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A esquerda não desapareceu

por Diogo Noivo, em 17.07.19

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Num ensaio muitíssimo recomendável, Félix Ovejero traça a genealogia recente da esquerda espanhola e, por extensão, da europeia. Em síntese, argumenta que as forças políticas progresistas evoluíram do primado da raison iluminista para o menu do “tudo para todos”. Pelo caminho, abraçaram lógicas identitárias, de segregação das sociedades em tribos, incompatíveis com a razão e com a emancipação dos povos. Por outras palavras, a esquerda ilustrada negou-se a si própria. Note-se que esta tese saiu da pena de alguém que se situa convictamente no lado esquerdo do espectro político.

Ovejero e outras personalidades da esquerda espanhola, como o filósofo Fernando Savater, o escritor Fernando Aramburo e o político Teo Uriarte (membro fundador da ETA, que há muito abandonou a organização), firmam hoje uma carta aberta onde revelam que, embora tímida e em extinção, a esquerda democrática e liberal não desapareceu. Lê-se no texto que “os nacionalismos identitários e os populismos promovem políticas de divisão e exclusão que visam perverter os nossos fundamentos democráticos. Os melhores valores cívicos comuns de tolerância, respeito e fraternidade estão, portanto, ameaçados”.

Mais importante, e tendo em mente os acordos que o PSOE poderá celebrar em breve com nacionalistas catalães e bascos, os autores da missiva alertam: “A pretensão de chegar a acordos, por acção ou omissão, com populismos e nacionalismos identitários e separatistas – qualquer que seja a escala, nacional ou de comunidade autónoma, como no caso de Navarra – certamente contribuirá para o enfraquecimento dos nossos valores democráticos consagrados na Constituição de 1978. Não se podem ambicionar tais alianças, que contaminam a própria identidade da esquerda e conduzem inevitavelmente à deterioração da vida pública e trazem mais divisão cidadã”.

Entre outros méritos, esta carta demonstra o quão disparatado é enquadrar o “conflito catalão” na clássica dicotomia esquerda-direita. Portanto, revela o quão primária é a afinidade ideológica de muitos dos que por cá se batem pela independência da Catalunha.

O caso catalão cava uma fronteira, mas não a que separa a esquerda da direita. É a que separa a democracia representativa da democracia plebiscitária, a que distingue o conceito de cidadania das políticas identitárias, a que evita a confusão entre o direito ao voto e o respeito por direitos, liberdades e garantias. Era importante que deste lado da fronteira se percebesse isto. Ou, pelo menos, que se perceba que é um pouco imbecil bater-se pela independência da Catalunha envolto numa bandeira de esquerda.

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Bravatas inconsequentes que fazem ricochete

por Diogo Noivo, em 19.06.19

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No longo e divertidíssimo anedotário de Juan Carlos de Borbón figura um episódio protagonizado pela então deputada republicana e catalanista Pilar Rahola. Com especial propensão para bravatas, provocações e disparates, Rahola foi buscar lã e saiu tosquiada. Contei essa história aqui.

Anos passados, a história repetiu-se, desta feita com o actual monarca e com uma sucedânea de Rahola. Laura Borrás, deputada da força política catalanista Junts per Cat, apresentou-se na audiência com Felipe VI envergando uma borboleta amarela na lapela, uma alusão clara aos laços da mesma cor que simbolizam o apoio à independência da Catalunha. Acto contínuo, Borrás deu ao monarca um recado de Carles Puigdemont, conhecido fugitivo e o mais temeroso dos independentistas. “O senhor Puigdemont informa que o aprecia mais como Príncipe de Girona do que como Rei de Espanha”. Ainda que sem o registo castiço do seu pai, mas igualmente certeiro nos tempos e no conteúdo, Felipe VI respondeu “pois eu apreciava-o mais como presidente da câmara de Girona do que como President”. Como se diz na esgrima: ataque, parada e resposta. Touché.

