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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 23.02.20

«Faz-me confusão discutir-se a eutanásia quando as insuficiências no Serviço Nacional de Saúde são cada vez mais frequentes e graves. Conheço o interior (a parte do território nacional a 200km do litoral) e o seu abandono. Em Beja há um cardiologista (ou havia, até há pouco tempo). O Hospital Distrital esteve um mês sem TAC. Em Lisboa tenho um amigo que se viu obrigado a recorrer ao privado para uma ecografia tiroideia, porque o hospital público, onde fazia questão de ser seguido, não a conseguia realizar dentro de um prazo aceitável (não era urgente, embora com uma tiroidite /hipotiroidismo dificilmente alguém consiga trabalhar). Coisas básicas.»

 

Do nosso leitor Vorph Valknut. A propósito deste meu postal.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 16.02.20

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«Mais do que o posicionamento do PSD no espectro político, o problema actual (parece-me no meio da minha ignorância) é um problema de geografia — a questão do domínio crescente do PS nos meios urbanos e a própria perda de influência do PSD nos meios rurais do norte e do centro do país de onde provinha uma boa fatia da sua fidalguia — que complementava as ligações às academias no Porto e nas universidades privadas que entretanto sofreram todas uma derrocada na sua credibilidade e até na sua utilidade.

O problema do PSD está ligado ao fim da percepção da existência do dinheiro europeu, ao enfeudamento de gestores do PS nos organismos que gerem os dinheiros dos QCAs, e à destruição e esvaziamento do interior que o PS vem operando há muitos anos através de organismos totalitários desenhados em Lisboa (como a Protecção Civil e as DRAs) que são mais uma instância do bloqueio que o Estado socialista e o municipalismo republicano da maçonaria suburbana está a fazer à sociedade civil fora das cidades. Nada pode mexer a não ser na órbita dos poderes autárquicos e do poder dos ministérios.

O PSD é péssimo nisso porque é um partido civil, de pequenos proprietários e comerciantes, e estoirou todo o capital de confiança que existia com os erros sucessivos de PPC e as mentiras de Paulo Portas (que defraudou irremediavelmente os 15% que votaram nele em 2011). O sinal mais evidente da anemia do PSD é o desinteresse pelos congressos do Partido, que costumava ser o benchmark da política nacional.

A última manifestação de confiança do eleitorado no PSD foi destruída por António Costa, não por mérito próprio mas pelo silêncio pactuante com que a comunicação social (e organismos maléficos como a agência Lusa) controlou a golpada eleitorial de António Costa — e a permanente auto-capacitação e auto-legitimização do Parlamento para legislar sobre coisas que não estavam nos programas eleitorais e que trouxe para a ribalta as demandas fracturantes e normalmente idiotas e incultas do PAN e do BE — porque são os filhos das madrassas públicas que estão agora a chegar ao poder.

Em suma, O PSD perdeu qualidade nos seus quadros, mas o PS também.

Agarrem-se, pá.

 

(Mais importante ainda: estou na dúvida se se diz auto-legitimação ou auto-legitimização).»

 

Do nosso leitor V. A propósito deste meu texto.

Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 09.02.20

 

«A gente já não espera que os nabos fiquem mais espertos, ou os tomates mais robustos, ou as couves mais tronchudas, nem sequer os grelos mais espevitados, por obra e graça da ministra da Agricultura.

Mas, que diabo, um módico de inteligência social ou, vá lá, de simples e velho bom senso, dava jeito, pelo menos sempre evitava alguns constrangimentos à tão propalada moral socialista. Ou não?»

 

Da nossa leitora Fátima P. A propósito deste texto do JPT.

