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Delito de Opinião

Cá está ele

Pedro Correia, 25.02.24

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Ontem à noite participou num debate na CNN Portugal. Com deputados de outros cinco partidos políticos. Sobre uma triste efeméride: o segundo aniversário da agressão russa à Ucrânia, com o seu brutal cortejo de mortos, mutilados, desaparecidos, violações, pilhagens e destruição de todo género. A maior invasão de uma nação europeia por um país vizinho desde a II Guerra Mundial - réplica exacta do que Hitler fez à Polónia em 1939 mal selou o pacto de amizade com Estaline.

Fixem-lhe a cara e o nome: chama-se João Pimenta Lopes, é representante do PCP no Parlamento Europeu. Foi um dos escassos deputados que se puseram ao lado do ditador Putin, recusando condenar a Rússia na eurocâmara. A 1 de Março de 2022 - cinco dias após a invasão, quando os blindados russos se encaminhavam para Kiev e os mísseis de Moscovo matavam dezenas de civis. A resolução foi aprovada por esmagadora maioria: 637 votos favoráveis, 16 abstenções e 13 miseráveis votos vontra - incluindo o de Lopes e da sua camarada Sandra Pereira.

Convém não esquecer. Faltam três meses para as próximas eleições europeias. Quem nos representa em Bruxelas deve ser avaliado - e chumbado - também por isto.

O MRPP está irreconhecível

Legislativas 2024 (10)

Pedro Correia, 22.02.24

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Ando muito desactualizado. Noutros tempos o MRPP era uma força de vanguarda contra o social-imperialismo soviético e contribuiu para travar o passo à sucursal portuguesa do Partido Comunista da URSS. 

Agora o MRPP-Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses tem um líder que aplaude a criminosa invasão da Ucrânia, comportando-se como súbdito do czar Putin e vassalo da plutocracia russa. Em vez de condenar duramente aquele execrável expansionismo, digno de potência imperial com direito de pernada sobre os povos vizinhos, vem justificá-la. Anteontem, num debate na RTP, entoou hossanas à actualização da doutrina da "soberania limitada" dos anos Brejnev que esmagou as insurreições na Checoslováquia e na Polónia. 

«A guerra da Ucrânia é uma guerra civil. Uma parte substancial do lado russo são ucranianos. (...) Porque é que boicotamos a Rússia? Porque é que deixámos de comprar gás à Rússia? Há uma consequência na inflação», disse o primeiro candidato por Lisboa deste partido da extrema-esquerda. Qualquer amanuense do ministério russo dos Negócios Estrangeiros bolçaria coisa semelhante.

O antifascismo já não é o que era. E o anti-social-fascismo também não.

Na morte de Odete Santos

Pedro Correia, 28.12.23

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Foto: Global Imagens

 

Quando Odete Santos abandonou por vontade própria a Assembleia da República, em 2007, deputados de todas as bancadas tributaram-lhe uma calorosa ovação em plenário. Acompanhei esse momento e questiono-me se aquela rara unanimidade voltaria a ser hoje possível, fosse quem fosse a figura em causa. Sinto-me inclinado a supor que não: os hábitos políticos mudaram muito, a crispação acentuou-se, as trincheiras foram-se aprofundando.

Odete estava há muito retirada dos palcos mediáticos. Depois do Parlamento, chegou a fazer teatro em Setúbal, cidade adoptiva desta jurista natural da Guarda. Era pessoa de verbo fácil e gargalhada espontânea. Não escondia o que pensava nem temia ser inconveniente, por vezes face ao próprio cânone do PCP, que representou durante 27 anos no hemiciclo de São Bento. «Calma, Odete» era a frase-bordão que lhe dizia o secretário-geral Carlos Carvalhas, ambos caricaturados nos bonecos da divertida e saudosa Contra-Informação da RTP.

Isso ficou patente, aliás, na entrevista que lhe fiz para o Diário de Notícias, a última que concedeu enquanto deputada. 

Quando lhe perguntei se devia haver «mais mulheres» na cúpula dirigente dos comunistas, ela não hesitou um segundo na resposta: «Sim. Deveria haver mais mulheres. Não tenho dúvidas nenhumas.»

