Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Vestais ofendidas aos gritinhos

por Pedro Correia, em 03.05.18

cifuentes-crema[1].jpg

Cristina Cifuentes apanhada pela videovigilância num supermercado em 2011 

 

1

O excelente conjunto de  grandes reportagens feitas pela SIC a partir dos depoimentos prestados por José Sócrates e outros arguidos do caso Marquês em sede de investigação criminal - e que nos permitiu conhecer melhor a dimensão da golpada - chocou alguns deontólogos da nossa praça, que rasgaram as vestes em sinal de escândalo.

Credo, pode lá ser, ai Jesus, Nossa Senhora!

Não sei em que limbo vegetam estas vestais agora aos gritinhos que parecem não habitar o mesmo planeta em que as gravações secretas do ex-Presidente norte-americano Richard Nixon - que tanto contribuíram para o seu afastamento da Casa Branca - foram reproduzidas em tudo quanto se assumia como imprensa de referência nos EUA e deram a volta ao mundo a partir daí.

Nem parecem viver a escassas centenas de quilómetros da capital espanhola, onde a presidente da Comunidade de Madrid, Cristina Cifuentes, acaba de ser forçada a demitir-se na sequência imediata da divulgação pública das imagens de uma câmara de videovigilância colhidas em 2011 num supermercado madrileno que a mostravam a enfiar na mala dois cosméticos no valor de 43 euros.

Estas imagens, que há muito deviam ter sido apagadas por imperativo legal, foram afinal guardadas para utilização no momento político mais propício - que chegou agora. Primeiro, difundidas no jornal digital OK Diario, depois em todos os restantes órgãos de informação. Sem vestais indignadas com a violação do "direito à imagem" da senhora, que vinha sendo apontada como possível sucessora de Mariano Rajoy na liderança do Partido Popular.

 

2

Alguma utilidade teve o meritório trabalho assinado pelos jornalistas Amélia Moura Ramos, Luís Garriapa e Sara Antunes de Oliveira. De então para cá, certamente por coincidência, não têm faltado enfim as vozes socialistas que foram quebrando um pesadíssimo silêncio de quatro anos imposto por António Costa em torno do famigerado caso Sócrates.

Agora já não temos apenas a indómita Ana Gomes, clamando contra o esbulho em termos inequívocos: «Há um facto insofismável: a relação especial e privilegiada de Sócrates com Ricardo Salgado. Pelos vistos, estava às ordens dele e até fez negócios à conta dele. O PS não pode pôr isto debaixo do tapete.»

Agora já ouvimos o outrora esfíngico presidente e líder parlamentar socialista falar sem rodeios em entrevista à TSF: «Ficamos entristecidos e até enraivecidos com isto: que pessoas que se aproveitam dos partidos políticos, e designadamente do PS, tenham comportamentos desta dimensão e desta natureza. Evidentemente que ficamos revoltados com tudo isto.»

E até um dos deputados que noutro ciclo político se destacou entre os mais ferozmente socráticos, como João Galamba, vem desabafar desta forma desabrida na SIC Notícias: «Um ex-primeiro-ministro que foi secretário-geral do PS acusado de corrupção, branqueamento de capitais, etc, é algo que envergonha qualquer socialista. E o caso de Manuel Pinho, idem.»

 

3

Cada vez mais isolado está o ex-jornalista, ex-secretário de Estado da Comunicação Social e ex-membro da Entidade Reguladora para a Comunicação Social Arons de Carvalho.

Quase só ele é hoje capaz de declarar, referindo-se ao antigo primeiro-ministro, de quem sempre foi muito próximo: «Não acho reprovável uma pessoa viver com dinheiro emprestado. (...) Quer o Manuel Pinho quer o José Sócrates não foram ainda condenados. Temos de esperar sem intervir e sem comentar.»

Tese que, levada à prática, nos forçaria a esperar cerca de uma década para comentar casos que prometem arrastar-se nos tribunais.

Felizmente, de dia para dia, há cada vez menos gente no próprio Partido Socialista a pensar assim.

Felizmente nos órgãos de informação dignos deste nome não vigora a doutrina Arons, com a sua lei do silêncio.

Felizmente o jornalismo resiste. Contra todas as vestais que pretendem transformá-lo numa sessão de chá das cinco com amáveis torradinhas barradas de manteiga.

Imaginemos então a seguinte situação. A final do campeonato do mundo joga-se entre o BES (Betinhos do Espírito Santo) e a SONAE (Sólida Organização Nortenha de Actividades Empresariais).

 

Estão em jogo mais de mil milhões de euros. O jogo é fundamental. O Presidente do BES sabe. E não quer arriscar um milímetro.

 

Para o BES, perder a partida significaria expor um conjunto de fragilidades internas. Há salários em atraso, activos do plantel sobrevalorizados, aquisições falhadas, esquemas tácticos muito duvidosos.

 

Antes do jogo, o clima de tensão cresce. Há adeptos indecisos. Uns apoiam a SONAE. Outros apoiam o BES. De um lado e de outro há quem vá mudando de opinião. Ainda faltam umas semanas para a partida decisiva.

 

O Presidente do BES sabe. Com todas as fragilidades, talvez seja possível ganhar o jogo. Mas o Presidente do BES sabe. E não quer arriscar um milímetro. Decide avançar com uma sondagem junto do árbitro. Estará disponível para ser corrompido?

 

O árbitro está disponível. O esquema de corrupção avança. Uma soma avultada faz o seu caminho percorrendo várias offshores até à conta de um primo do árbitro que, por sua vez, a fará chegar a um amigo do árbitro.

 

Chega o grande dia. O BES tem o jogo controlado. Defesa sólida, ataque agressivo. Tudo corre bem. O BES marca dois golos. Nada a temer. Lá mais para o final do jogo, o árbitro cumpre a sua parte. Vai marcando faltas a meio-campo para pôr gelo no jogo.

 

Se fosse preciso, o árbitro marcaria um penalti inexistente. Mas não é. Está tudo controlado até ao apito final.

 

Uns anos depois, a situação está em investigação pelas autoridades judiciais. O árbitro, o Presidente do BES e alguns intermediários afirmam que a tese da corrupção não faz sentido porque, afinal de contas, o árbitro nem teve de influenciar o jogo.

 

Na bancada, alguns comentadores conhecidos pela sua inteligência e clarividência, acenam a cabeça em concordância e afirmam que este é um belo argumento.

 

Ao mesmo tempo, estes comentadores, que não consideram a tese da corrupção credível (muito fraquinha, pá, o árbitro nem teve de fazer nada), admitem como plausível que o amigo do árbitro lhe empreste um milhão de euros, em numerário, na sequência de dezenas de conversas em código.

 

Como diria o próprio árbitro, porreiro, pá!


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D