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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 15.12.19

 

«Gente inteligente procura compreender o universo, gente burra procura criar um que os compreenda.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 08.12.19

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«A viagem resgata a memória do que se lê e vê. Não só memória dos lugares e das personagens dos livros, filmes (e música e pintura) que lemos ou vimos como a da imaginação, às vezes, mesmo da imaginação herdada. 

Se ao Pedro Correia pareceu ver o fantasma da Sissi em Viena, eu ia jurar que a vi, ao lado da minha mãe, na Praça de São Marcos. E a pequena filhota a correr para os seus braços. Com todos a entoar um Viva la mamma! Tal como na última ou penúltima página do livro que aos onze anos comecei a ler pelo fim, sugerido pela minha mãe, fã absoluta na meninice dos filmes da Romy Schneider. 

Mas a verdade é que as imperatrizes, príncipes e princesas me diziam pouco. O meu imaginário era outro. Por mais que soubesse que foi filmado em Itália, quando me vi a vaguear entre o Nevada, Utah e Arizona, com destino a Las Vegas e ao Grand Canyon, e consegui o silêncio solitário do deserto, não pude deixar de imaginar que aparecessem os fora-da-lei, o insolente Trinità refastelado na padiola ao som do batuque da sertã, sob o olhar do possante Bud Spencer. Ou, então, que me cruzasse com um corredor de diligências em busca do ouro perdido, de onde saíssem mulheres de empolados vestidos compridos cheios de atilhos e crianças de toucas, e de cowboys sempre atentos aos ataques. 

Depois há memórias do futuro sempre adiado. Está por fazer a viagem à América do Sul, para encontrar a cadeira do Rubicundo dentista, a cabana e a fotografia da mulher desaparecida e o medo da fera, do Velho que lia romances de amor do Sepúlveda, ou  Nívea a Clara e a Blanca, a mesa da cozinha onde ainda deve jazer um corpo e todo o esoterismo cru da Isabel Allende, se bem que saiba que posso sempre encontrar o Jeremy Irons no Alentejo.»

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 30.11.19

«Desde o princípio que havia alguma coisa dissonante nesta eleição de Joacine e que lhe alterava a harmonia. Lembro-me das apresentações da imprensa que me pareciam até irónicas; da alegria da deputada quando foi eleita e falou apenas por si mesma, facto que achei estranhíssimo; do primeiro dia na Assembleia da República que também não foi nada consensual. E não é pelo choque que constituíram que o digo, gosto um bocadinho desse aspecto de agitar as águas. É mais pelo afã em chocar, aquele espírito de quase vingança em conseguir. E não sei mesmo se o avesso do preconceito não é ele também preconceito.
Por outro lado, a senhora parece não saber que representa um partido e não que se representa a si mesma. Se sabe, tem de entender-se com o partido. As lutas internas não nos interessam, mas não venham dar espectáculo para a praça pública nem apresentar desculpas esfarrapadas. Resumindo: de Rui Tavares, esperava melhor.»

 

Da nossa leitora Bea. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 24.11.19

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«Sou polícia há 17 anos.

Comecemos pelo vencimento: em 2003, acabado o estágio, auferia facilmente 900 euros, tinha 20 anos, solteiro, fui colocado em Lisboa antes dos voos low cost e do airbnb. Alugava um quarto por 100 euros e a farda ainda valia alguma coisa. Raramente era ofendido e, quando era, normalmente era num quadro de alcoolismo, onde todos somos uns fortalhaços.

Dezasseis anos depois, trago para casa 1080 euros. Tenho duas filhas, casa para pagar e todas as despesas normais de uma família. Ou seja, em 16 anos de serviço recuperei 180 euros do meu rendimento. Dezasseis anos a trabalhar noites, manhãs, tardes, em horários sempre diferentes de dia para dia, Natal, ano novo, directas em cima de directas, para ir a tribunal com os criminosos apanhados de madrugada.