 

Sempre simpatizei com ela. Tinha o coração ao pé da boca. Entre ortodoxos e moderados nas fileiras comunistas, alinhava com os primeiros. Mas não por cálculo ou conveniência: era isso o que sentia, era isso o que realmente pensava. Fazia parte da sua maneira de ser e da fidelidade de longa data ao magnético «camarada Álvaro» que a levou à militância no pós-25 de Abril.

No entanto, na rua Soeiro Pereira Gomes nem todos lhe apreciavam o estilo algo dissonante e a popularidade que granjeou fora das paredes partidárias. Odete nunca fez parte dos organismos executivos (Secretariado, Comissão Política), nunca foi líder parlamentar, nunca foi candidata presidencial - ao contrário dos cinzentos e sensaborões António Abreu, Francisco Lopes e Edgar Silva, funcionários diligentes mas totalmente desprovidos de carisma.

Apreciava teatro, cinema, literatura. Era vibrante declamadora de poesia. Gostava de acampar. Nunca fugia a um debate, mesmo com quem estivesse nos antípodas do seu pensamento: permanece na memória de muitos a sua vigorosa defesa de Cunhal, na RTP, como "maior português de sempre" num simulacro de concurso em que emergiu como vencedor Salazar, enaltecido por Jaime Nogueira Pinto. Nem D. Afonso Henriques, nem D. Dinis, nem D. João II, nem Vasco da Gama, nem Camões. A memória histórica é curta, os extremos exercem sobre muitos uma atracção irresistível. 

 

Nessa entrevista que lhe fiz em Abril de 2007, confessava abandonar o parlamento com «uma sensação de alívio». Saudades, só as «do futuro» - parafraseando o "poeta militante" José Gomes Ferreira. Deixando no entanto antever alguma mágoa: sentia que devia ter sido mais bem aproveitada pelo partido que nunca renegou. «Tenho pena de não ter criado condições para fazer trabalho de organização, que é importante.» Por uma vez, ficou-se pelas entrelinhas - aliás facilmente entendíveis.

Lembrei-me de várias ocasiões em que privei com ela - nomeadamente em campanhas eleitorais - ao saber ontem a triste notícia do seu falecimento, aos 82 anos. Era de um tempo em que vultos de diversos partidos se cruzavam nos corredores parlamentares sem confundirem divergência com ódio ou insulto ao adversário. Parece uma era já remota, nestes dias em que abunda o carreirismo político, cada um fala quase só para a sua bolha e as personalidades com voz própria e autonomia profissional estão cada vez mais distantes da vida parlamentar.

Não tenho a menor dúvida: a democracia portuguesa perde com isso.

A coerência dos comunistas

Pedro Correia, 16.05.23

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O PCP é muito crítico da Ucrânia, nação violentada, e mantém uma atitude fofinha em relação à Rússia, potência violadora. Entre outros motivos, justificam os comunistas, porque «não se pode ignorar que o regime da Ucrânia suspendeu a actividade de diversos partidos».

Eis, portanto, um motivo que deveria levar o PCP - geralmente elogiado pela sua inabalável coerência - a criticar a República Popular da China, país onde todos os partidos estão proibidos, como no Portugal de Salazar, excepto o partido único, o do poder absoluto, o que governa aquele país com punho de ferro há 74 anos. 

Afinal a coerência dos comunistas portugueses é como as ondas na praia: vêm e vão. Por isso lá anda o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, em visita de amizade à China, a convite do partido homólogo. O tal partido único, o tal do punho de ferro, o tal que desde 1949 empurrou toda a oposição para a cadeia, o exílio ou a morgue. 

Também em nome da coerência, espera-se que Raimundo faça como o seu antecessor no partido, Jerónimo de Sousa, que numa visita a Pequim em 2013 apelou ao reforço do investimento chinês em Portugal. Não consta que por lá tenha levantado a voz contra a participação chinesa na EDP, através da China Gorges, e na REN, através da Fosun. 

O apelo de Jerónimo aos seus camaradas chineses foi escutado: a República Popular da China é já o quinto país estrangeiro que mais investe em Portugal e o maior investidor no nosso mercado de capitais - a tal «economia de casino» a que aludem os comunistas cá no burgo.

