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Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 23.01.21

«Tive um enfarte agudo do miocárdio em Agosto de 2019. Estava no trabalho (foi a minha sorte) e fui de ambulância para Santa Maria, estive quatro horas numa maca no corredor das urgências. Tive um segundo ataque, saí do corredor e fui visto por uma enfermeira. Aí já não sei quanto tempo passou pois perdi os sentidos e quando acordei já estava na mesa de operações.

Correu tudo bem, felizmente. Apesar do caos, pessoal super simpático.

Agora vem a parte negra da história.

Tinha a primeira consulta em Agosto de 2020 para rever a medicação, foi adiada para Dezembro de 2020 e já foi novamente adiada para Março de 2021.

Será que o gabinete do cardiologista em Santa Maria também foi ocupado com doentes covid?

Ou vou ter de apanhar covid para ter uma consulta de cardiologia em Santa Maria?»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste texto do João Sousa.

 

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«A campanha é um anedota. Mas as pessoas no geral não andam demasiado assustadas, a verdade é essa. Independentemente das tentativas esforçadas da comunicação social, não dá para voltar a Abril de 2020.

Já percebemos o tamanho engodo que isto tudo é, no sentido em que as medidas tomadas são areia para os olhos. Além de não melhorarem a situação têm potencial para piorar a situação.

Todos já conhecemos pessoas infectadas sem demasiada gravidade (assintomáticas ou com sintomas de gripe, mais ou menos forte). Pessoas que não frequentam festas ilegais nem se juntam aos magotes a beber álcool nos jardins públicos. Pessoas que não participaram em bodas, baptizados e banquetes. Pessoas que arejam a casa regularmente e cujos filhos tremem de frio sentados nas suas secretárias nas salas de aula. Usam álcool gel em abundância e máscara sempre. Pessoas que na maior parte das vezes não fazem ideia de como contraíram o virus. Só sabem que não foi nos transportes públicos, porque aí ele não ataca.

Longe de mim desvalorizar o vírus. Mas é preciso perceber que estas medidas de confinamento não fazem nada para travar o vírus. Aliás, é impossível eliminar um vírus disperso na comunidade sem a vacinação significativa da população (nem as ratazanas, as pulgas e os piolhos se conseguem exterminar, quanto mais os vírus). É preciso haver eficiência na gestão dos recursos para tratar os doentes graves e proteger a população mais vulnerável (mas nunca contra a sua vontade). E continuar a viver.»

 

Da nossa leitora Susana V. A propósito deste meu texto.

Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 17.01.21

«Sou professor de História de 12.º ano e tenho bastantes alunos que vão votar pela primeira vez. Tendo os conteúdos da minha disciplina (uma das últimas aulas foi precisamente a escalpelizar a Constituição de 1933), é impossível não falarmos do momento político actual. E os alunos interessam-se por isso e fazem perguntas... é verdade que também têm Ciência Política como disciplina de opção, que por mim deveria ser obrigatória e transversal a todas as áreas do ensino secundário.

 

Do nosso leitor Armando Pereira. A propósito deste meu texto.

 

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«"Nenhuma instituição sobrevive sem rituais - e nenhum deles é tão relevante como o voto". Verdade, mas o meu sétimo sentido diz que parte do problema é que o nosso regime político não criou uma relação "afectiva" (não gosto da palavra preferida do nosso PR, mas a intuição dele é certeira), de confiança com os cidadãos, não criou rituais. Talvez não fosse sequer possível fazê-lo, não sei...

Não ajuda também que, nos últimos 15 anos, a renovação dos políticos portugueses tenha sido quase nula, com excepção do aparecimento da Iniciativa Liberal, que trouxe algumas caras novas, e do André Ventura.

 

Da nossa leitora Marta. A propósito deste meu texto.

 

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«Como é que se pode pretender que o voto seja relevante se o próprio boletim de voto é uma anedota ao manter um candidato chico-esperto? Se alguém cometeu um erro, só tem de assumir e corrigir. Manter o boletim de voto é uma falta de respeito para todos os portugueses.

Como é que se pode pretender que os jovens participem mais activamente na vida política se os políticos tratam os portugueses de forma paternalista, e quase a roçar a debilidade mental?

