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A direita má

por Luís Naves, em 02.11.18

Neste artigo, o uso da linguagem é instrutivo. David Dinis considera que só há duas direitas, uma má e outra boa. A má é soberanista, nacionalista, anti-imigração (aqui na paróquia quer a vingança de 2015), além disso tem programas ideológicos, discursos identitários, detesta o politicamente correto e promove a divisão.

A direita boa, além de liberal, não é muito caracterizada no artigo; presume-se ser contrária a tudo o que é mau, entre outras, as ideias de soberania, de nação e de identidade. A direita boa será talvez patriota e europeísta, defensora das decisões burocráticas de Bruxelas, das limitações de soberania, tendo elevada consideração pelo politicamente correto. As crispações políticas não são apreciadas, nem os discursos identitários. Para se pertencer à direita civilizada, é obrigatório ser pró-imigração ou não ter opinião sobre o tema.

Este é, em resumo, o único espaço de direita que se pode ocupar em Portugal. Tudo o resto é o horror. Na Europa, as coisas são um pouco diferentes, pois o centro-direita está dividido em relação a duas possíveis estratégias e há discussões sobre a melhor escolha a fazer.  

A mudança política em curso tem na sua raiz a rebelião eleitoral contra os partidos tradicionais, a irritação dos eleitores com os meios de comunicação, o descontentamento com a globalização e com políticas de imigração incompetentes, que atingiram os mais pobres e estão a causar um poderoso descontentamento entre as classes baixas.

Nas duas décadas anteriores à crise, os partidos conservadores deslocaram-se para o centro e tentaram assumir a identidade liberal, mas os eleitores agora discordam, sobretudo devido ao choque da grande recessão e da crise migratória. É evidente que o eleitorado se radicalizou, que está provavelmente a virar à direita, aceitando hoje argumentos que, nos anos 90, os conservadores consideraram fora de moda e deixaram ao abandono, o que foi aproveitado pelas então minúsculas formações da extrema-direita ou pelos populistas, que agradeceram e engordaram.

Ou seja, aparentemente não existe nenhuma guerra, há um dilema: o centro-direita pode continuar a sua caminhada para o centro, para se aliar a partidos liberais (a aliança franco-alemã é basicamente isso) ou tenta reocupar o espaço da direita, voltando às suas origens de nacionalismo, valores tradicionais, conservadorismo social (o modelo austríaco). Na primeira opção, os partidos da direita moderada deixam crescer a extrema-direita; na segunda, têm de perder os tiques de elitismo e arriscam-se a enfrentar a hostilidade feroz dos meios de comunicação. O que acho menos saudável neste artigo é quando este liberalismo coloca tudo em termos de sim ou sopas, de tudo ou nada, não deixando qualquer espaço para discutir, antes pelo contrário, diabolizando uma direita possível, que quer ficar fora da ortodoxia da época.

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Talvez seja o provincianismo e o atraso

por Luís Naves, em 30.10.18

Por todo o lado, sobre os assuntos mais corriqueiros, é possível observar a tendência para o pensamento mágico e para a reflexão de sacristia. Repetem-se ideias feitas e recitam-se argumentos moles. Nas redes sociais, ninguém quer destoar das boas intenções, o que não teria mal algum, se não fosse a imposição de uma mentalidade dogmática, quase feroz, que não tolera o mínimo desvio da ortodoxia. Se calhar, Portugal nunca deixou de ter uma sociedade incapaz de suportar a dissidência, o espírito inconformado e a percepção inquieta, tal como é visível nos velhos romances de Camilo, onde as personagens muitas vezes esbarram com hipócritas, pregadores de banalidades ou estreitas visões fradescas. Não tenho boas explicações para a intolerância intelectual portuguesa: talvez seja o nosso provincianismo, o atraso, o pouco hábito que temos de pensar pela nossa cabeça, ou antes, o desincentivo que existe para que cada um pense pela sua cabeça, pois que a independência é sempre olhada com desconfiança, quando não é recebida com hostilidade.

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A grande viragem

por Luís Naves, em 29.10.18

O poder tem regularmente inversões de ciclo, quando os eleitores rejeitam a ordem vigente e escolhem, no meio de grande resistência, uma nova geração de políticos que reflecte as novas gerações de pessoas. Estamos a assistir a uma dessas viragens regulares, muito semelhante à que ocorreu no final dos anos 70, inícios dos anos 80, quando os governos do mundo industrializado foram varridos pela vaga liberal, na altura chefiada por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Tudo o que recordo desse tempo é semelhante ao que vemos agora. A simples intenção de tentar perceber os factos suscita reacções de grande violência retórica por parte daqueles que não aceitam qualquer mudança e que tentam defender o mundo anterior. E, no entanto, as sociedades viram as páginas que querem virar. Em várias democracias avançadas, (o movimento começou no Reino Unido, alastrou aos Estados Unidos) significativas franjas do eleitorado rejeitaram a ordem instituída e votaram a favor de projectos nacionalistas, que defendem o recuo da globalização, a limitação das migrações, o regresso daquilo a que chamam os valores tradicionais, além do reforço da soberania, incluindo no plano económico. Esta é, de alguma forma, a inversão do ciclo liberal da era de Reagan e Thatcher, mas há também a recusa veemente dos avanços sociais ligados ao Maio de 68, os quais visavam contestar as estruturas da autoridade e negar a moral dominante. A ordem instituída (jornalismo, mercados, partidos) tenta travar a enxurrada diabolizando o adversário emergente. Foi o que aconteceu nos anos 80, quando o tsunami liberal era classificado abaixo de fascismo. A definição estava errada, como se viu, e o novo poder alastrou um pouco por todo o lado, tornou-se a ortodoxia, acelerou a globalização, derrubou o Muro de Berlim e, agora, depois de mostrar os seus limites na Grande Recessão, é a velha ordem que ameaça ser substituída.

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A divisão europeia

por Luís Naves, em 24.10.18

Quem acredita que a União Europeia é uma construção sólida deve ler este artigo de Timothy Less, na revista The New Statesman. O autor explica o que está na base da rebelião contra a ordem liberal construída nos últimos cinquenta anos, indo muito além das teses simplistas que tenho tentado criticar aqui no Delito, para grande incompreensão de alguns leitores. Há na Europa um conflito cada vez mais evidente entre a visão progressista liderada por Macron, de uma união cosmopolita e multicultural, em integração acelerada orientada pelas potências, em oposição à tese conservadora, liderada por Orbán, que teme a diluição das identidades nacionais, o poder das burocracias não-eleitas e as migrações em massa. Parece muito lúcida a passagem sobre os eventuais efeitos da próxima recessão e os possíveis cenários de cisão na Europa, sobretudo a hipótese de tudo evoluir para um núcleo duro, onde não vão caber as periferias.

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O maior problema da democracia

por Luís Naves, em 02.10.18

O maior problema da democracia não está em reconhecer a vontade popular. Essa questão sempre existiu e os políticos que a ignoram estão por sua conta e risco, condenados à inevitável punição eleitoral. O maior problema das democracias contemporâneas é a captura das instituições por interesses especiais. Todos os conflitos importantes a que assistimos têm a ver com este fenómeno: na Catalunha, na União Europeia, nas presidenciais brasileiras ou nas nomeações para o Supremo Tribunal americano. Minorias mobilizadas, com influência nos meios de comunicação, nos partidos, nos mercados ou nas academias, tentam conquistar posições de controlo nas instituições que regulam a sociedade, manipulam a nomeação de juízes ou travam políticos emergentes, ignorando todas as opiniões contrárias. Na Catalunha, por exemplo, os independentistas são a minoria, mas tomaram conta das instituições regionais e da televisão pública, diabolizaram todos os que pensam de outra forma e não se incomodam em destruir a convivência. Esta semana estamos na fase final de um caso extraordinário da política nos EUA, onde um juiz nomeado para o supremo tem a sua vida devassada, acusado de ter cometido uma agressão sexual quando tinha 17 anos: ninguém discute a veracidade do caso ou os méritos do juiz, mas se bebia ou se esteve envolvido em lutas de bares durante a adolescência. A política transformou-se numa luta permanente, onde grupos minoritários tentam impor as respectivas agendas a todas as instituições, pequenas e grandes, sejam órgãos políticos ou associações, escolas ou empresas, júris de concursos ou cargos de liderança, espaços de comentário e até nas organizações que nada representam, mas que podem tornar-se úteis para a causa. Uma vez conquistada a instituição por estes interesses especiais, não entra ninguém de fora.

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O estado da arte

por Luís Naves, em 29.09.18

Discute-se muito se os penduricalhos de Mapplethorpe são arte ou censura, mas podíamos talvez discutir o estado da arte, os teatros vazios e os teatros fechados, as livrarias a abarrotarem de subprodutos, a indigência do cinema, as instituições subfinanciadas, a falência imparável dos jornais. Devíamos questionar o estado da arte, se temos uma literatura exportável, se as bibliotecas renovam as colecções, se os museus estão seguros, se os artistas nacionais trabalham de borla, se o ensino artístico melhorou ou se é melhor que os talentos procurem outros países. Podíamos discutir isto, mas mergulhámos numa espécie de sonambulismo, a debater os méritos da fotografia americana, tema que teria inegável interesse, se os bárbaros não estivessem já instalados deste lado da muralha.

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A vaga anti-democrática europeia

por Luís Naves, em 13.09.18

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Confesso a minha perplexidade em relação ao que se passou no Parlamento Europeu, assunto a que o jpt faz referência aqui, e sobre o qual tenho lido textos verdadeiramente delirantes na imprensa portuguesa. Não imagino a lógica do voto do PCP, admito que seja a enunciada no post, mas julgo que isso é uma discussão muito cá da paróquia. Sou jornalista há trinta anos, fui repórter em três guerras e nunca assisti a tal dissonância entre realidade e percepção pública, como aconteceu neste caso do relatório Sargentini e da ameaça de suspensão de votos que paira sobre o governo húngaro. O relatório que os eurodeputados aprovaram é uma estranha mistura de mentiras, opiniões e histórias antigas, ultrapassadas após cedências já feitas pelo governo acusado. O relatório cria uma narrativa falseada da realidade e, tal como o PM húngaro disse nos sete minutos que lhe deram para falar, o resultado estava decidido à partida. A aprovação do documento teve mais a ver com a relação futura entre Alemanha e França, com as angústias do centro-direita antes das eleições europeias ou com a histeria federalista. Uma coisa é certa: um país de pequena dimensão foi punido de maneira exemplar, num sério aviso a todos os pequeninos que se atrevam a sair da linha justa. É um exemplo do que se pretende para a nova ordem europeia.

 

 

 

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A razão dos senhores do Castelo

por Luís Naves, em 12.09.18

Um dos maiores problemas da União Europeia é sem dúvida o défice democrático e de transparência no processo de tomada de decisões. Já aqui escrevi que a UE contemporânea faz lembrar o genial romance de Franz Kafka, O Castelo, onde não se entende muito bem como funciona a hierarquia, quem manda nela, como se decide e que intenções têm os burocratas que a compõem, muito menos se percebe a quem respondem e quem os controla. Os eleitores não são ali chamados. A UE tem um percursor, a monarquia dual austro-húngara, que era uma entidade política genuinamente multicultural, onde conviviam povos diferentes, em língua e religião, mas numa harmonia invulgar nessa época. O império era democrático, próspero e relativamente pacífico (suicidou-se por causa da insensatez de alguns idiotas), mas tinha fortes contradições, como bem assinalaram os grandes escritores que viveram neste espaço político. Tal como Kafka fantasiou a partir dessa realidade, há hoje contradições na UE que desafiam a razão. Como se justifica que um presidente da Comissão consiga no mesmo discurso dizer aos britânicos que estes, ao saírem da UE, não podem pertencer ao mercado único (que ajudaram a construir e do qual cumprem todas as regras), e nas frases seguintes o mesmo presidente defenda a ratificação urgente de acordos de livre comércio com países terceiros? O Canadá, por exemplo, verá anuladas as tarifas a 98% dos produtos transaccionados. A Noruega, que não é membro da UE, tem acesso pleno ao mercado único. O Japão negociou um acordo de livre comércio (e ainda bem que o fez). Ora, os ingleses, que, repito, cumprem toda a legislação, têm direito a um Brexit punitivo e os comentadores aplaudem, contentes com esse evidente absurdo. Se isto não se parece com os senhores do castelo, então é parecido com o quê?

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A Era da fragmentação

por Luís Naves, em 11.09.18

Os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 ficaram na memória de todos, mas o que verdadeiramente mudou as nossas vidas foi a crise financeira que começou em Setembro de 2008, com o colapso do Lehman Brothers. A partir daí, vivemos uma época de fragmentação acelerada, caracterizada pela estagnação económica (a década perdida), a aparente dissolução dos valores, a mediocridade da política, a crispação do discurso da intolerância, o estilhaçar das classes sociais, o antagonismo sem ideologia e a irrelevância das vozes moderadas. Nestes últimos dez anos, tivemos a sensação de viver numa espécie de época pantanosa, em que se acentuou a ideia do próprio declínio da cultura, como se não houvesse rumo. A grande recessão teve causas complexas e nunca li uma explicação convincente. Aliás, os académicos ainda hoje discutem as causas da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e talvez seja preciso esperar um século para que se compreenda o fenómeno que nos atingiu. Ora, se ainda hoje não entendemos inteiramente o que aconteceu, quem nos garante que já terminou o ciclo? Podemos conceber novos espasmos do processo, em que se acentuam divisões sociais e cresce o fosso entre vencedores e vencidos, em que ocorrem novos episódios de segmentação, em que voam estilhaços das classes sociais e saltam pedaços de tribos e de clãs, acentuando choques e contradições da época. Depois da fragmentação, haverá outra tendência, talvez até a contrária, mas uma coisa é certa: o mundo que estamos a construir será muito diferente daquele de onde saímos.

