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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 13.10.19

«Pois eu não consigo convencer um compatriota em particular a ir votar. E como ele não vai a esposa também não vai, o pai está velho e também não vai sozinho, a mãe está num Lar [e] também não vota, e o filho tem 27 anos e creio que nunca votou.
É um direito, não votar. Sou contra o voto obrigatório, acho que daí ao braço no ar é um passinho, e lá se vai o voto secreto. Milhões de portugueses exercem pontualmente o direito de se furtar à estafadeira que é perder meia hora de quatro em quatro anos a votar. Não por terem as pernas partidas ou estarem em coma - francamente nem sei se a preguiça por si só justifica a abstenção. O que lhe disse, e não gostou, foi que não o aturo mais quatro anos a queixar-se destes gajos.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do JPT.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 06.10.19

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«Eu sou uma das mulheres retratadas nesta exposição. Além disso, já participei em inúmeros projectos de sensibilização, conferências científicas e dei a cara por este tema, no maior semanário nacional.
Não o fiz por ser uma personalidade pública mas, precisamente, por não o ser. Por ser uma ilustre desconhecida, igual a tantas outras, que engrossam as estatísticas negras do cancro da mama.

 

Devo dizer-lhe que “até me ter tocado” pensava da mesma maneira. É do meu foro privado, só a mim e aos que me são mais próximos diz respeito. Ia às minhas consultas, fazia as minhas pesquisas e não falava com ninguém. Não sou/era de falar ou meter conversa com quem não conheço.
Tudo mudou na altura em que, por uma questão de delicadeza, aderi a um grupo fechado no Facebook de mulheres portadoras de neoplasia da mama. A partir daí percebi que manter-me afastada, a viver a minha doença de forma privada, já não era opção.
Percebi que há mulheres (demasiadas) que saem das consultas com dúvidas que, para mim, eram inacreditáveis. Percebi que há quem tenha vergonha de colocar perguntas aos médicos, que não saiba o que é uma metástese, um gânglio, um marcador tumoral ou uma biópsia. Que não faz ideia do que é um cateter central ou periférico, que ignora o que seja uma PET, cintilograma, uma mutação genética ou toda a parafernália de “palavras novas” com que são bombardeadas. E não falo de senhoras com mais de 60 anos mas, principalmente de “miúdas” nos 20/30 anos (que são quem mais se vê).


Foi aí que, modestamente, senti que poderia ajudar. E sei, pelo feedback que tenho tido, que ajudo.
Por isso me exponho. Por isso continuarei a expor-me enquanto perceber que essa exposição pode ajudar alguém.
Não se pense, porém, que é uma forma de estar altruísta, que não é. Também eu fui ajudada (e de que maneira) por outras mulheres. A título de exemplo, posso dizer-lhe que não fora as horas e horas de conversa com uma figura pública que passou pelo mesmo (e que por grande timidez não se expõe), hoje, provavelmente não estaria aqui.
Acredite que ver outras iguais a nós a tentar quebrar barreiras de modo a que o cancro deixe de ser um estigma é das melhores coisas que podemos fazer por quem está doente. Se a isso aliarmos uma chamada de atenção para a prevenção, será ouro sobre azul.»

 

Da nossa leitora Cristina Filipe Nogueira. A propósito deste texto do JPT.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 29.09.19

«Pagaria um euro com gosto para financiar a reabertura de escolas para as poucas crianças que ainda vivem nos meios rurais e respectivo transporte escolar condigno. Pagaria um euro para ajudar a reabrir estações de correios e farmácias nos meios rurais. Pagaria um euro para financiar políticas capazes de fazer funcionar os hospitais distritais do interior, acabando com espaços cheios de bom equipamento sem profissionais de saúde com vontade de os usar no tratamento dos pacientes que residem no interior. Pagaria um euro para criar um País que valorizasse quem investe, cria riqueza e emprego no interior. Pagaria um euro para que os comboios do interior voltassem a funcionar. Pagaria muito mais de um euro para pôr o País tonto a respeitar o interior e o mundo rural, dotando as aldeias, vilas e cidades do interior das comodidades mínimas para poder haver fixação de populações nos meios rurais.

Anacrónica, o meu ambientalismo reporta-me para o mundo rural e para a sua valorização. Mas nada disto interessa para o ambientalismo da vaga de citadinos de primeira ou segunda geração, muito pouco educados e ainda envergonhados das suas origens rurais. Vamos ter que esperar mais umas décadas para que esta vaga de citadinos tontos - que agitam bandeiras contra as alterações climáticas sem conhecer nem querer saber dos tempos e dos ciclos da natureza - perceba a importância daquilo que abandonou.»

