A extinção da FCT

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Somos invadidos, a ritmo crescente, por charlatães que invocam a ciência como patamar supremo de autoridade, sem admitir discussão. Quem ousar um esboço de dúvida é brindado com dois rótulos: fóbico ou negacionista. Desqualificações que põem logo fim a qualquer debate. Quem duvida das teses enunciadas é corrido a pontapé para o terreno pantanoso da patologia ou da equiparação moral aos que recusam a evidência do Holocausto nazi.
E no entanto, como sabemos, é precisamente com a dúvida que a ciência avança. Foi sempre no confronto com teses adversas que o ser humano deu os tais pequenos passos que geraram os grandes saltos da Humanidade - da descoberta do heliocentrismo à teoria da relatividade, da lei da gravidade terrestre à alunagem de Armstrong e Aldrin em Julho de 1969.
Os meios de comunicação de massas, privilegiando quem grita mais alto e é capaz de semear o pânico com maior desenvoltura, dão palco aos tais pantomineiros que invocam a ciência como pretexto para a berraria enquanto os cientistas verdadeiros ficam fora dos holofotes.
Todos recordamos as previsões do "apagão universal" que ocorreria no ano 2000 - a maldição milenar que já sobressaltara almas mais crentes no ano 1000 da nossa era, em suposta expiação de múltiplos pecados pessoais e colectivos. Quando os factos desmentiram as teorias, nenhum alarmista foi convocado à sala para prestação de contas. Vários deles já andavam então a prever novas catástrofes.
Sempre assim foi, sempre assim será.
A diferença é só de escala: os de agora têm palco planetário. E continuam sem permitir discussão: isso beliscaria a sua putativa aura de autoridade. São herdeiros directos daqueles que em tempos mais recuados chamavam "ciência" ao pensamento mágico enquanto sopravam as trombetas do Apocalipse. Aqueles que na edição da Newsweek de 28 de Abril de 1975 anunciavam o advento iminente de uma «nova Idade do Gelo»: havia comprovado registo de acréscimo de neve no Hemisfério Norte - e logo se deu um arriscado salto para a tese geral.
Dar voz a «credenciados especialistas» muitas vezes redunda nisto. No início de 1914, o reputado analista político britânico Henry N. Norman publicou no Guardian um ensaio que concluía: «Creio que não haverá mais guerras entre as seis grandes potências.» Sabemos o que aconteceu nesse mesmo ano.
No seu livro The Population Bomb que foi best seller em 1968, um biólogo da Universidade de Stanford, Paul Ehlirch, garantia em tom desesperado: «Perdemos a batalha para alimentar a Humanidade.» Antevendo uma década seguinte em que «centenas de milhões de pessoas morrerão de fome.» Tese já enunciada noutro best seller, dado à estampa em 1967: Famine 1975! America decision: Who will survive?, dos irmãos William e Paul Paddock - um agrónomo, o outro diplomata. Mencionando a Índia e o Egipto entre «as nações sem esperança» do mundo subdesenvolvido. Erraram: até ao fim do século, a quantidade média de calorias ingeridas por pessoa no mundo aumentou 24%.
Devemos acautelar-nos contra o suposto argumento de autoridade, que detesta ser refutado por teses opostas. Em regra, esse é o caminho seguido não por cientistas mas por embusteiros. E que nos conduz não à iluminação, mas à ignorância. Recorrendo quase sempre à mais primária das vias: o medo.
Nesta matéria, como noutras, aplaudo o que escreve Mike Hume no seu livro Direito a Ofender: «Numa sociedade livre e civilizada, nenhum debate devia ser dado por encerrado. Mesmo no campo da ciência. O cepticismo e o questionamento de tudo continuam a ser as bases do método científico. E essa abertura torna-se muito mais importante quando passamos à arena intensamente contestada do debate político acerca do futuro da sociedade.»
Além de ser um imperativo de cidadania e liberdade, é também uma garantia adicional de não andarmos tanto à mercê da chusma de charlatães que por aí pululam.
A água é um bem escasso e precioso. A água dos oceanos é património de todos e a todos tem de servir, mesmo àqueles que não têm acesso ao mar ou a água potável e precisam dos recursos daquele e desta para sobreviver.
A libertação das águas retidas pelo acidente nuclear de Fukushima começou a ser realizada sob a supervisão e controlo da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Este processo prolongar-se-á por trinta anos e está sujeito a constante monitorização.
A AIEA é um organismo internacional estabelecido sob a égide da Organização das Nações Unidas, que conduz as suas actividades de acordo com a carta e os princípios da ONU, e de que a Coreia do Sul e a China fazem parte, esta última desde 1984.
Nos últimos dias, e aliás na sequência do que aconteceu nos últimos meses, têm-se multiplicado as declarações e comunicados de representantes desses dois países sobre a inconveniência da libertação das águas em questão, ainda que tenham sido objecto de tratamento.
Não tenho dúvida de que este é um problema que merece a atenção e a reflexão de todos.
O que de todo não compreendo é a histeria colectiva que por aí vai com a proibição de importação de produtos japoneses ou a sujeição de alguns deles a fiscalizações mais rigorosas.
Se quanto a estas parece-me que isso pode fazer sentido, pois que cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, já quanto à proibição pura e simples de importação de produtos parece-me mais um pretexto político, tal como afirmou um empresário local, na minha perspectiva destinado a exacerbar ódios, inimizades antigas e a desviar a atenção das pessoas do essencial.
Se quando a AIEA chama a atenção para a gravidade das situações e impõe limitações estão todos de acordo e se corre a citar os seus relatórios e as afirmações dos seus responsáveis, não se percebe agora qual o motivo para se atacar os relatórios, sem qualquer evidência científica alternativa, o acompanhamento da situação e a monitorização que está a ser feita das águas tratadas e descarregadas.
Li o que foi escrito, também vi e ouvi o que foi dito pela AIEA, e retive as declarações de um dos mais conceituados especialistas portugueses sobre a matéria, Pedro Sampaio Nunes, que afirmou ser o nível de radioactividade não só muito inferior ao esperado como negligenciável, perfeitamente seguro para humanos e animais, como muito mais baixo, por exemplo, do que os níveis de radioactividade registados no rio [em] Manaus. Será preciso beber 3,5 litros da água de Fukushima para se ter o nível de radioactividade desta última (a partir do minuto 8:05).
O presidente da AIEA referiu com toda a clareza que a monitorização e partilha da informação em tempo real é fundamental. E é isso que tem sido feito, não havendo razão para duvidar que as coisas se processassem de outra forma, de má fé ou destinadas a prejudicar os humanos, os animais e os oceanos em geral, numa palavra a própria Humanidade.
Compreendo que para países onde tudo é pouco transparente, secreto, confidencial, constantemente manipulado por motivos políticos e onde se está permanentemente a esconder a informação ao povo e aos parceiros internacionais, muitas vezes colocando em risco a saúde global, seja difícil perceber que os outros países e as agências internacionais não se comportam da mesma forma, não são organismos autocráticos e não funcionam no mesmo registo.
Não se pode invocar o que diz a AIEA e o seu presidente quando nos convém, quando apontam um risco, e desvalorizar o que essas mesmas entidades e os seus peritos dizem quando tal foi objecto de aturado estudo científico e não nos é politicamente conveniente.
Felizmente que em Macau há gente consciente e informada, como se viu numa reportagem da TDM, e que sabe que a desinformação só serve o obscurantismo.
As questões sérias devem ser tratadas com racionalidade, bom senso e boa fé. Não podem estar a ser distorcidas e manipuladas por circunstancialismos politicos.
E entre a propaganda estupidificante, a simples ignorância, o nacionalismo bacoco, o agitar pouco sério de fantasmas ou a ciência, feita por gente séria e qualificada, não tenho dúvida nenhuma de que opto pela última.
E confio tanto na ciência como acredito na independência de raciocínio, na transparência de processos, no acesso livre à informação, na seriedade de quem não teme o acesso a essa mesma informação por parte de terceiros, à sua divulgação atempada, à sua testagem e análise em tempo real, não colocando entraves à entrada e circulação de cientistas estrangeiros e aos seus equipamentos, nem condicionando a acção das agências e dos peritos internacionais por razões políticas.

Sinceramente pensei que tivesse acabado com este tema, mas nos últimos meses tornou-se difícil fazê-lo com a quantidade e qualidade de actividade que existe no campo da astronimia, astrofísica e simples exploração espacial. O Webb continua a enviar dados e mais recentemente recebemos as imagens mais detalhadas de sempre de Júpiter. Estas imagens, mais uma vez, não são as que veríamos com um telescópio normal ou se estivéssemos perto de Júpiter. Neste caso o mais espantoso - para mim - foi o facto de as imagens não terem sido produzidas pela NASA ou ESA ou outros cientistas, mas por uma pessoa "normal", sem treino específico em ciência. As imagens do Webb estão geralmente disponíveiis para o público em geral as poder analisar e tratar e foi precisamente isso que Judy Schmidt, uma cientista amadora (minha tradução para "citizen scientist") fez com as imagens de Júpiter. Ela pegou nas múltiplas imagens a comprimentos de onda distintos e que focavam zonas diferentes de Júpiter para criar a imagem de cima em cor falsa.
O espantoso da imagem é que as cores são bastante distintas daquilo que esperaríamos. A Grande Mancha Vermelha de Júpiter, a tal tempestade capaz de engolir a Terra e que continua desde há séculos, aparece não como vermelha mas como branca. Isso é porque nesta imagem, as cores mais claras correspondem a zonas que reflectem muito a luz solar, geralmente regiões de maior altitude na atmosfera de Júpiter (lógico, quanto mais baixa uma região, mais a luz tem que passar por outros gases e mais da luz será absorvida). A Grande Mancha Vermelha é então uma região de elevada altitude na atmosfera e que reflecte muita luz, por isso aparece branca.
Outra coisa que salta à vista é a presença das auroras nos pólos norte e sul do planeta, que neste caso aparecem com a aura vermelha ou alaranjada. Neste caso a altitude é considerável, mas a aurora não reflecte a luz, antes resulta de outro fenómeno, por isso não aparece como branca. É para mim uma imagem fantástica que, não tendo a especificidade das imagens do Hubble de 2014, conferem a Júpiter uma aparência quase espectral e etérea que me fascina.
A imagem acima permite ainda ver formações atmosféricas mais escuras que estarão a uma altitude muito mais baixa do que qualquer outra que tenhamos visto no passado (ou a uma maior profundidade de observação, depende da perspectiva) e tem obviamente uma resolução superior a qualquer outra coisa que vimos no passado. Há no entanto outra imagem fantástica a adicionar, para a qual Judy Schmidt colaborou com Ricardo Hueso, um investigador na Universidade do País Basco (mas ao que parece tudo a título privado). Essa imagem, abaixo, mostra Júpiter a uma maior distância mas de tal forma que é possível ver os seus anéis bem como alguns dos satélites menos conhecidos do planeta.