Quatro décadas de democracia para chegarmos à conclusão que o povo para ser soberano tem de ser confinado.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste meu texto.

Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 26.12.20

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«Cronos, filho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra), era casado com a irmã, Reia. Teve seis filhos (Zeus, Hades, Poseidon, Hera, Héstia e Deméter). Temia uma profecia que prenunciava que lhe seria tirado o poder por um dos seus filhos. Decidiu matá-los e devorá-los. Mas Reia conseguiu salvar Zeus, e este, já crescido, com a ajuda dos titãs, fez Cronos vomitar os irmãos.

A propósito das viagens nos anos setenta serem só para ricos, ocorre-me o velho truismo, mais ou menos intemporal, que diz que "só viaja quem é rico". Exageros à parte (não é necessário ser-se rico para viajar), à época, isto era muito mais verdade do que hoje. Sendo que os pobres, obviamente, não viajam. Contudo há sempre circunstâncias mais ou menos favoráveis, independentemente da condição social, que propiciam alguns prazeres e até devaneios que à partida não são as nossas prioridades: eu passei a viajar muito a partir dos dezasseis anos (com autorização escrita, devidamente assinada pelos meus pais e reconhecida notarialmente) porque tinha um amigo, filho único, que não era rico, mas o pai era um industrial relativamente bem-sucedido, culto, tal como a mãe, e muito felizes da vida. Ele já era maior de idade, tinha automóvel, e fazia questão que eu o acompanhasse em viagens por essa Europa fora durante as férias de Verão. Ficávamos sempre em parques de campismo - mesmo nas grandes cidades -, não só para facilitar a socialização mas também para poupar. Apesar de tudo o dinheiro não é elástico.

Recordo-me de acampar em Monte Carlo - onde até o campismo era diferenciado (como é costume dizer em gestionês) e testemunhar uma das mais hilariantes tradições/rituais/adições de que tenho memória: uma parte bastante considerável dos 'pés descalços', que não aparentavam outra coisa senão o que realmente eram, quando caía a noite, passada uma hora ou duas após o jantar, aperaltavam-se, eles com smoking e laço ou gravata preta, elas com vestidos de noite, e iam felizes da vida gastar o pouco que tinham (mera presunção minha) durante a noite no chiquérrimo casino do principado.

Além disso, por feliz acaso, passei a ir muitas vezes a Paris, de comboio - onde passei muitos e inesquecíveis meses -, porque lá vivia, por razões profissionais, uma das minhas irmãs. Nessa altura também vagueei muito pelo norte de África. Mas viajar para outros continentes não era muito comum. Nos tempos que correm viaja-se para todos os continentes com enorme facilidade. E os jovens universitários fazem Erasmus onde querem.

Eu sei que é preciso ter alguma sorte, mas, como vêem, não é necessário ser rico.»

 

Do nosso leitor JM. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

 

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«O impacto advém sobretudo da existência da foto, que corporaliza o número, e da "orgiástica" (bem escolhido o termo) publicidade alocada, por parte da empresa espanhola que se dedica a este tipo de eventos. Sem a imagem e sem o comentário que lhe subjaz, o assunto teria passado bem mais despercebido.

Um ponto que pode ajudar a fazer compreender a situação: não era suposto numa época normal haver lá uma manada tão numerosa. Foram várias as "caçadas" anuladas durante o ano à conta do Covid, o que resultou numa superpopulação da coutada.

Haveria outras alternativas a este extermínio? É certo que o plano de impacto ambiental da futura central fotovoltaica a instalar naqueles terrenos prevê a transferência dos animais para um cercado próximo. Mas provavelmente o cálculo foi feito a um número muito mais reduzido. E penso que é o que irá acontecer com os espécimes que sobreviveram à "acção de controlo".

Foram respeitados os procedimentos? Como de costume, já começamos a assistir ao típico lava-mãos: "Nós não fomos avisados", "Nós não sabíamos de nada". Ainda se vai descobrir que a culpa, afinal, é dos ucranianos.

As pessoas comovem-se e indignam-se? Claro que sim, sobretudo aquelas que numa ingenuidade alucinada acreditam que a sede de violência e o prazer de matar no ser humano são um distúrbio, ou no mínimo um instinto facilmente sublimável.