 

Da nossa leitora Isabel. A propósito deste meu texto.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 22.09.19

«O Magnífico Falcão podia encerrar os parques de estacionamento da Universidade de Coimbra. Podia abolir a venda de água engarrafada na Universidade. Podia fechar o Pólo II ao trânsito. Podia acabar com os AC. Podia.
O Governo podia acabar com o comércio de animais (tudo se chateia com as condições de vida da vaca que vai para abate mas aqueles canitos fechados numa jaula de plástico...). O Governo podia tirar carros de serviço a ministros, secretários de estado e afins. O Governo podia impedir a entrada de arroz basmati e quinoa importada (a pegada do arroz portuga é bem menor). O Governo podia obrigar construtores a isolar devidamente as casas. O Governo podia obrigar as Câmaras a não ligar as regas às 3 da tarde. Tanta coisa que se podia fazer.
Abolir a vaca é que é.
Até porque, não comem bifes, comam peixe (ou brioche). Ao contrário das vaquinhas, não têm sentimentos e são um recurso infinito.»

 

Do nosso leitor Anonimus. A propósito deste postal.

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Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 01.09.19

 

«Estranha mania esta, muito nossa, de só vermos o alto quanto mais em baixo nos encontramos. Como se para tocarmos no cume necessitássemos do embalo do precipício. O sol radiante torna-se com o tempo ofuscante, entendiante. Necessitamos da trovoada, da noite cerrada para voltarmos a sentir a falta. A vida fácil entorpece, faz coxear a vontade. Olho, impassível, o horizonte em busca do tonitruante vulcão. Apenas quando só, e à beira do abismo, sinto a bicada da vida.»

 

Do nosso leitor Vorph Valknut. A propósito deste texto do Luís Naves.

 

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«Se escrevesse hoje, provavelmente não teria quem o publicasse. E todavia, é em Aquilino que melhor se vê descrito o Portugal e os portugueses da primeira metade do século XX e, diria até, das idiossincrasias e atavismos que definem a nossa identidade colectiva e vão bem além dessas poucas décadas, tanto na direcção do passado como do futuro.
Lendo o seu post, recordei um trecho de Saramago que li há algumas semanas no Último Caderno de Lanzarote, onde se refere a Aquilino como "penhasco solitário e enorme, que irrompeu do chão no meio da álea principal da nossa florida e não raro delisquescente literatura da primeira metade do século". Depois continua reflectindo sobre a memória dos portugueses e de como o aparente esquecimento a que Aquilino parece votado é um sinal da abdicação colectiva das nossas referências culturais e da cedência a uma "pacóvia bebedeira de modernice", isto é, uma espécie de colonização cultural que nos levará ao esquecimento de nós mesmos, daquilo que nos define e condensa a nossa identidade.
As patrulhas a que se refere o Pedro são uma expressão deste processo, face visível e barulhenta, pregando a firmeza das suas certezas absolutas e, sobretudo, condenando a eito.
Valha-nos mestre Aquilino e outros mais para arejar a enxovia.»

 

Do nosso leitor PN Ferreira. A propósito deste meu texto.

 

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«Há mais ou menos 50 anos, eu andava frequentemente com as ovelhas dos meus tios, levava-as a pastar no passal. Era no período estival, quando estava de férias da escola. Todos os dias ao início da tarde, lá ia eu. E elas, um punhado de meia dúzia, lá ficavam todas próximas da matriarca, a única presa por uma corda a qualquer troço de milho cortado. Pouco tempo depois, começavam a berregar e eu, achando que elas já estariam saciadas e, farto de lá estar e de as ouvir, lá voltava para casa com o rebanho. A casa chegados, levavámos, eu e as ovelhas, uma corrida da minha tia dizendo que as ovelhas deveriam estar toda a tarde a comer e só aí sim, ficariam fartas. Lá voltávamos ao pasto. Outras vezes, e porque um miúdo não faz os nós bem firmes, quando eu me apercebia, já elas corriam pela calçada acima, atravessando a estrada nacional na curva da morte, e eu atrás delas sem olhar o trânsito, todos em direcção a casa. Nem sei bem, depois de todas as vezes que este episódio aconteceu, como é que ainda hoje estou vivo. Também não me lembro de alguma vez uma ovelha ter sido atropelada na curva da morte, mas por alguma razão bem macabra ela assim era chamada. Claro está que quando lá chegados, voltávamos todos para o campo, novamente estimulados pela rabecada de quem mandava. O tempo parava literalmente, quando eu estava com as ovelhas no passal, de tal forma que eu tinha tempo para tudo, tudo mesmo entenda-se, até para todo o tipo de disparates que um miúdo daquela idade é suposto fazer para crescer bem formado, inclusive para ter aprendido a fazer um relógio de sol, desenhado na terra e acertado hora a hora pelas badaladas da torre da igreja. Por isso é que eu hoje gosto muito de conviver com os ovídeos... no prato, de preferência, acompanhados de um bom Douro. Mas sim, parabéns pela aparente boa gestão do seu minifúndio.»