Nesta imagem, vemos os anéis (não é só Saturno que os tem) a estenderem-se um pouco para lá do planeta e dois dos satélites, os minúsculos Amalteia e Adrasteia (não, também não os conhecia). O primeiro tem um diâmetro de cerca de 160 km e o segundo de apenas 16 km. São essencialmente rochas grandes que foram capturadas por Júpiter sendo que o segundo, que aparece no limite do anel de Júpiter, é considerado como o maior contribuinte de material para o anel. Adrasteia foi descoberto apenas aquando da passagem da Voyager 2, mas Amalteia foi descoberto ainda no século XIX por telescópios na superfície do nosso planeta, o que demonstra a incrível capacidade de análise de dados dos cientistas espaciais (para comparação, seria o mesmo que observar um grâo de areia a cerca de 7 km de distância).
Também se podem ver outras galáxias à distância na imagem (os pontos mais desfocados) e outras impressões deixadas pelas auroras e por Io, um dos satélites galileanos de Júpiter (assim chamados porque foram descobertos por Galileu, sendo os outros Europa, Ganímedes e Calisto). Falei de Io no último post, mas Ganímedes e Europa são também interessantes, até porque são vistos como tendo um potencial elevado para procurar vida. Ganímedes é também interessante porque é bastante grande, é o nono maior objecto do Sistema Solar, incluindo o Sol (maior que Mercúrio mas com menos massa) e é o único satélite com um campo magnético. Ganímedes, tal como Europa, têm uma superfície gelada com o que se imagina ser um oceano líquido por baixo da espessa camada de gelo à superfície. Como, tal como Io, estão sujeitos às pressões causadas pela gravidade de Júpiter, imagina-se que possam ter um interior magmático e que possa permitir a presença de vida junto a fontes hidrotermais tal como na Terra (também referidas no último post). Esta última imagem pode ser vista com algumas anotações aqui em baixo.

Por hoje é tudo, mas já não desconto a possibilidade de aqui retornar. Talvez até para falar das missões Artémis, cuja primeira estava prevista para ser lançada hoje mas foi adiada para quarta-feira. A ver vamos se esta série continua. Para já, fica o link para a informação (muito simplificada) sobre a Cartwheel Galaxy, cujas imagens dão um detalhe que (mais uma vez), ainda não tínhamos visto. Mas fica para outra vez.
Regressando de férias volto ao tema que deixei aberto no último post: a questão filosófica da busca por sinais de vida noutros planetas. Esta é uma questão filosófica em geral, física e biológica na sua especificidade mas também metafísica num território mais intermédio (sim, sei que a Metafísica é uma das disciplinas da Filosofia, mesmo que eu não seja nenhum especialista - longe, muito longe, disso).
Questão filosófica geral
Quando falamos na busca por vida noutros planetas e, mais concretamente, por vida inteligente (qualquer que seja a definição de "vida" ou "inteligente"), temos que pensar no impacto. O único planeta que conhecemos capaz de ter vida é a Terra. É, tanto quanto sabemos, o único planeta que tem vida. De um ponto de vista empírico, a vida é possível na Universo - podemos dizer que é uma certeza - e só existe num único local. Por isso mesmo, todas as nossas buscas por vida são turvadas pela nossa perspectiva e pela nossa experiência. Nisto não estamos uma situação muito diferente da dos geólogos antes das missões Voyager ou dos biólogos antes da descoberta e exploração das fontes hidrotermais submarinas.
No primeiro caso, pensávamos que o único corpo no nosso Sistema Solar que poderia ter vulcanismo era a Terra e que era necessário que um corpo tivesse um tamanho e massa mínimos para tal vulcanismo existir (devido à necessidade de gerar calor suficiente no interior do planeta). As imagens de Io (um dos satélites de Júpiter) durante as missões Voyager demonstraram que não era assim. Io não só é geologicamente activo, como é o corpo geologicamente mais activo em todo o Sistema Solar. A sua interacção gravitacional com Júpiter faz com que o seu interior seja sujeito a forças de marés (como os oceanos na Terra sob acção da Lua) e mantém esse mesmo interior não só activo como causa a formação frequente de vulcões que são os maiores e mais activos do Sistema Solar. Uma imagem de Io tirada hoje poderá estar desactualizada na próxima semana ou mês, tal é o efeito destas forças. Isto era algo que talvez alguns geólogos pudessem imaginar, mas que não fazia parte do conhecimento científico antes de ser descoberto.
No segundo caso temos as fontes hidrotermais. Estas são formações de teor vulcânico que se formam a grandes profundidades em zonas de grande actividade vulcânica. Uma dessas zonas é no fundo do oceano em torno dos Açores, por exemplo, bem como ao longo de toda dorsal mesoatlântica (zona mais ou menos no meio do Oceano Atlântico formada pelo afastamento das placas continentais onde assentam a América e Europa e África, em termos muito genéricos). Nestes casos, lava não se chega a formar mas o que é expelido através da crosta é água (que pode ser do próprio oceano ou da região magmática) e que devido às condições assume características supercríticas, ou seja, comporta-se tanto como gás como líquido. Este fluido supercrítico traz consigo muitos gases mas também muitos minerais, os quais formam estruturas parecidas com pequenas chaminés. É uma zona estranha, onde a temperatura dentro das fontes hidrotermais (o interior da chaminé) pode ser ultrapassar os 450 °C mas baixar para os 2 °C habituais a estas profundidades a um metro das mesmas. Nestas zonas a profundidade é tal que a luz do sol não chega ao fundo. Por isso mesmo se pensava que não poderia existir vida, dado que toda a vida conhecida anteriormente dependia da fotosíntese. Neste caso, porém, descobriu-se um ecossistema extremamente rico com base em quimiosíntese, ou seja, em organismos (habitualmente bactérias) que digerem alguns dos componentes expelidos (por exemplo H2S, que é tóxico para a maioria dos organismos) e daí extraem energia. Mais uma vez, talvez existisse quem imaginasse esta possibilidade, mas a ciência não a conhecia.
Por isso, quando pesquisamos vida noutros planetas temos que deicidir no que nos devemos focar. Há quem defenda que a vida não necessita realmente de água, que água só é necessária à vida no nosso planeta porque era esse o líquido dominante. Se existir outro tipo de líquidos noutros planetas (possivelmente mercúrio ou metano, a temperaturas e pressões diferentes) é possível que outro tipo de vida tenha evoluído. Só que não só não o sabemos como também não sabemos aquilo que teríamos de procurar. Portanto procuramos uma vida que seja, nem que seja apenas aproximadamente, semelhante aos tipos de vida que conhecemos na Terra: com base em água líquida e tendo certo tipo de processos químicos na sua génese. Isso não significa no entanto que não possamos descobrir vida exótica. Já o fizemos muitas vezes no nosso planeta, por isso nada nos impede de o voltar a fazer noutro.
Agora, assumindo que descobrimos tal vida, que implicações terá isso na nossa perspectiva? Neste momento, assumindo que estamos sós no Universo, podemos flutuar entre dois extremos: efusividade por sermos o pináculo da evolução do Universo ou depressão por não termos mais nenhuns companheiros. Podemos ser arrogantes ou humildes. Podemos pensar em quanto somos especiais ou lamentar o mesmo facto. Dependerá de cada um. Mas a descoberta de vida fora do nosso planeta questionaria tudo isto, especialmente porque destruiria de imediato a ideia de sermos especiais por termos vida. Uma das razões para a procura de vida (ou resquícios da mesma) no nosso Sistema Solar (por exemplo em Marte) é porque a descoberta da mesma demonstraria que a Vida tem que ser bastante comum se poderia surgir em dois locais distintos no mesmo sistema. Se existe na Terra e em Marte (ou Ganimede ou Europa), também terá que existir por todo o Universo. Como veríamos isso? Muitas religiões poderiam contestar tal facto, outras apontá-lo como prova da importância e poder da(s) sua(s) divindade(s). Algumas talvez colapsassem (infelizmente suponho que isso não aconteceria com a cientologia). A nível pessoal que pensaríamos? Teríamos medo? Poderia esta descoberta aproximar-nos uns dos outros? Afastar-nos? Não sei, mas é uma questão interessante a considerar.
Já a descoberta de uma civilização extraterrestre, especialmente se bastante diferente da nossa (imaginemos que alada, sem olhos, com 5 bocas, comunicando e percebendo o mundo através de sons, cinzentas ou multicolores e com uma "pele" rochosa) poderia causar choques. Aí a questão de como reagiríamos talvez seja melhor entregue a escritores de ficção científica, porque os cientistas não têm verdadeiros pontos de referência para tal comparação.
Questão científica em particular
Aqui estamos em pé mais firme, mesmo que não completamente seguro, porque como indiquei acima, temos uma ideia clara do que estamos à procura. Um planeta que orbite uma estrela, exista na zona de habitabilidade da mesma para poder conter água no estado líquido, e que possa ter vida reconhecível por nós de forma a podermos encontrar os sinais químicos da mesma na sua atmosfera. É aqui que entra o Webb, com a sua possibilidade de analisar a atmosfera de outros planetas (como referido antes). Alguns dos sinais que se poderão procurar serão indicações de metano, por exemplo. Isto porque o metano é um gás que se deteriora rapidamente na atmosfera e que, se não for reposto, acaba por desaparecer. Também porque não conhecemos nenhum método para a produção sustentável de metano à superfície de um planeta que não passe por acção biológica. Assim sendo, o metano seria um dos principais sinais da presença de vida.
Outro sinal seria, obviamente, descobrir oxigénio. Não que seja fundamental mas, como já indicámos, a vida que conhecemos ou precisa de oxigénio ou expele oxigénio como produto de outras actividades (como as plantas). A presença de oxigénio molecular sugeriria então também vida. Se a oxigénio e metano associarmos água em estado líquido (depreendida pela presença de vapor de água na atmosfera e pela localização do planeta em relação à sua estrela), poderíamos então marcar o planeta como potencialmente contendo vida.
Seria isto suficiente? Clato que não. Como não canso de o dizer, há muito que não sabemos e a presença destes compostos (e outros que não referi) poderia ser justificada por outros processos que são improváveis ou desconhecidos. Com milhares de milhões (milhões de milhões?) de planetas só na nossa galáxia, acabaremos por descobrir planetas com processos estranhos. Aquilo que se faria no caso de encontrarmos planetas com maior probabilidade de albergarem vida seria marcá-los para subsequentes estudos. Talvez se encontre uma civilização que tenha deixado marcas noutras partes do seu Sistema Solar. Ou talvez tenhamos simplesmente que esperar por novas tecnologias para ter novos telescópios que nos permitam ver em maior detalhe aquilo que se passe nesses planetas. Ou seja, o Webb talvez nos dê todas as indicações de vida, mas confirmações teriam que esperar.
Aquilo que não iremos ver são sinais de uma civilização no mesmo estágio de desenvolvimento que nós. Quaisquer estações espaciais ou noutros planetas ou outras estruturas no planeta ou fora dele serão demasiado pequenas para serem identificadas. Uma civilização muito mais avançada talvez tenha criado superestruturas no Sistema Solar que sejam identificáveis, mas é improvável que mesmo estas sejam visíveis.
Questão metafísica de ligação
Aqui entra a questão do Paradoxo de Fermi, que foi formulado por Enrico Fermi em conversa casual con Edward Teller e outros. Na discussão sobre extraterrestres e OVNIs, Fermi perguntou então onde andariam tais seres e civilizações. Numa formulação mais genérica, talvez se pudesse colocar como «Se o Universo está cheio de vida, onde está toda a gente?». Isto também foi reflectido pela equação de Drake, a qual foi formulada para estimar o número de civilizações que poderemos contactar na nossa galáxia.
A equação de Drake utiliza: R∗: o ritmo de formação de novas estrelas na nossa galáxia; fp: a fracção dessas estrelas que terão planetas; ne: o número de tais planetas que poderão ter condições para ter vida; fl: a fracção destes planetas que poderá ter visto vida a desenvolver-se; fi: a fracção destes planetas que poderá ter visto a vida inteligente a desenvolver-se (i.e. a formar civilizações); fc: a fracção destas civilizações que desenvolvam tecnologia para enviar para o espaço sinais detectáveis; L: o período de tempo em que tais civilizações têm enviado tais sinais.
Há a possibilidade de dar valores relativamente certos para alguns destes parâmetros. Sabemos hoje em média o ritmo de formação de novas estrelas e sabemos também que uma enorme percentagem delas têm planetas. O Webb poderá ajudar a responder a questão sobre quantos deles terão condições para albergar vida mas depois disso só temos um ponto para estimar: o da Terra. Dependendo dos valores usados, podemos chegar a valores inferiores a 1 (efectivamente zero civilizações na galáxia) ou a milhares de civilizações.
Um dos problemas que tem sido avançado no período desde que Drake formulou a sua equação é a questão da tecnologia. Será que seríamos capazes de detectar os sinais? Basta ver que se uma civilização tivesse enviado sinais semelhantes aos nossos em 1980 mas que chegassem em 1920, nós não os detectaríamos. E se tal civilização continuasse a evoluir como a nossa, em 1980 (quando tínhamos já radiotelescópios para detectar tais emissões) talvez não as enviasse muito, porque poderia usar internet por fibra óptica, microondas ou outros sinais que não sobrevivam a longas viagens pelo espaço e sejam destinados a transmissões "à vista" (por exemplo usando satélites). Assim sendo, poderá haver uma civilização a 200 anos-luz de nós que nós nunca conheceremos porque não existimos em condições tecnológicas paralelas (excluindo distâncias) para contactarmos.
E se expandirmos isto para escalas de tempo mais longas, como identificaremos os sinais de uma civilização 100 anos à nossa frente? Ou 1.000 anos? Ou 50.000 anos? Há 50.000 mil anos nós estaríamos apenas a desenvolver a linguagem. Como imaginar a tecnologia de uma civilização 50.000 anos à nossa frente? Ou um milhão de anos? Isto é inimaginável. Tudo isto sem contar com o facto de tais civilizações possivelmente usarem comunicações que nós nem sequer imaginamos, mesmo que o nível de desenvolvimento seja semelhante. Uma civilização sem olhos poderia ter criado todo um sistema de comunicação baseado em som. Imaginemos um planeta cheio de linhas para enviar ondas sonoras, como dois copos de plástico ligados por um fio. Nunca receberíamos os seus sinais.
E para finalizar há a questão das distâncias. Os sinais, mesmo que enviados de uma forma inteligível e na altura certa poderão deteriorar-se no caminho. A força do sinal diminui. Nuvens de poeira bloqueiam o sinal. Poderá haver partes da informação que sejam perdidas e que sirvam para identificar tal sinal como se fossem um farol e, na sua ausência, não notaríamos o mesmo.
Concluindo, não acredito que detectemos alguma vez sinais de vida inteligente noutros planetas. Se o fizermos, será viajando mais perto e isso irá certamente demorar muitos séculos. Talvez milénios ou mesmo milhões de anos. Se alguma vez lá chegarmos. E quem sabe se a evolução não nos leva noutra direcção que nos faz perder o interesse? Seja como for, não sabemos se seria boa ideia. Mesmo ignorando a possibilidade de intenções hostis de tais civilizações (descobrem o novo miúdo na galáxia e pulverizam-no), como veríamos seres tão mais avançados? Seriam essencialmente deuses para nós. Teríamos capacidade para sobreviver, de uma fomra intelectual e social, a tal encontro? Não sei.
Para terminar: a busca por vida extraterrestre, seja ela de que tipo for, enfrenta várias dificuldades, não só científicas e, no dia em que seja descoberta, irá levar a um grande processo de reflexão sobre nós mesmos e o nosso papel no Universo. Até lá, penso que a sua principal função é a de servir para fazer avançar a nossa civilização, tanto cientificamente, à medida que desenvolvemos os intrumentos e métodos para a sua busca, como filosoficamente, enquanto reflectimos sobre a importância da busca e as consequências das descobertas da mesma (ou falta delas).
E, mais uma vez, tudo isto me deslumbra.

