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Cheeese!

por Teresa Ribeiro, em 30.08.19

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Muito antes das redes sociais, que nos empurram para uma noção de felicidade mais concorrencial, já nos fotografávamos a sorrir. Há puristas que consideram mentirosas essas fotos sociais e de família, mas eu fui sempre benevolente em relação à questão. Se fotografar é parar o tempo, então é natural que se deseje ter dele o ângulo mais favorável.

Nunca valorizei tanto as mentirosas fotos de família como quando comecei a perder as pessoas que me faziam mais falta. A minha família, como tantas famílias normais, era disfuncional, mas o que preciso reter dela são as imagens que mais combinam com as minhas saudades e essas, são as felizes.

O reflexo de fotografar tudo o que mexe, 365 dias no ano, que veio com os telemóveis, retirou, de alguma forma, estatuto às fotografias. São muitas, demasiadas, acumulam-se, anulam-se, esquecem-se demasiado depressa. É pena. O tempo não gira com mais vagar só porque somos vorazes a fixá-lo. Mas o hábito de mentir para a fotografia mantém-se incólume. A velha necessidade de recriar os momentos que vivemos e de sorrir, sorrir sempre. 

O Síndrome do Robocop

por Maria Dulce Fernandes, em 29.08.19

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O plástico é uma praga.
A máxima de Lavoisier está incompleta. Nem tudo se transforma. Depois de convertida em plástico, a natureza perde a degradabilidade e consequentemente a capacidade de criar vida a partir do pó em tempo útil. Nenhum de nós tem o poder de viver mais de 500 anos para ver extinto todo e qualquer vestígio de pegada ecológica deixada pela poluição devastadora provocada pelo descarte de artefactos de plástico e derivados.
No nosso afã para mantermos a durabilidade das coisas pela arte da plastificação, deixamos de parte a única variável fundamental a qualquer equação em que a incógnita seja a introdução no corpo humano de matéria orgânica polmérica sintética, ou qualquer outra preparação criada in vitro que permita obter uma melhoria no desempenho e na longevidade do corpo.
Qualquer tentativa de plastificar a vida tem apenas resultado na sua anulação.
Qualquer “arte" plástica a que se submeta o corpo tem somente o sucesso efémero que a gravidade lhe permite. É tão normal a nova e renovada forma ficar disforme em curto tempo.
É por isso que, numa época em que toda a informação está disponível em tempo real para quase toda a gente, como se explica o uso e abuso de substâncias “plastificadoras" que incrementam a fisicultura, ao ponto de se morrer por ela?

No pasa nada

por Teresa Ribeiro, em 06.02.19

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Falta cerca de um mês para o Dia Internacional da Mulher, o dia em que todos os jornais falam dos problemas da condição feminina, desde a discriminação no trabalho à violência doméstica e no entanto quando passei de manhã pela banca dos jornais (ainda gosto de consultar as primeiras páginas assim, ao vivo e a cores), que vi eu? 

Manchete do i - "Já morreram mais mulheres, proporcionalmente, em Portugal do que no Brasil"

Manchete do JN: "Só num ano Estado apoiou 18 órfãos de violência doméstica (maioria dos casos são de crianças que viram a mãe morta pelo pai)

Manchete do Público: "Violência doméstica - 85% dos casos não resultam em acusação (no caso do duplo homicídio do Seixal, MP abriu inquérito apenas por coacção e ameaça)

Pois, houve mais um crime, particularmente chocante, daí esta concertação noticiosa. O Correio da Manhã, no seu estilo inconfundível, publica: "Monstro estrangula filha com as mãos (violência doméstica levou mãe da bebé a pedir ajuda à PSP)

Leio estas manchetes e penso nas negacionistas do "Not Me" (nome que eu agora inventei por oposição ao #MeToo), que tomam a sua experiência pessoal pelo todo afirmando que não se passa nada. Bem sei que a discussão há um ano acendeu-se por causa de uma situação muito menos dramática, a do assédio. Mas faz sentido separar os dois fenómenos? No país onde se mata mulheres que se farta o assédio não existe? E já agora, juntando outro tema que também é caro às negacionistas: a discriminação no trabalho, também é falácia?