Hoje um polícia que inicia a sua carreira ganha de ordenado base 789 euros. Vai para Lisboa, muitas vezes com casa para pagar na terra, onde ficam os filhos e a mulher, e ainda tem de pagar a renda na capital cujo mercado imobiliário está super-inflacionado.

O polícia conduz carros com 25 anos. Sem segurança e incapazes de dar a resposta adequada no confronto com o criminoso. O polícia não tem acesso a bases de dados, numa altura em que a informação é crucial no combate ao crime. O polícia não tem acesso directo à base de dados do IRN, não tem acesso à base de dados de cidadãos procurados e com mandados de detenção pendentes, mas o escrivão do tribunal tem. Deve ser mais idóneo. O polícia até identifica um criminoso, liberta-o a seguir, pois a lei assim obriga, e mais tarde, quando ele não aparece em tribunal, onde o polícia se desloca, sem ter dormido, descobre que o indivíduo é um criminoso procurado.

O polícia patrulheiro recebe da instituição uma farda, uma arma e um coldre. Tudo o resto é pago por ele. Até poderia requisitar algum material, se houver disponível, mas no final do serviço tem de entregar. A instituição dá ao polícia uma arma e três carregadores, mas não fornece porta-carregadores, têm de ser os polícias a comprar, como as algemas, o porta-algemas, as luvas, a lanterna, o gás pimenta, o bastão extensível. Claro que as instituições também os têm, mas não para todos.

Sou polícia e no ano passado gastei 700 euros em material. Recebi 600 de subsídio de fardamento.

Há falta de equidade: em 17 anos recuperei 180 euros de rendimento, na mesma instituição há elementos que recuperam 1600 euros.

Em 17 anos fui promovido uma vez. Sem problemas disciplinares e com cinco louvores. O colega que me deu o curso foi promovido quatro vezes. Claro que não posso ganhar tanto como ele, óbvio, mas caramba: 1400 euros de diferença é muito. Se ele duplica, ou triplica, o seu rendimento em 17 anos, eu também deveria ter esse direito... e mesmo assim nunca ganharíamos o mesmo.

Claro que há policias incompetentes... mas com cursos de sete meses querem o quê? James Bonds? Sete meses para preparar um homem a conhecer a lei, para saber relacionar-se com o cidadão, com a pressão. Sete meses para aprender a reagir em segundos.

E depois quem comanda, ou manda, tem cursos de cinco anos. E nunca interagem com as pessoas, nunca passam pelas situações críticas, nunca se expõem ao perigo e ao juízo público.

Por que não cursos de três anos para todos, preparar bem os polícias para se poder exigir deles mais e permitir aos melhores chegarem lá acima?

Com isso não precisaríamos de tantos chefes, porque estaríamos preparados para resolver as coisas, sem o paizinho atrás a ver se está tudo bem.

Mais de 50% do efectivo da PSP são chefes e oficiais. Impensável.

Isto não é o que acontece nos países mais evoluídos.

Aqui vocês ligam para o 112 e a vossa chamada, até chegar ao polícia que está na rua, demora dez minutos.

Num país de jeito o operador 112 transmite de imediato a ocorrência ao carro-patrulha, até enquanto fala com a vítima. Num país moderno, o 112 escolhe o carro-patrulha mais perto. Aqui não: se a rua é da PSP vai o carro da PSP, mesmo que o carro da GNR esteja a dois minutos.

Num país deste tamanho existem duas forças idênticas. Absurdo.

Bater num polícia dá até cinco anos de prisão... nunca acontece e, se acontece, lá vêm as penas suspensas. Polícia não tem direito a advogado, tem de o pagar. Não tem comparticipação em consultas de psiquiatria, no país dos suicídios de polícias.

Ser polícia é uma merda neste país.»

