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Delito de Opinião

A Caricatura de António Costa

jpt, 14.06.23

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(Santiagu)
 
(Ontem o Pedro Correia aqui abordou de modo suficiente o tema. Mas como deixei no meu Nenhures um outro postal sobre o assunto aqui o replico)
 
Há polémica sobre um cartaz usado pelos professores, caricaturando António Costa. Não discuto a justeza das reclamações da mole docente nem a tipologia das suas acções reivindicativas nem a política do governo na área correspondente - nem sequer isso de Costa ter mentido quando se deparou com manifestantes nas comemorações do 10 de Junho. O assunto é a caricatura de Costa que foi usada. Não gosto dela. Mais pelo detalhe dos lápis espetados nos olhos - que poderá ter um qualquer significado que se me escapa mas ainda que assim seja é vudu em demasia para este ateu.
 
 

 

Manguitos de Rafael Bordalo Pinheiro

jpt, 23.07.22

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Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, edição do Museu Bordalo Pinheiro, 2022.

Rafael Bordalo Pinheiro é muito invocado, dito "fundador da caricatura nacional" - para além de minudências cronológicas que lhe encontram "antecessores" - respeitado, amado até, como "cidadão pleno e libertário" e nisso precioso "coleccionador de fraquezas" (como disse João Paulo Cotrim), dessas que lhes eram coevas e as quais dizemos ainda actuantes nesta nossa (gasta) Pátria.

Mas, na realidade, Bordalo é-nos algo desconhecido, até mesmo obscuro. Um pouco como aquele avoengo presente em tantas famílias, evocado em convívios sazonais através de episódios que se querem risonhos ou verdadeiros exempla, historietas mais ou menos inventadas acontecidas nos Dembos e Angónias, entre os seringueiros amazónicos, baleeiros atlânticos, filões de volfrâmios ou, também, naqueles das andanças "a salto", tudo isso sem que nós, a sobrinhada, de facto perceba quem foram tais estranhos aventureiros "tios-avôs" e o que lhes foi acontecendo e como se fizeram acontecer.

Muito desse afastamento se deve a que as obras de Bordalo eram contextualmente enraizadas, raras as personagens por ele criadas - e estas sempre simbólicas -, pois se tratava de um universo centrado na vida política e social portuguesa do fim do século XIX. E, sendo aqueles quadros quase sempre de uma rica encenação, pela pluralidade de elementos expostos, a sua fruição convoca vários níveis de leitura, apelando a um conhecimento mais amplo, seja das personalidades caricaturadas seja dos contextos de cada uma das investidas de Bordalo Pinheiro. Digo-o também por mim, herdeiro de três volumes da "Pontos nos ii" oriundos de bisavô paterno, cuja leitura exige uma nada apressada decifração.

E é devido a essa distância para com o mundo de Bordalo Pinheiro, encapuçada pela aparente similitude das invectivas aos poderes que dele queremos recuperar, que são preciosos os livros a ele dedicados, pela descodificação daqueles contextos, afinal mais diferentes deste hoje do que poderá parecer a leituras de mera adesão. Através deles poderemos perceber bem melhor as suas obras, e, sem juizos anacrónicos (auto)punitivos - como esses que tanto estão na moda -, fruir do verdadeiro encanto que a compreensão permite. Por exemplo, apreender a profusão das suas referências a África e às putativas colónias portuguesas percebendo-o também como "Romântico, positivista e mação, agarrado às colónias como a um simbólico pé-de-meia, boémio, sexista, sentimental e altivo, cioso da dignidade nacional, intuitivo e de repentes, Raphael Bordallo Pinheiro é de facto "o português tal e qual"", como, há mais de três décadas, escreveu Ângela Guimarães em "Bordallo: Face a um Mundo em Turbilhão"*, uma investigação dedicada à refracção no autor da mentalidade colonial e dos anseios africanistas da época, algo que Guimarães cumpriu sem se desviar por bacocos dislates punitivos mas sim olhando Bordalo como uma voz trangressora no seu tempo. Ou essa reedição aquando do centenário da sua morte (2005), com textos de João Paulo Cotrim, do "Álbum de Glórias", que é preciosa para a identificação de inúmeras personalidades caricaturadas e, também, por fazer reviver a prosa de Bordalo e seus corrosivos colaboradores (em particular a de Guilherme Azevedo e a de Ramalho Ortigão).