Nos posts anteriores (I, II e III) falei das fotografias do Telescópio Espacial James Webb e do deslumbramento que causam, tanto pela informação que oferecem sobre galáxias, estrelas e novas informações sobre objectos conhecidos, como pela beleza das próprias imagens. Há no entanto outros aspectos que, pelo menos para quem goste do assunto, oferecem igualmente uma sensação de maravilhoso e de deslumbramento embora menos visualmente e mais cientifica e filosoficamente. Falo especialmente da informação matemática e física contida nos espectros que foram já analisados pelo Webb e daquilo que nos permite saber desde já e antecipar ansiosamente futuros estudos.
Atmosfera de exoplanetas

Espectro de transmissão do exoplaneta WASP-96 b.
A primeira imagem é a do espectro de transmissão (em infravermelho próximo) do exoplaneta WASP-96 b. Trata-se de um gigante gasoso (como Júpiter ou Saturno) que orbita a estrela WASP-96 (não escolhi o nome, mas com milhões de estrelas e galáxias, os cientistas têm que arranjar nomenclaturas para os objectos), que é uma estrela semelhante ao Sol e que fica a 1.150 (mil cento e cinquenta) anos-luz de nós. Esta distância é curta em termos astronómicos, embora estejamos a falar de 10,8 triliões de km (ou 10,8 milhões de milhões de milhões), mas quando vemos objectos a milhares de milhões de anos-luz, esta distância é curta. O planeta é aquilo a que os cientistas chamam de "gigante quente" porque é um gigante que orbita muito perto da estrela e, como é óbvio, fica por isso mesmo muito quente. Este planeta orbita tão perto da sua estrela (apenas 5% da distância da Terra ao Sol) que o seu ano (tempo que demora a dar uma volta à estrela) é de apenas 3 dias e meio.
O espectro de transmissão é uma análise à luz que é obtida quando observamos o planeta a passar em frente da sua estrela. Quando o faz, a luz é parcialmente bloqueada pela atmosfera do planeta e de forma diferente dependendo do tipo de molécula que bloqueia a luz. A luz não é simplesmente bloqueada completamente de forma a não vermos nada, antes vemos apenas os comprimentos de onda (inverso da frequência) de luz que cada molécula não absorve. Sabendo quais as que vemos, sabemos também as que não detectamos e esta informação, associada ao que sabemos sobre quais os comprimentos de onda que cada molécula absorve, permite inferir com bastante precisão a composição de uma atmosfera. Na imagem acima, cada ponto branco corresponde a um comprimento de onda que foi medido e que foi parcialmente absorvido pela atmosfera. A altura a que os pontos estão depende de outros aspectos, como a presença de nuvens, nevoeiro, poeiras ou temperatura da atmosfera. A linha azul é que foi determinada como se ajustando melhor aos dados. Esta linha é criada usando modelos e que usam pressupostos possíveis sobre a atmosfera (presença de nuvens, poeiras, temperatura, etc). Usando diferentes modelos obtemos diferentes linhas até que encontramos uma que melhor se adequa aos dados obtidos. Com base nessa linha e no seu modelo, é possível retirar algumas conclusões sobre a atmosfera. Neste caso, é possível estimar que a temperatura da atmosfera é de 725 °C (eu disse que era quente). Note-se que isto é nas camadas da atmosfera que foram observadas. O interior do planeta (que é gasoso) deverá ser muito mais quente.
Um dos dados mais interessante foram aqueles pontos no gráfico marcados como sendo água (H2O). Estes pontos são comprimentos de onda onde se sabe que a água absorve luz e como tal sabemos que existe água na atmosfera. Claro que temos que qualificar o termo "água". Trata-se de água no estado gasoso, ou vapor de água, o que seria inevitável dado que a temperatura é bastante alta e, na região da atmosfera que foi analisada, a pressão seria provavelmente mais baixa. Esta descoberta é importante porque permite determinar duas coisas:
a) a água será mais comum do que aquilo que teríamos pensado no passado. Como só tínhamos podido estudar decentemente (ou seja, com precisão nas medições) um único sistema solar (o nosso), não sabíamos o quão prevalente é água. Se ao primeiro planeta que estudamos bem a conseguimos descobrir, água pode estar muito mais presente que aquilo que pensávamos. Como toda a vida como nós a conhecemos necessita de água, esta informação é extremamente valiosa na nossa busca de vida extraterrestre.
b) estas medições permitem confirmar a precisão do Webb e das suas medições. Permitem também saber que, à medida que observamos mais exoplanetas, poderemos aprendar a detectar cada vez mais moléculas. Algumas delas, como o metano, estão associadas à presença de vida nos planetas (dependendo de outras condições). Ao conseguirmos observar água desta forma com a primeira observação podemos também ganhar confiança para futuras observações.
Antigas galáxias