 

Do nosso leitor Guarda Serôdio. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 17.11.19

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«Começou com parte substancial das mulheres e dos homens (perdão, toda a gente) a ser engolido pela voragem do aparente, numa emancipação artificial. Como modelo de felicidade apareceram os casais delgados muito alinhados, iguais aos dos anúncios a margarinas magras com sabor a manteiga, ele de ar blasé, de camisa azul clara aberta, calças de sarja bege e sapatilhas adidas, ela de blusinha de viscose, saiinha a condizer e sapatinho de bailarina, ambos a sorrir muito para irradiar aquela felicidade pessoal e profissional que se reconhece ter sido alcançada com a prática da outrora auto-ajuda, hoje couching.

A seita dita proibições na alimentação e impõe o exercício físico. A seita com muitos e muitas beatas prontos a catequizarem todos os hereges que não resistem aos pecados capitais da gula e da preguiça. Começaram por ser adeptos do chamado estilo de vida saudável e vão alargando o seu campo de acção. Cada vez que os contestamos (a medo, nunca se sabe) temos de ouvir sermão e missa cantada. Porque é blasfémia, porque deturpamos tudo e só estamos a demonstrar a nossa ignorância e apego aos mitos antigos.

O facto é que quando se começa por confundir apetite, desejo e humanidade com perversão acaba-se a ver pecado numa simples travessa e a pugnar pela ausência de corpo, esse pedaço de culpa, que a modernidade há de querer esconder.»

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 03.11.19

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«Uma das mais belas cidades por onde passei, mas que raio, pouco me lembro; duas horas depois já a memória se encheu de espaços. Estive lá no Verão de 98. Retenho o lago e os jardins do Fine Arts Museum, onde além dos artistas de rua, reparei pela primeira vez no hábito dos turistas recém-casados escolherem imponentes edifícios públicos para as fotografias de noivos e que o lilás é a cor de cerimónia em muitas partes do mundo (o que mais tarde confirmei no Oriente). Lembro da grande marina. E da minha imagem do país, aqui é tudo em ponto grande.

Fiz a highway 1 de San Diego a San Francisco, e fiquei embasbacada com a extensão das bases militares. O mundo começou a ficar mais claro, com menos mistérios sobre a ordem natural do poder global. Em San Francisco derreti com os novos beetles. Em Portugal ou ainda não havia a nova versão, ou havia poucos; lá as ruas estavam apinhadas deles, muito coloridos, a contrastar com os imponentes carros americanos.

Uma cidade luminosa e alegre. Vista da parte alta, distendida e relaxada, de gente descontraída e casas ao estilo europeu, mas mais desempoeiradas, e muito diferente do feio e frio centro de Los Angeles. Fiquei apaixonada.

Lembro ainda da reservada Chinatown e dos fortune cookies. Recordo o avistar de Alcatraz divertida ao som dos muitos leões marinhos, mas sem Sean Connery. E do porto, do navio Queen Mary. E, claro, da Golden Gate, que dá excelentes fotografias. E das noites numa Van de sete lugares no meio de nada, ou num motel baratucho à entrada da cidade.

Depois de passar por San Francisco nunca mais se ouve as músicas San Francisco e Hotel California da mesma forma. You can check out any time you like,/But you can never leave!'»

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 27.10.19

«O separatismo é sempre revolucionário, seja de esquerda, seja de direita. Têm pó a tudo o que é Nação porque preferem o fascismo em micro-escala regional.

Quanto pior melhor. E depois preferem os Impérios (UE, leia-se) para a moedinha.»

 

Da nossa leitora Zazie. A propósito deste meu texto

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 20.10.19

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«Cinjamo-nos aos factos e às circunstâncias, nada de confusões.

 

Castela acudiu à Catalunha primeiro porque... a Catalunha se revoltou. Portugal não. É o facto histórico. Que havia de fazer Castela depois em Dezembro em relação a Portugal se se já empenhara (como seria natural) em meios e forças naquilo que por fado da História se desenrolara no Verão? Transferir forças para Portugal? No século XVII? A pé e de carroça? Da Catalunha para o Alentejo?
No entretanto desguarneceria duas frentes.
É de rir.
Castela não teve escolha. Defendeu a Catalunha conforme a Catalunha se levantara. E Deus sabe com que dificuldade, pois se não fora tal, não houvera de vir procurar meios para estancar a revolta catalã em Portugal.
No fim, os factos são os factos, como já disse. Quem deu o corpo ao manifesto e perseverou foi quem ganhou: os portugueses.