E daqui a um mês já todos sorrirão ao ver o ar deliciado com que o canídeo ou o bichano lá de casa consome aquela refeição gourmet elaborada à base de carne de caça...»

 

Do nosso leitor Sampy. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 19.12.20

«Há uns bons anos, estávamos eu e a Sílvia (que será feito de ti, Sílvia?), bem agarradinhos um ao outro, explorando as delícias da luxúria adolescente, num qualquer esconso vão de um dos pavilhões da escola, quando uma empregada (perdão, Auxiliar de Acção Educativa) nos descobriu e abençoou com santas e vigorosas aspersões de moralidade. Entre outros nostradámicos versículos, veio com a conversa do fim do mundo, logo ali na esquina do terrível 2000 que se aproximava. A relação entre a inevitabilidade do fim do mundo e a doçura dos lábios da Sílvia nunca percebi, mas eu era novo e inconsciente, pelo que não quis saber. Porém, perguntei-lhe se o mundo acabaria primeiro na Austrália ou se esperaria até todos nele entrarmos para acabar connosco. Ela mandou-nos embora, sob difusas ameaças de delação ao Conselho Directivo, dizendo que eu não tinha respeito por ninguém.

Ah... Bons tempos!»

 

Do nosso leitor PN Ferreira. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 29.11.20

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«Temos uma herança literária riquíssima, disso não há dúvida. Mas o adolescente de hoje não é o mesmo de há 30, 40 ou 50 anos.

Até acho que hoje demoram mais a crescer, são demasiado protegidos e ganham maturidade mais tarde. Antigamente o adolescente tornava-se "homenzinho " mais cedo. Isso fazia com que compreendesse e retirasse dos livros outros valores, que os incorporasse, identificando-se com a obra.

Isto para dizer o quê? Para dizer que o fomento da leitura, que se dá normalmente entre os 14 e os 18 anos, deveria ser progressivo. As obras escolhidas pelos planos nacionais de leitura, apesar da sua riqueza e valor, não são atractivos para os jovens de hoje. Isso acaba por se reflectir no gosto pela leitura. Os jovens criam resistência. A leitura é vista como uma seca.

 

Em 2014, um liceu do Novo México optou por uma estratégia diferente. Alterou os agendamentos das obras literárias curriculares. Começou a fomentar a leitura de forma gradual, com livros e autores que jamais constariam nas listas leccionáveis. Quebrou inclusive a barreira dos autores ingleses e americanos, fazendo constar também obras de autores de língua estrangeira, como Gabriel García Márquez ou Erich Maria Remarque. Sugeriu aos alunos lerem livros de James Bond, Daniel Silva ou Lee Child e o seu Jack Reacher. Depois foram introduzindo obras cada vez mais complexas e mais exigentes. Mas o bichinho já lá estava e os alunos evoluíram naturalmente e ofereceram muito menos resistência. Aos alunos da middle school deram-lhes Enid Blyton e Os Cinco, depois Harry Potter.

Claro que os intelectuais avisparam-se. Nos EUA, além do inglês, existe a disciplina de literatura inglesa e constar dos planos autores do circuito comercial foi [algo] criticado por algumas personalidades. Mas o certo é que trouxe resultados. Os alunos gostaram, melhoraram os seus resultados e ganharam gosto pela leitura, que teve continuidade.

 

Este exemplo foi mais tarde copiado por uma universidade inglesa, também com bons resultados.

Porquê não optar aqui pela mesma estratégia? Por muito que custe a muita gente, as obras dadas a partir do 7.° ano, com excepção de uma outra, são uma seca para as crianças. As crianças não se sentem motivadas para ler. Ao passo que se se começasse por obras atractivas para os jovens e que os seduzissem, poder-se-ia introduzir gradualmente outras de maior valor literário.»

 

Do nosso leitor O Inconveniente. A propósito deste meu texto.

Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 22.11.20

 

«A apetência pelo emprego público é muito anterior e já no século XIX um grande escritor a registou. Antes ainda, no século XVIII, a nobreza portuguesa tinha 12 ou 15 Casas ditas "puristas" que casavam exclusivamente entre si e constituíam a nobreza mais exclusiva da Europa; em compensação tinha uma nobreza de serviços (como o nome indica, serviam o Estado ou seja, tinham empregos públicos) num número sem comparação com qualquer outro país europeu.