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A grande transformação

por Luís Naves, em 10.09.18

Na Europa Ocidental estamos a assistir a uma transição política que pode até ser o início de uma grande transformação. A mudança é alimentada pelo descontentamento de uma franja assinalável do eleitorado, a metade mais pobre da chamada classe média, que foi a parte derrotada na recente crise. Os motivos da insurreição são complexos e levarão anos a ser compreendidos, mas podem estar relacionados com o impacto de novas tecnologias, a contracção dos generosos sistemas de protecção social, a degradação dos serviços públicos, a insegurança física que muitas pessoas sentem nas próprias cidades e a pressão salarial dos migrantes. É fácil observar que cada um destes fenómenos tem maior efeito sobre pessoas mais pobres, as que vivem em bairros sociais ou as que dependem de empregos menos qualificados, a antiga classe operária, que os partidos de esquerda abandonaram. Em todos os países ocidentais, parte substancial da classe trabalhadora empobreceu, as fábricas mudaram de local e os empregos criados são mal pagos. A revolta que se designa como populista será a resposta dos eleitores à crescente insegurança, mas é também uma reacção a problemas concretos que as chamadas elites se recusam a reconhecer. Quando falo em elites, refiro-me ao conjunto de partidos tradicionais, burocracias e organizações, hierarquias académicas, grupos de influência empresarial, de intelectuais e vedetas mediáticas, ou seja, a bolha do topo, cuja narrativa da realidade rejeita qualquer argumento dos descontentes, desprezados como xenófobos, nacionalistas, irracionais, até como fascistas. É como se o voto destas pessoas já não contasse.

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O dilema dos conservadores

por Luís Naves, em 05.09.18

As eleições de domingo na Suécia ilustram o dilema dos partidos de centro-direita europeus, que se arriscam a ficar afastados do poder se mantiverem a recusa em negociar coligações com os populistas, sendo a alternativa fazer alianças perigosas com a sua direita e adoptar temas controversos, como por exemplo restrições à imigração. A questão lembra o provérbio brasileiro: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. O actual governo sueco é de esquerda e minoritário, coligação entre social-democratas e verdes, dois partidos que vão ser muito penalizados nas urnas. Ficarão provavelmente na oposição. A acreditar nas sondagens, a soma das duas formações descerá de 38% em 2014 para menos de 30%. O maior dos partidos conservadores, por seu turno, recebe uma sova eleitoral da mesma ordem de grandeza, mas o bloco de quatro partidos pode somar 35%, o que só dá para um governo minoritário instável. A transferência de votos beneficia o partido Democratas Suecos (SD, populismo de extrema-direita), que surge nas sondagens com valores entre 17% e 19%, mas também o Partido da Esquerda (extrema-esquerda), que pode duplicar a sua votação, para mais de 11%. Um em cada três suecos votará num destes dois partidos radicais, sinal da paisagem tradicional totalmente transformada. Em 2010, havia na Suécia dois blocos políticos, agora há quatro: populistas, centro-direita, centro-esquerda e esquerda marxista, com os dois do meio a registarem enormes perdas. A confirmarem-se as sondagens, estas eleições podem resultar num governo minoritário (de esquerda ou de direita) ou numa coligação centrista, mas as duas soluções juntam partidos penalizados nas urnas e que continuarão no poder a ser cortados às postas. Neste cenário, os conservadores do bloco de centro-direita terão a tentação austríaca de se juntarem aos populistas. O problema vai colocar-se também em França para os Republicanos, cuja derrota se deveu à rivalidade com a Frente Nacional. Em Itália, a fusão entre populistas e conservadores já está a concretizar-se, pois a Liga de Mateo Salvini (origens na extrema-direita) continua a avançar no eleitorado do centro, com as intenções de voto já acima de 30%. A Forza Italia de Berlusconi, que teve 14% nas eleições de Março, está reduzida a metade. Nas eleições europeias veremos mais episódios do problema da direita conservadora: como lidar com o avanço dos populistas? Fazendo alianças ou mudando os temas de campanha?

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Matéria escura

por Luís Naves, em 03.09.18

Em Portugal, os escritores são solicitados para falar sobre tudo e um par de botas, mas normalmente nem sabem o que os faz escrever e desconhecem o mecanismo que os leva, por vezes, a conseguir tocar ao de leve em alguns dos mistérios essenciais do seu mundo. Isto funciona um pouco como os telescópios. Há telescópios ópticos que captam a luz visível, há outros aparelhos que detectam infravermelhos ou radiação ultravioleta. Cada um destes equipamentos permite ver uma versão da realidade, mas apenas parte limitada do universo. Assim funcionam as ciências sociais e a filosofia, cada uma a captar determinado espectro da luz. E, no entanto, sabe-se que no universo existe matéria escura, que continua invisível para a tecnologia. Ora, a literatura pode explorar o que as ciências não atingem. Perguntar aos autores pela matéria visível não tem grande lógica, pois eles são melhores a detectar matéria escura, ou seja, a parte enigmática da humanidade, e piores a pensar sobre aquilo que já é conhecido. Sem perceberem ao certo como o fazem, os ficcionistas podem entender uma parcela da essência do seu tempo, mas sempre no território do enigma e do que se oculta nos interstícios da realidade. Quando os interrogam sobre matéria que possa ser estudada, como a explicação de um país ou a descrição da sociedade, têm geralmente telescópios imprecisos.

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A mó de baixo

por Luís Naves, em 02.09.18

Parece ser uma daquelas regras absurdas da vida, mas quando uma pessoa está na mó de baixo recebe sempre mais críticas, seja de desconhecidos, de familiares ou de amigos com boas intenções. Dizem eles que deve haver alguma coisa de errado com alguém que pareça um óbvio fracasso: esforços inúteis, esforços insuficientes, ilusões ou caminhos que não dão em nada. Enfim, algo estará errado, e então aparecem aqueles conselhos que já foram explorados, aquelas observações que já foram pensadas, as ligeiras críticas veladas que mandam a auto-estima ainda mais abaixo. Não tens qualidades para o que tentas fazer ou vives numa estúpida mania de grandezas, enfim, não te sabes avaliar e quando insistes num plano estás a bater com a cabeça na parede. Se a tua vida é um buraco, então pára de escavar, dizem os amigos; se não funciona este caminho, não insistas, mas por outro lado não fiques a dormir a sesta, à espera que os teus problemas se resolvam sozinhos, embora isso (no teu caso, mas só no teu caso) não seja inteiramente má ideia, pois é preferível não dares nas vistas, fingires que está tudo bem, sorrires e confiares. A mó de baixo é culpa de quem lá está, portanto, é culpa tua. Para ti, a fasquia estará sempre mais alta, pelo menos até deixares de ser um desgraçadinho. Ah, e não critiques ninguém, pois no teu caso só pode ser inveja.

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Não vos queria deprimir

por Luís Naves, em 01.09.18

Tenho lido numerosos artigos sobre a Hungria com graves erros de interpretação, a ponto de não haver, neste momento, qualquer coincidência entre a realidade e a percepção da nossa opinião pública. Com a lenda à solta, torna-se difícil explicar factos básicos.
Estive recentemente um mês na Hungria, atento ao que se conversava e publicava. O acontecimento mais relevante foi o anúncio, pela BMW, da intenção de construir em Debrecen uma grande fábrica de automóveis. Em 2016, existia no país uma única fábrica automóvel de grande dimensão (Daimler-Benz) e três médias (Audi, Opel e Suzuki). Entretanto, a Audi alargou a sua unidade, que já é maior do que a da Mercedes, e esta última marca começou a construir uma nova fábrica, separada e da mesma dimensão, ao lado da primeira. Com a da BMW, haverá quatro Auto-Europas na Hungria. A partir de 2020, serão exportados mais de um milhão de automóveis por ano, eléctricos e convencionais.
Há seis mil empresas alemãs na Hungria. As razões para este interesse são diversas. O famoso regime ‘iliberal’ do primeiro-ministro Viktor Orbán inclui IRC de 9%, impostos baixos, energia barata, trabalhadores qualificados, ética de trabalho, escolas de engenharia de qualidade, a taxa social única que em Portugal quase derrubou um governo; também se introduziu por lá um flat tax, combateram-se as rendas excessivas, há pouca burocracia, justiça célere, pleno emprego e grande facilidade em despedir. O país está perto dos mercados e muitos trabalhadores falam alemão. Outro factor é a estabilidade: a classe média nunca esteve tão satisfeita, a economia cresce a ritmo superior a 4% e algumas das políticas mencionadas estão na Constituição.
Os fundos comunitários não foram gastos apenas em projectos nacionais, mas têm servido para construir ligações que permitem integrar depressa toda a região. Refiro-me a autoestradas, ferrovias, aeroportos, redes eléctricas, gasodutos, englobando Áustria, Croácia, Eslovénia, Roménia, Eslováquia e Polónia (também Sérvia e Ucrânia). É evidente que dentro de dez anos estaremos a falar de uma zona com mais de cem milhões de consumidores, que irá de Varsóvia a Atenas, de Viena a Istambul, de Milão a Kiev; ou, se quiserem, do Adriático ao Báltico e ao Mar Negro. Isto não são sonhos, mas planos concretos, já em andamento.
Também tive a oportunidade de ver uma lista das cinquenta maiores empresas (muitas são subsidiárias de multinacionais; a Audi, por exemplo, estava em segundo e a Mercedes em terceiro). Havia nesta lista um indicador que considerei extraordinário, o de aumento de capital em 2017: dessas 50, 21 tiveram aumentos de dois dígitos, portanto, mais de dez por cento, e só onze empresas diminuíram o volume de negócios. A lista incluía uma dezena de produtores de componentes de automóvel, onde ainda não estavam as duas gigafábricas de baterias em construção; o resto era indústria farmacêutica, química e energia, muito pouco de serviços, ou seja, tudo muito ‘iliberal’ e ‘putinista’. Julgo que estes dados permitem afirmar que, em Portugal, há comentadores que estão a ver o filme errado.

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O que se passa na América Latina?

por Luís Naves, em 31.08.18

O que se passa na América Latina? Ainda não ouvi uma boa explicação, mas o cenário é preocupante: colapso na Venezuela (e talvez na Nicarágua), a Argentina a pedir ajuda ao FMI, o Brasil numa crise política alarmante, talvez à beira de uma eleição catastrófica. Se juntarmos a isto os problemas financeiros na Turquia (um dos canários da mina) e a crescente guerra comercial entre potências, está a formar-se um daqueles momentos de alta volatilidade que terminam em rebentamentos de bolhas ou quedas bolsistas. Há pelo mundo dívidas insustentáveis, países que mergulharam em súbitas dificuldades de liquidez, regimes presos por um fio, mas se desta vez ocorrer por contágio uma crise financeira, Portugal não tem muitas hipóteses de escapar à queda das exportações e ao aumento de taxas de juro e serviço da dívida, não dispondo de instrumentos para contrariar uma recessão — não é possível baixar impostos e não é possível aumentar a despesa. Se isto acontecer, veremos que o governo acreditou de tal forma na própria propaganda que não terá boa maneira de explicar à população como é que estamos de novo a enfrentar o abismo.

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A tradição ainda é o que era

por Luís Naves, em 18.07.18

O anti-americanismo visceral das elites portuguesas merecia estudo, mas há outra constante nas relações luso-americanas: Washington sempre olhou para Portugal como um país irrelevante ou um aliado pouco fiável. Como tentei explicar no meu livro Portugal Visto pela CIA (Bertrand 2017), a espionagem americana teve indisfarçável simpatia pelos nacionalistas que combatiam os portugueses nas antigas colónias e a CIA chegou a sonhar com a independência de Angola. Na abrilada de 1961 os americanos tentaram derrubar Salazar ou, no mínimo, ficariam contentes se isso tivesse acontecido. No Verão de 1974, e apesar dos insistentes pedidos de ajuda do general Spínola, os EUA abandonaram o novo regime à sua sorte, o que facilitou a radicalização revolucionária. Podia dar outros exemplos deste desencontro histórico. O facto é que a esquerda portuguesa sempre detestou a América e a direita sempre desconfiou das intenções imperiais da super-potência. Vem isto a propósito das opiniões que tenho lido ao longo dos últimos meses sobre Donald Trump e, em particular sobre a cimeira de Helsínquia com o presidente russo, Vladimir Putin. Neste segundo caso, é como se nunca tivesse ocorrido um encontro entre as duas maiores super-potências nucleares do mundo, nada disso, toda a controvérsia se concentra numa única frase de política interna americana. Aliás, existe um problema sério quando a política externa de um país é determinada ou condicionada por questiúnculas partidárias. A cimeira serviu obviamente para normalizar a relação entre as duas potências e evitar eventuais choques militares em três zonas de conflito onde os interesses russos e americanos ameaçam colidir. Na Síria, a Rússia apoia grupos xiitas ligados ao Irão, que por sua vez é inimigo declarado de Israel, país que qualquer presidente americano não hesitará em proteger. Outro evidente foco de tensão é a Ucrânia, onde rebeldes pró-russos contestam um governo pró-ocidental e controlam parte do território, com outra região, a Crimeia, anexada pela própria Rússia. Os três países bálticos, o terceiro problema potencial, são membros da NATO difíceis de defender, mas fáceis de desestabilizar, pois têm minorias russófonas que se sentem discriminadas. A redução destas tensões é algo de objectivamente positivo, mas nos textos portugueses que li sobre a cimeira de Helsínquia tudo isto foi ignorado, a favor da análise do costume sobre a estupidez americana (tese salazarista) ou de tiradas retóricas sobre a morte da democracia e o regresso do fascismo (tese revolucionária). Não considero preocupante que haja pessoas a escrever e dizer estas coisas, isso sempre houve. O que me inquieta é que só haja pessoas a dizer isto e que qualquer opinião divergente mereça insultos imediatos.

