Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Os “jogadores” da política

por Alexandre Guerra, em 11.12.17

“Todos os políticos são, em certa medida, jogadores em relação aos acontecimentos. Tentam prever o que vai acontecer para se posicionarem do lado certo da história.” A frase é de Boris Johnson, antigo mayor de Londres e actual ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, que, numa entrevista recente à Fox News, considerou o Presidente americano uma "grande marca mundial" em termos políticos, enaltecendo as capacidades de comunicação de Donald Trump e a eficácia dos seus tweets matinais, por mais “indisciplinados” que possam ser. E se há alguém que percebe de indisciplina enquanto ferramenta de comunicação, é precisamente Boris Johnson, que fez sempre dessa característica um factor poderoso na sua afirmação enquanto político dentro do próprio sistema. Indisciplinado, irreverente, turbulento, Johnson tem feito do choque constante, da provocação permanente, a sua forma de estar na política.

 

Aquele seu cabelo desgrenhado não é um acaso, é um activo comunicacional que “casa” com a imagem que pretende que a opinião pública percepcione dele. Da mesma forma que o charuto de Churchill (de quem Johnson é admirador e a quem dedicou uma excelente biografia de onde foi retirada a citação do início) foi mais um elemento importante na construção da sua imagem enquanto estadista, já que aquele “adereço” representava o espírito do aventureirismo romântico, quase ingénuo, associado aos tempos gloriosos passados na Guerra da Independência de Cuba, em 1895. E à medida que os anos evoluíram, o charuto passou a ser também um símbolo de poder e autoridade. São, aliás, raras as vezes em que o antigo primeiro-ministro aparecia publicamente sem o charuto. A este propósito, algumas histórias que se contam à volta das exigências de Churchill para poder satisfazer o seu vício (também comunicacional) são totalmente disparatadas, mesmo para os tempos da altura. Provavelmente, umas serão mito, outras nem tanto. Seja o charuto de Churchill, o cabelo de Johnson ou as meias de Justin Trudeau (que, intencionalmente, reflectem a jovialidade quase infantil do primeiro-ministro canadiano), são elementos que resultam, em parte, de uma combinação entre aquilo que é genuíno nos políticos e uma dimensão encenada, fazendo parte de uma certa liturgia comunicacional e que parece cativar, cada vez mais, os eleitores.

 

Verdade seja dita que muito antes da ascensão ao estrelato político desta nova vaga de líderes “pop” e populistas, que se enquadram nas novas tendências sociais de um público-alvo cada vez mais urbano e em "rede", já Boris Johnson cultivava a imagem de um político disruptivo na forma de se apresentar, fazendo questão de se fazer transportar em bicicleta pelas ruas de Londres, naquele seu ar de aparente descontração, numa cena tipo hipster, ainda muito antes do revivalismo desta tendência. Quando se tornou mayor da City, há quase dez anos, a sua imagem rompia com tudo aquilo a que estávamos habituados a ver num político de topo. Quase que parecia um ser exótico, para não dizer excêntrico, embora estivesse longe de ter a exposição mediática internacional que alcançaria mais tarde.

 

Se, hoje em dia, o "número" da bicicleta é irrelevante e as meias coloridas de Justine Trudeau já são quase um acontecimento mainstream na comunicação política, há uns anos poucos seriam os políticos que ousariam fugir ao figurino instituído para os chefes de Estado e de Governo. Aliás, até há bem pouco tempo, quem, no seu perfeito juízo, ousaria prognosticar que a França viria a ter um Presidente abaixo dos 40 anos? Ou que a Áustria elegeria o jovem Sebastian Kurz, com apenas 31 anos, para a chefia do Governo, onde, numa imagem de campanha, apareceu sentado em cima de um espalhafatoso todo-o-terreno Hummer numa pose que faria inveja a qualquer rapper de Compton? Ou que Trump, o multimilionário da melena ridícula que apresentava o “The Apprentice”, viria a sentar-se na Sala Oval? Ou que em Portugal um Presidente pudesse vir a ser quase tão popular como Cristiano Ronaldo?

 

São figuras de liderança que, de uma maneira ou de outra, são disruptivas. Não necessariamente na forma de fazer política, mas na maneira de comunicar e “enfeitar” essa política. Nalguns casos, o conteúdo até pode não trazer nada de novo, porém, o “embrulho” em que a mensagem é oferecida à opinião pública é completamente diferente, é apelativo, é vendável (a tal “brand” de que Boris Johnson fala).

