Sobre o elevador da Glória

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Quer se queira, quer não, o resultado da eleição autárquica em Lisboa vai ser decisivo para se saber quem pode cantar vitória na noite eleitoral do próximo dia 12 de Outubro. Pessoalmente estou convencido que se, na noite de 16 de Dezembro de 2001, João Soares não tivesse perdido surpreendentemente a câmara de Lisboa para Santana Lopes, António Guterres não se teria demitido de primeiro-ministro, apesar dos maus resultados eleitorais do PS no resto do país. E a verdade é que a situação em Lisboa está longe de estar decidida.
Apesar do tabu que continua a manter, é evidente que Moedas vai ser candidato, independentemente dos problemas que está a ter em manter a coligação que o apoiou. Só que os lisboetas estão muito insatisfeitos com a sua gestão. Na verdade, Moedas tem sido o zero absoluto como Presidente da Câmara de Lisboa. O lixo acumula-se nas ruas, o trânsito está insustentável, e ele assobia para o lado. Candidata-se, no entanto, a integrar um grupo de peritos europeu sobre a habitação, onde é aceite, provando que o seu coração está em Bruxelas, não em Lisboa.
A sorte de Moedas é ter do outro lado Alexandra Leitão, da ala mais radical do PS, que dificilmente poderá protagonizar uma candidatura vencedora. Quanto ao candidato do Chega, ninguém sabe quem é e provavelmente vai continuar sem saber até ao dia das eleições. Já João Ferreira, que repete pela enésima vez a sua candidatura pela CDU, terá seguramente o mesmo resultado que teve das outras vezes ou ainda pior. Por isso dificilmente algum deles poderá ameaçar a reeleição de Moedas.
No entanto, se surgisse uma candidatura independente credível a Lisboa, acho que Moedas estaria em muito maus lençóis, devido à enorme insatisfação que o seu mandato causou nos lisboetas.


1. Hoje é o "dia de reflexão", esse anacrónico paternalismo estatal que quer impor à imprensa e aos legítimos partidos e associações cívicas o silêncio político-partidário. E que os ignorantes julgam também abarcar o vulgar cidadão. Nos últimos anos o voto antecipado foi-se estabelecendo - li algures que este ano terão sido 300 000 os eleitores inscritos para o fazerem. O próprio PR o fez. Ou seja, o presidente da república eximiu-se ao "dia da reflexão", assim explicitando a sua desnecessidade. Ao fim de dois mandatos, durante os quais nada induziu para terminar este bafiento item da mundividência estatista, atreve-se a votar antes de tempo. É um pormenor? É. Mas é denotativo da vácua superficialidade de Rebelo de Sousa, um penoso desajuste da nossa democracia.
2. Ontem fui a um encontro político - vou votar IL, fui a uma "cerveja liberal". Entre um grupo com cinco interlocutores - dos quais só conhecia um - perguntaram-me o que penso do "almirante" (Gouveia e Melo).
Não mudei de opinão, apenas a sublinhei após a sua intervenção desta semana anunciando a sua candidatura. Assim desvalorizando as eleições legislativas, mostrando que se pensa (e sente) acima dos partidos e até da assembleia da república. Podemos pensar que os partidos vão fracos, contestar a qualidade do pessoal partidário. Mas a democracia faz-se com partidos. Não com homens "acima" dos partidos, julgando-se salvíficos. E, já agora, a sociedade não é um quartel, uma fragata (ou mesmo um submarino), para sermos apostos numa qualquer parada ou convés, a receber instruções emanadas do topo hierárquico. Ou seja, o que o nosso almirante precisa - e nesta semana mostrou-o bem - é de ser posto em sentido. E depois nós, comandantes-em-chefe, poderemos instruí-lo. Num simpático "à vontade" ou mais ríspido "pode retirar-se" (não se diz "destroçar" a um almirante). Entenda-se bem, Gouveia e Melo não é o homem para o lugar... Nem nós-todos somos objectos para um paternalismo estatista militarizado.
Que farei eu? Esperar pelo rol de candidatos e sopesar. Até agora só poderei dizer: malgré tout, votarei Marques Mendes.