Esta situação era tão expressiva que mereceu de um conde (não recordo quem) o desabafo que o aumento do números de nobres era tal que em pouco tempo a única distinção possível era não ser nobre e para isso era necessário não servir o Rei (o Estado) em circunstância alguma..»

 

Do nosso leitor Francisco Almeida. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

 

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«O mais escandaloso, a meu ver, é que num mundo onde se pede desculpa (e/ou se é demitido) por mariquices como escrever a palavra "mariquices", ninguém, em todo o colossal edifício do Estado Português, se lembrou de dar uma palavrinha à família de um cidadão que foi morto enquanto se entrava à guarda desse Estado.»

 

Do nosso leitor JPT. A propósito deste texto do José Meireles Graça.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 08.11.20

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«Não visito mortos no cemitério. Não é preciso. Eles caminham comigo, como dizia o poeta José Gomes Ferreira.

Há um delirante filme de Jim Jarmusch em que se brinca com coisas sérias. O cantor country Sturgill Simpson, a interpretar a canção-tema, diz-nos que os mortos são fantasmas dentro de um sonho, uma vida que já não possuímos.

«A pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida», li um dia numa crónica de Victor Cunha Rego.

Morre-se de tanta coisa. Até de amor, como o King Kong, no último andar do Empire State Building, segundo um poema do Eduardo Guerra Carneiro.»

 

Do nosso leitor Orlando Tavares. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 01.11.20

«Acho um enorme egoísmo limitar a vida dos jovens de formas tão radicais e pouco sensatas, com marcas que ficarão para toda a vida, em nome dos mais velhos, que já viveram essa infância de forma mais ou menos feliz e despreocupada. Pertenço a um grupo de apoio de mães, a quantidade recente de pedidos de recomendações de pedopsiquiatras e psicoterapeutas infantis é assustador.

Há um equilíbrio e um bom senso que se perdeu em nome do medo, e esta forma de estar na vida assusta-me muito mais que qualquer vírus, confesso.»

 

Da nossa leitora Patrícia Mira Ferreira. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes. 

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.10.20

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Foto: jornal The Guardian

 

«Meu pai faleceu em Julho de 2011. Logo a seguir ao funeral, minha mãe negou-se a estar uns dias comigo antes de regressar à sua casa na Parede.

"Não filho, vou já para casa, a vida continua."

E assim continuou, em casa, com uma senhora uma vez por semana para limpezas e passar a ferro (hoje não se pode dizer mulher-a-dias), tratando da sua alimentação, de lavar a roupa na máquina nova que lhe comprei, tratando portanto da rotina caseira. [Fui] visitando-a em regra uma vez por semana, altura em que vamos ao supermercado, falando-nos ao telefone diariamente. Nos últimos quatro anos passou a ir sozinha ao supermercado: abriu um Continente a cerca de 40 metros de casa, pelo que me dispensou. Literalmente!

Na segunda-feira a seguir à Páscoa de 2019 teve uma crise de arritmia forte, esteve 11 dias no hospital de Cascais, recuperou, e quando a fui buscar para minha casa, logo nessa noite: "Filho, já não consigo estar sozinha em casa, quero ir para o lar onde estava até há poucos dias a minha prima Lana."

E assim está num lar desde 31 de Maio de 2019. Nesse que queria, em Lisboa, e desde 12 de Maio de 2020 num melhor, a poucos metros de minha casa, visitando-a [eu] até há duas semanas na "Box das emoções", onde estamos separados por um vidro.

Completou 95 anos em 8 de Julho passado. Continua felizmente, muito bem de cabeça, com uma lucidez, discernimento e memória extraordinárias. Mas apesar de ser uma senhora muito forte isto vai deixando mossa, devagarinho.»

 

Do nosso leitor António Cabral. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 05.10.20

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«E os nomes compostos?

Mora cá em casa um Deutsche Maria, mais conhecido por Dodi. Até há pouco tempo, acompanhado pela Sasha Manuela Cadela, a Sasá (de registo, um Daktari e uma Fontequebrada - afixo dos canis onde os comprei; mas esses nomes só servem para o registo formal).