 

A experiência diz que parte dessa forma de estar em política tem origem na natureza intrínseca de cada um, mas a outra parte é fruto de um trabalho orientado para determinados fins comunicacionais. Virtuosos ou não. O problema é que quanto melhor é o “jogador” político, mais dificuldades o cidadão terá em perceber o que é genuíno e o que é encenação. Esses dois factores estão sempre presentes e o que as pessoas vêem é um produto final, um personagem político que lhes despertará determinados sentimentos e emoções, porque em comunicação política é a percepção (e não a realidade) o que mais importa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Táxi escondido com o rabo de fora

por Diogo Noivo, em 05.01.17

ubervstaxi_cbc.jpg

 

Na segunda-feira, dia 2, o Observador deu grande destaque a um trabalho de fundo sobre a precariedade laboral na Uber. Um dia depois, dia 3, o mesmo jornal publica uma notícia onde se refere que os taxistas exigem nova reunião com o Governo, se queixam dos “ilegais” (leia-se Uber e Cabify), e alertam para a “revolta” que sentem. Por outras palavras, o primeiro texto debilita a reputação da Uber e o segundo, publicado 24 horas depois, dá nota da força dos taxistas. Pura coincidência, certamente.
Mas – hipótese académica – admitamos que não é uma coincidência. Partindo deste princípio, não é difícil encontrar nestas duas notícias o reflexo de uma campanha de comunicação contra a Uber. Em primeiro lugar, depois do desastre calamitoso que foi a última manifestação de taxistas, o sector do táxi precisa de enfraquecer o opositor e, por outro lado, de abrir espaço mediático para a sua causa (um espaço que tem estado fechado em virtude das alarvidades feitas e ditas durante a última manifestação, muitas das quais visaram jornalistas). Estas duas notícias, e em particular a sua sequência, servem estes objectivos na perfeição. Em segundo lugar, os taxistas precisam de mudar o terreno de jogo. Explico-me: até agora, o debate público Táxis versus Uber deu-se sempre no âmbito do serviço prestado ao consumidor. Ora, neste campeonato a Uber ganha 10 a 0. Por isso, os táxis têm que levar o debate para outro lado. Por exemplo, para o lado das condições laborais, um assunto intimamente relacionado com a lei e com a fiscalização, algo que (surpresa!) vai ao encontro da narrativa dos taxistas. Mais uma vez, estas duas notícias - sobretudo a primeira - cumprem o serviço.
Voltemos à realidade. A hipótese académica que aqui desenhei é um disparate. Se o sector do táxi mete as condições laborais na arena de combate dá um tiro no pé. E uma campanha contra a Uber tão óbvia no conteúdo, na forma e no timing seria de tal forma amadora que é mau demais para ser verdade. Só pode ser fruto de coincidência. Se não for, os taxistas têm um estratega de comunicação para demitir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Comunicação Política da boa

por Diogo Noivo, em 21.09.16

O País Basco vai a votos este domingo. O Partido Popular divulgou um vídeo de campanha que é original, inteligente, bastante provocador, mas educado, com o intuito de apelar aos votantes do Ciudadanos.

 

Não perdeu pela demora. O Ciudadanos respondeu com um vídeo igualmente bom e contido nas formas.

Um dia, espero que mais cedo do que tarde, Portugal terá comunicação política assim.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

A paixão do jornalismo no News Museum

por Alexandre Guerra, em 26.04.16

“É a maior experiência de Media e Comunicação da Europa.” É desta forma que o News Museum se apresenta no seu site e posso garantir, porque tive o privilégio de o visitar antes de ser inaugurado na noite de 24 para 25, que não é exagero. Aliás, conta quem sabe, este novo espaço dedicado à história do jornalismo e comunicação é bastante superior àquele que já existe há alguns anos em Washington. Na verdade, da parte dos responsáveis do News Museum, houve um cuidado em inovar e apresentar algo diferenciado ao que já existia. O resultado é simplesmente surpreendente, numa mistura muito bem conseguida entre o conteúdo e a forma.

 

Este projecto teve o contributo de vários profissionais da comunicação, nomeadamente de grandes referências do jornalismo em Portugal, de meios de comunicação social, e envolveu, seguramente, um investimento de muitos milhares de euros e o recurso a “know how” e software desenvolvido de raiz por algumas das empresas do grupo LPM Comunicação.

 

O News Museum representa um marco importante em Portugal a vários níveis. Não apenas pelo projecto em si, que é simplesmente obrigatório para quem gosta de jornalismo e comunicação e para quem cultiva o conhecimento da história e da sociedade contemporâneas, mas também porque materializa a visão daquilo que, como eu falava com alguém durante a visita, é um projecto inédito de gestão de reputação e notoriedade. Algo a que em Portugal não estamos habituados a ver por parte do sector privado, já que, normalmente, tudo o que é criado em termos de oferta do conhecimento à sociedade ou é feito à “sombra” do Estado ou é desenvolvido por empresas que durante décadas foram monopolistas e que hoje se apresentam como “privadas”, e quase que têm uma obrigação moral de servir a comunidade para além dos serviços que “cobram”.

 

O News Museum não surge de qualquer obrigação empresarial, mas sim de uma espécie de filantropia misturada com um legítimo interesse próprio. Embora tenha sido concretizado por uma equipa específica, é a Luís Paixão Martins que se deve a sua criação, o mesmo que há cerca de trinta anos trouxe para Portugal conceitos e metodologias de comunicação insitutucional para o mundo económico, empresarial e, mais tarde, político. A verdade é que houve um antes e um depois do LPM no que à disciplina das “public relations” em Portugal diz respeito. Tornou-se num dos homens mais relevantes da comunicação institucional em Portugal, se não o mais importante, construindo uma reputação sólida e uma empresa de sucesso, e hoje dá corpo àquilo que é, sobretudo, um monumento vivo e interactivo à paixão do jornalismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D