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O delírio

por Luís Naves, em 17.07.18

Não me recordo de ter assistido a algo minimamente semelhante ao que vi ontem, a reacção histérica à cimeira de Helsínquia entre os presidentes americano e russo. Donald Trump foi acusado de imbecilidade, fraqueza e até de traição, por se ter encontrado com o líder da outra grande potência nuclear, por não ter falado grosso com o presidente Putin, ou melhor, por não ter batido com a porta nem ameaçado bombardear Moscovo. A política interna americana e a aproximação das eleições de Novembro não justifica o tsunami de textos ou comentários mordazes, violentos ou grotescamente exagerados, do género que ninguém se atreveu a escrever nos piores dias da Guerra Fria. Na época em que ainda existia comunismo e rivalidade ideológica, a então URSS interferiu em todas as eleições democráticas que se realizaram no Ocidente (acho que podemos dizer em todo o mundo). A interferência em eleições é algo normal para serviços secretos que tenham um mínimo de eficácia. Em qualquer votação, aliás, há sempre interferências de interesses económicos, de organizações não-governamentais, de grupos religiosos e potências estrangeiras mais ou menos discretas. Houve interferência russa nas eleições americanas de 2016? Claro, mas justifica-se uma nova Guerra Fria? Isto devia ser mais ou menos compreensível para quem esteja de fora a observar um episódio de política interna americana que ameaça transformar-se num veneno capaz de impedir durante anos as normais relações entre Rússia e EUA. Num desenvolvimento preocupante, isto pode até colocar a relação russo-americana no patamar da impossibilidade. Putin, que não é mais do que um autocrata pós-comunista, está a ser tratado abaixo de «tirano» pelos inimigos internos de Trump. Neste delírio, se os dois presidentes não podem falar, então também não haverá solução para os pontos de tensão potencial: Ucrânia, Báltico, Síria. É como se as elites americanas, no seu desespero vingativo, preferissem arriscar uma guerra nuclear, desde que isso lhes permita tirar Trump da Casa Branca. Que a coisa tenha aplausos em Portugal é ainda mais estranho.

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A potência europeia

por Luís Naves, em 13.07.18

No meu livro Portugal Visto pela CIA (Bertrand, 2017) citei documentos secretos norte-americanos dos anos 50 e 60 sobre a NATO e a segurança europeia. Não quero maçar os leitores com detalhes, mas estes documentos sugerem que os americanos acreditavam na época que a URSS teria vantagem militar esmagadora, caso invadisse a Europa Ocidental. A estratégia da aliança era ganhar tempo, para colocar tropas americanas no teatro europeu. O ponto considerado mais fraco da NATO era a Itália (e logo a seguir a França), devido à dimensão dos partidos comunistas nestes dois países. Julgo que conhecer estes primórdios da NATO nos ajuda a perceber melhor o que se passou na recente cimeira da Aliança Atlântica, sobretudo as discussões em torno do reforço da contribuição europeia ou das relações com a Rússia. Olhando para trás, é evidente que os membros da NATO têm hoje uma consciência bastante favorável da sua segurança (a ponto de investirem pouco na defesa). No seu estilo sem diplomacia, Donald Trump foi claro: os EUA não estão preocupados com a Europa, não consideram a Rússia um inimigo e, tendo isso em conta, os países europeus devem fazer mais pelos seus interesses estratégicos. Nada disto é novo, os EUA afastam-se progressivamente da Europa há duas décadas e, sem contradição, querem que as potências europeias sejam mais activas no respectivo quintal (leste, Médio Oriente, África). Nos próximos trinta anos, os Estados Unidos estarão concentrados na difícil rivalidade com a China, contando com alianças que incluem Japão, Coreia ou Reino Unido. Este conflito será diferente da Guerra Fria, pois os dois colossos têm desta vez peso económico semelhante. Na secundária questão europeia, a Alemanha terá de se chegar à frente, sobretudo na relação dos ocidentais com a Rússia; será apoiada por franceses, polacos, turcos e por italianos, que em conjunto têm capacidade militar e económica mais que suficiente para equilibrar o jogo com Moscovo. Esta mudança também ajuda a perceber o Brexit, que poderá ser mesmo uma separação, e permite enquadrar o encontro entre Trump e Putin, onde o presidente russo tentará manter a relação entre as duas potências no ponto em que ela se encontra, nomeadamente facturando as vitórias recentes (um pé no Médio Oriente, outro na Ucrânia) dando em troca garantias de que aceita o equilíbrio negociado com os europeus (não será com Bruxelas, claro, mas com Paris e Berlim). São os custos da força. De resto, sobre relações de poder na aliança atlântica, parece-me que há muitas ilusões na Europa: um dos convidados do jantar paga 70% da conta; os outros todos juntos, que em conjunto são tão ricos como o primeiro, só pagam 30%; ora, quem acham que vai escolher o vinho?

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A tradição dos sermões

por Luís Naves, em 04.07.18

Liga-se a televisão e, se há um debate sobre política, surge inevitavelmente alguém a lamentar a ascensão do populismo na Europa ou a necessidade urgente de ter uma política humanista na questão dos refugiados. Portugal é um país que pouco tem a dizer sobre a crise migratória europeia, pois esteve fora dela, mas por aqui aprecia-se um bom sermão. Entre nós, a narrativa dominante descreve um mundo dividido entre o bem e o mal, e nós estamos do lado do bem. Nunca se refere que, segundo os tratados, as questões de asilo, fronteiras e imigração exigem unanimidade na UE, pelo que será improvável uma solução europeia, pelo menos enquanto não estiverem controladas as fronteiras externas. Geralmente, estes debates cheios de boas intenções são contaminados pela amálgama que os participantes fazem entre migrantes que procuram escapar à pobreza e os refugiados que fogem de perseguições. Mas será assim tão humanista deixar entrar todos os primeiros, sem que se possam livrar da miséria, a dormir em tendas debaixo de pontes, sem trabalho legal, sujeitos à violência de traficantes e condenados à exploração a que nunca escapam aqueles que não possuem direitos? Será assim tão humanista reduzi-los a habitantes de cidades de lama ou permitir que atravessem os Alpes para morrer na neve? E em relação aos segundos, os que fogem da guerra (cinco milhões de sírios na Turquia, Líbano e Jordânia) não se pode ir buscá-los em grande número directamente aos campos de refugiados? O outro debate enviesado diz respeito ao populismo, que nunca se define antes da conversa. Neste momento, a palavra equivale a um insulto, embora se aplique a protestos eleitorais inteiramente legítimos (por exemplo, em Itália) contra partidos tradicionais que governaram durante sete décadas e que, mais recentemente, falharam de forma estrondosa. Sendo o populismo uma rebelião contra as elites políticas, então temos de o encontrar em mais sítios, por exemplo, em França, onde Emmanuel Macron deu cabo do sistema partidário criando um movimento, En Marche, que tem as iniciais do seu nome, além das raízes no descontentamento popular. É aliás o mesmo Macron que agora sonha em estoirar com os equilíbrios tradicionais do Parlamento Europeu, através do triunfo de um novo bloco liberal e centrista que ainda não existe, mas talvez obtenha bons resultados contra os partidos do sistema, os tais que falharam e agora pagam a factura nas urnas. Aliás, segundo esta definição, nos países de Visegrado que segundo a doutrina são hoje autoritários, não há contestação de elites, mas da ordem pós-comunista que tomou como reféns as jovens instituições democráticas e controlou demasiados aspectos da transição entre 1990 e 2010. Na Polónia, a actual luta pelo poder é entre liberais urbanos da Plataforma Cívica e conservadores católicos e rurais da Lei e Justiça, ou seja, duas formações que remeteram o voto pós-comunista a pouco menos de 15% (mas nenhuma delas é populista no sentido que referi). Na Hungria, o centro no poder é dominado pelos conservadores (Fidesz) e a oposição pelo Jobbik, um partido de extrema-direita anti-cigano e anti-Europa, esse com evidente carácter populista; à esquerda, há dois partidos pós-comunistas, hoje remetidos a menos de 20%. Enfim, as críticas míopes à rebelião do Leste nada têm a ver com uma pretensa ascensão do autoritarismo, recuo da democracia ou avanço populista, pelo contrário, desprezam a vontade popular nestes países e, sobretudo, reflectem um conflito mais profundo sobre o futuro da União Europeia, do qual depende o equilíbrio que se fará entre a soberania dos pequenos Estados e o poder das potências dominantes. Portugal, endividado até ao osso, parece ser um mero observador nesse debate, mas fiel à sua longa tradição fradesca, prega lições de moral a toda a gente.

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Portugal, modelo de generosidade

por Luís Naves, em 22.06.18

Não vos quero maçar com factos, sobretudo daqueles capazes de danificar uma boa história, mas tenho ouvido muitos comentários sobre a péssima atitude europeia em relação aos refugiados, e concordo com tudo o que leio: de um lado, estão os países solidários, nomeadamente Portugal, o modelo de compaixão; do outro lado, estão governos perversos e cruéis, que recusam fazer o mínimo gesto de ajuda ao próximo. Confirmei a minha convicção após a consulta da fonte mais credível sobre o tema, o relatório da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR, na sigla inglesa), Global Trends 2017. De facto, os países muçulmanos pouco fazem pelo seu semelhante, pois a Turquia só tem 3,5 milhões de refugiados e 300 mil pedidos de asilo (podia citar os comparsas Jordânia e Líbano). Há comportamentos vergonhosos nos EUA de Donald Trump, pois em 2017 o país do presidente alucinado só tinha 287 mil refugiados e 642 mil pedidos de asilo, contrastando com a soma alemã de 1,5 milhões de refugiados e pedidos de asilo, a francesa de 400 mil e a italiana de 350 mil. Como se vê, Macron é bem mais generoso do que Trump. Os países iliberais e fascistas da Europa (Polónia e Hungria) têm respectivamente 12 mil refugiados e 5700, o que mostra enorme crueldade e desprezo pela vida humana. Em contraste, e segundo a agência das Nações Unidas, Portugal é um farol civilizacional e o exemplo que devia ser seguido pelos países com corações de pedra. Em 2017, sob a batuta da esquerda solidária, Portugal tinha 1623 refugiados e o extraordinário número de 45 pedidos de asilo. Isto é quase demasiado generoso e sei que damos cartas, que estamos na linha da frente, que vamos de certeza indicar aos europeus o melhor caminho neste tempo de emergência humanitária. E os desalmados, desta vez, vão ouvir o que temos para lhes dizer!

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Da inutilidade do voto

por Luís Naves, em 29.05.18

No domingo, ao passar pela feira do livro, sentei-me na praça laranja onde se falava de uma obra sobre a política europeia. Alguém do público fez uma pergunta sobre a situação na Hungria e na Polónia e a eurodeputada socialista Ana Gomes começou a debitar umas vacuidades sobre o tema, com erros factuais. Estava a ouvir aquilo e perdi a cabeça, comecei a dizer em voz alta «isso não é assim», «dê exemplos», mas eu é que fiz figura de urso. No final, quando me aproximei da senhora, para lhe explicar o que pensava ser o seu erro, ela enfrentou-me com olhar vazio, a repetir uma banalidade, como quem dizia: «não te quero ouvir». Aquele foi um pequeno gesto da política contemporânea: as opiniões dos eleitores só são úteis se coincidirem com a ortodoxia, se estiverem na linha justa, se confirmarem as opiniões oficiais. Quem não concordar, pertence à desordem e, naturalmente, desisti de tentar debater o assunto. Há um partido húngaro que ganhou as últimas três eleições legislativas (mais as europeias e regionais) e a interpretação habitual não consegue explicar o fenómeno, mas uma eurodeputada com responsabilidades europeias não estava disposta a ouvir uma interpretação diferente da sua, ou seja, os países de leste não podem bater o pé a Bruxelas, têm de se apresentar de forma disciplinada e de chapéu na mão, para pedir o subsídio que generosamente lhes concedem (o pós-comunismo nunca existiu, a economia deles não está a crescer a 5%, nada de políticas próprias, os eleitores são perigosos nacionalistas e xenófobos).
Não se trata apenas de haver alguns políticos que já não ouvem as pessoas, há um fosso crescente entre as elites e o povo, pois os do topo estão numa bolha de privilégios e entre os que se arrastam pelo fundo fermenta um descontentamento que não tem por onde escapar. Os populistas italianos dizem que votar já não serve para nada e, a avaliar pela comédia felliniana dos últimos dois dias, parecem ter razão. Os mercados impuseram a um país rico (uma potência que integra o G7) um governo tecnocrático não eleito e sem viabilidade parlamentar, cujo mérito será o de manter a ortodoxia financeira que produziu péssimos resultados nos últimos quinze anos. Desta vez, a esquerda acha bem, ao contrário do que aconteceu quando a Grécia tentou sair do euro, situação em que os mercados e a Europa agiram perversamente. Aliás, Europa é cada vez mais um termo vago, pois o directório franco-alemão determina os acontecimentos e ninguém vota nos obedientes mordomos de Bruxelas. Em França, um em cada quatro votos não tem representação parlamentar (nem mediática) e na Alemanha o novo governo é formado pelos dois partidos que sofreram punições do eleitorado e que continuam tranquilamente no poder.
Estes, provavelmente, são apenas sintomas febris de uma doença mais profunda das democracias. A fragmentação política tende a agravar-se e a Catalunha serve como exemplo do que pode vir aí. Após eleições regionais que deram origem a um novo parlamento catalão, uma maioria parlamentar com minoria de votos não ouve um único argumento da minoria parlamentar com maioria de votos. A região ficou ingovernável e está sob tutela de Madrid. A burguesia elitista dos partidos catalanistas despreza com convicção os emigrantes internos (da Andaluzia e Galiza) que votaram no espanholismo. A sociedade está partida ao meio. A surdez política também é demasiado evidente em Portugal, veja-se a discussão de hoje sobre a eutanásia. Nenhum partido discutiu o assunto nas suas promessas eleitorais. Legislar sobre algo que não foi tema de campanha é absurdo (os partidos não têm mandato) e serve apenas para distrair de outros problemas mais importantes. Todos os eleitores podem dizer que, neste caso, o seu voto foi inútil.