 

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«O mais fantástico é que, se disseres que és "socialista", podes adoptar as medidas mais hostis para quem trabalha, e mais favoráveis ao grande capital, que ninguém nos media te chateia; não há cá "manifs" nem vigílias, e ninguém quer saber se comprares ou arrendares uma casa a um construtor civil por um preço de favor (como foi o caso dos dois últimos edis de Lisboa). As pessoas que vivem e trabalham em Lisboa (como eu), e que têm um automóvel (que só uso ao fim-de-semana ou em férias e em deslocações para fora de Lisboa, quando não há alternativa de transporte público), já foram privadas do estacionamento gratuito (o alargamento dos passeios em Campolide custou-me €100/mês), do acesso a várias ruas (v.g. metade da Rua do Salitre, para descanso do "amigo" francês que lá investiu, e o quarteirão entre a Castilho e a Artilharia Um, para os clientes das prostitutas não estragarem as críticas dos "amigos" dos hotéis), e do próprio usufruto do espaço público: por exemplo, todos os edifícios da Praça da Figueira já estão licenciadas para hotel e, em Lisboa, parece não haver limite para o licenciamento de camas, nem para o número de voos e de cruzeiros, nem para TVDEs e autocarros de turismo, que, aparentemente, e a acreditar nos media, não entopem nem poluem as mesmas ruas das quais se pretende expulsar os lisboetas.»

 

Do nosso leitor JPT. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

 

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«Nos debates sobre mobilidade e vida urbana adoro os vídeos de introdução ao tema. Malta a passear a pé, a pedalar bucolicamente junto ao rio, a deslizar na trotineta ou a apreciar uma bebida na esplanada com os amigos.
As pessoas com tempo contado, com horários a cumprir, a correr de casa para o trabalho ou a ter de chegar à consulta a horas não existem.
Recuso-me discutir mobilidade com sacanas que têm motorista e só metem a peida num transporte público quando há campanha eleitoral.
Por outro lado, quem me dera aqui nas berças ter um metro que se atrasa ou um comboio que volta e meia é suprimido. Infelizmente contam Lisboa e Porto, houvesse cobertura jornalística das aldeias em redor destas zonas, mais gente perceberia o país atrasado em que vivemos, e que o transporte individual não pode ser descartado.»

 

Do nosso leitor Anonimus. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 01.02.20

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«Fixei o nome do poeta, que me encanta, de uma bela forma: há uns anos, regressada de uma ida a Lisboa numa noite muito chuvosa, apanhei um táxi para casa e, já à porta, o motorista perguntou se gostava de poesia; como disse que sim, recitou um poema (que quero crer fosse o "Regresso", mas às vezes tenho memória de peixe) e disse o nome: Manuel António Pina. Só aí fixei e, apesar de já ter estado, uns tantos anos antes, com livro dele nas mãos, na livraria Poetria, na rua das Oliveiras, só o comecei a ler verdadeiramente depois da morte.

E são estas coisas que contam, os versos na parede e as boas palavras de quem nos traz o prato à mesa ou de um taxista que perde cinco minutos para dizer um poema a uma passageira.

E Manuel António Pina tem o condão de trazer a delicadeza das pessoas à tona. Na Bertrand, em Dezembro, comprei um livro de poemas escolhidos, que o meu pai levou até à livreira que fazia os embrulhos. Quando regressou disse-me: olha que o teu livro fez com que a cara da menina se iluminasse a olhar para mim, nem olhou para o Churchill, disse-me: "O senhor leva aqui um grande livro, sabe, o meu pai trabalhou com ele no Jornal de Notícias".»