Primos do Baltasar Sinatra (um peluche gigante que resgatei no meio de uma movimentada estrada - rafeiro alentejano que foi, felizmente para mim, rapidamente adoptado; precedido, no posto, pela Becki Babalou, raça indeterminada e que dificilmente alguma vez será adoptada).

Mas bom, centrando no essencial, a iniciativa de preceder o nome do cão cá de casa por 'Senhor' partiu do meu pai. Suponho que altamente influenciado pelo facto de ter chegado à sala e constatado a presença do surpreendente Sr. Deutsche... no seu sofá. Aquele sofá de canto, vista privilegiada para todo o espaço, que ser vivo senciente algum ousou ocupar. Diz o pai, ainda fumador à data, que se sentiu observado e que se houvesse um balão por cima da cabeça do animal haveria de lá estar qualquer coisa como:"Isso que traz aí nas mãos, o que é? É a minha latinha de salsichas?". Era o cinzeiro. "Não é a minha latinha de salsichas? Então já sabemos o que fazer, não já? Veja lá que a minha humana deixou-as em cima da bancada, nem as arrumou no armário que estava cheia de pressa. É uma latinha por dia, mas se sentir generoso, faço-lhe o obséquio, claro."

A minha tia, quando em plena clínica veterinária ouviu 'Avó do Billy Beane' (não é o jogador, não senhor, é mesmo o buldogue francês pertença do filho mais novo), hesitou. Diz ela que ouvir 'Billy Bean' ajudou muito (primeira vez que a tia se prestou ao papel, e só porque o primo estava fora de Portugal e ligou para a clínica para explicar quem lá ia, e porquê, e encomendar a graçola).

Graçolas à parte, também conheço a tendência clara para usar os graus de parentesco como se os animais fossem filhos das donos.

Cada vez que chego a casa, vinda de casa do meu pai, e sou sujeita à revista do Sr. Deutsche, sinto que há ali um: "Foi a casa do avô, que eu sei! Onde é que está o presunto, hein!?"

Está em curso uma clara antropomorfização dos animais. Parece-me evidente.»

 
Da nossa leitora CAL. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 06.09.20

«Também andei à boleia no Douro, Alentejo e Beira Interior (entre 1985 e 1991), complementando alguns itinerários com camionetas "a cair de podres". Como disse, a maioria das pessoas são de boa índole e anseiam por companhia.

Sendo mulher (e partilho do sentimento de discriminação mencionado por não ser fácil andar à boleia sozinha) quando viajava à boleia era acompanhada. Nunca tivemos problemas quando viajávamos só mulheres (duas ou três) - às vezes alguns avanços de linguagem, rapidamente extintos por nós. Também ajudei a mudar pneus e até a escolher um vestido, para o condutor dar à namorada, numa feira local.

Havia muitos momentos de espera, de ficar à mercê dos elementos, de estar cheia de fome e de sede e já não termos água ou comida. E de andar muito. Mas havia tempo: sem demoras, sem telemóveis, sem chegadas marcadas.

E muitas histórias engraçadas e condutores variados, totalmente diferentes do meu mundo. Aprendi muito, em especial a aceitar ideias diferentes das minhas, a tentar perceber "o outro", a sair do meu umbigo.»

 

Da nossa leitora Catarina Silva. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 30.08.20

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Cena do filme The Naked Gun (1988)

 

«Máscara em espaços abertos? Para além de ridículo é ineficaz.

Por isso a Preservita, empresa virtual que até agora fabricava preservativos de lã e cachecóis para os ditos cujos, destinados a resguardar do frio as partes pudendas de namorados machos frequentadores de jardins em pleno Inverno, se propõe agora fabricar preservativos de latex gigantes, quais burqas antivirais dos tempos modernos.

Tendo já efectuado registo provisório de patente, a empresa destaca a total protecção que um verdadeiro meio não-poroso garante quando desenrolado pela cabeça abaixo e estendendo-se até aos pés.

De acordo com os mais recentes estudos de mercado, a empresa espera vender milhões de unidades deste inovador dispositivo de protecção. Inúmeros governos manifestaram já intenção de adquirir quantidades substanciais do produto para uso obrigatório de todos os políticos, jornalistas e otários avulso, afinal os únicos merecedores de tão elevada protecção.»