Espectro de emissão de uma galáxia antiga.
A segunda imagem é a do espectro (de infravermelho próximo) de emissão de uma das galáxias antigas que referi no primeiro post. A luz detectada saiu da galáxia há já 13,1 mil milhões de anos (o que não é o mesmo que dizer que está a 13,1 mil milhões de anos-luz de nós, estará bastante mais longe), um período que apenas podemos conhecer através dos nossos modelos da evolução do Universo. Esta galáxia existiu quando o Universo tinha apenas 700 milhões de anos, numa altura em que existiam (segundo os modelos existentes) apenas algumas estrelas e galáxias, provavelmente enormes, e de vidas relativamente curtas. O que esta observação permitiu fazer foi determinar que a galáxia observada continha gases como hidrogénio, oxigénio e neón. Isso quer dizer que algumas das conclusões dos modelos eram correctas e que tínhamos já hidrogénio (o que era esperado, já que as estrelas apenas se formam na sua presença) mas também oxigénio e néon, que habitualmente só são formados e/ou libertados após a morte de uma estrela (ou pouco antes da morte da estrela). Isso indica que há 13,1 mil milhões de anos havia já estrelas a morrer.
Com o tempo poderá também ser possível obter mais informação sobre estas galáxias. Determinar a presença de nuvens de poeira, estádios de desenvolvimento das galáxias, etc. Com o tempo, quem sabe o que se irá descobrir que permita refinar - ou obrigar à revisão de - os nossos modelos de evolução do Universo.
Outras observações




Imagens da curva de luz do trânsito de um planeta em frente de uma estrela, espectros de infravermelho próximo e médio (com ou sem IFU - ver os links) do grupo Stefan's Quintet. Não me vou debruçar mais sobre estas imagens e a importância da informação porque não tive tempo de ler em detalhe e porque há ainda muito que os cientistas encarregues da investigação irão analisar. Basta dizer que os instrumentos permitem analisar com um detalhe inédito todos estes objectos e que abrem possibilidades únicas para observações e pesquisas futuras.
Deslumbramento filosófico
Escrevi acima sobre este aspecto, mas confessoq ue não me alongarei nele aqui. Deixo apenas as notas sobre aquilo que o Webb nos permitirá questionar, de um ponto de vista mais filosófico, sobre o Universo, a vida e a nossa presença. As observações do Webb poderão talvez um dia detectar sinais bastante fortes de vida noutros planetas. Estes sinais quase de certeza não seriam de civilizações ou qualquer vida inteligente - não vamos observar discos voadores - mas poderemos descobrir indicações fortíssimas da existência de vida de algum tipo. Talvez seja apenas microscópica ou mesmo animal e vegetal sem haver seres inteligentes, mas o Webb poderá ajudar-nos a descobrir tais sinais. Que significariam estes sinais? Questionaríamos o nosso conhecimento e a nossa existência e posição no Universo? Questionaríamos as nossas Fés? Veríamos tais descobertas como o início de uma nova era de conhecimento e aventura? E o que significaria não descobrirmos nenhum sinal no tempo de funcionamento do Webb? Não sei, mas podemos levantar essas questões.
Há ainda outra questão também curiosa e interessante para colocar cenários mentais: se há vida noutros planetas, onde estão esses extraterrestres. Este é o chamado Paradoxo de Fermi, que fez a mesma pergunta perante todas as estimativas que se fizeram sobre a existência de vida extraterrestre. Desde então muitas reflexões foram feitas sobre a questão, algumas mais metafísicas, outras mais científicas e umas outras que tocam ambos os aspectos. Tenho a minha visão, que anda pelo meio (meio metafísica e meio científica), mas deixá-la-ei para outro dia.
Na sequência dos dois posts anteriores sobre as imagens fo Telescópio Espacial James Webb e das suas primeiras imagens, surgiram algumas questões sobre as fotografias, referindo que não são cores reais e perguntado como sabemos quais as suas cores. Nos comentários avancei que as cores eram identificadas pelo espectro de luz que chegava ao telescópio. O telescópio "vê" numa determinada largura de banda de luz - o infravermelho próximo (near infrared) e o infravermelho médio (mid infrared) - e depois, com base nos comprimentos de onda específicos da luz infravermelha que chega ao telescópio vinda de cada objecto, este pode depois recalcular qual seria a sua cor no comprimento de onda de luz visível, isto é, aquele que nós podemos ver. Em suma, a matemática poderia recriar as imagens da mesma forma que nós as veríamos.
Esta explicação foi simultâneamente correcta e incorrecta (e incorrecta por minha culpa). Vou tentar explicar. Quando vemos uma imagem, o nosso olho recebe a luz e observa-a através de cones que existem no olho. Há um cone para a luz vermelha, outro para a verde e outro para a azul. Ou seja, cada cone vê luz numa dessas regiões do espectro dentro da luz visível. Se retirássemos (ou conseguissemos suprimir) os cones verde e vermelho poderíamos só ver tudo em azul (talvez isto tenha acontecido com Picasso - adiante). Claro que cada cone vê estas cores em intensidades distintas, mais escuras (se menos dessa cor) e mais claras (se mais dessa cor). Quando se sobrepõem todas as imagens, vemos o mundo em cores. É este o princípio da imagem RGB (para Red, Green, Blue) que programas de software usam (entre outros tipos de imagem).
Quando o Hubble faz uma fotografia, fá-la a preto e branco, ou seja, sem qualquer cor. Só que depois aplica filtros para poder "ver" a imagem, ainda a preto e branco, mas para cada uma das cores primárias. Uma foto (a preto e branco) para ver o vermelho, outra para ver o verde e outra para ver o azul. Quando depois se combinam estas fotos, sabendo o que cada uma mostra e a intensidade da luz nessa cor, é possível sobrepô-las e criar uma imagem de "cor verdadeira" (true color). O Webb faz uma coisa semelhante, mas mais complexa e, porque não pode ver na região visível, de forma algo diferente.
O Webb faz as suas imagens na região de infravermelho, mas em vez de usar 3 filtros para comprimentos de onda do espectro de luz visível, usa 29 filtros para espectros de luz infravermelha. Depois vai atribuíndo uma cor (do espectro visível) a cada um dos filtros de acordo com a sua posição no espectro de infravermelho. Os comprimentos de onda mais longos, que no espectro visível são vistos como vermelhos, recebem cor vermelha. Os mais curtos recebem azul (a sua posição no espectro visível). Os outros vão sendo distribuídos pelo espectro visível. O resultado surge quando todas estas imagens são combinadas, dando-nos as fotografias que vimos.
São aquelas fotografias iguais ao que nós veríamos com os nossos olhos se conseguíssemos ver tão longe? Não. São fotografias falsas? Também não. Os cientistas não retiram nem adicionam nada às imagens, apenas as manipulam para as poder observar melhor e, porque são humanos, as poder apreciar melhor. Pode parecer estranho, mas as imagens que vemos publicadas servem para pouco mais que o deslumbramento que citei já várias vezes. Aquilo que frequentemente excita os cientistas são os gráficos e os dados quantitativos que se recebem dessas imagens (ainda escreverei sobre isso). As imagens são fabulosas e haverá poucos astrónomos que não terão uma (ou múltiplas) dessas imagens penduradas numa parede de casa e/ou do escritório. No entanto não são o essencial.
Só que essas fotografias nunca deixam de ser reais. Só que são, de facto, manipuladas. O termo "cor falsa" (false color) muitas vezes usado para descrever estas imagens, não é o mais correcto, penso. Talvez "cor corrigida" fosse melhor. No entanto não é diferente de um fotógrafo em 1980 usar Kodak ou Fuji de acordo com querer tons mais quentes ou frios. Ou fotógrafos usarem diferentes químicos e tempos nos banhos para revelar as fotos de acordo com aquilo que querem mostrar. Ou hoje em dia se usarem filtros em fotojornalismo (não falo em sessões fotográficas, essas são realmente falsas no essencial) para tornar certos pormenores mais claros. Ou até, fugindo à imagem, ao tipo de equalizador que se usa ao ouvir música. Ambiente? Neutral? Rock? Filme? Tudo isso muda o som que ouvimos. Torna-o menos real?
No fim, a limitação que temos são os nossos olhos. Outros seres que tivessem 300 cones para ver cores diferentes provavelmente perceberiam um mundo muito mais rico de cores que nós. Não seria um mundo mais real, apenas seria percebido de outra forma. A ciência e a matemática permitem-nos expandir a nossa percepção do Universo e isso é, mais uma vez, algo que me deslumbra.
Nota: 3 links para explicações melhores que as minhas. Vídeo 1 ("Dr. Becky", astrónoma) e vídeo 2 (Vox, canal de media) do YouTube. Artigo na Fortune.
Quando na passada 5ª feira escrevi sobre o Telescópio Espacial James Webb (fiquemo-nos por Webb) e as primeiras imagens que recebemos, houve muita coisa que ficou de fora. Tentemos abordar alguns aspectos agora. Mais uma vez: erros neste post são meus e agradeço toda e qualquer correcção.
Um dos aspectos que foi referido nos comentários e que não adicionei sobre o Webb foi sobre como o telescópio vê. Isto pode parecer óbvio (vê vendo), mas não o é. Porque o Webb foi concebido para observar objectos distantes de nós, ver os objectos no espectro de luz visível não ajuda, por isso os instrumentos do Webb foram escolhidos para detectar luz nos comprimentos de onda do infravermelho, que é uma região do espectro de luz que nós, seres humanos, não conseguimos ver. Seres vivos que vêem uma parte deste espectro são mosquitos, algumas espécies de morcegos ou serpentes. Nós conseguimos observar o infravermelho usando câmaras adequadas que detectam as diferenças de calor emitidas por objectos, mas são sensíveis apenas à radiação que é libertada pelos objectos quentes, não a todo o espectro de infravermelho.
Para se compreender esta diferença, imaginemos a audição. Nós ouvimos numa determinada gama de frequências, mas todos sabemos que animais ouvem noutra. Há apitos que emitem sons inaudíveis para nós mas que os cães ou gatos conseguem ouvir. O mesmo se passa com a luz. Infravermelho, ultravioleta, raios X, etc, são partes do espectro electromagnético, ou da luz (Nota: já li artigos referindo-se ao termo "luz" como se referindo apenas à luz visível, aquela que conseguimos ver; enquanto que outros usam o termo "luz" para se referir a todo o espectro electromagnético, dado que é apenas radiação, eu usarei "luz" neste segundo sentido e peço tolerância a quem não concordar com a minha escolha e cuja perspectiva eu compreendo).
O que o Webb faz é usar câmaras e sensores específicos para detectarem diferentes regiões do infravermelho [nota: corrigido, obrigado ao comentador balio] para obterem informação que, de outra forma, se perderia. Uma das razões para ter enviado o Webb para onde está deve-se à necessidade de bloquear tanta luz quanto possível vinda do Sol e da Terra, sendo ainda necssário manter todos os instrumentos a temperaturas extremamente baixas para evitar que o próprio Webb liberte radiação infravermelha (ao libertar calor) que interfira com os instrumentos. Isto é semelhante a ter um telescópio terrestre longe das cidades e em zonas de alta elevação para não ter poluição de luz.
A razão para a escolha destas frequências deve-se, como referi acima, ao desejo de observar objectos distantes. Isto porque o nosso Universo está em expansão graças à Energia Escura. Não me alongarei neste aspecto mas fiquemo-nos pelo facto de existir uma força de repulsão no Universo que está a causar um afastamento das galáxias e que é tão mais pronunciado quanto mais longe essas galáxias estão. É também um afastamento que está a aumentar de velocidade e que nos levará a perder de vista (literalmente) algumas galáxias quando a velocidade de afastamento for superior à velocidade da luz (sim, a velocidade da luz é a velocidade limite no Universo e nada pode viajar mais depressa. Como podem as galáxias afastarem-se então mais depressa? É complicado mas por agora digamos apenas que a luz viaja no espaço-tempo e as galáxias afastam-se por espaço-tempo ser adicionado entre elas, pelo que a velocidade limite não se aplica. O conceito é complicado e não me alongarei). Ora, quando as galáxias se afastam, isso faz com que exista um efeito de desvio para o vermelho ("red shift" em inglês, obrigado pela nota caro comentador passante), que é semelhante ao efeito do som quando um carro passa por nós (o efeito Doppler) que faz com que o som que ouvimos quando o carro se aproxima seja diferente daquele que ouvimos quando o carro se afasta (apesar de o som ser o mesmo). Isso acontece porque as ondas sonoras se comprimem contra o nosso ouvido quando o carro se aproxima e se "esticam" quando o carro se afasta. Quando isso acontece com a luz, o comprimento de onda aumenta e a luz visível passa a infravermelha.
Assim sendo, aquilo que o Webb vê não é o mesmo que nós (ou o Hubble) veríamos. O Webb "vê" em infravermelho (e alguns comprimentos de onda de luz visível, especificamente na região de vermelho e laranja) e para termos as imagens como as vemos hoje é necessário recorrer ao que se chama de "cor falsa". Isto acontece para podermos ver a imagem e identificarmos detalhes que de outra forma não veríamos facilmente, mas também para aumentar o prazer estético da imagem. Manipulação de imagens é normal na história humana, seja por razões estéticas, científicas ou outras, e é pena que quando isso é feito com fotografias espaciais haja quem se queixe tanto. Talvez o termo "cor falsa" seja mau para a percepção, mas os cientistas são demasiado honestos e pouco hábeis na comunicação para utilizarem termos mais atractivos. Seja como for, é muitas vezes possível identificar a cor real através da análise dos comprimentos de onda e das diferenças entre os sinais obtidos em pontos diferentes na imagem. Mesmo dentro do infravermelho, e contabilizando o efeito de desvio para vermelho que seria de esperar para um objecto a determinada distância, é possível estimar a cor que veríamos se tal desvio para vermelho não ocorresse e observássemos a imagem em luz visível. Noutros caso, mesmo sem o desvio para vermelho, alguns dos detalhes só são visíveis na região de infravermelho e não as veríamos de nenhuma outra maneira. Para comparação do efeito de fotografias tiradas em comprimentos de onda distintos e dos detalhes que permitem ver, aconselho dar uma espreitadela a esta página.
Outras razões para observar o Universo em infravermelho prendem-se com dois outros tipos de observações: a) nascimento de planetas e estrelas em nuvens de poeira e gases e; b) observação e análise da composição de atmosferas de exoplanetas (planetas fora do nosso Sistema Solar). No caso a), o comprimento de onda de infravermelho é perfeito porque permite obter muito detalhe sem que a luz seja bloqueada pelos gases e poeira. Como o infravermelho passa pelas nuvens de poeira (um pequeno exemplo não reacionado com ciência neste clip), isso permite observar objectos que estejam nessas nuvens de poeira, ou atrás das mesmas, e que estariam escondidos do Hubble. No caso b), o interesse está em ver o que é que as atmosferas de exoplanetas podem conter. Como gostaríamos de saber se haverá vida noutros planetas ou se um determinado planeta poderia hipoteticamente conter vida, temos que saber como é a atmosfera. Com outros métodos podemos estimar tamanhos e massas dos planetas, bem como a sua pressão atmosférica, mas para saber a sua composição a melhor forma é esperar que o planeta passe em frente da sua estrela e analisar a luz que passa pela atmosfera. Como diferentes moléculas absorvem radiação em comprimentos de onda distintos, é possível analisar a luz que não atravessou a atmosfera e distinguir moléculas na mesma. Com base na intensidade do sinal é também possível ter uma ideia da sua concentração. Se se encontrar oxigénio molecular, metano ou dióxido de carbono (em concentrações consideráveis), bem como água, todas essas moléculas poderiam dar uma boa indicação da existência de vida, pelo menos como nós a conhecemos. Também por isso é importante medir o espectro infravermelho.
Tudo isto é ciência, que é o que me fascina mais. Mas gosto de olhar para as imagens e apreciá-las pelo que são (beleza única) e pelo que mostram. Quando comparamos as imagens tiradas pelo Webb com as imagens tiradas pelo Hubble, vemos a diferença na resolução (normal para um telescópio mais moderno e com um espelho consideravelmente maior) mas também no detalhe extra que permite observar graças à observação na região do infravermelho. As imagens abaixo ajudam a entender.