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 19.01.20

«O ensino está minado por um grande enrolo. Teoricamente, este modelo pedagógico que não penaliza com chumbos é mais saudável. Teoricamente, vai permitir que, no ano seguinte, o aluno retome do lugar onde ficou e vá evoluindo de acordo com um ritmo que é seu, individual, portanto. Teoricamente, permite que haja avanços significativos num ano ou em parte dele, que o aluno, digamos, desemburre de repente e ganhe novo ritmo sem que tenha sido penalizado com uma retenção.
Na prática, com o modelo de ensino que temos e que não foi minimamente adaptado à lei, não é possível individualizar o ensino a este ponto. São demasiados alunos para que um só docente dê conta de tanta aprendizagem individualizada. Os professores estão gastos por tanta reforma inábil, cansados de tanta burocracia inútil, fartos de tanto modelo de avaliação artilhado onde são simultaneamente avaliadores externos e avaliados, obrigados a formações em que se aprende quase nada, algumas em aparelhagens e modelos técnicos que nunca chegam às escolas. Acresce que os alunos são cada vez mais barulhentos e irresponsáveis. E os pais nem sempre se lembram serem eles os primeiros educadores dos seus filhos e que a luta pela educação dos alunos é processo conjunto, eles e os professores.
Sintetizando: prevejo esse fim dramático: a escola, que se pensou ser um meio de igualizar as diferenças, só ficticiamente o fará. No papel. O sinal menos que os mais pobres trazem de casa vai converter-se em sinal menos menos.
Sobre o mundo das explicações tenho outra opinião. Onde os pais têm um papel fulcral. Determinante. Mas não é coisa para desenvolver agora.»

 

Da nossa leitora Bea. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 12.01.20

«Por essa Europa fora os velhos partidos estão a desaparecer. Os que se abrem à sociedade são os que debatem a Europa federal liderada pela Alemanha e a manutenção do sistema do euro actual ou a Europa de nações soberanas com saída do euro ou com alteração da arquitectura do euro.

Claro que há excepções mas, sobretudo na zona euro, a confusão política domina a cena.

Em Portugal, não se fala de nada, não se discute nada que vá ao fundo dos problemas. Quando um país tem três falências do estado em menos de 40 anos, quando os bancos nacionais ou também faliram ou tiveram de ser salvos pelos contribuintes, quando correm há anos processos de corrupção da gravidade e dimensão que todos conhecemos, algo de mais fundo do que a gestão política corrente está mal. O facto de um qualquer governo fazer assim ou assado não traz senão pequenas alterações e até, eventualmente, nova falência. Está visto que as regras em que se baseia o funcionamento do sistema político só fazem o país andar para trás. O problema é que essas regras só podem ser mudadas por quem delas vem beneficiando há décadas.

Ganhe no PSD quem ganhar, se não for para alterar as tais regras (e eu não ouvi ninguém falar de medidas nesse sentido), bem podemos esperar sentados que algo de profundo melhore no país.»

 

Da nossa leitora Isabel. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

Camus

por Pedro Correia, em 07.01.20

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«Camus foi o meu primeiro escritor. Antes houve muitos livros, mas autor cuja obra me tenha realmente abalado as fundações, foi Camus o primeiro. Albert Camus, meu primeiro sismo literário. Recebi O Mito de Sísifo aos 15 anos, não sei já se no aniversário ou no Natal. O tio que mo ofereceu, o único familiar próximo com algumas leituras, garantiu-me a qualidade e, naquele tempo, eu tomava essas garantias do Tio Baptista como um selo de qualidade (agora que penso nisso, acho que nunca me defraudou).

Fiquei convencido de que se tratava de um romance, mesmo com o subtítulo "ensaio sobre o absurdo" na capa. E não nego que me causou dificuldades. Mas aqueles dois primeiros parágrafos, "Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. (...) Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver". Não exagero se lhe disser que foram mote para anos de leituras.
Muitas vezes damos connosco a pensar como determinados eventos pessoais exerceram influência decisiva no rumo que depois seguimos, momentos-chave das nossas vidas. E não posso deixar de pensar como certos livros - e, está claro, autores - também exercem papéis semelhantes no modo como pensamos. Não nas grandes ideias, mas nos pequenos sulcos, quase imperceptíveis, que modelam o leito do rio do nosso pensamento.»

 

Do nosso leitor P. N. Ferreira. A propósito deste meu texto.

Feliz Ano Novo

por Pedro Correia, em 30.12.19

A todos os colegas de blogue. E aos nossos leitores.

Em especial a estes, que ao longo do ano que agora termina estiveram em destaque no DELITO DE OPINIÃO:

 

Alexandra G.