 

Do nosso leitor Elvimonte. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 23.08.20

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«Aqui há anos levei a minha filha mais nova a conhecer a Berlenga, cumprindo promessa adiada algumas vezes.

Ficámos no já velhinho Mar e Sol, alojamento simples e suficiente, demos as voltas todas necessárias e ao fim da tarde, enquanto se bebia algo na esplanada, vejo encostar um barquito, com canas de pesca aparelhadas e donde sai um sujeito com uma geleira de bom tamanho, que sobe para o restaurante do alojamento; fui atrás e a primeira peça a sair foi uma dourada, dos seus 2,5kgs... ficou logo reservada para o jantar, grelhada, simples, apenas com uns legumes cozidos e sem necessidade de qualquer outro tempero, salvo um punhado de sal.

Juntamente com um pargo cozido, anos antes, no Baleal, um robalo em Santa Cruz e um bodião em Milfontes, este o ano passado, tudo devidamente grelhado, foram as quatro ocasiões em que me lembro de comer os melhores peixes das minha vida.

O robalo em Santa Cruz, com bem perto de 3,5 kgs, foi apanhado por mim em caça submarina, há muitos anos, junto à velha pedra conhecida por Perceveira, depois de muito esperar a melhor ocasião para o "tiro", tendo saído da água enregelado mas eufórico.»

 

Do nosso leitor Fernando Antolin. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 02.08.20

«Depositar uma dezena ou mais de livros sobre uma mesa, e elaborar sobre eles como leitura da semana, não é coisa que mereça, creio, especial credibilidade. Desde logo considerando um mundo de pessoas normais e considerando-nos parte delas: pessoas que trabalham e/ou estudam (e terão possivelmente documentação profissional ou académica a ler), que se deslocam (por vezes penosamente), fazem compras, convivem e necessitam, ainda que não podendo ser as oito "de lei", de um aceitável punhado de horas de sono diário e contínuo.

Mas ainda assim um tipo comum - isto é: um contribuinte, na gíria administrativa portuguesa - há-de conseguir, querendo (querendo; sentido-lhe a falta, uma bizarria para muito boa gente) e podendo (isto é, sobrando-lhe para isso, depois de consumar esse seu estatuto administrativo), ter em mãos, com verdadeiro proveito, mais do que um livro em simultâneo. Não vejo, desde logo, por que se não poderá conciliar a leitura simultânea (digamos paralela) de uma obra de ficção e outra que o não seja. Não afasto isso sem mais e taxativamente.

Em todo o caso, quem dera se tivesse um só e como hábito regular. Teríamos provavelmente outro país, ligeiramente diferente. Para melhor.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu postal.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 19.07.20

«Recordo que em Portugal é exigido a pessoas com deficiência a exibição de prova documental da sua condição para que exerçam o direito ao voto com ajuda de outrem, ainda que a deficiência seja patente. E salvo se o presidente da mesa tiver juízo e for uma pessoa decente, claro. O que não é certo que aconteça, dando azo a confusões no acto eleitoral e à frustração destes eleitores que se vêem ainda mais discriminados e com menos vontade de participar na vida cívica.

É frustrante, neste quadro, a zoeira habitual da propaganda do Governo e da comunicação social ao anunciar, como aconteceu numa das últimas eleições, a novidade do voto em Braille (num tempo em que a maioria dos cegos em Portugal supre as carências através dos meios digitais), abstraindo da realidade e do grosso das situações penalizadoras para as pessoas com deficiência ou temporariamente impossibilitadas de exercer o direito a voto de modo autónomo.

Estas são também formas de alimentar o populismo por dupla via: dando mais peso aos tradicionais eleitores militantes e radicais e trazendo para o extremo novos eleitores cansados de ser desconsiderados.

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 12.07.20

«As universidades podiam (deviam) ter optado por exames presenciais. A maioria não o fez ou coloca tantas barreiras aos professores que os querem fazer que estes desistem (as instituições poupam no equipamento de protecção, na higienização dos espaços, etc.). Na minha instituição foram distribuídas máscaras a todos os funcionários, excepto aos docentes.