A imagem à esquerda é a do Hubble. À direita, a do Webb. Há várias galáxias (sim, muitos daqueles pontos são galáxias, não estrelas individuais) visíveis que não o são na fotografia do Hubble. Há ainda uma galáxia "repetida" na fotografia do Webb, acima e abaixo do centro. Isso acontece porque se encontrava quase exactamente por detrás do centro da imagem e a luz dela sofreu o que se chama de "gravitational lensing" (ou seja, o espaço que a luz atravessa é deformado pela gravidade dos objectos que se encontram no caminho, fazendo com que a luz não seja bloqueada mas passe "ao lado" desse objecto). Por causa desse efeito, a luz da galáxia passou por cima e por baixo (do nosso ponto de vista) na imagem para aparecer duas vezes na fotografia. Já agora, tecnicamente esta é a imagem do aglomerado de galáxias SMACS J0723.3–7327, mas mantive "deep field" por conveniência (e porque sou eu a escrever).

À esquerda a imagem do Hubble e à direita a do Webb. Note-se que a imagem do Webb é um compósito da imagem das duas câmaras, uma de "near infrared" (NIRCam) e a outra de "mid infrared" (MIRI) (deixo a procura de termos portugueses para quem o queira). Esta imagem do Webb não só tem imensos detalhes que a do Hubble (e que era já espantosa) não oferece, mas permite ver (na imagem MIRI) o buraco negro que está no centro da galáxia de cima na imagem. Tecnicamente não "vemos" o buraco negro, antes o disco de gás superaquecido em torno dele, mas é quase o mais próximo que se pode ver, especialmente a estas distâncias.

Hubble em cima, Webb em baixo. Aqui vemos claramente a vantagem de observar estes objectos em infravermelho. As nebulosas são normalmente vistos como "berçários de estrelas", são aglomerados de gases e poeiras que se vão concentrando por efeito da gravidade para depois darem origem a estrelas (e/ou planetas). Por serem nuvens, normalmente não é possível ver bem através delas mas, como indiquei acima, na região de infravermelho é possível fazê-lo e as imagens acima demonstram-no claramente, com todas as estrelas e/ou galáxias que se podem ver através da nuvem. Uma vantagem extra do Webb é a enorme resolução da imagem, que se pode ver nos contornos da nebulosa.

À esquerda Hubble, à direita Webb. A minha preferida. Poderia dizer muito sobre ela, mas a minha fascinação está na descoberta com a imagem do Webb que a estrela que se vê no centro na imagem do Hubble é na realidade um sistema binário. Isto não era visível na imagem do Hubble porque a luz de ambas as estrelas era apanhada de forma combinada. Com o Webb foi possível resolver a imagem e ver mais. Confesso que irei colocar esta imagem na parede de minha casa assim que possa.
Há muito mais que se pode dizer. Ainda falarei mais à frente sobre as descobertas usando o espectrómetro infravermelho do Webb e da importância que isso pode ter para a descoberta de planetas habitados ou habitáveis. Mas por hoje fico-me por aqui.