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Aplauso.

por Luís Menezes Leitão, em 16.03.19

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Para este corajoso texto de Pacheco Pereira, a denunciar a vergonha que se está a passar aqui ao lado e em relação à qual a Europa pretende fechar os olhos:

"Em que países da Europa é que seria hoje possível fazer um processo por “sedição”? Dois: ­a Rússia e a Espanha. Neste momento estão a ser julgados em Madrid um conjunto de dirigentes políticos catalães eleitos, com funções na Catalunha durante o movimento pela independência, por “rebelião, sedição e peculato”. A acusação de “peculato” é ridícula, destina-se apenas ao esfregar das mãos dos seus adversários, dizendo que eles “roubaram” alguma coisa, quando a acusação diz respeito ao uso de dinheiros públicos, geridos pelo governo legítimo da Catalunha, para organizar os processos de referendo. Aliás, os argumentos jurídicos são a maneira neste caso de deixarmos de ver o essencial: estes homens foram eleitos para fazerem o que fizeram, contam com o apoio dos catalães e conduziram um processo pacífico destinado a garantir a independência da região da Catalunha, algo que não é alheio a direitos e garantias do próprio estatuto catalão e dos compromissos para a sua revisão. É um processo político puro, e os presos catalães são presos políticos puros.

A outra coisa do domínio do político é o silêncio cúmplice de toda a União Europeia, que não mexe uma palha perante o que se está a passar em Madrid, onde a comunicação social se comporta como partidária do “espanholismo” mais radical e mobiliza os seus leitores, ouvintes e telespectadores para exigirem a condenação dos catalães, como se de criminosos de delito comum se tratassem. Este silêncio cúmplice é mais uma pedra no abandono de valores da União, que se mobiliza para todas as causas longínquas e oculta as que estão bem dentro dela".

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As duas Espanhas vão a eleições [Pub]

por Diogo Noivo, em 12.03.19

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"A crise catalã não pode ser interpretada nos termos da dicotomia esquerda-direita, nem tão pouco resumida a um antagonismo entre os catalães e o resto de Espanha. A linha de fractura está na forma como cidadãos e partidos se posicionam em relação ao movimento independentista catalão, o que faz dele um tema central no espaço público. O resultado é a polarização geral da vida política. Por outras palavras, e paradoxalmente, para travar os ímpetos rupturistas Espanha colocou-os no centro da vida política e abraçou a cultura de sectarismo que emergiu nas fileiras do separatismo catalão. O país vizinho parece ter regressado à lógica frentista, de dois blocos opostos, com as vozes mais responsáveis a alertarem para o despertar das duas Espanhas imortalizadas no célebre poema de António Machado: “Españolito que vienes / al mundo te guarde Dios. / Una de las dos Españas / ha de helarte el corazón”."

Hoje, no Observador.

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Espanha, Catalunha e a Constituição [Pub]

por Diogo Noivo, em 13.02.19

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"[C]omo notou o historiador Paul Preston, a Constituição e a transição espanholas resultam de uma aliança entre várias Espanhas: a parte mais progressista e moderada da Espanha franquista; a Espanha das vítimas da ditadura que renunciaram com abnegação e coragem a vinganças; e a terceira parte, composta por uma imensa Espanha, de direita e de esquerda, liberal e conservadora, que ambicionava a normalização dentro da Europa democrática. A manifestação de domingo foi, na sua essência, em defesa deste património comum que uniu vontades díspares, que permitiu ao país uma transição pacífica para a democracia domando os ímpetos de violência que à época se verificavam tanto à esquerda como à direita.

É certo que o rosto institucional dos protestos em Madrid se compôs dos partidos de centro-direita, de direita e de ultraderecha. Mas a causa é perfilhada por gente de vários quadrantes políticos. O filósofo Fernando Savater, o antigo presidente do Governo Felipe González e o ex-vice-presidente Alfonso Guerra são exemplos de personalidades assumidamente de esquerda que se opõem sem matizes à forma como Sánchez tem conduzido a relação com o nacionalismo catalão.

