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Intercâmbio colonial

por Paulo Sousa, em 31.01.20

Já aqui falei da simetria do Livre, agora da Joacine, e do Chega.

Perante a inação dos partidos moderados, que têm responsabilidades de moderação, estes dois partidos comportam-se como adolescentes. Regularmente geram cabeçalhos, aspergindo o espaço público com fricções que agitam o instinto gregário da natureza humana e a que não reagimos uniformemente. 

Pela ocupação do espaço público, Joacine e Ventura acreditam que terão benefícios de curto prazo, o que até pode ser verdade mas, como já aqui defendi, dificilmente os dois serão beneficiados na mesma proporção.

A relação de Portugal com os territórios que, mal e bem, colonizou, foi sempre biunívoca. Muito se trouxe mas também muito se deu e muito de nós lá ficou.

É uma repetição habitual dizer-se, e é um facto, que se não fossem os portugueses teriam sido outros a ocupar aqueles espaços. Uns geriram melhor que nós e outros muito pior. Nisto, como em quase tudo na nossa história, raramente fomos excelentes, e poucas vezes fomos péssimos.

Nesses territórios, agora países, deixámos um legado que será certamente preservado e refiro-me, por exemplo, às respectivas fronteiras. Milhares de portugueses daqui partiram, por lá viveram, combateram e morreram, para ajudar a definir os traçados dos territórios que agora são o chão pátrio destes países com que estaremos sempre irmanados. Pontualmente, os territórios poderão não coincidir com as divisões étnico-geográficas que facilitariam a criação de uma identidade própria imediata de um estado-nação nos moldes actuais, mas tendo sido a respectiva independência posterior à definição da unidade geográfica, podemos legitimamente assumir este legado.

Além disso, a língua de Camões é uma ferramenta de comunicação válida e efectiva no mundo global, com a espessura técnica e científica que nenhum dialecto regional ou tribal poderia proporcionar. Também pela língua que partilhamos, sempre estaremos irmanados.

Especificamente sobre devolução das obras de arte gostaria de questionar Joacine se acha que a arquitectura, enquanto abordagem artística sobre as circunstâncias, pode ser incluída na sua proposta.

Nesse sentido proponho-me a criar aqui uma pequena rúbrica com sugestões para a troca que Joacine sugere.

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Ponte pensil sobre o Rio Tete - Moçambique

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Ponte Samora Machel sobre o Rio Tete - Moçambique

Obra assinada pelo Prof. Edgar Cardoso

A importância dos pequenos partidos.

por Catarina Duarte, em 09.12.19

Julgo que falo por todos, quando digo que estamos cansados do mesmo poder político de sempre, aquele que gira sempre entre as mesmas duas grandes forças, que faz deambular sempre os mesmos rabos que circulam sempre entre as mesmas cadeiras, sempre vestidos nos mesmos fatos cinzentos, sempre o mesmo cinzento, sempre os mesmos.

Parece-me que posso arriscar mais um pouco e dizer que estamos todos fartos das mesmas políticas e politiquices, dos cargos que se criam para dar lugar a mais um tio, das inaugurações que se fazem quando a obra ainda não começou e dos impostos que se baixam para aumentar outros, aqueles mais escondidos, aqueles que nos criam a ilusão de estarmos com mais dinheiro no bolso quando, na verdade, estamos apenas perante uma das maiores cargas fiscais de sempre.

Ora ligeiramente mais para a direita, ora mais a cair para a esquerda, a verdade é que está tudo minado de jogos e jogatanas feitos por quem está dentro do circuito há muitos, muitos anos, e tem a habilidade de tornar sempre tudo meio transparente aos olhos daqueles que pagam e não piam e que, em óptimo rigor, somos todos nós.

Ainda muito antes de ler este texto, cuja leitura recomendo, já era da opinião que hoje partilho: é muito bom haver outros partidos com assento parlamentar. À esquerda, à direita, ao centro, não interessa onde. Quanto mais diversificada for a bancada, melhor: mais conversa e mais debate. O que interessa é que estes partidos vêm mexer no sistema, agitar as águas, levantar as lebres e, talvez mais importante, enervar os mesmos de sempre, os que estão completamente acomodados ao cargo, com a cadeira já completamente moldada ao formato do rabo que nela se senta.

Vêm, finalmente, fazer uma oposição diferente, que toca na ferida e que deixa, os partidos de poder, desconfortáveis. Sempre soube qual era a razão pela qual as contribuições sociais pagas pela empresa não aparecem nos recibos de vencimento mas agora está lá alguém a perguntar, a questionar e a deixar todos meio incomodados com uma pergunta tão simples. Porque, na verdade, não há uma boa razão para não constar esta informação nos recibos.

Ideologias à parte, devíamos ser todos pelo dever da informação e da transparência e isto que a Iniciativa Liberal propõe, não é mais do que deixar preto no branco uma parte do que as empresas pagam por terem trabalhadores (porque faltam outras).

Podemos até não ter votado Iniciativa Liberal, Chega ou Livre mas não podemos acreditar que, com a entrada deles, vai ficar tudo na mesma. Porque não vai. E ainda bem.

Duas faces do autoritarismo

por Paulo Sousa, em 05.11.19

aqui falei sobre o paralelismo entre o Chega e o Livre, dois dos recém-chegados ao Parlamento. Acrescento aqui algumas notas pessoais sobre a forma como estão ligados.