A sério?

 

Ambiente de trabalho IV

por Teresa Ribeiro, em 22.01.19

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Fala-se muito dos millenials, a nova geração que está a dar dores de cabeça aos empregadores por ser muito exigente, independente, e difícil de reter. Dizem que mudam de emprego como quem muda de camisa, que preferem não trabalhar a ser mal pagos e que valorizam o work-life-balance, ou seja, não estão dispostos a deixar-se consumir por cargas horárias excessivas. Desenvolver carreira numa determinada área já não é, para muitos deles, um objectivo. Quais camaleões, estão preparados para mudar de rumo a todo o momento, desde que tal resulte em maior qualidade de vida.

Ressentidos, muitos empregadores chamam-lhes egoístas e mimados. Acusam-nos de terem sido educados por pais que lhes deram tudo, algo que os transformou em seres desprovidos do mais leve espírito de sacrifício. 

A perspectiva dos monstrinhos egoístas é diferente. Queixam-se de serem alvo, por sistema, de propostas miseráveis, que fazem tábua rasa dos anos de formação académica que consumiram a preparar-se para ter uma boa vida. Dizem também que os salários que lhes propõem não asseguram autonomia. Olham para o mercado de trabalho e percebem que é o salve-se quem puder. Conforme o seu contexto e características pessoais, uns aprendem a competir sem ética, outros desistem e enveredam por uma adolescência sem termo (são os tão comentados nem/nem, que não trabalham nem estudam), outros ainda apostam num modo de vida alternativo, baseado no improviso, trabalho intermitente e estilo de vida frugal.

O que não se diz é que estes meninos relapsos não nasceram de geração espontânea. Na verdade millenials e empregadores são faces da mesma moeda. A cara e a coroa, o verso e o reverso desta nova cultura do trabalho.

Uns não existiriam sem os outros. 

 

Mr. Facebook

por Teresa Ribeiro, em 15.11.18

Recebi hoje no meu email uma notificação do Facebook a avisar-me de que a minha prima (que morreu em Junho) faz hoje anos. É em momentos destes que se percebe até que ponto abrimos a porta à tecnologia digital para entrar na nossa vida. Fosse o Facebook um mensageiro humano e já muitos de nós o teríamos saneado por ser tão invasivo, tão insistente, tão presente, tão manipulador e por vezes, como hoje me aconteceu, chocante.

 

Esta submissão

por Teresa Ribeiro, em 16.05.18

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Acabo de ler num desses agregadores de notícias que não desligar da tecnologia tem consequências várias para a saúde, incluindo distúrbios do sono, que por sua vez se reflectem na saúde mental. Não me perturbo. Esse alerta reciclado de outros alertas que fui lendo ao longo do tempo não me deu qualquer novidade. Mas levou-me, isso sim, a reflectir sobre a contradição que observo em muita gente que me rodeia: cada vez são mais os que estão atentos a tudo o que é informação sobre alimentação saudável e exercício físico, adoptando aqui e ali hábitos que poderão travar o colesterol, a diabetes e os efeitos da idade, hábitos que incluem beber em jejum sumos de couve, cenoura e bróculos (!!!) mas fazem orelhas moucas às notícias que nos dão conta dos estragos que o uso incontinente de tecnologia provoca. 

Quando confrontados desculpam-se com o zelo profissional, que os obriga a estar disponíveis 24h, e com o assédio dos amigos das redes sociais, que aguardam feedback. Mas nunca se interrogam verdadeiramente sobre os limites da relação de dependência que desenvolveram para lá do razoável. Porquê esta tão mansa submissão, ó intrépidos bebedores de sumo de couve?!