Estas vozes permitem entrever o lado menos noticiado da transformação na cultura política em Espanha. Se os sinais de radicalização à direita são óbvios e patentes na ascensão eleitoral do Vox, facto ao qual os desmandos do nacionalismo catalão não são alheios, também na esquerda espanhola se assiste a uma transformação. Félix Ojevero, intelectual catalão e comentador habitual na imprensa espanhola, traçou a genealogia desta mudança no ensaio La deriva reaccionária de la izquierda (Página Indómita, 2018).

Começando pelo status quo ante, Ojevero lembra que, na sua versão em castelhano, o hino da Internacional celebra “la razón en marcha”, o triunfo da razão e dos valores iluministas como via para a emancipação dos povos. Para o movimento socialista, acrescenta o autor, a comunidade política emerge como um agregado de colectivos unidos sob uma república ilustrada e racionalista, composta por indivíduos diferentes que são livres e iguais na sua condição de cidadãos. Portanto, uma república avessa a superstições religiosas e a argumentos de marginalização racial, cultural e política defendidos por comunidades assentes na identidade e na tradição.

Hoje, para Ovejero, os sentimentos prevalecem porque se atribui qualidade moral à emoção, valiosa por si mesmo e que, por isso, dispensa justificação ulterior. O primado dos sentimentos, aliado ao voluntarismo segundo o qual “estender o braço é o único requisito para satisfazer desejos”, abriu espaço à simpatia por regimes autoritários sob o argumento do respeito cultural, à vigilância totalitária da linguagem, e à defesa de particularismos culturais ou alegadamente étnicos em detrimento da noção de cidadania. Logo, a negação do triunfo da razão."

 

A minha opinião sobre Espanha, no Observador.

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Deuses reaccionários

por Diogo Noivo, em 12.02.19

José Álvarez Junco é decano dos historiadores espanhóis e autor de Dioses Útiles, uma genealogia intelectual brilhante das nações e dos nacionalismos na Europa. Por mero acaso, mas muito a propósito do julgamento que hoje se iniciou em Madrid, cruzei-me com um ensaio por ele publicado no El País, em Outubro do ano passado. O texto é de antologia e o último parágrafo a melhor síntese que encontrei sobre o "problema catalão":

"A História um dia julgará as elites nacionalistas. Culpá-los-á, creio, pela grave deterioração da cultura catalã, outrora cosmopolita e agora ensimesmada, e pela divisão da sociedade, anteriormente satisfeita com o bilinguismo e a dupla identidade. Irá culpá-los pela criação um Estado na sua pior versão possível: decidido a impor a homogeneidade cultural, de acordo com seu modelo preconcebido de nação e, portanto, a reduzir a liberdade e o pluralismo da sociedade que governa."

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Aqui ao lado.

por Luís Menezes Leitão, em 19.12.18

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Acho inconcebível que no séc. XXI num país europeu haja pessoas presas pelas suas convicções, devido a decisões tomadas por um parlamento. É lamentável que a Europa esteja a olhar para o lado relativamente ao que se passa em Espanha.

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A Catalunha paga.

por Luís Menezes Leitão, em 13.12.18

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Sempre que vejo esta qualificação de Espanha como um país rico, penso sempre que são os catalães, a quem recusam a independência, a pagar a conta.

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Culturas de ódio

por Diogo Noivo, em 05.12.18

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Quinze encapuçados agrediram brutalmente um jovem na Universidade do País Basco. A razão? A vítima defende a unidade de Espanha. O rapaz agredido esteve cinco dias internado. O ataque tem todas as marcas do nacionalismo radical da ETA cuja dissolução oficial este ano não pôs fim à cultura de ódio e sectarismo que alimentou campanhas terroristas ao longo de 40 anos. Aliás, este ataque é apenas o último de vários que têm ocorrido em terras bascas.

Na Catalunha, as sedes dos partidos políticos constitucionalistas são atacadas, os deputados destes partidos são insultados e ameaçados de morte, os juízes são intimidados e as suas casas vandalizadas. Como o objectivo é o de inocular o terror, a violência não conhece os limites da decência: os pais de Albert Rivera, líder do partido Ciudadanos, viram a loja que exploram há anos vandalizada repetidamente. O nacionalismo catalão mais violento – e xenófobo – vai pouco a pouco ocupando as ruas (com apoios dentro e fora de Espanha).

