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Delito de Opinião

O paradoxo de uma auto-proclamada modernidade

Paulo Sousa, 06.11.25

Já foi há uma mão cheia de anos. O motivo que levou a que nos cruzámos várias vezes foi pouco mais do que banal e por isso as conversas demoraram a ir para além do estritamente social, o que só numa ou noutra vez acabou por acontecer. Ela era uma jovem mãe natural do norte do país que trabalhava nos EUA numa das Big Tech e lá foi falando sobre como combinava a vida profissional com a familiar. Um percurso de vida interessante e mais um exemplo de como somos valentes a exportar mão-de-obra qualificada.

Pelo que entendi, será difícil, pelo menos nessa altura seria, sobreviver nessa empresa sem que se abraçasse todas as inúmeras camadas de preconceitos inventados para combater preconceitos. A fauna humana é ali muito diversa, tudo o que seja esquisito deve ser aplaudido e tudo o que não o for torna-se coisa sem pilhéria nenhuma. O slogan dos recursos humanos, não dito mas assumido, parece ser: “Gente normal, shame on you!”

Certa vez, falou sobre uma colega de trabalho que usava hijab e cujo casamento tinha sido arranjado entre os pais dela e do respectivo marido. Que era uma coisa cultural, que se davam super bem e tinham uns filhos muito queridos, e aquilo é assim. Eu, sem comentar, intriguei-me: como se estava a normalizar algo medieval?

Lembrei-me disto há dias quando li, ou audioli, o Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco. A trama anda à volta de Teresa de Albuquerque e Simão Botelho, apaixonados e impedidos de casar pelo pai dela, por ter tal sujeito como pessoa indigna para a sua filha. Em vez desse Botelho, filho de Domingos Botelho, seu rival de há muito, o pai de Teresa arranja-lhe um casamento com Baltazar Coutinho, um primo de Castro Daire. O arranjo não vai por diante e não vale a pena estragar o suspense, podendo dizer apenas que é uma perdição sem fim.

Quem teve de ler e analisar esta obra nas aulas de Português terá ouvido que se trata de um romance trágico, impedido pelas convenções sociais da época. Os amores impossíveis e trágicos eram conduto das obras românticas do século XIX, onde o sofrimento dos amantes e a rigidez das regras sociais nunca faltavam.

Na sociedade portuguesa onde cresci e vivo coisas como estas, casamentos combinados ou impedidos pelos pais dos noivos, serão menos do que raros e socialmente não aceitáveis. Para aqui chegarmos, um longo caminho foi percorrido. Os direitos do individuo foram erguidos contra essas coisas de antigamente. A muçulmana que trabalhava na dita Big Tech até pode ser muito feliz com o marido, coisa que apesar de nunca a ter visto mais gorda espero que se verifique, mas ser acrítico perante convenções que já há dois séculos eram sinal de atraso, é diferente de as aplaudir. Isto entre nós não é normal, e uma coisa é, por não me dizer respeito encolher os ombros e ignorar, outra é propalar que somos tão modernos, tão modernos, que até sentimos necessidade de aplaudir práticas medievais.

O precavido Camilo

João Pedro Pimenta, 13.01.25

O meu confrade JPT, num artigo que se aconselha, sobre a ida - e a cerimónia - de Eça para o Panteão Nacional, exprime no último parágrafo o receio de que Camilo Castelo Branco, ao completarem-se duzentos anos do nascimento, poss sofrer igual sorte. Mas desse destino está o autor de A Queda de Um Anjo a salvo. Por sua expressa e perpétua vontade (antes de se matar?), repousa no Cemitério da Lapa, no Porto, perto da escola onde Ramalho instruiu Eça e o coração de D. Pedro está guardado, sem receio de que o venham incomodar. Não fosse isto e já teria andado em bolandas entre o Porto, Samardã, Seide e o tal Panteão de Santa Engrácia, a não ser que os descendentes e órgãos deliberativos actuais sejam de tal forma insensíveis que não hesitem em violar esta sua vontade sagrada. É pouco provável, mas não impossível, se houver quem ligue mais aos restos mortais como "património cultural da nação" do que como pessoas (s)em carne e osso.

