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Guerras de tarifas

por João André, em 18.06.18

Há um aspecto curioso desta guerra de tarifas que trump está a iniciar: ele provavelmente ganhá-la-à a não ser que os democratas ganhem a maioria no Congresso em Novembro. Note-se, não acredito em guerras de comércio/tarifas e penso que só há perdedores absolutos, mas em termos relativos os EUA irão quase de certeza vencer este conflito.

 

A questão é que os EUA são o país mais poderoso do mundo, com a maior economia do mundo e com a maior capacidade de absorver estes choques. Irão certamente sofrer (as tarifas irão causar estragos nos EUA, como noutros países) mas os outros países sofrerão mais. Quando a poeira assentar, o que veremos serão provavelmente situações piores da parte de todos os países, mas menos no caso dos EUA, que têm um mercado interno que lhes permitirá repôr os produtos perdidos (mesmo que a custos mais elevados e de forma menos eficiente).

 

Ou seja: os países perderão todos nesta guerra de tarifas, mas perdendo menos (provavelmente muito menos) que os outros, os EUA acabarão por reforçar a sua posição dominante no panorama económico mundial. O risco que correm - além de perdas em termos não-relativos - é que o resto do mundo deixe de depender deles. No longo prazo os EUA poderão acabar por perder, mas nessa altura Trump já terá o segundo mandato no papo...

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donald-trumpwhite-house.jpg

Foto:Reuters/Jonathan Ernst 

 

A notícia passou quase despercebida, mas esta segunda-feira o Presidente Donald Trump tomou a primeira medida concreta que dá corpo à retórica agressiva que tem proferido durante o último ano contra a liberalização do comércio internacional. A retirada dos EUA do Acordo Transpacífico (TPP) e o anúncio da revisão da sua participação no NAFTA foram sinais importantes e reveladores do caminho que a nova administração queria seguir, mas não foram mais do que isso, sinais. Pelo menos, até agora. Trump, em plena ressaca da crise do “shutdown” e com os holofotes mediáticos apontados para a guerra entre democratas e republicanos, anunciou que vai aumentar as tarifas de importação para máquinas de lavar e painéis solares. Estas medidas afectam, principalmente, países como a China e a Coreia do Sul e, segundo conselheiros citados pelo New York Times, outros produtos, como aço e alumínio, poderão vir a ser alvo de semelhante medida. Trump parece ter sido sensível ao “lobby” de empresas norte-americanas, como a Whirlpool (máquinas de lavar) ou a Suniva e a SolarWorld Americas (ambas de painéis solares). Os números revelados são muito significativos. Por exemplo, no primeiro ano, as primeiras 1,2 milhões de máquinas importadas sofrerão um acréscimo de 20 por cento nas respectivas tarifas, subindo para 50 por cento sobre todos os equipamentos comprados ao estrangeiro acima daquele número. A partir do terceiro ano, os valores descem para 16 por cento, no primeiro caso, e 40 por cento, no segundo. Quanto aos painéis solares importados, sofrerão um aumento de 30 por cento, um valor que cairá para 15 por cento no quarto ano.

 

Se aquelas empresas têm motivos para celebrarem, o sentimento não parece ser unânime na indústria da energia solar nos EUA, receando que estas medidas tornem o mercado menos competitivo. Também os ambientalistas temem que o aumento dos painéis solares comprometa o investimento da população nestas soluções. Além disso, são evidentes os potenciais efeitos nocivos que estas medidas podem ter no comércio internacional e nas relações de confiança entre os principais actores mundiais. Pequim e Seul já demonstraram o seu desagrado e ameaçam recorrer à OMC, no entanto, não anunciaram, para já, qualquer represália. Trump passou da retórica aos actos, naquilo que considera ser a concretização do seu lema: “America First”. Ora, aquilo que Trump não parece estar a ver é que, num primeiro momento, estas medidas até poderão beneficiar algumas empresas americanas e galvanizar uma parte do eleitorado, sobretudo aquele mais ligada à indústria pesada americana, mas, a médio prazo, os efeitos serão contraproducentes para a economia americana. A História, aliás, tem demonstrado que as economias crescem muito mais quando se abrem ao exterior do que quando se fecham com medidas restritivas.

Isso é dos livros, mas sobre essa matéria, Donald Trump não deverá estar muito ciente daquilo que é verdadeiramente benéfico para a América.

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Estes dois artigos da Economist demonstram o potencial que as vendas online podem trazer ao comércio. No caso em concreto, mostram que a tendência de perda de rendimentos que a internet acarretou (o nosso João Campos tem alguns excelentes posts sobre o assunto, ler 1, 2, e 3) começam a ser compensados com os novos modelos de negócio e as oportunidades de ajustamento da oferta que a internet (e especialmente os dispositivos móveis) têm trazido.

 

A Economist fala no fecho de muitas das "brick and mortar shops", ou seja, as lojas tradicionais, com existência real, dentro de um edifício. Com o seu fecho e a sua substituição pelas amazons do nosso mundo online ou mesmo pelas versões online das cadeias tradicionais, há um aspecto que fica por tratar: o que acontece aos espaços deixados agora vazios? É que se as lojas estão a fechar, ficam a sobrar muitos metros quadrados em locais centrais e extremamente atraentes.

 

Isto já sucedeu no passado, claro, com a saída de indústrias do centro das cidades (ou com as cidades a deslocarem-se para onde as indústrias existiam) e a abertura desses espaços para o imobiliário ou o comércio. Depois, com o surgimento dos centros comerciais ou das grandes superfícies (megalojas, retalho, etc), muitas lojas pequenas foram fechando. Agora, até as grandes superfícies vão sendo ameaçadas. Que se faz ao espaço que for libertado?

 

Esta é uma questão essencialmente política. Poderá, por um lado, ser guardado para o comércio (haverá sempre necessidade de lojas com existência física, pelo menos no futuro próximo). Por outro é espaço que poderia ser usado pelos governos (locais, regionais ou estatais) para evitar um regresso à especulação imobiliária (em Portugal poderia ser usado para promover o mercado de arrendamento) ou para dinamizar certas partes da cidade (a exemplo do que foi feito em Nova Iorque com o Meatpacking District).

 

Claro que não tenho uma bola de cristal para adivinhar o futuro, mas sei que haverá sempre soluções para quaisquer mudanças de paradigma. Aquele que a internet causou no comércio começa a ser absorvido e as suas vantagens começam finalmente a sobrepor-se aos problemas. Só que mudanças de paradigma podem causar avalanches. Uma consequência potencial poderia ser uma mudança completa da paisagem urbana. Só o futuro o dirá.

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