3. Estamos em plena campanha eleitoral para as legislativas. A péssima equipa da Junta de Freguesia dos Olivais está desagregada, em compita interna - há pouco abordei o assunto aqui. E de súbito os fregueses são surpreendidos com o anúncio - neste contexto poder-se-á dizer "pela calada" - da extensão do parqueamento pago controlado pela EMEL. O qual agora irá abranger mais zonas residenciais, com algum até decadente pequeno comércio local, e nas quais não há peculiar pressão de estacionamento.
A introdução da EMEL neste bairro tem sido muito polémica, ao longo de anos - como aqui ecoei. Os Olivais têm particularidades: sociológicas mas também geográficas, no seu relevo, na sua extensão, que apartam a sua situação das de outras freguesias urbanas. Em algumas das suas zonas a pressão de estacionamento automóvel decorreu não da estreiteza de espaço mas da radical inexistência de políticas camarárias desde a década de 1990. Desde então foi criada a EXPO 98, a construída a adjacente Ponte Vasco da Gama, introduzidas estações de metropolitano, erguido um sobredimensionado complexo em torno do centro comercial (que fora planeado como um mais modesto "centro cívico"). E proliferaram os serviços internos ao aeroporto. Nada disso foi acompanhado pela introdução de parques de estacionamento. Nada!, repito. A câmara municipal / o Estado abstraíu-se.
Como consequência, em algumas zonas do bairro aumentou a pressão do parqueamento temporário durante os períodos laborais. A solução camarária foi a típica deste nosso Estado: fazer pagar. Alguns dos vizinhos, residentes nas áreas mais pressionadas até defendem isso. Munícipes de outras freguesias apoiam, num pobre "se nós pagamos vocês também devem pagar", desatendendo às diversas características do bairro.
Vivi em Bruxelas - tal como o actual presidente da câmara. Cidade que sofreu tamanho impacto com a tranformação em capital europeia que brotou o termo "Bruxelização" como conceito urbanístico. Onde a pressão do trânsito automóvel é enorme. Mas onde o sistema de parqueamento pago é muito mais diferenciado do que o lisboeta, com alguma criatividade, convocando autoresponsabilização dos automobilistas, e nisso ordenando o parqueamento e o próprio trânsito. Mas não esbulhando o automobilista (e seus passageiros) - como este modelo "cego" a la EMEL faz.
Pois esta EMELização do espaço público lisboeta tem subjacente essa mundividência: os cidadãos são meros pagadores de impostos e taxas, as suas vivências "ordenam-se" fazendo-os pagar. É um esbulho! No caso do nosso extenso bairro implicará redução da mobilidade intra-freguesia, redução de frequência do empobrecido comércio local, e o acréscimo do isolamento dos habitantes mais velhos - e são muitos ainda, nesta freguesia construída durante os 1960/70.
Carlos Moedas pode argumentar que é um presidente minoritário, que pouco pode mudar. Mas a esta questão vital, do "império" das taxas, virou costas. Demonstrando ser mais um "dos do Estado", o partilhar dessa mundividência estatista, altaneira e medíocre. (Uma ressalva: há uma década que não tenho carro, não é por mim que protesto).
Aqui em Lisboa há hoje um jogo de futebol decisivo: o Sporting tenta ganhar o campeonato, um segundo título consecutivo pela primeira vez em 70 anos. Os sportinguistas estão ansiosos por comemorar isso. Encherão o estádio. Carlos Moedas manda fechar os cafés e restaurantes circundantes. Afirma que o faz por conselho policial, para minorar os perigos dos festejos. É a tal mundividência estatista a sobrepor-se. Um paternalismo patético. Há perigo no futebol? Todos sabemos que há - em particular nos "jogos grandes". Então siga-se mesmo esta mentalidade policiesca: proíba-se a assistência, façam-se os jogos "à porta fechada", ficará a PSP descansada. Agora isto, encerrar os sítios onde a rapaziada sportinguista quererá beber um copo para comemorar (ou lavar as mágoas, longe vá o agoiro)? É de uma tacanhez intelectual, de um "estatismo", inaceitável.
