situação de quase bancarrota
1893 - Março: decreto sobre a criação de bolsas de trabalho
1894 - 14 Março: decreto sobre a mendicidade
1898 - Outubro: decreto sobre segurança e higiene no trabalho
1899 - 23 Março: decreto sobre a mendicidade
1900 - José Bento Ferreira de Almeida, antigo ministro da Marinha e do Ultramar, discursa na Câmara dos Deputados, defendendo a venda das colónias (excepto Angola e S.Tomé e Príncipe), para com cujo produto se poder pagar a dívida externa e fomentar o desenvolvimento do País.

 

Como porventura menos desconhecidas, deixei de parte as tropelias praticadas pelas elites a partir de 1900 até hoje, e assim os diversos e diferentes sobressaltos por que foi passando a sociedade portuguesa, em consequência da irresponsabilidade/ incompetência/ corrupção/ desleixo/ ausência de sentido de Estado, dessas mesmas elites.

O retrato supra sugere, creio eu, um povo que basicamente sempre foi um tanto desgraçado, e elites a viver no fausto ao sabor do que era a história na Europa e um pouco por toda a parte. 


Elites que, parece, pouco terão cuidado da segurança e do bem estar dos seus concidadãos, e do seu desenvolvimento.
Mendicidade constante, fome e pobreza, atraso, finanças públicas variadíssimas vezes em situação atroz, empréstimos e calotes, sumptuária para uns poucos.
No final do século XIX terão existido tentativas para alterar um pouco a sociedade nos planos do trabalho, da comunicação social, das finanças públicas. 
Mas quase tudo, depois de bem espremido, tendo dado sempre em pouco. 
Por isso, creio, o Portugal que se encontrou em 1900 e daí a 1926, e depois até 1969/74. 
Bastante miséria, desemprego, analfabetismo, provincianismo, muitas doenças, elevada mortalidade infantil, muito atraso. 
O problema das colónias/ Ultramar/ províncias esteve periodicamente em cima da mesa, com pouca, nenhuma, ou muita atenção, consoante as épocas e aflições internas, e os ventos da história mundial. Parece que houve quem, de vez em quando, olhasse para elas, como um activo a despachar para compensar dificuldades do Estado.

 

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 Fábrica portuguesa do final do século XIX

 


A história não se repete?
Quando nos nossos dias se olha à mentira constante, ao ludíbrio, ao equilibrismo faccioso, ao assalto da coisa pública, aos resultados concretos do sistema de justiça, à hipocrisia, à bajulação, qualquer cidadão médio deveria interrogar-se se, de facto, estamos no bom caminho, se temos tido anos saborosos, para usar uma recente e infeliz expressão do actual titular do cargo de Primeiro-Ministro (infeliz, ainda que bem se perceba que estaria a pensar na vertente económica e financeira). 

Muitos afirmam que a política é a arte do possível. Será. Mas no caso português, salvo melhor opinião, há décadas, talvez mesmo pelo menos há século e meio, que se devia ter procurado atingir objectivos talvez considerados impossíveis. Tentaram? Outros o foram fazendo lá fora, com a tal arte do possível.
Quando olho para a nossa história, em particular de 1700 para cá, fica-me sempre a triste sensação de que a política em Portugal sempre foi prosseguida no interesse de uns quantos, poucos. Na monarquia e sobretudo os vários séquitos à sua volta, as facções na I República, as convulsões e os garrotes na II República de Salazar e depois Marcelo e, em alguma medida, de 74 até aos nossos dias.
Não somos Dinamarca, Suécia ou Noruega. Somos Portugal, somos Portugueses.
Vejo a esmagadora maioria dos meus concidadãos amorfos, acomodando-se, deixando-se facilmente iludir. E preocupo-me muito.
Por exemplo, e um só, quanto à questão da dívida, nunca se diz com rigor aos portugueses o que vem acontecendo com a dívida bruta e com a dívida líquida. Há diferenças importantes. 
Mente-se, dissimula-se. 
A realidade é que estamos entalados, encalacrados até ao tutano, mas jogam todos com as famosas expectativas. Festeja-se a melhoria das notações das várias agências, dizem que já não “somos lixo”. Mas o que mudou de facto, a sério?
Vejo um mau “teatro".

 

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 Sala das sessões da Assembleia da República



Se Portugal fosse um País a sério, num tribunal e num mesmo processo, não se tratava um cidadão pela categoria profissional, e outro cidadão pelo primeiro nome.
Se Portugal fosse um País a sério, não aconteceriam actos de pura e pornográfica propaganda política, como o que se foi passando com o INFARMED, como o que se passou com a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo, como o que se passou com os Magalhães na Madeira em 2009, ou com os cofres cheios.
Se Portugal fosse um País a sério, o que se passou em Tancos estava completamente apurado e já tinha doído a muita gente; mas o que se verifica é uma farsa completa com ou sem murros no estômago.
Se Portugal fosse um País a sério, não se assistiria a este espectáculo de uma qualquer instituição se dar ao luxo de não entregar documentação aos parlamentares, ou, outro caso, classificar documentação de forma a impedir o seu escrutínio.
Se Portugal fosse um País a sério, os carros com agentes de forças de segurança ao passar nas rotundas cheias de carros a dizer “Trata…” paravam, e iam tratar do assunto, pois é tudo contra a lei; mas não, olham e vão embora, sob as risadas dos habituais farsantes que vivem dessas e de outras coisas.
Se Portugal fosse um País a sério, não se passava o que semanalmente se vê no âmbito do futebol e concretamente quanto a claques.
Se Portugal fosse um País a sério, um ministro com a tutela do desporto não diria “se o mundo do futebol e a sociedade quiserem, o governo pode intervir...”
Se Portugal fosse um País a sério, o sistema eleitoral já há muito que estava alterado, com maior participação de cidadãos, com lei eleitoral modificada.
Se Portugal fosse um País a sério, o sistema de justiça já teria sido melhorado, acabando-se designadamente com as inacreditáveis delongas que a lei actual permite, por exemplo, desde a questão das testemunhas, a prazos. 
Se Portugal fosse um País a sério, a questão “sair do euro?” seria debatida com muita serenidade, com verdade, sem exaltações, e muito detalhadamente, e designadamente explicando nas TV’s e nos jornais o que aconteceria aos depósitos e dinheiro das pessoas no dia seguinte à saída.
Se Portugal fosse um País a sério, não teríamos quase ninguém a dar crédito a um agente político que negoceia memorandos de entendimento e depois declara candidamente nada ter a ver com determinado assunto.
Se Portugal fosse um País a sério, não teríamos a comunicação social actual.
Se Portugal fosse um País a sério, não se continuaria a aceitar esta pouca vergonha dos desastres aparatosos com camiões, esteja a chover ou a fazer sol.
Se Portugal fosse um País a sério, não teríamos tristes espectáculos partidários como recentemente mais uma vez se viu. 
Se Portugal fosse um País a sério, há muito que o papel das forças armadas estava bem definido, e as forças armadas dimensionadas adequadamente.
Se Portugal fosse um País a sério, tinha repatriado para a parte continental os restos mortais dos portugueses que tombaram em combate (antes de 1974); depois desta data, tinha estabelecido acordos com os novos países africanos, para repatriar os restos mortais dos que morreram por Portugal e continuam sepultados em África.

Portugal, País a sério, a meu ver só o será:

  • se a sociedade for de facto democrática e madura;
  • se colocar de lado certas exaltações e clubites partidárias;
  • se se afirmar claramente como um estado de direito, em que de facto se lute por diminuir as desigualdades enormes que persistem e que em alguns casos se agravaram;
  • se, porque somos todos da mesma massa mas não da mesma forma, todos sem excepções forem no dia a dia iguais perante a lei;
  • quando os órgãos de comunicação social desempenharem o papel decisivo que lhes compete na sociedade, sendo sedes de escrutínio independente, e não confundirem noticiar com opinar, derem notícia relevante do que se passa lá fora, e enfrentem os problemas nacionais; 
  • quando o poder legislativo estiver de facto na Assembleia da República e não em certas agremiações;
  • quando os titulares dos órgãos de soberania e chefias de demais orgãos e entidades, dirigentes de empresas públicas e privadas, e chefias em geral, TODOS, interiorizarem que estão em cargos temporariamente, para servir a sociedade e não servir-se.

 

Como sempre tenho escrito no meu blogue, como sempre defendi enquanto profissionalmente na vida activa, como sempre continuo a fazer, procuro ponderar, olhar à minha envolvente, formular opiniões. 
Tenho convicções, mas respeito as opiniões alheias. 
Assertivo, duro por vezes, não deixarei de ser. 
E vou tentando corrigir-me, minimizar defeitos. Assim respeitem as minhas opiniões.

 

 

António R. Cabral

(blogue CHAPÉUS HÁ MUITOS)

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Convidada: MARIA MADEIRA

por Pedro Correia, em 23.01.18

 

A perversidade das boas intenções

- a propósito da polémica em torno da Supernanny

 

Quando o assunto envolve crianças, publicidade, exposição, pais, quase de certeza que o desfecho não será dos melhores. Se a todos estes ingredientes também se juntar um programa de televisão em formato reality show, onde as regras do jogo são duras e o termo, imperativo, vai ao encontro de audiências, share, rating, termos usados para medir a temperatura de um programa, temperatura que terá muito pouco a ver com pessoas mas terá muito a ver com lucro, temos um género de circo montado.

Esta é a realidade, quer queiramos quer não. Os canais privados de televisão existem para obter lucro, não são propriamente a Santa Casa da Misericórdia. Infelizmente, ou felizmente, depende do lado da barricada onde nos encontramos, sabem muito bem manipular e explorar as fraquezas humanas, as debilidades em termos financeiros e emocionais. Eu continuo a achar que o mundo é feito de escolhas, e são elas que acabam por ditar se algo vinga ou se está condenado ao fracasso. Determinados programas de televisão também têm este lado de testar de que matéria é que as pessoas que por aqui habitam são feitas.

De certo modo até se podia comparar esta situação a alguns políticos. O problema talvez não esteja  exactamente nos políticos, o problema talvez esteja na nossa escolha quando votamos e os escolhemos para nos representarem.

 

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Resumindo: não é com proibições, petições, que chegamos a algum lado. É, talvez, com uma consciência individual, individual porque cabe a cada um reflectir e fazer as suas próprias escolhas - não me apetece, não quero, ser obrigada a ter mais um pai-Estado que me proíbe de fazer o que quero.

Sou adulta, sou eu que escolho o que quero para a minha vida. Da mesma forma que escolho em quem voto, também escolho que não gosto de programas que vão ao encontro de formatos reality show, sejam eles quais forem, tenham eles crianças, tenham eles gente mais adulta.

Não gosto de assistir em directo, sentada confortavelmente no sofá de casa, à exploração de pessoas com vista a obter lucro.

Eu escolho não gostar. Ponto. Cada um escolherá o que quiser. Reticências.

 

 

Maria Madeira

(blogue AMANHECER TARDIAMENTE)

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Convidada: MAGDA PAIS

por Pedro Correia, em 19.01.18

 

Sem manual de instruções

 

Nunca se falou tanto em educação de crianças. A cada virar de página há alguém que se auto-intitula como o guru da educação, o único que pode ensinar os pais e o único em que todos os seus casos são de sucesso. Há centenas de milhares de livros, de blogs, de revistas sobre o mesmo tema e até um programa de televisão sobre o mesmo tema, esmiuçando o comportamento dos pais, dos filhos, da influência do cão, do canário ou do periquito no futuro dos gaiatos. Estuda-se, analisa-se, conclui-se e, por fim, dão-se fórmulas quase matemáticas para que a educação funcione.

Diz-se o que se pode dizer ou fazer em contraposição com o que não se deve fazer ou proibir. Colocam-se as crianças em redomas de vidro, não as deixando errar para não sofrerem. Não podem chumbar na escola ou ser contrariadas porque isso afecta a autoestima. Não podem estudar muito para não se cansarem.

Nunca os pais tiveram tanta informação como hoje em dia. E serve para... quase nada. Os miúdos continuam a não trazer manual de instruções. Estamos perante um ser humano que terá de ser educado mas não programado. Que terá de aprender a lidar com as frustrações e de perceber que o mundo gira à volta do sol e não da sua pessoa. Que tem de errar para aprender. Que tem de perceber que não pode ter tudo o que quer. Que tem de ganhar autonomia e de não ser apaparicado. Tem de aprender a ouvir um redondo NÃO e aceitá-lo. Tem de, em casa, ter pais e não amigos.

 

Sou a mãe mais imperfeita que possam imaginar. Não quero ser perfeita, quero só fazer o que acho melhor para os meus filhos. Mesmo que isso seja ir contra aquilo que os ditos gurus acham importante.

Os meus filhos ajudam em casa desde sempre. Obviamente com tarefas adaptadas à idade. Desde que começaram a ir à escola que se vestem sozinhos. Desde que foram para o ciclo que vão sozinhos para a escola. Têm, desde que entraram no ciclo, uma mesada que gerem como entendem, sabendo que é desse dinheiro que têm de pagar as refeições que fazem fora de casa ou as idas ao cinema. Se querem telemóveis XPTO, mudar de computador ou comprar uma máquina fotográfica, têm de juntar dinheiro para o fazer.

 

Escolho muito bem onde me devo impor. Não exijo que façam tudo como eu quero. Não me preocupo com a roupa que vestem ou com a cor do cabelo mas, em troca, quero boas notas e bom comportamento. Podem andar de sandálias no inverno ou calças com buracos mas não podem responder torto nem usar telemóvel na escola. Têm de respeitar os outros e a língua portuguesa.

Não os julgo mas, em troca, têm de ser honestos. Quando têm problemas, propomos soluções mas não os resolvemos por eles. Gostamos e queremos conhecer os amigos deles mas não intervimos nessas relações.

Dizemos não quando é preciso e sim sempre que possível. Deixamos que saiam sozinhos ou com os amigos, desde que nos avisem onde vão, quando vão e quando regressam. E têm horas de chegar a casa (mais uma vez adaptadas à idade).

 

Ambos sabem que somos permissivos e exigentes ao mesmo tempo. Aprenderam que cada acção tem uma consequência e que só depende deles se essa consequência é boa ou má. Se não cumprem as regras, a consequência é um castigo que depende do grau e gravidade do incumprimento.

E conversamos. Desde sempre. Explicamos o quê e porquê e, sempre que possível, decidimos em conjunto o que fazer.