E sim, bastantes colegas meus, a pretexto do vírus, estão fora da universidade desde Março. Porém, há que ser justo, pois muitos deles raramente apareciam no local de trabalho antes da Covid-19 - agora têm um pretexto. Alguns funcionários recusam-se a vir, alegando pertencer aos grupos de risco. Muitos já não faziam nada, mas outros eram essenciais em alguns serviços (agora parados).»

 

Da nossa leitora Catarina Silva. A propósito deste texto do Sérgio de Almeida Correia.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 05.07.20

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«De facto Rui Rio parece “lutar pela sua servidão como se fosse pela sua liberdade”, luta pela próxima bancarrota de Portugal como se fosse uma classificação de rating AAA. Mas até Mr. Stevens ao fim de vinte anos apercebe-se que a sua inquestionável fé e dedicação à sua causa (trabalho), foram mal aplicadas e tiveram um forte impacto na sua vida, apercebe-se que o prazer de desfrutar o fugaz momento do remanescente da luz do dia, apesar de belo, levou-o à sufocação dos seus afectos, ao desconhecimento das causas das suas acções, e tenta recuperar o tempo perdido tentando resgatar o amor de Miss Kenton.

É neste ponto que discordo da sua analogia. Rui Rio faz-me lembrar outro mordomo famoso, o de Glória Swanson em O Crepúsculo dos Deuses. Imagino Antonio Costa caído em desgraça a preparar-se para descer a escadaria da Assembleia da República a virar-se para Rui Rio e afirmar: “Sou a maior estrela política que Portugal alguma vez teve e não tenho culpa de nada”. Rio olha para Costa com amor incondicional e vira-se para as televisões presentes: “Objectivas, luz, acção...”.»

 

Do nosso leitor Manuel do Ó Pereira. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 22.06.20

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«Bem, as coisas começam com o 25 de Abril (o de 2020) e a teoria de que uns poderiam fazer tudo e outros não. Depois o 1.° de Maio e a teoria de que uns poderiam fazer tudo e outros não. E o Avante! faz-se e pouco barulho. E morreu o Floyd. E, no fundo, os “outros” perceberam que os “uns” perderam a muito ligeira autoridade moral. Três mil e quinhentos polícias em Fátima, zero no 1.° de Maio? Só podem estar a brincar.

E agora? Festas de mil em Carcavelos, com outra ali ao lado, hoje já em Bragança, na praça principal, pois então, mais a outra em Lagos - e muitas mais, por todo o país. E a polícia ainda lá vai, mas como há por aí cartazes partidários “polícia bom é polícia morto”, e também porque já tiveram que passar a vergonha de se armarem até aos dentes para confrontar velhotes de cruz ao peito e vela na mão, que nem apareceram, e deixar à vontade vigorosos esquerdistas escavacar tudo, já não têm a mesma convicção.

Era de esperar que houvesse uma ligeira subida no número de infectados nesta fase do desconfinamento, não esperava o governo, que claramente não tem a mínima ideia do significado da palavra governar, tanta estupidez deste “povo exemplar”. Os números vão explodir de novo, só que não será já possível confinar nada. As pessoas não aceitarão e a economia termina. A que resta. E é aí que isto tudo tem a ver comigo, é que não sou reformado nem funcionário público, e já levei um tombo. Se a loja fechar vou ao chão - é que já disse tantas do PS que ninguém me vai arranjar um tachito.

Ora, graças aos políticos em geral, com distinção para o BE, como é que explico a um grupo de idiotas com os copos que me estão a tirar o ganha-pão? Serei apodado de fascista, reaccionário, xenófobo, machista, racista, e se calhar sovado e infectado.

Se morressem só os idiotas ainda vá, mas isto é como aqueles que andam na autoestrada em contramão e embriagados - geralmente morrem os outros.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do JPT.

Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 14.06.20

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«Vieira era mestiço por parte de mãe, descendente de africanos.

A também defesa do povo indígena na época era para garantir a legitimidade destes e de sua cultura em seu território.

Não admira que os ignorantes que se atrevem a vandalizar a estátua de Vieira o façam por ignorância.

 

No Sermão do Bom Ladrão, Vieira alude a um facto histórico transversal e que importa reavivar:

"O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Séneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o rei da Macedónia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Séneca, não me admirei tanto que um filósofo estóico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero;..."

