Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Está na hora de cerrar fileiras

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.03.20

5e6b52f154f25c38de16a352.jpeg(créditos: Tyrone Siu, Reuters)

Quando no início de Fevereiro estive em Portugal, a situação na China e em Hong Kong era muito grave. Macau já tinha os seus casos e haviam sido decretadas medidas de excepção, desde o final de Janeiro, visando evitar a disseminação do novo coronavírus, hoje COVID-19, e assim proteger as pessoas.

A velocidade da propagação do vírus e o cenário trágico que se desenhava a isso aconselhavam, razão pela qual o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, que acabara de tomar posse em 20 de Dezembro de 2019, acompanhado por uma Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura que já dera provas de ser tão discreta quanto competente enquanto directora dos Serviços de Identificação de Macau, determinou o cancelamento das populares paradas e manifestações de boas-vindas ao novo Ano Lunar, que começou em 25 de Janeiro pp..

No entanto, em Portugal e na Europa continuava tudo displicentemente a funcionar, sem que houvesse qualquer controlo, pelo menos visível, nos aeroportos. Podia-se chegar da China ou de qualquer outro lado e entrar no país sem preocupações.

Em 9 de Fevereiro voltei a embarcar de regresso à Ásia e era como se nada estivesse a acontecer. Ainda em Janeiro ouvi gente responsável a dizer que o COVID-19 não era mais do que uma gripe e que se estava a exagerar. O Presidente dos Estados Unidos e o seu homólogo do Brasil, do alto da sua cultivada e pesporrente ignorância, a que agora se associou o primeiro-ministro do Reino Unido, desvalorizaram a situação, chegando a dizer que o novo coronavírus não era problema algum e que tudo não passava de “fake news” e de uma maquinação dos media. 

Em Portugal não foi diferente, bastando para tal recordar as declarações feitas em Janeiro pela Directora Geral da Saúde e por alguns clínicos em programas de grande audiência. A displicência na forma como se lidou com a situação e a ignorância revelada sobre o que estava a acontecer, e que entretanto se tinha alastrado ao Irão, ao Japão e à Coreia, e a rapidez de progressão eram tais que uma conhecida apresentadora de televisão chegava a perguntar, no seu estilo de pregoeira de lota, porque é que o vírus só atacava os chineses. Vê-se agora que não ataca por etnias ou nacionalidades e que os primeiros a cair são por sinal os ignorantes. 

Eu aproveitei o facto de ter estado em Portugal para comprar máscaras cirúrgicas, na altura indisponíveis de imediato nalgumas farmácias, mas que era possível encomendar e receber alguns dias depois, como efectivamente aconteceu, embora por preços exorbitantes.

A Organização Mundial de Saúde, daquele senhor que terá ficado a dever a sua eleição à China, foi adiando enquanto pôde a declaração de pandemia, quando todos os sinais e a velocidade a que surgiam novos casos e em vários continentes há muito aconselhavam.

Quando a situação começou a ser conhecida na Alemanha, em Itália e em Espanha foram muitos os que continuaram a circular com pouco ou nenhum controlo. Uma tragédia a somar à tragédia maior.

Já não bastava o atraso na tomada de medidas na China, provocado pela estreiteza de vistas do Partido Comunista Chinês e seus dirigentes, que protelaram a divulgação da situação real, silenciando quem teve o mérito de alertar os seus semelhantes para o que aí vinha e que pagou com a vida a coragem profissional e cívica que demonstrou. O resultado da desgraçada gestão da crise e a dificuldade em serem tomadas, desde o início, medidas drásticas, ainda que social e economicamente com facturas pesadíssimas, está à vista, muitos milhares de mortos e de infectados depois, obrigando o inenarrável Trump a dar o dito por não dito em 48 horas. 

Quando há dias vi um vídeo e fotos da praia de Carcavelos cheia, de miradouros lisboetas apinhados de gente a curtir o pôr-do-sol, de garotada a divertir-se nos bares do Cais do Sodré, deu para perceber que uma boa parte da "geração mais bem preparada de sempre" não passava de um bando de ignorantes e que muita coisa correu mal. E não apenas por causa das infelicíssimas declarações da ministra da Agricultura, que via numa pandemia uma janela de oportunidade para as exportações dos nossos agricultores. Já todos se esqueceram que houve um ministro que em tempos foi despedido por causa de uma anedota, outro por fazer corninhos no parlamento, e ainda mais um por se ter descuidado e ter dito que ainda enfiava uns tabefes num palerma qualquer, tudo coisas muito menos graves do que o que foi dito pela senhora ministra que ainda lá está. Não fossem as esclarecidas declarações de Francisco George e de mais um ou outro, e dir-se-ia que em Portugal não se passava nada.

Empurrado pelos acontecimentos, o Governo acabou por reconhecer, e bem, a gravidade da situação, mas a decisão tomada ficou aquém do que era desejável. Com o exemplo do que tinha acontecido em Itália e do que estava a suceder em Espanha e no resto da Europa, creio que era natural que os portugueses, embrutecidos com as novelas, os “reality shows”, os programas das Cristinas e de discussão do “chuto-na-bola”, como diz com razão um amigo meu, não acatassem com bom tempo e de ânimo leve o aconselhamento a permanecerem em casa e evitarem contactos sociais.

Devia por isso ter sido desde logo declarado o estado de emergência e tomadas medida drásticas, que ainda iremos a tempo de tomar e que deverão passar por um apertadíssimo controlo nas fronteiras e nas ruas das nossas cidades, vilas e aldeias. Mas para isso é preciso ainda mais empenho. Estamos numa guerra pela sobrevivência. Ouça-se o que o médico David Nabarro disse à CNN para se perceber o quão grave e incerta é esta guerra se não formos capazes de ir mais longe.