Ser pai ou mãe não é fácil. Mas também não é um bicho-de-sete-cabeças. É uma experiência constante, uma aprendizagem diária e um desafio. Mas é tal e qual como diria o Noddy: Um desafio! Gosto disso!

 

 

Magda L. Pais

(blogue STONE ART)

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Convidado: OLAVO RODRIGUES

por Pedro Correia, em 16.01.18

 

O que é realmente um erro linguístico?

 

Ao abordar esta questão, surgem sempre dois tipos de defensores: os mais conservadores e os mais liberais. Os primeiros opinam que, para que uma língua seja bem usada, esta tem de ser regida por regras que se reconhecem como sendo canónicas e aceitáveis, as quais estão relacionadas com a gramática e com a ortografia. Há alguns casos mais extremos que propõem distinções de qualidade entre as variantes de determinados países, incluindo, às vezes, as pronúncias também.

Por outro lado, existem os mais liberais que opinam que um idioma é inevitavelmente mutável em todos os seus campos, pelo que de nada serve tentar impor normas de fala, dado que, mais tarde ou mais cedo, as mesmas cairão em desuso. Por norma, estas pessoas não se importam com realizações linguísticas do género: «tu fizestes», «atão», «onteontem», entre outras. Algumas delas também concordam com a Reforma Ortográfica de 1990, precisamente por acreditarem que a língua, enquanto organismo vivo, necessita de uma mutação constantemente activa.

 

Nos dois grupos existem diversos graus nas suas inclinações, contudo, será que algum deles alguma vez conseguiu ou conseguirá, de facto, responder à questão: «o que é realmente um erro linguístico?»

Eu não pretendo encontrar uma verdade absoluta para este tópico, pois a minha opinião, à semelhança da de toda a gente, vale o que vale e duvido muito de que surja uma resposta infalível a esta pergunta, considerando que os próprios especialistas nem sempre chegam a um consenso. Contudo, não deixa de ser um novelo de lã com imensas pontas soltas que conduzem a um mundo enorme de conhecimento e reflexão.

 

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Comecemos, então, pelo seguinte: o que é um idioma? É um sistema de representação do mundo que tem determinados padrões na fonética, na gramática e no léxico, no entanto, embora haja sempre pontos em comum que se identificam na mesma língua, também existem imensas variantes quando o seu número de falantes é grande, como é o caso do português.

Partindo deste princípio, constata-se que o critério para considerar não-preferencial uma certa realização linguística é um pouco abstracto e funciona como uma espécie de espiral.

O círculo central é a variante-padrão e os que o rodeiam costumam ser considerados formas desviantes. Quanto mais afastados do centro, menos aceitáveis parecem. Em português dizer, por exemplo: «duvido de que faças isso» parece ser o ideal; «duvido que faças isso» já é um pouco desviante e «isso faças duvido que» não é aceite pelo sistema interno de reconhecimento de nenhum falante.

Porém, visto que uma língua é bastante rica em diversidade e está em constante mudança, há sempre estruturas a competir pelo reconhecimento, o que leva a que exista uma área cinzenta na qual é difícil escolher uma forma canónica, tendo em conta que as várias opções são todas muito usadas e que as gramáticas e dicionários nem sempre estão de acordo relativamente à mesma questão.

Pegando no exemplo que dei acima, é possível verificar esta ocorrência. À luz do meu conhecimento pessoal, já não é nada raro encontrar construções do tipo «duvido que» e não me refiro apenas à oralidade ou a textos informais. Quer em traduções, quer em textos originalmente escritos em português, tem-se tornado bastante comum a ausência da preposição «de» antes do pronome relativo «que».

 

Por enquanto, a presença da preposição ainda é a mais canónica, uma vez que, se o verbo a requer noutros casos, como em «duvido disso», então, faz sentido que se adicione «de» a todas as construções. No entanto, devido ao facto de que um idioma se encontra em mutação constante, daqui a alguns anos aparecerá, novamente, o choque entre conservadores e liberais - quase parece que estou a falar de política - umas gramáticas, menos receptivas à mudança, rejeitarão a forma recém-chegada e outras, adeptas da sua existência, aceitá-la-ão.

Ainda não se chegou a uma conclusão satisfatória. Por um lado, se uma determinada estrutura pode vir a tornar-se canónica, porquê resistir à naturalidade das alterações? Por outro, se não houver uma distinção restrita do que é certo ou errado, toda a gente falará e escreverá sem o conhecimento correcto, o que talvez origine indisciplina, dificuldades na comunicação e distorção da mensagem intrínseca no discurso.

 

Na minha mais sincera opinião, gostava de evitar a definição «erro». Nesta crónica não se atribuirá esse rótulo, isto porque a preferência de certas realizações idiomáticas não tem a ver com a linguística, mas sim com o meio socio-cultural e tem sido sempre assim em todos ou, pelo menos, em quase todos os países. Eis uma citação que o demonstra: «Grammatica (...) é um modo çerto e justo de falár e escrever, colheito do uso e autoridade dos barões e doutos.» (J. Barros, Grammatica da Lingoa Portugueza, 1540).

O/A leitor/a poderá pensar que a afirmação acima está desactualizada em relação ao nosso tempo e, de facto, de certo modo, tem razão, pois escrever algo assim nos dias de hoje não seria visto com bons olhos, no entanto, há que reconhecer que sempre existiu uma parte que se destacou para representar um todo.

 

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No caso do português europeu, o dialecto lisboeta tomou a dianteira, dado que, culturalmente, Portugal se tem centrado muito em Lisboa ao longo da História, da mesma maneira que, em 1540, eram as classes privilegiadas que definiam o que era correcto dizer e escrever.

Levando em consideração que todas as culturas, desde que não infrinjam os direitos humanos, têm o mesmo valor e dignidade e que a língua faz parte da cultura, então, há que pôr a hipótese de que dizer «tu fizestes» numa aldeia do Norte Interior é tão acertado como dizer «tu fizeste» em Lisboa, visto que se avalia o que é correcto através da norma linguístico-cultural em determinada região, independentemente de essa corresponder ou não à variedade canónica. Estamos a falar de variantes não de erros. 

Não tenciono afirmar, com esta óptica, que um/a lisboeta não pode combinar «tu» e «fizestes» ou que um/a nortenho/a não deve conjugar a forma da segunda pessoa do singular, no Pretérito Perfeito, sem o «s». O meu objectivo é assinalar que as estruturas gramaticais desviantes também merecem o seu lugar por pertencerem à nossa língua.

 

É verdade que se registam certos padrões nas mais diversas regiões, mas isso não significa que tenhamos de corrigir alguém amiúde quando nos apercebemos de que lhe escapou uma regra canónica.

Eu contra mim falo, pois, antigamente, tinha o hábito irritante de corrigir os meus interlocutores mais chegados. Todavia, agora olho para trás e pergunto: será que era mesmo importante? Muitas pessoas não nutrem nenhuma paixão pela linguagem, só se servem dela para cumprirem as tarefas do seu quotidiano, por isso, será que é mesmo produtivo impor-se-lhes regras que quiçá não venham a usar na sua vida profissional? Saber não ocupa lugar, porém, creio que ganharíamos muito mais se direccionássemos o esforço para a tolerância e para aqueles que estão realmente interessados em seguir a variedade-padrão.

Este raciocínio também se aplica à relação linguística entre países, pois creio que neste contexto também não deve haver competições deste tipo, as quais só costumam gerar ruído e nenhuma conclusão produtiva.

Digo isto, porque sempre que me dirijo à caixa de comentários do YouTube para ler as opiniões do público acerca de uma partilha cultural, geralmente entre Portugal e o Brasil, há imensas pessoas xenófobas dos dois lados do Atlântico que entram num conflito ridículo para disputar quais as melhores variante e cultura.

 

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Em Portugal algumas pessoas acreditam que o português brasileiro já é um idioma diferente, ponto de vista esse de que discordo, mas que respeito desde que os seus defensores abandonem a arrogância xenófoba, a qual é tão característica de alguns.

O único campo em que, do meu ponto de vista, é possível falar de erros, é a ortografia pelo facto de não ser uma parte do corpo da língua, mas sim um instrumento, ou seja: um idioma tem, naturalmente, como bases principais: a pronúncia, a sintaxe, a semântica e o vocabulário.

Todavia, a ortografia é uma invenção posterior e especificamente criada para servir a língua, não tendo nascido com ela. É possível haver um idioma sem ortografia, mas não sem as outras áreas anteriormente mencionadas.

A ortografia é algo legislado que, ao contrário, dos outros campos linguísticos, não se altera de forma autónoma, o que lhe confere, a meu ver, o estatuto de ferramenta e não de órgão.

 

Para terminar, não pretendo, com esta crónica, sugerir que a homogeneidade deve ser ignorada, tendo em conta que o ensino e a difusão do idioma necessitam de alguma coerência de modo a não confundir os aprendentes - nativos ou não - e para que a comunicação em massa seja o mais clara possível.

Contudo, é também preciso considerar o contexto em que usamos determinadas maneiras de falar e de escrever, não excluindo variantes que, provavelmente, sempre existiram e contribuíram para a riqueza da nossa língua. O que as distingue das formas canónicas é o facto de nunca terem sido acolhidas pela literatura, pelo jornalismo, pela política ou por outros, o que não lhes tem permitido alcançar o centro da espiral.

Assim sendo, quando se fala em erro linguístico, há que especificar qual é o objectivo do/a escrevente ou do/a orador/a, bem como o meio social em que vai comunicar. Usar uma variante não-canónica é adequado a uma conversa de café ou a uma SMS, mas não a uma palestra ou a um ensaio.

A variedade-padrão do português europeu tem os traços que hoje conhecemos, porque a sociedade e a cultura portuguesas a definiram dessa maneira, porém, podia ter quaisquer outras características igualmente aceitáveis.

 

 

Olavo Rodrigues

(blogue TOCA DO COELHO)

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Convidado: ANDRÉ AZEVEDO ALVES

por Pedro Correia, em 10.01.18

 

Espanha, Catalunha, Tabarnia... *

 

Um dos temas internacionais mais interessantes – e relevantes - de 2017 no âmbito da política internacional foi a questão da independência da Catalunha. Para além da óbvia importância geopolítica da disputa, para quem se interessa por ciência política e pela Escola Austríaca o tema reveste-se de especial interesse, já que o problema da secessão e da legitimidade (ou falta dela) dos Estados é um problema central.

 

Não é possível no âmbito de um post breve como este proceder a uma análise desenvolvida do problema, pelo que me centrarei apenas numa dimensão: a recentemente levantada questão da Tabarnia:

 

“¿Que qué es Tabarnia? Detrás de la denominación está la plataforma «Barcelona is not Catalonia», una organización ciudadana que pretende que el área metropolitana de Barcelona y parte de la franja costera de Tarragona se conviertan en una comunidad autónoma separada del resto de Cataluña. Y es que los promotores de esta iniciativa, más de un centenar de agrupaciones, asociaciones y empresas de la Ciudad Condal, están hartos del proceso independentista y de los perjuicios que están ocasionando a la economía catalana en general, y a la barcelonesa en particular. Basta echar un vistazo al mapa electoral catalán tras las elecciones del pasado día 21 para ver cómo el territorio que coincide con este territorio imaginario que es Tabarnia aparece teñido de naranja por su voto mayoritario a Ciudadanos, frente al interior de Cataluña, donde predominan el azul, de JuntsxCat, y el amarillo, de ERC, sobre todo en el sur. Este resultado demuestra, a juicio de esta plataforma, que existen dos «cataluñas», la rural del interior frente a la urbana de la costa y que gira en torno a Barcelona. Y es esa Barcelona no independentista la que está detrás de este movimiento, «de base transversal, unitaria y democrática que tiene por objetivo conseguir una gestión política y fiscal propia para Barcelona al margen de la Generalitat de Cataluña».”

 

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Quem se revê na tradição do liberalismo clássico, tenderá a ter uma presunção a favor do direito à secessão, auto-determinação e independência por parte de comunidades integrantes de um Estado nas quais haja uma clara vontade da população nesse sentido. Citando Ludwig von Mises (na sua obra Liberalismo):

 

“O direito à autodeterminação, no que tange à questão da filiação a um estado, significa o seguinte, portanto: quando os habitantes de um determinado território (seja uma simples vila, todo um distrito, ou uma série de distritos adjacentes) fizerem saber, por meio de um plebiscito livremente conduzido, que não mais desejam permanecer ligados ao estado a que pertencem, mas desejam formar um estado independente ou tornar-se parte de algum outro estado, seus anseios devem ser respeitados e cumpridos. Este é o único meio possível e efectivo de evitar revoluções e guerras civis e internacionais.”

 

Mas a questão da Tabarnia (assim como outras similares que sempre é possível levantar) suscita a complexidade processual e a dificuldade de estabelecer a legitimidade dos processos de secessão em cada circunstância concreta. Para colocar apenas algumas dessas dificuldades: Como se determina a vontade colectiva dos habitantes de um determinado território? Quais as fronteiras relevantes? Que alternativas devem ser colocadas a votação? Quem as define? Qual a dimensão da maioria necessária? E qual o limiar de participação exigido? Em que condições é possível reverter a decisão?

 

Dificuldades que, sem afastar a presunção liberal clássica de partida a favor do direito de secessão, me levam a encarar com prudência e algum cepticismo as suas manifestações concretas. Também por isso me faz crescente confusão o absolutismo (pró ou anti secessão) nestas matérias. Talvez seja a posição possível para um liberalismo temperado com uma dose de conservadorismo. Ou pode ser simplesmente resultado da idade, que vai avançando.

 

*Agradeço ao Pedro Correia e restante equipa do Delito de Opinião pelo simpático convite, no meu caso reincidente, depois de um primeiro em 2011 (como o tempo passa…).

 

 

André Azevedo Alves

(blogue O INSURGENTE)

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Convidado: JOÃO PAULO CRAVEIRO

por Pedro Correia, em 08.01.18

 

Le pays de Cocagne

 

Durante a Idade Média a que muitos, erradamente como demonstrou Umberto Eco, se referem ainda como a “Idade das Trevas”, surgiu o mito do país da Cocanha, espécie de paraíso terrestre, onde a abundância fornecida pela natureza era de tal ordem que ninguém precisava de trabalhar, o que era mesmo proibido, vivendo-se numa festa permanente e perpétua, sem fome nem guerras. Uma utopia, muito antes de Thomas More, que exprimia o desejo de paz, igualdade e prosperidade universal. No país da Cocanha as casas eram feitas de doces, as montanhas de gelados, havia sempre vinho, o sexo era completamente livre e toda a gente permanecia jovem para sempre.