A. Matos

Anonimus

António

Bea

Bic Laranja

Carlos Marques

Catarina Tavares

Corvo

Cristina Filipe Nogueira

Guarda Serôdio

Isabel

Isabel Paulos

Isabel Pinto

João Gil

José Carlos Menezes

Manuel Ó Pereira

Miguel

Pedro Vorph

P. N. Ferreira

Sampy

S. Moreira

V.

Vital Moreira

Vítor Augusto

Vorph Valknut

Zazie

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 22.12.19

«A capacidade de adaptação nacional e a história dos descobrimentos portugueses contrastam com as estrangeiras, sobejamente, conhecidas, escritas a tinta de sangue. Há algo de "Primo" no ser português, algo, diria, essencialista, nativo, endémico, inato. Usarei, à falta de melhor, o lusotropicalismo, para definir essa ingénita qualidade da nossa nacionalidade.

Sobre a  planificação chinesa, em franco contraste com as dinâmicas, ad hoc, da improvisação, tão próprias, dos mercados livres, é notória a eficiência, a eficácia, a resiliência de uma economia, mas também de uma política, sustentada, planificada num horizonte, vasto, para lá dos limites apertados, impostos, pelos regimes saídos de urna.

O Ocidente deverá olhar-se a Oriente, ou passará a ser lembrado, apenas, pelo lado do mundo onde o sol se deita.»

 

Do nosso leitor Vorph Valknut. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 15.12.19

 

«Gente inteligente procura compreender o universo, gente burra procura criar um que os compreenda.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 08.12.19

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«A viagem resgata a memória do que se lê e vê. Não só memória dos lugares e das personagens dos livros, filmes (e música e pintura) que lemos ou vimos como a da imaginação, às vezes, mesmo da imaginação herdada. 

Se ao Pedro Correia pareceu ver o fantasma da Sissi em Viena, eu ia jurar que a vi, ao lado da minha mãe, na Praça de São Marcos. E a pequena filhota a correr para os seus braços. Com todos a entoar um Viva la mamma! Tal como na última ou penúltima página do livro que aos onze anos comecei a ler pelo fim, sugerido pela minha mãe, fã absoluta na meninice dos filmes da Romy Schneider. 

Mas a verdade é que as imperatrizes, príncipes e princesas me diziam pouco. O meu imaginário era outro. Por mais que soubesse que foi filmado em Itália, quando me vi a vaguear entre o Nevada, Utah e Arizona, com destino a Las Vegas e ao Grand Canyon, e consegui o silêncio solitário do deserto, não pude deixar de imaginar que aparecessem os fora-da-lei, o insolente Trinità refastelado na padiola ao som do batuque da sertã, sob o olhar do possante Bud Spencer. Ou, então, que me cruzasse com um corredor de diligências em busca do ouro perdido, de onde saíssem mulheres de empolados vestidos compridos cheios de atilhos e crianças de toucas, e de cowboys sempre atentos aos ataques. 

Depois há memórias do futuro sempre adiado. Está por fazer a viagem à América do Sul, para encontrar a cadeira do Rubicundo dentista, a cabana e a fotografia da mulher desaparecida e o medo da fera, do Velho que lia romances de amor do Sepúlveda, ou  Nívea a Clara e a Blanca, a mesa da cozinha onde ainda deve jazer um corpo e todo o esoterismo cru da Isabel Allende, se bem que saiba que posso sempre encontrar o Jeremy Irons no Alentejo.»

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 30.11.19

«Desde o princípio que havia alguma coisa dissonante nesta eleição de Joacine e que lhe alterava a harmonia. Lembro-me das apresentações da imprensa que me pareciam até irónicas; da alegria da deputada quando foi eleita e falou apenas por si mesma, facto que achei estranhíssimo; do primeiro dia na Assembleia da República que também não foi nada consensual. E não é pelo choque que constituíram que o digo, gosto um bocadinho desse aspecto de agitar as águas. É mais pelo afã em chocar, aquele espírito de quase vingança em conseguir. E não sei mesmo se o avesso do preconceito não é ele também preconceito.
Por outro lado, a senhora parece não saber que representa um partido e não que se representa a si mesma. Se sabe, tem de entender-se com o partido. As lutas internas não nos interessam, mas não venham dar espectáculo para a praça pública nem apresentar desculpas esfarrapadas. Resumindo: de Rui Tavares, esperava melhor.»