Bom tema de conversa entre Raimundo e os seus amáveis anfitriões à hora do chá.

PCP contra o Papa e a favor de Kim

Pedro Correia, 14.03.23

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15 de Março de 2013, voto parlamentar:

«A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo Sumo Pontífice.»

O PCP recusou votar a favor.

 

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28 de Fevereiro de 2014, voto parlamentar:

«Pela primeira vez, a ONU denunciou crimes contra a humanidade a serem cometidos contra o povo norte-coreano, numa demonstração preocupante e denunciadora da intolerância, da repressão, do ódio e do clima de terror empregues pelo regime de Pyongyang.

A actuação da Coreia do Norte constitui, evidentemente, uma ameaça séria à paz nos limites das suas próprias fronteiras, como representa uma ameaça à segurança regional e internacional. E, por isso, deve merecer uma condenação firme e consensual da comunidade internacional.

Portugal e os povos da Europa têm na tolerância um valor de referência. A demonstração do repúdio e condenação por actos premeditados contra a segurança, a liberdade, a integridade e a dignidade humanas é um imperativo moral constitutivo ou integrante da democracia.

Assim, a Assembleia da República associa-se à Organização das Nações Unidas na condenação dos crimes cometidos pelo regime norte-coreano contra o seu próprio povo e lamenta as vidas perdidas às mãos de um regime autocrático e repressivo.»

O PCP votou contra.

Nítido nulo

Pedro Correia, 07.11.22

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Debate interno? Discussão? Listas em confronto? Votos dos militantes? Esqueçam. Isso são trivialidades dos "partidos burgueses", entretidos com discussões fúteis que não interessam ao zé-povinho. 

No PCP é tudo mais simples. Reúnem-se seis mecos à porta fechada, escolhem um deles que ninguém conhece fora das paredes blindadas do partido e toca a anunciar a boa nova por comunicado aos militantes e ao País às 21 horas de sábado, enquanto decorre um jogo de futebol. Belo exemplo do conceito comunista de "democracia".

O mais caricato, neste opaco processo de remoção de Jerónimo de Sousa de secretário-geral do quinto maior partido português, é a total ausência de biografia do camarada agora ungido para o posto máximo. Um perfeito desconhecido: Paulo Raimundo nunca se candidatou a coisa alguma, nunca exerceu qualquer função à margem da muralha partidária, não tem sequer profissão. Sabe-se que nasceu em Cascais (vila conhecida pela sua aguerrida "militância operária") há 46 anos, aderiu aos 18 à Juventude Comunista (o PCP também tem "jotinhas") e é membro do Comité Central desde 1996 - toda uma vida como funcionário do partido, sua exclusiva entidade patronal. Nunca esteve desempregado, claro. Embora vá perorar vezes sem conta sobre questões laborais quando enfim abrir a boca fora do bunker da Rua Soeiro Pereira Gomes.

Estamos perante um nítido nulo: a escolha perfeita para liderar um partido que se arrasta em penosa agonia de eleição em eleição. Nulidade a tal ponto que os "marqueteiros" comunistas tentaram criar-lhe uma página autónoma na Wikipédia, na própria noite de sábado, sem nada terem para lá pôr. Aquilo acabou por ficar bloqueado e tiveram de apagar o rascunho inicial até aparecer uma coisa mínima em que inventam ao ungido "profissões" que nunca exerceu - padeiro, carpinteiro, operário.

Processo com contornos que envergonham qualquer democrata genuíno. 

E um escárnio para os verdadeiros padeiros, os verdadeiros carpinteiros, os verdadeiros operários. 

Menina não entra

Pedro Correia, 25.10.22

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Entre os 205 membros do Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC) agora "eleitos", reforçando a férrea ditadura de Xi Jinping em Pequim, há só 11 mulheres. Sublinho, por extenso: onze em duzentos e cinco membros. Apenas 5,4 por cento. E na Comissão Política do Comité Central - órgão supremo do partido único, na segunda economia mundial - não existe uma só mulher, entre os 24 vultos ali com assento. O partido-irmão do PCP parece o selecto Clube do Bolinha: menina não entra.