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Para nós, saloios, começa a ser difícil compreender a política europeia. Diziam-nos que este era um momento decisivo, com as negociações do Brexit, dos planos da pólvora para a zona euro e da sempre excitante distribuição de fundos comunitários. Subitamente, temos duas potências fora de combate. Em Itália, os dois partidos vencedores das legislativas conseguiram chegar a um acordo de governo e tinham maioria no parlamento, mas o Presidente da República (escolhido pelo parlamento anterior) vetou um ministro, levando o primeiro-ministro designado a sair de cena. Está agora a ser negociado por este presidente não eleito um governo não eleito chefiado por um quadro do FMI e que os principais partidos eleitos recusam. Os partidos populistas que venceram as eleições perguntam-se para que serve o voto e prometem torpedear tudo o que mexer antes de novas eleições, enquanto as taxas de juro implícitas da dívida italiana continuam a aumentar. A imprensa de Roma está furiosa com os jornais alemães, que passaram a semana a dizer cobras e lagartos dos populistas italianos e das suas tendências anti-democráticas. O líder da Liga Norte já insinuava ontem que as eleições antecipadas serão um verdadeiro referendo sobre a participação da Itália no euro. Como se isto não bastasse, em Espanha, o PSOE parece ter escolhido o caminho da eutanásia, promovendo uma moção de censura que aparentemente conduz a eleições numa altura em que o Ciudadanos lidera as sondagens com quase 30%, estando os socialistas apenas na terceira posição. Não se percebe a estratégia, mas é previsível que a Espanha esteja entretida na crise durante os próximos meses, quando se discutirem fundos comunitários. Enfim, o directório franco-alemão da UE está a ser contestado pela fronda liderada pelo grupo de Visegrado, que contesta a política migratória de Macron-Merkel e promete resistir a qualquer tentativa do directório de misturar fundos com migrações. A cereja em cima do bolo é a guerra comercial com os Estados Unidos, que continua a fermentar nos bastidores, dirigida sobretudo à Alemanha, por causa do respectivo excedente da balança corrente, mas que acabará por atingir todos os países. Ah, e esqueci-me do Brexit, que também está a correr bem.

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O enforcamento das mulheres dos jihadistas

por Luís Naves, em 23.05.18

Quando expulsou o movimento Estado Islâmico do seu território, o exército iraquiano, com a assistência das milícias curdas, capturou centenas de familiares dos jihadistas, sobretudo mulheres e crianças, muitas das quais terão sido certamente vítimas da brutalidade dos combatentes radicais. Os tribunais iraquianos estão agora a condenar à morte as mulheres dos jihadistas, que foram desde o início tratadas como criminosas, não como vítimas. Já foram decididas dezenas de condenações à morte por enforcamento, isto no âmbito de uma repressão mais vasta que inclui os militantes sobreviventes, que estarão a ser executados. Claro que o enforcamento destas mulheres é uma barbaridade inaceitável, uma injustiça absurda que só criará mártires e órfãos. Não me ocorre um exemplo de conflito militar contemporâneo que tenha dado origem ao extermínio dos familiares dos derrotados. Estas mulheres devem ser entregues aos países de origem (Turquia, Rússia, França, Alemanha), com as suas crianças, e tiradas daquele inferno, mas os países de origem estão a protestar apenas suavemente. O Ocidente tem esta obrigação e uma das coisas que mais me custa é o silêncio, a indiferença, a hipocrisia. Onde estão os indignados do costume e as feministas? onde estão os protestos dos intelectuais politicamente correctos e as manifestações contra este ultraje? onde estão os jornalistas de investigação, os defensores de direitos humanos, as Nações Unidas, a União Europeia e a comunidade internacional?

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O problema é que...

por Luís Naves, em 30.04.18

Entre nós, muitos autores continuam a olhar para Trump como uma perturbação ridícula, para Merkel como a líder do mundo livre, para o Brexit como uma calamidade, para os movimentos populistas como um fenómeno passageiro, para a Europa como um colosso. Julgo que se enganam e que, pelo contrário, vemos sinais de mudanças que ainda não entendemos em toda a sua complexidade, provavelmente em consequência de movimentos sísmicos mais profundos. No caso europeu, as razões da angústia eleitoral começam a ser mais claras: sociedades envelhecidas, com economias pouco dinâmicas ou estagnadas, enfrentam vagas migratórias em larga escala, perante a indiferença das suas próprias elites. Essas sociedades com demografia desfavorável têm de se adaptar depressa a rupturas tecnológicas que tornam a vida futura ainda mais imprevisível. Numa revista alemã, dizia-se quase em nota de rodapé, mas citando números oficiais, que em 2016 uma em cada quatro crianças nascidas na Alemanha tinha mãe estrangeira. Em 2022, a mesma revista estará a escrever que uma em cada quatro crianças na primária tem mãe estrangeira. Em 2034, será um em cada quatro recrutas nas forças armadas (admitindo na imaginação que regressa um improvável serviço militar obrigatório).

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Dia histórico

por Luís Naves, em 27.04.18

Ainda bem que fiquei acordado de madrugada, a ver pela televisão o início de um dia histórico. Os dois presidentes coreanos encontraram-se logo pela manhã (hora coreana) na zona desmilitarizada e, pelos gestos, pela simplicidade da cerimónia, via-se que algo de importante estava prestes a acontecer. Desliguei o televisor quando os dois entraram numa sala, em grande clima de amizade. Durante as conversações que se seguiram, Kim Jong-un e Moon Jae-in decidiram pôr termo à Guerra da Coreia, conflito tecnicamente ainda em vigor, pois só existe armistício entre as partes (pelos vistos, em breve haverá tratado de paz). Em Panmunjon, os dois líderes decidiram também concretizar a desnuclearização da península (exigência americana) e provavelmente esta possibilidade terá um complemento de segurança económica para a Coreia do Norte, factura que Seul não terá problemas em suportar. Estes desenvolvimentos confirmam o acerto da abordagem duríssima dos Estados Unidos em relação aos ensaios nucleares norte-coreanos, que incluiu a presença de porta-aviões na região. Então, houve comentadores a dizer que Donald Trump era louco e que ia provocar a Terceira Guerra Mundial, mas estes peritos terão dificuldade em manter as críticas, apesar de se esboçar uma nova linha dos ataques: Kim Jong-un é um ditador e parece lamentável que se façam acordos de paz com tiranos. A confirmar-se a desnuclearização, este dia sem precedentes (conseguir a paz na Coreia) representa o primeiro sinal concreto da mudança em curso na ordem mundial. Trump pode ser isolacionista, mas está a romper com a tradição que se mantém desde os anos 60 na diplomacia americana. No último meio século, foi dada importância aos valores democráticos dos aliados ou dos países com quem os americanos negociavam; Trump quer regressar aos anos 50 e à fórmula bem resumida pelo presidente Eisenhower, que falava de um ditador pró-americano: «Sim, ele pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta». Ignorar as questões de direitos humanos permite fazer acordos com Kim ou com a China, facilita soluções pragmáticas e evita trazer para as negociações assuntos que os tiranos consideram existenciais, pois são susceptíveis de mudar os seus regimes políticos. Por tradição, os EUA concedem a outras potências democráticas um pedaço do poder mundial, mas essa compensação deixou de ser automática, como aliás a Europa e o Japão começam a sentir na pele. A China assume-se como o grande rival da América, mas pode ter vantagens que antes estavam reservadas apenas a parceiros com democracias. A ordem mundial baseia-se agora no equilíbrio de poder, que é uma questão crua e sem sentimentalismo. Obviamente, sem a pressão da China, o entendimento coreano não existiria e nos próximos tempos veremos o que é que Washington deu em troca a Pequim. Uma coisa é certa: os direitos humanos não entraram na equação, ou nada disto teria sido possível.

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Que restará de tudo isto?

por Luís Naves, em 22.04.18

Que restará de 2018 daqui a mil anos? Admitindo que a civilização ocidental resolve os seus maiores problemas, trinta gerações somam uma eternidade e, nessa altura, seremos provavelmente incompreensíveis, como os bizantinos são para nós. Partindo do princípio de que a nossa civilização encontrará formas de progredir sem passar por colapsos traumáticos, talvez se consiga resolver a limitação das viagens espaciais, prolongar a vida humana e desenvolver máquinas inteligentes, talvez se encontrem soluções para os problemas da energia, ambiente, água e alimentação da humanidade, que será mais numerosa e transformada. Em 3018, haverá cem mil milhões de seres humanos dispersos por trinta planetas habitáveis em 80 sistemas solares explorados, cujas ligações levarão trinta a cinquenta anos a concluir entre si. Sendo necessário para cada viagem um décimo da longevidade média dos astronautas geneticamente modificados, haverá aventureiros famosos a concluir a sua sétima ou oitava viagem (os passageiros estarão em hibernação, para consumirem o mínimo de recursos, e a maioria dos sistemas terão inteligência artificial a controlar as naves). Cada pequeno núcleo de viajantes levará consigo embriões humanos. Com núcleos populacionais tão distantes entre si, a linguagem estará a fragmentar-se a partir de uma língua franca baseada em inglês, castelhano e mandarim, cujas formas arcaicas, tal como eram faladas no início do século XXI, serão compreensíveis só para peritos, como o latim pertence hoje a uma elite de sábios. Para historiadores especializados em assuntos arcanos, o ano de 2018 terá uma sensaboria interna que os obrigará a vasculhar velhos arquivos nas camadas mais profundas do conhecimento, consultando informação que ninguém terá procurado desde o centenário anterior. Entre o que não se perdeu entretanto, por causa das tecnologias obsoletas dos arquivos, será possível recuperar imagens e factos, com dúvidas sobre o respectivo grau de relevância: por exemplo, qual o motivo de determinado conflito num país obscuro que se chamava Síria ou o que pretendiam as potências da época, Estados Unidos, China, aliança europeia (seria este o nome?), os impérios russo ou japonês, núcleos políticos que se desintegraram ou reconfiguraram ao longo dos dois séculos seguintes, para não falar daquelas pequenas nações extintas com nomes poéticos, como Portugal, cujos problemas não passarão de enigmas quase insolúveis, a exigir especulação histórica. Das artes, pouco restará. O pós-modernismo foi uma transição em que se privilegiou a moda e o fogo de artifício, que por definição não resistem à tradução e à poeira do tempo. Mesmo para eruditos, será difícil distinguir entre 2018 e os anos à volta (o que terá sido aquela crise de 2008?); e alguém, mesmo culto, terá dificuldade em perceber se 2018 foi antes ou depois da Guerra Fria, precisando de fazer contas de cabeça para compreender que já tinham passado gerações após os grandes tiranos do século XX, cuja fama misteriosa será o que para nós é a celebridade de Átila, o Huno. O cidadão comum terá dificuldade em lembrar-se que 2018 ocorreu depois da primeira viagem à Lua, que por sua vez os estudantes mais cábulas tentarão colocar no século XXI, levando os tutores robóticos à impaciência. Talvez os historiadores ortodoxos concordem em chamar ao nosso tempo o breve período do liberalismo complacente ou terceira fase capitalista arcaica, ainda antes da pré-robotização e da ascensão das máquinas, certamente um momento pouco fértil do lento progresso rumo ao início do século XXII, o da segunda renascença, aí sim, com aceleração da História e coisas interessantes para estudar.

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Poderes de Centeno

por Luís Naves, em 18.04.18

Alguns comentadores descobriram agora que Mário Centeno é o homem mais poderoso do país, sendo o único político que não pode ser demitido e que não se pode demitir, pois em qualquer desses dois cenários Portugal ficaria sem a presidência do Eurogrupo. Esta circunstância permite ao ministro das finanças aplicar finalmente a receita financeira que o PSD de Passos Coelho defendeu, ou seja, atacar de forma mais agressiva a dívida pública, o que é uma mera questão de bom-senso perante os problemas que o Pais terá inevitavelmente de enfrentar quando subirem as taxas de juro. Enquanto o PS faz aquilo que durante anos jurou ser um erro, o PSD (em vez de elogiar a mudança) começou a defender tudo o que criticou durante os últimos seis anos: já não gosta dos cortes na despesa do Estado e pede aumentos na função pública. Rui Rio mostra que é um simples táctico, fala como um socialista do tempo da bancarrota e renega o passado do seu partido, dando a entender que tudo o que se fez durante a crise foi embaraçoso. Na realidade, as políticas que o PSD defendeu em matéria financeira são finalmente as que estão a ser aplicadas pelo PS, mas o novo bloco central que se desenha é uma pantomina efémera, onde os sociais-democratas não têm influência e onde a esquerda, que devia partilhar o lado confortável do poder, será forçada a engolir sapos até 2019. Isto não tem grande futuro, claro, como se verá mais à frente, mas Centeno será o político mais poderoso do país até ao fim de 2019.

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Carta da minha sobrinha

por Luís Naves, em 07.04.18

Carta da minha sobrinha-neta Flora, escrita em 2100, enviada pela máquina do tempo que ela mesma inventou, na sua primeira experiência. A carta apareceu-me hoje assim, manuscrita, na minha secretária:


«Querido tio, gostava que aqui estivesses, para poderes ver o meu mundo, tão diferente daquele que imaginaste. Não posso dizer que somos todos mais felizes do que no teu tempo, pois isso seria exagero e mentira, mas vivemos numa sociedade que, apesar dos seus defeitos, é mais justa do que aquela que conheceste, mais rica e progressiva, mais otimista e segura. Somos mais sábios? Não me parece, mas sabemos mais coisas, o que não é o mesmo. Os problemas da tua época não têm a mesma forma na minha, mas persistem neste tempo alguns dos defeitos menores da nossa espécie, a inveja, desprezo, medo, ambição e os chamados erros humanos em geral, que resultam das fraquezas correntes e que seria apesar de tudo uma grande pena perderem-se pela inevitável e progressiva modificação da nossa natureza. É talvez o problema que mais nos apaixona: até que ponto queremos manter a natureza humana, prolongar a vida, aumentar as nossas capacidades mentais e físicas, incluir uma parte maquinal nos nossos corpos, viver em comunidades de consciência alargada, entre outras amplas possibilidades tecnológicas que dificilmente poderias entender. Os meus pais ensinaram-me a gostar e cuidar de pessoas e assim vivi todos estes anos, já não vou mudar, embora me preocupe a longevidade e, claro, tudo farei para atrasar o meu próprio envelhecimento e a miséria da decadência. Tenho 82 anos, o que nesta época ainda é ser jovem, por isso viverei mais umas décadas. No ano em que nasci, em 2018 (lembras-te quando me pegaste ao colo?) sei pelos teus apontamentos que imaginaste um futuro com viagens mais velozes, energia abundante, gente em demasia, crises sociais e poderes oligárquicos. No fundo, olhavas para a tua realidade e pensavas como ela iria evoluir através de mais do mesmo: haveria aviões, mas mais rápidos, computadores mais pequenos, pessoas mais saudáveis, conflitos com mais fogo-de-artifício, um capitalismo mais selvagem. Não aconteceu exactamente assim, houve saltos súbitos e mudanças profundas, sobretudo quando acabaram os combustíveis fósseis e descobrimos a forma de viajar entre as estrelas e de construir autómatos capazes de fazer todo o trabalho mecânico. Não, não concluas que somos indolentes e preguiçosos, dispomos de um exército de escravos robóticos, mas cada indivíduo pensa em ser útil e, na realidade, vivemos uns para os outros, mergulhados em fantasias e na busca da felicidade, já nos libertámos da ideia de utilização finita de recursos (usamos sempre menos do que está disponível), explorámos outros sóis na galáxia e levámos connosco o esplendor da vida, com nova compreensão da mortalidade e melhor entendimento do universo. Tudo aquilo que entre nós te poderia horrorizar (as experiências de mente colectiva, por exemplo, ou a minha máquina do tempo), possui também alguma coisa de milagre; as nações diluíram-se e as culturas misturaram-se, não há fronteiras (excepto em alguns locais que escolheram manter-se isolados), temos mais liberdade e tolerância. Pensarias porventura que, para as nossas idades, somos infantis, ingénuos e demasiado irreverentes, certamente ficarias surpreendido com a sofisticação artificial e algo pedante das conversas que mantemos à hora do chá. Talvez te fizéssemos rir e talvez nos ríssemos de ti, meu tio-avô, que estás tão sério neste velho retrato da tua meia-idade, uma imagem diluída que tenho à minha frente e me leva, através da espessa névoa que cobre o oceano do tempo, a vagas memórias da tua existência.

