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Delito de Opinião

Qual a cor da alma?

Paulo Sousa, 03.01.21

Invadido pelo espírito da quadra festiva, que entretanto terminamos, e enquanto apreciador do género musical em causa, vi logo após o seu lançamento, o filme Soul, da Disney/Pixar.

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A história não é muito surpreendente mas é agradável. Alguns dos momentos musicais ajudam a digerir o resto. Foram duas horas bem passadas.

Quando já não pensava mais nele, tropecei algures num espasmo muscular do Nuno Markl sobre a dobragem da personagem principal. Andou para ali às voltas com elogios e salamaleques misturados com um reparo sobre o que designa como “racismo sistémico”. Parece que para ele as vozes também têm cor e, com o intuito de que somos todos iguais, acabou por defender que as vozes africanas são diferentes das demais. É bom ser-se diferente. É bom que todos sejamos diferentes nos detalhes, porque acabamos por ser iguais nas questões de fundo. Mas isso não importa, ele acha é que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Por mim tudo bem, embora prefira cultivar as minhas dúvidas, pois nunca pensei aprender tanto como desde que escolhi fazê-lo.

Talvez não importe referir, mas eu gosto do trabalho do Nuno Markl. Dizer isto não me obriga a apreciar tudo o que faz, ou diz. Gosto da sua abordagem e do boneco que criou sobre si próprio e da forma como explora o que poderiam ser fraquezas e as transforma em produto de media. É legitimo e tem graça.

Desta vez achei que ele estava a meter a foice em seara alheia, mas com certeza que o tema iria causar as inconsequentes e habituais ondas de choque. A espuma dos dias tem de ser preenchida com coisas.

A toque de caixa parece que já há quem tenha reagido ao estímulo lançado. Se há quem defenda que o fim do mundo irá começar com uma corrente de ar, como é que isto não teria de acontecer?

Mamadou Ba e Sara Tavares assinam petição em que pedem uma nova versão do filme Soul. Defendem que somos todos iguais e por isso as vozes da dobragem deveriam ser negras.

Eu, que gosto de Soul, de Blues, de Jazz, de Samba, de Bossa Nova e de Rock, não consigo deixar de me impressionar com a capacidade da raça humana em ultrapassar profundas e inaceitáveis tragédias e, mesmo no inferno, conseguir produzir arte. Sem a influência africana na cultura norte e sul-americana não teríamos todas estas maravilhosas manifestações artísticas, que me emocionam e sem as quais teríamos uma vida ainda mais incompleta.

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Hoje de manhã, num passeio de bicicleta com uns amigos na Serra de Aire e Candeeiros, a “polémica” da dobragem deste filme foi abordada durante uns escassos 75 metros. A meio de uma curta e enlameada subida, alguém em esforço de respiração arrumou o assunto. “Sabias que quem dobrou o Rei Leão nem sequer era sportinguista? Disso ninguém fala!”

Lamento por um título arruinado

Paulo Sousa, 29.11.20

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Ontem vi o filme “Hillbilly ElegyGosto de histórias baseadas em factos verídicos. Na ficção existem limitações de razoabilidade de que a realidade se deve rir à gargalhada.

Esta é uma história pessoal e familiar, que se tivesse sido inventada pouco passaria de um chorrilho de clichés. Baseia-se num Best Seller com o mesmo nome, escrito por J.D.Vance.

Uma gravidez involuntária nos anos 50 leva um jovem casal a fugir do Kentuky e a estabelecer-se no Ohio. Além da história familiar, o filme mostra-nos também as grandes mudanças ocorridas desde então no midwest, com destaque para a desindustrialização, para a falta de oportunidades da classe média, para a facilidade no acesso a drogas e no fundo para a degradação social.

Olhando à imensidão de informação que foi divulgada nos últimos meses por ocasião das eleições americanas, esta é a América que, por estar descontente com a evolução das suas perspectivas de vida, vota Trump. Salta à vista que ali se comunica com o jargão a que Trump nos habituou. Quando as elites liberais e bem sucedidas dos grandes centros urbanos ficam corados com a rudeza com que o ainda POTUS se dirige aos seus cidadãos, não fez ideia de que é assim que se fala nas zonas rurais. É assim que os rednecks se manifestam e é assim que funcionam. Mal comparado, podemos imaginar o choque de um lisboeta com pedigree quando pára num café duma terriola na cintura urbana do Porto e troca dois dedos de conversa com um local. Eu adoro as nossas diferenças, as nossas pronúncias e a liberdade como moldamos a língua à forma como pensamos e somos, mas no filme, os recorrentes palavrões dentro das conversas familiares surgem como um sinal da degradação moral.

Histórias como esta, algumas com final bem mais triste, desenrolam-se perto da nossa casa, à volta das grandes cidades no nosso país e por todo o mundo.

Apesar do difícil percurso de J.D.Vance, dos momentos traumáticos que a sua instável mãe lhe proporcionou, e assente na sua relação com a irmã e sobretudo com a avó, esta é uma história de superação e até inspiradora para jovens à procura de uma fasquia a que possam ambicionar.

A tradução literal do título desta obra poderia ser qualquer coisa como “Elegia campónia” ou “Elegia provinciana” ou até “Elegia matarruana”. No Brasil, que tem uma tradição bem cómica na tradução de títulos de filmes, este filme chama-se “Era uma vez um sonho”. Em Portugal, alguém que quis sublinhar a sua visão pessoal, poupando-nos assim o esforço de uma análise, achou que a história de um miúdo que cresceu fora das elites, num ambiente terrível, e ainda assim (spoiler alert) consegue formar-se em Yale, deveria ser “Lamento de uma América em ruínas”, o que retrata melhor o tradutor, que o filme.

Uma época para pôr filmes em dia

João Pedro Pimenta, 24.11.20

Este fim de semana, graças ao "recolher obrigatório", consegui cumprir uma proeza há já muito desejada: ver o Lawrence da Arábia até ao fim. Um filme de quase quatro horas, com uma espectacular fotografia, daqueles que se vêem melhor no grande ecrã, coisa que implicaria também aí uns três intervalos no cinema (hoje já raramente há um).

