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Delito de Opinião

Um excerto do texto de Patrícia Fernandes

Paulo Sousa, 06.01.26

É sempre um gosto ler os textos da Professora Patrícia Fernandes, colunista no Observador. São pedagógicos, espessos de conhecimento e cultura, sem deixarem de facilmente acessíveis.

Destaco a parte final do que publicou ontem.

"Mas a lição que podemos retirar do mito de Héracles é outra e encontra-se na ideia de que o facto de termos nascido como símbolo da força corajosa vem com uma pesada contrapartida: a de que devemos ser especialmente cuidadosos com aqueles que são mais fracos e frágeis do que nós, com aqueles que devemos proteger e não atacar.

Tratava-se de uma lição particularmente importante num tempo em que a força física determinava em larga medida o nosso lugar na sociedade e, por essa razão, era uma lição especialmente importante para os homens, no masculino, que, detendo mais força do que as mulheres e as crianças, deveriam estar especialmente obrigados a um maior dever de cuidado e moderação.

Não é, assim, por acaso que a ideia de virtude esteja ligada à disposição masculina, como se nota na formação da palavra em latim: ser viril é aprender a ser um homem virtuoso, pois precisamos de força e coragem para não cedermos às nossas paixões mais violentas. Em Emílio, de Jean-Jacques Rousseau é especialmente perspicaz a notar este aspeto quando afirma: “embora digamos que Deus é bom, não dizemos que ele é virtuoso, porque ele não precisa de fazer esforços para bem agir”.

Ser virtuoso é um combate constante com os nossos afetos e as nossas paixões. Afinal, diz-nos Rousseau, “não depende de nós o ter, ou o não ter, paixões; mas depende de nós dirigi-las”. E o que Héracles nos ensina é que ceder a acessos de loucura e violência nos condena a anos de esforços, escravidão e expiação. Mas, se formos virtuosos, teremos uma vida melhor.

O problema das sociedades atuais – que pensam poder dispensar os mitos antigos e a formação religiosa e, com isso, se consideram livres – é o facto de nos abandonarem aos instintos e às paixões mais violentas. Fazem-nos acreditar que tudo o que sentimos é legítimo e que tudo o que desejamos deve ser possível. Mas os antigos sabiam que a desigualdade é natural, pelo que, se eliminarmos a disciplina, o rigor e a virtude, ficamos lançados num mundo em que os mais fortes prevalecem.

E isso é particularmente importante para os rapazes. Não, as mulheres não são iguais aos homens e essa ficção, que parece dar poder às mulheres, tem-nas, na verdade, enfraquecido (a lição de Ariadne é para elas). Quase todas as mulheres são fisicamente mais fracas do que quase todos os homens e, por isso, é particularmente importante relembrar as diferenças e exigir cortesia, responsabilidade e contenção aos que são mais fortes. Mas disciplina parece ser uma palavra proibida nos nossos tempos."

Entre a liberdade e a servidão

Pedro Correia, 03.10.25

 

Alexis de Tocqueville era um visionário.

Escreveu ele na primeira parte da sua monumental obra Da Democracia na América, publicada em 1835:

«Os anglo-americanos confiam no interesse pessoal para levarem a cabo os seus objectivos e dão carta branca à energia autónoma e ao bom senso do povo; os russos centralizam toda a autoridade da sociedade num único braço. O principal instrumento dos primeiros é a liberdade e o dos últimos a servidão. O seu ponto de partida é diferente e os seus percursos não são os mesmos; contudo, ambos parecem escolhidos pela vontade divina para agitarem os destinos de metade do globo.»

Há quase duzentos anos já antevia o mundo de hoje com notável precisão. 

'Casablanca': amor e liberdade

Pedro Correia, 26.11.17

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A retórica antinazi datou irremediavelmente muitos dos filmes americanos produzidos no tempo da guerra (1939-45). Até Chaplin, o mestre do mudo, caiu nesta armadilha na célebre cena final do seu O Grande Ditador (1940) – e foi quanto bastou para se perder uma obra-prima. Inversamente, o que faz a força perene de Casablanca (Michael Curtiz, 1942) é o facto de jamais ser um filme de propaganda óbvia ao esforço aliado no combate sem tréguas contra o III Reich. E no entanto não conheço outra película tão eficaz no apelo subliminar ao envolvimento de Washington no conflito.
Numa cena poucas vezes mencionada, Richard Blaine (Humphrey Bogart) pergunta ao pianista Sam (Dooley Wilson) que horas seriam em Nova Iorque. Pergunta aparentemente sem nexo, mas logo justificada pelo comentário adicional de Blaine: “Está toda a gente a dormir na América.”
 

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É uma frase emblemática. Corria o mês de Dezembro de 1941, eram as vésperas de Pearl Harbor, os americanos viviam ainda embalados pelo sonho da neutralidade que Philip Roth tão bem retrata no seu romance Conspiração Contra a América. Mas Blaine, o cínico Rick, dono do bar do mesmo nome em Casablanca, já se havia antecipado ao curso da História. Em 1935 fizera chegar armas aos abissínios que lutavam contra Mussolini, no ano seguinte ingressara nas Brigadas Internacionais em defesa da República espanhola. Ao contrário do que aparentava, era um homem de causas e capaz de se envolver até ao limite por elas. Esta dimensão política de Casablanca, que se me tem revelado em sucessivas revisões do filme, ultrapassa claramente as malhas do melodrama a que muitos gostariam de vê-lo confinado. E se algo sobrevive ao malogrado romance entre Rick e Ilsa Lund (deslumbrante Ingrid Bergman) é precisamente a batalha decisiva em que ambos apostam, também em nome do amor – neste caso, do amor à liberdade.

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“Agora só luto por mim. Sou a única causa que me interessa”, diz Bogart a Victor Laszlo (Paul Henreid), tentando aparentar cinismo por uma última vez. Nesta fase já ninguém acredita em tal fachada: há uma dimensão moral em Rick que de todo não existe no dúplice capitão Louis Renault (Claude Rains), sempre virado – nas suas próprias palavras – para “o lado de que sopra o vento”.
O “vento” daqueles tempos era o do cobarde colaboracionismo de Pétain – o velho marechal que se rendeu a Hitler e que surge em cartaz, no início do filme, contra o qual é assassinado um suposto membro da resistência francesa.
Bogart, o aventureiro de passado sombrio, e Bergman, a mulher dividida entre dois homens, não são figuras sem mácula, ao jeito dos “heróis exemplares” que o realismo socialista fornecia às massas. São gente de carne e osso, com os mesmos defeitos de qualquer de nós – e daí o facto de, tantos anos volvidos, continuarmos a identificar-nos com o destino deles. Rick, que jurava “não arriscar o pescoço por ninguém”, proclama afinal que o futuro do planeta importa bem mais do que “três pessoas insignificantes”. Ilsa, incapaz de voltar duas vezes costas à mesma paixão, segreda-lhe: “Terás de ser tu a pensar por nós.”
 
Rick assim faz. Entre o amor sem sombra de liberdade e a liberdade sem garantia de amor, optou por esta. Como se conhecesse os belíssimos versos de Sophia: “Terror de te amar num sítio tão frágil como o Mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e separa.”
Esta é talvez a maior lição que aprendemos em Casablanca: o verdadeiro amor é sinónimo absoluto de verdadeira liberdade.
 
 
Texto reeditado para assinalar o 75.º aniversário da estreia do filme, que hoje se assinala