Enfim, várias obras têm sido dedicadas ao autor. Mas ainda assim é muito atractiva esta nova colecção que o Museu Bordalo Pinheiro começou agora a publicar, pequenos volumes (de pequenas tiragens, 250 exemplares) com incursões temáticas àquelas obras. Comecei por este Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, apresentado este mês. O qual comporta uma bem conseguida mescla entre a importância da gestualidade como comunicação não-verbal intra-comunitária e a a genealogia do carismático "Zé Povinho", "[Essa] criança que tem hoje perto de cinquenta anos de idade! (...) Nele concorrem em conjunto todas as partes que nos enlevam e encantam no bom menino - casta inocência, temor de Deus, obediência a seus mestres, humildade, nariz por assoar, dor de barriga às segundas-feiras e santíssima ignorância. Aos carinhosos desvelos de sua extremosa mãe, a Carta, e de seu galhofeiro pai, o Parlamentarismo, se deve o estado miraculoso de infantilidade que tão vantajosamente recomenda este vulto à simpatia e ao espanto de todo o mundo" (Ramalho Ortigão, dito João Ribaixo no "Álbum de Glórias"), descrição bem apropriada a um "Zé Povinho" que Bordalo, apesar da simpatia que lhe votava, invectivava por não se erguer como Povo, preguiça que considerava desamor à Pátria.

Ora vem esta sopesada mescla a propósito do célebre gesto do manguito, o qual sempre associamos, no nosso real afastamento à obra de Bordalo Pinheiro, a uma prática regular, desabafo até contestatário, do "Zé Povinho". Para depois, neste livro, percebermos que, afinal, "No que diz respeito aos gestos obscenos, Rafael Bordalo Pinheiro é muito discreto, evitando representá-los de modo explícito" (49). Ou seja, e contrariamente à nossa ideia feita, não há manguitos (literais, no sentido gestual) nas caricaturas - esse registo mais brejeiro apenas veio a surgir na cerâmica de Bordalo. E foi esta, torna-se assim evidente, que veio a moldar a nossa apreensão, a nossa memória, do trabalho gráfico do autor.

Fosse apenas por isso, por este desvendar, este livro seria já precioso. Mas há bem mais assuntos de interesse - até porque profusamente ilustrado (como não poderia deixar de ser), com explanações sobre o conteúdo de cada uma das ilustrações. E o mesmo se aplicará, presumo, aos outros exemplares desta colecção, um fio que será uma constante "reintrodução" a Rafael Bordalo Pinheiro, esse filão de entendimento sobre, 

"N'este país de compadres; / E de ministros d'estado, / E de vates trovadores, / E de tocadores do fado, / E de casas de penhores, / E de grandes orçamentos, / E de namoros aos centos, / E de parvonezes todos, / E de cem milhões de alferes, / E de homens que são mulheres, / E de eleitoraes engodos; (...)" ["Neste país de compadres e d'eleitoraes engodos", em O António Maria, 28 de Junho de 1883, reproduzido na p. 50), 

pois, se difererenças há em relação àquela época, e imensas há, as semelhanças também vigoram. E muito as incompreendemos quando não conseguimos perceber os detalhes da obra de Bordalo, na tal descodificação. Ou seja, urge ir ler os pequenos volumes desta colecção, a preço bastante acessível.

* Eu só tenho uma fotocópia de texto prévio, "O Riso e a Angústia", que não tenho a certeza de corresponder totalmente ao livro publicado em 1997.