Já não vou a uma sala de cinema desde Fevereiro, mas acho que nunca vi tantos filmes como este ano. Vida mais caseira oblige. De obras clássicas como a citada, ou o "Dr Jivago", também realizado por David Lean, ou ainda "A Janela Indiscreta", "Blade Runner" e "Os Três Dias do Condor", até ao "The Hangover" - parte 3, "Dumb and Dumber", ou às últimas Missões Impossíveis, passando por algum cinema português de décadas passadas, como a exibição dos filmes de José Fonseca e Costa que a RTP tem vindo a fazer, e "clássicos modernos" que me faltavam, ("Forest Gump", Signs", "A Noiva Cadáver", etc), tenho visto de tudo e ainda me faltarão algumas fitas que queria ver este ano. A TV por cabo, a possibilidade de gravação, a Netflix e os DVDs é que têm permitido esta saciedade cinematográfica sem sair do sofá.
 
Com esta bagagem variada, daqui a uns tempos ainda me dá para fazer crítica de cinema. Tendo em conta que a maior parte dos críticos parecem estar sempre a escrever uns para os outros, com um vocabulário muito deles, tratando os filmes como se fossem ensaios filosóficos e não narrativas, e aquele mau hábito de descrever o desfecho ("e na última cena do filme, quando, antes de morrer..."), acho sinceramente que não faria pior figura.
 

Heróis de um mundo que já não há

Pedro Correia, 12.11.20

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Não sei porquê, este diálogo vem-me com frequência à memória. É do filme A Última Fronteira (The Westerner, 1940), de William Wyler, e parece espantosamente simples e destituído de qualquer artificio. Mas tem vários níveis de leitura, além de revelar, só por si, um dos grandes atributos dos heróis do western – indivíduos de carácter, que preferiam ser donos do silêncio em vez de serem escravos das palavras.

É, além disso, uma espécie de homenagem a Gary Cooper, uma das grandes figuras míticas do cinema, que interpreta na perfeição o forasteiro deste filme – homem que alia um perdurável amor à terra a um indomável espírito de aventura, alguém de poucas falas e vistas largas, sempre em demanda de novos horizontes.

Precisamente ao inverso dos políticos dos nossos dias.

 

A cena passa-se entre um juiz e Gary Cooper:

Juiz – De onde vens, forasteiro?

Gary Cooper – De nenhum sítio em particular.

Juiz – E para onde vais?

Gary Cooper – A nenhum sítio em particular.

 

Eram assim os heróis do Oeste. Sem raízes que os prendessem e prontos a lançar raízes em qualquer lugar. Aventureiros, na melhor expressão que podemos dar a esta palavra. Protagonistas de um tempo de pioneiros de que cada vez somos mais nostálgicos por termos a certeza de pertencerem a um mundo que já não há.

SIR SEAN CONNERY (1930-2020)

João Sousa, 31.10.20

Não penso ser possível fazer justiça a Sean Connery num par de parágrafos - por isso nem o vou tentar.

Considero a mais eloquente prova do talento de Sean Connery o facto de, apesar de ter sido o primeiro (e para muitos, incluindo este escriba, o melhor) James Bond, ter conseguido que isso fosse apenas uma das alíneas de um invejável currículo. Filmou com grandes realizadores como Sidney Lumet, Brian de Palma, Hitchcock e Spielberg. Representou um personagem de Umberto Eco. Participou em clássicos como Um Crime no Expresso do Oriente; épicos como A Bridge Too Far; bizarrias como Zardoz; pequenas preciosidades como Robin and Marian; falhanços como The Avengers e atrocidades como The League of Extraordinary Gentlemen. No fim disto tudo, recordo muitos grandes filmes, vários maus filmes que ele não conseguiu salvar - mas nenhum que tenha sido mau por causa dele. E possuía a saudável auto-estima para, depois de ter sido este:

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(imagem promocional de Goldfinger)


fazer um filme nestes preparos:

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(Zardoz)

O Blog da semana

Maria Dulce Fernandes, 11.10.20

A sétima arte sempre me fascínou. Adoro cinema e filmes e TV e séries e documentários, música também... gosto de ler sobre as novidades, os remakes, os bastidores e principalmente as críticas.  

Costumo fazer uma ronda pelos blogues da especialidade, mas quedo-me mais pelo Split Screen. Nem sempre concordo com as opiniões, mas adoro as informações. 

Sem cinema nem futebol

Pedro Correia, 07.10.20

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Jeanne Moreau em La Baie des Anges, de Jacques Demy

 

O nosso João Campos deu-me uma boa notícia: o cinema sem pipocas vai resistindo como pode no circuito de exibição em Lisboa, mesmo em tempo de pandemia.

Eu há sete meses que não o frequento.

Desde o ciclo Carta Branca 2020 a Jorge Silva Melo, na Cinemateca, no início de Março.

 

Ainda o aproveitei como pude.

No dia 2, revi a fabulosa Carmen Jones (1954), de Otto Preminger.

No dia 5, vi pela primeira vez um interessantíssimo filme de Carol Reed passado em Belfast, com o conflito anglo-irlandês em fundo: Odd Man Out (de 1947, com James Mason), já com muitos elementos estéticos que prenunciavam o magnífico O Terceiro Homem, rodado em Viena dois anos depois.

Vi ainda La Baie des Anges (1963), de Jacques Demy, com a magnética presença de Jeanne Moreau. Extraordinária actriz que sempre me fascinou.

 

Foi a 9 de Março, uma segunda-feira. Na véspera, tinha ido ao futebol, no estádio do meu clube, ver o Sporting-Aves - estreia do treinador Rúben Amorim em Alvalade.

 

As escolhas de Silva Melo pareciam excelentes, o ciclo prometia muito: infelizmente, ficou amputado pela pandemia.

Deixei de frequentar salas de cinema, até agora. E continuo impedido de frequentar estádios de futebol.

 

Tanta coisa tem mudado nas nossas vidas desde então. Também isto. Parecem detalhes, mas não são.