Em 2001, previu-se uma "quota informal", com reserva mínima de um posto feminino em todos os escalões dirigentes da agremiação comunista (incluindo o Governo, sucursal do PCC), excepto na Comissão Política. A que restava - Sun Chunlan, a quem chamavam "Dama de Ferro" - acaba de ser removida.

Tudo isto deveria merecer fervorosos brados de indignação das feministas cá do burgo. Irei esperar por tal coisa. Mas sentado.

Иосиф Виссарионович Сталин

Pedro Correia, 23.06.22

 

«As ideias são muito mais poderosas do que as armas. Nós não permitimos que os nossos inimigos tenham armas, porque deveríamos permitir que tenham ideias?»

Estaline

 

Quase 70 anos depois de morto, Estaline revive de boa saúde nas redes sociais, onde encontrarmos quem lhe teça loas com o mesmo fulgor orgástico de uma Mariana Alcoforado suspirando na cela do Convento de Nossa Senhora da Conceição pelo conde de Saint-Léger.

Não faltam comentários dados à estampa por discípulos espirituais do "Guia Genial dos Povos", responsável apenas por quatro milhões de condenações políticas - incluindo 800 mil execuções sumárias e cerca de 2,6 milhões de internamentos no Gulag - no seu glorioso consulado de três décadas à frente dos radiosos destinos da União Soviética, farol da Humanidade.

Alguns exemplos:

«Estalinismo é um conceito inventado pela direita e pela esquerda que ataca o leninismo.»

«O grande inimigo da pequena burguesia urbana é o camarada Estaline.»

«Construtor do socialismo, artifice da vitória dos povos na guerra contra o fascismo, defenor da independência e da soberania dos povos, arquitecto do comunismo, o maior defensor da paz e da felicidade do homem.

Hossana, camaradas, Hossana. A memória gloriosa do grande Estaline, pai dos povos e libertador de nações, permanecerá eternamente viva no coração dos verdadeiros comunistas.

Em Portugal também.

Os extremos tocam-se

Pedro Correia, 28.04.22

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Os herdeiros de Hitler e Estaline em Berlim, agora agrupados sob as siglas Alternativa Para a Alemanha (extrema-direita) e A Esquerda (extrema-esquerda) uniram-se hoje, no Bundestag, contra a decisão do Governo de enviar armamento pesado para Kiev - medida vital para garantir a legítima defesa da Ucrânia face ao invasor russo.

É enternecedor ver como Vladímir Putin continua a congregar fascistas e comunistas. Os extremos tocam-se.

Felizmente são segmentos minoritários da sociedade alemã, largamente solidária com o martirizado povo ucraniano. A inédita decisão do Executivo tripartido - formado por sociais-democratas, liberais e verdes - mereceu apoio esmagador no Parlamento: 586 votos a favor (incluindo os cristãos-democratas, agora principal força da oposição), 100 contra e sete abstenções.

Tal como naqueles anos de ascensão dos totalitarismos que marcaram quase todo o século XX, a História volta a escrever-se hora a hora à nossa frente. Com posições cada vez mais claras de parte a parte. No futuro lembraremos sempre onde nos situámos, uns e outros, nestes dias. 

Bateu no fundo

Pedro Correia, 23.04.22

Interroga-se hoje o João Miguel Tavares no Público: «Não há por aí um dissidente comunista, só para desenjoar?»

Excelente pergunta. Que coincide com aquela que eu aqui formulei, com menos palavras, faz hoje precisamente um mês: Já terá havido demissões no PCP?

Nem uma para amostra até agora. Escritores, académicos, pintores, actores, filósofos, magistrados, jornalistas, sindicalistas - não há notícia de qualquer demissão em protesto pelo servilismo da agremiação comunista face ao imperialismo neocolonial e supremacista de Putin, agressor da Ucrânia.

O que demonstra até que ponto este partido bateu no fundo.