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Tenho andado a preparar-me mentalmente para resistir aos disparates e alarvidades que vou ler e ouvir nos próximos dias sobre as eleições legislativas húngaras, que se realizam no domingo. Para que se preserve a minha sanidade mental, peço a todos os que quiserem escrever sobre o assunto que, por favor, não tratem o senhor George Soros por milionário filantropo e benemérito, mas por aquilo que ele é, financeiro e especulador. Peço por favor que não considerem o Jobbik como mais um partido democrático, mas que o definam como partido de extrema-direita, anti-semita e anti-cigano. Peço por favor a todos os que quiserem escrever sobre este assunto que não considerem o MSzP como um simples partido socialista, mas como o herdeiro do antigo partido único e actualmente baluarte do pós-comunismo. Peço também a todos os analistas que admitam por um instante os bons resultados económicos do governo do Fidesz, o carácter liberal da economia, o desemprego mínimo e a situação muito razoável da classe média. E, por favor, não escrevam que as fronteiras estão seladas, pois no ano passado, mais de três mil migrantes pediram asilo, dos quais mil conseguiram estatuto de refugiado. Considerem por um instante que a explicação para a vitória mais que provável do governo se deverá não à falta de democracia, mas à falta de oposição credível. Grande parte da crise política está nos socialistas, que não se livram do código genético da era comunista e que chegam a admitir aliar-se ao Jobbik para governar (a geringonça ao quadrado). Admitam por um segundo que o PM Viktor Orbán é um excelente orador e político carismático, genuinamente popular, que conquistou a direita e o centro eleitoral: provavelmente, só quando o seu partido se dividir em dois haverá verdadeira oposição e acredito que isso possa acontecer nos próximos quatro anos. Por favor, não repitam a asneira do governo ser anti-europeu ou de não haver instituições e liberdade de imprensa. Não insistam na lenda absurda de Orbán ser pró-Putin e rejeitem as interpretações parvas que comparam a Hungria com o regime turco ou com a Rússia. Tentem compreender a amizade da Hungria com a Polónia, que é um velho assunto, e procurem entender que são antigas muitas das coisas que ali se passam.      

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O problema da teoria

por Luís Naves, em 03.04.18

Confesso que fiquei um pouco perplexo com este post de Luís Menezes Leitão. Embora a conversa não seja comigo, não resisto a um pequeno comentário: quando a lógica de uma teoria nos leva a conclusões absurdas, talvez exista um problema com os pressupostos da teoria. É muito duvidosa a frase do autor segundo a qual «no regime fascista português havia absoluta separação de poderes». Os juízes eram independentes? Os deputados do partido único legislavam com liberdade? A polícia política cumpria a lei? A censura deixava passar as notícias? Acho que todos os poderes do regime obedeciam a Salazar, mas de resto a discussão é tão ao lado da questão catalã, que nem vale a pena insistir no tema. Em relação à definição «preso político é aquele que é colocado numa prisão por defender as suas convicções políticas» estamos em território verdadeiramente virgem, pois isto transforma qualquer terrorista amador num futuro preso político. Parece haver um problema sério com esta definição pois, sem qualquer ambiguidade, alguém detido por auxiliar o Estado Islâmico será condenado devido às suas convicções e obviamente todas as leis anti-terroristas servem para reprimir ideias políticas. Nem entro nas comparações entre a Espanha da Guerra Civil e a Espanha democrática, basta apenas reflectir no seguinte: se a Espanha tem presos políticos, então não é uma democracia; se não é uma democracia, não cumpre os critérios que lhe permitem ser membro da UE e deve ser imediatamente afastada do clube. Portugal deve denunciar a Espanha e aceitar receber refugiados catalães em fuga da perseguição. Aliás, é estranho que a Alemanha se prepare para extraditar Carles Puigdemont, que não devia ser extraditado por um país democrático para se tornar preso político numa ditadura. Enfim, talvez não haja separação de poderes na Alemanha, ou algo assim.  

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Sobre o orçamento europeu

por Luís Naves, em 13.02.18

Instalou-se finalmente um mini-debate sobre o próximo pacote de fundos comunitários (para sete anos), que os líderes europeus vão discutir nos próximos dez meses e que entra em vigor em 2021. O que desencadeou a conversa foi uma proposta, apresentada como sendo de António Costa (na realidade, é tirada a papel-químico das ideias da comissão e do parlamento) de aprovar três impostos europeus, sobre economia digital, empresas poluentes e transacções financeiras. Ao aderir tão de perto a ideias que já circulam, Portugal reduz a sua capacidade negocial, não terá cedências e aceita tudo o que vier da negociação. O Brexit implica uma quebra nas receitas: sem o contribuinte líquido Reino Unido, haverá menos dinheiro para distribuir pelos países que recebem mais do que pagam. Tendo regiões acima de 75% do rendimento médio per capita, Portugal terá menos dinheiro do que nos anteriores pacotes, pois as verbas tenderão a beneficiar os países de leste, mais pobres e que prometem negociar com dureza. Além disso, o essencial do orçamento comunitário sustenta a agricultura, sobretudo a francesa, sendo pouco provável que esse bolo se reduza sem resistência da França. A saída dos ingleses equivale a 10% das verbas, portanto, só há duas soluções: impostos europeus ou aumento da percentagem que cada país paga, de 1% do PIB para pelo menos 1,1%. No segundo cenário, os países contribuintes líquidos vão exigir qualquer coisa em troca. Por seu turno, a ideia de impostos que Lisboa apoia tem vários problemas. O da economia digital visa multinacionais americanas e terá a devida retaliação comercial de Washington (pode fazer enormes estragos); o das transacções financeiras contradiz a ambição de franceses e alemães de absorverem parte do negócio da City de Londres, no mundo pós-Brexit; e o das empresas poluentes é pago pelos países mais atrasados da União, aqueles que precisam de fundos exactamente para acabar com as empresas poluentes. Ou seja, tudo aponta para o futuro aumento da contribuição dos países e Portugal, com os seus crónicos problemas orçamentais, vai provavelmente pagar mais para os cofres europeus, recebendo menos das políticas comunitárias (é preciso não esquecer que as contribuições nacionais, calculadas em função do PIB per capita, representam 70% das receitas). A alternativa ao aumento da contribuição nacional será a redução de todos os programas europeus, a começar pela agricultura, que absorve 40% dos 140 mil milhões de euros anuais do orçamento. Haveria ainda a hipótese de diminuir as ambições da UE, mas os líderes pretendem avançar na direcção oposta, querem adicionar segurança e migrações a uma longa lista de programas comunitários onde constam energia, emprego, formação, alterações climáticas, ajuda externa, inclusão social, inovação, ciência, entre muitos outros. Em resumo, entramos na fase intensamente política, onde o interesse nacional será determinante. Nos próximos meses, a UE terá de fazer uma escolha estratégica, se quer ou não ceder mais poderes e dinheiro à estrutura supranacional.

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Panfleto inútil sobre tema muito discutido

por Luís Naves, em 22.01.18

Luís Menezes Leitão tem razão quando escreve, mais abaixo, que a União Europeia pratica uma política sistemática de dois pesos e duas medidas. Pois é, mas vamos circular, não há nada de novo para ver. Dito isto, é evidente que a UE não possui qualquer poder para sancionar um país por este cumprir a sua Constituição, como é o caso da Espanha, sendo também verdade que as sanções que pretende aplicar à Polónia não têm por objectivo repor qualquer tipo de legalidade, mas pressionar um governo a cumprir uma determinada linha política. As sanções não serão aprovadas, mas com um bocadinho de sorte um governo eleito pode ser substituído por outro (digamos) mais civilizado.
E preciso não levar muito a sério o artigo do Público citado no post do Luís, pois está repleto de interpretações que considero erradas. Já tentei escrever sobre isto antes, é inútil o esforço, inútil repetir que não existe nenhum regime autoritário na Europa de Leste, nem democracias iliberais, como escreve o autor do Público, há apenas tigres de papel. Existe uma luta pelo poder na Europa, uma luta para ocupar o vazio deixado pelos britânicos. Surgem igualmente interesses que defendem a urgência de se avançar com o projecto federal liderado pela França e pela Alemanha, projecto sobre o qual sabemos pouco e que nos será apresentado chave na mão, sem verdadeiro direito a voto. Os meios de comunicação prometem ficar excitadíssimos, dirão que é uma coisa genial para salvar a Europa, e as coisas estão mais ou menos decididas.
Estamos sobretudo a assistir a uma mudança significativa do modelo da União. Até agora, a UE foi uma aliança de nações. No futuro, os federalistas dirão que os seus «valores europeus» são incompatíveis com os nacionalismos. A preparar o terreno, eles têm feito a distinção entre patriotas e nacionalistas (como se fossem dois conceitos, não dois sinónimos), olham com simpatia para movimentos secessionistas conduzidos por elites razoáveis, como parece ser o caso dos catalães, levados ao colo pela imprensa oficial da Europa, a mesma que repete em cada parágrafo essa irritante treta dos «regimes iliberais» do Leste.
O facto é que as pessoas que escrevem sobre o leste da Europa já esqueceram que estes países saíram de ditaduras totalitárias e que ainda têm as mesmas pessoas lá a viver, não houve ajuste de contas com a História, há sistemas políticos crispados (a esquerda e a direita odeiam-se mesmo a sério) e nunca tiveram juízes independentes, pois os juízes eram parte do sistema de repressão e depois foram parte do sistema de corrupção (não todos, claro). Os cidadãos destes países acham que foram abandonados e traídos várias vezes pelo Ocidente e ficam doidos, de bigodes revirados, quando ouvem aquelas tiradas condescendentes de que até estão a receber umas massas e, apesar de tanta generosidade ocidental, não são nada solidários com quem os ajuda. A Polónia conservadora, em particular, é acusada de querer rever a sua história; mas em que parte? Será nos genocídios nazis, nas violações soviéticas, no holocausto, na resistência católica, na ditadura comunista ou na roubalheira da transição? A discussão sobre os refugiados esquece sistematicamente um pequeno detalhe: os países de Visegrado foram vítimas do uso de uma cláusula passerelle num conselho europeu e forçados a obedecer à maioria num tema que devia ser de unanimidade e que eles olham com alarme (esqueçam o que leram nas narrativas míticas sobre o assunto e tentem ver o ponto de vista do atropelado pelo camião TIR).
Voltando ao post de Luís Menezes Leitão. A UE tem dois pesos e duas medidas. É um facto. Sempre foi assim, pois a União é uma aliança de potências que nunca foram iguais. Ao longo do próximo ano, a UE vai negociar um pacote financeiro para o qual tem menos dinheiro (os britânicos estão de saída e há um buraco de 15% nas verbas). Desde já, temos dois grupos: os que pagam mais do que recebem e os que recebem mais do que pagam. Os fundos estruturais, que servem como compensação para países mais pobres pela abertura dos seus mercados ao comércio livre vão na realidade ser usados como moeda de troca: não há solidariedade em relação aos refugiados, então, dizem os alemães, também não há dinheiro para compensar o mercado comum. Esta será uma conversa política que só serve de pressão, não pode ir demasiado longe, por ser contra os tratados e haver potencial para rupturas na união, mas as opiniões públicas já estão a ser trabalhadas, quer nos países que recebem, quer nos que pagam.
Ou seja, tudo isto é sobre distribuição de poder (o Grupo de Visegrado quer uma fatia maior do bolo político europeu), é sobre dinheiro, é sobre migrações (Polónia e Hungria querem resolver o problema demográfico atraindo étnicos da sua nacionalidade). Isto não tem nada a ver com juízes ou constituições, tem a ver com nações que se sentem ameaçadas pelas potências dominantes. Há países que não cedem na defesa dos seus interesses e têm de ser disciplinados. Por outro lado, a Europa tenta avançar com um projecto político onde as nações terão menor espaço, um projecto onde não cabem os nacionalistas (os mais assanhados, polacos e húngaros, caem na categoria de xenófobos), um projecto que não se resume aos mercados livres que os britânicos defenderam, mas a verdadeira convergência (a iliberal Hungria tem um IRC de 9%, que Macron já criticou, por achar muito baixo). Haverá harmonização fiscal e os parlamentos nacionais vão perder parte dos seus poderes orçamentais.
Então, o que é que a Polónia tem a ver com a Catalunha? O caso catalão mostra-nos o que poderá acontecer às nações que não contam: a Espanha será uma manta de retalhos, como provavelmente a Itália acabará por ser (um governo com Berlusconi, Liga Norte e ainda uns ultra-nacionalistas promete travar os populistas). A Polónia quer evitar a menorização, vê-se como grande nação regional, defensora da civilização cristã, num patamar semelhante ao da França. A Polónia delira, a Espanha apanhou gripe catalã, a Itália, essa, está na mesma.
E, mesmo assim, há uma agitação no Danúbio. Em vez de aceitarem a generosidade alemã, os países de Visegrado querem resistir e juntam-se num clube que lembra cada vez mais o império Habsburgo, lembram-se? aquele que acabou em Sarajevo. Ao mesmo tempo, o caso catalão, sendo um exercício de alta criatividade artística dos seus dirigentes, está a dar ideias. Já ouviram falar da impronunciável Szekely Fold e da resposta que deu o PM romeno? Claro que não. E há mais micro-regiões que até agora só existiam em mapas obscuros desenhados nas húmidas catacumbas do castelo de Kafka.
Em resumo, e termino, a Europa não se sabe bem para onde vai, mas vai levada por elites que já não querem ouvir as suas próprias populações. Os catalães votaram, mas serviu para alguma coisa? Os polacos também votaram, mas ninguém quer saber. Os alemães votaram em Outubro e disseram que os social-democratas iam para a oposição, e que vemos, os populistas lideram a oposição? As eleições na República Checa, onde venceram os populistas, já deram em governo? E em Itália, votar servirá para alguma coisa? E na Hungria, onde Orbán tem sondagens a dar maioria qualificada, vão dizer que não conta? Não, votar já não serve para nada, nós estamos a ser dirigidos pelos 32% da CDU alemã e pelos 35% (se não me engano) do movimento de Macron na primeira volta das legislativas francesas. Só há coligações negativas, grandes entendimentos entre derrotados, geringonças e minorias. É disto que estamos a falar: votar já não conta.