O país da Cocanha foi representado por Peter Bruegel-o-Velho num quadro famoso em que representantes do clero, da nobreza e do povo recebiam tudo o que queriam refastelados no chão, sem precisarem sequer de se mexer, caindo-lhes as iguarias do céu. Foi, talvez, a forma que o protestante Peter Bruegel encontrou para sublimar a destruição de Bruxelas pelos soldados do Duque de Alba enviados pelo católico Filipe II de Espanha para combater a Revolta dos Países Baixos, ou Guerra dos 80 Anos.

Já os poemas medievais Carmina Burana hoje bem conhecidos pelo trabalho de Carl Orff se lhe refeririam, retratando as danças selvagens, o amor livre, o vinho e a licenciosidade. Diversos músicos mais recentes ou da actualidade abordaram o país da cocanha nos seus temas, como Edward Elgar que escreveu uma abertura de concerto, Georges Brassens na canção “Auprès de mon arbre” e também Jacques Brel, entre outros; mesmo no filme da Disney Pocahontas se refere o Novo Mundo como terra de cocanha. Podemos ainda olhar para o movimento hippie dos anos 60 do século XX como uma espécie de concretização do país da cocanha em que todos os desejos tinham resposta imediata.

 

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O mito do país da cocanha não deixa também de nos lembrar o paraíso bíblico em que Adão e Eva viviam na felicidade absoluta, antes de comerem a maçã, pelo que o seu surgimento não é uma novidade absoluta na História.

A persistência da mitologia do paraíso terrestre traduzido de forma artística ou mesmo subliminarmente na política deveria fazer-nos pensar na sua justificação e na enorme influência que tem tido na humanidade ao longo dos tempos, a diversos níveis, já que promessas de paraísos terrestres é coisa que não tem faltado.

Todos aprendemos que a Revolução Francesa foi um passo da humanidade no sentido do progresso. Na realidade, os desejos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade rapidamente descambaram, não numa aproximação de um paraíso terrestre como muitos imaginaram no seu princípio, mas numa espiral de terror, assassínios e pobreza que rapidamente destruiu os seus próprios mentores terminando ingloriamente num “império” que levou a guerra e a destruição a toda a Europa. Nem Portugal, aqui neste cantinho da Europa, escapou. Isto, enquanto a Inglaterra e muitos outros países prosseguiam o seu caminho no mesmo sentido de desenvolvimento sem necessidade da hecatombe da Revolução Francesa.

 

Há um século que se iniciou uma das experiências mais impressivas visando a construção de um “paraíso” na Terra, sem exploradores nem explorados, em que todos seriam iguais e em que a Igualdade seria lei. O regime instituído na Rússia pelo partido, primeiro chamado bolchevique e depois comunista, que ao longo dos anos teve como líderes assassinos notórios como Lenin, Stalin, Krushchov ou Brejnev foi um dos maiores desastres da História. As suas vítimas contam-se por muitas dezenas de milhões de mortos por fome e guerra, para além da imensidão de degredados. Tudo isto, não para construir impérios assumidamente militarizados e racistas como os nazis e fascistas, mas tendo a boa intenção da construção de um “paraíso terrestre” concreto e verdadeiro.

 

Um pensamento minimamente racional deveria levar-nos a desconfiar de todos os que ainda hoje nos prometem paraísos terrestres, que são os populistas de todos os matizes ideológicos. Especialmente depois das experiências trágicas provocadas pela transposição para a realidade das ideologias construtoras de “homens novos”, da prosperidade universal e da paz para todos enfim conseguida.

 

 

João Paulo Craveiro

(blogue VISTO DE DENTRO)

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Convidada: JOANA RITA

por Pedro Correia, em 05.01.18

 

Elogios avulso

 

o  pedro correia desafiou-me para escrever um artigo, aqui para o delito de opinião. “quanta honra”, pensei. mais ainda quando me é dada a liberdade para escrever sobre aquilo que eu quiser.

pensei em vários temas: a pós-verdade, o tempo médio de vida das indignações nas redes sociais, a lei do financiamento dos partidos – foram alguns dos temas que me fizeram abrir um documento no word e começar a escrever. desisti dessas ideias, pois julgo que sobre cada uma delas outros irão escrever e com mais propriedade.

 

resolvi partilhar convosco algumas ideias avulso, em tom de elogio. confesso que estou farta de reclamações: hoje é o bolo-rei em cima do caixote, amanhã são as cartolas na festa do final do ano.

 

ficam aqui algumas coisas que valem a pena ou, como se diz na minha aldeia, são coisas que “sim, senhor”.

 

 

país irmão: se nunca viram, não sabem o que estão a perder

 

conheci esta série por acaso, julgo que através de um tweet do nuno lopes.

*suspiros*

os diálogos são ricos, o argumento é genial e os planos das cenas são muito bem pensados.

acompanho no rtp play; ainda que passe no canal 1, à segunda à noite, é mais fácil de gerir online.

 

FB: https://www.facebook.com/paisirmaortp/?fref=ts
RTP PLAY: https://www.rtp.pt/play/p3846/pais-irmao

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fugiram de casa dos seus pais: um programa de tv que podia ser um podcast

 

o miguel esteves cardoso (mec) inspirou-me muito, quando era mais nova. achava-o irreverente, devorava os seus livros. há uns anos a sua escrita deixou de ter sentido para mim e continuei a viver agarrada aos livros de outros tempos. quando soube que ia haver um programa de televisão, de conversa, entre o bruno nogueira e o mec: awwwwww. expectativas ao alto. no dia da estreia sentei-me no sofá, em frente à televisão. e depois percebi que o programa era muito bom, sim. para ouvir em podcast. enquanto arranjo o almoço ou lavo a loiça > rtp play > e ouvir.

 

RTP PLAY: http://www.rtp.pt/play/p4131/fugiram-de-casa-de-seus-pais

fugiram de casa dos seus pais -  página fb do br

 

 

também os brancos sabem dançar: um romance que dança com a palavras

 

sou apaixonada pelos buraka som sistema e pela voz do kalaf. Em tempos li uma entrevista dele, à revista LER, e fiquei fascinada com o seu discurso. numa das últimas feiras do livro, em Lisboa, ganhei coragem e comprei um livro seu, que era um compêndio de crónicas. o kalaf estava lá e eu pedi-lhe um autógrafo. sim, senti aquela coisa de ai ai ai está ali a minha crush.

também os brancos sabem dançar é um romance embrulhado em amarelo, que cheira a kizomba e a funaná. a leitura é um conjunto de passadas que misturam movimentos mais antigos e as coreografias mais contemporâneas que invadiram as pistas de dança, recentemente. é para ler. e dançar, pois.

 

(o livro publicado na Caminho, em 2017)

kalaf epalanga.png

 @ joana rita 

 

 

slow j: ainda sobre palavras e brancos que sabem rimar

 

conheci o slow j no festival super bock super rock, há dois anos.

num palco pequeno, com o fred ferreira, surgia um rapaz tímido com uma voz quente e a atitude de quem só quer fazer o que gosta, da melhor forma possível.

2017 trouxe-nos the art of slowing down e esta música, CASA. “esse é o meu fado, esse é o meu semba” – e foi assim que slow j me conquistou. definitivamente.

 

slow j - fotografia de marco almeida para musicfes

© marco almeida, para musicfest.pt

 

 

* escrevo em desacordo com o AO90 

 

 

Joana Rita

(blogue ALL ABOUT LITTLE LADY BUG)

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Convidada: GRAÇA CANTO MONIZ

por Pedro Correia, em 03.01.18

 

O ano em revisão

 

Nesta época há quem faça uma revisão daquilo que aconteceu ao longo do ano na sua vida. Este tipo de exercício pode ser fonte de algumas frustrações se, como no meu caso, entre outros momentos menos bons ou felizes, a conclusão apontar para um dia-a-dia de rotina, um estilo de vida com pouco agite, enfim um ano enfadonho e pouco vivido. Mas nesse balanço anual há sempre um momento de auto-ilusão de que “vivi” muito, conheci muitas pessoas, viajei para vários sítios e experimentei diferentes sensações e momentos: acontece quando faço uma lista dos melhores filmes e séries a que assisti e que agora partilho convosco *.

 

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Cinema em 2017: Paterson, de Jim Jarmusch 

 

É que, se passei uma boa parte deste ano (e dos anteriores) a determinar os casos em que o Regulamento Geral de Protecção de Dados Pessoais se aplica fora do território de um Estado-Membro da União Europeia (bocejos...) e ainda tenho dúvidas em certos casos(!), a verdade é que conheci a poesia de William Carlos Williams enquanto me passeava de autocarro, conduzido por Adam Driver, por uma tranquila vilória de New Jersey (“Paterson”, Jim Jarmush, é o meu n.º 1) e tremi com o frio de Massachussets e com a angústia de Lee em “Manchester by the Sea”, de Kenneth Lonergan (é o meu n.º 2). Mas, durante este ano, não me fiquei pelos EUA: fui à Coreia do Sul conhecer a jovem Sookee, contratada para trabalhar para uma menina rica japonesa (“The Handmaiden”, de Park Chan-wook, o meu n.º 3) e regressei à Europa onde fiquei muito impressionada com a frieza de Isabelle Huppert em “Elle”, de Paul Verhoeven (é o meu n.º 4) e com o humor de Toni Erdmann, de Maren Ade (o meu n.º 5). Merece igualmente uma menção a crítica que Sally Potter faz à elite esquerdista anglo-americana em “The Party”.

 

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 Televisão em 2017: The Crown, na Netflix

 

Quanto a séries, deixei-me render àquela que é a série mais cara de sempre, “The Crown” (a minha primeira escolha), e a “Victoria” (vem em segundo lugar), ambas sobre duas inspiradoras mulheres e rainhas britânicas. Pelos EUA, acompanhei de perto os esquemas e as artimanhas de um grupo de mulheres criminosas e presas numa cadeia americana (“Orange Is the New Black”, em terceiro lugar) e andei pelas ruas de Nova Iorque ao lado de James Franco e Maggie Gyllenhaal em “The Deuce” (a minha quarta escolha). Em último lugar estão, lado a lado, duas séries de outros tempos: o futuro distópico em “The Handmaid’s Tale” e os perigos anunciados nos contos de Charlie Brooker em “Black Mirror”.

 

Em 2018 é certo que vou voltar à extraterritorialidade do Regulamento Geral de Protecção de Dados Pessoais, mas faço-o na expectativa de que haverá iguais formas de escapismo em novos filmes, séries e temporadas (será que vamos ter de esperar até 2019 pela nova temporada de Game of Thrones?).

Desejo a todos um óptimo ano!

 

*Agradeço ao Pedro Correia e ao Delito pelo simpático convite!

 

Graça Canto Moniz

(blogue O INSURGENTE)

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Convidada: DANIELA MAJOR

por Pedro Correia, em 22.12.17

 

Da Resistência e da Consolação

 

I.

Numa conferência recente no Nexus Institute[1], disponível no youtube, George Steiner questiona a validade das Humanidades. Por Humanidades, ele compreende não só o estudo académico da História, Filosofia, Línguas ou Religião, mas também a própria produção artística e literária. As Humanidades caminham então neste limbo: a criação de algo e o seu estudo.

No campo académico, Steiner identifica vários problemas com o estudo das Humanidades, e com a forma como elas são abordadas nas Universidades. Ele exige um maior rigor na selecção dos estudantes, e uma reforma dos currículos para incluir campos que deviam conviver com as Humanidades como a matemática e a arquitectura. Estas resoluções enquadram-se no âmbito de uma reflexão mais alargada sobre o papel das Universidades nos dias de hoje. Não estou agora tão interessada em discutir esta questão pois algumas das premissas de Steiner parecem-me exageradas. Ele tem sobretudo em conta universidades privadas que se encontram no top dos rankings mundiais e cuja comparação com todas as outras universidades só funciona, em consequência, até um determinado ponto.

 

II.

O problema da validade e utilidade das Humanidades é mais interessante até do ponto de vista do pensamento de Steiner. É uma questão que ele coloca há anos. A formulação é bem conhecida, e está presente na frase de Adorno: “não pode haver poesia depois de Auschwitz”. Em muitos aspectos, Steiner passou grande da sua vida académica a tentar aferir a veracidade desta afirmação.

Gieseking que tocava Debussy enquanto se conseguia ouvir, na sala de concertos, os gritos das pessoas que estavam nos comboios para Dachau. O jardim de Goethe que quase faz fronteira com Buchenwald. Os intelectuais e artistas que se colocaram, abertamente, orgulhosamente, do lado de Hitler e de Mussolini. É bem possível que Auschwitz tenha destruído uma certa ideia das Humanidades. A partir da Revolução Francesa, passou-se a acreditar que a concretização da cidadania, e a felicidade dos povos que daí adviria, só poderia ser conseguida através da educação. Reduzindo esta ideia ao mais básico: só é cidadão quem consegue ler, porque a leitura nos dá poder. O poder do conhecimento, o poder do espírito crítico. A crença no progresso esbate-se no século XX. A crença na tríade educação-felicidade-cidadania parece sair derrotada. O século XX não foi feliz nem particularmente cívico. Pior: foi profundamente infeliz enquanto foi mais letrado e alfabetizado do que todos os outros séculos. O século onde mais pessoas leram e onde os livros eram mais baratos e acessíveis foi também o século dos campos de extermínio e dos gulags.

 

III.

Neste sentido, seria relevante olhar para aqueles campos que andam na fronteira entre as Humanidades e as Ciências Sociais: a História, a Antropologia, a Sociologia, a Ciência Política. Estas disciplinas têm por ambição a explicação e interpretação da realidade, muitas vezes com a expectativa de conseguir prevenir erros do passado. Aquando da eleição de Trump, foram reavivados textos conhecidos sobre as características do Fascismo. A História tem por objectivo, adicionalmente, o questionamento e a preservação da memória e de identidades, sejam elas regionais, nacionais, civilizacionais ou culturais. A sociologia e a antropologia têm por objectivo a explicação de determinados comportamentos sociais. Todas estas ambições encontram correlações com o poder político. Estudar os processos democráticos em Portugal ou na Europa do Sul, olhar para um mapa de eleições do século XIX, estudar o Iluminismo, isto é, a origem da Modernidade e do discurso político moderno, ajuda-nos a perceber, sem dúvida, o que fomos e o que somos, e os comportamentos que assumimos perante a sociedade e perante a política na sua forma mais pura.