"Se não pensas outros pensam por ti e tiram-te o poder, pervertem-te e esterilizam-te" - F. Scott Fitzgerald

beatriz j a, 06.04.22
F. Scott Fitzgerald disse, mais ou menos, esta frase e lembrei-me dela a ler um artigo do comunista Pedro Tadeu, Ninguém duvida do massacre de Bucha?, onde afirma que como é muito esperto e tem muita experiência de vida e profissional, sabe que numa guerra ambas as partes desinformam e mentem e por isso é preciso ver os dois lados. 

Se ele tomasse a sério a advertência de Scott Fitzgerald já tinha pensado:

1. Quem invade e ataca é que forja mentiras para justificar o seu ataque ilegítimo. Quem é invadido sem nenhuma declaração de guerra prévia e até com várias garantias (de Putin) de não haver intenção nenhuma de invasão e ser tudo uma histeria do Ocidente não precisa de inventar nada. Não estão no mesmo plano: um é o agressor e outro é o agredido.

2. Quanto a ver os dois lados: um dos lados, o de Putin, esconde-se, mente no seu país, escreve na imprensa de Estado que vai destruir a Ucrânia e nem o nome vai sobrar, não deixa que jornalistas independentes acompanhem as tropas e vejam no terreno o que se está passar, mata jornalistas se os apanha no terreno, não  permite que ninguém saiba o que fazem, prende os da Cruz Vermelha, não permite corredores humanitários, queima os cadáveres para não deixar provas (Anabela Alves, a jurista portuguesa que trabalhou no massacre de Srebrenica e que tem, de facto, experiência deste tipo de agressão é muito clara nos indícios que já são visíveis), deporta civis à força para a Rússia, etc. A outra parte, a de Zelensky, anda com a imprensa atrás, convida jornalistas, procuradores, juristas, independentes, observadores internacionais, deixa os cidadãos filmarem tudo com os telemóveis, deixa entrar a Cruz Vermelha e outras organizações internacionais. Seria difícil, senão impossível, encenarem valas comuns e centenas de mortes com tortura e violações e outras barbaridades, sem ninguém, no meio desta gente toda que anda lá à vontade, ver alguma coisa - para além da obscenidade de acusar os ucranianos de chacinarem o seu próprio povo só para provocarem a Rússia.

3. Quando houve notícia de que soldados ucranianos tinham fuzilado soldados russos, o presidente Zelensky, mesmo sem saber se seria propaganda russa, fez imediatamente sair um comunicado a avisar as suas tropas que deviam cumprir a convenção de Genebra no tratamento dos prisioneiros de guerra ou seriam acusados e julgados. Quando há indícios evidentes (a tecnologia dos nossos dias torna difícil a mentira e o embuste) de que os russos estão a matar indiscriminadamente civis e a queimá-los, para ser difícil identificá-los, Putin apressa-se a dizer que é mentira, que nenhum soldado russo alguma vez tocou num civil ucraniano... total falta de transparência e pendor para a mentira compulsiva até ao ridículo.

4. Os russos já vão na quarta ou quinta narrativa acerca dos massacres nas cidades ucranianas. Entretanto bombardeiam hospitais, igrejas, edifícios onde se abrigam civis, silos de cereais - matar ucranianos à fome é um hábito que vem de Estaline.

Enfim, nem é preciso estar muito informado para reparar logo nestas diferenças de postura e nas inconsistências de Putin, o esconso, que faz tudo às escondidas, pela calada e sempre a mentir.

De facto, os comunistas portugueses não precisam de ser atacados por nenhum partido porque são exímios a acabar consigo mesmos. Ainda nem sequer perceberam que a Rússia há muito que deixou de ser comunista e que Putin entrou para o clube dos déspotas fascistas-imperialistas. Estão contra Zelenski ser convidado a participar numa sessão do Parlamento. Têm medo que Putin se zangue com eles, talvez. Esta devoção religiosa e fanática a um fascista, por parte de quem está sempre a gritar contra o fascismo, se não fosse patética, era só cómica. 

 

publicado também no blog azul

Sem um pingo de vergonha

Pedro Correia, 01.03.22

A criminosa agressão da Rússia à Ucrânia já provocou um êxodo de 660 mil pessoas nestes últimos seis dias, segundo revelou a agência da ONU para os refugiados. Há filas de 60 horas para atravessar a fronteira para a Polónia e de 20 horas para cruzar os postos fronteiriços que ligam o país agredido à Roménia.