Que gente é agora esta?
Vinte e oito anos de guerra feita por inteiro na nossa terra e o crédito havia de se dá-lo aos catalães?! A que propósito? Por que razão, se os próprios catalães se não empenharam além de procurar abrigar-se nas fraldas do rei de França? Não admira que ainda hoje se frustrem em não serem soberanos. Ha gente de ânimo e gente com ânimo de protectorado. — Há dois anos declararam independência a pedirem protecção não já ao rei de França, mas aos mandarins de Bruxelas (é por lá que anda o Puigkemon, não é verdade?!…) É a história a repetir-se. Revoltam-se contra a suserania castelhana na ânsia da protecção doutro potentado europeu. Que é lá isso?! E baterem-se quando dói...? Que independência esperam desta maneira? Os castelhanos demoraram agora, mas logo perceberam onde dói; tanto que lhe secaram a economia. Foi vê-los, aos catalães, ficarem tolhidos. Ora isso nunca conseguiriam os castelhanos, no século XVII, sobre Portugal: um bloqueio militar e económico. A retaguarda portuguesa eram vastas terras ultramarinas onde havia meios e gente portuguesa de ânimo. Os meios para subjugar a Catalunha eram bem menores e esses, melhor ou pior, Castela acabou por conseguir. No caso de Portugal, não.

 

Castela não teve margem de escolha, repito. Atalhou à Catalunha porque era o seu único problema primeiro e, a sua única opção depois. Só não entende quem não perca dez minutos a pensar no caso.

 

Mas isto tudo agora é assunto deles e de cretinos sem vagar de tentar pensar, como o Rui Tavares.
E talvez de maçónicos…
O nosso, de portugueses, ante ele, é (seria) não cairmos num logro. Algo se pode ou anda armar para escavacar o reino de Espanha e abrir caminho a uma federação de repúblicas ibéricas. Esse, sim, será o roer dos ossos do cadáver que Portugal já é. Já não há retaguarda ultramarina, lembremo-nos!»

 

Do nosso leitor Bic Laranja. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 13.10.19

«Pois eu não consigo convencer um compatriota em particular a ir votar. E como ele não vai a esposa também não vai, o pai está velho e também não vai sozinho, a mãe está num Lar [e] também não vota, e o filho tem 27 anos e creio que nunca votou.
É um direito, não votar. Sou contra o voto obrigatório, acho que daí ao braço no ar é um passinho, e lá se vai o voto secreto. Milhões de portugueses exercem pontualmente o direito de se furtar à estafadeira que é perder meia hora de quatro em quatro anos a votar. Não por terem as pernas partidas ou estarem em coma - francamente nem sei se a preguiça por si só justifica a abstenção. O que lhe disse, e não gostou, foi que não o aturo mais quatro anos a queixar-se destes gajos.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 06.10.19

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«Eu sou uma das mulheres retratadas nesta exposição. Além disso, já participei em inúmeros projectos de sensibilização, conferências científicas e dei a cara por este tema, no maior semanário nacional.
Não o fiz por ser uma personalidade pública mas, precisamente, por não o ser. Por ser uma ilustre desconhecida, igual a tantas outras, que engrossam as estatísticas negras do cancro da mama.