A Animação é para crianças (ou não) - 6

João Campos, 27.05.22

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Wolfwalkers
Realização: Tomm Moore e Ross Stewart
Argumento: Will Collins, com base numa história de Moore e Stewart
Produção: Cartoon Saloon, Mélusine
Ano: 2020
Duração: 103 minutos
Países: Irlanda, Luxemburgo e França

Wolfwalkers foi o melhor filme de 2020 que pouca gente viu. 

Não estou sequer certo de que tenha estado em exibição nas salas portuguesas por alturas do Natal de 2020; se esteve, terá certamente sido por poucos dias, com a azáfama da quadra e o contexto pandémico a abafarem a estreia. Foi distribuído em streaming pela Apple TV, onde tanto quanto sei ainda é possível vê-lo, mas a segunda grande desvantagem do streaming (a primeira é a falta do grande ecrã, claro) também lhe terá retirado alcance: afinal, quem pode hoje em dia subscrever a quantidade cada vez maior de plataformas digitais, com os seus conteúdos exclusivos?

Os problemas de distribuição em nada diminuem a qualidade dos filmes, claro - e seja no grande écrã de uma sala de cinema ou no pequeno ecrã da televisão das nossas salas, Wolfwalkers é uma pequena maravilha. Será talvez o filme mais juvenil que trarei a esta série, mas também será decerto um dos mais prodigiosos em termos artísticos. Não é por acaso que há já quem se refira ao Cartoon Saloon como os Estúdios Ghibli da Europa: a cada novo filme os estúdios irlandeses e os seus parceiros europeus exploram novos territórios narrativos e novos estilos artísticos, até à data com enorme sucesso. Este enquadra-se na "trilogia irlandesa" de Moore, explorando, tal como A Canção do Mar e Brendan e o Mundo Secreto de Kells, aspectos da história e do folclore da Irlanda.

Wolfwalkers recua à Kilkenny setecentista (pormenor: Kilkenny é também a cidade onde o Cartoon Saloon está sedeado) para contar a história de duas crianças: a rebelde Robyn, filha do caçador inglês Bill Goodfellowe, convocado àquela região pelo Lorde Protector para exterminar os lobos que dominam a floresta local e aterrorizam os cidadãos; e Mehb, cujo espírito se transforma num lobo enquanto dorme, e assim defende a floresta com a sua alcateia das incursões dos lenhadores de Kilkenny. A animação, nunca é demais dizer, é absolutamente magnífica no traço vivo e irregular - um desenho animado em estado puro, se quisermos - e na utilização da cor, com Moore e Steward a adaptarem o estilo a cada momento: a cidade de Kilkenny é sempre rígida e geométrica, em tons mais esbatidos, como uma gravura antiga viva; já a floresta é toda ela curvilínea e irregular, numa explosão constante de cores vivas, na vertigem desenfreada da alcateia por entre as árvores. 

E é com esta animação espantosa que acompanhamos as aventura das duas raparigas, da qual se podem fazer várias leituras: sobre os papéis femininos naqueles tempos, sobre a colonização pela figura do Lorde Protector, símbolo da opressão inglesa; e sobre o conflito eterno entre a civilização e a natureza. Podemos pensar nas semelhanças com A Princesa Mononoke - a floresta dominada por criaturas mágicas com lobos como protectores, uma rapariga selvagem forte e resoluta, a civilização como elemento destruidor do mundo natural. Nesse aspecto o filme de Moore e Stewart será menos ambíguo - menos complexo? - do que a obra-prima de Miyazaki, mas nem por isso deixa de ser menos tocante, incidindo mais sobre a força colonizadora de uma entidade externa (no caso, a Inglaterra personificada no Lorde Protector) e sobre a forma como cada personagem luta para aceitar a sua natureza e para fazer o que está certo. 