 

IV.

E contudo: para quê? Os historiadores, por muito que se esforçassem, não conseguiram evitar a eleição de Trump. Nem a literatura o conseguiu fazer. A História demonstra o perigo da emoção desenfreada instilada no discurso político. Demonstra o perigo de se brincar com factos, de se espalhar mentiras, das teorias da conspiração. A literatura faz pouco dos tiranos. E contudo, verificamos que todas estas disciplinas, todas as Humanidades, apesar da sua capacidade criativa, têm uma função apenas reactiva, reaccionária, no verdadeiro sentido do termo. Não foram factos que impediram o Brexit ou Trump. Um historiador podia ter-se sentado (mas sentou-se?) a explicar, reparem, que a União Europeia é um fenómeno histórico e a paz alcançada no Continente Europeu é algo absolutamente inédito. Mas será que isso teria feito diferença? Será que ter Umberto Eco a explicar as características do fascismo fez alguma diferença?

 

V.

And yet...

Após os atentados ao Charlie Hebdo, o Tratado sobre a Tolerância de Voltaire, esgotou. Historiadores juntaram-se em livros e artigos para explicar a importância do riso e da sátira, fazendo questão de reafirmar, perante a barbárie, que nada disto é novo. Há sempre um tirano que pretende, em nome de qualquer coisa, matar aquilo que nos é essencial: a liberdade. E foram também os historiadores, cientistas sociais e políticos, e alguns escritores, como Salman Rushdie, a lembrar que, apesar de tudo, os livros e as ideias circulam. E a explicar, a não deixar esquecer, que há algo de muito, muito positivo na sátira, no questionamento de dogmas, de preconceitos, no combate à infâmia. E que o sistema democrático em que nos inserimos, regidos, em última análise, por Declarações de Direitos que nos são inalienáveis, foi conseguido e alcançado com muito suor, sangue, e lágrimas. Mas cá estamos, cá continuamos.

 

VI.

E enquanto eles não são alcançados? Ou o que acontece quando eles são alcançados mas são postos em perigo?

George Steiner dá uma resposta a isso, uma resposta ao mesmo problema que coloca. Numa longa entrevista a uma televisão holandesa, também online no youtube, com o título apropriado de Beauty and Consolation[2], Steiner conta a história de Boris Pasternak. Antes do Doutor Jivago, Pasternak traduziu os poemas de Shakespeare para russo – por sinal, Moscovo vai ter uma estátua de Shakespeare[3]. Em 1937, Pasternak estava na conferência dos escritores soviéticos. Com ele estavam 2000 pessoas. Nas palavras de Steiner, 37 foi um dos piores anos, “one disappeared like flies every day”. A Pasternak foi dito que se discursasse, iria ser preso. E preso seria se não discursasse. Ao terceiro e último dia, os amigos de Pasternak disseram-lhe, em desespero, que ele ia ser preso de qualquer forma. Ao menos que dissesse algo a que eles se pudessem agarrar, depois. E durante a conferência, Pasternak levanta-se e profere um número. 30. E, segundo Steiner, ergueram-se 2000 pessoas e declamaram o soneto correspondente. When to the sessions of sweet silent thought / I summon remembrance of things past… um soneto de Shakespeare sobre a memória. Em português, na extraordinária tradução de Graça Moura, começa como, Quando em meu mudo e doce pensamento / chamo à lembrança as coisas que passaram…. As 2000 pessoas recitaram-no em russo, usando a tradução de Pasternak. Steiner retira a óbvia conclusão: “it said everything. You can’t touch us. You can’t destroy Shakespeare. You can’t destroy the Russian language. You can’t destroy the fact that we know by heart what Pasternak has given us”.

Pasternak não é preso e vive para escrever Doutor Jivago.

 

VII.

Citando Steiner novamente, no vídeo já referenciado, “what we have in us they can’t take away from you.” O estudioso do Talmud que sabe de cor os cinco livros da Torah e que no campo de concentração diz às pessoas para lhe perguntarem por passagens quando for necessário (ou essencial, quando for essencial). Braudel, no campo de prisoneiros de guerra onde esteve preso, reúne as notas para o que vai ser La Méditerranée et le Monde Méditerranéen, um dos mais importantes livros de História do século XX.

As Humanidades servem para a preservação da memória, das identidades, das ideias. Não explicam apenas o mundo e os processos de formação sociais, políticos, económicos. São formas de resistência – daí serem reaccionárias. Elas pretendem reagir à mentira, à manipulação e, em última análise, à tirania. O facto de serem elas próprias objecto frequente de manipulação, o facto de muitos supostos humanistas, escritores, artistas, intelectuais, se colocarem do lado errado, não apaga a extrema necessidade, a extrema urgência da sua existência. “What we have in us they can’t take away from you”. 

 

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[1] https://www.youtube.com/watch?v=L-WecwvZZzk

[2] https://www.youtube.com/watch?v=3xUzVfxwm_k

[3] https://themoscowtimes.com/news/shakespeare-59254

 

Daniela Major

(blogue AVENTAR)

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Convidada: ISABEL PIRES

por Pedro Correia, em 20.12.17

 

Do histórico pessoal nas relações tardias

 

Desde há umas décadas que é relativamente comum encetar-se relacionamentos amorosos a partir dos quarenta anos de idade, adoptando-se vários modelos.

Naturalmente, há maior preocupação e cuidado em definir como se vão estruturar perante a condição de existirem filhos de uma parte ou de ambas, assim como face às especificidades associadas a novos padrões de organização do trabalho.

Pelo facto de estas circunstâncias e outras semelhantes terem uma face mais concreta, visível e pública, e também por fazerem parte dos deveres, normalmente encontram-se soluções que não afectam de forma significativa a nova relação. Há como que um encaixe natural que decorre de algo que está num plano superior envolvido pela obrigação e por isso podem estar mais defendidas de conflitos.

 

Com a bagagem das relações interpessoais até aí mantidas, nomeadamente com as amizades, algumas de décadas, já não é tanto assim. Não raro, de ambos os lados surgem tensões relativas ao modo como essas ligações se expressam e concretizam, quer quando se mantém o figurino até aí adoptado, quer quando se altera.

 

E são os encontros com os amigos do sexo oposto (falo do modelo heterossexual pelo facto de ser o mais comum) que suscitam dúvidas e conflitos. Dúvidas até nos dois elementos.

Num, essas dúvidas é sobre o contar ou o não falar; sobre a necessidade de o fazer e sobre a continuidade, que receia não ser bem interpretada pelo parceiro. Ao mesmo tempo que navega numa sensação de perda relevante de património afectivo individual.

No outro, as dúvidas têm que ver com o medo de perda advinda da dificuldade de compreender e aceitar que não é o eixo exclusivo dos afectos para além da família de sangue.

 

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 Foto de Henri Cartier-Bresson

 

Do que se conhece acerca dos assuntos que costumam ser conversados num qualquer ponto inicial da relação, este trilho não consta como frequente, até porque, afirma-se, o estado de paixão ou arrebatamento tem tendência a ofuscar ou a toldar as linhas com que se cosem os dias.

 

Esta questão - ao que fazer e como fazer à bagagem afectiva que se construiu e que fez, e faz, aquela pessoa ser assim - quando entra uma nova pessoa para partilha íntima? Não havendo respostas iguais, adivinha-se contudo a importância de desenvolver a plasticidade interpretativa e a possibilidade de acolher modelos diferentes dos esperados quando se tinha vinte ou trinta anos.

O envelhecer, ou melhor, o envelhecer bem não será também isto: integrar bem, de forma satisfatória, o que vem de trás?

 

Entre os opostos de vida de solteiro em que a vivência das amizades é mais desregrada e uma vida em comum que se esvazia dos amigos que cada um tinha, existem soluções intermédias mais satisfatórias em termos do equilíbrio individual que importa preservar, mas que ainda esbarram com muitas dificuldades associadas ao sentimento de posse e ao entendimento do que é a exclusividade.

 

 

Isabel Pires

(blogue NASCER NA PRAIA)

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Convidada: SARA BARROS

por Pedro Correia, em 18.12.17

 

A máquina de moldar raparigas

 

O famoso dicionário americano Merriam-Webster elegeu feminismo como a palavra do ano de 2017, baseando-se na intensa procura que o termo teve nestes últimos doze meses e que representou um aumento de 70% face a 2016. Mas talvez algumas pessoas se questionem que necessidade pode haver de feminismo numa sociedade desenvolvida em 2017 depois de tantas conquistas sociais.

Será um mero capricho ou uma necessidade real?

 

Tomemos como exemplo uma mulher, chamemos-lhe Mónica.

Folheemos brevemente o seu álbum de fotos. Aqui está ela com cinco anos: entretida com uma mini cozinha, com tachinhos e que até faz barulhos como uma verdadeira. Ela também tem muitas bonecas para alimentar e embalar, uma mini tábua de passar e até um mini avental. Todos estes objectos, tão variados, só se encontram na secção das meninas. Quando for para a escola Mónica até vai poder ter um manual de actividades rosa só para meninas.

Mónica com onze anos: sentada numa cadeira enquanto a mãe lhe limpa os joelhos esfolados depois de uma expedição científica ao quintal. "Já tens idade para te portares como uma menina a sério", diz a mãe. Mónica não sabe o que responder. Ela ainda não sabe que muitas mulheres antes dela também tiveram a sua natureza condicionada por esta ideia.

 

Esta agora é ela com catorze: deitada de barriga para cima na cama com os olhos fechados, meio neste mundo meio no outro. O seu sangue já não lhe causa espanto, embora nunca tenha chegado a perceber porque é que nos anúncios a pensos higiénicos ele nunca aparece com a cor que realmente tem. Mónica pensa que gostava de ser mais como as mulheres que vê na televisão. Mais como Mariana, sua amiga que tanta atenção já atrai. Mónica ama Mariana e às vezes gostava de lhe arrancar os cabelos. As mulheres sempre fazem isso umas às outras nos programas e nos filmes. É muito engraçado de se ver. Ser mais como as princesas que são sempre bonitas e meigas e que ficam com o príncipe enquanto as adversárias são castigadas.

Mónica pensa nisto enquanto está no shopping com Mariana à procura de um novo par de sapatos. As duas riem de algo picante que Mariana diz. Uma puta com gelado de baunilha a cair para a blusa e ainda a correr para os insufláveis. Mónica sabe que muito em breve aparecerá um rapaz que lhe dirá o quanto ela é bonita e especial apesar dos muitos defeitos que já catalogou em frente ao espelho. Talvez se ela se sentar mais direita, se encolher o estômago, se sorrir mais. Talvez se não tivesse comido o gelado. Não como Mariana, mas um pouco como Mariana. Entre a vergonha moral infligida e a pressão para ser um objecto sexual.

 

Mónica aos vinte: a caminhar pela rua já tarde. Mas é uma rua bem iluminada e com movimento. Uma lição que foi bem aprendida. Fingir que se é surda e muda. Para não acabar como Mariana que se recusava a mudar de rua e a ser surda, andou à chuva e molhou-se. Mónica lembra-se das vezes que ouviu pessoas brincarem com situações parecidas. Ou a fazerem piadas envolvendo carros mal estacionados.

Uma memória mais antiga: uma imagem no seu livro da escola. Um homem entra em casa, a mulher está a segurar um tachinho, há um crucifixo. Mónica achou aquilo um pouco ridículo mas quando ao jantar disse que não se queria casar os pais apenas riram e disseram que ela tinha muito tempo para se divertir antes de subir ao altar.

 

Aos vinte e seis: a almoçar uma salada só de alface no escritório. Pensando em conselhos que lhe deram recentemente. Que devia arranjar alguém, viver assim sozinha não era coisa para uma rapariga como ela tão bonita (Mónica pensa: onde devemos viver. É uma trindade), que devia investir na carreira (Mónica pensa: para-tudo-e se tiver de abdicar do-não serei mais-do resto-desejável para ninguém-há um tempo certo), que devia era sair mais (Mónica pensa: Mariana, porque me abandonaste), que não se devia esquecer do relógio biológico (Mónica pensa: o meu útero a explodir como uma supernova quando o tempo da bomba relógio chegar a zero e então o mundo acabará).

 

Com trinta e três: deitada de barriga para cima na cama com os olhos abertos, muito neste mundo e pouco no outro, enquanto ouve um respirar tranquilo ao seu lado. Disseram: finalmente, não estás mais sozinha. Mónica não respondeu.

Finalmente. Uma última foto: Maria com onze anos sentada numa cadeira enquanto a mãe lhe limpa os joelhos esfolados.

 

Agora sim, podemos fechar o álbum e voltar à pergunta inicial: é o feminismo uma necessidade real?

Vivemos numa sociedade que sob uma capa de falsa igualdade, quando não mesmo abertamente, permite e incentiva a existência de mecanismos de opressão contra as mulheres, forçando-as desde cedo a moldarem-se a estereótipos e a papéis arcaicos de género, a preencher exigências contraditórias e impossíveis, culpando-as pela violência contra si e minando a sua auto-estima. E no fim levando-as a perpetuar elas mesmas este sistema de desigualdade.

A resposta é sim.

 

 

Sara Barros

(blogue DESABAFOS AGRIDOCES)

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Convidado: PAULO SOUSA

por Pedro Correia, em 15.12.17

 

Sobre os livros

  

Antes de serem lidos, todos os livros encerram um potencial de nos poder vir a agitar o espírito, de nos ensinar, ou até assustar. Fazem-nos sonhar, sorrir, gargalhar e até chorar. Depois de lidos, muitos deles ficam connosco para sempre. Um punhado mais restrito altera a maneira como pensamos e por isso mudam também aquilo que somos. Tal como acontece com algumas das pessoas com quem nos cruzamos na vida, alguns livros são verdadeiros pontos de viragem. São como o fim ou princípio de capítulos que dividem a nossa existência em partes distintas, como se tudo se resumisse a um antes e depois de cada um deles. 

Lembro-me de haver sempre  livros à minha volta. Quando era pequeno eles eram muito poucos e por isso muito mais preciosos. A escassez fazia-os gozar de uma procura que levava a que fossem partilhados repetidamente.
Ainda antes de eu saber ler, o meu irmão e o meu primo já tinham lido todos os livros que existiam nas duas casas. Sempre que o magro espólio era aumentado nenhum dos dois aceitava esperar pelo outro e acabavam a ler em simultâneo. O mais rápido esperava uns segundos pelo outro para só então se virar a página. Lembro-me de os ver assim, sentados no último degrau da escada, lado a lado, ora a interiorizar a mensagem ora a ver qual dos dois lia mais rápido. Tal como na natureza, após a escassez vem a sofreguidão. Para saborear não se pode ter fome e eles, que já salivavam antes de abrir a primeira página, liam tudo sem mastigar e sem se preocupar com a digestão.