Será porque ao contrário do que acontece com a alimentação saudável, o exercício físico e - oh! Esqueci-me! - "o pensamento positivo", tomar medidas contra a dependência de tecnologia não está na moda? Será que os nossos hábitos saudáveis tão seriamente discutidos, calibrados e assumidos não passam afinal de tendências Primavera/ Verão, Outono/ Inverno que assimilamos alegremente manietados pelos media? Assim parece.

A tecnologia, como antes aconteceu com o tabaco, está fora do nosso radar quando o assunto é "vida sã em corpo são". Sabe-se que provoca danos a nível psíquico, social e familiar. Pode até falar-se disso na sala. Revirar os olhos, encolher os ombros, suspirar um pouco. Perorar como pais sobre a preocupação que o tema nos provoca também é bem visto, mas daí a fazer contenção de danos, vai um enorme e consistente risinho amarelo e o tal mantra sobre profissionalismo e os amigos virtuais "que não me largam" antes de enfiar a cabeça na areia.

Os lugares, como as pessoas

por Teresa Ribeiro, em 06.03.18

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Perto da zona onde trabalhei até há poucos dias existem dois ou três lugares que me encantam, mas que enquanto me foram acessíveis afastei metodicamente do espírito nas pausas do almoço e do café. Agora que estou longe, apetecem-me como nunca e a falta que me fazem é a que não sentia quando os tinha a poucos metros de mim. Quando os "tinha". O verbo é esse. Bastava senti--los ao meu alcance para os ter, por isso os visitava tão pouco.

Com as pessoas que nos estão mais próximas passa-se o mesmo. Enquanto são lugares acessíveis por vezes evitamo-las, saciados que estamos da certeza de estarem sempre disponíveis para nós. Quando as perdemos é que percebemos o quanto as desperdiçámos.

Só com um pano encharcado

por Teresa Ribeiro, em 13.01.18

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Sei dizer exactamente com que idade fui assediada pela primeira vez na rua. Tinha dez anos. Foi com essa idade que passei a ir sozinha para a escola, andava então na 4ª classe. No caminho tinha de passar por uma garagem e como era hora de almoço, apanhava sempre a mesma trupe a lagartear no passeio. Diariamente ouvia as piores ordinarices enquanto amedrontada apressava o passo, olhos no chão e coração a bater. Quando, décadas depois, comecei a notar que era menos assediada, estranhei. Será que afinal até gostava daquelas palavras gelatinosas que me chocavam em idade púbere? Ou das ordinarices que me enojavam quando, mais velha e expedita, já podia contabilizar anos de assédio de rua? Não. As mulheres não gostam de assédio, o que não apreciam é o que significa deixarem de ser assediadas. É da natureza humana (e não exclusivo da feminina) estabelecer associações complexas de causa-efeito. Deixar de ser assediada na rua é um dos muitos sinais que revelam a uma mulher que está a envelhecer e é isso que incomoda.

Quando, aos 12 anos, comecei a andar sozinha nos transportes públicos, a minha mãe disse-me: "Se um homem se encostar a ti, pisa-o com toda a força. É remédio santo". Também ela tinha ouvido esse conselho da minha avó e muitos anos depois foi a minha vez de o passar à minha filha (ao meu filho, como é óbvio, nunca precisei de fazer tais recomendações).

Sim, há uma corrente defensiva que se estabelece entre gerações de mulheres. Como poderia não haver, se vivemos num mundo que estigmatiza o sexo feminino? E porque são estas as circunstâncias de todas, repito, todas as mulheres (mesmo as que juram, enquanto lhes cresce o nariz, que nunca foram assediadas, na rua, no trabalho, em circunstância alguma, querendo com esse depoimento colocar-se acima de todas as outras parvas que se queixam "e que se calhar puseram-se a jeito, consentem, no íntimo gostam", mimetizando o discurso mais machista) espanta-me a pressa com que tantas correm em defesa dos homens, como se fossem eles as grandes vítimas da sociedade.