Perante estes factos, que circulam pelo país via jornais, rádios e televisões, há em Portugal quem se espante com o apoio eleitoral recebido pelo nacionalismo espanhol bafiento proposto pelo Vox, o partido de ultraderecha que elegeu pela primeira vez deputados nas eleições andaluzas do passado Domingo.

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A crise na Catalunha.

por Luís Menezes Leitão, em 01.10.18

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Se alguém julgava que a repressão sobre os independentistas catalães resolvia alguma coisa, hoje descobriu, passado um ano do referendo, que está tudo na mesma ou ainda pior. Enquanto Pablo Casado acha agora que se devem ilegalizar todos os partidos independentistas, o governo de Sánchez já reconhece que a carga policial de há um ano foi um erro e que só o reforço do autogoverno da Catalunha pode resolver a profunda crise territorial, política, económica e social a que a obstinação do governo de Rajoy conduziu a Espanha. Enquanto que em Barcelona se exige a República, o Rei de Espanha evita sequer aparecer em público nestes dias. E perante as aspirações independentistas do povo catalão não vale a pena afirmar que já há muitos habitantes da Catalunha que têm o castelhano como língua materna. Também havia muitos habitantes da Irlanda que tinham o inglês como língua materna e não foi por isso que a Irlanda deixou de ser independente do Reino Unido. O movimento independentista irlandês chamava-se precisamente "Sinn Féin" que significa em irlandês "nós sozinhos". Para qualquer movimento independentista é sempre apenas isso o que está em causa.

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Aniversário do "referendo" catalão

por Diogo Noivo, em 01.10.18

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Corte da linha ferroviária de alta velocidade pelos CDR - Girona 

 

"O governo voltou a colocar em circulação uma fórmula já usada: "procurar soluções políticas para o conflito catalão". Em cinco palavras, duas ambiguidades e um perímetro errado. O primeiro: a descrição do conflito. De acordo com alguns, o conflito é o resultado de não se atender às demandas nacionalistas. As razões pelas quais elas devem ser atendidas não são claras. A exploração económica e a falta de reconhecimento de identidade própria, tantas vezes invocadas, são invenções: a Catalunha é uma economia com respiração assistida e, se há uma identidade desprezada, é a da maioria dos catalães que, para começar, não podem estudar na sua língua materna. Outros dizem que os separatistas são muitos e que suas exigências estão muito consolidadas. Um argumento que seria válido para os racistas no Alabama ou para os sexistas aqui. Que ninguém fique chocado com a comparação. Somos confrontados com o mesmo roteiro: uns quantos reclamam a limitação dos direitos dos outros em virtude de uma característica, do seu género, da sua cor de pele ou da sua identidade. Tradicionalmente, a resposta política cabal consistiu em combater ideias perniciosas, independentemente do número ou da sustentação - até mesmo biológica - dos distúrbios. O império e a pedagogia da lei cumpriram sua função. As pessoas mudam até de vícios. Lembrem-se que este foi um país de fumadores."

 

Félix Ovejero, "Soluciones políticas, ¿para quién?", El Mundo, 1 de Outubro de 2018

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A vitória de Puigdemont.

por Luís Menezes Leitão, em 19.07.18

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Mais uma vez Puigdemont consegue uma vitória estrondosa sobre a justiça espanhola, que decidiu retirar o mandato de captura internacional depois de nunhum país ter aceitado perseguir o líder catalão por delito de rebelião. Há muito tempo que se sabe que um Estado democrático não pode perseguir pessoas por delitos políticos, sendo isso o que significava esta perseguição aos independentistas. Aliás muitos continuam presos sem culpa formada apenas por motivo das suas convicções política, e até já lhes foi retirado pelos tribunais o mandato que o povo lhes conferiu. O debate político não se faz nos tribunais e as ideias políticas combatem-se com outras ideias políticas. Neste âmbito Pedro Sánchez foi inteligente ao propor um novo estatuto para a Catalunha, que pudesse ser referendado pelo povo catalão, o que congelaria as pretensões independentistas por muitos anos. Os tribunais espanhóis é que parece que não desistem do seu intuito de entrar no jogo político, activando e desactivando mandados de captura internacionais consoante lhes convém politicamente.