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Eu via aquilo e queria também poder aceder àquele mundo que só existia quando as páginas se abriam. Esse mundo era frequentado por diversas pessoas da família de diferentes gerações. A muito partilhada lista de títulos fazia dos nossos livros um ponto de passagem que mais tarde ou mais cedo todos palmilhavam. Tornavam-se por isso também num ponto de encontro.

Quando finalmente aprendi a ler, a lista do títulos disponíveis nas nossas casas já era um pouco mais generosa e foi crescendo sempre sem nunca mais parar. Nunca tive de ler à desgarrada e nunca soube de mais ninguém que o tivesse feito.
Olhando para as gerações mais recentes, nenhum membro da nossa família alargada partilha o gosto por ler com semelhante intensidade. Todos consomem a maior parte dos tempos livres à frente de ecrãs.
Será que estamos a caminho de um mundo onde, como antes de Gutemberg, os livros voltarão ser lidos apenas por uma minoria?
Da mesma forma que a fotografia não matou a pintura, nem a televisão matou o cinema, também não serão os suportes electrónicos que matarão o livro. Mas mais do que perguntar se os novos suportes são complementares ou alternativos ao livro impresso, a dúvida que me coloco reside na capacidade e na disponibilidade intelectual de quem cresce como espectador passivo em frente de ecrãs. Que capacidade de interpretar, ou até de fantasiar, sobre o que do passado chegou até aos nossos dias terá quem não conhece o cheiro dos livros?

 

Paulo Sousa

(blogue VALE DO ANZEL)

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Convidado: PEDRO OLIVEIRA

por Pedro Correia, em 13.12.17

 

Sem balizas não se marcam golos

  

 

- Bom dia.
- Queria levantar cem euros.
- Tem preferência nas notas?
- Tanto faz.
- Aqui estão, duas de cinquenta.
- Ai, o que é que eu faço com dinheiro tão grande? 
- Então dê cá as de cinquenta. Quer como?
- Mais miúdo.
- Estão aqui, dez notas de dez euros.
- Está a brincar? Não quero levar essa miudagem toda.
- Então quantas é que quer trocar em maiores?
- Veja o senhor.
- Troco-lhe estas seis por três de vinte, leva sessenta em vinte e quarenta em dez.
- Troque-me esta de vinte por quatro de cinco.
 
Há uma frase do meu escritor francês (nascido na Argélia) preferido que diz isto: "le peu de morale que je sais, je l' ai appris sur les terrains de football".
Quantas situações da nossa vida se complicam pela falta de balizas, pelo enredamento em que nos vemos envolvidos, pela falta de objectividade.
 
Voltando ao diálogo que inicia este texto e que exaspera qualquer um (até eu fiquei cansado ao escrevê-lo), as coisas poder-se-iam ter resolvido de forma simples se a pessoa que foi efectuar o levantamento tivesse dito: "Quero cem euros em duas notas de vinte, duas de dez e quatro de cinco."
É claro que isso seria simples de mais. A nossa tendência natural é para complicar, burocratizar. Tornar difícil, o fácil e tornar complexo, o simples.
 
Falei há pouco em Camus mas é óbvio que o escritor não conheceu o futebol português, não assistiu, diariamente, aos doze programas televisivos, não ouviu os quarenta e seis debates radiofónicos nem leu os três jornais futebolísticos. Lá está, conseguimos tornar insuportável um jogo que na sua essência é composto por onze atletas de cada equipa a correrem atrás de uma bola para a introduzirem dentro de uma baliza.
A conclusão a que queria chegar é que a vida pode ser tão simples como um jogo de futebol, mas preferimos emaranhar em vez de rematar.

 

 

Pedro Oliveira

(blogue ENCRUZILHAMENTO)

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Convidada: BEATRIZ ALCOBIA

por Pedro Correia, em 11.12.17

 

Acerca da eutanásia

  

O Presidente da República pediu, há dias, a participação de todos os portugueses no debate sobre a eutanásia. Pessoalmente sou a favor do direito à eutanásia, mediante regulação de ponderação. 

Nenhum argumento contra a eutanásia me parece poder, legitimamente, sobrepor-se, de modo razoável, ao direito fundamental da pessoa decidir do seu destino, o que implica decidir da vida do seu corpo biológico, dentro do qual se passa a nossa existência neste mundo. 

Negar a eutanásia é legitimar a privação de liberdade, é apoiar a ideia de se poder condenar uma pessoa, já em sofrimento, a uma pena de prisão, sendo que a solitária é o seu próprio corpo, para apaziguar as consciências dos outros. Parece-me um egoísmo muito grande.

O argumento do possível arrependimento futuro da pessoa não é razoável porque a pessoa que decidiu pedir a eutanásia já lidou com a ideia de arrependimento na ponderação.

O argumento de manter a pessoa viva por conta de uma possível, embora improvável, cura, não é razoável porque a pessoa que decidiu pedir a eutanásia já lidou com a ideia dessa possível cura na ponderação.

O argumento da religião não é razoável porque ninguém tem que ser obrigado a viver pelos preceitos religiosos alheios.

O argumento de que a medicina serve para curar e não para matar não é razoável pois a medicina também serve para aliviar o sofrimento e ajudar e, de qualquer modo, a pessoa já está em estado de estar perto da morte ou em situação de não poder melhorar a sua condição de saúde e querer morrer com a sua ideia de dignidade, de modo que o médico não vai matá-la, vai permitir que a pessoa encerre a sua vida como decidiu, com alguma dignidade.

O argumento do erro de diagnóstico também não é razoável pois os diagnósticos, em casos graves, confirmam-se e infirmam-se. Não é como se uma pessoa fosse diagnosticada com uma doença grave e sem nenhuma confirmação, passada uma semana estivesse a ser eutanasiada.

O único argumento que me parece razoável, mas inconsistente, é o argumento da derrapagem. A despenalização da eutanásia levar a uma desregulação e a uma banalização da prática, como acontece na Holanda onde os idosos são pressionados a pedir a eutanásia para os hospitais rentabilizarem camas e onde o pessoal médico cada vez pratica mais eutanásias porque o hábito banalizou o acto. 

Penso que o argumento não é consistente pois podemos, sobretudo sabendo do exemplo da Holanda, regular o acto com prudência: deixar legislado quem, como e quando pode praticar a eutanásia e quais as precauções obrigatórias, nomeadamente, confirmar diagnósticos, garantir que a pessoa que pede a eutanásia ponderou a decisão, decidir o teatro do próprio acto de modo a garantir-lhe dignidade, deixar ao pessoal médico o direito de objecção de consciência, etc.

Não me parece razoável impedir o direito das pessoas à autodeterminação com o argumento de que dá muito trabalho regular o acto de modo a evitar abusos.

 

 

Beatriz Alcobia

(blogue IP)

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Convidada: MISS X

por Pedro Correia, em 06.12.17

 

Às almas antigas que nos desvendam

  

Nestes dias de frio natalício, percorrendo os versos de Pushkin - "antiga Primavera, que nos acode à imaginação, miragem de terra longe, duma rua" -, assomou-se-me à memória o meu avô. 

Era sempre após a queda da folha de Outono e do cair da geada de Inverno que o meu avô chamava todos os netos à sua presença.  

Como se nos quisesse ver apenas e só na Primavera, ressuscitados e renascidos, para um novo começo cíclico que se iniciava, não na data do nosso aniversário, mas a cada domingo de Páscoa. 

Com os nossos trajes domingueiros,  do alto da nossa meninice, um a um dirigíamo-nos ao patriarca da família, para prestar o nosso respeito e ouvir as palavras que precisávamos de ouvir. 

Como um acto de paz, em ramo de oliveira, o meu avô oferecia também um presente monetário, tornando-nos ainda mais crescidos perante tal oblação real. 

Sempre que era chamada à sua presença, ouvia-o atentamente, mas recusava sempre aceitar o que me oferecia, com um não apressado, em fuga pela porta do jardim. 

Naquele domingo de Páscoa dos meus 12 anos, encontrei-o sentado placidamente na sua velhice e eu, de pé, alta e esquiva, no meu vestido de menina, esperava-o em silêncio. 
Perante os meus olhos amedrontados, abriu a sua mão enrugada revelando a mesma oferta que sempre recusara. 
“Não posso aceitar”, disse-lhe.  

A sua voz interrogativa lançava-me um “Porquê” ao qual nunca respondi. 

Fechando a sua mão sobre a minha, suspira: "És uma mulher velha. Tens uma alma antiga dentro de ti. Nas tuas leituras, nas tuas palavras, nos teus actos, guardas milhares de anos vividos nesse teu coração. Nada está errado contigo, percebes? Tudo está certo."

De regresso a casa, a estranheza do meu ser iluminou-se em pleno sentido do existir.  
A única pessoa que me viu, para além de mim própria, que desvendou o meu próprio enigma, foi o meu avô. 

Neste Natal, aos anciãos e às almas antigas que nos desvendam, a minha sentida homenagem. 

 

 

Miss X

(blogue LIVROLOGIA)

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Convidado: EUFRÁZIO FILIPE

por Pedro Correia, em 04.12.17

 

A senhora da limpeza

  

Antes de chegar às galerias, identificaram-me com um sorriso.
Subi no magnifico elevador, conduzido por um delicado polícia.
Sentei-me nas galerias e olhei para baixo. Lá estavam os representantes da nação. Os eleitos da República. As palavras cruzadas, as ideias esgrimidas, as bandeiras nas lapelas, os passos perdidos, os aparelhos políticos. Os credos e os farsantes. Desiguais.
Inocente, segredei a um jovem cabisbaixo, companheiro de galeria :
-- Coisa linda esta democracia.
Lá em baixo também estavam os meus, pouco numerosos ainda mas a combater pela maioria que vive nos subúrbios de tudo.
Lá em baixo quase todos esquecidos de subir os olhos para as galerias, tricotavam a verve, gesticulavam poses de verniz.
De quando em vez disparavam blasfémias, partilhavam impropérios para mais tarde se abraçarem à hora do repasto. Quase todos.
Inocente, o jovem cabisbaixo, segredou-me :
-- Comigo, um dia isto será diferente.
 

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Terminada a sessão plenária os deputados saíram como estava previsto.
O amplo salão ficou vazio, soberbo e solene. De tantas memórias.
O salão ficou vazio mas eu deixei-me ficar até ser convidado a sair pelo mesmo delicado policia.
Foi um dia que resolvi festejar em silêncio.
Procurei um restaurante no belo bairro de São Bento e sentei-me à mesa.
Serviram-me um discurso intragável.
Fechei os olhos, abri os olhos e pedi o livro de reclamações.
Levantei-me da mesa sem pagar.
Os empregados ficaram a ler o meu protesto.
Lá fora ouvi alguns aplausos, mas fiquei na dúvida quanto ao seu voto.
Dei uma volta ao quarteirão e na passagem ainda olhei para a fachada do restaurante.
Para meu espanto a porta rangeu.
Começou a abrir-se lentamente.
Era a senhora da limpeza.
 

 

Eufrázio Filipe

(blogue MAR ARÁVEL)

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Convidada: CÁTIA SAMORA

por Pedro Correia, em 01.12.17

 

Solidariedade feminina, realidade ou mito?

  

Recuemos aos idos e saudosos anos 90. Ao meu terceiro ciclo (7.º, 8.º e 9.º anos). Aquela época em que a adolescência já estava em fase galopante, as hormonas andavam descontroladas e a personalidade ia-se construindo com picos de felicidade extrema e tristeza profunda. Oscilações perfeitamente compreensíveis à luz dos 13, 14, 15...

Desta época guardo boas memórias, mas também recordo que tive mais amigos do sexo masculino que do sexo feminino e lembro-me bem o que motivou esse facto.

A verdade é que a grande maioria das meninas da minha turma gostava de falar mal umas das outras nas costas e eu não tinha paciência para aqueles jogos. Mas a cereja no topo do bolo viria a ser a amizade saudável e despreocupada que eu mantinha com um dos rapazes que mais amores despertava na turma.

Resultado? Consegui, sem me esforçar absolutamente nada, que o sexo feminino, praticamente em peso, me odiasse. As raparigas da minha turma passaram a excluir-me de tudo e, certa vez, combinaram uma ida ao cinema onde toda a turma foi convidada, excepto eu e a minha melhor amiga, que era excluída por arrasto. Mais! Ameaçaram os rapazes: "se lhes dizem para ir cancelamos tudo."

Apesar da maldade deste episódio que vos descrevo ele não foi traumatizante, pois já na altura eu fugia de dramas e sabia bem o que não queria. E o que eu não queria era amizade por conveniência, era ter de agradar a algumas pessoas só para que não me vissem como um alvo a abater.

E por que razão vos conto eu isto? Simples.

Analisando a sociedade em que vivemos e falando agora de comportamentos adultos, creio que as mulheres, de um modo geral, continuam a tratar-se como aquelas meninas me trataram.

 

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Existe solidariedade feminina? Não me parece... E mais grave ainda, na minha opinião, é não existir respeito entre mulheres. Parece que estamos sempre prontas a atacar, esperamos um deslize para poder apontar o dedo. Criticamos, com todo o azedume que conseguimos reunir, o sexo feminino com base na roupa, na postura, na maquilhagem, no penteado, na cor do cabelo, na forma como educa os filhos, no comportamento que tem para com o marido, na dieta que segue, na dieta que não segue, na forma como conduz, no modo como fala, como decora a casa, como vive a sua vida...

Parece que o sexo feminino é capaz de tolerar tudo, menos uma falha vinda de outra mulher.

Não sei de onde virá esta agressividade que pauta os nossos comportamentos, talvez venha dos tempos em que tudo aquilo que as mulheres ambicionavam era um bom partido e, motivadas por isso, a ciumeira e a disputa eram inevitáveis. Comparavam-se partidos e dotes e o sentimento de rivalidade era genuíno. Ou talvez seja algo mais recente... Mas o que importa isso?!

O que tem de importar aqui e agora é o futuro. Aquilo que podemos fazer a partir deste preciso momento em que nos encontramos. A mudança tem de estar presente no nosso quotidiano, na forma como educamos as nossas crianças ou no modo como vamos reagir da próxima vez que uma mulher falhar connosco. Temos de ser capazes de nos autocriticar e dizer: “Eu vou ser mais solidária para com as mulheres da minha vida."