Nas últimas eleições não só votei Moedas como muito saudei a derrota daquele Medina. Mas se os restaurantes e bares circundantes do nosso Estádio não abrirem hoje - se a câmara não reverter a decisão - não mais votarei em Moedas. É um pormenor? É. E eu nem sequer irei ao estádio e casas de pasto adjacentes. Mas é também um pormaior porque denota a mentalidade de Moedas, da sua concepção de exercício do poder político. E em assim sendo irei votar noutro, pois estou cansado deste tipo de políticos.
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Carlos Moedas apresentou ontem o seu livro "Liderar com as pessoas" na Fundação Gulbenkian. Neste artigo são abordados alguns aspectos interessantes do que disse nessa ocasião. Desde o seu percurso começado em Beja, passando pelo Governo de Passos Coelho, pela Comissão Europeia até à sua surpreendente vitória das eleições autárquicas que fez dele Presidente da Câmara de Lisboa.
Recomendo o artigo que fala desse percurso e sublinha o seu futuro, o seu potencial como actor público sério e esclarecido. Gostei especialmente de ler o que disse quando lembrou a sua vitória autárquica que aqui partilho:
"No último dia de campanha eleitoral, Fernando Medina tinha conseguido todas as câmaras de televisão, que transmitiram a acção de campanha do PS em directo. Mas, quando eu chego para fazer a arruada, duas horas depois, só havia uma câmara e um jornalista da SIC, que me fez uma breve entrevista de dois minutos, e logo partiu. Descemos o Chiado sem qualquer visibilidade mediática. Aquilo doeu-me. Quando oiço ou leio algumas análises sobre as razões da nossa vitória, as quais alvitram que foi o incumbente a perder ou a abstenção a vencer, sei bem que não têm razão”

Dizia o outro que a esquerda mais estúpida da Europa é a francesa. E provavelmente estava cheio de razão.
Digo eu que a esquerda mais burra de Portugal é a de Lisboa. Acaba de confirmar isso chumbando, pela segunda vez em quatro meses, uma medida emblemática do programa eleitoral de Carlos Moedas - e condenando-a assim ao insucesso.
Uma medida que iria beneficiar muitos jovens - precisamente o segmento populacional de que Lisboa mais carece. A isenção, até aos 35 anos, do pagamento do famigerado IMT - Imposto Municipal sobre Transacções Onerosas de Imóveis - na compra de habitação própria até 250 mil euros.
Ou muito me engano ou estes adoradores de impostos, imbecis como poucos, andam a trabalhar para uma maioria reforçada da direita na câmara de Lisboa antes de se esgotar o prazo previsto para o fim do actual mandato. Já pouco falta para sabermos.

Eu gosto de Moedas. Votei nele, pedi aos meus amigos lisboetas que nele votassem. Não só porque o seu antecessor é execrável (e é, o piorio do PS), não só porque delenda est PS, mas também porque o ouvira, solto, em Bruxelas e ali mostrando-se um tipo com cabedal intelectual - ainda mais excêntrico no patético estado das elites partidárias actuais... Exultei com a sua vitória, na derrota do amigo especial de Moscovo e Tel Aviv (para ele decerto que Jerusalém) e da sua tropa fandanga, essa daquela maluquinha de Arroios, do ex-vereador Salgado, da colunista do "Público" "de referência", do rapazola de Campo de Ourique e por aí afora, toda essa malta que agora sonha acoitar-se sob a dita "Super-Marta"...
Dito isto: alguém me pode explicar o que faz um presidente da câmara (ainda por cima a da capital) metido numa procissão católica?

«Será sempre uma honra e um gosto homenagear o senhor general Vasco Gonçalves. (...) Vamos trabalhar nesse sentido.»
Carlos Moedas, em reunião da Câmara Municipal de Lisboa (27 de Julho)

Foto: António Pedro Santos / Lusa
No dia em que Carlos Moedas toma posse como presidente da Câmara Municipal de Lisboa, digo aqui o que espero dele.
Uma cidade sem carros estacionados nos passeios, forçando os transeuntes a circular no asfalto.
Uma cidade sem paredes cobertas de lixo.
Uma cidade sem porcaria por todo o lado.
Uma cidade sem quarteirões transformados em urinóis.
Uma cidade sem "requalificações" anedóticas e vexatórias.