Teme-se que o massacre em curso - a que alguns chamam «guerra» - possa gerar o maior fluxo de desalojados em território europeu desde a II Guerra Mundial. Entretanto, os intelectuais orgânicos ligados ao PCP, sem um pingo de vergonha, continuam a disparar em todas as direcções menos contra os fuzis de Moscovo. Como este, que se atreve a perorar sobre a Sérvia e o Iraque enquanto a Ucrânia está em chamas.

O Leal fascista

José Meireles Graça, 26.09.21

Chamar alguém de fascista é um insulto que infelizmente os comunistas degradaram pelo excesso de uso.

Tudo pela Nação, nada contra a Nação, era o mote da seita, que oferecia um modelo completo de governação. Tão completo que, tecnicamente, ninguém é fascista salvo os apaniguados de Mussolini, todos os outros defensores de regimes estatistas subscrevendo diferenças em relação ao modelo original, com características próprias que, nuns casos mais e noutros menos, dele se afastavam.

É o que dizem os entendidos de respeito, que se recusam a classificar o regime salazarista, por exemplo, de fascista. E não dizem os comunistas porque, como o fascismo histórico foi derrotado, e o seu principal estadista pendurado de cabeça para baixo numa praça em Milão, tachar alguém de fascista já implica que defende ideias derrotadas, para além de odiosas.

As palavras, porém, ganham vida própria, e que se danem os rigores históricos e os tecnicismos. E na verdade, se reduzíssemos o fascismo a uma doutrina que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador, quase nenhum regime seria hoje fascista, salvo talvez o chinês; mas se substituirmos nação por humanidade, raça por género, e governo por centrão rotativista, então fascistas há por aí avonde.

Fascista, para um comunista, é todo aquele que defende a liberdade económica e portanto aceita a desigualdade material que daí resulta; e para mim, que não sou menos do que um comunista e tenho igual direito de me borrifar para o rigor dos conceitos, fascista é todo aquele que vê com bons olhos o atropelo de direitos individuais em nome de um bem maior que arbitrariamente define. Dantes era a nação e agora é o que se queira: podem ser os direitos das mulheres e por isso se pretendem estabelecer regras processuais penais diferentes para os crimes contra elas; podem ser os “direitos” dos animais sencientes (senciência que exclui desde logo, abençoadamente, as lombrigas, mas não, incompreensivelmente, os ratos), e por isso se pretende acabar com as touradas; e pode ser o SNS e por isso há quem entenda que todo o vício (exagero: não é todo, é apenas aquele que possa originar doenças ou achaques e que o portador de tais opiniões não tenha) deve ser activamente combatido pelo Estado a golpes de proibições e sanções, em nome da sustentabilidade do SNS, que deve começar “a ser encarada como obrigação de cada um de nós”.

O truque consiste em defender um valor qualquer que seja consensual, neste caso a “sustentabilidade” do SNS, e absolutizá-lo. Isso faz com que a voz ou o comportamento dissonante sejam antissociais, e fica aberta a porta para a repressão. Que se danem os direitos individuais, sem cuja compressão valores colectivos imaginariamente superiores podem ser ofendidos, desde logo pela livre expressão da opinião.

É daqui que vem o combate às notícias falsas e o labéu do negacionismo: para que as notícias sejam falsas alguém assim as define, muito mais do que alguém assim as demonstra, e o negacionismo considerado perigoso é o que belisca a verdade oficial, não o que, no mercado das ideias, se cobre de ridículo. Que haja uns cómicos a acreditar que a terra é plana, ou que a humanidade nasceu exactamente há oito mil anos, duzentos e trinta e um dias, não são notícias que valha a pena censurar; mas que no imenso catálogo das medidas da “luta” anticovid, se considerem inúteis muitas, abusivas outras, contraproducentes bastantes, indutoras de males maiores do que os pressupostamentes evitados a maior parte – isso é que não pode ser. E não pode porque que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar, é o que o Poder deseja, a bem da grei. E como, dada a urgência, por causa do progresso das infecções e da intranquilidade pública que a comunicação social alimenta, a opinião exige medidas: do que se precisa é de obediência porque a altura de mandar já era ontem.