 

Da nossa leitora Bea. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 24.11.19

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«Sou polícia há 17 anos.

Comecemos pelo vencimento: em 2003, acabado o estágio, auferia facilmente 900 euros, tinha 20 anos, solteiro, fui colocado em Lisboa antes dos voos low cost e do airbnb. Alugava um quarto por 100 euros e a farda ainda valia alguma coisa. Raramente era ofendido e, quando era, normalmente era num quadro de alcoolismo, onde todos somos uns fortalhaços.

Dezasseis anos depois, trago para casa 1080 euros. Tenho duas filhas, casa para pagar e todas as despesas normais de uma família. Ou seja, em 16 anos de serviço recuperei 180 euros do meu rendimento. Dezasseis anos a trabalhar noites, manhãs, tardes, em horários sempre diferentes de dia para dia, Natal, ano novo, directas em cima de directas, para ir a tribunal com os criminosos apanhados de madrugada.

Hoje um polícia que inicia a sua carreira ganha de ordenado base 789 euros. Vai para Lisboa, muitas vezes com casa para pagar na terra, onde ficam os filhos e a mulher, e ainda tem de pagar a renda na capital cujo mercado imobiliário está super-inflacionado.

O polícia conduz carros com 25 anos. Sem segurança e incapazes de dar a resposta adequada no confronto com o criminoso. O polícia não tem acesso a bases de dados, numa altura em que a informação é crucial no combate ao crime. O polícia não tem acesso directo à base de dados do IRN, não tem acesso à base de dados de cidadãos procurados e com mandados de detenção pendentes, mas o escrivão do tribunal tem. Deve ser mais idóneo. O polícia até identifica um criminoso, liberta-o a seguir, pois a lei assim obriga, e mais tarde, quando ele não aparece em tribunal, onde o polícia se desloca, sem ter dormido, descobre que o indivíduo é um criminoso procurado.

O polícia patrulheiro recebe da instituição uma farda, uma arma e um coldre. Tudo o resto é pago por ele. Até poderia requisitar algum material, se houver disponível, mas no final do serviço tem de entregar. A instituição dá ao polícia uma arma e três carregadores, mas não fornece porta-carregadores, têm de ser os polícias a comprar, como as algemas, o porta-algemas, as luvas, a lanterna, o gás pimenta, o bastão extensível. Claro que as instituições também os têm, mas não para todos.

Sou polícia e no ano passado gastei 700 euros em material. Recebi 600 de subsídio de fardamento.

Há falta de equidade: em 17 anos recuperei 180 euros de rendimento, na mesma instituição há elementos que recuperam 1600 euros.

Em 17 anos fui promovido uma vez. Sem problemas disciplinares e com cinco louvores. O colega que me deu o curso foi promovido quatro vezes. Claro que não posso ganhar tanto como ele, óbvio, mas caramba: 1400 euros de diferença é muito. Se ele duplica, ou triplica, o seu rendimento em 17 anos, eu também deveria ter esse direito... e mesmo assim nunca ganharíamos o mesmo.

Claro que há policias incompetentes... mas com cursos de sete meses querem o quê? James Bonds? Sete meses para preparar um homem a conhecer a lei, para saber relacionar-se com o cidadão, com a pressão. Sete meses para aprender a reagir em segundos.

E depois quem comanda, ou manda, tem cursos de cinco anos. E nunca interagem com as pessoas, nunca passam pelas situações críticas, nunca se expõem ao perigo e ao juízo público.

Por que não cursos de três anos para todos, preparar bem os polícias para se poder exigir deles mais e permitir aos melhores chegarem lá acima?

Com isso não precisaríamos de tantos chefes, porque estaríamos preparados para resolver as coisas, sem o paizinho atrás a ver se está tudo bem.

Mais de 50% do efectivo da PSP são chefes e oficiais. Impensável.