Pode ser uma imagem de monumento

Pode ser uma imagem de monumento e a texto que diz "Jazigo da Familia Freitas Fortuna, séc. XIX Capela com catacumbas, ao estilo neoclássico e com carneiro ao ar livre. Aqui repousam os restos mortais do escritor portugués Camilo Castelo Branco (1825-1890) 1825- Foi com seu fiel amigo, João António de Freitas Fortuna, que autor de Amor de Perdição partilhouo o desejo de ser aqui sepultado, implorando-lhe que nenhuma força ou consideração 0 demovesse de conservar nesta capela, ad perpetuam, as suas cinzas. A morte emenda todos os atos da vida. Camilo Castelo Branco"

O país dos mamarrachos

Cristina Torrão, 06.10.23

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Imagem: Nelson Garrido

 

A polémica, felizmente, não durou muito. O povo decidiu, os ânimos serenaram. E ainda bem. Salvo raras excepções (como quando glorificam ditadores) as estátuas não devem ser removidas de ânimo leve.

Dito isto, e porque tenho uma ligação afectiva com a cidade do Porto, a minha opinião sobre o objecto da discórdia é: feia! Mas não é por causa do nu, ou de incitar ao assédio (não adianta vir com esses argumentos nos comentários). É simplesmente grosseira. O Camilo está péssimo, destituído de dignidade. Parece um avozinho caquético, deslumbrado por uma menina nua, aproximando-se dela, com o pretexto de a proteger do frio. É isso que me vem à cabeça, quando olho para a estátua.

Além disso, não tem nada a ver, mesmo nada, com o romance Amor de Perdição. Nem sequer com o conjunto da obra de Camilo, ou com a sua vida. Camilo não era nenhum D. Juan, ou Casanova. A sua relação com Ana Plácido causou polémica por se tratar de adultério e os dois terem ido parar ao calabouço. Superado esse período negro, porém, eles levaram uma vida normalíssima.

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Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, com um dos filhos – Imagem Rádio Portuense

 

E, se Camilo não era nenhum Casanova, Ana Plácido estava longe de ser uma Vénus. A que se acrescenta o facto de não ter sido muito mais nova do que ele, como sugere a estátua (para quem a identifica com a figura feminina). Cerca de seis anos separavam os seus nascimentos. E envelheceram juntos, como a maior parte dos casais.

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Camilo e Ana Plácido já "entradotes" – Imagem Museu Virtual do Tribunal da Relação do Porto

 

Diz o autor da estátua que a menina representa as musas de Camilo. Todos os artistas têm as suas inspirações. Mas o nosso escritor das musas é o Luís Vaz (e fico-me por aqui, para não rimar), que, tendo vivido numa época mais recuada, sobre a qual as informações são escassas, convida mais à criação de lendas e mitos.

No fundo, esta estátua não passa de um mamarracho. O povo decidiu bem? Decidiu. Há tantos mamarrachos espalhados pelo nosso país, que não se justifica o trabalho de remoção de um deles.

Camilo merecia melhor? Oh sim, merecia! Mas já Cristo nos disse: «Um profeta é respeitado em qualquer lugar, menos na sua terra, entre os seus parentes e pela sua própria família» (Marcos 6:4).

É mais fácil lutar contra as estátuas do que contra palermas

Paulo Sousa, 15.09.23

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Entre a memória e o esquecimento, entre a homenagem e a intolerância pela “pornografia”, entre os sentimentos permitidos e os sentimentos sentidos…

A Câmara Municipal da Antiga, Mui Nobre e Sempre Invicta Cidade do Porto, podia ter optado por simplesmente limpar as cagadelas dos pássaros e os autocolantes colocados pelos turistas, mas preferiu limpar a estátua toda.

Uns calhordas. Uns morcões.

Patriarcado

Cristina Torrão, 28.05.21

A propósito da dominância dos homens sobre os outros seres humanos e sua consequente impunidade, lembrei-me de algumas histórias passadas na aldeia de origem do meu pai, perdida nos montes transmontanos, no concelho de Macedo de Cavaleiros. Das que conheço, escolhi quatro, todas passadas durante a primeira metade, ou meados, do século XX. Achei interessante apresentar testemunhos deste contexto especial, porque, devido ao isolamento da aldeia até aos anos 1970, a justiça raramente lá chegava. Era um mundo fechado. E este acaba por ser um retrato da nossa província, pois em todo o lado haveria casos semelhantes. 