Pessoalmente, e com vergonha vos confesso, também eu já fui injusta, já teci juízos de valor com base em coisas supérfluas. Contudo, tenho em mim o desejo de mudar, o desejo de que esta lacuna se possa fechar.

Farei o meu melhor e mais um pouco ainda.

 

 

Cátia Samora

(blogue HÁ MAR EM MIM)

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Convidado: JOÃO BRANCO

por Pedro Correia, em 29.11.17

 

Análise patológica à falta de cultura desportiva

que grassa pelo nosso país

  

I

Um espectáculo profundamente abjecto, asqueroso e degradante que ultrapassou todos os limites da decência e do bom senso e trespassou a própria lei, tornando-a, como se diz na gíria, um mero verbo de encher. Não posso de modo algum qualificar de outra maneira, com recurso a uma adjectivação mais suave, a luta fratricida a que temos assistido, no campo das palavras, nos últimos anos no futebol português. Se o fizesse, creio que estaria a passar um verdadeiro paninho quente pela irracionalidade instalada no pensamento dos dirigentes, dos jornalistas (?) e dos adeptos (adeptos? consumidores, vá) do futebol do país que é actualmente o detentor do título europeu.

O mais grave disto tudo é precisamente isso: o mau exemplo, a má imagem, o horrível cartão de visita do nosso futebol que temos vindo a oferecer a toda a Europa. Enquanto campeões europeus em título deveríamos estar a viver actualmente a fase de maior apogeu do nosso futebol. Deveríamos ter aproveitado o momento histórico (e a responsabilidade associada que veio certamente pendurada na Taça; se a quiseres manter na vitrine do teu museu daqui a 4 anos, aproveita esta ocasião para proceder à realização de um conjunto de acções, medidas ou programas que possam melhorar o grau de conhecimento sobre o jogo existente no teu país, a formação de treinadores, aumento de qualidade que certamente se irá reflectir na formação de melhores atletas e de mais completos seres humanos; dota os teus clubes de mais condições infraestruturais e superestruturais; usa toda a experiência e conhecimento acumulado para formar melhores dirigentes; porque só assim poderás manter o nível de qualidade e potencial atingido) vivido pela nossa selecção na Gália para realizar uma inversão total ao estado de sítio instalado, estado de sítio que é tão e somente o produto do estado de falência generalizada (financeira, moral, cultural) dos nossos clubes, dos nossos dirigentes, dos nossos consumidores-cidadãos, dos grupos editoriais e até dos próprios jornalistas.

Estou convicto que todos têm a sua quota-parte de culpa neste degenerativo processo em curso que ameaça, a curto prazo, recolocar o nosso futebol no mesmo patamar em que se encontrava há 30 anos se o paradigma vigente não for alterado rapidamente para outro que atribua mais importância ao conhecimento sobre o jogo.

 

II

A direcção pensa e acorda a estratégia no briefing diário. O presidente vira-se para o seu ventríloco de estimação, para um Saraiva qualquer, que pode chamar-se Marques ou Luís Bernardo (se bem que o Luís Bernardo não risca nem escreve absolutamente nada nos discursos de Luís Filipe Vieira; tal serviço é encomendado a uma espécie de ghost-writer chamado António Galamba; ó Luís, este é o meu melhor ângulo?) e diz: "olha, ó Saraiva, mandas-me este texto para o Fernando Mendes?" - o Saraiva manda para o Mendes. O Mendes, que bem pode chamar-se Calado ou Freitas, não se importa de ejacular (todas as noites) a informação em directo porque, estando necessitado do verdinho que recebe do clube e do canal de televisão para realizar uma acção de cobertura aos fiados que deixou um pouco por toda a parte, dispõe-se a tudo. Até a mentir.

Ameaçado de despedimento caso não escreva sobre o assunto, o jornalista de turno abre o laptop para contornos ficcionais à coisa. "Se não escreveres, o povo não deixa cá o clique. Se o povo não vier cá deixar o seu clique, ninguém patrocina isto. Se ninguém financiar isto, vamos todos para o olho da rua. Portanto escreve bem. Escreve tudo o que sentes até que te doam as mãos, menino."

 

O cidadão comum, advogado de profissão, lê no dia seguinte, antes de entrar na sessão no tribunal, sessão onde o cosmos lhe cai graciosamente sobre o ombro e sobretudo, sobre a língua:

Advogado A: "Meretíssimo, em primeiro lugar saúdo a sua pessoa, desejando-lhe toda a  sapiência (e todos os mais humildes, sinceros, estimados e atenciosos votos de confiança, saúde para o Sr. Meretíssimo e para a sua santa família) na aplicação da Justiça neste processo que nesta gloriosa manhã de Inverno nos traz até aqui à humilde casa basilar do Estado de Direito Democrático, campo de batalha de muitas querelas cavalheirescas entre causídicos, nas quais respeitamos honrosamente como sempre, como não poderia deixar de ser e como é nosso apanágio, a lei e os bons costumes de actuação desta corte. Queira-me também o meretíssimo Juiz dar-me apenas um segundinho muito importante para saudar os Srs. Procuradores com a mais calorosa e cordial das saudações, declarando-me incondicionalmente rendido ao trabalho lavrado neste despacho de acusação, despacho que aproveito para considerar como fidedigno em relação aos actos. A Sr. Procuradora, garbosa como sempre, com o seu cabelo aprumadinho que certamente muito trabalho deverá ter dado à sua ditosa mas não menos genial cabelereira..."

(entretanto o Juiz adormece porque o homem desdobra-se ordinariamente em mesuras, tratando até a empregada de limpeza de ocasião que está a passar pelo corredor por "Minha querida senhora, tieta do agreste que agora me deste uma visão do demónio que não posso, ai se não fosse casado, o que faria consigo sua pérola de diamantes, mais linda que qualquer uma ali posicionada estrategicamente no peitinho, ai no peitinho, ai o meu peitinho que não cabe em mim de tanta paixão que sinto, não tanto descaída para o seio direito mas mais para o esquerdo da Grace Kelly)"

Advogado B repete de seguida a mesma ordem de cumprimentos e saudações, bajulando tudo e todos a eito, qual metrónomo da arte do piropo hipócrita. Eis a arte de dizer muito pouco em muitas palavras, uma especialidade clássica do ser lusitano.

 

A audiência é dada por encerrada. Os dois advogados chegam ao café:

A: "O gajo nem lhe tocou, pá. Foi um mergulho para a piscina. Como é que és tão cego, meu?"

B: "Não toca? Vives em que mundo, caralho?"

A: "Olha, no do teu clube, que só sai à rua de 8 em 8 anos, certamente que não vivo, ó dragarto. Todos os anos vou ao Marquês com a família lá pelos idos de Maio enquanto tu ficas em casa a tocar corneta."

B: "Não admira. Com as instituições todas dominadas e com os árbitros todos comprados. É só colinho, tu..."

A: "Colinho? Mas tu és do único clube que até ao dia de hoje viu um dirigente condenado por corrupção!"

 

Por aqui me fico. Eis o verdadeiro elogio à irracionalidade. Este é o discurso irracional de gente que se considera a última coca-cola do deserto da racionalidade, os Descartes dos tempos modernos. Posto isto nem queiram imaginar o teor linguístico do discurso que à mesma hora é mantido por dois bêbedos no tasco. Várias foram as vezes em que já os vi, aqui pela rua do Arco, em Viseu, à paulada.

O produto do pensamento de um bando de manipuladores torna-se o prato do dia. A bola, o leitmotiv disto tudo, é pontapeada para fora do estádio sem piedade. Discute-se tudo até ao osso: movimentações de bastidores, problemas internos, problemas de balneário, situações financeiras dos clubes, zangas entre jogadores e namoradas, posts enigmáticos no twitter... A falha de marcação do central é sempre justificável e justificada com um erro do árbitro no minuto seguinte. Passámos da era da crítica aberta ao árbitro à éra da crítica aberta ao videoárbitro. Levam os dois na tarraqueta.

Parafraseando o saudoso Salgueiro Maia: "eis ao estado a que chegámos!"

Urge acabar com isto. 

 

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III

Um país sem respeito pela diferença e incapaz de promover a igualdade de oportunidades é um país falido moralmente. Falido moralmente e sem futuro. Que é um país sem futuro já eu sei há muitos anos. Contudo, como sou um romântico da coisa, teimo em continuar por aqui a arrumar caixotes à espera que a minha oportunidade chegue. 

"Eles vão acreditar nas tuas capacidades, meu querido."

Vão, o tanas! Neste país só se salva quem tem cunhas ou quem exerce eficazmente a sua influência junto de terceiros.

Voltando ao assunto.

Sabiam que o Comité Olímpico Português paga mensalmente:

  • 1375 euros a atletas olímpicos de Nível I do Ciclo de Preparação para os Jogos, pagando apenas 518 a atletas paraolímpicos do mesmo nível?
  • 1100 euros a atletas olímpicos de Nível II e somente 386 euros (um valor abaixo do salário mínimo nacional) a atletas paraolímpicos?
  • 900 euros a atletas olímpicos de Nível III e somente 226 euros (abaixo de qualquer pensão rural paga a quem nunca colocou um cêntimo a render na Segurança Social durante toda a sua vida) a atletas paraolímpicos do mesmo nível?

 

Sim, é verdade. Não quero contestar os valores que são pagos aos atletas olímpicos apesar de crer que estes valores não satisfazem nem de perto nem de longe as suas necessidades, visto que são atletas que, além dos gastos estruturais decorrentes das suas vidas, têm que gastar centenas de euros em materiais de treino, suplementos alimentares, viagens, alojamento, refeições em dias de competição, consultas médicas, de enfermagem, consultas de fisioterapia, gastos com staff técnico, etc... Estas bolsas são uma perfeita esmola. Quero, sim, contestar apenas a desigualdade da coisa. O que diferencia mesmo o suor de um atleta olímpico de um atleta paraolímpico? 

E as próteses, pagam-se como? E as cadeiras adaptadas para momentos de competição, pagam-se como? E os óculos, pagam-se como? E as despesas estruturais, de deslocação, alojamento e material dos atletas-guia que acompanham alguns dos atletas? E as despesas das pessoas que têm de acompanhar os atletas que não são autónomos? Será que uma mísera esmola de 226 euros no caso dos atletas de Nível III paga tudo isto?

Já agora: porque é que se atribuem 1375 euros mensais a um atleta como o Nelson Oliveira (pago principescamente na Movistar) e só se atribui uma bolsa de 1100 euros ao Rui Bragança (Taekwondo) que coitado, para competir internacionalmente, tinha que ir saquear a arca das pandinhas de 1 euro aos pais?

 

IV

Por último.

Quando vou por aí ao domingo de manhã ao Fontelo ver jogos de formação, assusto-me com as atitudes que são praticadas pelos pais. Não obstante a pedagógica informação que circula a rodos pelos campos, que é distribuída no início da época pelos clubes aos pais, pelas associações regionais e pelas federações aos clubes, sobre o papel dos pais na vida desportiva dos seus filhos, vejo cenas que não lembram nem ao Mitroglou:

"Rodrigo, tu não vais dar mais golos ao Francisco. Os olheiros do Dragon Force vieram-te ver. Quantos mais golos deres ao Francisco, mais estás a contribuir para que ele vá para o Porto e para que tu fiques aqui a jogar pelos distritais. É isso que queres?"

"Tá bem, pai."

Sim, leram bem. Esta foi a apreciação, num tom despregado, em que um pai se dirigiu ao filho à saída do balneário, bem à minha frente. Sim, o clima de competição inter-trabalhadores promovido pelo sistema capitalista já chegou ao único sítio onde é actualmente permitida à criança brincar. 

 

O futebol representa para alguns pais a sua válvula de escape das frustrações do dia-a-dia. Tenho visto comportamentos que não lembram nem ao diabo, como pais a agredir-se, árbitros a ser apedrejados, pais a ameaçar árbitros à entrada dos balneários, pais descontrolados a ameaçar treinadores (porque o seu filho só jogou 3 minutos!!), pais a retirar crianças do campo quando a prestação dos filhos não lhes está a correr de feição, pais a criticar a alto e bom som o rendimento de colegas dos seus filhos à frente dos seus pais. Para outros, a participação desportiva do seu pequeno rebento é encarada como a única oportunidade para escalar o monte do Evereste que é a sociedade portuguesa.

Os olheiros andam aí. Há que gabar a cesta para que ela finalmente se venda. Com os olhos postos no Prémio se um dia o rapazote vier a vingar neste mundo cão (facto que acontece na razão de 1 em 100000000000) para certos pais, a actividade desportiva do seu filho é um vale tudo. Leram bem: um vale tudo. Vários são os que diariamente me pedem um olheiro à medida das simpatias clubistas. Eu bem tento retorquir, com alguma ironia (que nem todos entendem), que para se chegar ao Benfica ou a um Sporting não basta partir a jarra lá de casa com um pontapé de bicicleta.

É preciso muito mais que isso, mas eles não querer crer! 

 

Uma generosa fatia dos comportamentos que vou vendo por esses campos vem de pais que não fazem a mínima ideia do sofrimento, do constrangimento e até dos traumas (que se irão reflectir na personalidade do futuro indivíduo, provocando aquilo a que chamamos profundas falhas de carácter) que provocam nos miúdos com as suas atitudes. Há pais que não compreendem que uma atitude motivada pela performance do filho, que a desvalorização do desporto enquanto uma ferramenta de mero divertimento, que a valorização do desporto como uma forma de ascensão social, e que a incorrecta pressão que incutem sobre o rendimento desportivo dos seus filhos ou sobre a gestão que é feita por treinadores e dirigentes são atitudes que passam naturalmente para os comportamentos destes.

 

 

João Branco

(blogue O MEU CADERNO DESPORTIVO)

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Convidada: RITA PIRES

por Pedro Correia, em 22.11.17

 

Das músicas que enfeitiçam

 

 

«Índio do queixo torcido 

Que se amansou na experiência 

Eu vou voltar pra querência 

Lugar onde fui parido.» *

 

Música.

Um mundo muito relativo. Cheio de opções e de estilos. Pessoal e, quase, intransmissível. O que gostamos hoje pode não ser aquilo de que gostávamos há um, cinco ou dez anos. Ou então pode e mantemo-nos fidelíssimos a uma ou outra, em particular, durante anos a fio. 