Quando se geram movimentos como o de Hollywood, logo aparecem as guardiãs do statuo quo a apontar a dedo os fundamentalismos que inevitavelmente surgem por arrasto, confundindo razões justas com folclore, conceitos como assédio e galanteio, relações sexuais consentidas com violação. Mais misóginas que os misóginos, colocam-se orgulhosamente à margem das causas femininas. E eu ao vê-las, lê-las e ouvi-las só penso no trabalho que foi para as sufragistas porem as mulheres a votar e o que custou às "fufas das líderes dos movimentos feministas" conseguir que as novas gerações de mulheres fossem tratadas como gente. Francamente, só com um pano encharcado!

Velhos? Só os novos!

por Teresa Ribeiro, em 21.12.17

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- Fazes quantos anos?

A aniversariante respondeu, com voz sumida, quase envergonhada: "27". Família e amigos, percebendo o desconforto, começaram com as piadas  de circunstância: "Já só faltam 3!". E riam, enquanto espetavam os dedos.

A cena aconteceu há dias, mas nada tem de invulgar. Oficialmente deixa-se de ser jovem aos 25 e a cultura instalada sobrevaloriza tanto a juventude, que ninguém quer deixar essa zona de conforto. Mas experimente alguém, que já passou os 45, mostrar-se incomodado com o envelhecimento. Caem-lhe logo em cima, com clichés como  "o que interessa é manter o espírito jovem", ou "a vida começa aos 40".

Acho normal que não se goste de perder as formas, nem o contorno das linhas do rosto e ainda mais natural reagir com desconforto ao aparecimento de dores de costas, insónias ocasionais, enfim, os achaques que nos lembram que nunca se escapa impune à passagem dos anos. Mas lamentar a perda da figura em que nos reconhecemos durante a vida inteira e a falta de vigor que o envelhecimento implica, agora é tabu.

Comentar algo do género é habilitarmo-nos a sessões espontâneas de aconselhamento psicológico, a diagnósticos sumários de depressão e a toda uma série de equívocos que o melhor mesmo é não arriscar, ou então alinhar no discurso que não por acaso agora faz escola e que é o do elogio do envelhecimento feito por "raparigas" de meia idade.

O que elas dizem? Invariavelmente que se sentem jovens, pois não se reconhecem na idade que têm. Ou seja, mudam de assunto: para contornarem a parte incómoda da questão, a da indesmentível degradação física e respectivo desconforto,  falam da discrepância entre o ritmo de envelhecimento do corpo, que é mais rápido, e o do espírito. E fazem-no como se essa não fosse a regra que se aplica a toda a gente. 

Manobras de diversão à parte,  a verdade é que a mesma sociedade que leva jovens a sentirem-se absurdamente velhos, impõe aos que já começam a sê-lo a lei da rolha. Como se o envelhecimento fosse uma falta demasiado grave, para ser discutida sem filtros, à frente dos outros.

 

Viva Spacey

por jpt, em 12.12.17

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Já estive para blogar um texto "Je suis Kevin!" mas censurei-me (enfim, sou pai, que pensaria a minha filha? ...). Mas esta nova notícia é espectacular, gargalhável, obriga-me a botar. Então não é que o mariola foi apalpar o príncipe lá da Sildávia, e no próprio palácio dele ... O gajo é um radical, sem limites. Ou seja, literalmente desbragado. Será até, porventura, um pouco uma bicha louca (eu sei, a expressão é um bocado preconceituosa. Mas é usada também por homossexuais, assim entendo-a legítima). G'anda Kevin. A notícia tem também duas implicações políticas: a primeira, lateral, é um estalo nos pobres monárquicos, sempre ciosos de uma qualquer superioridade das linhagens. Pois é óbvio que um cavalheiro nunca falaria em público de uma coisa destas, quanto mais um genro de rei. Assim mostrando-se qual mero espectador de reality show, como qualquer sub-plebeu. Enfim, o episódio serve para fazer engolir a patetice monárquica.