Cinema em tempos de pandemia

João Campos, 05.10.20

No Sound + Vision, João Lopes deixa-nos uma reflexão muito pertinente sobre o impacto da pandemia no cinema - em concreto, sobre o impacto no modelo de negócio assente em multiplexes e nas grandes estreias de origem norte-americana, que têm sido sucessivamente adiadas. Sobretudo após Tenet, de Christopher Nolan, ter dficado aquém das expectativas na bilheteira (sim: chegámos a um ponto em que 307 milhões de dólares de bilheteira global representam, se não um fracasso, pelo menos uma desilusão). Do artigo, destaco dois pontos:

Curiosamente, em alguns contextos, incluindo o português, as reposições de filmes clássicos, dos mais diversos períodos e origens, têm atraído um número considerável de compradores de bilhetes, proporcionalmente superior. Não generalizemos, claro. Trata-se de um circuito de dimensão reduzida, com um peso nas contas globais do mercado inevitavelmente menor do que a área dos multiplex.

Revejo-me muito nestas palavras: posso dizer sem exagero que nos últimos dois anos desloquei-me mais vezes a salas de cinema para ver reposições de filmes antigos (clássicos, se quisermos) do que para ver estreias. Acompanhei algumas, é certo, mas tenho frequentado menos as grandes salas dos centros comerciais (as grandes salas independentes desapareceram) e mais os circuitos alternativos da Cinemateca, do Nimas e de algumas iniciativas independentes como o Cinepop. Em 2020, julgo só ter assistido à estreia de Tenet, nas salas do El Corte Inglés; mas revi no Inverno Eyes Wide Shut, 2001: A Space Odyssey e A Clockwork Orange no Nimas, onde por estes dias tenho aproveitado para descobrir a obra extraordinária de Akira Kurosawa, num ciclo de grande qualidade que só é pena estar limitado a Lisboa e ao Porto (e sim, as três horas e meia - sem intervalo - de Seven Samurai valem bem a pena numa sala de cinema, mesmo com máscara). Em Janeiro e Fevereiro a pequena sala da Avenida 5 de Outubro, um dos últimos refúgios do cinema independente em Lisboa, enchia a cada uma destas sessões (aliás, lembro-me da enorme fila para Eyes Wide Shut a serpentear pelo passeio da avenida numa noite chuvosa); e nestes dias julgo só não encher porque, enfim, as normas da DGS não o permitem (e bem).

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O fenómeno nem é de agora - no ano passado vi com alguma surpresa e muita satisfação a esplanada da Cinemateca cheia de gente de todas as idades para assistir à reposição de The Night of the Hunter, o clássico de Charles Laughton com um dos papéis mais memoráveis de Robert Mitchum. Esgotadas as cadeiras, não faltou quem se dispusesse a sentar-se no chão para ver o filme. E duvido de que no final alguém tenha dado aquelas duas horas por perdidas.

Não estamos a falar de estreias, de filmes novos, promovidos pela enorme máquina comercial de Hollywood. No meu caso, até há dias nunca tinha visto qualquer filme de Kurosawa, mas tenho quase todos os filmes de Kubrick em DVD, e talvez os possa encontrar em algum dos serviços de streaming que subscrevo. The Night of the Hunter é um dos meus filmes preferidos, pelo que já o vi várias vezes no computador - mas não pude deixar passar a oportunidade de o ver no grande ecrã. O mesmo provavelmente poderá dizer-se da maior parte das pessoas que encheu a sessão de 2001 em Fevereiro ou de Yojimbo, o Invencível agora em Outubro - haverá quem nunca tenha visto os filmes mas saiba que Kubrick e Kurosawa valem o preço do bilhete, claro; no entanto, acredito que maioria daquelas pessoas tinha já visto os filmes, e estava disposta a pagar para os rever nas condições ideais para se ver um bom filme:  no grande ecrã de uma sala de cinema.

É certo que não será o público que vai ao Nimas e à Cinemateca - conhecedor, e por isso exigente - que irá salvar os multiplexes no pós-covid 19, seja lá quando isso for. Mas talvez se encontrem aqui algumas pistas para a recuperação do cinema nos tempos difíceis que se avizinham.

Os puzzles de Christopher Nolan

João Campos, 13.09.20

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Uma das coisas de que mais senti falta durante os longos meses de confinamento foi de ir ao cinema. Bem sei que já abriram há alguns meses, mas até aqui ainda não tinha estreado um filme que me despertasse interesse suficiente para lá voltar. Essa estreia chegou finalmente no final de Agosto, com Tenet, de Christopher Nolan.

A minha relação com a filmografia de Nolan é um tanto ou quanto ambivalente. Não vi (ainda) alguns dos seus êxitos originais, como Memento (2000) ou The Prestige (2006), tendo começado a acompanhá-lo a partir de The Dark Knight (2008), o segundo filme da trilogia de Batman que realizou com a DC Comics (e que inclui o excelente Batman Begins, de 2005, e o terrível The Dark Knight Rises, de 2012). A partir daí fui acompanhando as suas incursões pela ficção científica, com o desapontante Inception (2010) e o excelente, ainda que imperfeito, Interstellar (2014). Reconheço a Nolan mérito suficiente para ficar curioso sempre que regressa ao meu género preferido, e Tenet não me desiludiu. Aliás, vê-lo acabou por se revelar numa experiência surpeendente, não tanto pelo filme em si, mas por uma breve epifania que me proporcionou mais ou menos a meio dos seus cento e cinquenta minutos.

 

 

Brechas súbitas em previsões a longo prazo

João Pedro Pimenta, 12.09.20

Só há umas semanas vi finalmente AI - Artificial Inteligence, de Spielberg. O filme data do Verão de 2001 e mostra como uma criança-robot pode adquirir emoções e capacidade de amar e sentir afeição pelos outros. É tocante e ao mesmo tempo perturbador, como é sempre que se toca nesta temática.