 

Gostamos de uma porque a ouvimos no momento certo. Gostamos de outra porque a ouvimos no momento errado. Não nos esquecemos daquela porque era a que tocava na rádio quando nos levantávamos para ir para a escola e os nossos pais conversavam à janela, apanhando o primeiro ar da manhã, minutos antes de também saírem de casa para trabalhar.

Queremos voltar a ouvir a outra porque precisamos de chorar o mesmo choro de há uns anos, quando descíamos a rua e passávamos no lugar onde conhecemos um amor já perdido.

Gostamos de uma porque nos faz vibrar exactamente da mesma maneira que vibrávamos quando tínhamos 20 anos e o mundo era um lugar sem fim e até o impensável era possível.

Escutamos outra porque nos traz uma existência onde a tristeza não existe. E pomos outra a tocar justamente porque precisamos de sentir uma percentagem dessa tristeza. 

 

 

 

Qual é a probabilidade de encontrarmos a música certa para nós?

Aquela mais consistente, que nos encaixa no ser, ou a outra mais emotiva que fala de nós, em determinado momento, sem que quem a criou nos conheça ou venha a conhecer? 

O que faz uma pessoa ligar o rádio, em casa para cozinhar ou no carro antes de rumar ao trabalho, no exacto momento em que Aquele som está no ar?

O que faz outra pessoa vaguear na Internet e encontrar aquela outra música que nunca ouviu em lugar nenhum? 

 

Foi algo parecido que me sucedeu com a música que ilustra este post. Julgo, até, que pode muito bem ter sido neste mesmo blogue o local onde a achei. E depois o mundo virtual tem destas coisas. Pesquisam-se mais músicas, escutam-se entrevistas.

Não desfazendo o autor da letra, sublinho quem a interpreta. Vítor Ramil, uma tranquilidade capaz de fazer viajar para a mais doce nuvem de algodão. Há muitas outras músicas das quais gosto, sem dúvida. Mas gostar desta é pessoal e – definitivamente – intransmissível.

 

* Poema de João da Cunha Vargas, musicado por Vítor Ramil.

 

 

Rita Pires

(blogue CENAS TIPO)

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Convidado: ANDRÉ ABRANTES AMARAL

por Pedro Correia, em 20.11.17

 

Das imagens que criei de certos escritores

 

 

“Gostava de livros mas não gostava de escritores

Rubem Fonseca, A Grande Arte

 

Foi em Junho no Chiado. Estava imensa gente em frente à Brasileira e eu tive de me pôr em bicos dos pés para ver Mário Soares, que nessa altura era Presidente da República e que estava no Chiado, em frente da Brasileira, no meio daquela gente imensa a inaugurar a estátua do Fernando Pessoa.

Eu olhava para a estátua do Fernando Pessoa sentado à mesa e de perna cruzada e achava que quem o tivesse visto ali verdadeiramente sentado a ler ou a escrever ou a beber café ou o que fosse, nem que fosse esperar, teria presenciado a história. Eu via uma estátua; alguém tinha visto a pessoa.

 

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Mais tarde, não muito mais tarde só que naquela altura pouco era muito tempo, estávamos na Place Saint-Michel e eu e os meus pais soubemos pela primeira página de um jornal pendurado num quiosque, já não me lembro muito bem mas penso que era o Libération, que Georges Simenon tinha morrido.

A fotografia a preto e branco dum homem com um cachimbo, na primeira página dum jornal naquela praça perto do Quai des Orfèvres, é a que me vem à memória quando pego num Maigret. Pessoa foi uma estátua numa esplanada, Simenon uma foto num jornal preso num grampo dum quiosque.

 

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Anos antes, em frente à Barata havia uma banca de jornais, daquelas que eram caixotes de madeira encostados às paredes dos prédios onde estavam os jornais e as revistas para serem vendidos, e foi pelas primeiras páginas desses jornais pousados em cima dum desses caixotes de madeira encostados às paredes dos prédios, naquela altura como era de tarde os vespertinos desse dia, que soube da existência do José Gomes Ferreira. Soube da existência do José Gomes Ferreira quando ele tinha deixado de existir. Não tinha idade para mais e o homem tinha morrido naquele dia. Ainda nessa tarde cheguei a casa da minha avó que comentou com os meus pais então souberam do José Gomes Ferreira? Vivia perto de vocês. Ao que parece vivia perto de nós e eu não sabia. Ainda hoje lá está a placa. José Gomes Ferreira, além dos livros, mas todos os escritores são alguma coisa além dos livros, tornou-se na placa presa na parede do prédio dizendo a quem passa e não olha para ela que ele viveu ali até àquele dia em que eu soube da sua existência pelas capas dos vespertinos que eram vendidos em cima de caixotes de madeira, frente à Barata.

 

Vamos agora avançar um pouco mais no tempo até uma noite em que eu subia a Avenida da Igreja e me cruzei com José Cardoso Pires. Reconheci-o e, apesar de ter disfarçado, ele deve ter reparado porque quando me viu afastou logo o olhar. Continuei a subir e ele a descer até que ganhei coragem e olhei para trás e vi-o: um vulto que desaparecia na noite enquanto descia a avenida que eu subia. Quando mais tarde li O Delfim ou a Balada da Praia dos Cães, um vulto na noite a descer a avenida era a imagem que me vinha à mente.

 

Deparei-me com outros escritores, alguns nas apresentações dos seus livros outros que vou conhecendo, mas esses perdem o fascínio criado pelas palavras que escreveram. E não é só isso. A magia tem também que ver com a idade. A idade que temos e a idade que eles têm. Ou tiveram. A diferente geração a que nós e eles pertencemos. José Gomes Ferreira, nascido em 1900, ou Cardoso Pires em 25, não têm nada a ver com António Lobo Antunes, nascido em 42. Este estava na feira do livro numa tarde de chuva a conversar com Lídia Jorge, e está bem, era ele e era ela e estavam lá. Pelo menos para mim é assim que para quem tenha agora 10, ou 20 anos, talvez possa ser diferente. Mas quem tem hoje 10 ou 20 anos também não ficou a saber quem era José Gomes Ferreira quando estava em frente da Barata a ver as primeiras páginas dos vespertinos deixados em cima de caixotes de madeira à espera que lhes pegassem.

 

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E depois houve Agostinho da Silva. A minha mãe dava consultas ali muito perto do Príncipe Real e via-o quase todos os dias a tomar café, pois tomavam café no mesmo café no Príncipe Real. Ela via-o quase todos os dias e um dia disse-me que se eu quisesse ela um dia falava com ele e dizia-lhe que eu gostaria de conversar com ele um dia. Eu disse que sim, ela falou-lhe e ele disse que sim também. E encontrámo-nos. Foi numa manhã de Abril na Travessa do Abarracamento de Peniche que eu bati à porta e falámos. Uma manhã inteira nisso, numa conversa sobre Deus, sobre Portugal, sobre os Portugueses, sobre a liberdade, sobre como um político deveria ter a humildade por implorar para não ser candidato, sobre o coitado do Belmiro que só tinha responsabilidades e não era livre, sobre o número de contribuinte que ele recusava ter, sobre aquela frase do homem não ter nascido para trabalhar mas para criar que é uma frase mas também uma forma de estar na vida. Tudo aquilo que Agostinho da Silva dizia nessa altura ele conversou comigo nessa manhã.

Agostinho da Silva não era propriamente um escritor como os de cima, mas um filósofo, um filósofo que se calhar está para Portugal como Paul Ricoeur deve estar para a França. Foi alguém que conheci, a quem apertei a mão, com quem falei e que soube quem eu era. E se outros viram Pessoa sentado no Chiado, eu estive com um dos que melhor o estudaram entrando dessa forma nesta pequena história que escrevi sobre como, se estivermos atentos, acabamos por viver a história.

 

 

André Abrantes Amaral

(blogue O INSURGENTE)

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Convidada: RAQUEL SANTOS SILVA

por Pedro Correia, em 17.11.17

 

Breakfast at Tiffany's Revisited

 

Na cena de abertura do filme Breakfast at Tiffany's, Holly Golightly observa apaixonadamente o interior da sua loja favorita, a tranquilidade e o esplendor do ambiente da joalharia, enquanto saboreia um croissant e um café como pequeno-almoço, como é seu ritual todas as manhãs.

 

 

notícia avançada há dias sobre a abertura de um café na Tiffany's & Co., tornando finalmente possível o sonho de muitos fãs de tomar o pequeno-almoço na joalharia, fez-me revisitar esta semana esta pequena mas intensa história que Truman Capote criou e Blake Edwards adaptou ao cinema.

O charme da Tiffany's acompanha toda a construção da personagem de Holly Golightly. Nada de mal pode acontecer na Tiffany's, um lugar onde os diamantes brilham, as pessoas são simpáticas e felizes e onde todos os sonhos se podem concretizar. Mesmo que Holly, no livro de Capote, seja radicalmente diferente da sua criação hollywoodesca com o charme e a simplicidade de Audrey Hepburn. Mesmo que, no livro, seja uma verdadeira Boneca de Luxo, com uma máscara ainda mais credível de deslumbre e sedução.

 

 

Há qualquer coisa em Holly que nos faz adorar a sua beleza, a sua ingenuidade, e ao mesmo tempo odiar a sua aparente altivez e poder sobre os homens. Quando a conhecemos melhor e nos apercebemos de que não passa de uma mulher insegura, só, à procura do seu lugar no mundo, sentimos que nos identificamos um pouco mais com esta sua fragilidade muito humana e deixamo-nos facilmente apaixonar por ela. Uma personagem anónima, sem passado e sem futuro, à espera de ser salva - tal como o gato alaranjado que acolhe em casa, sem um nome para o identificar para além da sua condição no mundo, como "gato".

Tanto Capote como Edwards nos deixam na dúvida sobre a verdadeira identidade desta mulher misteriosa com quem o narrador Paul (que ela chama de Fred por se assemelhar ao seu irmão), visivelmente homossexual no livro, se cruza, e por quem este se apaixona no filme - entre tantos homens ricos e poderosos, é um escritor pobretanas, tão humano quanto Holly, que ternamente se propõe a conhecê-la melhor e a retirar-lhe a máscara. Será Holly uma prostituta, uma socialite nova-iorquina, um membro da Máfia ou apenas uma rapariga em busca da sua identidade? Todas as hipóteses são válidas, e é nessa ambiguidade que reside a genialidade de Capote.

Se o livro nos deixa com este friozinho na barriga pela sensação estranha que Holly traz consigo só por passar em breves 100 páginas na nossa vida literária, mas de forma tão intensa... o filme deslumbra-nos de uma forma totalmente diferente, com um final romântico e arrebatador que cai tão bem na atmosfera psicologicamente densa da vida de Holly.

É sempre bom revisitar uma história que nos diz muito e que se mantém tão actual, nos anos 40 do livro, nos anos 60 do filme e nos dias de hoje. Uma sociedade que nos torna cada vez mais impessoais, desligados, anónimos no meio de tantos outros, e sobretudo perdidos num mundo em que nos identificamos cada vez mais com os gatos: independentes, falsamente altivos e cada vez mais inseguros na nossa fragilidade. Mas a Tiffany's agora tem um café onde todos podemos conhecer a sensação de Holly Golightlu ao entrar naquele espaço e comer o seu croissant com cafés matinais. E o mundo parece um bocadinho mais bonito só por causa disso. Na Tiffany's nada de mal nos pode acontecer e todos os sonhos do mundo se podem concretizar.

 

 

 

 

Raquel Santos Silva

(blogue LEITURAS MARGINAIS)

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Convidado: JOAQUIM A. RODRIGUES

por Pedro Correia, em 15.11.17

 

Há sempre qualquer coisa

 

Numa das suas mais sublimes canções, José Mário Branco canta: “Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber, porquê não sei, porquê não sei, porquê não sei ainda.” A canção chama-se “Inquietação”, e inquietação é o que se sente quando se tenta perceber o que “está p'ra acontecer” no mundo.

 

A crise sistémica global que se seguiu ao estoiro, em Setembro de 2008, do Lehman Brothers deslocou o centro de gravidade do planeta para a Ásia. A classe média asiática acaba de ultrapassar a soma da classe média norte-americana com a europeia.
Estes ganhos e perdas estão a causar sarilhos em todo o lado. As classes médias dos países ascendentes lutam por mais infraestruturas e serviços públicos e as classes médias em perda, no ocidente, protestam contra os cortes e fazem crescer o voto populista e iliberal.
 

 

 

 

Isto é o que tem estado a acontecer desde 2008. Olhemos agora para o que não está a acontecer.

 

Em primeiro lugar, não está a acontecer inflação, como era costume quando os bancos centrais faziam injecções maciças de liquidez. Em segundo lugar, apesar de todas as tensões sociais, políticas e geo-estratégicas causadas pela crise, não houve nenhum fechamento do comércio internacional. O motor mental do livre-comércio e da convertibilidade das moedas permanece pujante.
A globalização e o seu fluxo de pessoas, conhecimento, ideias, mercadorias, capitais, vai prosseguindo imperturbável. Isto apesar do bulício dos micro-nacionalismos que querem desenhar novas fronteiras mas, paradoxalmente, precisam de um mundo sem elas.

 

Por exemplo, as movimentações dos curdos e dos catalães (que fizeram referendos independentistas na mesma semana) só acontecem porque existe o mercado global: os curdos dependem da venda do petróleo de Kirkuk e os catalães necessitam da “independência sem fronteiras” fornecida pela União Europeia e pelo BCE.
 
 
Nota:
Este texto deve muito a "O Fim do Poder", de Moisés Naím,
e a "A Era do Imprevisível", de Joshua Cooper Ramo

 

 

Joaquim Alexandre Rodrigues

(blogue OLHO DE GATO)

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Convidado: AUGUSTO MOITA DE DEUS

por Pedro Correia, em 13.11.17

 

Aprender e compreender

 

Há assuntos delicados de abordar e um deles é o racismo, tema que tem ganho crescente notoriedade na opinião pública nacional em tempos recentes, nomeadamente através de uma série de artigos no Público, bem como devido a notícias como a da polémica em torno da estátua do Pe. António Vieira, ou o caso dos seguranças do Urban Beach. É um tópico que continua na ordem do dia nos EUA, mesmo através de ângulos surpreendentes. Veja-se a revelação recente de campanhas especiais de agitação da opinião pública americana envolvendo Pokemons Go, orquestradas a partir de São Petersburgo. Para além de delicado, este é um tema arriscado, pois ao falar pode-se desencadear o tipo de reacções que se pretendem minorar, numa espécie de efeito boomerang. Mas falar é importante. Compreender é fundamental.