 

A segunda é mais actual, pois isto mostra bem o ambiente e a injusteza (e injustiça) do execrável ambiente que vem acontecendo. Um tipo é jovem e lê, por exemplo, uns contos do Tennessee Williams e, apesar de tender para outro lado, acha-os o máximo. Como contos, acima de tudo, mas também como liberdade. Depois envelhece e vê este pérfido retrocesso, como esta horrível coisa que andam a fazer ao Spacey - despedido e até o apagam de filmes, pura censura diante do silêncio da dita "esquerda europeia", sempre tão atenta às censuras e perversões de Hollywood. É de lembrar, isto é um ambiente criado pelo fundamentalismo "genderista" / "identitarista". Em última análise é autofágico (pois cairá em cima dos seus mais acérrimos defensores, vituperando comportamentos ditos "alternativos).  Pois, de facto, a única coisa de que Spacey é acusado é de ser "promíscuo" (palavra que é um programa político, moralista). Foi moral e profissionalmente linchado por razões políticas - por não se ter assumido como homossexual, e como tal ser uma "fraude", disse o primeiro delator. Ou seja, por não integrar as fileiras do movimento político "gay". Nisso acusado de violências morais e físicas, e até pedofilia (a monstruosidade dos nossos dias). Mas de facto o gajo não é mais do que um atrevido, tanto apalpa o tal "príncipe" como diz ao jovem no bar "vamos lá ...". Não assenta o seu (in)comportamento no poder que tem, mas sim no risco (deve ser uma personagem ...). Não é que eu esteja a secundar a abordagem (eu, a quem até o canto do olho se engasga, tímido e corado, quando passa alguma senhora mais apresentável). Mas isto não tem nada de violento ("é a vida", como se diz em inglês) e está provocar a sua lapidação. Pelos radicais homossexuais (em formato autofágico, e nem parece estarem a compreendê-lo). E pelos moralistas mais conservadores. E, apanhando a crista da onda, como se na praia da Nazaré, pelas mais reaccionárias das militantes do "género", excitadas em versão de mera tradução heterossexual deste fascismo, que tudo quer transformar em "assédio". Mas, para além disto tudo, fica o fundamental - isto do sacaninha do Spacey ir lá apalpar o decerto que cagão do pseudo-príncipe. Yes!

Esse irresistível sentimento colectivo...

por Teresa Ribeiro, em 29.08.17

O caso dos livros da Porto Editora chamou mais uma vez a atenção para o fenómeno do pensamento de manada, que as redes sociais vieram instituir quase como pensamento único e a que desgraçadamente nem os profissionais da Comunicação Social escapam. 

Sempre que acontece uma história assim pergunto-me por que é que pessoas reconhecidamente inteligentes se deixam enredar tão facilmente, precipitando-se a replicar as opiniões que circulam. O mesmo acontece na política, onde encontro tantos que apesar de não terem interesses ou carreiras a defender nesse sector, não hesitam em apoiar acriticamente os líderes partidários da sua simpatia. 

E a resposta que encontro é sempre a mesma: Porque o pensamento independente priva-as de tudo o que é bom no pensamento "clubístico". Dessa componente lúdica não querem prescindir, nem mesmo em nome das causas mais nobres. 

O RAP e a avó

por Teresa Ribeiro, em 03.12.16

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Leio na entrevista que deu ontem ao Público que Ricardo Araújo Pereira tem baixa auto-estima. Parece mais uma piada e pergunto-me, é claro, se há verdade nisso. Nas várias entrevistas que deu para promover o seu mais recente livro, RAP fala sempre da influência decisiva da avó, uma pessoa austera. Diz que foi a lutar pelos sorrisos dela que descobriu a sua vocação. Convenhamos que como estratégia de comunicação de um humorista de sucesso tem graça.

