Um excerto do texto de Patrícia Fernandes
É sempre um gosto ler os textos da Professora Patrícia Fernandes, colunista no Observador. São pedagógicos, espessos de conhecimento e cultura, sem deixarem de facilmente acessíveis.
Destaco a parte final do que publicou ontem.
"Mas a lição que podemos retirar do mito de Héracles é outra e encontra-se na ideia de que o facto de termos nascido como símbolo da força corajosa vem com uma pesada contrapartida: a de que devemos ser especialmente cuidadosos com aqueles que são mais fracos e frágeis do que nós, com aqueles que devemos proteger e não atacar.
Tratava-se de uma lição particularmente importante num tempo em que a força física determinava em larga medida o nosso lugar na sociedade e, por essa razão, era uma lição especialmente importante para os homens, no masculino, que, detendo mais força do que as mulheres e as crianças, deveriam estar especialmente obrigados a um maior dever de cuidado e moderação.
Não é, assim, por acaso que a ideia de virtude esteja ligada à disposição masculina, como se nota na formação da palavra em latim: ser viril é aprender a ser um homem virtuoso, pois precisamos de força e coragem para não cedermos às nossas paixões mais violentas. Em Emílio, de Jean-Jacques Rousseau é especialmente perspicaz a notar este aspeto quando afirma: “embora digamos que Deus é bom, não dizemos que ele é virtuoso, porque ele não precisa de fazer esforços para bem agir”.
Ser virtuoso é um combate constante com os nossos afetos e as nossas paixões. Afinal, diz-nos Rousseau, “não depende de nós o ter, ou o não ter, paixões; mas depende de nós dirigi-las”. E o que Héracles nos ensina é que ceder a acessos de loucura e violência nos condena a anos de esforços, escravidão e expiação. Mas, se formos virtuosos, teremos uma vida melhor.
O problema das sociedades atuais – que pensam poder dispensar os mitos antigos e a formação religiosa e, com isso, se consideram livres – é o facto de nos abandonarem aos instintos e às paixões mais violentas. Fazem-nos acreditar que tudo o que sentimos é legítimo e que tudo o que desejamos deve ser possível. Mas os antigos sabiam que a desigualdade é natural, pelo que, se eliminarmos a disciplina, o rigor e a virtude, ficamos lançados num mundo em que os mais fortes prevalecem.
E isso é particularmente importante para os rapazes. Não, as mulheres não são iguais aos homens e essa ficção, que parece dar poder às mulheres, tem-nas, na verdade, enfraquecido (a lição de Ariadne é para elas). Quase todas as mulheres são fisicamente mais fracas do que quase todos os homens e, por isso, é particularmente importante relembrar as diferenças e exigir cortesia, responsabilidade e contenção aos que são mais fortes. Mas disciplina parece ser uma palavra proibida nos nossos tempos."
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