 

Do nosso leitor Vítor Augusto. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.08.19

«Há cerca de dez anos (talvez) ouvi um "labregote" endinheirado inglês, daqueles que vivem de clichés como "conceitos" e "paradigmas", julgo que ligado ao hotel que funciona em Gaia (Yeatman), dar entrevista à SIC (ou RTP?) dizendo qualquer coisa parecida com isto: o Porto, sendo uma cidade do terceiro mundo, ainda não estava apetrechado com as comodidades normais, mas tinha grande potencialidade turística, dado ter uma arquitectura medieval, que o tornava romântico. Nenhum reparo foi feito pelos jornalistas, ou por quem quer que fosse (presumo que o dito tenha achado - um pouco mais tarde -, que o Porto passou ao segundo mundo quando começaram a nascer como cogumelos hostels, bares e restaurantes com pinta de IKEA).

Achei o mesmo que continuo a achar hoje: merecemos. Passamos anos - as últimas décadas -, a desdenhar de nós mesmos e a prestar vassalagem ao que é de fora. A agirmos como "cachicos" subservientes. A desprezar a história e o antigo. A desprezar a tradição do conhecimento. Não podemos exigir que nos respeitem, se deixamos que um qualquer "piolho em camisa lavada", cujo must de civilização é subir a ao deck do septuagésimo segundo andar da "The Shard" para tirar uma selfie, nos venha dar lições sobre civilização.»

 

Da nossa leitora Isabel. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 17.08.19

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«A pretexto dos "pecados" dos [cineastas] Allen/Polanski, ou dos temas e estilo dos filmes do Tarantino, essa gente quer impedir-nos de ver os seus filmes. E isso é inaceitável, pois mesmo que os autores sejam/tenham sido condenados, o mesmo não se aplica aos filmes. Quanto aos ataques ao Tarantino, não têm sequer ponta por onde se pegue (digo eu, que não gosto nem um pouco dos seus filmes).

Pior, tentam intimidar quem insiste, de acordo com a sua ética, em mostrá-los. Essa gente tem todo o direito de exigir que a justiça funcione, mas não tem o direito de se imiscuir naquilo que não lhes diz respeito, como por exemplo a programação de uma cinemateca. É tão simples como isto.»

 

Do nosso leitor Miguel. A propósito deste meu texto.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 05.08.19

«"Empresa que vendeu golas antifumo inflamáveis é de marido de autarca do PS. A Foxtrot – Aventura, Unipessoal Lda, assim se chama a empresa que vendeu as golas da polémica, só foi constituída a 18 de Dezembro de 2017 e, segundo os registos comerciais, opera no sector do 'turismo de natureza'."
É esta democracia que nos dizem que temos de defender, através da oportunidade eleitoral? Da esquerda à direita é tudo igual. Necessitamos de uma República Nova, que esta finou-se. Dobrem-se por ela os sinos e estendam-se tapetes cerimoniais até aos patíbulos do sacrificio. Forjemos com sangue um novo pacto. Pelo Renascimento de Portugal. Portugal há-de viver.»

 

Do nosso leitor Vorph Valknut. A propósito deste texto do João Campos.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.07.19

 

«Em Lisboa os "especialistas" julgam que roçar mato é o mesmo que roçar no mato. Daí os disparates.»