A história da avó pode ter sido retocada, mas acredito que na essência é verdadeira e ter de lutar pelo sorriso de uma avó é profundamente triste. A interpretação freudiana da vida pode estar ultrapassada, mas tenho sempre dificuldade em descolar--me dela, porque a verdade é que quando me interesso em saber mais sobre alguém e começo a escavar, encontro sempre um pai, uma mãe, um tio ou uma avó que estão na origem de muito do que essa pessoa é, para o bem e para o mal.

RAP, humorista de sucesso, confessa que tem baixa auto-estima e convidado pelo jornalista do Público a esmiuçar a coisa, fornece mais uma informação. Diz que foi com a avó que aprendeu a gerir sentimentos: "A minha avó convenceu-me a não ligar aos meus sentimentos - primeiro porque são sentimentos; depois porque eram meus". Outro postal triste.

Mesmo que seja apenas uma nota de humor negro que RAP acrescenta ao currículo só para provocar desconcerto nos fãs, vale como exemplo teórico. A actual ditatura da felicidade, com os seus cursos de psicologia positiva e discursos de auto-superação, ignora que pessimismo e baixa auto-estima não são uma opção, porque a mundivisão aprende-se, não se escolhe. É por isso que quando entramos numa sala da pré-primária identificamos facilmente quem é líder e quem não é, quem tem auto-confiança e quem se apaga.

Se o pessimismo e a baixa auto-estima se pudessem trocar como uma camisola, andava por aí tudo aos saltos, com as cores da moda vestidas.

 

Esplanada de praia

por Teresa Ribeiro, em 30.07.16

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Desamparado, o casal seguia com uma atenção esforçada a conversa do miúdo. Falava do quê? Talvez do Pokemon Go. O pai segurava o sorriso, olhos distraídos, mais atentos aos seus gestos e expressões animadas do que ao que dizia. A mãe observava-o silenciosa, naquela paz desconsolada de quem sabe que está a perder qualquer coisa, embora não saiba o quê.

No mar, famílias como a deles preenchiam com mergulhos e braçadas o mesmo sudoku feito de horas e horas de tempo livre. Mas havia os outros, os que em grupos ruidosos faziam o Verão. Gargalhadas e conversas alheias mescladas de pregões "Olhá bola de berlim!", choros de bebés, ralhetes "Agora não vais para a água!". A banda sonora de sempre.

Mais tarde, depois do banho, quando o casal e o filho se estenderem na toalha ao Sol, essa vida difusa há-de embalá-los e compor, enquanto dormitam, uma apaziguadora ideia de férias.

Off line

por Teresa Ribeiro, em 24.04.16

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Cada vez mais passo folgas e férias off line. Liberta de ecrãs tácteis e portáteis, sinto-me como se tivesse feito a mim própria um restart. Condescendo só em relação ao telemóvel, nas estritas funções de telefone. Não é um gesto de rendição, pelo contrário. Vejo esta evidente dependência com simpatia. É a prova em como algures em mim floresceu este sinal de contemporaneidade e isso descansa-me, porque aproxima-me dos padrões da normalidade. Sim, dependo totalmente desta máquina enquanto telefone. Sem ela experimento uma sensação de isolamento incómoda, como se me tivessem cortado o cordão umbilical que me liga à corrente universal.

Mas é tudo. Não consigo entregar a alma às redes, à Internet. Continuo a sentir fascínio pelo de sempre. Pelas banalidades, por acaso também tactéis e a cores, do mundo real. Receio que já não tenha cura. Já experimentei fazer um refresh, mas nada.

Yes men

por Teresa Ribeiro, em 01.04.16

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A opinião que António Capucho tem acerca dos critérios de Passos Coelho para seleccionar o seu staff é-me indiferente, o que me interessa é a reflexão que me suscita sobre a prática, que me parece corrente, de pessoas com cargos de decisão nomearem para as suas equipas preferencialmente gente que não arrisca uma discordância, dizer o que pensa, comprar uma briga em nome de um valor mais alto, que é o de desempenhar o seu papel com competência.