Mas o filme seria supostamente uma tentativa de antecipar o futuro. A certa altura, e para obter respostas, a criança artificial (Haley Joel Osment, o miúdo-actor daquele tempo) desloca-se pelo ar na companhia de Gigolo Joe (Jude Law no papel de um robot com função correspondente ao nome) até uma cidade abandonada e isolada por causa da subida dos oceanos, nos confins do mundo habitável, que não é outra senão Nova York. Um dos vestígios que restam por sobre as águas são as torres gémeas do World Trade Center. As mesmas que, ironia cruel, ruiriam em pó e chamas semanas depois do lançamento do filme, passaram hoje 19 anos.

Convenhamos que para um filme supostamente premonitório esse desaparecimento tão precoce do futuro imaginado retira alguma credibilidade, embora mais por má fortuna do que por incapacidade de previsão. Mas tornou reais outros medos que já tinham sido sublinhados noutros filmes-catástrofe. Veremos se essa antevisão da inteligência artificial também não resistirá ou se pelo contrário contém algo de premonitório.

 

Emmanuelle

jpt, 17.08.20

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Anteontem fiz um zapping para acompanhar o cigarro antes de me deitar. E dei com este "Emmanuelle" a começar na CMTV. Nunca o vira e não pude resistir. Assim, nestes meus 56 anos estreei-me a ver o mítico filme. E logo nesta mesma sala, casa onde cresci, assim a ainda mais me lembrar quando há 45 anos meus pais e seus amigos debatiam o filme - ao qual agregavam o então célebre "La Grande Bouffe", coisa diferente é certo, mas mesclável nos debates naqueles tempos pós-censura.

Enfim. Só para dizer que ainda bem que fiquei a ver, até às 4 da manhã!!! É que este "Emmanuelle" é (e decerto que já o era na época) muito mau. Mesmo muito mau, e sob todos os pontos por que se lhe queira pegar. Pior, bastante pior, do que eu imaginava.

É quase inacreditável o impacto que teve, que tenha havido tempos e gentes tão cândidos (e não falo de sexualidade) na geração anterior. É mesmo quase tão inacreditável como haja hoje quem pense da mesma maneira, na adoração do "espantar o burguesote" ou de uma qualquer "pureza moral". Mas, de facto, nesta terra de grupelhos e abespinhados não faltam motivos para que os nossos filhos se venham a rir de nós, como sorri eu a estas minha memórias. Daqui a uns anitos, quando virem o mundo.

Adenda (intimista): reajo ao "Emmanuelle" e constato (mais uma vez) que estou igualzinho ao meu pai António. Mas ele, seu mérito, logo naquela altura.

Amar ou odiar, ou tudo ou nada

Pedro Correia, 27.07.20

 

"Uma pequena história narrada numa escala épica." A definição é de Barry Norman, um dos mais prestigiados críticos de cinema britânicos, e parece a que melhor capta a essência deste filme desmesurado, que transcende todos os padrões do cinema conhecido no final da década de 30, e de algum modo antecipou tendências: E Tudo o Vento Levou funciona como raiz ancestral de todas as ficções telenovelescas que se tornaram uma maçadora banalidade dos nossos dias. A receita não voltou a pegar. Reveja-se O Gigante (George Stevens, 1956), por exemplo: não há comparação possível.

A diferença reside no carácter pioneiro desta ficção que pretende celebrar os "valores" sulistas dos EUA totalmente ao arrepio da torrente da história na América progressista de Franklin Roosevelt: há um certo charme neste assumido anacronismo. E é também uma questão de escala: tudo foi concebido em grande pelo produtor do filme, David O. Selznick -- megalómano, ególatra, dotado de uma tenacidade quase lendária, produtor ímpar da era de ouro do cinema norte-americano.

 

Selznick só sabia mesmo pensar em grande. Para ele, mais era sempre sinónimo de melhor: nunca se contentou em ficar a meio caminho. Reuniu a maior equipa técnica, o maior naipe de figurantes, o maior número de estrelas. Conseguiu o maior número de nomeações (onze, obtendo um total de oito estatuetas) para os Óscares de Hollywood. E sobretudo alcançou a maior receita de bilheteira: se actualizarmos o valor da inflação, E Tudo o Vento Levou foi provavelmente o maior campeão de bilheteira de todos os tempos.

O génio empresarial de Selznick ficou logo patente nessa brilhante jogada publicitária que foi a escolha do elenco para o filme, estreado no cinema Fox, em Atlanta, a 15 de Dezembro de 1939. Todas as actrizes conceituadas da época e muitas aspirantes ao estrelato, de uma forma ou outra, manifestaram interesse em conseguir o papel principal, o de Scarlett O' Hara.

A lista, para não variar neste empreendimento, era quilométrica: Bette Davis, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Paulette Goddard, Joan Bennett, Greer Garson, Norma Shearer, Loretta Young, Lana Turner, Irene Dunne, Ida Lupino, Barbara Stanwyck, Jean Arthur, Miriam Hopkins, Talluah Bankhead, Carole Lombard, Anita Louise, Ann Sheridan, Claudette Colbert, Susan Hayward, Margaret Sullavan, Frances Dee, Catherine Campbell. Um megaconcurso de testes cinematográficos que acabou por servir de rampa de lançamento para a fama de uma britânica de 25 anos, em início de carreira. Chamava-se Vivien Leigh.

 

Sem ela, E Tudo o Vento Levou não seria o que foi. Não seria o que é. Se compararmos o cinema às grandes criações literárias, a Scarlett de celulóide equivale a uma das grandes personagens romanescas de que há memória. Com a sua força de carácter, a sua vivacidade, o seu apego tenaz aos valores familiares, à herança do sangue, aos vínculos afectivos à terra-mãe. Numa das cenas mais marcantes do filme, o pai de Scarlett, Gerald O' Hara (grande interpretação de Thomas Mitchell, um dos secundários mais talentosos de Hollywood), diz-lhe: "A terra é a única coisa do mundo por que vale a pena lutar ou morrer."

Ela faz desta frase um lema de vida. E remete tudo o resto a um plano inferior, fiel ao juramento que fará mais tarde: "Deus é testemunha que não deixarei ninguém derrotar-me." Indiferente aos ventos da história, que sopram implacáveis contra o orgulhoso Sul tão bem descrito pelo capitão Rhett Butler (Clark Gable) em vésperas da eclosão da guerra civil norte-americana: os sulistas, sublinha ele, "só têm palavras, escravos e arrogância".