1 - Um pastor passava o Verão com o rebanho no monte, não ia dormir a casa meses a fio. Uma sua filha costumava ir levar-lhe a comida, todos os dias, começou a fazê-lo com cerca de dez anos, uma caminhada de várias horas, tanto a ida, como a volta. Quando tinha 12 ou 13 anos, engravidou do pai. Aquele era um tempo cheio de superstições, o fruto resultante de uma relação incestuosa era considerada diabólica, ou coisa parecida, e a miúda foi escondida/isolada durante toda a gravidez. Não consta que o pai dela sofresse restrições ou censuras. O meu pai, que me contou esta história, também não faz ideia do que foi feito ao bebé. Só sabe que desapareceu.

2 - Uma mulher, à volta de quarenta anos, acabou por morrer devido aos maus tratos infligidos pelo marido e deixou seis filhos entre os dois e os dezasseis anos. O homem ficou impune e tornou a casar. A sua segunda mulher não quis os filhos do primeiro casamento, só ficou com a mais pequena, de dois ou três anos. Os outros foram simplesmente abandonados. Os padrinhos dos dois meninos levaram-nos para as suas casas. Das meninas ninguém quis saber. O pai das crianças ficou impune também por este crime, ninguém o denunciou às autoridades. A filha mais velha, de dezasseis anos, tinha um namorado, com quem ficou a viver, e levou consigo uma das irmãs. Mas eram muito pobres, não podiam ter mais ninguém a cargo deles. Outra irmã, de doze anos, foi trabalhar numa pensão, em Macedo de Cavaleiros. Acabou por casar aos quinze com um cliente dessa pensão. A mais nova, que ficou em casa do pai e da madrasta, era sujeita a muitos maus tratos por esta. Uma vez, deu-lhe tal tareia e deixou-a tão pisada (a menina tinha três anos!), que duas senhoras da aldeia, ricas e moradoras em Lisboa, tiveram pena dela e levaram-na consigo (foi assim que me contaram, não sei mais pormenores). Pelos vistos, não se deram com ela e acabaram por a entregar à Santa Casa. A miúda fugiu, em adolescente, e terá enveredado por uma vida de prostituição.

3 - Numa casa rica da aldeia, faziam-se serões de fado, a que assistiam várias famílias, também a do meu pai, criança, à altura. Cantavam e dançavam. Um dos cantores/tocadores de guitarra fugiu para Angola com uma das mulheres que costumavam participar nesses serões. Ela era casada e deixou duas filhas de seis e oito anos com o pai. Poucos dias depois de a mãe desaparecer, a mais velha surgiu morta. Estranhou-se muito este caso, pois não se conheciam doenças à miúda. Passados mais alguns dias, surgiu morta a mais nova. Desconfiou-se do pai. Mas ninguém o denunciou às autoridades, não foi aberto nenhum inquérito. As meninas foram enterradas e o pai continuou a sua vida. Tornou a casar e a formar família.

4 - Um homem de outra aldeia foi trabalhar para a do meu pai como sapateiro. Deixou a mulher e os filhos na sua aldeia de origem e engraçou com outra, na localidade de acolhimento. Começou a assediá-la, mas ela recusou-o sempre. Até que a paciência dele se esgotou. Um dia de manhã, foi a casa dela munido de um machado e começou a agredi-la. A vizinha deu conta e foi ajudar a amiga. Acabou por morrer com uma machadada. Entretanto, surgiu mais gente, o homem acabou por ser controlado e a mulher que ele tencionara matar sobreviveu, apesar dos muitos ferimentos infligidos. O assassino cumpriu pena, não havia como ignorar o seu ato. A mulher que ele matou deixou seis ou sete filhos, o mais novo tinha quatro anos.

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Freguesia do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros, anos 1960

 

Camilo Castelo Branco também nos fala da violência que, no seu tempo, imperava nas relações humanas. Da leitura de Amor de Perdição, não foi o caso amoroso que retive, mas sim, a violência extrema no seio das famílias e a forma vergonhosa como as filhas eram tratadas:

«- Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Baltasar, minha filha. É preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pai. Logo que deres este passo difícil, conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência. Mas repara, minha querida filha, que a violência de um pai é sempre amor (p.33)».

«Não sofras com paciência», diz Simão numa das suas cartas a Teresa, «luta com heroísmo. A submissão é uma ignomínia, quando o poder paternal é uma afronta» (p. 67).

«Que a não desejava morta, mas, se Deus a levasse, morreria mais tranquilo, e com a sua honra sem mancha»  (p. 103).

 

Nota: a paginação diz respeito à edição ebook disponível no Projecto Adamastor.