Lobo Xavier, a quem desejo rápidas melhoras (desejo mesmo: não se deve querer o mal dos outros e além do mais aprecio quase tanto a pessoa como detesto a personagem política) apanhou a Covid. Hoje soube-se que, aparentemente, não infectou ninguém na reunião do Conselho de Estado de 29 de Setembro, um órgão criado para o Presidente da República fingir que ouve várias correntes da sociedade civil e da elite, e os teóricos representantes desta para fingirem que sabem o que uma é e que pertencem à outra.
A reunião foi na terça-feira passada e nela estava Ursula von der Leyen para dizer coisas pias, uma etapa no seu tour da União com aquele meritório propósito.
Lobo Xavier soube que era pestífero no domingo dia 4, disso informou a Presidência, e os presentes na reunião, avisados, correram a fazer testes. Marcelo não, que já tinha feito. Cidadãos preocupados, aliás, cientes de que Marcelo é hipocondríaco, suspeitam que é pouco provável que apanhe a Covid, sortudo como é, mas não é de excluir que à força de esgaravatar as fossas nasais ainda venha a ter um problema do foro otorrinolaringológico.
A menos que ainda venha a aparecer outro infectado tudo acabou portanto em bem.
Ontem porém era dia de a classe política abrileira se comemorar e às imaginárias conquistas do republicanismo e Marcelo, pela quarta vez, orou as mesmas irrelevâncias dos três anos anteriores, com o costumeiro discurso cheio de mensagens e recados para os outros pastores da grei. O autarca da capital achou que também tinha coisas a comunicar (uma impossibilidade ontológica – Medina é capaz de falar mas não de dizer seja o que for que valha a pena ouvir) e os partidos políticos, dentro da tradição, censuraram ou aplaudiram o discurso com o paleio de chacha que usam para estas marés.
Sucede que a assistir à elocução marceliana estava o PM, o presidente da AR, os quatro presidentes dos tribunais superiores e cinco vereadores da Câmara de Lisboa, tudo gente estimável que desperdiçou a oportunidade de não pôr ali os pés.
Ursula não estava nem tinha de estar (coitada – que estopada deve ter sido a reunião de terça com o incontinente Marcelo) mas, se calhasse fazer sentido participar das cerimónias, não compareceria porque, segundo os regulamentos em vigor, se isolou até hoje – diz a própria.
Temos portanto regulamentos em vigor que se aplicam a toda a gente, Frau Ursula incluída, mas não ao nosso Presidente, nem ao nosso Primeiro-ministro, nem ao presidente do Tribunal Constitucional.
Não os censuro. Eles sabem, eu sei, e toda a gente com um mínimo de discernimento percebe que quem fez um teste com resultados negativos não tem, senão por um excesso de cuidado, de se autoisolar à espera de fazer um segundo.
E depois, se as autoridades acham que os direitos constitucionalmente garantidos podem ser torpedeados em homenagem ao cagaço que induziram nas pessoas comuns, não parece excessivo que leis e regulamentos possam sofrer um ligeiro entorse se quem as faz se exime ao seu cumprimento em nome da festa do regime.
Dito de outro modo: quem pode o mais pode o menos. Ursula, provavelmente, não entenderia o raciocínio. Diabo de alemã.