 

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Olivia de Havilland (1916-2020)

 

Guerra e amor, os dois maiores condimentos do cinema clássico, estão presentes em Gone With the Wind. Mas o que mais prende a atenção do espectador, num filme que tem largas dezenas de personagens, é o destino de um quarteto: Scarlett, Rhett, Melanie (Olivia de Havilland) e Ashley. Personagens convictas, cada qual a seu modo, de que aquela guerra significaria "o fim do nosso mundo", como um angustiado Ashley (Leslie Howard) diz à sua apaixonada Scarlett em vésperas da mobilização geral no Sul.

Ironias do destino: no momento em que o filme estreou, também na vida real se travava uma guerra que mudaria para sempre a face do mundo. E o britânico Leslie Howard estaria envolvido nela, como agente de Churchill, acabando por ser abatido em 1943, num voo entre Lisboa e Bristol, pela aviação nazi.

 

Selznick, um homem que gostava de mulheres, estava certo: sem o fabuloso desempenho de Vivien Leigh, E Tudo o Vento Levou seria quase uma ficção banal. A belíssima britânica faz toda a diferença em cada cena da longa-metragem, transmitindo-lhe uma autenticidade quase inigualável na história do cinema. Não foi por acaso que recebeu o Óscar, suplantando os colegas do sexo masculino: Howard parece sempre um pouco deslocado neste filme e Gable limita-se a fazer o papel de... Gable.

Vivien só encontra aqui duas competidoras à altura do seu talento. Ambas negras, ambas vítimas do racismo sulista que não as deixou brilhar na memorável estreia de Atlanta: Hattie McDaniel, no papel de Mammy, e Butterfly McQueen, no papel de Prissy (que gozaria enfim de um merecido destaque nas celebrações das bodas de ouro do filme, em Dezembro de 1989).

 

E Tudo o Vento Levou é uma película cheia de momentos memoráveis. Momentos visuais e também auditivos: as primeiras quatro notas do Tema de Tara, composto por Max Steiner, são ainda hoje reconhecíveis em todo o mundo. Como esquecer as cenas do baile (que serviu de inspiração a outros filmes que deixaram rasto, como O Padrinho e O Caçador), o incêndio de Atlanta, as imagens do fim da guerra e da subsequente devastação que atingiu o sul dos EUA, a morte da criança e a vasta escadaria na mansão da família O' Hara que serve de excelente metáfora das relações sentimentais -- os degraus parecem poucos quando o amor predomina e dir-se-iam intermináveis quando o ódio prevalece)?

Qual o segredo de Selznick para que este filme de 1939 parecesse muito à frente da sua época e ainda hoje permaneça no imaginário dos espectadores? O segredo de sempre: soube rodear-se dos melhores. Entre a equipa de argumentistas, por exemplo, figurou um tal Scott Fitzgerald. Capaz, como outros, de reduzir as 1037 páginas do romance de Margaret Mitchell, galardoada com o Pulitzer, para cerca de um terço. Por uma vez sem exemplo, less was more.

 

Comecei por falar em Selznick, acabo o texto também a invocá-lo. Porque nenhum outro grande protagonista do cinema como ele perturbou tanto a "política de autores" teorizada na década de 50 por alguns críticos franceses, que centravam as suas análises no realizador, apontando-o como o verdadeiro autor de um filme.

Selznick era uma carta fora do baralho: é dele que se fala ainda hoje, quando se fala de Gone With the Wind. O filme chegou a ter quatro realizadores: Victor Fleming, único que figurou nos créditos finais, George Cukor (responsável por algumas cenas marcantes, como a da discussão inicial entre Scarlett e Mammy), Sam Wood e o fotógrafo William Cameron Menzies. Mas é um filme de Selznick, sem sombra de dúvida. Num tempo em que o produtor concebia a obra de arte e o realizador era apenas o seu artífice. Outros tempos, outros costumes. Numa cena capital, Rhett diz para Scarlett: "É um momento histórico. Pode dizer aos seus netos como viu o Sul desaparecer numa noite."

A última frase do filme, proferida por uma Vivien Leigh em estado de graça, é uma das mais célebres de sempre na Sétima Arte: "Amanhã será outro dia." Verdade histórica, verdade cinematográfica. O facto é que o cinema não voltaria a ser o mesmo.

 

Gone with the Wind. Ou na versão portuguesa, que sempre preferi, E Tudo o Vento Levou. Já que estamos mergulhados num melodrama, carreguemos nas tintas melodramáticas. Como escreveu o poeta Fausto Guedes Teixeira, num poema que certamente Scarlett apreciaria: "Amar ou odiar / Ou tudo ou nada: / O meio termo é que não pode ser / (...) Amemos muito como odiamos já! / A verdade está sempre nos extremos / Pois é no sentimento que ela está."

Às vezes convém trair a letra para permanecer fiel ao espírito. É o caso.

 

Texto reeditado em memória de Olivia de Havilland, agora falecida, aos 104 anos.

Diamante bem polido

João André, 02.07.20

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Só conhecem Adam Sandler de comédias inanes, sensivelmente idiotas e quase indistinguíveis entre si?

Os desportistas que vêem em filmes têm papéis irrelevantes, são maus actores ou os filmes são veículos sem qualquer interesse?

Têm saudades de filmes sobre cidades, frenéticos e com uma energia contagiante?

Uncut Gems (o IMDb diz-me que em português se chama Diamante Bruto) é o filme para vós.

Peguei no filme porque tinha lido várias coisas interessantes sobre ele no The Ringer. Não tinha muito interesse em ver mais um filme com Adam Sandler e parecia-me que ele esgotara os papéis interessantes ao aparecer em Punch-Drunk Love, de Paul Thomas Anderson. Enganei-me. Os irmãos Safdie, que realizaram e escreverm o filme, injectam um ritmo intenso na história e Sandler dá o corpo a tudo o que lhe atirem. O seu Howard Ratner fala depressa, vive de uma dívida para a outra enquanto distribui roupas e malas Gucci, equilibra uma vida entre Manhattan onde tem o negócio e a amante que é também a sua empregada e a vida familiar, fora da cidade, com a sua mulher que já não o suporta e os filhos, com quem tem relações por mensagem e com quem discute pouco mais que basquetebol.