 

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Existe racismo em Portugal? Claro que sim. Como o combater? Pelo desenvolvimento duma cultura de hiper-consciencialização racial? Será que não pode dar-se o azar de termos uma espécie de gato de Schrödinger, em que ao abrir a caixa de Pandora da polémica racial, podemos estar a matar o dito gato? Nos EUA faz-se a categorização das etnias (African American, Hispanic, White, Native American, etc) e isso até pode ter uma boa intenção subjacente, mas tais medidas consciencializam algo que deveria ser tão irrelevante e opaco para a nossa interacção mútua quanto o nosso grupo sanguíneo.

 

Há medidas de carácter proactivo que podem ser tomadas? Claro que sim, mas de preferência atacando os problemas na raiz e não de uma forma superficial, skin deep. Veja-se por exemplo as condições de aprendizagem das populações mais desfavorecidas. Não sou sociólogo, mas é óbvio que há desigualdade de oportunidades para a generalidade das populações de certos bairros, independentemente da origem étnica (com diferentes incidências, admita-se). Trata-se na base de uma questão em larga medida de natureza económica. Esses miúdos têm acesso a boas condições de estudo, apoio escolar, ou um ambiente em casa que favoreça a aprendizagem? É também um problema de organização escolar, visto que os estabelecimentos de ensino desses bairros têm de lidar com problemas complexos (de segurança, por exemplo), que dificultam o cumprimento da sua missão educativa.

 

Mas existe também um problema de compreensão e de crença: não tenho estatísticas para citar, mas tenho fortes suspeitas que, a montante, professores das escolas dos bairros desfavorecidos frequentemente deixam de acreditar nos seus alunos, esquecendo-se que cada nova geração de crianças e jovens que recebem no início do ano é… isso mesmo, nova, uma multidão de pedras preciosas em bruto, cada uma delas um potencial caso de sucesso escolar e pessoal. A educação é uma batalha que se trava corpo-a-corpo, aluno-a-aluno. Cada aluno é diferente, não se podendo generalizar a partir de eventuais maus resultados anteriores. Por outro lado, a jusante, quando aparecem jovens que têm propensão para os estudos, o que sucede? O que dizer da pressão de grupo sofrida para que esses jovens não se destaquem nas notas? Noutros casos, em especial no caso das raparigas, será que é fácil estudar quando ao fim dum dia de escola, a tarefa principal é cuidar dos familiares mais novos? Quem defende e ajuda estes jovens?

 

O que nos traz de volta à questão económica, que condena certos bairros ao ostracismo social, o que obviamente entronca no racismo, pois a percentagem dos grupos étnicos varia de bairro para bairro e as decisões respeitantes a esse tipo de profiling já foram tomadas infelizmente há muitos anos atrás. Neste respeito é contudo útil observar certas subtilezas. Hoje em dia dizer uma piada racista suscita uma reacção imediata das redes sociais e da opinião pública em geral, e bem. Mas o que dizer daquelas graçolas que dão uma conotação negativa a certas zonas economicamente mais deprimidas? Por que isso não é igualmente denunciado? Há uns tempos alguém dizia que a Madonna numa certa foto parecia uma cabeleireira da Damaia. Se fosse uma cabeleireira de Oeiras, já não teria piada, certo?

 

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A questão não é censurar o humor, mas sim compreender porque é que para algumas pessoas isso sequer tem graça. Aliás, um caso ainda mais notável eram as constantes chalaças em torno do facto de Pedro Passos Coelho morar em Massamá e passar férias na Manta Rota. Se ele morasse na Quinta da Marinha e fosse a banhos na Quinta do Lago, isso nem sequer era assunto.

 

Em suma, na questão do racismo é preciso atacar as causas de fundo, económicas, educacionais. Dar oportunidades e mudar mentalidades. Urge aprender e compreender.

 

 

Augusto Moita de Deus

(blogue 31 DA ARMADA)

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Convidado: DAVID MARINHO

por Pedro Correia, em 10.11.17

 

Newton à portuguesa, século XXI

 

A terceira lei de Newton diz-nos que qualquer acção tem uma reacção com a mesma intensidade e direcção, no entanto, em sentidos apostos. Ora, aplicando estupidamente esta lei ao que aconteceu no Urban Beach, parece-me que peca por tardia.
É que, após dezenas de queixas-crime por violência ou actos discriminatórios no Urban Beach, foi preciso um vídeo, violentamente gravado na vertical, fazer despoletar uma acção política sobre esta casa de diversão nocturna. Impressionante como o facto de chegar a mais gente faça mover as opiniões e as ações definitivas para as coisas, não bastando o assunto em si, porque é preciso causar ruído. E coisas como o Urban existem ao pontapé na política portuguesa (falando nesta, claro), porque nunca se soa um alarme se a casa não ardeu por completo. É esta a estratégia que devemos tomar? Envergonhar as instituições e/ou pessoas na praça pública para que se calem com a solução do problema?
E agora sei o que vai acontecer. Os seguranças privados irão para uma reunião admitir que a vida está difícil, farão greve se for preciso, as discotecas/bares, etc não poderão abrir e daqui a qualquer coisa como dois meses aparecerá a notícia a dizer que o negócio da noite está a cair a pique. E com isto aproveita-se um célebre sketch dos Gato Fedorento, o "Lusco-Fusco" que serviria para colmatar o problema da noite, e assim eles voltam à ribalta. Com jeitinho ainda dizem que são como os Simpsons, que prevêem coisas e que elas se tornam ridiculamente iguais. É isto, não é? (E com isto previ eu o futuro e receberei os louros por isso. Se não acontecer, esqueçam, está bem?).
O meu ponto é: a violência, seja ela qual for, deve ser punida e é punida por lei. Não têm de bater duas ou três vezes até acontecer, deve-se actuar logo. E actuar significa, antes de tudo, haver queixa, seja de quem vê, seja de quem leva. Nada disto é científico e até percebo a questão das represálias que podem advir da queixa por parte do agressor e que a violência seja maior a partir daí. Mas a política, a discussão pública, deve incidir na segurança que devemos ter todos quando nos queixamos, e que a acção sobre a mesma deve existir desde o momento que é provado (porque na maioria das vezes é fácil de provar).

 

 

David Marinho

(blogue DOMINGO À TARDE)

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Convidada: MARGARIDA C. AGUIAR

por Pedro Correia, em 08.11.17

 

Envelhecimento demográfico, um desafio à inovação

 

Nas economias mais desenvolvidas, o fenómeno do envelhecimento demográfico é uma realidade inexorável que está a entrar, cada vez mais, pela casa adentro. Por cá, o assunto não tem merecido a atenção que exige, não apenas pela dificuldade que temos demonstrado de descolarmos do curto prazo, mas também pela falta de visão necessária para o desenho de políticas públicas com objectivos que no médio e longo prazos operem os efeitos desejáveis.

O envelhecimento demográfico é considerado por muitos um problema para o futuro. E não deixa de ter razão quem assim pensa numa sociedade que não é capaz de pensar de forma diferente. A primeira transformação a fazer é cultural. Não sendo possível inverter o envelhecimento demográfico, o que verdadeiramente importa é sermos capazes de encontrar soluções que se adaptem às novas realidades.

Com efeito, o fenómeno do envelhecimento não é novo – todos sabemos. Os números são sobejamente conhecidos e as projecções têm uma probabilidade elevada de se concretizarem, bastando para tal olhar para o passado e o presente. Há muito que a estatística nacional e que estatísticas e estudos de instâncias e centros de investigação europeus vêm chamando a atenção para as trajectórias inversas da curva de natalidade e da curva de longevidade. A primeira em movimento descendente e a segunda, pelo contrário, em movimento crescente. A população total está a reduzir-se e estamos a envelhecer. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo. Os números não oferecem dúvidas. Estes, ao contrário de muitos outros, não têm discussão.

 

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Vivermos mais tempo é motivo para nos deixar mais felizes. Seria expectável que esta perspectiva de bem-estar nos obrigasse a pensar e a actuar no sentido de criarmos condições para que a boa notícia do aumento da esperança de vida possa ser vivida com dignidade e qualidade de vida.

Políticas públicas e sociedade civil deveriam conjugar esforços para remar ambas para o mesmo lado, complementando-se e articulando-se na definição de estratégias nacionais integradas e transversais, intertemporalmente consistentes, fortemente apostadas no investimento na inovação, identificando caminhos para os quais deve ser canalizado o esforço.

É muito importante que as populações tomem consciência do envelhecimento. Não basta saberem que vivem mais anos: é fundamental que compreendam as políticas públicas do envelhecimento e participem nelas, se organizem enquanto sociedade civil, de modo a criar um clima favorável às transformações da economia e organização social. Temos toda a vantagem em sermos protagonistas da mudança. Antecipar caminhos, dispor de uma estratégia para lidar com as boas e as más notícias é a única via. O pior que nos pode acontecer é o futuro bater à nossa porta e não estarmos preparados para o receber.

 

Portugal não está ainda preparado para a complexa realidade trazida pelas alterações demográficas, com reflexos, entre outros, na economia, nos hábitos de poupança, na equidade intergeracional, na gestão do ciclo de vida, na organização do trabalho e da sociedade, no emprego, na ocupação do tempo e no entretenimento, nas redes familiares e sociais.

O envelhecimento demográfico tem impactos significativos na despesa pública com os sistemas de pensões e de cuidados de saúde ou na gestão da dívida pública.

Com a população activa a reduzir-se, temos pela frente um desafio superior que é o de sermos capazes de aproveitar as capacidades das pessoas mais velhas, contribuindo não apenas para melhorar a produtividade, mas também para humanizar a sociedade, erguendo pontes entre as gerações mais novas e as gerações mais velhas.

O caminho passa por as populações dos países envelhecidos tomarem consciência da relação entre a solução dos problemas criados pelo envelhecimento e a existência de uma cultura pró-inovação. Portugal está dentro deste "barco". Está em causa uma transformação cultural que, evidentemente, se vai fazendo. Mas precisamos de agir com antecedência, de modo a, com tempo, nos organizarmos.

 

 

Margarida Corrêa de Aguiar

(blogue QUARTA REPÚBLICA)

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Convidado: PEDRO AZEVEDO

por Pedro Correia, em 02.11.17

 

O valor dos actos

 

As Farpas foram publicações assinadas por Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz entre 1871 e 1872, e somente pelo primeiro até 1883.
 
Esta prosa, um inovador conceito de jornalismo para a época, trouxe novas ideias e uma admirável crítica social.
 
Naquilo que era uma sátira “política, das letras e dos costumes” destacou-se Ramalho Ortigão. Sobre o mérito, Ramalho afirmou que "ninguém é grande nem pequeno neste mundo pela vida que teve, pomposa ou obscura. A categoria em que temos de classificar a importância dos Homens deduz-se do valor dos actos que praticam, das ideias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes”.
 
Vem isto a propósito de um estudo de 2015, extraído de uma analise a seis empresas, desenvolvido por oito investigadores e promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que concluiu que o mérito não tem grande relevância na evolução profissional dos portugueses. No mesmo trabalho são indicados como preponderantes para o sucesso factores como as ligações pessoais, a partidos políticos e, pelo menos num dos casos, a organizações católicas e a associações secretas.
 
Dá que pensar!
 
Acreditando eu que os homens são todos iguais aos olhos de Deus e que a salvação é a Sua graça, não deixo de achar relevante a obra que realizamos na nossa curta passagem por este mundo. Como dizia o Marquês de Maricá, “os homens sem mérito algum, brochados de insígnias e de ouro, são comparáveis aos maus livros ricamente encadernados”.

 

 

Pedro Azevedo

(blogue ÉS A NOSSA FÉ)

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Convidado: JOSÉ MANUEL FARIA

por Pedro Correia, em 31.10.17

 

Medidas urgentes de combate aos fogos

 

Dezenas de anos de políticas de abandono das florestas. Dezenas de anos de subordinação dos governos de direita e de esquerda às celuloses.
  
O povo está chocado e indignado com as tragédias que se abateram sobre diversos concelhos do interior do País a 17 de Junho e 15 de Outubro, e que horrorizaram e enlutaram o País. É o resultado de dezenas de anos de políticas de abandono das florestas e de desprezo pelas populações rurais, de políticas de desordenamento e desertificação do interior, de políticas de desmantelamento dos serviços públicos (Serviços Florestais), de políticas de floresta “desenhadas” à medida e no interesse das celuloses — por parte dos sucessivos governos.
Estes sucessivos governos, de direita e de esquerda, são os principais responsáveis.
 
Pode-se aceitar que se subordine o património florestal, aos interesses das celuloses, colocando, inclusivamente, em risco os bens e a vida das pessoas? Não. Os interesses das populações e a vida das pessoas estão em primeiro lugar!
O que se espera dos deputados é que, com carácter de urgência, deliberem no sentido de exigir ao Governo de António Costa que assuma o compromisso escrito, visando:
‣ Suprir, até ao final de 2017, os recursos financeiros, a todas as populações atingidas, que lhes permitam reconstituir, integralmente, o respectivo património, total ou parcialmente, destruído;
‣ Reabertura dos serviços públicos encerrados, nas cidades e vilas do interior;
‣ Medidas que garantam o escoamento dos produtos agrícolas e florestais a preços justos, nomeadamente do material lenhoso queimado;
‣ Revogação da lei que liberaliza a plantação de eucaliptos;
‣ Proibição do aumento da área de eucaliptal; 
‣ Atribuição da propriedade e gestão, tanto dos baldios como dos terrenos abandonados, às comunidades locais, para seu usufruto exclusivo;
‣ Proibição da permuta de eucaliptais ou de qualquer outra forma de concentração;
‣ Criação de incentivos compensatórios aos produtores florestais que plantem espécies autóctones, resistentes ao fogo, para protecção dos bens e da vida das populações; 
‣ Abertura de corredores de acesso às florestas e criação de faixas de protecção entre a floresta, as estradas e o meio urbano;
‣ Reactivação dos Serviços Florestais, repondo os efectivos do corpo de guardas florestais, recolocando-os no terreno em acções de prevenção, fiscalização e vigilância;
‣ Criação das equipas de sapadores florestais em falta e construção/reparação das redes viárias primárias e secundárias que garantam, às populações, acessibilidades em segurança.

 

 

José Manuel Faria

(blogue RUPTURA VIZELA)

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