Isto não é o que acontece nos países mais evoluídos.

Aqui vocês ligam para o 112 e a vossa chamada, até chegar ao polícia que está na rua, demora dez minutos.

Num país de jeito o operador 112 transmite de imediato a ocorrência ao carro-patrulha, até enquanto fala com a vítima. Num país moderno, o 112 escolhe o carro-patrulha mais perto. Aqui não: se a rua é da PSP vai o carro da PSP, mesmo que o carro da GNR esteja a dois minutos.

Num país deste tamanho existem duas forças idênticas. Absurdo.

Bater num polícia dá até cinco anos de prisão... nunca acontece e, se acontece, lá vêm as penas suspensas. Polícia não tem direito a advogado, tem de o pagar. Não tem comparticipação em consultas de psiquiatria, no país dos suicídios de polícias.

Ser polícia é uma merda neste país.»

 

Do nosso leitor Guarda Serôdio. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 17.11.19

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«Começou com parte substancial das mulheres e dos homens (perdão, toda a gente) a ser engolido pela voragem do aparente, numa emancipação artificial. Como modelo de felicidade apareceram os casais delgados muito alinhados, iguais aos dos anúncios a margarinas magras com sabor a manteiga, ele de ar blasé, de camisa azul clara aberta, calças de sarja bege e sapatilhas adidas, ela de blusinha de viscose, saiinha a condizer e sapatinho de bailarina, ambos a sorrir muito para irradiar aquela felicidade pessoal e profissional que se reconhece ter sido alcançada com a prática da outrora auto-ajuda, hoje couching.

A seita dita proibições na alimentação e impõe o exercício físico. A seita com muitos e muitas beatas prontos a catequizarem todos os hereges que não resistem aos pecados capitais da gula e da preguiça. Começaram por ser adeptos do chamado estilo de vida saudável e vão alargando o seu campo de acção. Cada vez que os contestamos (a medo, nunca se sabe) temos de ouvir sermão e missa cantada. Porque é blasfémia, porque deturpamos tudo e só estamos a demonstrar a nossa ignorância e apego aos mitos antigos.

O facto é que quando se começa por confundir apetite, desejo e humanidade com perversão acaba-se a ver pecado numa simples travessa e a pugnar pela ausência de corpo, esse pedaço de culpa, que a modernidade há de querer esconder.»

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 03.11.19

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«Uma das mais belas cidades por onde passei, mas que raio, pouco me lembro; duas horas depois já a memória se encheu de espaços. Estive lá no Verão de 98. Retenho o lago e os jardins do Fine Arts Museum, onde além dos artistas de rua, reparei pela primeira vez no hábito dos turistas recém-casados escolherem imponentes edifícios públicos para as fotografias de noivos e que o lilás é a cor de cerimónia em muitas partes do mundo (o que mais tarde confirmei no Oriente). Lembro da grande marina. E da minha imagem do país, aqui é tudo em ponto grande.

Fiz a highway 1 de San Diego a San Francisco, e fiquei embasbacada com a extensão das bases militares. O mundo começou a ficar mais claro, com menos mistérios sobre a ordem natural do poder global. Em San Francisco derreti com os novos beetles. Em Portugal ou ainda não havia a nova versão, ou havia poucos; lá as ruas estavam apinhadas deles, muito coloridos, a contrastar com os imponentes carros americanos.

Uma cidade luminosa e alegre. Vista da parte alta, distendida e relaxada, de gente descontraída e casas ao estilo europeu, mas mais desempoeiradas, e muito diferente do feio e frio centro de Los Angeles. Fiquei apaixonada.

Lembro ainda da reservada Chinatown e dos fortune cookies. Recordo o avistar de Alcatraz divertida ao som dos muitos leões marinhos, mas sem Sean Connery. E do porto, do navio Queen Mary. E, claro, da Golden Gate, que dá excelentes fotografias. E das noites numa Van de sete lugares no meio de nada, ou num motel baratucho à entrada da cidade.

Depois de passar por San Francisco nunca mais se ouve as músicas San Francisco e Hotel California da mesma forma. You can check out any time you like,/But you can never leave!'»