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As contas e os contos

por Diogo Noivo, em 06.06.18

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O ano passado, numa das minhas incursões à livraria do bairro onde vivia, comprei três livros que andava a namorar há tempo, mas que esta ou aquela razão adiaram a leitura. Las Cuentas y los Cuentos de la Independencia, de Josep Borrell e Joan Llorach, foi o primeiro a ser devorado. Eram três as razões do meu interesse. Primeiro, o facto de ser um exame frio e objectivo, muito assente em dados quantitativos e em análise comparada, aos argumentos do independentismo catalão. Segundo, ser da autoria de dois catalães catalanistas. Por fim, o nome Josep Borrell, histórico socialista, antigo ministro das Obras Públicas no Governo de González, ex-presidente do Parlamento Europeu e uma das personalidades políticas de Espanha com maior prestígio fora de portas.

Os argumentos apresentados por Llorach e Borrell são demolidores para o independentismo, não por causa de artifícios retóricos ou de talento literário, mas sim por número a número, percentagem a percentagem, artigo a artigo desmontarem com rigor cirúrgico os argumentos de quem exige uma Catalunha soberana. Borrell submeteu o resultado a escrutínio público, em língua catalã e com contraditório, num frente-a-frente com Oriol Junqueras, líder do partido independentista Esquerra Republicana de Catalunya. O resumo deste debate televisivo é imperdível (legendas em castelhano).

Josep Borrell regressa agora ao Governo de Espanha pela mão de Pedro Sánchez para ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros. Esta nomeação garante a respeitabilidade do novo Executivo no plano internacional, mostra que o Governo cumprirá os compromissos assumidos pelo país em Bruxelas e que se empenhará no projecto Europeu (o Podemos que se desiluda se espera grandes inversões nesta matéria), e é também um sinal claro ao independentismo radical que se instalou na Catalunha. Tudo isto é mais relevante porque o actual Executivo será sempre uma solução a prazo. Sanchéz, que estava politicamente morto em Novembro de 2016, dá uma prova de vida apreciável com esta nomeação. Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.

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Eu não.

por Luís Menezes Leitão, em 22.05.18

Há muito que acho que a situação na Catalunha ultrapassa tudo o que é admissível num Estado democrático. Governantes e deputados que se limitaram a executar o programa com base no qual foram eleitos encontram-se presos preventivamente há largos meses, como se fossem meros arruaceiros que invadiram a academia de Alcochete. O presidente da Generalitat, que obteve a maioria no parlamento, encontra-se alvo de um mandato de detenção internacional e não lhe permitiram tomar posse. Aceitaram depois dar posse a um substituto, mas depois não o deixam formar governo, pretendendo manter o art. 155, que consagra um estado de excepção, eternamente em vigor. Em Portugal há gente que procura olhar para o lado e ignorar tudo o que se está a passar, incluindo o Presidente da República que vai a Salamanca falar da "Espanha una e eterna", parecendo querer retomar a divisa franquista "Una, Grande y Libre!",  e não diz uma palavra sobre pessoas que neste momento em Espanha estão presas ou exlladas apenas pelas suas convicções políticas. Não é o meu caso. Prefiro seguir outra divisa: "Etiam si omnes, ego non". O que penso sobre a situação na Catalunha escrevi-o hoje aqui.