Há muito que não escrevo e não me vejo a retomar a escrita frequente no futuro próximo, mas não podia deixar de escrever algo sobre as primeiras imagens do telescópio espacial James Webb. A primeira imagem revelada, que encima este post, é "apenas" a imagem de maior resolução do Universo quando jovem (imagem de maior resolução e com possibilidade de fazer zoom aqui). Dizer que o Universo era jovem é algo relativo, já que a imagem é de um aglomerado de galáxias (no centro da imagem) como existiam há 4,6 mil milhões de anos, quando o Universo teria cerca de 9,2 mil milhões de anos. O Universo teria já uma aparência semelhante à actual mas, crucialmente, não estaria ainda sob a influência de Energia Escura. Não vou alongar-me com este tema, mas de acordo com o nosso conhecimento de Física e do Universo, a Energia Escura tornar-se-à (ter-se-à já tornado?) o mais importante factor na evolução do Universo. Importante no entanto é notar que uma das galáxias que se vêem na imagem aparece como existia há 13,1 mil milhões de anos, ou seja, apenas 700 milhões de anos depois do Big Bang (se o Universo fosse uma colecção de pessoas com 80 anos agora, estaríamos a ver a galáxia como se fosse uma criança de 4 anos).
O Telescópio Espacial James Webb (JWST na abreviatura inglesa) é um projecto com décadas e que demorou imenso tempo a ser completado e se atrasou no lançamento múltiplas vezes. A primeira vez que se discutiu um sucessor para o Hubble foi nos anos 80 mas os planos iniciais só começaram a sério nos anos 90, após o sucesso do Hubble. O desenho final só começou a ser verdadeiramente formulado em 2005 e a construção em 2007. Múltiplos desenvolvimentos tecnológicos foram incorporados e novas descobertas levadas em consideração. A construção foi altamente complexa, dado que era um objecto de enorme tamanho mas muito baixa massa, o que levava a que os elementos fossem difíceis de produzir e integrar. Isto levou a que a construção demorasse bastante tempo, incluindo todas as revisões dos desenhos e do projecto em si. Em 2016 a construção terminou e a fase de testes começou, a qual resultou em vários problemas que tiveram que ser corrigidos. Em 2019, a construção final do JWST como existe hoje terminou e os testes recomeçaram. Tudo isto contribuiu para o seu custo final de pouco menos de 10 mil milhões de dólares.
Após passar os testes, o JWST foi lançado para o espaço a 25 de Dezembro do ano passado e viajou até chegar ao seu destino, o Ponto de Lagrange L2, onde o efeito da gravidade da Terra e Sol, bem como a força centrífuga da rotação de um objecto neste ponto, se equilibram e permitem estabilidade de órbita. Este Ponto de Lagrange (há 5 no sistema Terra-Sol) foi escolhido porque está para lá da Terra, na extensão de uma linha imaginária do Sol à Terra. Este posicionamento permite bloquear muita da luz vinda tanto do Sol como da Terra, o que facilita a observação espacial. Durante a viagem, o JSWT iniciou a sua instalação completa (desdobrando e extendendo todos os componentes) incluindo os seus espelhos, necessários ao funcionamento, que foram colocados em posição e alinhados (num processo que demorou meses) ainda antes de chegar à sua órbita em torno do ponto L2 (a 24 de Janeiro deste ano). Depois disso foi necessário proceder a todos os testes de equipamento antes de chegar à imagem acima.
Neste momento vale a pena perguntar o porquê. Porque razão gastamos milhões (milhares de milhões) num telescópio para nos dar imagens? Numa câmara fotográfica, portanto. Claro que não é tão simples. Esta máquina fotográfica tem capacidade de medir a luz em comprimentos de onda que não eram possíveis até agora e nos dão a possibilidade de ver objectos que estavam escondidos até agora. No entanto sim, é uma máquina fotográfica. A resposta mais simples a esta questão é "porque sim". Porque queremos saber mais sobre o mundo e o Universo. Porque queremos entender o que nos rodeia. Pela mesma razão que Sócrates ou Aristóteles ou Descartes pensavam, porque queriam compreender. O alcance e o detalhe e a forma de compreensão é diferente, mas a natureza da questão não mudou. Porque queremos saber mais.
Há outras respostas que podemos dar, no entanto. John Keats falou sobre "Unweave(ing) a rainbow" ("desconstruir o arco-íris") para criticar os estudos de Isaac Newton sobre a natureza da luz, argumentando que ao se tentar explicar um fenómeno, a sua beleza, o deslumbramento que causa, se perdem. No entanto a resposta dos cientistas é que não só não se perde isso - um cientista pode apreciar a beleza de um arco-íris tal e qual qualquer outra pessoa - mas lhe acrescenta ainda mais beleza. Como não apreciar a beleza das fotos que o Hubble nos deu ao longo das suas décadas de serviço? Como não ficarmos ainda mais deslumbrados ao vermos as fotografias que o JWST nos deu quando estava simplesmente a ser testado? E ainda não partilhei aqui algumas das fotografias mais belas e as descobertas que nos trouxeram já. A beleza e o deslumbramento, a sensação do maravihoso que estas imagens nos trazem - me trazem - é inigualável. Não quer dizer que é a maior sensação de deslumbramento que já tive, mas nunca como esta. Já vi uma referência a esta notícia como sendo das poucas que podem causar um bem estar quase universal, tal como a missão Apolo XI (com as devidas ressalvas de importância) e não posso deixar de concordar. É um deslumbramento que transcende - deveria transcender - fronteiras e culturas. Isso em si já deveria bastar.
Mas vivemos num mundo materialista. Como tal podemos referir os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que foram certamente necessários para conseguir produzir esta maravilha da ciência e engenharia. Desde a ciência dos materiais, métodos de construção, novos instrumentos, novos robots para construção e montagem, métodos de análise (não só por parte do telescópio mas também para avaliar o próprio telescópio), etc. Já li algures que os nosso smartphones actuais devem quase tudo aos programas de exploração espacial. Desde as câmaras, aos hips, aos GPS, tudo isso foi desenvolvido graças a, ou para facilitar, os programas espaciais. Se hoje a SpaceX de Musk e a Blue Origin de Bezos podem competir com a NASA, isso deve-se ao trabalho de décadas dos prigramas públicos. O nosso mundo é em grande parte possível devido ao nosso desejo de conhecimento, à nossa sede de saber mais. À sensação de deslumbramento que olhar para cima nos trás.
Porque razão gastar 10 mil milhões numa câmara fotográfica? Porque podemos recuperar esse investimento com tudo o que desenvolvemos. Porque podemos saber mais. Porque podemos ser deslumbrados, mais uma e outra vez. Para mim, esta última basta.
Nota: provavelmente terei erros ou imprecisões na informação acima. Não é a minha área de conhecimento, sou apenas um apaixonado pela ciência. Agradeço quaisquer correcções nos comentários.
Como será do conhecimento geral, na semana passada a Alemanha, a Bélgica e a Holanda sofreram chuvas intensas que levaram a inundações causando imensos danos e várias mortes. Estas inundações foram bastante intensas também na região onde vivo, sul de Limburg, onde fica Maastricht. Felizmente nada sucedeu no meu caso. O rio Maas subiu bastante, o passeio pedonal alo lado do rio ficou inundado, mas isto é também a intenção da sua existência, dado que existe mais uma barreira antes que atinja a rua. O local onde vivo fica a cerca de 50 metros do rio, mas o único risco que corri foi uma inundação da garagem pública onde deixo o carro.
Não foi assim em todo o lado. Em Maastricht 3 bairros tiveram que ser evacuados por receio de inundações depois de um dique ter ficado com um buraco. Segundo entendo, acabou por não haver problemas e as pessoas puderam regressar a casa depois de menos de 24 horas. Um pouco mais a norte houve outras roturas de diques que causaram inundações de algumas aldeias, onde os danos foram mais substanciais. Perto de Maastricht, em Valkenburg, uma vila muito popular para turismo na Holanda, o rio subiu imenso e inundou parte da localidade, causando danos a muitos cafés, restaurantes, lojas e várias residências.
Claro que isto não foi nada comparado com a Alemanha e Bélgica. Na Bélgica uma amiga teve as águas a parar a 10 metros de casa. Outra família de amigos teve de evacuar por dois dias enquanto esperavam. Felizmente voltaram para casa sem mais que um pequeno filme de água na garagem, sem danos importantes. Na Alemanha, uma colega teve sorte na aldeia onde vive porque tem a casa numa elevação, mas ficou sem água, luz e gás por 3 dias. E foi quem teve sorte, pois vários vizinhos ficaram sem casa. Ela tem agora em casa dela uma família de amigos, incluíndo um bebé de 10 meses, que ficou na prática sem casa, dado que a água rompeu pela parede do 1º andar e levou quase tudo, inclusive os que havia nos quartos. Várias pessoas morreram, presas nas caves e garagens (a tentar salvar pertences) e muitas outras estão desaparecidas (certamente que haverá mais mortes). Outro colega está desde quinta feira a "viver" num pavilhão porque a água atingiu metro e meio no rés do chão e ainda não recuou o suficiente.
E há ainda as muitas pessoas que morreram noutras zonas da Bélgica e, especialmente, da Alemanha. Parte do problema foi que o sistema de prevenção e comunicação não funcionou (as autoridades irão diagnosticar as falhas durante meses) e não se tomaram as medidas necessárias a tempo. Algo que não se pode dizer com certeza é que estas chuvas foram resultado das alterações climáticas. Houve vários aspectos que tiveram que suceder para estas chuvas acontecerem da forma que aconteceram, nomeadamente a acumulação de humidade no ar, a permanência das nuvens sobre uma região deliminatada durante muito tempo, etc, mas é impossível, pelo menos para já, dizer com elevado grau de certeza que estas cheias específicas foram resultado das alteações climáticas (AC) causadas pelo aquecimento global (AG).
Isto é porque certos eventos não podem ser relacionados especificamente com certas causas. Da mesma forma que não se poderá necessariamente apontar uma estrada deteriorada como causa de um acidente (o condutor poderá não tomar atenção, o carro poderá ter travões em mau estado, poderá haver excesso de velocidade e/ou álcool, um acontecimento imprevisto, etc), um evento meteorológico não pode ser apontado como consequência de uma situação climática. No entanto há já muito que se apontam chuvas intensas mais fortes e frequentes (causando inundações) como uma das consequências das ACs. Há várias causas, mas uma delas é que o aumento das temperaturas levará a um aumento evaporaçã e da capacidade do ar para absorver humidade, o que faz com que quando as chuvas sucedam, sejam mais intensas. Este mês de Junho foi o mais quente na Holanda desde que há registos.
Aquilo que esta situação está a fazer pensar é que as consequências que os cientistas previram para começar por meio do século XXI não estarão já a aparecer. Sejam estas chuvas na Europa, sejam as ondas de calor na América do Norte e norte da Rússia. Isto poderá indiciar que o complexo sistema que é o clima da Terra já estará desestabilizado o suficiente para causar já eventos extremos. Isto é algo que é comum ver em sistemas complexos, sejam eles de que tipo forem. Quanto maior for o sistema, maior pode ser a variação em relação ao ponto equíibrio quando este desaparece. Isto poderá estar agora a acontecer. Durante muito tempo, os oceanos absorveram grande parte do calor e do CO2 que foram gerados pela nossa actividade. Se atingiram a sua capacidade máxima de absorção, a energia poderá agora estar a ser libertada novamente e, se isso suceder, teremos talvez os chamados feedback loops em que cada nova consequência poderá ampliar o problema (exemplo: derretimento de permafrost na tundra canadiana ou siberiana libertando metano que vai exacerbar o efeito de estufa).
Vi várias vezes duas opiniões qeu acabam no mesmo: i) que a catástrofe deveria ter sido evitável, e ii) que estas situações não deveriam acontecer em países desenvolvidos (como Alemanha, Bélgica e Holanda). Que a catástrofe poderia ser evitável, parece claro. Acidentes podem sempre aocntecer, mas melhor coordenação evitaria pelo menos a perda de vidas e talvez muitos dos danos. Já que estas situações não deveriam acontecer nos países desenvolvidos é mais complicado. A Natureza acaba sempre por poder sobrecarregar quaisquer medidas que tomemos. A Holanda, mesmo com a sua maravilha de engenharia que são as Deltawerken, poderá um dia ser esticada para lá do seu limite. Não é preciso ir para o Burundi ou as Honduras para descobrir desastres naturais. E, co o caminho que o planeta está a seguir, esses serão cada vez mais parte do dia a dia.
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Esta história deve ser lida e relida.
Nestes tempos em que temos o desassossego por companhia, em que as más notícias nos rodeiam por todos os lados e em que é fácil nos sentirmos perdidos, vale a pena ler e celebrar o que aconteceu na secção de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria.
Desde a primeira contaminação Covid da família, até ao momento actual, nada teria sido possível sem um profundo sentido de humanidade, com especial destaque para os profissionais médicos envolvidos. Não que duvidássemos do sentido de missão e de devoção pelo outro que move, e durante uma pandemia mais do que nunca, um exército de devotados servidores da medicina, mas se há histórias que merecem ser celebradas, esta é uma delas.
Estava há uns dias, juntamente com um amigo, a explicar a passagem para o Inverno a uma criança, quando o meu amigo descreveu as mudanças de estações como sendo resultado de o nosso planeta passar meio ano a aproximar-se do Sol e meio ano a afastar-se dele. Esta frase não é errada, mas não explica as estações, e fez-me lembrar como durante grande parte da minha vida, mesmo depois de eu compreender qual a razão para a existência de estações, eu continuei a ter na cabeça essa definição.
Foi muito cedo ao na minha vida escolar que eu aprendi que o Sol tem dois pontos na sua órbita em que está mais afastado e Sol (penso que se chama afélio em portuguêsn, ou aphelion em inglês) e dois pontos em que está mais perto (periélio, ou perihelion). Por causa disto e do conceito de as estações serem resultado da órbita em torno do Sol, é muito fácil pensar nelas como resultado da distância. Infelizmente é errado.
O problema começa porque apesar de haver de facto uma diferença na distância ao Sol, esta é muito pequena entre o afélio e o periélio e completamente insignificante no que diz respeito a estações. No afélio, a Terra está a cerca de 152 milhões de km do Sol. No periélio está a 147 milhões de km do Sol. A diferença de distência entre as duas posições pode parecer grande (cerca de 5 milhões de km) mas representa apenas 3% de diferença entre elas. As representações esquemáticas que vemos nos livros infelizmente transmitem a ideia errada, quase como se a diferença fosse o dobro (veja-se o exemplo abaixo).