O ritmo é desde o início completamente alucinado. Os irmãos Safdie (juntamente com Ronald Bronstein) dão a ideia de ter escrito centenas de páginas de diálogo e Sandler faz o seu melhor para o dizer todo no filme. Mesmo quando não se filma mais que Sandler a caminhar pela rua ao telefone, o uso de zoom com câmaras colocadas de longe levam a um constante tremer subtil da imagem que nos transmite o nervosismo das personagens e a incerteza das situações. Outro uso inteligente da câmara é dentro dos carros, com as personagens apertadas e a aumentar a situação de claustrofobia e de cerco que se vai apertando em torno de Ratner. E a solução para todos os seus problemas é uma opala que ele quer vender em leilão.

A opala é o mcguffin que faz avançar o filme, mas são as suas personagens que o fazem respirar. Sandler como Ratner é simplesmente brilhante e faz perguntar porque razão não o vemos mais vezes em papéis dramáticos. As outras personagens, mesmo com tempo limitado, conseguem respirar e ter espessura. Julia Fox é uma revelação como Julia, a namorada de Ratner. Idina Menzel tem uma interpretação de enorme subtileza e espessura como a mulher de Ratner. Lakeith Stanfield demonstra novamente (pelo menos para mim), o alcance das suas capacidades dramáticas como Demani, um colaborador de Ratner que lhe traz potenciais clientes. No entanto é Kevin Gernett, a representar uma versão semi-imaginada dele próprio, que rouba o filme.

Garnett atrai qualquer atenção por causa da sua estatura (2,11 m). Um plano que o inclua a ele e a outros actores vai levar à existência de muito espaço não preenchido por outras pessoas. Os irmãos Safdie compreendem isto e normalmente filmam Garnett de forma individual, em grandes planos ou, se necessário com outros actores, enchendo o cenário de objectos. Isso não impede Garnett de agarrar as cenas. Para quem não saiba, Kevin Garnett foi um jogador de basquetebol da NBA. Era um dos melhores da sua geração e visto como uma dos melhores jogadores de sempre na sua posição. Era também conhecido como um jogador de enorme intensidade, tanto com a bola como a comunicar com outros jogadores.

Isso é facilmente visível no filme. Há uma ou outra frase que não sai com a convicção que se esperaria de um actor profissional, mas a intensidade do olhar de Garnett, a sua presença, os seus silêncios e o seu à vontade no mundo de alta velocidade em volta dele, acabam por ser magnéticos. A melhor cena do filme é quando, perto do fim, Ratner faz uma espécie de discurso/pedido a Garnett. Este fica calado a maior parte do tempo, mas a energia da cena é palpável e demonstra a química entre ele e Sandler.

Os irmãos Safdie pretendem nos seus filmes capturar as suas experiências a viver e crescer em Nova Iorque, especialmente em certos períodos temporais. Essencial para eles é demonstrar a vida de certas zonas e os hábitos dos judeus da cidade. Fazem-no não como tema, mas como enquadramento, não muito diferente daquilo que Woody Allen foi fazendo ao longo de décadas: criar histórias a partir dos ambientes e vivências pessoais. O resultado final é diferente, mas o paralelo existe e pareceu-me claro. Chamar a este filme um cruzamento entre Scorsese e Allen seria abusivo, mas não completamente errado.

No fim, o filme é essencialmente um dos melhores que vi nos últimos anos. Agarrou-me do princípio ao fim e se o final é algo brutal, não deixa de ser igualmente em linha com o resto do filme. Quando pensamos no momento é como se sempre soubéssemos que aquilo iria acontecer, que as personagens estavam fadadas a terminar assim.

Diamante em bruto? Talvez a pedra do filme. O filme em si é das pedras mais preciosas que se pode ter.

Ian Holm (1931 - 2020)

João Campos, 19.06.20

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Fotografia de 2005 por Cambridge Jones/Getty Images, retirada da NBC News

 

Ian Holm pode não ter sido um actor associado com frequência ao papel de protagonista (no cinema, pelo menos; sobre a sua longa carreira no teatro não me poderei pronunciar), mas nem por isso deixou de se fazer notar - o carisma de algumas das suas personagens secundárias bastou para as tornar com frequência inesquecíveis.

O desempenho inevitável nos elogios fúnebres de hoje será talvez o seu Bilbo Baggins da adaptação de The Lord of Rings de J.R.R. Tolkien, já no crepúsculo da vida a abdicar relutantemente do Anel que lhe preservara a juventude. Na vasta trilogia de Peter Jackson as cenas de Holm não são longas mas ficam na memória, abrindo e encerrando toda a saga - com o início maravilhoso da sua festa de aniversário e o interlúdio melancólico de Rivendell no primeiro filme, The Fellowship of the Ring, e a sua partida para Valinor no epílogo de The Return of the King. Holm viria a regressar com Jackson à Terra Média na adaptação de The Hobbit, contada em analepse para lhe permitir passar o testemunho a Martin Freeman e fazer a ponte com a história original. Em The Fifth Element, de Luc Besson, interpretou o frenético Padre Vito Cornelius, último elemento de um culto antigo capaz de fazer a ligação com a civilização alienígena dos Mondoshawans e assim salvar o universo (ou, vá lá, permitir que o Korben e a Leeloo de Bruce Willis e da Milla Jovovich salvassem o universo). E no grande Brazil de Terry Gilliam foi  Mr. Kurtzmann, o titubeante chefe de Sam Lowry (Jonathan Pryce), a cargo de uma pequena parte de toda aquela burocracia infernal.