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Teoria da domesticação

por Luís Naves, em 09.01.18

Instalou-se aos poucos a ideia perversa de que os jornalistas têm de ser bacteriologicamente puros, um pouco como acontece com os eunucos no harém, não lhes sendo permitida a opinião, a tendência, a defesa de uma causa ou a simples frontalidade, estando aberto somente o caminho da intriga e da dissimulação. Segundo esta tese, as notícias não têm preferência, como se houvesse fórmulas matemáticas para a sua escolha, como se o jornalista fosse despido de emoções, como se ele não tivesse o direito e até a obrigação de defender, por exemplo, a justiça e a liberdade. Em vez da prosa sem alma, o trabalho do jornalista consiste em estabelecer a relevância relativa dos factos e depois, tentar ficar o mais próximo possível de uma leitura autêntica do mundo, ou seja, contando a história com um máximo de honestidade e espírito livre. Quem não compreenda que o jornalismo é sempre uma versão da realidade acredita no futuro do jornalismo burocrático, supostamente equidistante de tudo, embora a equidistância de tudo seja um lugar inexistente. Claro que há na profissão quem confunda relevância com militância, mas fazer propaganda ideológica nunca teve nada a ver com jornalismo e os leitores têm sempre a liberdade de mudar as suas fontes de leitura. Ou seja, a crítica ao jornalismo de causas baseada em exemplos de acção militante é um tiro ao lado e transforma-se facilmente na defesa da escrita dependente e funcionária que os poderes desejam e que os leitores rejeitam. Esta teoria da domesticação dos meios de comunicação é o velho sonho das oligarquias e a polémica sobre as chamadas fake news não passa de mais um episódio sofisticado desse combate. Têm surgido pequenas tentativas de limitar noticiários ou de legislar sobre o tema, supostamente para aniquilar as chamadas notícias falsas, cujos exemplos, muitas vezes, não passam de interpretações inconvenientes. As elites acham o público estúpido e acreditam que ele necessita de condução inteligente, serão obviamente essas vanguardas políticas a decidir sobre a pureza dos noticiários. A fragmentação mediática (que tem complexos motivos económicos e tecnológicos) ainda está na sua infância e tornou mais difícil a tarefa de colocar mensagens do poder. Governar é hoje mais incerto e a opinião pública está mais dividida, mas a realidade é a inversa daquela que se discute: as fake news são tão velhas como a imprensa, pois sempre houve boatos, desmentidos e manipulação; o que é novo na comunicação contemporânea é a impossibilidade crescente de se esconder informação do público.

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Quando todos perdem

por Luís Naves, em 22.12.17

As declarações bombásticas do ex-presidente exilado fazem temer o pior e permitiram camuflar uma circunstância que nunca vi em eleições democráticas: todos os partidos perderam. Ciudadanos foi a formação com mais votos, 25,3%, mas os seus 37 deputados dificilmente permitem liderar o governo autonómico. O poder irá certamente para a geringonça do segundo e terceiros mais votados, cujas derrotas são apesar de tudo subtis: Juntos pela Catalunha teve 21,6% e elegeu 34 deputados, mas é uma pálida sombra do partido nacionalista de centro-direita que dominou a política catalã nos últimos 40 anos e que se habituara a maiorias absolutas; os republicanos da ERC tiveram 21,4%, mas falharam o objectivo de ultrapassar o seu parceiro da direita. Para formar governo, estes dois partidos precisam dos anti-capitalistas da CUP, que quase desapareceram, e serão mais uma vez a muleta da burguesia, tudo em nome do independentismo que, em conjunto, não somou os necessários 50% de votos e que está longe de formar um bloco unido. Se os soberanistas não têm maioria nas urnas, os constitucionalistas perderam as eleições em número de deputados e com todas as letras, sobretudo os socialistas (com mais um eleito, mas estando este partido transformado numa pálida sombra do passado) e os populares, que governam em Madrid e parecem extintos na Catalunha. Também o Podemos catalão foi vítima do voto útil e os seus 8 deputados não deverão servir para coisa alguma, tendo portanto fracassado a estratégia que colocaria o partido numa posição indispensável para um dos blocos. Ontem, perdeu a Espanha, pois a crise constitucional é agora uma distracção para meses ou até anos, com impacto económico e político, com a possibilidade concreta da Espanha se estilhaçar nesse caminho das pedras. Perdeu a Catalunha, pois a sociedade está fracturada e a reconciliação será, na melhor das hipóteses, lenta e difícil. Perdeu Portugal, porque está demasiado perto desta crise espanhola. Perdeu a Europa, pois haverá aqui ampla inspiração para libertar o veneno das nações que se julgam oprimidas. E sobre o futuro, só há perguntas angustiantes: os independentistas vão tentar governar a Catalunha ou avançam para a ruptura? Os líderes são presos à chegada ou não se aplica a Constituição? As empresas catalãs vão continuar a sair da região? A monarquia é extinta? E qual será a reacção dos mercados? E da Europa? Qualquer observador conclui que é preciso negociar uma nova constituição ou um novo estatuto autonómico, mas isso é possível com o actual elenco de partidos e dirigentes?

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Outra vez na linha justa

por Luís Naves, em 04.12.17

A eleição de Mário Centeno no Eurogrupo está a ser aproveitada pelo governo para o habitual estardalhaço propagandístico que acompanha as suas pequenas vitórias, mas a partir de agora torna-se mais difícil esconder a esquizofrenia da combinação política que nos governa. Centeno não terá poderes para contrariar a ortodoxia financeira na zona euro, pelo contrário, será ele a anunciar as medidas necessárias para garantir o cumprimento do Tratado Orçamental que regula a relação entre os países da moeda única. O próximo ano é decisivo para negociar os fundos comunitários após 2020, mas convém não perder de vista que desaparece a contribuição britânica e haverá menos dinheiro para distribuir. Portugal tem vantagem em aderir ao cumprimento estrito das regras (redução do défice estrutural) e o presidente do Eurogrupo será relevante na negociação da futura arquitectura da zona euro, que precisa de novos mecanismos para impor a disciplina aos Estados. O Conselho Europeu tem o exclusivo das decisões relevantes sobre essas reformas e, dentro do Conselho, o directório de potências (que escolheu o ministro português). Enfim, não muda nada lá fora, mas muda qualquer coisa cá dentro, pois Centeno terá poderes comparáveis aos de Vítor Gaspar. O PM não o pode demitir ou substituir, sob pena de arranjar um trinta-e-um nos mercados e perder uma posição europeia. A influência interna do ministro aumenta, pois invocando a sua qualidade de presidente do Eurogrupo, terá força para impor metas ambiciosas na redução da despesa e defender maior ousadia na diminuição da dívida, o que não foi possível nas circunstâncias da geringonça. O governo minoritário é capaz de viver com isso, mas o apoio parlamentar dos partidos de esquerda pode sofrer. A dois anos de eleições, a confiança entre os parceiros não será a mesma: com uma simples nomeação, a Europa conseguiu recolocar Portugal na linha justa.

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Os vulcões adormecidos

por Luís Naves, em 03.12.17

Quem viveu durante a primeira metade do século XX habituou-se a esperar a violência, a desconfiar da longevidade da paz e a temer as ameaças existenciais da sua época. O nosso tempo parece ser diferente, habituámos-nos ao rumor profundo dos vulcões, mas eles não nos preocupam, pois julgamos que estão adormecidos. Em vez da decadência que destrói o passado, somos do esquecimento que idealiza o presente. Vivemos na cultura do efémero, no gosto superficial que rejeita o que pareça antigo. Na cultura, triunfou a frivolidade. As castas políticas desprezam os eleitores e falam em nome do povo, as ideologias foram substituídas pelo consenso pragmático, que ocupa o centro bacteriologicamente puro, em oposição às franjas, onde se instalaram lunáticos, deslumbrados e populistas. Os sensores da economia dão os sinais mais fortes da fúria que se acumula nas profundezas da sociedade: o poder salvou os bancos, mas nunca se preocupou em salvar as indústrias que empregavam os trabalhadores pouco qualificados; os operários quase desapareceram e competem hoje com emigrantes e refugiados por empregos precários e serviços públicos subfinanciados. Os migrantes apareceram numa altura em que se precisava de mão-de-obra conveniente, foram recebidos pelas elites com flores e beijos, mas não têm ainda o direito de trazer as suas famílias. Além do rumor dos povos em marcha, é possível ouvir outros sons dos vulcões adormecidos: os robôs que dão pulos, os tiranos com mísseis, os inquisidores e novos episódios de caça às bruxas, o trovão dos gelos em colapso, as guerras autênticas que não interessam. Este é um mundo onde a solidariedade paga imposto e os milionários estão entre os grandes arautos da moralidade. Este é um mundo onde o que se diz hoje não é válido amanhã. Este é um mundo que perdeu a alma e ainda não encontrou outra, que perdeu as nações e raízes, as línguas e até as sementes, que apaga o que é velho. Este é um mundo aparentemente fragmentado, mas que tende para a convergência e para o conformismo, onde tudo o que interessa é ditado de cima e se torna igual para todos, a cultura de massas, o consumo desenfreado ou o consenso mole na política.

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Um dos elementos bizarros da crise política na Catalunha é a retórica dos independentistas radicais sobre a Espanha, como se esta fosse uma nação repressora e autoritária, atrasada e pobre, que a desenvolvida e avançada nação catalã arrasta como um fardo. Existe outro lado, talvez ainda mais sinistro e demagógico: estas ideias científicas do líder republicano Oriol Junqueras, numa polémica de 2008, são bem o espelho do que verdadeiramente pensam alguns destacados separatistas. O líder republicano catalão estava convencido de que pertencia a uma raça de certa forma superior. Também se entende o que ele pensava dos portugueses, esses pequenos trogloditas tão semelhantes aos bárbaros espanhóis (leiam o último parágrafo). A crise política catalã está a ser interpretada por alguns dos nossos intelectuais como uma coisa democrática e engraçada, de umas pessoas sofisticadas que querem o direito ao voto, apesar de vermos em cada dia exactamente o inverso. A esquerda continua a usar dois pesos e duas medidas em relação aos nacionalismos: há quem possa ser nacionalista, racista e burro, tudo ao mesmo tempo, sobretudo se estiver a lutar contra a liberdade; já defender o Estado de Direito e, em simultâneo a nação, isso parece ser repressivo e perverso. As democracias já perderam e isto é apenas o início de um movimento populista que visa a fragmentação acelerada da Europa, que se pode partir numa galáxia de micro-Estados.

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Vitória amarga

por Luís Naves, em 24.09.17

As sondagens à boca das urnas apontam para uma surpresa relativa nas eleições legislativas alemãs: o resultado da grande coligação que estava no poder é péssimo, o pior de sempre; somados, os dois grandes partidos do bloco central alemão (CDU, SPD) terão pouco mais de 53% dos votos, menos 14 pontos percentuais do que em 2013. A extrema-direita populista entra no parlamento quase a triplicar a votação anterior, quando falhou por um triz a barreira dos 5%. A fragmentação do novo parlamento obrigará a chanceler Angela Merkel a uma coligação potencialmente instável, que exigirá longas negociações, provavelmente a chamada coligação Jamaica, que incluirá cristãos-democratas, liberais e verdes. A confirmarem-se os resultados (e falta a contagem de deputados), a Alemanha terá um governo complicado, com dois pequenos partidos minoritários que discordam entre si em numerosos assuntos, além de uma oposição feroz.
As sondagens falharam, os analistas e os políticos subestimaram o descontentamento popular, a imprensa deixou de entender os verdadeiros sentimentos da opinião pública (e nem quer saber). A bolha em que vivem as elites políticas começa a ser perigosamente distante da realidade em que vivem os desfavorecidos. Na sondagem à boca das urnas que a BBC está a usar, a CDU terá apenas 33% e o SPD foi cilindrado. O voto de protesto (AfD e Linke) soma quase um eleitor em cada quatro, o que parece ser uma proporção enorme para um país em excelente situação económica.
Nos últimos meses, houve entre os comentadores uma espécie de euforia europeísta. Segundo essa narrativa, estava tudo a correr maravilhosamente, sob a batuta da nova líder do mundo livre; os indicadores favoráveis demonstravam que era possível avançar com as utopias de federalismo europeu. Todos os discursos esqueceram os eleitores, esse pequeno detalhe. Afinal, o descontentamento dos perdedores da globalização não desapareceu, há muitas pessoas que recusam as ideias internacionalistas e que olham com desconfiança para o que consideram ser a diluição da sua identidade. Merkel teve uma vitória escassa e a Alemanha entra num período de política mais crispada. Será também interessante observar amanhã a reacção dos mercados, se começa ou não a reinstalar-se algum nervosismo.