A falta de informação e a ignorância das pessoas é aquilo que mais me aflige. Um médico que trabalha numa unidade de cuidados intensivos no Porto escrevia há pouco, numa mensagem pessoal para o irmão, que “as pessoas devem entender que apesar dos idosos e doentes morrerem muito mais, as pessoas novas podem adoecer gravemente e nunca mais ficarem iguais (fragilidade neuro-muscular prolongada, perda neuropsíquica, e fadiga por doença pulmonar, tudo designado por comonsindrome pós doença crítica ou pós-cuidados intensivos”.

Mais, um artigo da Business Insider de ontem (13 de Março) revelava que mesmo as pessoas que recuperam do COVID-19 ficam com sequelas permanentes, incluindo com uma redução substancial da função pulmonar, isto é, de 20 a 30%. E há casos de gente que foi dada como curada e passados dias o vírus voltou a manifestar-se.

Em Macau são permanentes os anúncios na televisão, na rádio, nos jornais, nas ruas, como aconteceu no início, com carros equipados de megafone a mandarem toda a gente para casa e com recomendações em português, chinês e inglês. Desde que a crise começou que há uma barra em permanência a passar na parte inferior dos ecrãs de televisão. Na última que passa agora escreve-se o seguinte: “O Governo da RAEM solicita: vamos todos persistir. Evite a concentração de pessoas, lave as mãos com frequência, use uma máscara adequadamente, declare a sua condição de saúde, reduza as saídas para fora de Macau”.

Pode-se criticar muita coisa mas não se pode dizer que o Governo de Macau e o novo Chefe do Executivo, quando confrontados com uma situação gravíssima, não tivessem decidido atempadamente o que se impunha. Revelaram estar à altura da gravidade da situação e isso foi fundamental para dar confiança às pessoas. Por isso mesmo tivemos dez casos, todos sobreviveram, e nunca mais houve novos. Esperemos que assim continue.

O custo das medidas tomadas é brutal. Não foi preciso esperar para ver, não foi preciso termos dezenas ou centenas de casos ou aguardar pelas recomendações da OMS para se tomarem medidas imediatas. Os sinais estavam lá todos e vinham daqui do lado. Não se podia perder tempo.

A única actividade económica com dimensão, o jogo, parou completamente durante 15 dias. Foram cerca de 800 milhões de patacas por dia (mais de 87 milhões de euros), em média, que deixaram de entrar nos casinos. As escolas fecharam logo, as crianças foram obrigadas a ficar em casa e terem aulas à distância desde o final de Janeiro, e só deverão voltar às escolas depois da Páscoa. O aeroporto está praticamente reduzido a 10% do seu movimento habitual, muitos negócios entraram em colapso, as missas foram logo proibidas, a procissão do Senhor dos Passos foi cancelada e o meu próprio escritório, como muitos outros, não teve movimento praticamente nenhum durante todo o mês de Fevereiro, embora os salários fossem todos pagos na íntegra e sem que se tivesse pedido a ninguém para ir para casa até a crise passar metendo dias de férias.

Não sei como irei sair disto. Nenhum de nós sabe. Nem sabemos quando iremos recuperar tudo o que se perdeu. Continua tudo a meio gás, ficaremos todos muito mais pobres. Ninguém tem dúvidas disso apesar das medidas que foram tomadas e dos apoios concedidos (e ainda a conceder).

O trabalho que o Governo tem neste momento é o de controlar as entradas, o que tem feito, colocando toda a gente que vem de zonas de risco (a partir de terça-feira também quem vá de Portugal ou do Espaço Schengen) em quarentena. Muitos de nós tiveram de cancelar viagens, fossem de trabalho ou de lazer, em semanas seguidas, e há custos que serão sempre irrecuperáveis. Todavia, salvaram-se vidas humanas. Ninguém olhou para o custo porque em causa estava a saúde de todos. É para ir à faca, então vai-se logo.

O Governo da RAEM investiu, todos ajudámos fazendo a nossa parte, e aos poucos vamos tentando recuperar a vida (e alguns clientes) que perdemos com o COVID-19, ainda com muitas limitações porque o perigo continua à espreita. E se não está cá dentro pode vir de fora a qualquer momento e a situação reverter à estaca zero.

Eu gostaria que o Governo do meu país fosse suficientemente corajoso para ir mais longe, se necessário impondo o uso das tão desagradáveis e incómodas máscaras, e fechando fronteiras, pelo tempo que for necessário, promovendo uma campanha de informação a sério e permanente em todos os canais de televisão e nas rádios, bombardeando sem cessar a ignorância, alertando até à exaustão, apelando à cidadania, à responsabilidade de todos. Motivando as pessoas.

Depois da tragédia acontecer nunca haverá medidas que cheguem. E os custos em vidas humanas e na saúde dos que sobreviverem serão sempre muito superiores e irreversíveis.

Agarrem o touro pelos cornos e acabem com a conversa mole nas televisões. Mobilizem tudo e todos, a começar pelos partidos políticos, pelas autarquias e pelas comunidades das diversas religiões para um combate sem quartel. Não vacilem em nenhum momento. E não hesitem se tiverem que mudar generais a meio do combate. Deixem-se de paninhos quentes e façam-no já, sem demora. Apoio não vos faltará. Temos todos de vencer esta guerra com o menor número possível de baixas.

 

Adenda (15/03/2020): Vejo no FT que a Alemanha decidiu fechar as fronteiras com a França, Áustria e Suíça a partir de amanhã. Outros já o decidiram também fazer. Que relatório espera o Governo português para seguir o exemplo? Será sempre possível assegurar os abastecimentos essenciais, há muitas maneiras de o garantir. Seria bom que não se atrassassem. O tempo voa. O vírus também. 


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Posts mais comentados


Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D