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Confuso?

por Diogo Noivo, em 22.05.18

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A Guardia Civil, a força policial vista como braço armado do Governo de Rajoy na Catalunha, pelo menos segundo os catalanistas portugueses, deteve hoje Eduardo Zaplana por suspeitas de branqueamento de capitais. Zaplana foi ministro no Executivo liderado por Aznar e é um dos barões do Partido Popular. Assim, e aceitando a premissa dos pró-independentistas, a polícia quase-política do Governo de Rajoy acabou de deter uma das figuras mais importantes do partido de Rajoy - de resto, um partido constituído arguido pela Justiça espanhola que, também de acordo com os catalalistas de cá, está ao serviço do Governo “centralista” sedeado em Madrid. Conclusão: nunca permitir que os detalhes estraguem uma boa história.

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Um gesto simbólico.

por Luís Menezes Leitão, em 17.04.18

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Foi um gesto altamente simbólico os deputados catalães terem cantado a Grândola, Vila Morena, no Parlamento Espanhol aquando da visita de Marcelo. E ainda mais simbólico foi o facto de os deputados espanhóis terem feito barulho para abafar o som da canção. Na Catalunha há muitos que querem a liberdade de decidir o seu destino, enquanto que outros procuram calar a sua voz. Mas da mesma forma que no Portugal de 1974, a Grândola Vila Morena cantada pelos catalães é um hino à liberdade que nenhuma repressão conseguirá silenciar.

 

Quanto ao resto, é irrelevante que o partido que começou por ser Ciutadans e agora se converteu em Ciudadanos, para demonstrar que de catalão afinal não tem nada, esteja à frente das sondagens em Espanha. No parlamento da Catalunha há uma maioria independentista a quem está a ser negada a possibilidade de formar governo com a sistemática prisão dos deputados eleitos pelo povo, com base em acusações ridículas que em toda a Europa têm sido completamente rechaçadas pelos tribunais.

 

Os catalães têm o direito a decidir pela autodeterminação da sua região e não é toda a Espanha que pode decidir por eles, assim como não foi toda a URSS que votou a independência da Estónia ou toda a Jugoslávia que votou a independência da Eslovénia. Se acham que há menos de metade do eleitorado da Catalunha a favor da independência, nada mais simples do que fazer um referendo e tirar as dúvidas. E não vale a pena inventar ficções como a Tabárnia ou dizer que os políticos que estão na prisão pelas suas convicções não são presos políticos. Resolva-se a questão catalã num referendo como se fez na Escócia e no Quebeque, em ambos os casos contra a independência. Assim como está é que não pode ficar.

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Pelo poder catalão... em Madrid

por Pedro Correia, em 17.04.18

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 Inès Arrimadas e Albert Rivera são já os mais populares em Espanha

 

Os habitantes da Catalunha que não militam no separatismo têm vindo a ser designados, na melhor das hipóteses, como "o resto dos catalães" por certas bempensâncias cá do burgo e respectivas adjacências na comunicação social - todas a espumar de ódio contra o Estado espanhol, nosso principal parceiro comercial, além de amigo e aliado na União Europeia.

Acontece que estes habitantes são, de facto, a maioria da população da Catalunha: nunca até hoje os secessionistas - mesmo somadas todas as suas tendências políticas, da extrema-esquerda à direita mais conservadora - alcançaram a maioria do voto popular expresso nas urnas.

 

Os hispanófobos da Lusitânia fazem coro com os separatistas na reivindicação do "direito a decidir". Também defendo este princípio, mas numa base muito mais alargada. Todos os espanhóis têm o direito a decidir se querem ou não mudar a Constituição, fruto do pacto democrático celebrado há 40 anos pelos partidos representados no Congresso dos Deputados - incluindo os partidos nacionalistas da Catalunha.

Este direito a decidir não pode ser subtraído à cidadania espanhola, no seu conjunto, para satisfazer menos de metade do eleitorado das províncias de Barcelona, Tarragona, Gerona e Lérida. A Catalunha é plural: ninguém pode falar jamais em nome dos catalães como se fossem um bloco compacto e homogéneo, ninguém passou procuração a político algum para rasgar a lei fundamental do país e o estatuto autonómico que dela deriva.