O primeiro problema que deveria existir com esta visualização seria o mais óbvio: os períodos em que a Terra está mais afastada correspondem também ao início do Inverno e do Verão. Os momentos em que está mais próxima correspondem ao início de Outono e Primavera.
Isto significa que essa diferença de 3% na distância não é significativa para as mudanças de estação. É antes a quantidade de exposição solar que faz a diferença. Como toda a gente sabe, a Terra tem uma inclinação em relação ao seu eixo orbital de cerca de 23° (tive de ir ver o valor exacto, não me lembrava). Isso significa que a quantidade de radiação solar que atinge um local específico na Terra durante um dia vai mudando ao longo do ano. por outras palavras, o dia é mais longo ou mais curto. Isso significa que a quantidade de energia que uma região (para o caso, hemisfério Norte ou Sul) recebe é maior no período perifélio a perifélio em que está mais exposto ao Sol.
É essa radiação extra dependente do tempo e não da distância, que faz a diferença. O hemisfério recebe mais energia, aquece a atmosfera (e os Ocanos, que são enormes reservatórios de energia) e muda o clima.
Estes pontos não são óbvios para uma criança e foi o problema que tive ao mostrar um livro com uma ilustração muito semelhante à de cima. As distâncias estão tão mal representadas e são tão mal elaboradas que as crianças não compreendem porque razão não influenciam o clima. É o mesmo problema que teríamos com a distância da Terra à Lua. Se dissermos a alguém que imagine a Terra do tamanho de uma bola de basquetebol e imagine, nessa escala, a distância a que está a Lua (do tamanho de uma bola de ténis), a maioria responderá com distâncias mais ou menos do comprimento do braço. No entanto, a Lua estaria a mais de 7 metros de distância. As distâncias reais são difíceis de transmitir.
Faço esta reflexão, talvez pela milésima vez (não estão todas no blogue) para comentar o estado da educação científica. Não só a forma como a educação científica é algo desprezada quando falamos de cultura geral (o que leva a muitas incompreensões, como na actual pandemia), mas também na forma como é apresentada, com aproximações que não ajudam à compreensão real daquilo que se quer descrever.
Este tema (cultura científica), é um onde já me debrucei no passado. Podem ler alguns dos posts aqui. No que diz respeito às distâncias e às estações, desta vez a criança entendeu (e o meu amigo compreendeu a dificuldade), pelo que só posso considerar-me satisfeito. Uma pessoa de cada vez.

Recentemente a SpaceX tornou-se a primeira empresa privada a enviar seres humanos para a Estação Espacial Internacional (ISS). Foi um feito que abre as portas a uma nova era de exploração espacial, onde certo tipo de operações poderá passar para a mão de privados e libertar a NASA (e outras agências públicas) para se concentrar em objectivos mais científicos e menos mundanos e reduzir o custo das operações de suporte (a SpaceX, bem como Blue Origin e outras, fazem os seus lançamentos a custos bem mais baixos que a NASA, ESA ou Roscosmos).
No entanto, o objectivo declarado de Elon Musk, o principal responsável pela SpaceX (e várias outras empresas), é o de levar seres humanos a Marte e criar lá as primeiras colónias. É um objectivo admirável e que um dia será possível, mas quando penso nele a longo prazo, penso que há um erro de cálculo no conceito de Marte como "nova casa" para os seres humanos.
Marte é um planeta com cerca de 53% do tamanho da Terra e apenas 10% da massa do nosso planeta. A atmosfera de Marte tem apenas 0,6% da pressão da da Terra e é composta em 95% de dióxido de carbono. A atmosfera está directamente relacionada com a massad o planeta, dado que a sua espessura depende imenso da gravidade que o planeta exerce. A nossa atmosfera não existe por haver alguma barreira por cima do nosso planeta que evita que os gases escapem. Tal como nós próprios, os gases que compõem a nossa atmosfera mantêm-se presos ao planeta porque a gravidade não os "deixa" escapar. No caso de Marte, tal não é possível.
Com esta pandemia do Covid-19, vulgo Coronavirus, tem havido muita confusão, especialmente no que respeita à ideia que existe exagero na forma como se está a lidar com a situação e ao pânico ou pseudopânico que se tem gerado com a situação. Um dos problemas é porque a mensagem ou não está a ser correctamente transmitida ou está mal adaptada para o público em geral.
Há um risco considerável para a população em geral com o Covid-19? Sim, e é por isso que se tomam determinadas medidas. Há um risco considerável para cada indivíduo? Não. Há um risco acrescido relativamente à gripe sazonal (ou gripes sazonais, não existe uma gripe sazonal), mas é relativamente pequeno e normalmente específico para pessoas com problemas de saúde pré-existentes. A grande maioria parte das pessoas ou não terão sintomas, ou terão sintomas iguais às de outras gripes, ou terão sintomas mais chatos mas sem necessidade de qualquer tratamento adicional, apenas um período mais prolongado de recuperação do que o normal.
Porquê então estas medidas? Existem duas razões, interligadas, semelhantes, mas um pouco diferentes.
![5650278_2tELh[1].jpg 5650278_2tELh[1].jpg](https://fotos.web.sapo.io/i/Be418ac5e/21663081_iU0yU.jpeg)
Um dia hei-de perguntar a alguém com muito mais experiência e muito mais memória do que eu - ao professor Galopim de Carvalho, por exemplo - se o fim da Idade do Gelo, há 12 mil anos, também se deveu às emissões de metano e dióxido de carbono.