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 27.10.19

«O separatismo é sempre revolucionário, seja de esquerda, seja de direita. Têm pó a tudo o que é Nação porque preferem o fascismo em micro-escala regional.

Quanto pior melhor. E depois preferem os Impérios (UE, leia-se) para a moedinha.»

 

Da nossa leitora Zazie. A propósito deste meu texto

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 20.10.19

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«Cinjamo-nos aos factos e às circunstâncias, nada de confusões.

 

Castela acudiu à Catalunha primeiro porque... a Catalunha se revoltou. Portugal não. É o facto histórico. Que havia de fazer Castela depois em Dezembro em relação a Portugal se se já empenhara (como seria natural) em meios e forças naquilo que por fado da História se desenrolara no Verão? Transferir forças para Portugal? No século XVII? A pé e de carroça? Da Catalunha para o Alentejo?
No entretanto desguarneceria duas frentes.
É de rir.
Castela não teve escolha. Defendeu a Catalunha conforme a Catalunha se levantara. E Deus sabe com que dificuldade, pois se não fora tal, não houvera de vir procurar meios para estancar a revolta catalã em Portugal.
No fim, os factos são os factos, como já disse. Quem deu o corpo ao manifesto e perseverou foi quem ganhou: os portugueses.


Que gente é agora esta?
Vinte e oito anos de guerra feita por inteiro na nossa terra e o crédito havia de se dá-lo aos catalães?! A que propósito? Por que razão, se os próprios catalães se não empenharam além de procurar abrigar-se nas fraldas do rei de França? Não admira que ainda hoje se frustrem em não serem soberanos. Ha gente de ânimo e gente com ânimo de protectorado. — Há dois anos declararam independência a pedirem protecção não já ao rei de França, mas aos mandarins de Bruxelas (é por lá que anda o Puigkemon, não é verdade?!…) É a história a repetir-se. Revoltam-se contra a suserania castelhana na ânsia da protecção doutro potentado europeu. Que é lá isso?! E baterem-se quando dói...? Que independência esperam desta maneira? Os castelhanos demoraram agora, mas logo perceberam onde dói; tanto que lhe secaram a economia. Foi vê-los, aos catalães, ficarem tolhidos. Ora isso nunca conseguiriam os castelhanos, no século XVII, sobre Portugal: um bloqueio militar e económico. A retaguarda portuguesa eram vastas terras ultramarinas onde havia meios e gente portuguesa de ânimo. Os meios para subjugar a Catalunha eram bem menores e esses, melhor ou pior, Castela acabou por conseguir. No caso de Portugal, não.

 

Castela não teve margem de escolha, repito. Atalhou à Catalunha porque era o seu único problema primeiro e, a sua única opção depois. Só não entende quem não perca dez minutos a pensar no caso.

 

Mas isto tudo agora é assunto deles e de cretinos sem vagar de tentar pensar, como o Rui Tavares.
E talvez de maçónicos…
O nosso, de portugueses, ante ele, é (seria) não cairmos num logro. Algo se pode ou anda armar para escavacar o reino de Espanha e abrir caminho a uma federação de repúblicas ibéricas. Esse, sim, será o roer dos ossos do cadáver que Portugal já é. Já não há retaguarda ultramarina, lembremo-nos!»

 

Do nosso leitor Bic Laranja. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 13.10.19

«Pois eu não consigo convencer um compatriota em particular a ir votar. E como ele não vai a esposa também não vai, o pai está velho e também não vai sozinho, a mãe está num Lar [e] também não vota, e o filho tem 27 anos e creio que nunca votou.
É um direito, não votar. Sou contra o voto obrigatório, acho que daí ao braço no ar é um passinho, e lá se vai o voto secreto. Milhões de portugueses exercem pontualmente o direito de se furtar à estafadeira que é perder meia hora de quatro em quatro anos a votar. Não por terem as pernas partidas ou estarem em coma - francamente nem sei se a preguiça por si só justifica a abstenção. O que lhe disse, e não gostou, foi que não o aturo mais quatro anos a queixar-se destes gajos.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 06.10.19

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«Eu sou uma das mulheres retratadas nesta exposição. Além disso, já participei em inúmeros projectos de sensibilização, conferências científicas e dei a cara por este tema, no maior semanário nacional.
Não o fiz por ser uma personalidade pública mas, precisamente, por não o ser. Por ser uma ilustre desconhecida, igual a tantas outras, que engrossam as estatísticas negras do cancro da mama.