 

S. Moreira, neste texto do Tiago Mota Saraiva

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 21.07.19

«É o século XXI. As mulheres representam apenas 30% das personagens dos bons guiões. Há que impor quotas (proponho para palavra do ano 2019…) para boas personagens femininas. As ideias surgem e acontece o spin-off feminista de Ocean's, de Steven Soderbergh. É um exemplo do que acontecerá ao “Bond, Jane Bond”. Um flop monumental, o plano do assalto de Sandra Bullock é tão fraco que a única regra que ela estabelece para a acção, que não haja nenhum homem no grupo, é traída no clímax, quando um actor realiza o elemento mais complexo. O feminismo “descabelado” traído na sua essência por erros básicos e elementares. Sherlock Holmes, que sobreviveu a adaptações onde as suas opções sexuais foram questionadas, a sua dependência da cocaína banalizada e recentemente até a sua fleuma britânica substituída pela veia de Indiana Jones, não sobreviverá à mudança de género. Nem com Meryl Streep lá chegarão, a não ser que Meryl interprete um travesti masculino, nesse caso ganhará o seu quarto Óscar!

Em tempos palermas a idiotice é o melhor remédio!»

 

Do nosso leitor Manuel Ó Pereira. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 30.06.19

«A primeira casa que eu tive verdadeiramente minha, por singular sorte nunca foi.
Tinha 33 anos quando a comecei, num terreno de mil metros oferecido pelos meus pais ao casal, eu filho e ela nora; repleto de mangueiras, abacateiros, mamoeiros e um cajueiro. 
Até aí os meus pais não se serviam dele, tirando o proveito dos frutos, claro.
Depois lembrou-se que aquilo dava muito jeito para ter a nora e as netas em Luanda quando viu preparativos de abalada da nora e netas queridas para outras paragens - o filho também ia mas por esse não lhe doía a cabeça - e convenceu-me a construir ali a minha casa.
Mostrei-me reticente, a minha mulher advogou em meu favor que tínhamos melhor futuro em Benguela, então para me incentivar colocou lá pessoal das obras dele - era construtor civil - e como quem dá o pão dá também a manteiga, os materiais também vieram das obras dele.
Comecei portanto a construção dessa casa em Setembro de 1973 e em Março de 74 estava concluída.
A minha mulher adorava a casa, os meus pais adoravam que ela adorasse, eu adorava que ela risse de modo que não andava descontente.
Uma semana antes de mudarmos para lá apareceu-me o "povo" angolano e travámos uma esclarecedora discussão. Curta mas conclusiva. Tipo.
- Então? De que se trata?
- Ó colonialista. Fizeste uma casa bonita. Agora sai daqui que a casa é do povo.
E foi assim.
Fora do assunto casa e só a título de curiosidade, que obviamente a ninguém interessará, e só porque uma vez que se conhece o canteiro conheça-se então a lavra toda; uma semana depois passei pelo banco a ver se conseguia sacar o meu dinheiro, e fui recebido com pompa e circunstância por um exército ferozmente armado, onde por singular afinidade o diálogo sobre dinheiro pouco ou nada diferiu sobre o outro da casa.
- Ó colonialista! O dinheiro é do povo.
Mas vinguei-me! Quando o pessoal da minha casa se apresentou no fim do mês para receber, eu esclareci-o a preceito.
- Ó gente. Não tenho dinheiro, pá!
- Não tens?!
- Não! Vocês são povo, não são? Então ide ao banco que o vosso dinheiro está lá.»

 

Do nosso comentador Corvo. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 23.06.19

«Quando fui para o Gabão, em 1977, havia uma religião, a católica, e os feriados religiosos eram escrupulosamente respeitados. Sem dúvida educação ministrada a preceito pelos franciús certamente para dissiparem resquícios do São Bartolomeu; e havia os feriados referentes ao próprio país, que também não pecavam por avareza. Dia da Independência, dia da ideia independentista, dia da discussão para o dia da independência, dia do consenso para a independência, dia do presidente, dia do vice-presidente, e por aí adiante.
Um ano depois, a juntar a estes feriados todos, vieram os muçulmanos porque o presidente, antes senhor Albert-Bernard Bongo, decretara o Islamismo no país, - sem abolir o cristianismo, - porque parece que o petróleo tinha mais propriedades energéticas, tendo ele mesmo dado o sublime exemplo de fé e passou a chamar-se senhor El Hadj Omar Bongo Ondimba.
Sabe lá este povo português, eternamente oprimido, o que são feriados.»