Uma cidade sem ruas esventradas por obras intermináveis.
Uma cidade onde os edifícios históricos sejam preservados.
Uma cidade capaz de retirar da rua as pessoas sem abrigo.
Uma cidade com rendas de casa acessíveis.
Uma cidade com árvores em todas as praças.
Uma cidade com limites à expansão hoteleira.
Uma cidade que seja amiga dos peões.
Uma cidade sem prioridade absoluta às ciclovias.
Uma cidade onde os transportes públicos funcionem.
Uma cidade onde nunca voltemos a ver uma estação de metro encerrada durante mais de quatro anos.
Uma cidade em tantas coisas diferente da Lisboa de Fernando Medina.

Os políticos deviam aprender muito com as figuras mais emblemáticas do futebol. Sobretudo os que costumam jogar para o empate. Em política, como no desporto, um empate é uma semiderrota. Os grandes do mundo da bola iniciam cada desafio só com o pensamento na vitória. E celebram cada golo como se fosse o primeiro. Repare-se em Cristiano Ronaldo: esta semana marcou pelo Manchester United, na Liga dos Campeões, e parecia um miúdo a festejar numa peladinha de rua. Aos 36 anos, depois de tantos imbecis já lhe terem antecipado um epitáfio que tarda a consumar-se.
«Não há nada mais perigoso do que não correr riscos», ensina Pep Guardiola, um dos melhores treinadores de futebol de todos os tempos. Esta frase – ou um pensamento muito semelhante – certamente pairou na mente de um certo ex-comissário europeu quando há sete meses trocou o conforto do Conselho da Administração da Fundação Calouste Gulbenkian pelo mais incerto dos combates autárquicos: o que se jogaria em Lisboa.
Houve vozes sensatas que lhe recomendaram prudência. Nunca faltam vozes sensatas num país que enaltece o Velho do Restelo. Mas Carlos Manuel Félix Moedas, 51 anos, rumou em sentido contrário: o instinto segredou-lhe que era tempo de desafiar o poderoso aparelho autárquico socialista instalado há 14 anos em Lisboa. Um aparelho cada vez mais arrogante, mais tentacular, mais indiferente ao ruído da rua.
Contra os ventos dominantes, contra os bonzos do comentário político, ele impôs-se a Fernando Medina. Que não era apenas presidente da Câmara Municipal de Lisboa: era também delfim político de António Costa. Duas vitórias numa só.
Esta foi a derrota que mais doeu ao primeiro-ministro: Costa cometeu o erro de transformar o escrutínio autárquico num plebiscito ao seu mandato, nacionalizando-o como nunca.
Foram também derrotados aqueles que, no próprio PSD, recomendaram ao ex-comissário europeu que não se envolvesse na poeira da campanha e deixasse o destino bater-lhe à porta. Um verdadeiro campeão do desporto dir-lhe-ia o contrário: na política, como no futebol, faz a diferença quem assume o risco de talhar o seu destino.
Moedas sai do clássico disputado na capital como vencedor incontestado: as sumidades que lhe anteciparam o epitáfio deviam estar hoje no desemprego.
Tem pela frente um pesado caderno de encargos numa autarquia que passou anos a gerir a capital como se fosse um parque temático para usufruto turístico. Uma Lisboa envelhecida e empobrecida, semeada de canteiros e ciclovias na frente ribeirinha enquanto se degradava nos bairros votados à indiferença pela beautiful people do Instagram. Uma cidade em que quatro freguesias do centro histórico perderam mais de oito mil residentes na última década.
Terá de ultrapassar inércias, bloqueios de todo o género, novas vozes a recomendar-lhe prudência. Fará bem em seguir a máxima de Guardiola: o maior risco é não arriscar. Nunca entrar em campo a jogar para o empate.
Texto publicado no semanário Novo
Ainda sobre as autárquicas, a conquista de Lisboa pela coligação liderada pelo PSD pode ter outras consequências a médio prazo. Dizia-se, aquando da apresentação de Carlos Moedas como candidato, que uma eventual vitória poderia ser um trunfo para Rui Rio mas também uma ameaça, já que o ex-comissário europeu seria então uma forte hipótese para a liderança do partido.