 

Entretanto, por ironia, o político que lidera hoje todas as sondagens em Espanha e tem mais possibilidades de ascender à presidência do Governo estatal, em Madrid, é precisamente um catalão: o liberal Albert Rivera, que se destacou no combate ao separatismo e à corrupção praticada pela Convergência, o partido nacionalista que durante quatro décadas foi hegemónico na Catalunha antes de trocar a bandeira da autonomia pela trombeta independentista, numa fuga para a frente destinada a maquilhar os escândalos sucessivos em que mergulhou.

Depois de um andaluz (González), um madrileno (Aznar), um leonês (Zapatero) e um galego (Rajoy), nada como um catalão à frente do Governo espanhol para travar a deriva secessionista. Não por acaso, os Cidadãos, de Rivera e Inès Arrimadas, são já a força política mais votada na própria Catalunha, apesar de ser também a de formação mais recente.

Prova inequívoca de que a unicidade catalã pró-independência só existe na delirante imaginação dos que sonham com uma Espanha feita em pedaços. Lá e cá.

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Frases de 2018 (19)

por Pedro Correia, em 15.04.18

 

«Quanto à Catalunha, a nossa atitude é não intervir na vida de outro Estado.»

Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista à edição de hoje do jornal El País

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O gozo de criar problemas (II)

por Diogo Noivo, em 11.04.18

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Foto Jordi Avellà/El Mundo 

Depois dos profissionais de saúde, chega agora a vez dos artistas. O Governo das Baleares exige aos músicos da orquestra daquela comunidade autónoma que cumpram as exigências de expressão oral e escrita previstas no nível B2 de catalão. Quem não o fizer pode arrumar as malas. Novamente, a competência e currículo dos profissionais são subordinados aos seus conhecimentos linguísticos.

O maestro é japonês e mais de metade dos músicos são estrangeiros. Como sucede em tantas outras orquestras europeias, o inglês é a língua de trabalho e a música uma linguagem universal. Mas o sectarismo nacionalista imposto pelas elites e a partir das instituições vai fazendo o seu caminho de construção de uma sociedade idealizada, excluindo pouco a pouco o ‘Outro’. A título de curiosidade, note-se que esta medida destinada à orquestra das Baleares foi antecedida pela desistência do Governo de Espanha em garantir a educação plurilingue na Catalunha. Perante tudo isto, ainda há quem fale em opressão vinda de Madrid.

 

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Nações emocionais

por Diogo Noivo, em 09.04.18

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Não há nacionalismo que vingue sem a vinculação emocional do povo sobre o qual incide. Não surpreende, portanto, que todos os debates sobre nacionalismos revelem uma forte carga emotiva, sendo por vezes condicionados por ela. Acontece que a emoção é má conselheira em temas políticos, pois leva a teses indefensáveis e, consequentemente, a becos sem saída. E leva também a precipitações. O Luís Menezes Leitão recebeu em ombros as alegadas declarações da Ministra da Justiça alemã, Katarina Barley, que teria afirmado que se o Supremo Tribunal espanhol não demonstrasse que Carles Puidgemont cometeu outros delitos além do de rebelião, este passaria a ser “um homem livre num país livre, quer dizer, na Alemanha".

Acontece, porém, que a ministra em causa já falou com o seu homólogo espanhol para esclarecer o “mal-entendido”. Por sua vez, o porta-voz do Ministério da Justiça alemão, Piotr Malachowski, disse hoje em conferência de imprensa que Barley "não tomou ou vai tomar uma posição" sobre um processo judicial em curso, acrescentando que "não houve declarações autorizadas" da ministra. Acto contínuo, caso ainda houvesse dúvidas, Steffen Seibert, porta-voz do Governo de Berlim, afirmou ser convicção do Executivo que “o conflito catalão pode e deve ser resolvido dentro da estrutura da Constituição e da ordem legal espanhola". Por outras palavras, o que estava embrulhado desembrulhou-se. O que sim continua embrulhado é contexto político catalão, que não se resolverá com seminários incendiários de barricada nem com espírito de claque. Porventura adoptar a estratégia usada por Espanha na década de 1970 para fazer uma transição “de la ley a la ley”, célebre frase de Torcuato Fernández-Miranda, não seja uma má ideia.

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