 

Do nosso leitor Corvo. A propósito deste meu texto.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 16.06.19

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«Se em 2008 a Caixa Geral de Depósitos tivesse emprestado os 300 milhões a Berardo para comprar Amazon em vez de BCP, hoje valiam cerca de 7.143 milhões. Quase tanto como chegou a valer a PT, a maior cotada nacional de sempre. Era um risco comprar Amazon? Era. E BCP também. Mesmo aplicando esses 300 milhões num conservador índice sobre o S&P 500, hoje valeriam cerca de 811 milhões. Parece claro que não foi uma perspectiva de negócio a orientar esse empréstimo.
Acontece que as asneiras, só na banca, custaram aos contribuintes cerca de 20.000 milhões, desde 2008. Custaram, custam e custarão por muitos anos.
Junte-se a este valor pelo menos outro tanto em corrupções menores mas abundantes, desperdícios, ineficiências e roubos.
O que significam na realidade estes números astronómicos? Significam uma carga fiscal enorme, a quase impossibilidade de poupar, o adiar de despesas necessárias, o recurso suicida das famílias ao crédito. Significam não trocar de carro, não reparar a casa, não tratar da saúde senão no limite, não seguir estudos, não constituir uma almofada para a reforma. Significam uma dependência humilhante dum Estado-Providência cada vez mais prepotente e menos amigo. Significam um Estado tão opressor que julga que o povo não é muito mais do que uma carteira onde ir tirar o que ainda há. Admiram-se de as pessoas se alhearem do Estado? O Estado há muito que se alheou das pessoas. Só se lembra delas para cobrar - e aí nunca há faltas de memória, nem de meios.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste postal

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 09.06.19

«Tenho muitas memórias, quer da infância, quer da juventude, mas todas elas muito dispersas, sem qualquer tipo de aglutinante integrador que lhes proporcione um sentido da redacção, quanto mais do conto. Mas qual conto? Isso é uma coisa de Autor. Eu sou só um mau leitor, tardio, que vivi a minha infância nos idos anos em que a escola era bem estimulada pela severidade, para lhe não chamar outra coisa, e que não estimulava a criatividade. As férias grandes eram de três meses e meio e, por compensadora coincidência ou não, aconteciam no período do ano dos dias intermináveis, para nossa sorte, embora sempre nos parecessem pequenos, demasiado pequenos para tudo o que desejávamos fazer, incluindo todas as brincadeiras da rua, do monte (ia dizer bosque, mas esta palavra, bosque, assim como charneca, são já tardias, oriundas das leituras da Enid Blyton), junto ao bairro, e dos campos, que percorríamos alegremente, ao longo dos caminhos sinuosos por entre eles até ao rio. Na verdade era um ribeiro, mas que para crianças era um grande curso de água, onde tomávamos longos banhos naquela água corrente quase gélida, mesmo sendo o Verão, sem qualquer tipo de controlo parental nem salva-vidas. Tivemos sempre connosco o nosso anjo-da-guarda.

Não havia, pois, tempo para leituras. Isso era coisa de adultos que não tinham que fazer, estavam permanentemente ocupados com tarefas inúteis, e sempre que se juntavam, passavam horas a fio a falar de assuntos estranhos e enfadonhos. Nós, crianças, ocupávamo-nos de coisas realmente pertinentes, tipo brincar na rua livremente, a tudo quanto um espaço quase sem carros nos permitia fazer, e éramos muito ruidosos, mas o ruído feliz que ainda hoje me faz imobilizar quando me encontro próximo do recreio de uma escola, o único local onde agora se pode presenciar as crianças a brincarem em turbamulta.

 

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Ainda me lembro da carrinha em chapa canelada que estacionava periodicamente, sempre no mesmo sítio do bairro e abria as portas e a pala lateral, expondo as suas estantes interiores pejadas de livros, bem iguais aos da estante da sala de estar que estavam lá em casa e que só o pai lia, talvez também para nos tentar estimular à leitura, embora julgo nunca o ter conseguido, pelo menos comigo. Com os meus filhos, tive que ser bem mais activo na mobilização para a leitura e mesmo assim só consegui um sucesso parcial.
Por isso, minha cara Maria, a leitura, está, e ainda bem, hoje ao alcance de todos, mas a escrita é uma arte só bem dominada pelos que tratam os livros por tu desde tenra idade, o que não é de todo o meu caso. Voltei a ler o seu texto. Eu sabia que ele me tinha lembrado um livro, muito bonito de resto, o "dicionário dos lugares imaginários" do Alberto Manguel, onde cabem, pelo menos parcialmente, todos os livros de ficção presentes em qualquer estante.»