Julgo que esse cenário é improvável. Recém chegado à câmara, e com muito trabalho pela frente, Moedas não deve estar certamentea pensar em liderar o partido. É verdade que a presidência da CML é tida como um trampolim para voos maiores, com propriedade, tendo em conta os casos de Sampaio, Santana e Costa. Mas será ainda muito cedo para pensar em algo mais, até porque não faltam outros candidatos à liderança laranja. De resto, Rio marcou pontos com as suas escolhas certeiras, como Coimbra e Funchal, e, evidentemente, a capital.
É no outro partido do poder que este resultado pode ser mais determinante. Perdida de forma inesperada a governação Lisboa, o seu grande trunfo, Fernando Medina viu certamente esfumar-se qualquer veleidade a chefiar o PS no pós-António Costa. Isso abre ainda mais o caminho a Pedro Nuno Santos, que com a sua combatividade e o conhecimento (e controlo) do aparelho socialista, vê crescer amplamente as suas ambições a liderar o partido no futuro.
Sucede que, a ser este o cenário, aliás provável. Pedro Nuno herdará um PS desgastado pelo poder e pelos inúmeros problemas com que se deparou, alguns por culpa própria. Além disso, representa uma ala mais esquerdista do partido. O sempre decisivo eleitorado de centro, talvez agora menos numeroso, não deixará de olhar para o PSD como alternativa óbvia. Rio ou qualquer outro líder do partido terá então uma boa oportunidade para ganhar o poder, ou pelo menos de ficar em primeiro, a reboque e por via indirecta da conquista de Lisboa.

A capa desta última "Sábado" é ordinária, abjecta. Remete para um texto da jornalista Maria Henrique Espada, que levou o algo desengraçado título "34 Histórias do Senhor 34% em Lisboa". Mas tem uma característica interessante, rara: tudo nela provém do texto mas não tem nada do que está no texto. Pois a capa transmuta os elementos que combina. É assim alquímica. E nisso demoníaca, pois apenas os desvirtua.
De facto, pode-se gostar ou desgostar do texto de Espada mas tem de se reconhecê-lo como curial. Trata-se de uma breve biografia do novo presidente da câmara lisboeta, num registo que é comum na imprensa e, julgo, de agrado dos leitores: isso de mesclar alguns detalhes da vida pessoal com o trajecto profissional e político daqueles que ascendem a posições de destaque. O trabalho assenta numa conversa com Moedas, já após as eleições, e em material de arquivo de imprensa, com ênfase em pretéritas declarações dele próprio. E se a abordagem de Espada é algo neutral, pois o texto não é um panegírico, nela até se detecta alguma simpatia para com o seu biografado. Ou, pelo menos, nem no explicitado nem num hipotético sub-texto se notam verrina ou alçapões para especulações avessas.

O debate na SIC da passada quinta-feira em Lisboa demonstrou que há três corridas na corrida à autarquia da capital. A propriamente dita, a de Fernando Medina para liderar o PS e a de Carlos Moedas para suceder a Rui Rio no PSD.
João Ferreira, no PCP, nem precisa de correr: já está ungido pelo Comité Central. Nestas coisas os comunistas têm muito sentido prático.
Não há demasiado tempo, qualifiquei Carlos Moedas como uma rolha do regime.
Reli o texto, que se baseava numa entrevista de Maria João Avilez (uma socialite do jornalismo político que tem muitas qualidades, mas não as suficientes para estar no meu altar de tais personalidades, um lugar escassamente povoado), e não tenho nada a retirar.
A certa altura, escrevi: Moedas é ainda muito novo e logo que acabe de ornar a Gulbenkian com as suas luzes pode bem ser que regresse à vida pública, através do seu partido de sempre.