Dir-me-ão que isto é natural por parte de gente que se pensa dona da razão, que gosta de impor as suas ideias e acredita piamente nas suas capacidades e no seu instinto. E eu continuo a pensar que é comum, mas não é natural.

Não é natural que abdiquem de ver e ouvir através das pessoas de confiança que escolheram para trabalhar consigo. E ainda é menos natural que confiem mais depressa em quem lhes dobra a espinha do que nos que pretendem prestar colaboração exercendo as suas funções com brio. Mas exercer o poder, para muitos, é isto. 

Da lamúria

por Teresa Ribeiro, em 10.08.15

Desabafar é bom. Ninguém contesta. Tem um efeito terapêutico e até há uma classe de profissionais - os psicólogos - que vive disso.

Já queixarmo-nos é mau. Diz que é doentio. Segundo a nóvel cultura passista, é um traço de identidade nacional que nos desclassifica e como não há português que suporte identificar-se com o que mais se critica nos portugueses, este considerando caiu fundo na consciência colectiva. Logo se ergueram vozes aqui e ali contra a lamúria, esse vergonhoso desporto lusitano. Eu, que não tenho a veleidade de me considerar imune às modas, também passei a ter mais cuidado e quando sinto um impulso irresistível para partilhar o que me perturba o espírito, termino sempre com um pensamento positivo, do género "não há-de ser nada", que é para ficar bem claro que não me estou a lamentar, estou é a desabafar.

Da tristeza

por Teresa Ribeiro, em 09.07.15

Nos tempos que correm vigoram leis de comportamento muito rígidas. Quem faz questão de alinhar o pensamento pelas tendências da moda Primavera/ Verão e Outono/ Inverno dos últimos anos não pode ser pessimista, nem velho, nem inseguro, nem piegas, nem triste. De todos estes ditames o que mais me incomoda é o que proibe a tristeza.

No esforço por sermos optimistas até reconheço um efeito terapêutico. É assim uma espécie de pilates para a amígdala. A negação do envelhecimento, não sendo das atitudes mentais mais saudáveis, tem efeitos colaterais coloridos que não trazem mal ao mundo. O combate à insegurança e à pieguice admito que pode fazer muito pelo nosso tónus emocional, mas a tristeza, senhores? A tristeza é uma necessidade. E é uma necessidade porque representa sempre um luto. O luto de uma alegria que nunca se chegou a ter ou que se perdeu.

Escutas - 8

por Teresa Ribeiro, em 20.06.15

No elevador:

- Ontem anunciei aos meus filhos que ia ficar sem emprego. E sabes como é que reagiram?

- Como?

- Parecia que estavam combinados. Trocaram olhares, deram um pulo e gritaram: "Yes!!!"

- Tadinhos. Mal te viam...

- Pois.

Escutas - 7

por Teresa Ribeiro, em 17.06.15

Ao telefone:

 

- Então e o Sebastião, já melhorou?

- Tive que ir outra vez com ele à clínica, mas disseram-me para não me preocupar, que isto agora vai com o tempo.

- Com mais uns miminhos ele arrebita, vais ver.

- Tem passado todas as noites comigo.

- E o Luís não se chateia?

- Diz que ele ressona, nunca está quieto e larga muito pêlo. Mas já o pus à vontade. Se quiser, que vá dormir para o sofá.

Escutas - 6

por Teresa Ribeiro, em 16.06.15

Na esplanada:

- Agora, quando eu e o João estamos juntos quase não falamos.

- Isso não é bom.

- A questão é que não sei. Às vezes sinto-me bem por não ter que puxar assunto.

- Ah, então não é bom, é óptimo. Significa que já são íntimos.

- Não sei se é intimidade, se é desinteresse.

- Mas quando estão calados ficam aborrecidos?

- Não. Ficamos a jogar no telemóvel.

- Então não percebo qual é o teu problema.


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