 

Vítor Augusto, neste texto da Maria Dulce Fernandes

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 27.05.19

«A banalização é um perigo. É como fascista. Não é preciso ir muito longe para a palavra ser usada: basta dois amigos zangarem-se para um chamar ao outro "seu fascista". Há mais. Como racista, sexista etc. Se eu disser que um preto é preto, há quem me chame racista. Se disser que um branco é branco já não. Quanto a sexista: é muito difícil escrever um texto em que, quem procure com alguma atenção, não encontre sexismo. Ou estereótipo disto e daquilo. Estereótipo é, ele próprio, um estereótipo.
Há inúmeras palavras sem conteúdo devido à ampliação dos conceitos. Violência no namoro: se se entra na psicológica é tudo. Um arrufo de namorados é violência no namoro e dá para escrever teses de mestrado.
Perante os cultores do politicamente correcto, o melhor é estar calado.»

 

Do nosso leitor A. Matos. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 20.05.19

«Terra ou terra?
A terra tem coisas boas. O meu irmão comia terra. Falta de ferro – opinou o pediatra que também era meu tio.
Eu preferi bosta de vaca, quentinha, acabada de fazer. Saí largado para casa e trouxe uma colher. Sentei-me no chão, bosta entre as pernas abertas e comi à colherada até que a Luzia, cozinheira da casa, me pegou ao colo horrorizada.
Há gostos para tudo. Talvez a comida aquecida fosse da minha preferência e, sobretudo, não arranhava os dentes.
Sabemos que a dieta tem consequências futuras. Tenho 1,80 m e o meu irmão ficou-se pelos 1,65. Prova que merda de vaca é melhor que terra crua.

E mesmo quanto à Terra, sou geólogo porque sempre me fascinaram os minerais e os cristais. E depois as falhas, as dobras e até o cavalgamento que o Canadá resolveu fazer à Península Ibérica. Fascinante!
Arrastou consigo os sedimentos que estavam no fundo do mar. Foram mesmo buldeziriados, dobrados, esticados e acamados numa série com centenas de metros de histórias para contar.
Esta é a Grande História de Portugal. Os sedimentos, assim esmagados e comprimidos transformaram-se em xisto. E nesse xisto, que consegue reter água mesmo em períodos de seca grave, se produziu o milagre do Vinho do Porto.

Quanto ao meu irmão, ficou-se pelo curso de História. Do Vinho do Porto apenas sabe uma coisinhas do Marquês de Pombal e da chegada dos ingleses para o comercializar.
Fica para sempre o civismo e simpatia dos portuenses, mesmo com palavrões à mistura. Talvez tenham sido os ingleses a tornar única esta cidade que não é nem parece mediterrânica. É atlântica. Adoro-a e não sou de lá.»

 

Do nosso leitor José Carlos Menezes. A propósito deste meu texto.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 13.05.19

«Ainda há gente a julgar que a escola não serve para educar e [é] só para informar; mas a função da escola é mesmo educar (informar e formar). A vertente formativa tem maior incidência nos pais ou em quem os substitua, pertence-lhes naturalmente, tem mais contactos com a criança ou jovem e dá-lhes as primeiras ferramentas de adaptação ao mundo social, cria com eles laços que propiciam a modelagem; a vertente formativa acontece na escola e em todas as instituições que a criança frequente, pessoas com quem contacta e a quase tudo que a rodeia. É claro que cada um destes meios tem a sua quota de responsabilidade na educação dos jovens de acordo com o tempo que eles nelas permanecem. A escola será, a seguir à família próxima, o meio privilegiado em que permanecem mais tempo. Recusar-lhe uma quota de responsabilidade, não faz sentido. Como não faz sentido elidir a quota familiar responsabilizando apenas a escola pela falta de formação ou deformação dos jovens. A educação é um processo conjunto, uma interpenetração de factores sem função supletiva. A escola é a sede da informação e a família a da formação, mas uma e outra educam e jogam dados no terreno da outra. O trabalho conjunto beneficia ambas.»