Premonitório: Moedas é o candidato do PSD e CDS à Câmara de Lisboa. E tratasse-se apenas de eleger um intendente para os esgotos, arruamentos, jardins, trânsito, parques, licenciamento da construção e o mais de que se ocupam as câmaras, a mim, que não sou cidadão de Lisboa, tanto se me daria. Mesmo que o inenarrável Medina seja o típico autarca socialista: tachos para a família partidária (e, se respeitar a prata da casa socialista, para a propriamente dita), quadros pletóricos de funcionários, políticas urbanísticas e de trânsito erráticas uns dias, asneirentas outros, patrocínio de empresas municipais opacas e sôfregas, etc.; e ainda que tenha uma incomodativa visibilidade pública que obriga o resto do país a lobrigar-lhe a cara atónita e as banalidades de que se alivia, sob pretexto de que é um putativo sucessor de Costa.
Infelizmente, a Câmara de Lisboa não é como as outras: o país bastante, e os locais sobretudo, veem a cidade como a capital do Império que já não é, o centro cultural para o qual não há massa crítica e o sítio onde vive a nata (porque assim se considera, e o resto do país engole sem pestanejar a patranha) da cultura, da moda, da cozinha, do saber, do gosto e das tendências. Tudo óptimas razões, aliás, para parasitar o resto do rectângulo.
Mas é em Lisboa que está o centro do poder político e do económico. E, queira-se ou não (eu não quero, o que importa rigorosamente nada), o colar com que se enfeita o mayor local é interpretado como uma espécie de unção para voos mais altos. Mas isto ainda será o menos. O mais é que o resultado das autárquicas no país, e em particular em Lisboa, tem uma leitura nacional.
E em vez de abundar nos motivos porque é assim, e não de outra maneira, remeto para este artigo de Rui Ramos, de que não compro inteiramente os fundamentos, mas a cuja conclusão adiro: “O país não é Lisboa. Mas pode começar a mudar por Lisboa”.
A mudança é mais difícil porque o Chega!, encandeado pelo destino que julga que vai ter de ser o maior partido, se pôs fora de coligações. E porque a IL, a ser verdade o que conta Helena Matos, que não se costuma enganar, foi tratada com menoscabo por Rio, uma ilustração ambulante do princípio de Peter.
Na minha terra, por cujos destinos tenho um moderado interesse e cuja câmara é encabeçada igualmente por um socialista (as térmitas são um insecto muitíssimo difundido), nem preciso de saber quem é o candidato de direita – é nele que voto.
Assim em Lisboa façam o mesmo. Porque o país tem de mudar e vai mudar, só não sabemos é quando – mas quanto mais tarde pior.
Dos outros países não sei, mas em Portugal as rolhas do regime são uma instituição. Já eram no tempo da Velha Senhora, mas menos e mais modestas, e são legião hoje.
Que são rolhas do regime? São aqueles indivíduos que gravitam à volta do Poder, do que está e do que pode vir a estar, passaram por lugares do aparelho de Estado político, incluindo a Europa desde que se descobriu que era um excelente viveiro de contactos úteis e com um passadio muito melhor do que o nacional (o cidadão quer estupidamente pagar mal aos seus políticos nacionais mas paga principescamente aos europeus por não saber quanto lhe custa) e dele saíram voluntariamente para aterrar em lugares invariavelmente bem pagos de empresas públicas, grandes empresas privadas, bancos, institutos ou outras instituições.
Há dois sítios em que nunca estão: um é a política activa – porque isso os obrigaria a definir claramente correligionários e adversários, e defender lugares com a faca nos dentes; e o outro são as pequenas empresas privadas, salvo as inventadas para servir encomendas do Estado, porque a taxa de mortalidade é grande, a competição assanhada, o Fisco opressivo e o espaço para tretas diminuto.
E costumam falar sobre o quê? Profundidades: a Europa, a Educação, os desígnios, a modernidade, o futuro, as desigualdades, os desafios tecnológicos, a pobreza – ai! que estes grandes temas, se os ouvirmos, ficarão para nós de luminosa transparência.
Carlos Moedas é um destes. E, fatalmente, disse muitas coisas a Maria João Avillez, uma especialista em entrevistas hagiográficas. A própria, ciente de que se eleva na mesma medida em que iça os convidados, nunca poupa nos elogios. E, com Moedas, esmerou-se:
“Carlos Moedas é uma mais valia. Provou-o em Portugal no governo da coligação PSD/CDS; tinha-o demonstrado, fora de portas, muito novo, na banca internacional; voltou a ter-se a certeza disso em Bruxelas, onde durante cinco anos fez o seu melhor. Estabelecendo pontes inovadoras entre o hoje e o amanhã, reteve-se o seu apport na energia e na criatividade usadas como Comissário para a Inovação e Ciência junto da EU”.