 

Devo dizer-lhe que “até me ter tocado” pensava da mesma maneira. É do meu foro privado, só a mim e aos que me são mais próximos diz respeito. Ia às minhas consultas, fazia as minhas pesquisas e não falava com ninguém. Não sou/era de falar ou meter conversa com quem não conheço.
Tudo mudou na altura em que, por uma questão de delicadeza, aderi a um grupo fechado no Facebook de mulheres portadoras de neoplasia da mama. A partir daí percebi que manter-me afastada, a viver a minha doença de forma privada, já não era opção.
Percebi que há mulheres (demasiadas) que saem das consultas com dúvidas que, para mim, eram inacreditáveis. Percebi que há quem tenha vergonha de colocar perguntas aos médicos, que não saiba o que é uma metástese, um gânglio, um marcador tumoral ou uma biópsia. Que não faz ideia do que é um cateter central ou periférico, que ignora o que seja uma PET, cintilograma, uma mutação genética ou toda a parafernália de “palavras novas” com que são bombardeadas. E não falo de senhoras com mais de 60 anos mas, principalmente de “miúdas” nos 20/30 anos (que são quem mais se vê).


Foi aí que, modestamente, senti que poderia ajudar. E sei, pelo feedback que tenho tido, que ajudo.
Por isso me exponho. Por isso continuarei a expor-me enquanto perceber que essa exposição pode ajudar alguém.
Não se pense, porém, que é uma forma de estar altruísta, que não é. Também eu fui ajudada (e de que maneira) por outras mulheres. A título de exemplo, posso dizer-lhe que não fora as horas e horas de conversa com uma figura pública que passou pelo mesmo (e que por grande timidez não se expõe), hoje, provavelmente não estaria aqui.
Acredite que ver outras iguais a nós a tentar quebrar barreiras de modo a que o cancro deixe de ser um estigma é das melhores coisas que podemos fazer por quem está doente. Se a isso aliarmos uma chamada de atenção para a prevenção, será ouro sobre azul.»

 

Da nossa leitora Cristina Filipe Nogueira. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 29.09.19

«Pagaria um euro com gosto para financiar a reabertura de escolas para as poucas crianças que ainda vivem nos meios rurais e respectivo transporte escolar condigno. Pagaria um euro para ajudar a reabrir estações de correios e farmácias nos meios rurais. Pagaria um euro para financiar políticas capazes de fazer funcionar os hospitais distritais do interior, acabando com espaços cheios de bom equipamento sem profissionais de saúde com vontade de os usar no tratamento dos pacientes que residem no interior. Pagaria um euro para criar um País que valorizasse quem investe, cria riqueza e emprego no interior. Pagaria um euro para que os comboios do interior voltassem a funcionar. Pagaria muito mais de um euro para pôr o País tonto a respeitar o interior e o mundo rural, dotando as aldeias, vilas e cidades do interior das comodidades mínimas para poder haver fixação de populações nos meios rurais.

Anacrónica, o meu ambientalismo reporta-me para o mundo rural e para a sua valorização. Mas nada disto interessa para o ambientalismo da vaga de citadinos de primeira ou segunda geração, muito pouco educados e ainda envergonhados das suas origens rurais. Vamos ter que esperar mais umas décadas para que esta vaga de citadinos tontos - que agitam bandeiras contra as alterações climáticas sem conhecer nem querer saber dos tempos e dos ciclos da natureza - perceba a importância daquilo que abandonou.»

 

Da nossa leitora Isabel. A propósito deste meu texto.


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