 

Da nossa leitora Bea. A propósito deste postal.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.04.19

«Aquilo deu brado, os ânimos engrossaram, passou à rua e daí à praça.
Sempre em cima do acontecimento o BE plantou-se lá e disse que era sempre a mesma vergonha, que era por situações destas a inferiorizar a mulher que nunca íamos passar de um país do terceiro mundo. Empunhavam grandes cartazes, "Ao sexo obrigada mulher traumatizada"; "Sexo sem compromisso a mulher é um sorriso"; "Se tua mulher queres amar troca o sexo por massajar".
Aquilo despertou dolorosas recordações numa alminha que queria falar e a quem ninguém ligava, que subiu para um palanque e disse que não, que massajar era capaz de ser nefasto para a mulher. "A mim o meu marido uma vez fez-me uma massagem às mamas que fiquei com elas uma desgraça, que durante mais de quinze dias ninguém podia tocar nelas."
Bruno de Carvalho disse saber muito bem de onde aquilo vinha, que era mais uma maquinação bem-estruturada do Benfica para desestabilizar o Sporting, mas agora não tinha tempo para grandes explicações e ia já para o Face elucidar o povo.
Instado a pronunciar-se, Jorge Jesus disse: "Tem boas cartristicas defensivas e deiamo a mim que faço dele um grande médio ofensivo.
- Mister, não é futebol. É educação sexual.
- Voceses fazem mas parguntas a mim e depois querem qeu vos rasponda o quê?
Depois não sei a que consenso chegaram porque a polícia de choque chegou e carregou sobre a malta, e eu vim-me embora.»

 

Do nosso leitor Corvo. A propósito deste meu postal.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 22.04.19

«Tenho de acreditar nalguma coisa, exige-mo a minha racionalidade.
Não posso aceitar, como ser pensante que sou, que seja um acaso a justificação para o meu aparecimento neste mundo. Nem eu, nem a humanidade nem o universo.
Um acaso? E o que é um acaso? Um acaso é um argumento muito fácil para nos desembaraçarmos de perguntas incómodas. Foi o acaso e está feito.
Mas mesmo que fosse: vamos hipoteticamente aceitar esse acaso como a criação de tudo. E o que é? Quem tornou esse eventual acaso uma realidade criadora? De onde surgiu? Como se formou? De onde veio e apareceu?
Para mim, e unicamente para mim sem questionar nem contraditar opiniões contrárias, portanto para mim e para o que a estrutura da minha racionalidade diz, dado que do nada se obtém nada, então houve alguém ou alguma coisa que criou.
E só encontro uma explicação. Inteligência. Uma inteligência muito grande, imensa, de enormidade tremenda e infinita preenchendo todo o espaço cósmico, o nosso e aquele que não conhecemos.
Assim, em meu entendimento, faz algum sentido a religião quando diz que Deus (Inteligência) está aqui, está ali e em toda a parte.
E nós também fazemos parte dela porque, vá-se lá saber porquê, parte dessa inteligência, uma migalha como uma gota de água derramada nos oceanos, foi-nos concedida. Chamemos-lhe alma, ou espírito, como quisermos.
Volta a ter algum sentido para mim quando a igreja diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
Não vejo muito bem para quê se só a utilizamos para destruir, e provavelmente seria muito melhor se fosse aplicada numa mosca ou numa barata, mas pronto. Foi assim e assim será.
Talvez para que possamos ser responsáveis pelos nosso actos. Deve ter sido. Ninguém pede responsabilidades a um gato que saltou e rasgou a cortina.
Isto é Deus para mim. Inteligência.»

 

Do nosso leitor Corvo. A propósito deste texto do João Campos.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 14.04.19

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«Repare-se num detalhe curioso. Há uma assimetria flagrante entre o caso de Maastricht e o Brexit. Naquele caso, ter-se-ia realizado um referendo depois do tratado ter sido escrito; aqui, as pessoas foram chamadas a pronunciar-se sem fazerem a menor ideia das modalidades do leave. O mais estranho é ninguém se ter lembrado de exigir que o referendo se realizasse apenas depois de conhecido os detalhes de um eventual acordo de saída. Assim se vê que, neste caso, com referendo e tudo!, e ao nível estritamente nacional, as políticas também estão a ser ditadas à população por uma elite que lhes é alheia. É preciso uma grande dose de ingenuidade para acreditar que uma espécie de mão invisível representando a solidariedade nacional - personalizada pelos governantes e deputados britânicos e habitués da City - virá em socorro das classes populares e num passo de mágica (leia-se acordo de saída) resolver as suas demandas. Ainda por cima, sabendo que essa elite tem um multiforme conflito de interesses com o leave. Melhor seria pôr a raposa a guardar o galinheiro.»

Do nosso leitor Miguel. A propósito deste meu texto.

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