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A calçada ou a vida?

por André Couto, em 20.02.14
Anda tudo aos saltos com as petições contra a retirada da calçada portuguesa de Lisboa, como se alguém tivesse anunciado isso. O que foi anunciado, e bem, foi a sua restrição, em alguns pontos da Cidade, nos quais ela não represente uma mais valia. Lisboa é terra construída sobre colinas e, nos últimos anos, padecendo de um envelhecimento galopante. Campolide, bem no centro, por exemplo, recebe diariamente centenas de turistas. Vêm pelo Aqueduto das Águas Livres, pelo Corredor Verde de Monsanto ou pelo Palácio da Justiça. Nenhum, no entanto, vem pela calçada portuguesa que ocupa a quase totalidade das ruas. Ali raramente se encontra a alternância entre o calcário branco e o calcário negro, que nos proporciona obras de arte como a retratada na imagem. Ali a calçada é tão só composta por cubos do branco, cujo passar das décadas se encarregou de puxar o lustro e tornar em superfícies aptas à patinagem artística, em especial durante os períodos de chuva. Em Campolide, e na maior parte da Cidade de Lisboa, a calçada portuguesa não é arte nem atracção, é um perigo público, um atentado à segurança daqueles que, mais velhos ou mais novos, na fragilidade física da idade ou na pressa dos dias, nela se espalham e acumulam mazelas e problemas físicos que, em muitos casos, são irreversíveis. Sou testemunha de Vizinhos que se magoaram e que, com outro piso, seriam ainda hoje cidadãos autónomos e com qualidade de vida. Nestas zonas da Cidade não há calçada que valha mais do que a segurança e a saúde das pessoas. Ao limitar a calçada às zonas onde ela é efectivamente apreciada, executada com arte, e alvo da atenção turística de estrangeiros, nacionais ou Lisboetas, a Câmara Municipal está a cuidar das pessoas, e a preservar o património cultural. É lá que ela deve ser conservada e estimulada, nos outros pontos vamos cuidar da segurança e da vida dos nossos.

Por fim sugiro ainda um exame de consciência: quantos daqueles que assinam as petições não estacionam os seus automóveis em cima da sacrossanta calçada, um pouco por toda a Lisboa? É como a petição do Cinema Londres: quantos dos que assinam lá foram nos últimos, vá, cinco anos? Não é só bater com a mão no peito e rasgar as vestes, convém ser consequente no dia a dia...

Da descaracterização de um país

por Ana Vidal, em 06.11.13

"Havias de os ver, havias de os ver. Mestres sem assinatura é o que eles sempre foram e continuam a ser, mais hábeis e pacientes como nenhuns. De martelinho sagaz, aparelham pedaços de basalto na concha da mão que depois implantam na brancura dos passeios como quem implanta diamantes negros. Capricham nos artifícios, são tão mestres na figura livre como no traçado geométrico e se for preciso vão até às inscrições caligráficas num rigor de compêndio emplumado. Calceteiros. Em inglês não sei como se diz mas eu chamar-lhes-ia ilustradores ou joalheiros de calçadas, se não fosse literário de mais chamar-lhes assim. São eles, fica sabendo, que embelezam e combrem de memórias os caminhos que nós, os de Lisboa, cumprimos todos os dias."                                                                                                                                                 

José Cardoso Pires, in "Lisboa - Livro de Bordo"


Eu chamar-lhes-ia desempregados ou emigrantes, que é menos literário mas muito mais duramente real.


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