 

Devo dizer-lhe que “até me ter tocado” pensava da mesma maneira. É do meu foro privado, só a mim e aos que me são mais próximos diz respeito. Ia às minhas consultas, fazia as minhas pesquisas e não falava com ninguém. Não sou/era de falar ou meter conversa com quem não conheço.
Tudo mudou na altura em que, por uma questão de delicadeza, aderi a um grupo fechado no Facebook de mulheres portadoras de neoplasia da mama. A partir daí percebi que manter-me afastada, a viver a minha doença de forma privada, já não era opção.
Percebi que há mulheres (demasiadas) que saem das consultas com dúvidas que, para mim, eram inacreditáveis. Percebi que há quem tenha vergonha de colocar perguntas aos médicos, que não saiba o que é uma metástese, um gânglio, um marcador tumoral ou uma biópsia. Que não faz ideia do que é um cateter central ou periférico, que ignora o que seja uma PET, cintilograma, uma mutação genética ou toda a parafernália de “palavras novas” com que são bombardeadas. E não falo de senhoras com mais de 60 anos mas, principalmente de “miúdas” nos 20/30 anos (que são quem mais se vê).


Foi aí que, modestamente, senti que poderia ajudar. E sei, pelo feedback que tenho tido, que ajudo.
Por isso me exponho. Por isso continuarei a expor-me enquanto perceber que essa exposição pode ajudar alguém.
Não se pense, porém, que é uma forma de estar altruísta, que não é. Também eu fui ajudada (e de que maneira) por outras mulheres. A título de exemplo, posso dizer-lhe que não fora as horas e horas de conversa com uma figura pública que passou pelo mesmo (e que por grande timidez não se expõe), hoje, provavelmente não estaria aqui.
Acredite que ver outras iguais a nós a tentar quebrar barreiras de modo a que o cancro deixe de ser um estigma é das melhores coisas que podemos fazer por quem está doente. Se a isso aliarmos uma chamada de atenção para a prevenção, será ouro sobre azul.»

 

Da nossa leitora Cristina Filipe Nogueira. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 29.09.19

«Pagaria um euro com gosto para financiar a reabertura de escolas para as poucas crianças que ainda vivem nos meios rurais e respectivo transporte escolar condigno. Pagaria um euro para ajudar a reabrir estações de correios e farmácias nos meios rurais. Pagaria um euro para financiar políticas capazes de fazer funcionar os hospitais distritais do interior, acabando com espaços cheios de bom equipamento sem profissionais de saúde com vontade de os usar no tratamento dos pacientes que residem no interior. Pagaria um euro para criar um País que valorizasse quem investe, cria riqueza e emprego no interior. Pagaria um euro para que os comboios do interior voltassem a funcionar. Pagaria muito mais de um euro para pôr o País tonto a respeitar o interior e o mundo rural, dotando as aldeias, vilas e cidades do interior das comodidades mínimas para poder haver fixação de populações nos meios rurais.

Anacrónica, o meu ambientalismo reporta-me para o mundo rural e para a sua valorização. Mas nada disto interessa para o ambientalismo da vaga de citadinos de primeira ou segunda geração, muito pouco educados e ainda envergonhados das suas origens rurais. Vamos ter que esperar mais umas décadas para que esta vaga de citadinos tontos - que agitam bandeiras contra as alterações climáticas sem conhecer nem querer saber dos tempos e dos ciclos da natureza - perceba a importância daquilo que abandonou.»

 

Da nossa leitora Isabel. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 22.09.19

«O Magnífico Falcão podia encerrar os parques de estacionamento da Universidade de Coimbra. Podia abolir a venda de água engarrafada na Universidade. Podia fechar o Pólo II ao trânsito. Podia acabar com os AC. Podia.
O Governo podia acabar com o comércio de animais (tudo se chateia com as condições de vida da vaca que vai para abate mas aqueles canitos fechados numa jaula de plástico...). O Governo podia tirar carros de serviço a ministros, secretários de estado e afins. O Governo podia impedir a entrada de arroz basmati e quinoa importada (a pegada do arroz portuga é bem menor). O Governo podia obrigar construtores a isolar devidamente as casas. O Governo podia obrigar as Câmaras a não ligar as regas às 3 da tarde. Tanta coisa que se podia fazer.
Abolir a vaca é que é.
Até porque, não comem bifes, comam peixe (ou brioche). Ao contrário das vaquinhas, não têm sentimentos e são um recurso infinito.»