 

Tudo isto para dizer que também se assemelham nesta categoria os ladrões da história e vândalos da cultura.»

 

Do nosso leitor Vento. A propósito deste texto do Luís Naves.

 

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«Confesso que me faz imensa confusão a incapacidade actual de diferenciar o nível intelectual, humano, ético ou moral do indivíduo do século XXI com a do indivíduo dos séculos XVI, XVIII ou XIX.

Questiono quem será mais incapaz, aquele que pouco acesso teve à educação, que cresceu manietado e limitado no acesso ao conhecimento, ou aquele que a tudo tem acesso, que tem incontáveis fontes de informação e que tem ao seu dispor uma panóplia enorme de informação.

Questiono a diferença entre o homem do Renascimento, que por exemplo efectuava a queima de livros, por estes irem contra a ideologia reinante, fundamentalmente religiosa, como aconteceu em Granada, mesmo aqui ao lado, em 1499 e onde foram queimados mais de 5000 livros e manuscritos, na sua maioria árabes e que se tornaram insubstituíveis; em contraposição com o homem actual, que em vez de estar grato pelo conhecimento que lhe é disponibilizado, prefere destruir património histórico, como se tal acto corrigisse o passado.

Vi com espanto o presidente da Câmara de Londres assumir que as estátuas destruídas não serão recolocadas no seu lugar. Não serão reconstruídas e serão substituídas por outras mais de acordo com os ideais actuais.


Imaginemos no nosso país, mais concretamente na cidade do Porto, o edil da invicta aceitar a destruição da estátua do Infante D. Henrique, ou até alterar o nome da Praça do Infante.

É que, caso isto pegue moda no nosso Portugal, esta será uma estátua que terá os dias contados, pois foi sob a supervisão do Infante que se deu a primeira partilha de escravos documentada no nosso país, ocorrida em Lagos, no Algarve, nos idos de 1444.

O mesmo poderá acontecer em Lisboa com a estátua de Fernando Pessoa, que tem sido alvo de acusações de racismo por parte de uma facção da sociedade angolana, que o acusa de ser um escravopata racista, que terá justificado a escravatura e diminuído o africano como ser inferior.

 

Isto não assusta?

Não estaremos nós a contribuir para a limitação de conhecimentos das gerações futuras?

Será que é com o silêncio e ignorando o passado que construímos um futuro melhor?

Como poderemos formar as crianças para o bem, ou para melhor, se não lhes permitimos ter conhecimento sobre o pior? Como ter um termo de comparação?

 

Como o autor descreveu, teremos de riscar da história todo e qualquer autor, pintor, escultor, poeta, nascido e vivido antes do século XXI, pois todos teriam comportamentos racistas, xenófobos, machistas e misóginos. E teriam porque era uma ideia social, era o senso comum da época.

Li nestes dias artigos que defendem que Machado de Assis e principalmente Eça de Queirós diminuíam a mulher e sempre escreveram de um ponto de vista machista. Chega-se ao cúmulo de aconselharem as mulheres de hoje a evitarem ler as obras de Eça... Que incitamento à ignorância, diria eu.

Ora o homem evoluiu, tornou-se melhor, com melhores ideais e uma dessas evoluções deveria ser a capacidade de interpretar as épocas, mediante as próprias épocas e o statu quo vigente.

Estas atitudes que temos visto actualmente mais não são do que ignorância, fracos valores intelectuais e humanos, apesar de tentarem fazer crer que são precisamente o contrário.»

 

Do nosso leitor Guarda Serôdio. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 24.05.20

«Hoje passei por uma das nossas capitais de distrito. Visitei uma boa livraria que lá tem, com muitas edições de editoras alternativas. Ia eu todo contente pela porta adentro quando uma menina me disse que o atendimento era feito à porta. Como à porta? - perguntei. A menina sabe como se compram livros? Os livros têm de ser manuseados, folheados, parcialmente lidos ou consultados. Isso é uma coisa que não se faz à porta da livraria. Se eu não posso entrar para procurar livros, então, por mim, podem manter a livraria fechada. E vim embora.»

 

Do nosso leitor Vítor Augusto. A proposito deste postal.


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