 

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O problema não é o sonho

por Luís Naves, em 21.09.17

Tenho dificuldade em perceber os duplos critérios da esquerda bem-pensante. Os nacionalistas polacos e húngaros são péssimos, já os nacionalistas catalães são espectaculares. Um país considerado mau não pode atrever-se a legislar sobre o seu sistema judicial, tratando-se de intolerável violação dos valores europeus, mas um governo regional considerado bom pode desafiar o juiz, as decisões do tribunal constitucional e ainda ignorar o parlamento eleito e as instituições, sendo qualquer punição das ilegalidades considerada absurda (a lei não é igual para todos). Percebo que haja na questão catalã forte dose de romantismo, mas não entendo as interpretações de moralidade, de preto e branco, de quente e frio, sobretudo quando se acumulam notícias sobre a forma como estão a ser tratados na Catalunha todos aqueles que discordam dos independentistas: eles sofrem abusos verbais, intimidação e gritaria.
Vamos fazer um pequeno exercício mental, admitindo que isto da independência avança num prazo de seis meses, com proclamação unilateral semelhante à de 1934, que colocou um prego bem forte no caixão da II República espanhola. Nesse cenário felizmente hipotético, a Espanha entrará numa espiral de instabilidade e de empobrecimento acelerado. Haverá problemas legais e uma barafunda financeira. As consequências económicas serão calamitosas, no mínimo uma recessão prolongada. As ilegalidades só podem ter uma opção a nível europeu: a Catalunha fica fora da UE e haverá vários Estados a apoiar a Espanha na punição dos soberanistas, que terão escassa probabilidade de reconhecimento internacional. O efeito dominó de movimentos independentistas será perigoso para a Europa.
Do ponto de vista português, a equação devia ser simples, mas lendo os comentários das notícias sobre a Catalunha, julgo que a nossa opinião pública não estará a ver bem o filme: Portugal deve ter medo do fortalecimento excessivo da Espanha, mas sobretudo da sua fragilidade. Se a Espanha entrar em crise, isso só pode ter consequências graves para nós. Tudo o que implique a dissolução do país vizinho devia parecer-nos uma ameaça, para mais quando o processo de separação está a ser conduzido por radicais cujo objectivo não se entende. Os catalães querem ser mais pobres e menos livres? Querem arrastar o país para uma nova guerra civil? Acabar com a democracia espanhola? Ao contrário do que li num texto sobre o tema, sonhar nunca foi irresponsável, sonhar é gratuito e livre. O problema não é o sonho, é a realidade.

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O independentismo folclórico

por Luís Naves, em 12.09.17

O processo de independência da Catalunha está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais, talvez pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça, a aliança de poder entre esquerda radical e centro-esquerda. Muitos dos comentadores olham com indisfarçada simpatia para o separatismo catalão, que é sobretudo folclórico e sentimental. E no entanto, se a Catalunha se separasse da Espanha, isso era objectivamente péssimo para os interesses portugueses.
Para os catalães, a independência era uma calamidade: ficavam mais pobres, mais inseguros e provavelmente menos livres, pois muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza, de onde os seus pais emigraram há 40 ou 50 anos, atraídos pelo emprego industrial desta próspera região. A independência da Catalunha, sobretudo num processo ilegal como aquele a que assistimos, implicava a imediata saída da União Europeia e da zona euro. E podia ser uma saída sem regresso. Os catalães negociariam um período de transição, mas fora do BCE e do mercado único. Passados alguns anos, a Catalunha teria imensas dificuldades em voltar à UE, pois a Espanha e todos os países com minorias separatistas tenderiam a votar contra. Entre os nossos comentadores da esquerda surge entretanto uma tese extraordinária, de que há nacionalismos bons e nacionalismos maus; há aspirações nacionais que temos de combater e outras que podemos defender com simpatia. Há constituições que devem ser preservadas e outras que podemos rasgar. Há Estados onde os tribunais pesam e as leis se aplicam e outros onde isso não é bem assim.
O mais espantoso, nos nossos dias, não é este desejo popular de reforçar a identidade das nações, mas a tendência suicidária que se manifesta em sectores substanciais das sociedades mais ricas, neste caso entre a burguesia catalã, mas podíamos acrescentar o exemplo do Brexit. É este o grande enigma contemporâneo: o que leva países prósperos a namorar os abismos?

 

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Os radicais

por Luís Naves, em 27.08.17

Muito do que lemos na Imprensa reflecte o crescente conflito em torno da criação de uma nova identidade nacional desenraizada, repleta de culpa do homem branco, de leituras alternativas da História e de simplificações ideológicas alheias à vivência normal das pessoas comuns. Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda entrou em crise, fragmentou-se, e a sua franja mais radical começou a negar a própria herança. Após lutar durante décadas contra as discriminações a grupos maioritários, como trabalhadores ou mulheres, a esquerda abandonou o passado e adoptou novas lutas ligadas a questões de minorias. Os movimentos que saíram desta fragmentação começaram a olhar para a sociedade como uma manta de retalhos de pequenos grupos, tentando federar o maior número possível numa agenda política que procura acomodar os problemas de cada um e de todos ao mesmo tempo. Esta abordagem precisa por outro lado de combater e até de negar tudo aquilo que possa parecer maioritário: contesta-se a religião da maioria, os grandes partidos e empresas, a língua (onde houver mais que uma), todos os costumes enraizados, incluindo o casamento tradicional, a ideia da nação e os respectivos símbolos. Terá isto futuro? É possível, mas para já está a criar forte reacção dos conservadores radicais, que começam a defender cada pedaço de território ameaçado como se fosse o último. Uns querem substituir tudo e criar o homem novo, os outros não admitem mexer uma vírgula, como se a identidade fosse algo imutável. E, no meio disto tudo, está um público perplexo, por vezes divertido, a assistir a gritarias ridículas sobre assuntos que, do seu ponto de vista, são de lana-caprina.

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A União Europeia não se leva a sério

por Luís Naves, em 26.08.17

A União Europeia não consegue ser levada demasiado a sério pela razão simples de produzir uma anedota como esta, que pretende ser um ranking das cidades europeias no domínio da cultura e da criatividade. Lisboa dá um baile a Hamburgo, que tem uma nova casa de ópera, mas também damos banho a Barcelona e (pasme-se) a Viena e até a Roma. Claro que estas coisas são depois utilizadas pelos nossos alucinados e panglossianos como prova de que tudo corre maravilhosamente. Abrimos as notícias locais e Portugal é uma festa e somos uns pândegos; os nossos intelectuais, com ajuda preciosa dos peritos europeus, garantem que bastava elevar a autoestima dos portugueses até à região orbital do delírio e daí resultava o milagre da multiplicação dos pães. Estive três semanas sem internet, reduzido a uma rádio governamental de um país protofascista e só ouvi duas notícias sobre Portugal: uma de fogos calamitosos e outra sobre a queda de uma árvore em cima de uma multidão, acidente que se deu apesar de múltiplos avisos. De facto, não nos falta criatividade para o desastre e, em termos de cultura, parecemos consistentes, trata-se de insistir no mesmo erro de bater com a cabeça na parede até à insensibilidade; quando se bate muito, muito, muito, acaba por não doer. E, no intervalo, os óculos cor-de-rosa que nos oferece a Comissão ajudam a aliviar os sintomas.

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Memória da Graça

por Luís Naves, em 19.06.17

Estão a arder alguns lugares onde passei parte da minha infância: ocorrem-me as primeiras memórias, a minha avó, a minha mãe. A primeira vez em que percebi o tamanho do mundo estava na orla de um imenso pinhal (era imenso porque eu devia ter uns três ou quatro anos), e os troncos erguiam-se como se fossem pilares de uma catedral cujo tecto filtrava a luz em pequenos fios oblíquos; e o solo, repleto de fetos, tinha um ligeiro declive que me fascinou intensamente. Lembro-me do cheiro da terra e do perfume único dos pinheiros e de uma voz ao fundo, muito ao fundo, para lá de uma barreira em que terminava a floresta e se alongava uma vastidão ignorada, onde se propagavam as vozes estranhas e fantasmagóricas de não sei quem, numa língua desconhecida e com os seus dramas próprios. O pinhal ficava ao lado da casa da minha avó, nos confins da aldeia onde ela era professora primária e, um pouco afastada, talvez a dois ou três quilómetros, ficava a aldeia da Graça, que por estes dias esteve na rota do fogo e onde anos depois estudei, com pouco êxito, a catequese. Ainda hoje confundo algumas das rezas fundamentais, que nunca penetraram completamente neste meu crânio duro e mau, talvez por culpa do padre Aníbal, a quem a minha avó chamava sarcasticamente o padre animal. Lembro-me da luz pura e dos campos fragmentados, lembro-me da estrada em macadame e da pobreza, lembro-me das casas em pedra, dos currais, do porco Príncipe Perfeito que nós, as crianças, torturávamos com alegria; lembro-me dos campos lavrados, do milho alto, mas não tenho memória do calor extremo. Eram tempos mais amenos, parece-me, a minha avó tinha um telefone em que se dava a uma manivela e se pedia linha à telefonista; lembro-me de tudo isso e muito mais, da sujidade e da água, das estrelas no céu e da lua cheia em que passeavam astronautas, lembro-me do foguetão que fizemos com pólvora e em cuja explosão pereceram duas baratas; lembro-me do peru voador e dos miúdos camponeses, da escola e do meu fascínio pelas letras escritas a giz no quadro negro; estas aldeias tinham muitas histórias, da velha que matava galinhas com o olhar, do regresso dos franceses, do escândalo que foi a minha tia a bronzear-se ao sol em biquíni, as invejas e as guerras por terra e água, o bailarico e o vinho, as velhas de negro, as vidas duras e secas, o ocasional fogo ao longe, mas isso já era mais raro que o resto, que era a vida de então, existência entretanto extinta e lembrada apenas em imagens fugitivas que se vão perdendo. Sim, não havia as temperaturas de hoje, não havia as calamidades florestais de hoje, aquele mundo desapareceu mesmo, como certamente há muito tempo se terá esfumado mais aquele chão de floresta à beira da estrada e ao lado da casa agora em ruínas, o gigantesco pinhal em que pela primeira vez pressenti a dimensão do mundo.

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Exemplo de ser português

por Luís Naves, em 07.06.17

Li na imprensa que um homem foi detido e levado a tribunal por furtar um saco de morangos no valor de 2,5 euros. Isto aconteceu no mesmo país onde se reclamam inocentes todos os banqueiros que estoiraram com bancos inteiros e ainda governantes que se governaram em contas bancárias de milhões que não estavam em seu nome, sem falar nos gestores cujas empresas têm lucros garantidos à custa do bolso de todos, mediante leis devidamente fabricadas para o efeito, pois esfolar legalmente um país inteiro não é crime.

Este é o mesmo país onde vão presos ladrões de morangos e ficam à solta os benfeitores que nos roubem a valer; um país que se habituou aos grandes ladrões a quem chama doutores, mas que não tolera o pequeno furto de morangos feito por amadores; boa pátria para quem a desfruta, mas de mão pesada para quem cobiçar fruta, ou neste caso, o fruto acessório agregado, o que a botânica diz que um morango é.

Pois neste país tudo pode ser, no fundo, acessório agregado, se visto do ponto de vista das elites que nos sacam, retirando as partes carnudas do corpo da nação sem que isso constitua furto ou delito, o mesmo não se dizendo para quem de repente, saltando uma simples vedação, levar um saco com morangos que, sendo propriedade privada, merece exemplar repressão, enfim, para dar o exemplo sem explicar os porquês. O exemplo de quem pode mandar e o exemplo de quem deve obedecer, de quem tem e de quem deve. Um exemplo, enfim, de ser português.

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Supremacia

por Luís Naves, em 02.06.17

Donald Trump decidiu retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre alterações climáticas e segundo uma das críticas mais comuns, o presidente americano está a abdicar da hegemonia da superpotência e a dar de barato à China a supremacia mundial. As pessoas estiveram mesmo muito distraídas durante a campanha: Trump cumpriu uma das promessas centrais que fez aos americanos e esta administração será isolacionista, ou seja, o presidente quer mesmo reduzir a exposição do seu país aos assuntos globais, escolhendo apenas as lutas que lhe interessam e não entrando em todas. Isto é uma estratégia, não é um efeito secundário.

Um dos maiores problemas dos impérios do passado foi a sobre-extensão, ou seja, o envolvimento em demasiados conflitos ao mesmo tempo, com a respectiva dispersão de recursos e constante aumento dos custos imperiais. Provavelmente, Trump ponderou uma divisão de tarefas com a Rússia, mas este prolongamento de Ialta é hoje politicamente impossível, pois os democratas no Congresso entram em histeria com tudo o que envolva Moscovo, o que certamente terá efeitos para além desta administração.

É preciso reler O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington. A China não estará interessada em ter um papel global e os europeus parecem ter entrado em pânico com os primeiros sinais do isolacionismo, que foi sempre uma das tendências da política americana, embora raramente dominante na Casa Branca. A saída do acordo de Paris é um erro que deve ser criticado pelo efeito desastroso que pode ter na segurança de centenas de milhões de futuras vítimas de secas e tempestades. A América também se arrisca a perder a liderança no abandono da economia do carbono, mas a tese da loucura não é satisfatória: as promessas de Trump foram no sentido de aumentar o isolamento dos EUA, reduzir a extensão imperial e manter alianças suficientes para garantir a supremacia. Ao mesmo tempo que abandona acordos multilaterais, a Casa Branca reforça o investimento nas forças armadas. E tudo isto foi a votos.