Em 2016 candidatei-me a uma bolsa de doutoramento, desta Fundação para a Ciência e a Tecnologia. A então nova direcção mudara os requisitos para as candidaturas: exigia a gente como eu, com "licenciaturas pré-Bolonha" e sem mestrado, que apresentasse um documento da universidade "doutoradora" a comprovar a admissibilidade do candidato. Sem especificar que órgão académico devia exarar esse documento. Assim fiz. E a candidatura foi recusada, nem sequer avaliada, com o argumento que não fora suportada com um documento proveniente do órgão académico adequado.
Contestei essa anulação, com um recurso. Argumentei que a) o regulamento era omisso nesta matéria, não especificava qual o órgão que deveria comprovar a adequação do perfil do candidato; b) a opção sobre quem deveria produzir tal documento havia sido da universidade, estatal, decerto que mal informada pela própria FCT.
Ou seja, reproduzi o velho "vocês que são brancos que se entendam" ("brancos" significando mesmo os "brancos" de hoje, os funcionários públicos). Em alguma coisa se devem ter entendido, pois o regulamento de candidaturas para os concursos seguintes foi logo alterado, passando a especificar que órgão académico deverá produzir este tipo de documento. Alteração que comprova a insuficiência anterior, fruto da incipiente mudança regulamentar desta nova direcção da FCT.
Recebi agora, dois anos e tal depois (eu já noutra vida), um email assinado por um tal de Paulo Ferrão, funcionário público presidente daquele organismo estatal, a dar-me resposta ao recurso. Que não tenho qualquer razão, diz. E que se quiser protestar que vá para tribunal. Ou seja, nem o regulamento que ele aprovou estava mal feito. Nem os seus colegas estavam distraídos. O morcão sou mesmo eu.
Note-se, o tal de Ferrão esperou mais de dois anos para me dizer isto. Mas aquilo que me ofende mesmo é que no final do email o homem ainda mandou escrever "cumprimentos". O tipo, após mais de dois anos, ainda tem o desplante de me saudar ...
A minha filha pede/exige que eu não escreva palavrões no FB/blog, e a minha irmã secunda-a. Assim o faço. Mas é claro que os murmuro. Daqueles bem peludos, aludindo às imorais e nada higiénicas ascendências destes gajos.
Os prémios Nobel científicos estão atribuídos e aquele que me salta de imediato à vista é o da Química, atribuído a Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter. O trabalho deles foi dedicado à evolução controlada (directed evolution) de enzimas no caso de Arnold, e de modificação genética de fagos (phages) no caso de Smith e Winter. Metade do prémio foi para Arnold, o que me parece da mais pura justiça quando se olha pra o enorme campo de aplicações que a tecnologia tem, embora a parte do trabalho de Smith e Winter, com aplicações na medicina, talvez acabe com mais atenção.
O trabalho de Arnold permitiu controlar a evolução de enzimas (proteínas especiais capazes de catalisar - isto é, acelerar, ou iniciar em condições adversas - reacções químicas) para gerar propriedades que de outra forma não seriam possíveis de encontrar. A forma como controlou a evolução foi com a introdução de mudanças genéticas aleatórias e posteriormente mantendo as enzimas cujas mutações genéticas levaram a propriedades úteis. Isto é comparável à analogia das slot machines onde é possível manter certas rodas em posições fixas (como quando se obtém cerejas, estas não mudam mais, até termos a sequência desejada).
No caso, o que Arnold fez foi, por exemplo, partir de uma enzima que pudesse catalizar uma reacção específica (de X com Y, por exemplo) e ir introduzindo mudanças interessantes. Podia então tornar a enzima estável em solventes orgânicos (as enzimas são habitualmente estáveis em água) e dando-lhe eficiência superior a temperaturas mais baixas. Assim seria possível eliminar o uso de catalisadores inorgânicos, frequentemente muito caros e ambientalmente adversos e catalizar a reacção a temperaturas mais baixas. A quantidade de aplicações desta tecnologia é infindável.
O trabalho de Smith e Winter teve duas partes. Os fagos são uma espécie de vírus para as bactérias, ou seja, invadem as bactérias e obrigam-nas a gastar os seus recursos a produzir cópias dos fagos, assim destruindo a bactéria e perpetuando o ciclo. O que Smith fez foi descobrir como mudar o material genético do fago para produzir determinadas proteínas à sua superfície. Isto permitiu usar os fagos para identificar qual a relação entre genes e proteínas cuja produção codificam (isto é, de certa forma descobriram quais eram os genes que tinham a "receita" para cada proteína). Isto é fundamental para a compreensão dos nossos "códigos genéticos".
Como estas proteínas são produzidas à superfície do fago, Winter levou-o um passo mais à frente e usou a tecnologia para produzir anticorpos específicos. Os anticorpos são como que detectores moleculares altamente específicos. Um anticorpo que encontre o seu "alvo" ligar-se-à ao mesmo e não o largará. Se os colocarmos na superfície de um corpo (seja uma célula, seja um nanotubo, por exemplo) o anticorpo capturará o seu alvo de forma controlada. São usados em cromatografia de afinidade para retirar componentes tóxicos específicos de líquidos (por exemplo na purificação de medicamentos na indústria farmacêutica).
O que Winter fez foi usar a tecnologia para colocar anticorpos específicos na superfície dos fagos para determinar quais os anticorpos que poderiam ser usados para fazer terapias específicas para tratar, por exemplo, doenças autoimunes ou cancros. Isto permitiu desenvolver medicamentos muito mais eficazes, porque muito mais específicos na forma como seleccionam os seus alvos. Na quimioterapia, o objectivo no passado foi o de introduzir venenos (é o que os medicamentos de quimioterapia são) para matar as células cancerosas esperando que estas morressem mais depressa que as saudáveis. É por isso que os pacientes sofrem imenso durante a terapia e é também por isso que algumas terapias não funcionam (o paciente aguenta menos o veneno que o cancro). A técnica de Winter permite reduzir o impacto ao tornar o veneno mais selectivo.
Há alturas em que o prémio Nobel da Química celebra descobertas fundamentais (no seu sentido mais... "fundamental"). As que hoje foram laureadas contemplam aplicações vastas e com enorme impacto no mundo. Como engenheiro químico, este é um prémio cuja atribuição facilmente subscrevo.
PS - quaisquer imprecisões ou erros na informação prestada acima são minha responsabilidade. Se detectarem imprecisões, ficarei agradecido caso mas indiquem para corrigir o texto.
“Should we or shouldn't we be allowed to modify human DNA in future children?”
É com esta pergunta que a BBC News introduzia um artigo publicado há uns dias no seu site sobre as fronteiras morais e éticas ao exercício da engenharia genética na alteração de embriões humanos. No fundo, estamos a falar da edição do genoma humano para condicionar/alterar o ADN de uma futura criança, o que na prática significa que, pela primeira vez na história da Humanidade, um bebé poderia potencialmente nascer com características genéticas que não fossem fruto do livre arbítrio, mas da vontade dos seus progenitores. Ou seja, estaríamos perante um novo mundo, o tal mundo pós-Humano de que Francis Fukuyama e outros autores falaram, dando-se assim início a uma nova História. Uma história pós-Humana.
Acredito que esta problemática, com as suas diversas implicações éticas, políticas, sociais, morais e religiosas, será uma das questões mais fracturantes num futuro próximo e, por isso, me debrucei sobre o tema no livro “A Política e o Homem Pós-Humano”[1]. O livro acabou por ser a extensão da minha dissertação de mestrado em Ciência Política, coordenada por um dos mais ilustres sociólogos nacionais e internacionais, o já falecido Hermínio Martins (Maputo, 1934 – Oxford, 2015), que durante décadas se dedicou ao pensamento destas matérias. Praticamente um desconhecido em Portugal, gozava de uma reputação de excelência no estrangeiro, ao ponto de o The Independent escrever no seu obituário o seguinte: “The death of the Portuguese-British sociologist Hermínio Martins will be mourned by social scientists internationally, impressed by his extraordinary erudition and the subtlety of his irony.”
Hermínio Martins foi Professor Emérito do St. Anthony’s College, da Universidade de Oxford, onde desenvolveu parte da sua carreira, tendo anteriormente estudado com Karl Popper e Ernest Gellner e mais tarde trabalhado com nomes de referência da sociologia mundial, tais como John Rex, Talcott Parsons, Seymour Martin-Lipset ou David Riesman.
Motivado pelo estímulo intelectual do “mais filósofo dos cientistas sociais portugueses”, como escreveu António Guerreiro no PÚBLICO por altura da sua morte, comecei a compreender em toda a plenitude o alcance das repercussões futuras da bioengenharia e da biotecnologia nas sociedades vindouras. “Da reprodução de órgãos geneticamente iguais à possível criação de um ‘super-homem’, a sociedade encontra-se no centro de um debate que, embora ainda tímido nalguns Estados e até ausente noutros, ganha protagonismo na agenda política”.[2] Percebi também que “quando Francis Fukuyama falou no ‘Fim da História e no Último Homem’, apropriando-se de uma concepção determinista recorrente, admitiu mais tarde que a génese da destruição da sua tese se encontrava precisamente nas novas biotecnologias. A possibilidade de um ‘outro eu’, produto do Homem e não do livre arbítrio, faria emergir um mundo pós-humano, dando-se, assim, início a uma nova História”.[3]
É um possível cenário futuro sobre o qual devemos reflectir e estar atentos, até porque o passado tem demonstrado o princípio da inevitabilidade do progresso científico, não obstante a tentativa de forças conservadores se baterem pela manutenção do status quo em determinados períodos históricos de ruptura nos modelos de pensamento.
A notícia da BBC News aqui citada, que se junta a tantas outras, mas que para já não captam a atenção para os debates mais massificados, vem precisamente reforçar essa ideia, ao citar um estudo divulgado há dias pelo Nuffield Council on Bioethics, uma entidade independente britânica sobre políticas públicas no âmbito das questões éticas em biologia e medicina. Para aquele organismo, não há qualquer razão impeditiva para que a engenharia genética não possa ser aplicada nos embriões humanos, apesar das implicações para a sociedade serem “extensivas, profundas e a longo prazo”. É importante relembrar que no Reino Unido, à semelhança do que acontece noutros países, este tipo de investigação genética só é possível (quando o é) em embriões criados para fertilização in vitro que não foram utilizados, os chamados embriões excedentários. Nesse mesmo texto da BBC News fica evidente o confronto ideológico e ético das várias correntes, com os mais conservadores a criticarem aquilo que chamam de um “abrir portas” aos “designer babies” e os mais progressistas a enaltecerem as virtudes da ciência. É um debate que se tem feito desde há uns anos a esta parte, cada vez com mais intensidade sobretudo nos Estados Unidos.
Poderá não ser para um futuro muito próximo, mas “as novas biotecnologias poderão ainda fazer chegar o dia em que nascerá o primeiro ’homem’ feito à medida da vontade de um seu semelhante. Da cor dos olhos e do cabelo, ao valor do QI, passando pelo sexo da criança ou pelo nível de agressividade das suas emoções, tudo será possível manusear como se fosse uma encomenda por catálogo”.[4]
Uma problemática que há muitos anos Hermínio Martins explorou nos seus estudos e reflexões no âmbito da “civilização tecnológica e condição humana”, antecipando claramente o futuro ao considerar “que “as biotecnológicas não buscam meramente facultar melhoramentos cosméticos e mais próteses para organismos humanos e não humanos, mas criar novas formas de vida. De todas as tecnologias contemporâneas é talvez a biotecnologia a que tem uma vocação mais decisivamente ontológica. O seu horizonte inclui a criação de novas formas de vida orgânica como resultado de modificações genéticas, englobando transferências genéticas entre espécies e potencialmente o derrubar das fronteiras entre espécies biológicas naturais – enquanto a evolução tanto orgânica como inorgânica tinha sido na generalidade adversa a mesoformas e, na verdade, um princípio geral de instabilidade das mesoformas foi enunciado por muitos filósofos naturais tais como Fraser (1982). As formas de vida artificiais iludem as fronteiras naturais e os limites da evolução biológica ‘normal’”.[5]
Pela primeira vez na sua História, o Homem detém tecnologia que poderá ter consequências “na definição e na concepção/adulteração do Homem biológico, tal e qual o conhecemos há milhares de anos, e, consequentemente, na forma de como a Humanidade olhará para ela própria. As novas biotecnologias abrem assim uma imensa porta para admiráveis mundos novos, que permitem vislumbrar sociedades mais próximas da utopia, onde as pessoas podem viver para lá dos 110 anos, auto-regenerando-se com os seus próprios órgãos geneticamente compatíveis, desafiando as leis naturais que têm imperado até hoje: a ausência de qualquer flagelo degenerativo ou a erradicação da dor e da doença. Tal modelo de sociedade será, à primeira vista, o procurado por todas as pessoas de bom senso, sobretudo quando nos dias que correm tantos desafios há a vencer, mas como as utopias positivas e negativas têm revelado através do trabalho intelectual de muitos autores, a busca da perfeição pressupõe quase sempre alterações drásticas de comportamentos sociais e humanos”.[6]
A pergunta com que iniciámos este texto deve merecer uma reflexão séria, porque algo de novo se começa a vislumbrar no percurso da Humanidade, já que estão a ser criadas condições para a ruptura entre os mundos Humano e pós-Humano.
[1] GUERRA, Alexandre – A Política e o Homem Pós-Humano, com prefácio do Viriato Soromenho-Marques e texto de contra capa de José Manuel Durão Barroso (Lisboa: Alêtheia, Novembro de 2016)
[2] Idem. pág. 16
[3] Idem, ibidem
[4] Idem, pág. 174
[5] MARTINS, Hermínio – Experimentum Humanum (Lisboa: Relógio D’Agua, Maio de 2011), pág.28 págs. 165 e 166
[6] Ob. Cit. – A Política e o Homem Pós-Humano, pág. 173
Publicado originalmente no Observador