 

Do nosso leitor Anonimus. A propósito deste postal.

Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 01.09.19

 

«Estranha mania esta, muito nossa, de só vermos o alto quanto mais em baixo nos encontramos. Como se para tocarmos no cume necessitássemos do embalo do precipício. O sol radiante torna-se com o tempo ofuscante, entendiante. Necessitamos da trovoada, da noite cerrada para voltarmos a sentir a falta. A vida fácil entorpece, faz coxear a vontade. Olho, impassível, o horizonte em busca do tonitruante vulcão. Apenas quando só, e à beira do abismo, sinto a bicada da vida.»

 

Do nosso leitor Vorph Valknut. A propósito deste texto do Luís Naves.

 

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«Se escrevesse hoje, provavelmente não teria quem o publicasse. E todavia, é em Aquilino que melhor se vê descrito o Portugal e os portugueses da primeira metade do século XX e, diria até, das idiossincrasias e atavismos que definem a nossa identidade colectiva e vão bem além dessas poucas décadas, tanto na direcção do passado como do futuro.
Lendo o seu post, recordei um trecho de Saramago que li há algumas semanas no Último Caderno de Lanzarote, onde se refere a Aquilino como "penhasco solitário e enorme, que irrompeu do chão no meio da álea principal da nossa florida e não raro delisquescente literatura da primeira metade do século". Depois continua reflectindo sobre a memória dos portugueses e de como o aparente esquecimento a que Aquilino parece votado é um sinal da abdicação colectiva das nossas referências culturais e da cedência a uma "pacóvia bebedeira de modernice", isto é, uma espécie de colonização cultural que nos levará ao esquecimento de nós mesmos, daquilo que nos define e condensa a nossa identidade.
As patrulhas a que se refere o Pedro são uma expressão deste processo, face visível e barulhenta, pregando a firmeza das suas certezas absolutas e, sobretudo, condenando a eito.
Valha-nos mestre Aquilino e outros mais para arejar a enxovia.»

 

Do nosso leitor PN Ferreira. A propósito deste meu texto.

 

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«Há mais ou menos 50 anos, eu andava frequentemente com as ovelhas dos meus tios, levava-as a pastar no passal. Era no período estival, quando estava de férias da escola. Todos os dias ao início da tarde, lá ia eu. E elas, um punhado de meia dúzia, lá ficavam todas próximas da matriarca, a única presa por uma corda a qualquer troço de milho cortado. Pouco tempo depois, começavam a berregar e eu, achando que elas já estariam saciadas e, farto de lá estar e de as ouvir, lá voltava para casa com o rebanho. A casa chegados, levavámos, eu e as ovelhas, uma corrida da minha tia dizendo que as ovelhas deveriam estar toda a tarde a comer e só aí sim, ficariam fartas. Lá voltávamos ao pasto. Outras vezes, e porque um miúdo não faz os nós bem firmes, quando eu me apercebia, já elas corriam pela calçada acima, atravessando a estrada nacional na curva da morte, e eu atrás delas sem olhar o trânsito, todos em direcção a casa. Nem sei bem, depois de todas as vezes que este episódio aconteceu, como é que ainda hoje estou vivo. Também não me lembro de alguma vez uma ovelha ter sido atropelada na curva da morte, mas por alguma razão bem macabra ela assim era chamada. Claro está que quando lá chegados, voltávamos todos para o campo, novamente estimulados pela rabecada de quem mandava. O tempo parava literalmente, quando eu estava com as ovelhas no passal, de tal forma que eu tinha tempo para tudo, tudo mesmo entenda-se, até para todo o tipo de disparates que um miúdo daquela idade é suposto fazer para crescer bem formado, inclusive para ter aprendido a fazer um relógio de sol, desenhado na terra e acertado hora a hora pelas badaladas da torre da igreja. Por isso é que eu hoje gosto muito de conviver com os ovídeos... no prato, de preferência, acompanhados de um bom Douro. Mas sim, parabéns pela aparente boa gestão do seu minifúndio.»