Ahem, estabelecer pontes inovadoras entre o hoje e o amanhã parece realmente uma obra impressionante de construção civil retórica, mas talvez não fosse pior inteirar as pessoas do que realmente quer dizer o “apport” que terá trazido à energia, a não ser que o dedo engenheiral e subsidiesco do entrevistado tenha muito a ver com os corrupios no alto dos montes. Quanto à passagem pelo governo PàF não esteve mal, de facto: os camaleões têm, precisamente, a admirável capacidade de se fundirem com o ambiente.
Que diz então o miraculado? Muitas coisas, quase todas vagas, quase todas genéricas, quase todas vácuas – não vale a pena respigar a enxurrada de paleio, salvo nos extractos a seguir (haveria outros, mas o texto ficava demasiado extenso).
“Para isso [para a passagem do invisível para o visível] precisamos de duas grandes mudanças: uma institucional, outra de mentalidades. A mudança institucional é aceitar que é impossível estarmos todos de acordo e que a regra da unanimidade não funciona na maioria dos casos. Há que passar à regra da maioria em certas áreas da fiscalidade e dos assuntos externos. Se isso não mudar, a Europa não se afirmará. Foi isso que falhou na crise dos refugiados. Depois, é indispensável uma mudança de mentalidade: a Europa tem que ser mais assertiva na sua comunicação, sem medo de expor as nossas posições. Temos que comunicar como Europa e não apenas como países”.
Traduzindo: Há que eliminar a competição fiscal, nivelando todos os impostos por cima e reforçando as contribuições para o embrião do supergoverno europeu; e há que anular as diferenças entre Estados e os seus interesses permanentes, a benefício do eixo franco-alemão.
“Tenho muito orgulho em dizer que, na minha área, marquei a agenda da Inovação e Ciência na Europa. Ninguém falava destes temas há cinco anos. Nem nenhum chefe de Estado ou de governo abordava estes temas nos seus discursos políticos. Era uma área vista como um parente pobre das políticas europeias. Hoje não é assim, estes temas estão já ancorados na agenda dos líderes europeus e mundiais”.
Marcou sim senhor. E hoje ninguém em seu juízo, na Europa, faz investigação, inova ou cria sem apoios públicos. Admite-se mesmo a hipótese de as redes sociais do futuro, os telemóveis, o GPS, e a generalidade das inovações tecnológicas, deixarem de vir dos EUA, ou da Ásia, e mudarem-se para a Europa, desde que evidentemente os sucessores de Moedas lhe honrem a herança. No futuro. Porque, no passado, e este abrange o tempo em que moedas foi Comissário, isto é, desde fins de 2014, o que tem a dizer um senhor professor da London School of Economics, sobre a EU, avaliada pela sua quota no produto mundial, ou no volume do comércio, é o seguinte:
“There are various metrics for this. The size of the EU market is clearly one factor, at 16.9 percent (or 14.54 when the UK leaves) of world GDP, the EU weighs in as one of the heavyweights (China 17.1 percent, USA 15.8 percent), but its share is declining. In terms of the share of world trade in goods the EU accounts for 15 percent (excluding intra-EU trade) of world trade (15.7 percent of exports and 2016 and 14.8 percent of imports), but here the EU share has declined more rapidly over the past decade, as has that of the USA. This is an indicator of the shift in the focus of world trade from the Atlantic to Asia Pacific”.
Cabe dizer portanto que a EU tem sido o farol da inovação e ciência – mas o resto do mundo não se tem apercebido, senão a importância da UE pararia de decrescer.
A entrevista abunda em verdadeiros achados de retórica, língua de pau, gabarolice e disparates. Um último:
“Defendo um imposto digital europeu, o que não só seria a forma de impor maior justiça fiscal a empresas americanas que não pagam impostos em território europeu, como uma fonte de receita para o orçamento europeu. Só que para isso é necessária aquela união de que falei há pouco. Precisamos de uma unanimidade sobre este tema, o que é difícil, mas estou convencido de que lá chegaremos”.