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Grandes ilusões e memória curta

por Luís Naves, em 29.05.17

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Durante setenta anos, a Europa Ocidental esteve sob protecção americana, com o evidente resultado de um prolongado período de paz e prosperidade. Esta aliança resistiu a todas as administrações, a várias crises (Suez, Berlim, Cuba, Kosovo), mas a chanceler Angela Merkel parece acreditar que é altura de tentar outra coisa: ela disse ontem que “os tempos em que podíamos confiar totalmente em outros [países] acabaram”, numa referência ao Reino Unido e aos EUA, aqueles por quererem abandonar a UE, estes por não cederem às posições europeias em matéria de globalização, financiamento da NATO e alterações climáticas.

O que a chanceler sugeriu, e que entretanto foi suavizado, corresponde à aparente subversão da ordem mundial definida em Ialta pelas potências vencedoras da II Guerra Mundial, devendo os europeus definir no futuro o seu destino. Essa conferência ainda não foi revogada e os vencedores são os mesmos (a Rússia é a herdeira legal da URSS). Para mais, a chanceler falou em nome dos ‘europeus’, não usando a expressão ‘nós, os alemães’. Ao considerar que já não se pode contar, como antes, com os aliados ingleses e americanos, assumindo-se como suposta ‘líder europeia‘, Merkel repetia uma ideia que faz o seu caminho na eurocracia: os principais obstáculos ao futuro da Europa são as nações que a compõem; se queremos mais integração e segurança, temos de vencer os nacionalismos.

A Alemanha, tão confiante nos benefícios de uma integração acelerada, admite livrar-se da tutela americana que lhe garantiu a independência. Compreende-se a frustração de Donald Trump e de Vladimir Putin, herdeiros dos vencedores de Ialta, que obviamente não vão facilitar estas ambições. Com a saída do Reino Unido da UE, provavelmente numa separação litigiosa, a chanceler enfrenta o seguinte panorama inédito: os ingleses (e americanos) estão cada vez mais fora da equação continental e não interferem; os franceses precisam dos mercados alemães; a Itália precisa de ajuda financeira alemã de emergência; a Polónia (enfim, mais o antigo Império Habsburgo) é pobre e precisa do investimento alemão; a Turquia não conta.

Isto, no fundo, é a Europa alemã que Bismarck sonhou e não tem nada a ver com as comunidades europeias e NATO, que visavam a protecção e reconstrução da Europa, integrando os derrotados num conjunto onde os vencedores seriam sempre dominantes. Não se percebe se a tese de Merkel é pacifista, mas há nas declarações um óbvio cálculo eleitoral de conquista de votos à esquerda. No seu partido, isto deve ser controverso, mas o mais incompreensível é o entusiasmo da esquerda europeia, talvez por causa do anti-americanismo. Na UE, os partidos de esquerda estão a dividir-se em relação à ortodoxia comunitária, os radicais a recusarem o europeísmo e a corrente social-democrata a trair os trabalhadores que foram sempre a sua base social, aplaudindo cada nova vitória dos conservadores ou dos social-liberais, enfim das forças pró-globalização. Para quem toma decisões, grandes fatias do eleitorado deixaram de contar.

Neste contexto, a ambição de levar a União Europeia para um caminho estratégico autónomo é mais um passo na direcção do beco sem saída. Podemos não gostar de Trump, mas abandonar uma aliança com os Estados Unidos que correu bem durante setenta anos, em troca de uma aventura que nem aos alemães convém, só pode ser uma grande ilusão ou um erro monumental.

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Camilo e a mesa

por Luís Naves, em 20.05.17

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Este post do Pedro Correia sobre o humor e a gastronomia na literatura suscita algumas observações, sobretudo em relação ao caso de Camilo Castelo Branco. Parece evidente que Camilo tinha um terrível humor sarcástico, mas não acho tão óbvio que se interessasse grandemente por gastronomia. Os exemplos em que o autor se refere a comida podem dar para um volume, mas isso deve-se mais à vastidão da obra do que a um interesse particular. Dos quase 200 títulos de Camilo (talvez mais de 150 volumes) não se extraem muitos elementos sobre as funções básicas da natureza humana. É difícil, por exemplo, perceber como é que as pessoas se lavavam, saber pormenores de higiene ou qual o valor relativo de um objecto, em comparação ao salário de um camponês. Esse tipo de informação pode extrair-se da obra de Balzac, mas no caso de Camilo é difícil, pois sabemos a renda das quintas sem sabermos coisas menores, por exemplo o custo de uma galinha ou o preço de um fato.

Claro que há referências a gastronomia, mas julgo que têm geralmente uma função narrativa. Estou a lembrar-me de uns pastéis em A Brasileira de Prazins ou das opíparas refeições do falso D. Miguel no mesmo romance: aquilo serve como comédia. Há referências a glutões e a banquetes, um piquenique em Coisas Espantosas, ocasionais autênticos petiscos nas miscelâneas, mas na maioria dos livros de Camilo não encontramos qualquer referência a refeições; quando estas existem, as cozinheiras são trabalhadoras do povo mais interessadas em sexo (Anátema) ou a comida não merece descrição especial, a ponto de não reconhecermos variantes regionais.

O modo de fazer está ausente e Camilo é um provinciano que desconfia das novidades da culinária francesa, veja-se esta passagem de O Sangue: “Quem come francêsmente cria alma; corpo é que não. Aquele magro molho em que bóiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima, como sucede nos casos em que o esófago arfa sacudido pelo estômago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo quilo se está elaborando”. Enfim, o escritor, aqui narrador, não acredita nas subtilezas dos sabores, mas apenas no coice intelectual da proteína, nas virtudes substantivas do colesterol e, acima de tudo, na luxúria da linguagem e do estilo.

Em O Santo da Montanha, há duas cenas à mesa, mas a primeira serve para o encontro entre as personagens, a segunda para a tragédia, com uma descrição alimentar pouco abonatória. Neste romance (um dos meus favoritos na parte que conheço da obra de Camilo), a comida que surge na primeira refeição parece antecipar a desgraça futura das personagens, quando os leitores ainda não sabem que se trata de uma história de ciúmes assassinos: “Abancados à tosca mesa, cuja toalha tresandava ao fartum do azeite e bacalhau, apareceu a travessa fumegante com duas galinhas, sobre as quais se levantava uma pirâmide de três salpicões, assentes num grosso lardo de toucinho”. A descrição tem um elemento substancial, quase doentio, e intenção repugnante (não quero exagerar, mas talvez isto seja alusão inconsciente ao horror do sexo), como se houvesse aqui um aviso do escritor para as personagens se afastarem umas das outras, pois nesta altura ainda vão a tempo de o fazer.

Podia referir outros exemplos de excertos da obra de Camilo onde a comida tem função narrativa, caracteriza a classe social das personagens, introduz um momento de humor ou é mera decoração de uma cena burguesa. Há também citações sobre fome, mas julgo que Camilo estava longe de se interessar por gastronomia ou culinária. O que explica a aparente abundância de referências a comida é a dimensão invulgar da obra, sobretudo dedicada à violência, ao amor, à maldade, à hipocrisia, enfim, às paixões e ao destino.

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1

A paisagem política francesa mudou na primeira volta das eleições presidenciais, com a compressão dos dois maiores partidos (socialista e republicano, ou gaulista) que dominaram durante meio século um sistema quase perfeito de alternância. Quando um estava no poder, o outro chefiava a oposição. Desta vez, foram ambos afastados da segunda volta, o que corresponde a uma situação inédita.

 

2

O eleitorado está agora dividido em quatro grandes blocos, todos semelhantes: a esquerda, o centro, a direita e a extrema-direita, tendo passado à segunda volta os representantes do segundo e do quarto. Marine Le Pen é a candidata da ruptura e do protesto, mas também da oposição ao consenso europeu; Emmanuel Macron representa a ortodoxia europeia e concorre prometendo reformas de inspiração liberal. Independentemente do vencedor, a França está agora mais à direita e o presidente terá dificuldade em reunir uma maioria nas legislativas, que se realizam um mês depois da segunda volta. Para já, os dois partidos derrotados vão aconselhar o voto em Macron, mas não têm grande interesse em que ele consiga uma maioria demasiado expressiva, apenas a suficiente.

 

3

O discurso de Le Pen já não é propriamente de extrema-direita, mas populista: a candidata da Frente Nacional apoderou-se dos temas preciosos da esquerda radical, nomeadamente contestando o liberalismo financeiro e os seus efeitos no encerramento de indústrias e na destruição de empregos. Ela diz-se a candidata do povo e a sua mensagem será simples: o adversário é um privilegiado e ex-banqueiro; o modelo económico liberal, associado à globalização descontrolada, está na base do declínio da França e da pobreza crescente de muitos eleitores, sem perspectivas de emprego ou de progresso social num dos países mais ricos do mundo. A intenção é conseguir que a esquerda se abstenha, mas Le Pen terá de atrair o voto da direita (difícil) e não pode abandonar o tradicional discurso nacionalista do seu partido. Sem grandes hipóteses de vencer o rival, a candidata tentará tornar-se a líder da oposição em França, levando a FN a maior partido.

 

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Emmanuel Macron é o quase inevitável vencedor, mas já cometeu o erro de fazer um discurso de vitória na primeira volta que mais parecia o discurso de vitória na segunda volta. Macron representa a última chance de se fazerem as reformas de que o país necessita, mas não terá tarefa fácil, devido à falta de experiência e à ausência de máquina política: o seu movimento é uma espécie de ‘albergue espanhol‘ que deverá incluir socialistas, centristas e republicanos. Quando for eleito, Macron vai reforçar o eixo Paris-Berlim, garantindo à partida a hostilidade da Frente Nacional e dos partidos esquerdistas que resultarem da insurreição protagonizada pelo quarto classificado na primeira volta, Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu estilhaçar o PS. As duas rebeliões (à direita e à esquerda) vão comprimir ainda mais o bloco central que se está a formar em torno do provável novo presidente.

 

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Estas eleições revelaram a enorme desconfiança dos franceses em relação à Europa, da ordem de 45% do eleitorado, e o profundo descontentamento de franjas importantes da população. Estas pessoas, pertencentes ao que antes se chamavam 'as classes trabalhadoras', sentem-se inseguras e desprezadas; já não falam a mesma linguagem das elites e da classe média, grupos que parecem viver numa bolha de esplendor indiferente à sorte destes perdedores. A clivagem atingiu patamares alarmantes e promete reaparecer em futuras votações, mas também na discussão política (uma paixão francesa) ou ainda em protestos de rua. Poderá ainda agravar-se o clima de insegurança que resulte de eventuais atentados terroristas. O sistema político está paralisado e não favorece um processo coerente de reformas. Estamos provavelmente a assistir ao estertor da Vª República, que foi criada para estadistas da dimensão do general De Gaulle, mas que não poderá suportar um quarto episódio consecutivo de um presidente fraco no Eliseu.

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O futuro da esquerda

por Luís Naves, em 19.04.17

Torna-se cada vez mais evidente a divisão central da esquerda: de um lado, está o governo, que defende e diz aplicar a ortodoxia europeia; do outro, Bloco e PCP, que suportam o governo e que, embora calados no essencial, são ideologicamente contrários a essa ortodoxia. O problema não é um exclusivo nacional e pode ser encontrado, em todo o seu esplendor, nas eleições presidenciais francesas. Segundo as sondagens, o voto socialista divide-se ali em três interpretações sobre o cumprimento de metas europeias de despesa pública, dívida e reformas estruturais. Muitos dos eleitores socialistas que em 2012 deram a vitória a François Hollande deverão votar em Emmanuel Macron, defensor do Tratado Orçamental. O candidato oficial do PS francês, Benoit Hamon, que quer regras europeias mais suaves, aparece entretanto nas sondagens com uma votação residual que poderá resultar em forte humilhação para o partido. Outra parte substancial do eleitorado socialista irá para o candidato da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon, um populista que contesta as regras de Bruxelas e surgiu nesta campanha a criticar as elites. A primeira volta das eleições francesas pode ser o modelo do futuro da esquerda portuguesa (veja-se como Hamon tentou fazer a ‘geringonça‘ e não conseguiu convencer Mélenchon a desistir). Na política caseira, não será possível manter por muito mais tempo a ficção de que se é contra a ortodoxia europeia, enquanto se elogia o rigor dos orçamentos e o cumprimento dessas regras. A narrativa de que vão lá bater o pé aos europeus é patética e a extrema-esquerda pode escolher o momento em que assumirá a sua oposição a uma política que considera ser a verdadeira calamidade. A táctica é efémera e muda conforme as oportunidades: se o governo de Costa falhar como fracassou Hollande, não terá desculpas, e o PS enfrentará uma ameaça existencial que pode ser semelhante à de um partido, o PS francês, que sempre imitou.

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Uma crise sistémica é mais ou menos isto...

por Luís Naves, em 17.04.17

A aparente falência do sistema após a crise de 2008 está a deixar marcas na política e criou no eleitorado um sentimento de profunda desilusão, até de cinismo, em relação à qualidade das suas elites. O fenómeno é visível em vários países e não tardará a chegar a Portugal. O facto é que, nos últimos vinte anos, os poderosos mentiram de várias maneiras: os banqueiros assaltaram os bancos, os partidos dedicaram-se à intriga, o bom empresário era aquele que despedia, os intelectuais escreveram sempre as mesmas coisas inócuas e prudentes, as leis não foram iguais para todos e a opinião do povo foi ignorada ou desprezada, conforme fosse conveniente para os rituais democráticos das consultas regulares. A vaga de populismo que resulta deste vapor acumulado começa agora a alarmar as oligarquias. Em França, somadas as intenções de voto dos candidatos presidenciais que defendem a ruptura, encontramos a extraordinária proporção de 45%. Os restantes candidatos prometem, no mínimo, fazer reformas. É certo que as sondagens devem ser interpretadas com cautela, já que 36% dos eleitores que vão votar decidirão à boca das urnas, mas isso apenas indica que o voto de protesto pode ser pior do que se imagina. É cada dia mais óbvio que estamos a viver uma mudança sem paralelo, pelo menos no tempo de uma geração: vemos o apagamento dos partidos tradicionais, a contestação radical do modelo económico triunfante nos anos 80 e do multiculturalismo que há 40 anos domina todo o pensamento, a ponto de se ter tornado uma ideologia fraca, mesmo assim quase indiscutível, que criou a sua própria linguagem repleta de reticências e de eufemismo.

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