Se os Óscares primassem pela justiça, Wolfwalkers teria saído da cerimónia de 2021 com a estatueta de Melhor Filme de Animação. Salvo raríssimas excepções, porém, este prémio está destinado à Disney ou à Pixar - que, não desfazendo, há anos que não surpreendem com os seus filmes de animação. Ficou pela nomeação da Academia, pelos vários Prémios Annie conquistados, pela aclamação da crítica e pelo carinho do público que o viu. A maioria dos filmes desta série serão exclusivamente para adultos, mas para Wolfwalkers deixo a recomendação sem reservas a miúdos e graúdos.

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A normalidade de sempre

jpt, 08.07.21

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Este cartoon - identificado como "Volta ao Normal" de Gerhard Haderer - é o que mais relevante vi/li nos últimos longos tempos. Bateu-me, bem! Encontrei-o no mural de Facebook de Alberto Ribeiro Lyra, um brasileiro com o qual tenho ligação desde os primórdios do FB por razões que já não lembro (conexão moçambicana?, bloguismo?), e que tem um mural magnífico, com constantes pérolas iconográficas, uma inteligência visual rejubilante. (Daqueles casos que me levam a praguejar quando ouço os patetas encartados a resmungarem contra as "redes sociais". Pois nestas, e assumo a arrogância, cada um vê/lê/encontra o que é. E quem só encontra mediocridades é porque é um medíocre, passivo).

Avante, este cartoon bateu-me bem! Porque diz o necessário nesta fase da maldita era covidocena. E, muito mais, nesta minha fase pessoal, aguentem lá este meu quase-porno intimista. O almoço foi singelo e saboroso, endógenos alguns dos comestíveis, verde o vinho, à mesa queridos familiares consanguíneos e espirituais, o dia está soalheiro. Agora vou dar um mergulho. Depois, secar-me-ei e afixarei este arame. A enfrentar o que aí vem. Tenham cuidado comigo! (cuspo, a la Clint).

Obrigado, Lyra. Deste vida ao zombie.

Aquilo do Irão

jpt, 08.01.20

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Não sei o que se passa no Irão/Iraque - e estou certo que não serei o único. Creio que dentro de alguns anos um Oliver Stone mais ou menos o demonstrará, num ritmo mais ou menos trepidante, e com uma visão mais ou menos crítica do sistema americano, e elegendo como herói protagonista e exemplo salvífico um funcionário mais ou menos desalinhado. Trata-se do molde western da (auto)crítica dominante no indústria cinematográfica, de facto seguidora do corberismo de Lampedusa, aquilo mais ou menos do tem que se mudar algo para não se mudar nada ...

Dito tudo isto, e face à iraniofilia que grassa na esquerda portuguesa, muito gostei deste cartoon. O autor é o renomado iraniano Mana Neyestani, há anos exilado em França. É evidente o que o eixo BE-PCP-Livre-PS (MES) dele diz ou diria (se o conhecesse): é um "dissidente", um "agente da Voz da América". 

Os mais novos não se lembrarão desta retórica. Os mais velhos lembram-se, decerto. Dominou durante décadas, de apoio às piores das ditaduras em nome do anti-americanismo e, de facto, da aversão à democracia. Serviu para tudo justificar, para a tantos insultar e perseguir. Continua viçosa, vê-se, pois ""não há nada de novo sob o sol" (Eclesiastes 1:9).

 

Mais claro era impossível

Sérgio de Almeida Correia, 15.07.16

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Duas frases, duas notas, duas pinceladas ou dois riscos, conforme for o caso. A simplicidade da construção, a clareza da exposição, a capacidade de captar a beleza do momento. A ironia permanente. Um génio define-se em poucas palavras e é magistral no resumo. Rios e rios de tinta e papel, horas de conversa morna nas televisões, discursos inflamados, muitos disparates à mistura e, afinal, é tudo tão claro e tão simples. Foi assim esta manhã, no Ponto Fatal. Rodrigo Matos. Who else?