Nunca nenhum imposto novo, ou aumento dos existentes, deixou de ser apresentado como um grande progresso em nome de um bem maior; e a engenharia de impostos sempre apresentou os prejudicados como poucos e os beneficiados como muitos, o que pode até no curto prazo ser verdade. Neste caso, o negócio é ainda mais sumarento: beneficiamos todos e os americanos pagam.
Claro que não pagam: ou os clientes europeus deixam de ter acesso ao que agora têm, ou pagarão por isso de uma forma ou de outra.
Enfim, Moedas é ainda muito novo e logo que acabe de ornar a Gulbenkian com as suas luzes pode bem ser que regresse à vida pública, através do seu partido de sempre. É de esperar que este tenha entretanto resolvido os seus problemas, de uma maneira ou de outra. Qualquer uma serve, aliás, porque Passos Coelho “foi o melhor primeiro-ministro desde o 25 de Abril” enquanto “há que reconhecer que o papel de Rui Rio também foi difícil. Estar na oposição em Portugal é dificílimo”.
Vindo de um homem de mão e ex-membro do Governo de Passos Coelho, e um dos maiores apoiantes da defunta coligação PSD/CDS-PP, da intervenção da troika e do acatamento integral e sem questões das "ordens" que esta deu, não deverá ser anedota.
Tudo tem uma explicação, apesar de algumas vezes não ser a que mais nos convém.
1. Espero que os portugueses continuem a seguir com atenção o trajecto político de Marinho e Pinto. Admito que não seja fácil, tal a rapidez com que troca de fato e aparece num novo facto. Se há coisa que um cata-vento político mantenha é a coerência. Sempre a girar, nem dá tempo para avisar.
2. O Sol titula na primeira página de hoje que "Seguro prepara surpresa" e acrescenta que o secretário-geral do PS tem na manga uma "avalancha de entradas nos últimos dias". Aguardo confirmação da cartada. Oxalá que nenhum dos novos esteja já morto e que essa avalancha de entradas não seja mais um acto de homenagem dos sobrevivos. Pensava que a decisão de um indivíduo se inscrever como simpatizante ou militante de um partido era um acto solitário, uma decisão individual, eminentemente livre e racional, tomada no último reduto da solidão, no fundo da sua consciência. Tretas.
3. Carlos Moedas diz que lhe entregaram uma pasta "chave para o crescimento da Europa", depois do novo presidente da Comissão ter dito que as pastas chave foram entregues a mulheres. Não discuto pastas em função do sexo, matéria em que quer Junker quer Moedas estarão mais à-vontade. Penso, sim, que Moedas tem uma boa oportunidade para demonstrar que é bem melhor do que aquilo que aparentou ser no Governo de Passos Coelho. O interesse nacional obriga a que lhe seja dado o benefício da dúvida.
4. O trabalho efectuado tem sido registado. A disponibilidade e vontade de melhorar idem. E pessoalmente só tenho a dizer bem de quem lá trabalha e ali me tem atendido. De qualquer modo, não deixa de ser irónico que seja o antigo chefe de gabinete de Miguel Relvas a dar conta da situação a que se chegou no Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong: menos "treze funcionários nos últimos dois anos (incluindo uma chefia)" e dificuldades "materiais – com estações de tratamento de dados biométricos continua e reiteradamente avariadas – a acrescer à questão de 2014 ser justamente o primeiro ano coincidente com a renovação obrigatória dos documentos de identificação". Fica mais claro porque renovar um cartão de cidadão ou tirar um passaporte leva vários meses. A redução de funcionários não constitui novidade. A recorrência nas avarias da estação de tratamento de dados biométricos sim. Está visto que o secretário de Estado José Cesário, apesar das constantes viagens que faz a Macau, não é o homem indicado para efectuar as reparações nos consulados. Sabe-se que o MNE vive noutro mundo, mas Passos Coelho podia já ter compreendido isso. Perceber de canos não é o mesmo que saber de circuitos de alta tecnologia. A Cesário não se lhe pode exigir mais.
Ao que parece, a República Portuguesa readquiriu o direito de cunhar Moedas.