Mas é em Alien de Ridley Scott que, para mim, Ian Holm tem a sua aparição definitiva no grande ecrã ao interpretar Ash, o cientista da tripulação que se transforma num inesperado antagonista. Bilbo Baggins e Vito Cornelius, e até mesmo Mr. Kurtzmann, são em si bastante diferentes, mas existe entre eles um fio condutor na interpretação simpática, apologética e algo desajeitada de Holm. Mas o andróide Ash não podia estar mais longe desse registo: frio, metódico, absolutamente dedicado a cumprir a missão secreta da Nostromo, mesmo sabendo que isso implicará a morte dos seus colegas de tripulação. O seu confronto com a Ellen Ripley de Sigourney Weaver não é muito menos aterrador do que o próprio alienígena.

Haverá vários outros papéis de Ian Holm para descobrir ou re-descobrir (aos anos que ando a ver se revejo a adaptação televisiva de Through the Looking Glass  que apanhei uma vez a passar na RTP2), mas estes, de quatro dos meus filmes preferidos, ficam-me na memória.

Filho de pais escoceses, Ian Holm nasceu a 12 de Setembro de 1931 em Goodmayes, Essex. Faleceu hoje aos 88 anos.

E Tudo o Vento Levou: expurgar o cinema?

jpt, 13.06.20

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1939 foi um ano lendário no cinema americano: O Feiticeiro de Oz; Mr. Smith Goes to Washington (com o grande Jimmy Stewart a ser magnífico Jimmy Stewart); Wuthering Heights (com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven); Ratos e Homens adaptando Steinbeck, autor que logo no a seguir daria azo ao grande "As Vinhas da Ira"; uma extraordinária Bette Davis em "Dark Victory", um mergulho na doença bem raro no cinema da época; o épico E Tudo o Vento Levou (que é, talvez, o que mais envelheceu de todos estes, um bocado xaropada, convenhamos). E ... Stagecoach, quando o western passou a ser western, John Ford assumiu que "my name is John Ford and I make westerns" e John Wayne nasceu.
 
Stagecoach é uma obra-prima. E nela surgem uma marionetas ululantes "vestidos à indio". Todos aqueles que agoram berram o racismo do "E tudo o vento levou" nem se lembram deste aspecto, deste e de tantos outros filmes utilizando estereótipos (positivos, neutrais, negativos), pois, de facto, a única coisa de que conseguem falar é da cena Brancos/Negros, como se assim dos únicos pólos do bem e do mal. Se querem discutir um filme (o da "construção da nação" americana) não têm razão, são meros panfletários, marionetas ululantes vestidos à intelectual.
 
Pois discutem-no como? Perdigotando as malvadas gotículas "racistas", "colonos", "brancos"? O que os mariolas da empresa HBO e os patetas dos concordantes querem é estabelecer um filtro protector, para que os espectadores não sejam "contagiados", como se a paixão de Rhett e Scarlet germine uma prole de KKK. É uma infantilização dos espectadores. E uma satisfação para alguns deles, estes radicais, que vivem para um espúrio revanchismo ou para uma onanística auto-punição. Porque neste contexto de gritaria uma "contextualização" não será mais do que isso - ou, pelo menos, os "filtristas" não pedirão menos que isso, do que a condenação do que vêem como "moral" do filme.
 
Nisto há muita gente que protesta com a anunciada "contextualização", como se fosse lesa-majestade. Mas estão enganados. Quando vamos a museus temos lojas. Há quem compre penduricalhos, canecas ou camisolas. Mas também há livros, contextualizando artistas e obras. E folhas de sala. E quando lemos livros, especialmente se obras não contemporâneas, muitas vezes há .... "prefácios", contextualizando obra e autor. Às vezes, e julgo mais adequado, até são "posfácios". E no mercado as edições são muitas vezes (des)valorizadas consoante a tradução e a qualidade do texto enquadrador, o tal pre/posfácio. Ou seja, um enquadramento dos filmes não é uma catástrofe lesa-cultura. É algo a que nós estamos habituados noutras expressões discursivas/artísticas. Como tal, adendas de visualização voluntária serão bem-vindas.
 
Mas não se feitas da moralismos viciosos, de "filismos" que não sejam os da cinefilia. Por exemplo, não de quem venha gritar o racismo de Stagecoach e de John Ford. Mas de alguém que perceba que no filme a diligência é um microcosmos do universo Wasp. E que Ford abordou o "west" (os EUA) de várias maneiras. E que quando quis falar das oposições raciais o fez de maneira nada racista e bem problematizadora, como em The Searchers.
 
Não dá para ser cândido nisto pois o que agora os movimentos obscurantistas querem é moralizar (e censurar) as obras do passado. Exemplo máximo é a perseguição a "Tintin", de Hergé, como obra racista. Uma boçalidade abjecta. E acredito que haverá alguém que passe por aqui que logo começará a esbracejar com o "Tintin no Congo". O que bem mostra como estes discursos panfletários obscurecem - e tantos deles feitos por académicos que são pagos para o contrário.
 
Então, o que fazer? Não comprar as edições com maus "prefácios". Não as ver. Não "clicar" nelas. Exactamente como fazemos com os livros - e às vezes enganamo-nos? Passamos à frente, divulgamos no "tripadvisor" que determinada edição é uma porcaria (por exemplo, um livrito da Taschen, 5 euros, sobre Michelangelo passa páginas e páginas a afirmar a homossexualidade do pintor,  não vale a pena lê-lo). E temos as redes sociais para trocar informações sobre isso - sem gritarias, sem guerras. E, acima de tudo, sem paciência para os demagogos. E para os cândidos.

Contra a pirataria

Pedro Correia, 10.04.20

Aos meus amigos que por estes dias se tornam coniventes com a pirataria, partilhando livros inteiros, jornais inteiros e revistas inteiras por via digital ou acedendo "grátis" a filmes e séries, como já fazem com a música, chamo a atenção: os profissionais da escrita, do cinema e da televisão vivem do seu trabalho. No dia em que ninguém pagar por um livro, um jornal, uma revista, um filme ou uma série deixaremos de ter acesso a estes bens de serviço público e utilidade social. Pelo mais simples e lamentável dos motivos: eles deixarão de existir.

