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Desconcerto

por Luís Naves, em 13.07.19

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Quase todas as pessoas de qualidade com quem me cruzei atravessaram nas suas vidas períodos de dificuldades. Também conheci muitos videirinhos, que andavam sempre contentes. Há um poema de Luís de Camões, Esparsa ao Desconcerto do Mundo, cujos primeiros versos descrevem este fenómeno de forma exemplar:


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
(…)
O poeta achava que este desconcerto era do mundo, não apenas português, mas o facto é que conheço pessoas de qualidade que, lá fora, cumpriram o potencial. Se tivessem ficado, estes indivíduos seriam como os outros, com as mesmas histórias de chefes tóxicos, frustrações acumuladas, trabalhos não reconhecidos; teriam sido ultrapassados pelo mandarete recomendado ou pelo medíocre temido; teriam sido bloqueados pela «apagada e vil tristeza» de um País que se arrasta na pantanosa incapacidade. Enfim, talvez o desconcerto seja mesmo do mundo: um pouco por todo o lado manifestam-se interesses poderosos, triunfam arrivistas e instalam-se coveiros de instituições. Certos conflitos estão a limitar as democracias e a transformar o exercício da liberdade em amálgamas indiferenciadas, sem identidade ou ética, onde os deuses do falso igualitarismo diluem e relativizam valores antigos. A sociedade fragmenta-se e o poder é efémero, a arte combate a beleza, cada tribo tem a sua interpretação da realidade. Admito que aquilo a que assistimos seja até a transição para um mundo melhor, mas o poema de Camões deixa a pairar a ideia de que o desconcerto é sobretudo sintoma de declínio ou da transformação do mundo dos fortes no mundo dos fracos, quando a esperança dos bons for substituída definitivamente pela tirania dos maus.

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Rebelião eleitoral

por Luís Naves, em 26.05.19

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Ainda é cedo para se perceber o que aconteceu nestas eleições europeias, mas parece ter ocorrido uma rebelião contra os partidos do sistema. Os socialistas já não lideram a esquerda europeia, pelo menos sozinhos, e ficaram atrás dos verdes em dois grandes países, França e Alemanha. O Partido Popular Europeu (PPE) e os Socialistas e Democratas (SD), que controlavam o parlamento, perderam o seu confortável monopólio e terão de juntar a família de partidos liberais ao núcleo dominante (Portugal não elegeu ninguém para este grupo). Os conservadores do PPE continuam a perder votos para uma direita radical que teve um desempenho mais ou menos: vitória em França e Itália, mas resultados decepcionantes na Holanda e Alemanha (Portugal também não tem ninguém neste grupo). Na nossa comunicação social, a amálgama de populistas, extremistas e reformistas é descrita como um conjunto homogéneo que tem a intenção de destruir a Europa, mas a coisa é mais complicada e consiste, na realidade, na ascensão de vários movimentos de protesto que pretendem mudanças, nem sempre compatíveis entre si. Finalmente, no Leste, há também um fenómeno claro, refiro-me à forma como os partidos pós-comunistas estão a ser cilindrados, agora não apenas na Hungria e na Polónia, mas em toda a região. O que significam estas rebeliões eleitorais? É cedo para percebermos, mas o voto de protesto na Europa aumentou; a crise financeira está finalmente a produzir os seus efeitos políticos e começa a viragem de ciclo (o fim da Era Merkel e o início de outra fase). O próximo parlamento europeu será bem mais interessante do que o anterior e o Brexit é inevitável. Em relação a Portugal, onde se instalou uma desilusão melancólica, o eleitorado acentua a agonia da direita, mas vota à esquerda sem a convicção do passado.

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Verniz de civilização

por Luís Naves, em 25.05.19

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Num dos melhores episódios da série clássica Twilight Zone, O Abrigo, de 1961, conta-se a história de algumas famílias abastadas numa rua suburbana da América. No início, vemos a amizade desse grupo de vizinhos, na festa de aniversário em casa de um deles, médico; em conversa, o anfitrião é criticado pelo esforço e dinheiro que investiu na construção de um abrigo anti-nuclear. De súbito, a confraternização é interrompida pelo anúncio de rádio, que dá conta de um suposto ataque inimigo, com explosões dentro de 15 minutos. Rapidamente se instala o pânico, que vai crescendo até uma histeria criminosa, pois todos querem ter acesso ao abrigo anti-nuclear e acham injusto que só haja lugar para três sobreviventes. O episódio está muito bem escrito e resolvido, tem excelentes actores, e esta história continua a ser certeira. Já não há ameaça credível de extinção global em 15 minutos, mas existem outras formas de possíveis colapsos com culpa humana, porventura mais lentas, igualmente inexoráveis. As ameaças são evidentes: a insustentabilidade de uma economia de crise que atropela as pessoas, o sonambulismo da política, toda a nossa vida baseada em níveis de consumo irrealistas. E, no entanto, persiste uma espécie de alheamento, que nos faz rir de quem tenta construir abrigos contra catástrofes no futuro (não são os abrigos físicos, como no filme, mas soluções difíceis, que as sociedades travam com palavreado vazio). Se nada mudar, um dia não vamos tolerar o abrigo do vizinho, o que significa o estalar do verniz civilizacional naquele momento em que as pessoas perceberem que vem aí uma grande mudança e nem todos se salvam.

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Desorientados do mundo

por Luís Naves, em 24.05.19

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Quando se fizer a história deste nosso ano da graça de 2019, alguém desencantará esta patética entrevista, que revela mais sobre os tempos que vivemos do que três grossos tratados de ciências sociais e políticas. O voto do povo já não conta para nada, assim como já não contam para nada as velhas nações europeias, com as suas culturas ancestrais. «Os estúpidos nacionalistas estão apaixonados pelos seus próprios países», diz o ainda presidente da Comissão Jean-Claude Juncker, referindo-se à insurreição em curso nas eleições europeias. Franz Kafka escreveu sobre isto no seu fabuloso O Castelo, que me parece ser uma genial premonição do século XXI, enquanto O Processo faz o resumo sinistro do século XX que ainda não tinha acontecido em vida do autor. O enredo do livro mais ambicioso é estranho, nunca sabemos qual é a motivação da personagem principal, o agrimensor K. (será espião?), mas o mais fascinante no romance é aquela burocracia - para que serve? Como funciona? Que intenções esconde? que segredos? E, sobretudo, até que ponto os seus actuais mecanismos são diferentes da função original? O facto é que ninguém no Castelo de Kafka se lembraria de criticar pessoas apaixonadas pelos seus próprios países, apesar daquilo que se escreve numa passagem do capítulo 15: «Os Senhores do Castelo, quando se levantam das suas escrivaninhas, são mesmo assim, acham-se desorientados do mundo e, na sua distracção, dizem as coisas mais grosseiras que se possam imaginar».

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