 

Do nosso leitor Vítor Augusto. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.08.19

«Há cerca de dez anos (talvez) ouvi um "labregote" endinheirado inglês, daqueles que vivem de clichés como "conceitos" e "paradigmas", julgo que ligado ao hotel que funciona em Gaia (Yeatman), dar entrevista à SIC (ou RTP?) dizendo qualquer coisa parecida com isto: o Porto, sendo uma cidade do terceiro mundo, ainda não estava apetrechado com as comodidades normais, mas tinha grande potencialidade turística, dado ter uma arquitectura medieval, que o tornava romântico. Nenhum reparo foi feito pelos jornalistas, ou por quem quer que fosse (presumo que o dito tenha achado - um pouco mais tarde -, que o Porto passou ao segundo mundo quando começaram a nascer como cogumelos hostels, bares e restaurantes com pinta de IKEA).

Achei o mesmo que continuo a achar hoje: merecemos. Passamos anos - as últimas décadas -, a desdenhar de nós mesmos e a prestar vassalagem ao que é de fora. A agirmos como "cachicos" subservientes. A desprezar a história e o antigo. A desprezar a tradição do conhecimento. Não podemos exigir que nos respeitem, se deixamos que um qualquer "piolho em camisa lavada", cujo must de civilização é subir a ao deck do septuagésimo segundo andar da "The Shard" para tirar uma selfie, nos venha dar lições sobre civilização.»

 

Da nossa leitora Isabel. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 17.08.19

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«A pretexto dos "pecados" dos [cineastas] Allen/Polanski, ou dos temas e estilo dos filmes do Tarantino, essa gente quer impedir-nos de ver os seus filmes. E isso é inaceitável, pois mesmo que os autores sejam/tenham sido condenados, o mesmo não se aplica aos filmes. Quanto aos ataques ao Tarantino, não têm sequer ponta por onde se pegue (digo eu, que não gosto nem um pouco dos seus filmes).

Pior, tentam intimidar quem insiste, de acordo com a sua ética, em mostrá-los. Essa gente tem todo o direito de exigir que a justiça funcione, mas não tem o direito de se imiscuir naquilo que não lhes diz respeito, como por exemplo a programação de uma cinemateca. É tão simples como isto.»

 

Do nosso leitor Miguel. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 05.08.19

«"Empresa que vendeu golas antifumo inflamáveis é de marido de autarca do PS. A Foxtrot – Aventura, Unipessoal Lda, assim se chama a empresa que vendeu as golas da polémica, só foi constituída a 18 de Dezembro de 2017 e, segundo os registos comerciais, opera no sector do 'turismo de natureza'."
É esta democracia que nos dizem que temos de defender, através da oportunidade eleitoral? Da esquerda à direita é tudo igual. Necessitamos de uma República Nova, que esta finou-se. Dobrem-se por ela os sinos e estendam-se tapetes cerimoniais até aos patíbulos do sacrificio. Forjemos com sangue um novo pacto. Pelo Renascimento de Portugal. Portugal há-de viver.»

 

Do nosso leitor Vorph Valknut. A propósito deste texto do João Campos.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.07.19

 

«Em Lisboa os "especialistas" julgam que roçar mato é o mesmo que roçar no mato. Daí os disparates.»

 

S. Moreira, neste texto do Tiago Mota Saraiva

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 21.07.19

«É o século XXI. As mulheres representam apenas 30% das personagens dos bons guiões. Há que impor quotas (proponho para palavra do ano 2019…) para boas personagens femininas. As ideias surgem e acontece o spin-off feminista de Ocean's, de Steven Soderbergh. É um exemplo do que acontecerá ao “Bond, Jane Bond”. Um flop monumental, o plano do assalto de Sandra Bullock é tão fraco que a única regra que ela estabelece para a acção, que não haja nenhum homem no grupo, é traída no clímax, quando um actor realiza o elemento mais complexo. O feminismo “descabelado” traído na sua essência por erros básicos e elementares. Sherlock Holmes, que sobreviveu a adaptações onde as suas opções sexuais foram questionadas, a sua dependência da cocaína banalizada e recentemente até a sua fleuma britânica substituída pela veia de Indiana Jones, não sobreviverá à mudança de género. Nem com Meryl Streep lá chegarão, a não ser que Meryl interprete um travesti masculino, nesse caso ganhará o seu quarto Óscar!