Temos então que há uns depositários de uma acendrada noção do que é o bem público que sabem, o que sabem calha coincidir com o que julga saber a maior parte do eleitorado e neste quadro os que discordam podem até às vezes, em nome da liberdade, dizer o que lhes vai na alma, desde que obedeçam. E, se não obedecerem, são completamente livres de o fazerem desde que não tenham os mesmos direitos que os bons cidadãos: podem perfeitamente achar que não se devem vacinar, mas não podem entrar num restaurante aos fins de semana sem exibir um certificado, nem viajar de avião, nem, nem. Hoje. E amanhã ou vivem da forma que os savonarolas da saúde acham indicada ou terão o direito de ir ao privado, porque ao público não, que está reservado a quem exiba certificados vários de bom comportamento.

Fernando Leal da Costa é um destes iluminados. Às tolices arrogantes que defende no Observador Henrique Pereira dos Santos responde cordata e certeiramente: recomendo a leitura para se entender a maneira insidiosa como o fascismo higiénico faz o seu caminho e quais são os argumentos ao dispor das pessoas de senso.

Este conflito é novo: de um lado estão os amantes da liberdade e do outro os fascistas, enquanto dantes de um lado estavam fascistas de esquerda e do outro fascistas de direita.

Fernando Leal da Costa, que foi governante no tempo da troica, é um fascista. E antes que venha por aí uma horda de comunistas abrir-me os braços e declarar, os olhos húmidos de emoção camaradesca, que vi finalmente a luz, declaro:

Fernando é tão fascista como os comunistas, mas mais perigoso do que estes, que estão acantonados na sua aldeia de cro-magnons, porque parece muito civilizado.

O exclusivo da cassete

Cristina Torrão, 03.08.20

A silly season está a ser abalada por uma polémica da vida política nacional. O Partido Comunista mostrou-se muito incomodado por o líder do “chega chega a minha agulha” lhe ter roubado o exclusivo da cassete.

«Não há direito», lamentou um porta-voz do partido. «Detemos este exclusivo há quarenta e seis anos e tudo faremos para impedir que outros se apropriem dele. Ainda para mais, sendo eles detentores de uma agulha. Que usem um disco! A luta continua!»

Pelo seu lado, o líder do “chega chega a minha agulha”, cada vez mais gordinho (um regalo de menino que orgulharia qualquer mamã) declarou não ter paciência para a ladainha daquela minoria. Entre duas colheradas de Cerelac, afiançou: «As cassetes são livres. E já reparou neste meu talento para criar slogans? Seria um desperdício. Apesar de a minha minoria ser mais minoritária do que a minoria comunista, ninguém me impedirá de usar a minha cassete, era o que mais faltava!» A fim de reforçar esta sua convicção, logo fez uso de uma das máximas já gravadas: «É que eu sou politicamente incorrecto!»

 

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Solidários com os milionários

Pedro Correia, 27.01.20

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Pode ter sido distracção minha, mas até ao momento ainda não ouvi uma palavra oriunda do PCP sobre o que está a ocorrer em Angola - nomeadamente, as mais recentes notícias acerca das «lucros fabulosos» (expressão muito cara a Jerónimo de Sousa) acumulados pela filha do antigo Presidente da República que ali se perpetuou durante quatro décadas no poder - e foi amealhando também uns cobres muito razoáveis, ao que rezam as crónicas.

A repugnância dos comunistas perante fortunas pessoais - neste caso em contraste com as situações de extrema pobreza que afligem grande parte da população angolana - dissolve-se quando os milionários pertencem ao MPLA, "partido irmão" do PCP?

Não haverá, nas fileiras comunistas, vozes críticas capazes de se insurgirem contra esta chocante conivência? Pode ser que existam, mas andam emudecidas. Porque daquelas bandas nem um sussurro se tem escutado.