Estes dois novos partidos são, um à esquerda e outro à direita, equidistantes do centro moderado. Cada episódio que protagonizam gera ondas de indignação. Os simpatizantes do Chega levam as mãos à cabeça com as performances parlamentares de Joacine Katar Moreira e por seu lado sempre que André Ventura usa da palavra os apoiantes do Livre rasgam as vestes. Este pingue-pongue mediático entre André e Joacine é um jogo de ganho duplo, por se repetir sempre o efeito multiplicador de notoriedade que é benéfico aos dois.

Tal como as duas faces de Janos, estes dois novos partidos são as faces do que poderiam ser dois governos igualmente autoritários, racistas e de dedo em riste. Os assuntos que abordam assentam em preconceitos e trazem sempre proibições e penalizações na segunda frase. Pela indignação que geram, tentam dividir o público entre bons e maus, modernos e retrógrados, decentes e alucinados.

Apesar desta simetria permito-me antever um maior crescimento do Chega. Espero que nunca venha a conseguir atingir a meta assumida de se tornar o maior partido português, mas já ouvi relatos de que nos cafés os clientes pedem para aumentar o volume para ouvir o André Ventura e ao mesmo tempo, imagino, que o mesmo público peça exactamente o contrário quando chega a vez da Joacine Katar Moreira discursar.

Será que o arrojo de Rui Tavares não o tornou refém da sua deputada? Que motivo poderá alegar no dia em que desejar que o partido transmita uma mensagem através de frases claras e escorreitas? Quem não simpatiza com o Livre poderá dizer que isso nunca acontecerá, pois o que o Livre deseja mesmo é esconder o seu ideário atrás de uma quase intransponível cortina comunicacional. Enquanto que André Ventura acumula o papel de fundador e único protagonista do Chega, Rui Tavares remeteu-se a figura secundária do partido que criou, o que não cola com a sua imagem de maratonista solitário.

André Ventura cria por vezes a sensação de que está a representar o boneco que desenhou à medida de um nicho de eleitorado sem representação política, que identificou e adoptou. Parece ter feito como as empresas que recorrem ao marketing para adequar a sua oferta ao mercado a que se dirige. O teor da sua tese de doutoramento é bem mais moderado do que tudo o que agora defende e isso alimenta esta ideia.

Apesar de haver quem ache este partido assustador, não posso deixar de me rir sempre que me lembro do mote do seu programa político intitulado “70 medidas para reerguer Portugal”. Quando é que Portugal esteve erguido? Que período histórico serve de referência a esta ambição? Na minha terra diz-se nesses casos: Não estejam a gozar com a miséria!

Seja qual for a evolução que venham a ter no futuro, nesta fase de lançamento ambos os projectos, o Chega e o Livre, beneficiam da existência um do outro. O que dos dois crescer menos arrisca-se a ficar para a história como o fertilizante do seu rival. O meu palpite é que será o Chega a ultrapassar o Livre.

Após as eleições legislativas do passado dia 6, fomos confrontados com algumas novidades, das quais destaco os novos partidos que pela primeira vez elegeram deputados. Falo do Chega, do Livre e o do IL.

A representação de cada um deles no hemiciclo de São Bento é limitada mas cada um representa novas e diferentes abordagens da realidade, com que naturalmente iremos ser confrontados.

Estes três partidos têm características em comum e outras que os distingue. Cada qual à sua maneira representam duas visões do mundo.

Num dos lados desse mundo estão aqueles que acreditam que uma pessoa vale pelo que é, pela forma com que enfrenta o mundo, pela forma como se relaciona com os demais, pela capacidade de dar e pelo que aceita em troca disso. Acham também que cada ser humano tem um potencial de acrescentar coisas boas ao mundo e por isso deve ser tido em consideração pela pessoa que é. Lidar com um desconhecido de acordo com esta abordagem é exigente e trabalhoso. Mais fácil seria classifica-lo pelo grupo em que o poderíamos encaixar. E essa é a abordagem alternativa. Essa é a abordagem que classifica o indivíduo de acordo com uma caracterização pré-definida e que dessa forma lhe rouba a individualidade. No fundo é uma abordagem preconceituosa, e o preconceito é um atalho de raciocínio que simplifica e poupa o esforço necessário à avaliação e ao conhecimento do outro. Tem um elevado potencial de criar erros de avaliação e por isso de impedir a realização pessoal das vítimas destas avaliações errôneas. No momento seguinte é a sociedade que fica a perder pela ausência do benefício que as vítimas destes preconceitos poderiam acrescentar aos seus pares.

Esta segunda forma de estar na vida, e também na política, é preguiçosa, é injusta e racista.

Para o Chega e para o Livre o indivíduo é menor que o grupo a que pertence e por isso não deve ser avaliado pelo que é. Um e outro dizem representar grupos em contraponto com outros grupos de uma forma em que é difícil encontrar pontes de entendimento.

Pelo contrário o IL, e o liberalismo que representa, defende que acima de tudo está o indivíduo. Avaliar o indivíduo pelo grupo a que pertence é redutor do seu potencial e isso não deve ser o motivo para que as portas do elevador social lhe sejam fechadas.

Não é o estado que deve reconhecer direitos ao indivíduo, mas sim o indivíduo que deve definir os limites do estado. O estado não é a concretização da liberdade pois o inverso é o que deve acontecer.

Após anos e anos em que a política esteve refém da economia, parece que finalmente o debate ideológico regressou à Assembleia da República. Os debates de quinta-feira vão ser mais interessantes e são bem vindos.


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