Em tempos palermas a idiotice é o melhor remédio!»

 

Do nosso leitor Manuel Ó Pereira. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 30.06.19

«A primeira casa que eu tive verdadeiramente minha, por singular sorte nunca foi.
Tinha 33 anos quando a comecei, num terreno de mil metros oferecido pelos meus pais ao casal, eu filho e ela nora; repleto de mangueiras, abacateiros, mamoeiros e um cajueiro. 
Até aí os meus pais não se serviam dele, tirando o proveito dos frutos, claro.
Depois lembrou-se que aquilo dava muito jeito para ter a nora e as netas em Luanda quando viu preparativos de abalada da nora e netas queridas para outras paragens - o filho também ia mas por esse não lhe doía a cabeça - e convenceu-me a construir ali a minha casa.
Mostrei-me reticente, a minha mulher advogou em meu favor que tínhamos melhor futuro em Benguela, então para me incentivar colocou lá pessoal das obras dele - era construtor civil - e como quem dá o pão dá também a manteiga, os materiais também vieram das obras dele.
Comecei portanto a construção dessa casa em Setembro de 1973 e em Março de 74 estava concluída.
A minha mulher adorava a casa, os meus pais adoravam que ela adorasse, eu adorava que ela risse de modo que não andava descontente.
Uma semana antes de mudarmos para lá apareceu-me o "povo" angolano e travámos uma esclarecedora discussão. Curta mas conclusiva. Tipo.
- Então? De que se trata?
- Ó colonialista. Fizeste uma casa bonita. Agora sai daqui que a casa é do povo.
E foi assim.
Fora do assunto casa e só a título de curiosidade, que obviamente a ninguém interessará, e só porque uma vez que se conhece o canteiro conheça-se então a lavra toda; uma semana depois passei pelo banco a ver se conseguia sacar o meu dinheiro, e fui recebido com pompa e circunstância por um exército ferozmente armado, onde por singular afinidade o diálogo sobre dinheiro pouco ou nada diferiu sobre o outro da casa.
- Ó colonialista! O dinheiro é do povo.
Mas vinguei-me! Quando o pessoal da minha casa se apresentou no fim do mês para receber, eu esclareci-o a preceito.
- Ó gente. Não tenho dinheiro, pá!
- Não tens?!
- Não! Vocês são povo, não são? Então ide ao banco que o vosso dinheiro está lá.»

 

Do nosso comentador Corvo. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 23.06.19

«Quando fui para o Gabão, em 1977, havia uma religião, a católica, e os feriados religiosos eram escrupulosamente respeitados. Sem dúvida educação ministrada a preceito pelos franciús certamente para dissiparem resquícios do São Bartolomeu; e havia os feriados referentes ao próprio país, que também não pecavam por avareza. Dia da Independência, dia da ideia independentista, dia da discussão para o dia da independência, dia do consenso para a independência, dia do presidente, dia do vice-presidente, e por aí adiante.
Um ano depois, a juntar a estes feriados todos, vieram os muçulmanos porque o presidente, antes senhor Albert-Bernard Bongo, decretara o Islamismo no país, - sem abolir o cristianismo, - porque parece que o petróleo tinha mais propriedades energéticas, tendo ele mesmo dado o sublime exemplo de fé e passou a chamar-se senhor El Hadj Omar Bongo Ondimba.
Sabe lá este povo português, eternamente oprimido, o que são feriados.»

 

Do nosso leitor Corvo. A propósito deste meu texto.


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