 

A verdade é que, ao longo de todos estes anos, o PCP alinhou sempre com José Eduardo dos Santos, a sua próspera família e o partido que tem gerido Angola em sistema monopolista. Com indecorosas atitudes de subserviência perante o poder angolano, agora deposto. Basta lembrar a censura ao livro Diário de um Preso Político Angolano, de Luaty Beirão, na Festa do Avante! de 2018, e o chumbo comunista de um voto parlamentar contra as penas de prisão aplicadas a 17 activistas angolanos, em 31 de Março de 2016 - aqui em jubilosa parceria com o PSD e o CDS.

Sem um reparo que fosse, sem o mais ligeiro tremor de perturbação. Pelo contrário, o exercício da crítica, por parte dos comunistas portugueses, visou sempre aqueles que ousavam contestar a autocracia angolana, inserindo-os em maquiavélicas conspirações orquestradas por Washington - numa patética recriação da linguagem soviética dos tempos da Guerra Fria.

 

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Aqui ficam alguns exemplos, com sublinhados meus:

 

Avante!, 22 de Outubro de 2015:

«Portugal não deve ser instrumento e servir de plataforma para a promoção da ingerência contra um Estado soberano, designadamente ao serviço daqueles que, envolvendo e mobilizando cidadãos angolanos partindo de reais problemas, contradições, fenómenos negativos e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para desestabilizar e concretizar a denominada «transição» ou «mudança» de regime em Angola. (...) Existem interesses externos e sectores da sociedade angolana que consideram criadas as condições e chegado o momento de fomentar a desestabilização neste país. (...) Não seremos instrumento para fazer de Angola uma nova Líbia com o seu rasto de destruição, sofrimento, devastação e morte.»

 

Declaração de voto parlamentar, 31 de Março de 2016:

«O PCP não acompanha campanhas que, procurando envolver cidadãos angolanos em nome de uma legítima intervenção cívica e política, visam efectivamente pôr em causa o normal funcionamento das instituições angolanas e desestabilizar de novo a República de Angola. (...) O PCP não acompanha os votos apresentados na sequência da decisão do Tribunal Provincial de Luanda, adoptada em 28 de Março, que condenou 17 cidadãos angolanos a penas de prisão pelos crimes que o Tribunal considerou como de actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores. (...) A rejeição do presente voto por parte do PCP emana da defesa da soberania da República de Angola e da objecção da tentativa de retirar do foro judicial uma questão que a ele compete esclarecer e levar até ao fim.»

 

Avante!, 7 de Abril de 2016:

«Usam ora Rafael Marques ora Luaty Beirão para se guindarem a educadores do povo angolano, ditando aos angolanos o que o seu país é e o que dele devem fazer. (...) Será que ninguém estranha que as posições assumidas por BE e PS nos votos que apresentaram sobre Angola sejam convergentes com aquelas que foram assumidas pelo Departamento de Estado norte-americano e pela União Europeia? (...) O PCP nunca será instrumento ao serviço das operações que querem fazer de Angola mais uma vítima, que queiram fazer de Angola uma nova Líbia

 

Avante!, 14 de Abril de 2016:

«Interesses externos e sectores da sociedade angolana que, não deixando de utilizar uma qualquer oportunidade para envolver cidadãos angolanos a partir de reais problemas e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para promover a desestabilização de Angola e, se possível, concretizar a sua tão almejada mudança de regime. (...) Os significativos e genuínos laços históricos e afectivos que unem o povo português ao povo angolano e Portugal a Angola não devem ser instrumentalizados por intensas e hipócritas campanhas mediáticas que, objectivamente, contribuem para "legitimar" obscuras operações contra Angola e os interesses e aspirações do seu povo.»

Os comunocapitalistas

Pedro Correia, 06.12.18

O PCP continua sempre ao lado dos hipercapitalistas chineses, membros do Partido Comunista lá do sítio. Mesmo quando ordenam o fecho total do luxuoso Ritz só para se instalarem - algo inédito nos 70 anos de história deste hotel, fundado durante o consulado de Salazar. Só nisto, a factura ascendeu a dois milhões de euros. Para eles são trocos.

Imagine-se só como reagiria o PCP se Donald Trump, Angela Merkel ou Emmanuel Macron procedessem assim numa visita a Lisboa.