Ao fazermos um banalíssimo clique num dispositivo electrónico, distribuindo por outros aquilo que não pagámos, estamos a dar mais uma machadada em profissões que em larga medida já caminham sobre o fio da navalha, condenando-as à extinção a curto prazo.

Um mundo sem cultura, nem informação nem entretenimento de qualidade será um mundo mais árido, mais pobre, mais primitivo, mais inóspito. Será um mundo muito menos livre.

Um mundo em que nenhum de nós desejaria viver.

E não é um cenário de ficção: pode mesmo acontecer. Só depende de nós.

A ascensão e queda de Skywalker

João André, 22.03.20

Vi finalmente o mais recente (e último?) episódio da série Star WarsThe Rise of Skywalker, e para distrair do vírus decidi escrever um pouco sobre o filme.

Ver este filme, depois de ter visto as spinoffs, é como voltar a beber uma cerveja comercial, bem sucedida, com enorme penetração no mercado, mas sensaborona e banal, depois de provar algumas cervejas artesanais, interessantes mesmo quando com falhas. E nesta lista de spinoffs incluo naturalmente o Rogue One, Solo: A Star Wars Story mnas também o episódio VIII, The Last Jedi. Nesse filme Rian Johnson tinha decidido pegar a maior parte das histórias sobre a galáxia, os jedi, a família Skywalker e tantos outros e gozar com eles. Foi um filme imperfeito, mas foi, pela primeira vez desde há muito, original. Deu em contestação, com fãs a pedir a cabeça de Johnson (que tinha sido alihavado para realizar também o filme seguinte) e J.J. Abrams a voltar às rédeas.

E Abrams deu-nos um filme muito Abrams. Ou seja, um best of, com piscares de olho mais subtis ou completamente explícitos mais estes que aqueles) à saga e um esforço às vezes excessivo para nos fazer esquecer o filme anterior. Aliás, se nos créditos iniciais se tivesse adicionado mais uma linha de informação, o filme de Johnson até nem teria sido necessário.

Abrams tem feito uma carreira de reciclagem. Isso em si nada tem de mal. Ele é um artesão habitualmente competente, sabe coser bem uma história, oferece alguns pózinhos de cultura pop e consegue habitualmente encontrar espaço para um ou outro golpe de asa visual. O filme onde ele não o tinha conseguido, que tinha terminado de forma amorfa e sem interesse, fora o seu segundo episódio de Star Trek, Into Darkness. Depois de ter reimaginado a franchise, pareceu já não ter muito mais para criar. Foi reciclar ideias do passado mas, já sem o efeito de novidade dos elementos que criou, o filme foi aborrecido. Aqui sucedeu o mesmo. The Force Awakes tinha sido um bom filme. Reciclava muita coisa, mas estabelecia um novo começo para a série, introduzia personagens novas (e dava nova energia a antigas) e criava uma nova linha condutora para ser explorada. Se tivesse surgido uns 5 anos após The Return of the Jedi, teria sido um filme banal e estafado e sem muitas ideias. Vindo ao fim de tanto tempo e após o desastre da sequela/prequela Binks, vinha como uma lufada de ar fresco.

Mas Abrams perdeu isso. O argumento não tem ponta por onde se lhe pegue, parecendo que alguém pegou nos post-its da sessão de brainstorming e começou a pô-los em sequência na mesa do argumentista para que os colasse de alguma forma. Ressuscitar Leia é fan service puro e duro. A sua presença de nada serve e é apenas uma forma de recordar Carrie Fisher usando pedaços de diálogo gravados antes da sua morte. Tem tanta relevância como os risos gravados de uma sitcom dos anos 80. trazer Billie Dee Williams também apenas serve para encher chouriços (nada tem para fazer) e faz pena que o esforço para introduzir uma personagem como Rosie (Kelly Marie Tran) tenha sido deitado fora (o Merry Brandybuck tem mais relevância).

Mesmo as sequências de acção não têm grande apelo, são genéricas e poderiam ter sido feitas com um bocejo como treino para aspirantes a realizadores de Wuxia como trabalho de casa. Não há cenários de beleza estilística e apenas o grande cubo (ou prisma ou lá o que era) dos Sith tinha potencial, mas nunca vemos mais que uns vislumbres. Até a frota de Superstar Destroyers acaba por pecar por excessiva, parecendo excessivamente um trabalho de copy-paste.

As únicas surpresas, se lhes podemos chamar isso, são o facto de não existirem surpresas. Passe o tempo a esperar por algum golpe de asa, alguma coisa que me fizesse pensar "não estava à espera disto", mas tudo é tão telegrafado, com tantas indicações prévias, que quando as supostas surpresas aparecem nada têm de surpreendente. Abrams até coloca Palpatine a ter uma descargazinha eléctrica das mãos só para o caso de nos termos esquecido (ou não termos visto os filmes anteriores).

O filme vale pela relação de Rey e Ren (se fossem verdadeiros daria pano para mangas aos tablóides), mas mesmo isto é estragado no fim (não o conto para o caso de não terem visto) ao mudarem a natureza do conflito entre eles e estragarem novamente o trabalho de Johnson no filme anterior. Vale que Adam Driver e Daisy Rider conseguem sustentar o filme quando lhes dão algo mais para fazer que brincar às espadas (e aos médicos), mas mesmo assim há pouco, muito pouco.

Conclusão? O filme é um bom final para uma série que deveria ter ficado na gaveta depois do "episódio VI". Não houve verdadeira linha condutora, tentou-se espremer o sumo por onde foi possível. Ninguém sabia muito bem para onde se deveria ir, como e porquê. Não houve ninguém para dizer não ou lembrar que, a certa altura, as pessoas querem uma história ou personagens que nos façam sentir alguma coisa. A Disney sabe fazer isto, como demonstrou com Marvel Cinematic Universe. Nao é arte pura mas é entretenimento de enorme qualidade. Star Warsdeixou de o ser. Passou a ser uma forma de fazer dinheiro, uma ida à caixa automática. Como alegoria, esta imagem está de acordo com o seu último (?) filme: uma acção robotica e com pouco de criatividade.