Comissão de Serviço XXIV
O ÁS DE PAUS
Por qualquer motivo, naquele dia fui atrás dos pés até à caserna da minha secção, um lugar esconso nas traseiras do DRM.
Depois do pequeno quintal, uma nesga de luz debaixo da porta mostrava que estavam todos ainda a pé; eram nove da noite, hora incomum para visitas em Moçambique.
Como também ouvi um sussurrar, bati.
- Quem é? – perguntou uma voz, que não percebi logo de quem, enquanto o sussurro morria.
Respondi e abriram-me a porta.
Encontrei todos os soldados, todos pretos, à volta de uma mesa, com um baralho de cartas, no meio, virado sobre um ás de paus. Jogavam. Mas todos estranhamente sentados sobre papéis, que lhes saíam indiscretos de debaixo do rabo.
O pouco à vontade do grupo convidou-me depressa a arranjar uma desculpa e a sair. Só meses depois viria a saber que não interrompera um jogo mas uma reunião frelimista.
(Notinhas de uma guerra engolida)


